COMEÇAM HOJE OS JOGOS RIO 2016

Primeiramente, FORA TEMER. Acordei, faço a confissão pública, comovido feito o diabo. Saí cedo de casa e as ruas, e o céu (azulíssimo!), atestavam que não era à toa a comoção que senti tão logo abri os olhos. Ruas cheias. Gente de todos os cantos do Brasil e do mundo zanzando pela cidade estampando na cara essa alegria tão indescritível quanto indescritível é a tal comoção que não me largou até agora, pouco mais de meio-dia. Porque se é impossível definifir o que é o carioca (por mais que, vira-e-mexe, alguém tente, sem sucesso, definir o carioca e a tal da carioquice), uma coisa é certa dizer sobre ele (sobre mim, sobre nós todos, cariocas): o carioca gosta de fazer festa e, mais do que isso, gosta de organizar festa, de ser anfitrião de festa. Estão aí o Carnaval e o Revéillon que não me deixam mentir.

Não foi diferente em 2014 durante a Copa do Mundo. Havia um exército de ignaros que repetia, como bem fazem os idiotas (que não pensam porque lhes falta o básico para tal), “não vai ter Copa”. Teve. E teve muita Copa. Organizamos o que o mundo reconhece como a Copa das Copas.

E não está sendo e não será diferente agora, a partir de hoje: os Jogos Olímpicos Rio 2016 entrarão pra História das Olimpíadas da mesma forma que a Copa do Mundo no Brasil entrou pra História das Copas do Mundo com absoluto destaque (ou não seria a Copa das Copas). Temos um golpe em curso no Brasil. Os Jogos Olímpicos são excelente oportunidade pra se gritar ao mundo que está em curso um golpe no Brasil. Mas isso não legitima a mesmíssima tribo dos ignaros que, vejam que lástima, andam gemendo por aí que estamos organizando os (pausa para uma golfada) “Jogos da Exclusão” ou, dizem os mais ignaros, as “Olimpíadas Assassinas”. São, esses, os anti-cariocas (os anti-brasileiros, eu diria).

A mim pouco importam o gigantismo dos Jogos, a organização quase marcial do Comitê Olímpico Internacional, o rigor (necessário) da segurança e outros bichos. Eu quero é saber que aqui, porque somos cariocas e porque somos brasileiros, quebraremos todos os protocolos. O prefeito da cidade (o primeiro que faz isso, dizem os arautos dos protocolos) carrega a chama olímpica, um garçom é convocado às pressas pelo COI depois de intensa e bem humoradíssima campanha espontânea para fazê-lo também carregar a tocha olímpica pelas ruas de Copacabana, alemães (eu vi, eu vi!) debruçam-se sobe o balcão do Bar do Joel pra comer cu de frango, ciceroneados por um dos seguranças da delegação dos atletas, alemão naturalizado brasileiro. Sem falar na emoção (sim, emoção, e daí?!) que foi ver minha Morena, também comovidíssima, erguendo, cheia de justificado orgulho, a tocha olímpica com a chama acesa, brilho semelhante ao (mais intenso e mais bonito) que reluzia de seus olhos naquela hora, hoje pela manhã. É isso – é essa emoção – que me interessa. E o furdunço, que começa pra valer hoje, promete e há de transformar, no dia seguinte ao encerramento dos Jogos, cada um desses ignaros em motivo de piada, como em 2014 depois da gloriosa derrota da seleção argentina diante da Alemanha.

Os do contra estão aí, firmes, para divulgar o que segundo eles não presta, o que eles dizem quase sempre seguido da frase “só no Brasil”, atestando de forma inatacável sua viralatice. Pobres-diabos, como diria Nelson Rodrigues, que previu, há décadas, a escalada dos idiotas. Eles latem, a caranava passa.

Até.

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A SEGUNDA MORTE DE JAIME GOLD

Maio de 2015. O médico Jaime Gold é assassinado, a facadas, na Lagoa Rodrigo de Freitas, e uma comoção toma conta da sociedade, notadamente daquela gente que, afortunada, mora no entorno do espelho d´água mais famoso da cidade do Rio de Janeiro. O Secretário de Segurança do Governo do Estado dá, naquela ocasião, uma das mais infelizes declarações sobre a situação e eu, humílimo do meu canto, publico aqui Jaime Gold, mais uma vítima de outras vítimas (aqui).

