03 DE MARÇO, NATAL RUBRO-NEGRO

O futebol é maior que a vida. É paixão e, como toda paixão, inexplicável. Hoje, 03 de março, os torcedores do Flamengo rendem homenagens a Arthur Antunes Coimbra, o Deus-Menino, o Galinho de Quintino, o maior ídolo da História do clube, data de seu nascimento e, justo por isso, assemelhada ao Natal.

Eu, que aos cinco anos de idade, em 1974, fui convertido justo pelas mãos do Zico, um menino ainda no início da carreira (como lhes contei aqui), me emociono a cada 03 de março o que, dirão os racionais, é uma insanidade.

Não é.

Quem viu o Zico jogar – eu vi, eu vi! -, quem viu o Zico deixar o Flamengo rumo à Itália, quem chorou cantando com Moraes Moreira, quem acompanhou seu retorno ao Brasil, quem freqüentou as velhas e surradas arquibancadas de concreto do Maracanã, sabe que é Natal.

Eu não me canso de dizer: viverei sabe-se lá mais quantos anos e não conseguirei, nunca, expressar com a precisão que me é companheira – ninguém mais preciso, do início ao fim, do que eu – a gratidão que tenho por seu José e dona Matilde, que trouxeram à vida o Galinho de Quintino. A gratidão que tenho pela própria Vida e seus enredos, que me fizeram estar no gramado do maior do mundo naquele primeiro de dezembro de 1974 (foto abaixo, a cabeçorra maior, à esquerda, é minha!). A gratidão que tenho pelo próprio Zico que, sem saber, evidentemente, converteu aquele menino, filho e neto de vascaínos.

chegada-de-papai-noel-dezembro-de-1974

O dia de hoje, pois, é um dia que me comove feito o diabo. Um dia em que choro à toa quando revolvo as lembranças que insistem em viver dentro de mim. Choro, ainda em 2017, porque (como lhes contei aqui), “os meninos não têm um único jogador brasileiro, jogando no Brasil, capaz de despertar tamanha paixão. Choro porque (… ) o dinheiro fala mais alto que tudo, e os meninos não querem mais o futebol de bola-de-meia, a bolinha de gude, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas o tênis mais caro, o jogo eletrônico mais moderno e votar no BigBrotherBrasil. Choro porque eu sou arremessado ao passado, abruptamente, e soluço de mãos dadas com o Alexandre, e minhas mãos tremem junto com as mãos dele, e eu enxugo minhas lágrimas com os dois braços, junto com ele.”.

Até.

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POLVO À VINAGRETE, A RECEITA

Estive na Bahia, mais precisamente na ilha de Boipeba, no final de janeiro, na intenção (muitíssimo bem sucedida) de comemorar a chegada dos 4.0 da Morena. Dentre tantos inesquecíveis momentos que vivemos lá ao menos um vou dividir, de certo modo, com vocês, meus poucos mas fiéis leitores. Na praia de Moreré, seguramente a mais linda que já vi na vida, almoçamos no restaurante Paraíso, onde comemos, de entrada, um polvo à vinagrete que, à moda da praia, foi o melhor polvo que já experimentei. Foi impossível não pedir a receita que, há umas semanas, experimentamos em casa. E garanto a vocês: ficou exatamente igual, fabuloso polvo à vinagrete.

Acordei cedo no domingo e fui à feira da Vicente Licínio, Peixaria do Vicente, com quem já havia encomendado a criança. Voltei pra casa com 1,7kg de polvo limpinho. Também na feira comprei (tudo fresco) hortelã, manjericão e orégano. Em casa já tínhamos vinagre, azeite, sal, pimenta do reino preta, limão, tomate, pimentão verde e cebola. E uísque, claro, que cozinhar sem uísque no balcão está fora de cogitação.

Numa panela pesada, de fundo grosso (nada de panela de pressão!), você põe o polvo inteiro e duas cebolas cortadas em quatro – só! Liga o fogo alto e, ao sinal do chiado, abaixa o fogo para médio. O polvo estará pronto quando os oito nacos da cebola estiverem desmanchados. Desliga o fogo, despreze a água que terá se formado, as cebolas desmanchadas e trate de pôr o polvo numa tábua para o início do preparo do vinagrete.

