PANDEMIA NA PANDEMIA

Vim ao balcão virtual do buteco apenas duas vezes nesse tenebroso 2020: uma para saudar Aldir Blanc – A morte e as mortes com Blanc, aqui – e outra para lhes contar do São João aqui em casa, São João na pandemia, aqui. Nada fácil, esse 2020 da Era de Átila. Disse Era de Átila e explico. Desde sua primeira aparição, eu disse de mim para mim, sem medo do erro: lá vai um vaidoso, sobretudo um vaidoso, abrindo sua caixa de conhecimento para espalhar o pânico e o terror, para ganhar notoriedade. E eu não estava errado. O sujeito, que no Twitter usa o artigo definido “o” antes do próprio nome (é ou não aguda vaidade?), já foi convidado para dar palestras no TSE, para assinar coluna em jornal, dá entrevista a torto e a direito sobre todos os assuntos, enfim, atingiu seu objetivo (eu sabia disso, quero dizer, desde o primeiro momento). E ele está de parabéns por isso. Admiro, no fundo admiro, aqueles que traçam objetivos e os alcançam, ainda que por questionáveis razões.

Vamos, pois, ao terceiro texto do ano (planejei, logo depois do Carnaval, retomar o blog, deixado de lado por inúmeros motivos que não vêm ao caso – e espero que agora eu consiga manter alguma regularidade já que eu senti falta desse movimento, o blog remonta a 2004, são mais de 16 anos, e isso não é coisa pouca). Quero lhes falar, como o título indica (oh!), sobre a pandemia em meio à pandemia.

Estou em regime de isolamento desde a segunda quinzena de março, lá se vão quase 6 meses, acompanhando a vida, o mundo, as ruas, a cidade, o desmonte da vida, do mundo, das ruas e da cidade como eu a conheci. Há muita gente morrendo, nenhuma perda foi tão dura pra mim quanto a de Aldir Blanc (meu pai, meu irmão, meu filho, meu amigo, meu confidente, meu orixá), há muitos bares morrendo, e nenhuma perda foi tão dura pra mim quanto a de Andrajópolis, o apelido que demos ao Café e Bar Almara, pé-sujo na Praça da Bandeira, nas imediações da rua do Matoso, visitado por mim e por meu fiel escudeiro, Leo Boechat, num dos episódios da série Butecos do Edu (aqui, o episódio na Praça da Bandeira).

O Brasil está derretendo diante do mundo. Há milhões de desempregados, e eu sequer vou seguir nessa toada sob pena de deprimir um cadico mais (ia fazer extensa exposição sobre a situação atual, desisti).

Quero terminar falando de outra perda incomensurável (pandemia em meio à pandemia). Não há razão que explique o quanto me bateu mal a notícia do fechamento da Bitaca da Leste, em Belo Horizonte. Quando li a notícia, no Instagram do Luiz Paulo, dono do buteco, senti – mesmo – um baque.

Lá estive em apenas duas ocasiões, ambas muito especiais. Escolhi passar meus 50 anos em Minas Gerais, aportando em Caxambu uns dias antes e chegando a BH na véspera do dia 27 de abril (fui a Caxambu exclusivamente para beber, depois de muitos anos, no Bar do Paulão, um dos melhores botequins de todo o Brasil). No dia do meu cinqüentenário, em Belo Horizonte, lancei De hoje não passa, livro que escrevi a quatro mãos com Julio Bernardo (se você ainda não o leu, compre-o aqui, no site da editora Mórula). E na noite do dia 26, véspera do lançamento do livro, foi na Bitaca da Leste que, ao lado da mulher amada e dois amigos muito queridos, atravessei a linha da meia-noite, fazendo naquela esquina o primeiro brinde da idade nova.

Meses depois, voltei a Belo Horizonte a convite do Humberto Hermeto, responsável pela capa do livro, ele que tornou-se um grande amigo depois que nos reconhecemos na Folha Seca, a livraria do meu coração e responsável por tantos encontros bacanas ao longo dos meus já mais de 51 anos vividos. Fui até BH pra filmar alguns episódios pra série Botecos do Edu e, claro, filmamos na Bitaca.

Quer bar, senhoras e senhores. Que ambiente, que comida, que cuidado com as bebidas, que esquina, e que papo, e que boa-praça é o Luiz. Não vai ter terceira vez e minha memória estará mantida por conta dessas minhas duas idas à rua Salinas, no Santa Tereza (notem como sou local, aqui no Rio falamos em Santa Tereza, em BH, não). Devo a indicação da Bitaca justamente ao Julinho (o Julio Bernardo, explico para os neófitos), responsável, aliás, pelas indicações mais certeiras que já recebi na matéria comida/bebida. Sem a afetação dos ~influencers~ e ~instagramers~ (um “m” ou dois?) que orbitam em volta da temática, o Julinho é cirúrgico.