Hoje, 08 de julho de 2016, um ano e dois meses depois, tomei conhecimento de um fato repugnante – ligado à morte de Jaime Gold – graças à leitura dessa matéria (aqui) do jornalista e escritor, meu camarada, botafoguense, Fernando Molica. Tomo a liberdade de transcrever trechos da referida matéria:

“Pressionado por moradores da Lagoa, Heitor Wegmann, subprefeito da Zona Sul, mandou a Comlurb, a um mês do início das Olimpíadas, retirar da grade e da mureta que ficam na altura da Curva do Calombo cartazes contra a violência que estampavam nomes de vítimas que não foram mortas no bairro.

Segundo a subprefeitura, os autores da reivindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold, morador de Ipanema que, em maio do ano passado, morreu depois de ser esfaqueado quando pedalava por aquele trecho da ciclovia.

As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidas pelos garis na noite de segunda-feira.

Feitos com cartolina preta, 71 cartazes traziam nomes de crianças vítimas de balas perdidas e de policiais mortos enquanto trabalhavam. Algumas outras placas, que também foram retiradas, estampavam estatísticas oficiais de violência.

(…)

O responsável pela ONG afirmou ainda que a instituição não abrirá mão de expor dados sobre a violência em algum ponto da cidade. “É preciso constranger o poder público”, ressaltou.

Não sei como me referir “aos autores da reinvindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold (…).”. Nem o quê dizer sobre isso: “As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidos (…)”.

Sei que, no dia em que foram retiradas as homenagens “às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade” – notem que manteve-se a homenagem ao médico Jaime Gold, os outros mortos não têm nome – o pobre Jaime Gold morreu de novo.

E a escória que reinvidicou tamanho absurdo parece não ter aprendido nada, rigorosamente nada, absolutamente nada, com a morte de seu vizinho. Vou repetir o que escrevi em maio de 2015.

“Os meninos que esfaquearam o médico não o fizeram por causa de uma simples bicicleta – façam-me o favor! Eles estavam ali, vá saber, com a arma (que mata, como matou) que usam para se defender de suas próprias rotinas e de seus destinos desgraçados e sem horizonte. Cravaram a faca no médico como se cravassem a faca numa bananeira. Como se cravassem a faca na sociedade que tudo lhes nega. Como se cravassem a faca na polícia que os aterroriza desde o dia em que nasceram. Como se cravassem a faca no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva.”

E se morreu de novo Jaime Gold, morreram também, de certo modo, os que reinvindicaram essa ignomínia atendida pelo subprefeito da zona sul, Heitor Wegmann. Ou deveriam ter morrido: de vergonha, de nojo de si mesmos, de constrangimento.

Torço, quieto, para que a reação venha à altura (ou para que o subprefeito tenha um mínimo de senso de lucidez e reveja seu gesto) e que sejam recolocados ali, diante dos olhos-cegos dos que se acham mais e melhores, cada um dos cartazes arrancados homenageando gente que também teve a vida arrancada do mesmo modo banal que matou, pela primeira vez, Jaime Gold. E que cada um desses cartazes corte, como faca, o coração sem sangue dessa gente que sequer de gente merece ser chamada.

Até.

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A 47ª VOLTA DO PONTEIRO AMANHÃ

Eu estava no domingo passado na esquina do Bar do Chico, depois de ir à feira, e à mesa comigo, o Felipinho e a Renata. Saltou de um táxi, ali mesmo na esquina, uma senhora de – o quê?! – uns 80 anos. Eu disse aos dois:

– Há quantos anos eu não vejo uma anágua!

E bastou eu dizer anágua para que eu sofresse, imediatamente, súbito e arrebatador arremeso em direção ao passado. Lembrei-me, no ato, que estava tendo início a semana do meu 47º aniversário, e me permitam um sonoro puta que pariu diante do número antes de prossseguir. Eu já sou, há muitos anos, um homem em permanente estado de arremesso ao passado, que dirá nos dias em que se aproxima o 27 de abril. Há anos que dou-me o dia de presente, não trabalho. Percorro, nesse dia, as ruas da minha infância numa tentativa, vá lá, de manter viva em mim a chama do menino que fui, sempre muito assombrado (para o bem e para o mal) com tudo o que vi, com o que vivi, com o que comi, com o que bebi, com o que ganhei e com o que perdi. Segundos após pronunciar a palavra anágua, minha tia Idinha, que usava anáguas, deu de afagar meus cabelos enquanto eu conversava com os dois, (mal) disfarçando a emoção que me tomava a alma e o coração. É bem verdade que, aos 46 – quase 47 – um comprimido de Pressat, um de Natrilix SR e uma dose diária de 2mg de Olcadil ajudam a domá-los, a alma e o coração, quase-incorrigíveis. Eu disse quase.