Corte o polvo em pedaços médios (há quem prefira cortá-lo menor, o que não é o meu caso) e coloque-os todos numa tigela funda. Regue o polvo com o suco de dois limões. A essa altura você já terá preparado os tomates, os pimentões e as cebolas durante o cozimento do polvo. Os tomates, sem as sementes – e com uma dica: corte o tomate em quatro, retire as sementes, ponha sal na parte de dentro (por favor!) e deixe-os desidratar um pouco sobre papel-toalha a fim de que fiquem firmes no vinagrete. Depois de uns 15/20min desidratando,  pique-os em cubos bem pequenos. No mesmo tamanho dos pimentões (dois) e das cebolas (três). Ponha tudo dentro da tigela. Moa a pimenta do reino na hora sobre o polvo. Sal a gosto. Vinagre e azeite, também a gosto. É hora de, usando uma tesoura, colocar pra dentro hortelã, manjericão e orégano.

Mexa sem grossura com uma colher de pau fazendo com que tudo se misture, cuidando pra não amassar os tomates. Cubra a tigela com plástico-filme e coloque na geladeira. O ideal, mesmo, é que fique 24h marinando, descansando, mexendo duas ou três vezes durante esse intervalo. Depois é se fartar.

Fica assim, desse jeito.

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É – ponham fé – absolutamente fora-de-série.

Até.

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O VOLUNTARISMO

Ontem eu almoçava com um queridíssimo amigo na Leiteria Mineira, uma espécie de refeitório de clínica geriátrica por conta da idade média dos freqüentadores e da ausência absoluta de sal na comida, deliciosa por sinal, e enquanto comíamos, ele foi de língua e eu de estrogonofe, conversávamos em tom de lamento sobre a mediocridade que assola o planeta de forma virulenta. Ele, que é de São Paulo e estava por aqui de passagem para arejar a cabeça – a expressão é sua – deu de se queixar do voluntarismo que grassa nas chamadas redes sociais, no Facebook precipuamente. Foi ele começar a falar pare que eu, excitadíssimo, com tudo concordasse. E ficamos, ali, divagando sobre o que temos visto, lido e ouvido, tendo sempre os voluntariosos como protagonistas.

Tentamos desenhar um esquema em busca de uma explicação para tanto voluntarismo e para esse fenômeno que dá ao idiota (apud Nelson Rodrigues) a dimensão de um gênio. Lembramos do reacionário, do genial dramaturgo, que em 1968 lançou a blague que hoje se verifica a olhos vistos:

“De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos ´melhores´. Para um ´gênio´, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.”

Eis que o Facebook é, definitivamente, o caixote azul no qual sobem, alguns várias vezes ao dia, diversos idiotas testando seu poder numérico. E um idiota curte o que o outro idiota escreveu. Um terceiro idiota toma coragem, vê-se refletido na tela diante de si, e ri – “kkkkk” – expressando sua concordância num relinche cibernético.

Um quarto idiota decide “fazer um vídeo ao vivo” – ferramenta que o caixote azul oferece – e começa (notem que quase sempre começa assim): “Oi, gente, eu resolvi fazer esse vídeo…”, e dá de falar as coisas mais sem importância, mostrar sua entendiante rotina para uma platéia de idiotas, e a coisa vai tomando um vulto, uma proporção, num preocupante fenômeno que é efetivamente assustador.

Vai daí que esse coletivo de idiotas passa, então, a produzir uma massa de verdades absolutamente ridículas, pífias, que são replicadas, multiplicadas, encorajando outros idiotas pelo mundo afora e que passam, por conta dessa coragem que vão ganhando (lembrem-se, “em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão”), a patrulhar quem está quieto no seu canto.

Falamos, é claro, das mais recentes patrulhas que pululam por aí: não se pode mais falar a palavra “mulata” sem que alguém se aproxime com o insuportável ar de gênio trazendo debaixo do braço o argumento de que mulata remete à mula, que mulata é isso, que mulata é aquilo e outros bichos. Não se pode mais cantar determinadas marchinhas de carnaval sem que alguém quique diante de você apontando o dedo na sua cara: essa é machista, essa é homofóbica, essa é sexista, essa estimula a violência, essa é assim, essa é assado e outros bichos. A mais recente onda de voluntarismo chegou pra dizer quem pode e quem não pode usar turbante. Haja, haja, haja!