Vai avançando, assim, o tempo na pandemia. Levando gente embora pra sempre, levando bares, enterrando histórias, soterrando memórias, empobrecendo ainda mais o mundo. Ergo, de pé diante do balcão imaginário, o copo cheio de espessa espuma em homenagem ao Luiz que, tenho certeza, não faz idéia do quanto me fez feliz nas horas que lá passei. E na seqüência, um brinde pro Paulo (dono de Andrajópolis), vítima da COVID-19 que também derrubou meu irmão e meu herói imortal, Aldir Blanc.

Só bebendo pra agüentar o tranco.

Até.

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SÃO JOÃO NA PANDEMIA

Em tempos de pandemia, convenhamos, festa junina é um troço tão distante quanto civilidade no Palácio do Planalto ocupado por Jair Bolsonaro. É utopia em estado bruto, sonho impossível. Porém, ai, porém (apud Paulinho da Viola), eu vivi o impossível. Explico, não sem antes um pequeno arremesso em direção ao passado.

Era 10 de outubro de 2017. Eu estava trabalhando quando me chega uma mensagem no celular – WhatsApp. Era um vídeo enviado pela Morena. Ela, sozinha, numa espécie de filme-selfie, dançava “São João, Xangô menino” cantado por Maria Bethânia. Logo em seguida, uma mensagem curta dizia algo como “eu tenho certeza de que estou grávida”. Chorei, bem me lembro. Até porque poucas vezes a vi tão linda quanto naquele vídeo, os olhos postos como luz primitiva, uma serenidade que eu desconhecia, a mão livre afagando a barriga, o ventre, o por vir.

O exame feito poucos dias depois confirmou: grávida.

Julho de 2020.

Leonel tem pouco mais de 2 anos, estamos em meio à pandemia, em isolamento social, todas as tensões tensionadas, a barra pesando de um jeito que nem sei, a cabeça a mil, é sábado e eu preciso de umas horas pra organizar contas, papéis, me tranco no quarto e Morena e Leonel estão na sala com Ana Cláudia e Rodrigo, a cunhada e o sobrinho, e eu ouço os burburinhos, os gritos, a farra, e eu preciso de sossego ou não termino nunca, até que a porta se abre e ela me pede que eu faça pipoca. Pipoca? Pipoca.

Saio do quarto, tomo a direção da cozinha, faço a pipoca e volto pra função sem olhos de ver, sem ouvidos de ouvir, até que se passa mais meia-hora, ouço a porta bater, é ela de novo com ele no colo.

– Vem, vai começar.

Eu vi.

Bandeirinhas sobre a mesa cruzavam a sala. Pipoca, queijadinha, pão de queijo, cachorro-quente, bolo de fubá e paçoca. Leonel de chapéu de palha, bigode feito a lápis, Morena à caráter, Gonzagão em alto volume e eu fui arremessado pra bem longe, Campo Grande, Clube 34, fogueira, balões cruzando os céus, e eles dois dançavam abraçados, os bracinhos dele em volta do pescoço dela, e o pescoço dela era a barra da nuca nua, e tocou “São João, Xangô Menino”, e eu tive vontade de dizer ao piá que aquilo tudo era mágica – não disse, mas era.

Fogos de artifício espocavam, eu ouvia o estalar das toras de madeira da fogueira que ardia no meio da sala, e havia os cheiros, o cheiro de milho, o cheiro de pólvora, de amendoim, de querosene, e aquele moleque não sabia, ou sabia?, que aquele fogo que ardia tinha nome.

As imagens se sobrepunham: Morena e ele dançando, Morena dançando sozinha, suas mãos em torno do corpinho dele, uma das mãos no celular e a outra acarinhando a própria barriga, Bethânia, e ele pousa a cabecinha em seu ombro, ele a beija, o bigode borra, e eu choro por dentro porque as dores do mundo têm me impedido de qualquer outra coisa que não tentar dar conta de todas elas.

Um dia hei de contar a ele que ela fez São João dentro de casa por amor à vida, por amor a ele, por amor à festa – e que a festa foi tão linda quanto eram as festas em Campo Grande quando eu tinha sua idade.

Quero ser sempre o menino, Xangô.

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A MORTE E AS MORTES COM BLANC

Há oito dias que o ar está ainda mais irrespirável no Brasil. Há oito dias cravou-se em mim uma certeza de forma absoluta: meu celular nunca mais vai tocar com o nome Aldir Blanc piscando na tela, o que acontecia diariamente, praticamente todos os dias, desde 1995. Conheci Aldir, de ser apresentado, em 1994. Mas foi a partir do ano seguinte, 1995, que passei a receber ligações diretamente de seu bunker, na rua Garibaldi, a última delas no dia 08 de abril desse inacreditável 2020.