47 anos foram suficientes pra que um incorrigível como eu já não abra mais a boca com tanto orgulho pra dizer: incorrigível. Já não tenho mais a tia Idinha, minha bisavó eu não vejo há exatos 35 anos (e eu tenho, até hoje, uma saudade brutal da dona Mathilde…), meus avós, todos, são fantasmas que estarão comigo amanhã: Oizer, Milton, Elisa e Mathilde, eles e seus brioches de presunto e queijo dos lanches de domingo, lutas de telecatch, doses intermináveis de Teacher´s, maços de Hollywood e de Minister, muito carteado, os olhos azuis do velho Oizer transmitindo um carinho que ele jamais soube expressar, o silêncio permanente do velho Milton, a rudeza da minha vó Elisa em contraste com a doçura cheirosa de minha avó Mathilde, a quem não vejo há quase 6 anos. Irei amanhã, é certo, passar em frente à vila 84 da São Francisco Xavier pra ouvir, do portão da rua, meus próprios gritos de algazarra junto com os gritos do Ricardo, do Renato e do Aurélio, do Augusto e do Camilo, do Silvio e da Pimpa, da Martinha, pra ouvir o ronco do motor do TL, táxi do seu Mário, os esporros intermináveis da dona Dalas e do seu Pereira, e meu avô Milton ameaçando pegar o revólver pra resolver tudo com tiros pro alto. Seu Bizantino, o velho negro dono de um Corcel, há de estar por lá. Vou em busca da vila que não mais existe entre a Heitor Beltrão e a Professor Gabizo, onde moravam meus avós maternos quando nasci. Mas ai dos que duvidarem de mim: ela existe, do mesmo jeito que eu conheci, em mim, dentro de mim – e ainda que apenas para mim.

Já não tenho um de meus irmãos, já perdi três cachorros – Zica, Pimentinha e o Toquinho – mas é o Pepperoni que os receberá amanhã pela manhã, latindo pra quem souber decifrar: pobres daqueles que escolhem morrer em vida. Já perdi uma mulher a quem não vejo há quase 5 anos, mas não me vai causar estranheza se ela passar por mim, n´alguma altura do dia, pra me desejar felicidades. Quantos amigos, meu Deus, eu já enterrei. Uns porque morreram, outros tantos porque a vida se encarregou de desviá-los de mim. Sigo confiando no que cresci ouvindo dos mais velhos, das velhas da família (eram tantas!, e usavam anágua e se abanavam com leques imensos), do meu pai e da minha mãe: nasci anunciado por um caboclo que se fez visível, pela primeira vez, diante dos olhos do meu pai na madrugada de 26 para 27 de abril pra desmentir o médico que, na véspera, confirmara meu nascimento para o começo de maio. O caboclo – mais tarde se saberia, Tupinambá – fez que sim pro meu velho: eu nasceria no dia seguinte, 27 de abril. Minha mãe acordou, fez troça com o que considerou sonho ou delírio do velho, ansioso com o primeiro filho, e o mandou pro trabalho, na REDUC, em Duque de Caxias. Lá chegando o velho teve de voltar. O anúncio lhe fora dado tão logo desceu do ônibus da companhia: teu filho está pra nascer! Sigo confiando no caboclo de quem meu pai passou a ser cavalo.

deitado

Sigo confiando, ainda que meio desconfiado – talvez a idade faça isso com a gente -, que tenho a proteção constante da caboclada. Iya Sandra, que também não está mais aqui, jogou búzios pra mim em meados de 2007 e me disse: você é filho de Ogum, meu filho, mas quem te sopra nos ouvidos o tempo inteiro é Exu. Meu irmão e meu compadre, Luiz Antonio Simas, confirmou, deu-me seu fio de presente com contas azuis, vermelhas e pretas, e que hoje tem o verde-e-amarelo de Orunmilá, que fiz por merecer. Sigo confiando que tenho a proteção constante dos Orixás, a quem devoto respeito e a quem reverencio sempre que devo fazê-lo.

E tudo o que lhes pode soar como lamento – as perdas, a saudade, o tempo que não volta – não é lamento. Até porque a vida transforma tudo conforme a determinação de quem vive. O velho Simas, quando eu andava no baixio, me ensinou, daquele jeitão dele que só quem o conhece sabe como é, a pilar o pilão devagar, com calma e sem pressa.