Está muito difícil – e vai piorar.

Volto ao tema em brevíssimo.

Até.

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DECLARAÇÃO DE VOTO

Como faço há sei lá quantos anos e quantas eleições, venho ao balcão virtual do buteco a pouco menos de 72 horas das eleições de domingo, quando o Brasil vai às urnas para eleger prefeitos e vereadores, para declarar, de coração na boca e peito aberto, meu voto. Porque ir ás urnas, o que faço desde 1989 (quando dei meu primeiro voto a Leonel de Moura Brizola para Presidente da República), me comove feito o diabo. Saio de casa armado com meu título de eleitor e choro, confesso, incorrigível que sou, diante da urna (hoje eletrônica e menos comovente). Em 89, bem lembro, eu era o único (o único!) aluno da minha turma de Direito, na PUC-RJ, que votava no Brizola. Os colegas se dividiam entre Lula e Roberto Freire (que coisa, o passar do tempo…), em casa eu ouvia as maiores barbaridades – “como votar num agitador, num caudilho, num velho como Brizola?”. Hoje, ironia das ironias, vejo Brizola (já morto) sendo adulado por muitos dos que me apontavam o dedo em reprimenda naquele distante 1989, lá se vão 27 anos.

Em 1982, ainda com 13 anos de idade, assisti, estupefato, aquele homem passar por cima de tudo e de todos e vencer as eleições para o Governo do Estado. Quatro anos depois, 1986, deixamos de eleger Darcy Ribeiro como sucessor de Brizola graças a uma série de alianças que acabaram por levar Moreira Franco (e com ele deu-se a derrocada dos projetos do CIEPs) à vitória. Não votei, tinha ainda 17 anos, mas fiz campanha com o mesmo ardor com que me envolvo a cada eleição. Brizola retornaria ao Governo do Estado em 1991 (eleito em 1990, com meu voto). Feito o intróito, vamos ao que quero lhes dizer.

Estamos às vésperas das eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro e para a Câmara de Vereadores da cidade.

As candidaturas estão aí, postas, estão postas à mesa as propostas de cada candidatura (embora sejam poucas as que verdadeiramente tenham apresentado propostas ao eleitorado), temos pesquisas que apontam uma batalha voto a voto pela vaga no segundo turno contra o inconcebível Bispo Crivella e temos os programas de governo (quantos eleitores se deram ao trabalho de lê-los?) registrados no TRE. E um debate hoje à noite que promete ser um divisor de águas para o eleitor indeciso e mesmo para os que cogitam o voto útil para favorecer A ou B.

Sou, quem me lê e me acompanha sabe, um entusiasta das realizações do Governo Eduardo Paes. Não há um só eleitor esclarecido que não reconheça (ainda que não externe [mais] seu reconhecimento) os avanços maiúsculos na área da Cultura, por exemplo. Jamais a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro contemplou tantos nas mais diversas áreas da cidade, jamais fomentou-se tanto a Cultura, multifacetada, distribuindo-se, sem qualquer preconceito, verbas públicas, ou através de incentivos fiscais, para tanta gente que pode fazer, ao longo de 8 anos, seus sonhos tornarem-se realidade. É impossível não reconhecer os avanços na área da Educação (foram construídas mais de 300 escolas que se preparam para o turno único, ideal de Leonel Brizola). Avanços evidentes na mobilidade urbana (os BRTs, os VLTs, as vias expressas, os túneis que encurtaram caminhos), avanços incomensuráveis quando o assunto foi devolver a cidade aos cariocas: eu, dentro do hiperbolismo que me caracteriza, cheguei a dizer que só a derrubada da Perimetral (e os benefícios na região da Praça XV, da Praça Mauá, a criação da Orla Conde) seria capaz de elevar o nome do Eduardo Paes ao mais alto patamar dos Prefeitos do Rio de Janeiro. Derrubada que, diga-se, exigiu coragem do prefeito: um imenso percentual de cariocas era contra a derrubada do monstrengo por conta dos efeitos que a incrível obra geraria na cidade, principalmente no trânsito. Houve avanços na área da Saúde, inegáveis. Com os cofres cheios por conta dos repasses e aportes de dinheiro por parte do Governo Federal, pode-se realizar as Olimpíadas contra tudo e contra todos que, mau-humor sempre no bolso, torceram pelo fiasco dos Jogos Olímpicos. Oxigenada pelo vento que varreu mais forte a cidade depois das inúmeras obras, a cidade viveu dias de festa como talvez nem o mais otimista poderia supor.

Por tudo o que foi feito, e por acreditar na continuidade das políticas de Eduardo Paes é que meu voto vai, sem medo do erro, para aquele que, desde o primeiro minuto, foi o grande gestor das idéias do prefeito eleito e reeleito com acachapante votação. Meu voto será do Pedro Paulo, que ainda tem como vice uma mulher de fibra como Cidinha Campos.

Não foi fácil abrir o voto como abri desde que postas em campo as candidaturas. Centenas de dedos, muitos deles covardes, apontaram na minha direção. Alivia-me a consciência, entretanto, saber que nenhum desses dedos apontava erros na administração do Eduardo Paes capazes de me convencer a mudar o voto (claro que houve problemas, mas estou pra ter notícia de um único governo impecável do princípio ao fim). Os tais dedos faziam (e fazem) sempre menção a um episódio privado envolvendo o Pedro Paulo que, franca e sinceramente, dizem respeito apenas à esfera privada de sua vida e devem ser tratados pela Justiça que, diga-se, arquivou o inquérito que apurava o episódio. O que quero, e o que sempre quis diante do desafio de votar, é discutir propostas, enfrentar os programas apresentados, decidir, íntima e solitariamente, quem será o melhor para governar a cidade onde nasci, onde vivo e onde pretendo morrer.

Quantos homens (quantos!) vieram me abordar com o mesmo argumento covarde (que passou a ser ainda mais covarde depois do arquivamento das denúncias pelo STF), quantos se arvoraram a julgar mulheres que, como eu, optaram pelo nome do Pedro Paulo, deixando de perceber, muitos deles, o quão violentos também são no dia-a-dia, física ou psicologicamente? Muitos.

Outro argumento comum: Pedro Paulo é golpista porque votou pela abertura do processo de impedimento de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Refuto tal argumento e o mesmo não abala minha convicção quanto ao voto. O processo correu todo no Senado Federal e foi no Senado Federal que o impedimento foi votado e aprovado. Não é novidade para ninguém que considerei e considero que houve um golpe – mas este se deu no âmbito do Senado Federal (e foi contrário ao impedimento, um dos mais aguerridos defensores de Dilma Rousseff, o senador Roberto Requião, do mesmo PMDB do Pedro Paulo). Acho que ele deveria ter ido a Brasília votar como votou? Não. Mas não estou, agora, escolhendo um deputado, estou elegendo um prefeito – cargos distintos com atribuições bastante distintas.

Como muito bem disse meu camarada Cláudio Renato, “prefeito serve para cuidar das escolas e postos de saúde da cidade, tapar os buracos nas ruas e praças, gerir os transportes públicos, iluminar os caminhos para inibir assaltos e ataques aos cidadãos. Prefeito nenhum vai mudar o mundo, derrubar o sistema capitalista, acabar com o racismo e outros preconceitos, promover a cura do câncer.”.

Com meus botões, sem levar adiante o debate com os fanáticos que me apontavam o dedo, pensei: foi um odioso golpe contra o Rio de Janeiro a eleição do Moreira Franco em detrimento da candidatura de Darcy Ribeiro (e que chance perdemos de tê-lo, gênio que era, à frente do Governo do Estado!), e lá estava, ao lado do Gato Angorá, o PCdoB de Jandira Feghali; o ovo da serpente do golpe nasceu nas chamadas “marchas de junho de 2013”, e lá estavam os inadmissíveis atos comandados pelos Black Blocs que, com seus métodos condenáveis e adulados à larga por Marcelo Freixo, culminaram com a morte do cinegrafista Santiago Andrade; golpe houve também em 1964 e até hoje Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro (outro candidato) festejam o trágico 31 de março de 64 como se fosse festa, homenageando figuras desprezíveis como Brilhante Ustra e outros monstros; golpe houve contra seus eleitores quando Alessandro Molon abandonou o PT para juntar-se à Rede de Marina Silva sem devolver o mandato, que não lhe pertencia. Enfim… Se seguirmos por essa linha – que não me interessa, repito – o debate não tem mais fim.