E foi sem pressa que cheguei – chegarei, é só amanhã e sou de supertições também – aos 47. De casa nova, ao lado da minha Morena, a única mulher possível e que chegou-se a mim da forma mais improvável do mundo – quem sou eu pra duvidar do dedo dos deuses numa hora dessas?! – no inverno de 2011, prenunciando a primavera que começaria 16 dias depois. A mulher a quem amo carregando nos ombros o peso de 47 anos e nas mãos a esperança de uma vida longa, ao lado dela, e a quem dedico meu dia de amanhã (estou escrevendo pra mim mesmo, ressalto).

Uma olhada rápida pra trás e muito a agradecer: a vida do meu irmão, que depois de um susto do tamanho do mundo, está vivíssimo. A vida da minha mãe, que depois de enfrentar a mais filha da puta das doenças está aí, cada vez mais parecida com a própria mãe, minha avó, e vivíssima. Meu velho pai, teimoso como quem a ele deu a vida, mas aí, vivíssimo. Os melhores amigos do mundo e que não preciso enumerar: cada um deles sabe de sua condição de imprescindível pra mim, eu que jamais poupei-me na hora de declarar o amor que me move. Um grande vira-latas, o Pepperoni, presente de Exu, como decretou o Simas. Um monte de afilhados e afilhadas a quem tenho faltado, bem sei, mas andei ocupado demais me rearrumando.

E de  novo, e sobretudo, por ela, Flávia, minha Morena amada, a quem dediquei, cifradamente, Desassossego, em novembro de 2011 – aqui.

Saravá.

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RESSACA CÍVICA – E UM BEIJO PRO JEAN WYLLYS

Acordei hoje com um travo na garganta, um desmedido aperto no coração, uma tristeza sem tamanho por conta do triste espetáculo protagonizado ontem em Brasília e televisionado para todo o Brasil. Triste espetáculo, diga-se, mais do que previsível. Graças a acordos que envolvem nem sei quem (agências americanas com interesse nas riquezas brasileiras, políticos inescrupulosos, banqueiros e industriais brasileiros, elementos do Poder Judiciário e do Ministério Público, vá saber…), assistimos, ao longo de muitos meses, mais precisamente desde a reeleição da Presidenta Dilma Rousseff, um sem fim de operações muito bem estruturadas – coisa de gênios do marketing, reconheço – com o único fim de enfiar na cabeça do povo (desinformado, despolitizado, facilmente manipulado) que o PT é o partido mais corrupto da História do Brasil. Vem, é verdade, de mais longe a tal operação: começou com o chamado “mensalão” e uma perseguição insana a políticos filiados ao Partido dos Trabalhadores. Foram sendo minadas, uma a uma, as lideranças que embasavam a política dos Governos Lula: José Dirceu, Luiz Gushiken, José Genoíno entre outros. Como se não bastasse veio o “petrolão” e o massacre (midiático, inclusive) não cessou. Lula se reelegeu. E elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff, a primeira mulher Presidenta da República do Brasil – uma mulher íntegra contra a qual jamais pesou qualquer malfeito. Uma mulher, diga-se, que quando nomeou Graça Foster para presidir a Petrobras deu a ela uma função principal: acabar com a rataria na estatal.

E a guerra insana seguiu seu curso (ou seu roteiro, como penso). Um Juiz Federal da cidade de Curitiba, no Paraná, deu de dar início ao espetáculo da “lavajato”. A impressionante simetria entre as ações do Juiz, da Polícia Federal, dos meios de comunicação (capitaneados, como sempre, pela Rede Globo), funcionando como numa engrenagem perfeita, os rios de dinheiro que foram sendo injetados pela FIESP e outros bichos em movimentos apartidários que surgiram do nada (filhotes dos tais movimentos de junho de 2013, que culminaram na eleição do Congresso Nacional mais conservador de todos os tempos), tudo isso foi minando, de maneira absolutamente maquiavélica, o segundo mandato de Dilma Rousseff. Vazamentos ilegais de trechos de delações premiadas (jornalistas em quem confio me garantem que havia fila de jornalistas no gabinete de determinado Ministro do STF em busca desses vazamentos), grampos ilegais (incluindo o telefone da Presidência da República) que a Rede Globo transmitia sem qualquer pudor, a abertura do processo de impeachment tocado por um corrupto como Eduardo Cunha e chegamos ao dia de ontem.