Por fim, aos que argumentam me apontando o dedo dizendo que há apenas três candidaturas de esquerda (Alessandro Molon, Jandira Feghali e Marcelo Freixo), digo: o Governo Eduardo Paes, como nenhum outro governo no Rio de Janeiro, na cidade – ressalto -, construiu mais de 300 escolas, mais de 100 Clínicas da Família, centenas de km de vias que reduziram o tempo de viagem dos menos afortunados, construiu e reconstruiu praças, olhou, como nenhum outro, para as zonas norte e oeste da cidade, e possibilitou que a Cultura chegasse (e com dinheiro!) a grotões que jamais viram um único centavo do Poder Público. Um Governo definitivamente à esquerda.

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Meu voto é de olho no presente e no futuro. E não vejo futuro melhor pra cidade que não nas mãos da gestão que Pedro Paulo há de comandar, como comandou, como Secretário de Governo de Eduardo Paes.

Por isso, no domingo, eu chego junto sem medo de errar.

Até.

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BLANC 70 ANOS

Aldir Blanc escreveu no prefácio de meu livro, publicado em 2009, pela Casa Jorge Editoral:

“É sempre difícil apresentar o livro de um amigo-irmão.

Os detratores partirão para a fácil lenga-lenga acusatória de excesso de babilaques e lantejoulas. Bom, quebrarão a cara e roerão as unhas de ódio. O presente livro, “Meu Lar é o Botequim”, de Eduardo Goldenberg, fala por si mesmo.

Taqui nesta mesma mesa o Fausto Wolff que não me deixa mentir.

Eduardo Goldenberg é carioca dos ovos, carioca da bunda, da Zona Norte, de blocos e bares, de becos e esquinas, carioca dos países baixos e mostra sua vocação pra disputar, aguerridamente, causas perdidas, sua ojeriza aos mamalufs soltos, aos garotodutos propinados, às Rosas de Maia que destroem o Rio de Janeiro, à lama que envolve as bases de sustentação política do país. No grito contra a escrotidão dos investigados e investigadores das CPIdiotas, daqueles que mantêm a velha ordem dos faraós embalsamados, Edu nasceu dissidente até de si mesmo. Não perdoa hipocrisia e atitudes politicamente corretas, estejam camufladas no futebol, no feminismo, nas estruturas neoverdes ambientoscas, na enxurrada de páginas estruturo-linguarudas de suplementos culturais que tomaram o freio das vã-guardas nos dentes podres.

É triste constatar que não há espaço na imprensa escrita para as broncas de Nei Lopes, Chico Paula Freitas, Ilmar Carvalho, Eduardo Goldenberg…

Mas, felizmente, aqui está o livro, última cidadela da civilização: papo em torno do limão da casa, do caldinho de feijão, dos torresmos e moelas, das porções de queijo ou de salaminho; saudade dos amigos de outras épocas, e copo; muito suor e gelo; mulheres e, eventualmente, porrada.

Por tudo isso, com todo meu afeto, um poema pro Edu.

Pós-Intróito

Estamos passagem de aqui
onde a eternidade é aragem…
Daí, essas garrafas
no fundo das mensagens.”

Na véspera do 02 de setembro de 2016, dia em que o Bardo da Muda completa 70 anos, eu não seria eu se não viesse aqui, ao balcão virtual do buteco, render homenagens a ele. Mais que um amigo-irmão, Aldir, a quem conheço desde 1994 – lá se vão 22 anos! – é um dos Orixás pra quem bato cabeça. Meu confessor, meu confidente, um pouco meu pai, às vezes meu filho, o Excêntrico Sr. Normal (como bem disse Álvaro Costa e Silva, o Marechal, aqui) com quem, invariavelmente, troco telefonemas que podem durar segundos ou um par de horas, é, ainda, meu ídolo. E por isso, e por tudo isso, vê-lo fazendo 70 anos me comove feito o diabo.

A foto abaixo, de 1998, no Bar Lagoa (eu entre Aldir e Tostão), é hoje – me perdoem o lugar-comum – apenas um retrato na parede. Retrato de um tempo em que o Aldir, para sorte da cidade, ainda saía por aí, à noite, rasgando as madrugadas até que confundíssemos todos o alvorecer com o anoitecer e o anoitecer com o alvorecer na busca desesperada de reviver a juventude. Tive a sorte de, inúmeras vezes, colocar ao lado dele, dentro do mesmo barco, realidade e poesia e rir da nossa própria agonia. Bebi muito dessa fonte em busca desse segredo.

aldir, edu e tostão no bar lagoa, 1998

Ainda bem moleque, levado pelas mãos de um professor de química do colégio, conheci (de longe, prestando sempre muita atenção a tudo…) o Aldir no Caras & Bocas, na Tijuca. Eu era, ali, o fã diante do ídolo. A vida, que nos prega surpresas o tempo todo, e eu agradeço diariamente por esse prêmio, levou-me pra mais perto do Aldir. Marco Aurélio, com quem Aldir fundaria a Alma Produções (AL de Aldir e MA de Marco Aurélio) – e quanta saudade eu tenho do Marco Aurélio… – era o namorado da filha de uma vizinha de meus pais. Foi, confesso, amor à primeira vista. Ele, que era Marco Aurélio Braga Nery (e eu sou Eduardo Braga Goldenberg), só me chamava de “meu irmão Braga”. E um dia me disse com seu inseparável cigarro de cravo entre os dedos:

– Você precisa conhecer meu irmão, Aldir Blanc.

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que, pela primeira vez, fui à sua casa, seu bunker, sua cidadela, no edifício da rua Garibaldi onde morava, no primeiro andar, o Moacyr Luz. Cercado por milhares de livros, recebendo os amigos em casa quando isso ainda era rotineiro, Aldir era, ali, o gênio que eu vira, moleque ainda, no Caras & Bocas. E esse convívio, como não podia deixar de ser, rendeu-me as melhores histórias, as maiores maluquices, os maiores perrengues, as melhores festas, e, eventualmente, porrada. Tornei-me seu advogado, derrotamos na Justiça um canalha que pretendia receber indenização por conta de uma verdade dita pelo Aldir numa entrevista, e foi, lhes garanto, a mais divertida audiência que já fiz em mais de 25 anos de carreira. Dentro da sala da audiência, abraçado à indefectível bolsa marrom, nervoso, dirigiu-se à Juíza:

– Posso fumar?

E fumou.

Fui sócio de um bar, entre 2000 e 2005, numa esquina a poucos metros da casa número 257 da rua dos Artistas. Aldir batia ponto sempre que podia. Vivemos, ali, momentos memoráveis, como esse – vídeo aqui –  em que o ainda novato Moyseis Marques (hoje seu parceiro), acompanhado pelo cavaquinho do Gabriel Cavalcante, pediu pra cantar Imperial (de Aldir e Wilson das Neves) pro Aldir ouvir. Ou como esse, Aldir cantando samba-enredo do Salgueiro acompanhado pelo sete cordas do Pratinha no mesmo dia em que filmou, dentro do bar, as cenas para o filme Praça Saenz Peña, em que Aldir fazia o papel de Aldir (aqui).

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Aldir foi enredo do Segura Pra Não Cair, bloco que criamos ali mesmo, dentro do bar. E desfilou, sem corda alguma que atrapalhasse nosso carnaval.

E segue, aos 70 anos, desfilando, ainda que miudinho, mais recluso que nunca, sua genialidade, sua generosidade, sua imensa grandeza que transborda e inunda o Brasil, hoje maculado por um golpe branco que fere a democracia que tem como hino (o Hino da Anistia!) sua obra-prima, O Bêbado e a Equilibrista. Sobre a imensa obra do Aldir, já me debrucei aqui.

O que eu queria mesmo era agradecer, pública e escancaradamente, eu que estou a 3 anos de fazer Bodas de Sangue, a ele por tudo o que ele é, por tudo o que representou e representa na minha vida, por tudo o que representa, ele e sua obra, para o Brasil. Aldir é gênio da raça. O Ourives do Palavreado, como disse Dorival Caymmi. É bom de se ouvir e de se aldir, disse Chico Buarque. É um brasileiro máximo. Uma espécie em extinção. Um homem que sempre, e desde sempre, esteve do lado certo do terreno.