O que se viu ontem, em Brasília, foi um retrato do Brasil de hoje. Os 513 Deputados Federais que compõem, repito, a mais conservadora e reacionária Câmara dos Deputados, exibiram ao Brasil e ao mundo a baixeza, a pequenez, a desfaçatez e a sordidez que saiu das urnas, em 2014, fruto – repito – dos inconseqüentes protestos pelo Brasil afora tocados por gente sem qualquer liderança partidária “contra tudo isso que está aí”.

mulher chorando

A imagem dessa mulher de vermelho, chorando após a vitória de Eduardo Cunha e de Michel Temer, o mais podre vice-presidente que o mundo já viu (desconheço outro que, investido do cargo, tenta atentado tanto contra qualquer Presidente da República, conspirando à luz do dia de forma tão abjeta) é a imagem do que eu tinha na alma quando acordei, ainda enojado e acometido de uma ressaca cívica que, se me entristece demais no dia de hoje, não será capaz de me fazer desistir da luta em prol do que acredito. Salvou-me, na manhã de hoje, a minha Morena. O olhar que trocamos e as mãos dadas em silêncio foram e são o meu conforto, o meu esteio, a minha cidadela.

Vou me poupar – e a vocês, que me lêem – de tecer qualquer comentário sobre “a” ou “b”, uma vez que foram muitos os Deputados Federais que me enojaram ontem com suas posturas, com seus discursos, com suas bravatas.

Quero lhes dizer apenas uma coisa: diante do que fez o cada vez mais inconcebível Jair Bolsonaro, que ao proferir seu voto rendeu homenagens ao homem que torturou Dilma Rousseff e outros tantos nos anos de chumbo no Brasil, ao homem que morreu carregando nas costas entre 60 e 80 assassinatos nos porões da ditadura, quem me representou naquela Sessão foi o Deputado Federal Jean Wyllys que escarrou, sem dó nem piedade, na cara de um sujeito que, se fôssemos mais sérios e contássemos com um Ministério Público e uma Justiça mais eficazes, sairia preso da Câmara dos Deputados.

“Não vai ter golpe e vai ter luta”, cantou o Brasil inteiro nas últimas semanas. Espero que a luta não tenha sido apenas verso pra tornar mais bonito o canto. Há de haver luta. É preciso que haja luta. E é imperioso que ela comece já.

Até.

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UMA SAUDADE E UMA ESPERANÇA

Eu não achei, franca e sinceramente, que fosse viver o que vivo hoje, o que vivemos hoje no Brasil. Desde meninote, à minha moda, interessei-me por política. Em 1982, com apenas 12, 13 anos de idade, fascinei-me, na exata acepção que a palavra fascínio tem pra um menino, com a figura de Leonel de Moura Brizola. Dentro de casa, entre os leques das mais-velhas, maços de Hollywood da minha avó e de Minister do meu avô, tios e tias que hoje são só saudade, eu já era olhado com certa dó: “Brizola é o demônio, meu filho!”“Um agitador!”, era sempre por aí o que eu ouvia daqueles lacerdistas, admiradores da Sandra Cavalcante. Mas eu brilhava os olhos quando via e ouvia o Brizola falar. Escapava pra Cinelândia, escondido, pra juntar-me aos que me diziam mais à alma quando o assunto era política: velhos e velhas de lenço vermelho no pescoço, a Juventude do PDT à qual não me filiei por medo, sim, por medo, e eu voltava pra casa sempre ainda mais admirado com aquele homem que começou a campanha com 1% e a venceu contra tudo e contra todos, inclusive o golpe da Proconsult que Moreira Franco (esse mesmo que hoje agita o golpe) e Roberto Marinho tentaram implementar para tirar a vitória colossal de Brizola (entenda aqui o que fizeram com Brizola em 1982).

Engajei-me a fundo na campanha para a eleição de Darcy Ribeiro, que Brizola tentou fazer sucessor. Fomos derrotados.

Ingressei na Faculdade de Direito em 1987 e vivi, na PUC-RJ, período riquíssimo: a Constituição Federal estava sendo gestada, meus professores eram todos de esquerda, e vivi, no ambiente universitário, a primeira eleição direta para Presidente do Brasil desde a ditadura, que iniciou-se em 1964. Eu era, meus poucos mais fiéis leitores, o único eleitor do Brizola da turma, que se dividia entre Lula e (pasmem) Roberto Freire – havia, claro, eleitores de direita mas que eram minoria. E apenas um de meus professores, o hoje Juiz Federal Firly Nascimento (e então Defensor Público), também era eleitor do velho Brizola.

Em 1989 dei meu primeiro voto pra valer nele, Leonel de moura Brizola. Perdemos por pouco.

E a tristeza também durou pouco: elegi Brizola Governador do Rio de Janeiro em 1990, Estado que o elegeu, consagradamente, duas vezes!

Em 92, durante o processo de impeachment de Fernando Collor, não juntei-me aos cara-pintadas: ouvi a voz do mais sábio que alertava: “A nossa posição… quando eu digo minha, eu digo nossa, porque nós elaboramos uma posição partidária. Até aqui, cada um de nós emite as suas opiniões, somos um partido democrático; eu, como mais velho, emito as minhas, mas elaboramos a nossa posição. Nós tratamos de condenar certas atitudes, certos procedimentos, porque entendemos que um clima de histeria é inconveniente para as próprias investigações, para se fazer justiça. Nós já vimos episódios semelhantes, nunca deram bons resultados. Condenamos esses excessos, às vezes a falta de isenção e principalmente os que procuravam colocar a carreta diante dos bois, [aqueles que] antes de investigar, antes de conhecer exaustivamente os fatos, recomendavam logo o impeachment, inclusive fazendo vistas grossas para as outras áreas de corrupção gravíssimas que existem no país e que no fundo estão disputando a sua continuidade no poder ou a sua ida para o poder.”

Em 1994, fiz campanha ainda mais apaixonado: o vice de Brizola era Darcy Ribeiro, e até hoje me emociono só de pensar na possibilidade que deixamos de viver, tendo Brizola como Presidente e Darcy como vice.

Em 1998 também votei em Brizola, mas como vice de Lula – embora pensasse, na época, que deveria ser o contrário. Mas foi só mais um gesto de grandeza desse que foi o maior homem público que o Brasil conheceu.

Em 16 de setembro de 2000 fiz um troço que me fez aproximar-me verdadeiramente do saudoso Brizola. Na cara da Rede Globo, na tela da Rede Globo, durante campanha para a Prefeitura do Rio de Janeiro gritei seu nome, ao vivo, para desespero do Roberto Talma, que dirigia o programa (aqui conto tudo).

Se não posso dizer que desfrutamos de intenso convívio ou mesmo de amizade, encho o peito de orgulho porque estivemos juntos muitas vezes (sempre a convite dele) e em todas as vezes – todas! – em algum momento ele me chamava à uma roda de amigos e correligionários. E dizia:

– Eduardo! Conte aquele teu episódio colossal na Rede Globo!

A foto abaixo foi tirada na casa do Martinho da Vila, nosso último encontro. Éramos poucos: eu, minha mulher à época, Martinho da Vila e Cléo, Martnália e Analimar, Paulinho da Aba, Beth Carvalho, Lupi, Brizola e seus dois netos, Leonel Brizola e Brizola Neto, o Carlito. Martinho e Cléo ofereceram um jantar ao Brizola porque o sonho da Cléo, gaúcha como ele, era não apenas conhecer Brizola, mas vê-lo assinar a Carta Testamento de Getúlio Vargas que ela pretendia emoldurar e pôr na parede. Foi uma noite de nunca mais esquecer.

Made with Repix (http://repix.it)

Brizola estava à vontade. Comeu (serviu-se picanha), bebeu vinho, cantou quando formou-se a roda de samba (a memória me trai e não me recordo dos demais músicos, além do Paulinho da Aba), contou histórias impressionantes, falou do suicídio de Getúlio Vargas, sobre a Cadeia da Legalidade, de suas campanhas, de sua infância, marejou os olhos quando falou dos CIEPs… e pediu pra cantar quando estava indo embora, alta madrugada:

“Felicidade, vou me embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora onde sei que a falsidade não vigora…”

Não houve quem não chorasse.

Como choro agora – faço a confissão.

Sinto muita saudade do meu eterno e saudoso Governador Leonel de Moura Brizola nesse momento sombrio que atravessamos.

E muita esperança.

De mãos dadas com a mulher com quem divido mais que a vida – sonhos, projetos, um futuro – espero o domingo com esse travo no peito.

Até.

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VOVÓ FAZ ANOS AMANHÃ – II

No dia 06 de abril de 2011, véspera do aniversário de minha avó – e em 2011 foi seu primeiro aniversário depois que ela foi oló, em dezembro de 2010 – escrevi Vovó faz anos amanhã, texto que pode ser lido aqui. Hoje, novamente 06 de abril, novamente véspera de seu aniversário de 92 anos, torno a render homenagens à sua memória, inabalável em mim. É inevitável que eu me valha de linguagem muito semelhante à que usei em 2011: a saudade esmaece mas permanece, e quando trazida à tona vem com as mesmas cores, a mesma forma, a mesma boniteza.