A última vez em que estivemos juntos foi há pouco: eu e a Morena, chegando de Portugal, fomos levar a ele alguns livros que ele me encomendara às vésperas da viagem. Era pra ser coisa rápida – mas com a graça de todos os deuses, não foi. Passamos com ele um bom tempo, sem birita, só jogando conversa fora e ouvindo aquele homem falar – e ele quando fala, meus poucos mas fiéis leitores, há que se fazer silêncio.

Amanhã, 02 de setembro, deveria ser decretado feriado nacional. Porque quando nasceu o filho do seu Alceu e da dona Helena, e é ele mesmo que conta, soprou um vento que traduzia:

– Vai, Aldir, ser Blanc na vida.

Somos homens e mulheres de sorte. Apesar de vivermos num Brasil hoje ferido por uma corja de filhos da puta, somos um Brasil que tem entre seus filhos, e fazendo 70 anos, um homem como ele.

Saravá, Aldir. Meu amor e meu respeito, sempre.

Até.

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COMEÇAM HOJE OS JOGOS RIO 2016

Primeiramente, FORA TEMER. Acordei, faço a confissão pública, comovido feito o diabo. Saí cedo de casa e as ruas, e o céu (azulíssimo!), atestavam que não era à toa a comoção que senti tão logo abri os olhos. Ruas cheias. Gente de todos os cantos do Brasil e do mundo zanzando pela cidade estampando na cara essa alegria tão indescritível quanto indescritível é a tal comoção que não me largou até agora, pouco mais de meio-dia. Porque se é impossível definifir o que é o carioca (por mais que, vira-e-mexe, alguém tente, sem sucesso, definir o carioca e a tal da carioquice), uma coisa é certa dizer sobre ele (sobre mim, sobre nós todos, cariocas): o carioca gosta de fazer festa e, mais do que isso, gosta de organizar festa, de ser anfitrião de festa. Estão aí o Carnaval e o Revéillon que não me deixam mentir.

Não foi diferente em 2014 durante a Copa do Mundo. Havia um exército de ignaros que repetia, como bem fazem os idiotas (que não pensam porque lhes falta o básico para tal), “não vai ter Copa”. Teve. E teve muita Copa. Organizamos o que o mundo reconhece como a Copa das Copas.

E não está sendo e não será diferente agora, a partir de hoje: os Jogos Olímpicos Rio 2016 entrarão pra História das Olimpíadas da mesma forma que a Copa do Mundo no Brasil entrou pra História das Copas do Mundo com absoluto destaque (ou não seria a Copa das Copas). Temos um golpe em curso no Brasil. Os Jogos Olímpicos são excelente oportunidade pra se gritar ao mundo que está em curso um golpe no Brasil. Mas isso não legitima a mesmíssima tribo dos ignaros que, vejam que lástima, andam gemendo por aí que estamos organizando os (pausa para uma golfada) “Jogos da Exclusão” ou, dizem os mais ignaros, as “Olimpíadas Assassinas”. São, esses, os anti-cariocas (os anti-brasileiros, eu diria).

A mim pouco importam o gigantismo dos Jogos, a organização quase marcial do Comitê Olímpico Internacional, o rigor (necessário) da segurança e outros bichos. Eu quero é saber que aqui, porque somos cariocas e porque somos brasileiros, quebraremos todos os protocolos. O prefeito da cidade (o primeiro que faz isso, dizem os arautos dos protocolos) carrega a chama olímpica, um garçom é convocado às pressas pelo COI depois de intensa e bem humoradíssima campanha espontânea para fazê-lo também carregar a tocha olímpica pelas ruas de Copacabana, alemães (eu vi, eu vi!) debruçam-se sobe o balcão do Bar do Joel pra comer cu de frango, ciceroneados por um dos seguranças da delegação dos atletas, alemão naturalizado brasileiro. Sem falar na emoção (sim, emoção, e daí?!) que foi ver minha Morena, também comovidíssima, erguendo, cheia de justificado orgulho, a tocha olímpica com a chama acesa, brilho semelhante ao (mais intenso e mais bonito) que reluzia de seus olhos naquela hora, hoje pela manhã. É isso – é essa emoção – que me interessa. E o furdunço, que começa pra valer hoje, promete e há de transformar, no dia seguinte ao encerramento dos Jogos, cada um desses ignaros em motivo de piada, como em 2014 depois da gloriosa derrota da seleção argentina diante da Alemanha.