Amanhã, portanto, 07 de abril, a 20 dias dos meus 47 anos, minha avó faz anos, mais precisamente 92 anos. Dirão os céticos- que não sabem nada – que se vovó não há que se falar em aniversário. E eu, uma vez mais, negarei com veemência diante dos devaneios que esta foto, que tantos textos já ilustrou por aqui (é, de fato, uma de minhas preferidas e ilustrou também o texto de 2011), me provoca. Cá estou eu, de calças curtas e camisa listrada, tendo à minha direita minha mãe, à minha esquerda minha avó e à minha extrema esquerda, minha bisavó – mãe de vovó, a mais bonita das saudades que guardo. Estamos todos diante da mureta que havia na casa da vila onde moravam meus avós (minha bisavó junto, sempre), na Professor Gabizo, bem próximo à Heitor Beltrão, na Tijuca evidentemente, e hoje ainda mais perto de onde moro.

Amanhã será dia, então, de fazer seu café-da-manhã, servir-lhe uma xícara de café com leite, como ela gostava, torradas e uma ameixa, um damasco, uma castanha-do-pará e algumas fatias de queijo. E estarei, eis as mágicas do Tempo, com a mesma calça curta, com a mesma camisa listrada e com esses olhos de nem-sei. Será dia de sentar-me à mesa, rezar baixinho à minha moda, e contar a ela as novidades. São muitas, afinal são seis anos sem ela por perto pra me ouvir: algumas nada boas, mas vovó, que foi a mulher mais otimista que jamais conheci, vai tirar de letra – e vai ser capaz de rir de muita delas! Outras incríveis, e dentre elas a que me mais me compunge… sobre a Morena. Como eu queria, por um minuto que fosse, que minha Morena conhecesse minha avó. Minha avó que, sem medo do erro, passou os últimos 10 anos de vida indo jantar comigo, em casa, religiosamente, todas as quartas-feiras. E não havia quarta-feira em que ela não chegasse trazendo nas mãos algum presente, por mais simples que fosse. Ela vinha de táxi (e por isso mantenho no final do texto o que escrevi em 2011) e eu a levava de volta. Pedia que eu pegasse o violão, cantava (aqui, vovó cantando, afinadíssima, como sempre), contava histórias – era uma exímia contadoras de histórias, herança direta de sua mãe – , ria muito, jantava sempre tomando vinho e não dispensava o vinho do Porto antes de ir embora.

O que eu quero amanhã, portanto, é festa, eu quero é me emocionar. Por isso amanhã vou preparar o café-da-manhã como lhes disse, vou enfeitar a casa com rosas brancas, vou chamá-la pra contar a ela as novidades, espalhar água de cheiro pela casa, pôr Orlando Silva pra cantar, e se me der na telha ainda compro bolo de aniversário pra comer de sobremesa à noite, depois do jantar. Devidamente encerrado com uma dose de vinho do Porto.

Era o que eu queria lhes contar. Chama, dona Mathilde, chama!

Até.

pós-escrito às 16h55min do dia 06 de abril de 2011:

Impossível não fazer o adendo. Estava eu em Copacabana, por volta das 15h50min, saindo de um compromisso profissional, caminhando pela Nossa Senhora de Copacabana à espera de um táxi. Sinal fechado, fiz o sinal. Parou um Palio Weekend, entrei. No painel, um adesivo da cooperativa Táxi Garibaldi. Vamos ao contexto. A Táxi Garibaldi tem ponto justamente na rua Garibaldi, na Tijuca. Uma transversal da rua General Espírito Santo Cardoso, onde residia minha avó. Achei graça daquilo e fiz a blague:

– A cooperativa que minha avó mais usava…

O motorista:

– É?

– Morreu em dezembro, fará 87 anos amanhã…

Ele virou-se pra mim e disse:

– Dona Mathilde? A baixinha e cheirosa? Morreu?

Nem consegui responder. Eu já guinchava no banco do carona de tanto que chorava. Liguei pra mamãe, contei a história. Liguei pra minha menina, contei a história. O motorista – seu José – já fungava ouvindo tudo. Era, pra mim, sinal evidente de que vovó se fazia presente.

E pra não perder o fio da meada do texto que escrevi hoje pela manhã, vamos lá.

Dirão os céticos: trata-se de apenas uma coincidência. Pois sim! São mais de 35 mil táxis circulando no Rio de Janeiro, e cerca de 5 mil irregulares, num total de 40 mil veículos amarelinhos rodando por aí. E aí, no dia de hoje, véspera do aniversário da dona Mathilde, na tarde do dia em que escrevi, pela manhã, verdadeiro chamamento e prece quase pagã em sua intenção, um táxi justo da cooperativa da qual ela fazia uso freqüente, conduzido por um motorista que a conhecia (“baixinha”, “cheirosa”, “vaidosa”, “serelepe”, “elegante”…) e que mora na esquina da rua de vovó dá de me resgatar em Copacabana rumo ao Centro. Tá bom, então.

Eu quero é me emocionar, pombas!

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OS COLETIVOS

Hoje, finalmente, cumpro a palavra que empenhei ao Raphael Vidal, o Maluco Fundamental, figura imprescindível para a minha mui amada e leal Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Escrevi, em 07 de março, aqui, que não há nada mais inviável do que um coletivo. Foi publicar isso e ouvir, daqui, as gargalhadas que vieram rolando do Morro da Conceição, atravessaram a Rio Branco nos trilhos do VLT e vieram até o Castelo: era o Vidal, a confissão é dele, gargalhando às escâncaras diante da minha humílima declaração. Hoje, portanto, debruço-me o palpitante tema dos coletivos.

Os coletivos são, nada mais, nada menos, do que grupelhos dedicados a um tema de interesse comum a todos os seus membros. Explico: Aderbal e Adelaide adoram gastronomia. Gastam seus tempos pesquisando sobre ingredientes, sobre a culinária regional, receitas, essas bossas. Até que um deles – digamos que o Aderbal – diz:

– Vamos montar um coletivo?

E há, nos olhos, na boca e na expressão corporal da Adelaide, uma excitação de primeira noite.

– Vamos! – diz lânguida, a Adelaide, tendo quase um surto de umidade.

Daí Aderbal e Adelaide percebem que estão diante de uma olada e criam, assim, num só diálogo curtíssimo, um coletivo de gastronomia. Passam, dali em diante, a assumir nova postura. Encontram o Setúbal, amigo comum. Diz, o Setúbal:

– Opa! Tudo bom?

– Criamos um coletivo! – como cegos e surdos, não ouvem mais nada, não respondem nada, estão integralmente voltados para o projeto (todo coletivo é, também, um projeto).

Eis que o Setúbal saliva, não esconde a inveja e a cobiça e, ele também excitadíssimo, pergunta como fazer para fazer parte do coletivo. E esse movimento, que não cessa, faz com que em – o quê? – 10, 15 dias, esteja criado (e grande, e cheio de adeptos, seguidores e membros) o coletivo que nasceu do desejo comum de Aderbal e Adelaide.

Vai daí que temos, hoje, coletivos de gastronomia, de artes cênicas (teatro, sobretudo), de fotografia, de cinema, de tudo. E há, em todos os coletivos, um enfado criativo que dá dó. E de mãos dadas com o enfado, uma ira incontida contra tudo o que está, digamos, estabelecido há 10, 20, 50, 100, 1.000 anos. A idéia central dos coletivos é repensar o mundo (todos os coletivos, sem exceção, repensam o mundo sem que se mova uma palha no entorno deles). E repensar o mundo para os membros de um coletivo é, obrigatoriamente, contestar tudo, de tudo discordar, vociferar contra tudo e contra todos. Eu seria capaz, sem medo do erro, de dizer que todos os coletivos juntos formariam uma espécie de país imaginário: têm, os membros de um coletivo, essa intenção (sem que ninguém tenha lhes pedido rigorosamente nada) de destruir as estruturas estabelecidas para reerguê-las sobre pilares mais sólidos (pilares mais sólidos é como pigarro para os velhos na boca desses jovens). Há, nos membros de um coletivo, uma arrogância disfarçada de candura; uma fúria disfarçada de pacifismo; lampejos de genialidade que não são nada além de nada.

Notem que os coletivos promovem debates, reuniões, ciclos, mesas, seminários, congressos, ocupações, atos, manifestos, e toda a assistência desses debates, dessas reuniões, desses ciclos, dessas mesas, desses seminários, desses congressos, dessas ocupações, desses atos e desses manifestos são eles mesmos, que se revezam, esquizofrenicamente, no papel de expositor e de público, de debatedor e de mediador, de artista e de platéia, num movimento inviável e incapaz de produzir qualquer coisa que tenha eficácia ou utilidade para além de suas fronteiras (embora sejam, os coletivos, também contra as fronteiras).

Não sei se fui exatamente claro, Raphael Vidal (é para ele e apenas para ele que estou escrevendo). Prometo voltar ao tema em brevíssimo.

Até.

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