Os do contra estão aí, firmes, para divulgar o que segundo eles não presta, o que eles dizem quase sempre seguido da frase “só no Brasil”, atestando de forma inatacável sua viralatice. Pobres-diabos, como diria Nelson Rodrigues, que previu, há décadas, a escalada dos idiotas. Eles latem, a caranava passa.

Até.

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A SEGUNDA MORTE DE JAIME GOLD

Maio de 2015. O médico Jaime Gold é assassinado, a facadas, na Lagoa Rodrigo de Freitas, e uma comoção toma conta da sociedade, notadamente daquela gente que, afortunada, mora no entorno do espelho d´água mais famoso da cidade do Rio de Janeiro. O Secretário de Segurança do Governo do Estado dá, naquela ocasião, uma das mais infelizes declarações sobre a situação e eu, humílimo do meu canto, publico aqui Jaime Gold, mais uma vítima de outras vítimas (aqui).

Hoje, 08 de julho de 2016, um ano e dois meses depois, tomei conhecimento de um fato repugnante – ligado à morte de Jaime Gold – graças à leitura dessa matéria (aqui) do jornalista e escritor, meu camarada, botafoguense, Fernando Molica. Tomo a liberdade de transcrever trechos da referida matéria:

“Pressionado por moradores da Lagoa, Heitor Wegmann, subprefeito da Zona Sul, mandou a Comlurb, a um mês do início das Olimpíadas, retirar da grade e da mureta que ficam na altura da Curva do Calombo cartazes contra a violência que estampavam nomes de vítimas que não foram mortas no bairro.

Segundo a subprefeitura, os autores da reivindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold, morador de Ipanema que, em maio do ano passado, morreu depois de ser esfaqueado quando pedalava por aquele trecho da ciclovia.

As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidas pelos garis na noite de segunda-feira.

Feitos com cartolina preta, 71 cartazes traziam nomes de crianças vítimas de balas perdidas e de policiais mortos enquanto trabalhavam. Algumas outras placas, que também foram retiradas, estampavam estatísticas oficiais de violência.

(…)

O responsável pela ONG afirmou ainda que a instituição não abrirá mão de expor dados sobre a violência em algum ponto da cidade. “É preciso constranger o poder público”, ressaltou.

Não sei como me referir “aos autores da reinvindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold (…).”. Nem o quê dizer sobre isso: “As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidos (…)”.

Sei que, no dia em que foram retiradas as homenagens “às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade” – notem que manteve-se a homenagem ao médico Jaime Gold, os outros mortos não têm nome – o pobre Jaime Gold morreu de novo.

E a escória que reinvidicou tamanho absurdo parece não ter aprendido nada, rigorosamente nada, absolutamente nada, com a morte de seu vizinho. Vou repetir o que escrevi em maio de 2015.

“Os meninos que esfaquearam o médico não o fizeram por causa de uma simples bicicleta – façam-me o favor! Eles estavam ali, vá saber, com a arma (que mata, como matou) que usam para se defender de suas próprias rotinas e de seus destinos desgraçados e sem horizonte. Cravaram a faca no médico como se cravassem a faca numa bananeira. Como se cravassem a faca na sociedade que tudo lhes nega. Como se cravassem a faca na polícia que os aterroriza desde o dia em que nasceram. Como se cravassem a faca no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva.”

E se morreu de novo Jaime Gold, morreram também, de certo modo, os que reinvindicaram essa ignomínia atendida pelo subprefeito da zona sul, Heitor Wegmann. Ou deveriam ter morrido: de vergonha, de nojo de si mesmos, de constrangimento.

Torço, quieto, para que a reação venha à altura (ou para que o subprefeito tenha um mínimo de senso de lucidez e reveja seu gesto) e que sejam recolocados ali, diante dos olhos-cegos dos que se acham mais e melhores, cada um dos cartazes arrancados homenageando gente que também teve a vida arrancada do mesmo modo banal que matou, pela primeira vez, Jaime Gold. E que cada um desses cartazes corte, como faca, o coração sem sangue dessa gente que sequer de gente merece ser chamada.

Até.

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