Há oito dias que penso em escrever o que escrevo agora – até mesmo como uma forma de aliviar quem tanto maldisse as condições de sua morte, as condições de sua despedida (que não houve, salvo para a mulher, duas das filhas e uma das netas), a falta de homenagens e que tais. Houve, é verdade, o inesquecível gurufim virtual promovido pela turma do Bip Bip, capitaneado pelo Prata, mas sem o corpo presente, condição de um gurufim de verdade.

E lembrei-me, enquanto pensava exatamente no que escrever, de dois momentos que me marcaram muito, talhados por ele, pensados por ele, o Bardo da Muda.

Estamos em 2002.

Toca meu telefone logo cedo, e é o Aldir:

– Edu, você tem algum amigo médico a quem possa pedir um troço, certo de que ele não te diria não? Tem que ser médico, preciso desse cara todo de branco, ainda hoje pra…

– Serve dentista? Tenho um amigo que jamais me negaria um pedido.

Resumo da ópera.

Pouco antes das cinco da tarde eu e Vidal, meu amigo mais antigo, ele todo de branco, estávamos bebendo Jack Daniel´s com o Aldir em seu escritório. Uma garrafa inteira depois tomamos a direção da Maia Lacerda. Aldir foi, do banco de trás – eu dirigindo, Vidal de carona -, repassando os detalhes com o Vidal.

Tomamos uma cerveja no botequim ao lado do edifício onde viviam dona Helena e Ceceu Rico, pais do Blanc.

Subimos.

Ceceu abriu a porta tenso. Aldir apresentou o médico:

– Doutor Vidal, uma sumidade.

Tomamos o rumo do quarto do casal.

Vidal examinou dona Helena, fez festinha em seu joelho (seguindo à risca o roteiro blanquiano), ergueu-se, pôs as mãos no ombros do Ceceu e disse o texto:

– Dona Helena está ótima, seu Alceu, ótima!

Saímos tendo deixado Ceceu aliviado e dona Helena com a expressão menos carregada, ela que morreria no dia seguinte.

Aldir ligou pra me dar a notícia, me mandando (de novo) agradecer profundamente ao Vidal por conta da última noite da mãe com alguma dose de esperança, que ele atribuía ao prognóstico dado pelo Vidal depois de muito uísque e cerveja.

Estamos em 2015.

Durante o mês de maio fui alguma vezes ao Hospital da Beneficência Portuguesa, na Glória, pra visitar o Ceceu – sempre a pedido do Aldir.

Até que acordei, no dia primeiro de junho, com um telefonema dele:

– Edu? Meu pai morreu.

Eu ainda começava a lamentar quando ele emendou:

– Mas um papa-defunto seqüestrou o corpo.

– Oi?!

– É, tá levando meu pai pra Belford Roxo pra dar banho e o cacete, pra só enterrar amanhã, depois do velório. Nem fodendo, Edu! Quero enterrar meu pai hoje, sem velório, sem missa, sem porra nenhuma!

Inteire-me rapidamente do ocorrido e tratei de traçar um plano pra agilizar o enterro praquele mesmo dia. Peguei com a Mary o telefone da funerária que, autorizada por ela, levava Ceceu pra Belfort Roxo com tudo acertado pro velório e enterro no dia seguinte. Liguei pra funerária, e Aldir me ligando sem parar pra saber de tudo. A funerária ligou pro celular do motorista que levava Ceceu pros preparativos. O motorista me ligou. Acertamos preço pra que ele desse meia-volta e tomasse o rumo do cemitério em Botafogo. Cheguei cedo no São João Batista, onde fica o jazigo da família e obtive sinal verde pro enterro no mesmo dia às quatro da tarde. Fui dando as notícias ao Aldir, que vibrava:

– Eu sabia que tu ia resolver essa porra!

Pouco depois das três chegou o corpo.

E pouco antes das quatro, Mello Menezes, Mary, filhas, netas, Maneca e ele, Aldir – com um sorriso de canto de boca que não esqueço.

Aldir carregava um isopor cheio de gelo e cerveja. Estendeu-me uma, deu-me um puta abraço, deu de se despedir do pai, ali mesmo, na entrada do cemitério, apontava pra mim e repetia:

– Eu sabia que tu ia resolver essa porra!

De 2015 em diante, muitas vezes – muitas vezes! – Aldir fazia a blague:

– Edu, quando eu morrer quero que você providencie meu enterro exatamente como foi o do meu pai.

Eu ria, mandava ele à merda, e dizia que estava ali um pedido impossível de atender. Que ele era Aldir Blanc, que quando chegasse o dia, que haveria de demorar muito, o Rio de Janeiro e o Brasil promoveriam uma roda de samba de escol em cada esquina. Os bares ficariam cheios, os camelôs fariam a festa, as baianas venderiam pastel como nunca dantes e faltaria gato pra tanto churrasco. Falanges e mais falanges baixariam nas porta-bandeiras e o furdunço não teria hora pra acabar. Ríamos sempre, mas ele sempre voltava ao assunto.

– Você se vira, mas nem fodendo que eu quero velório!

Aldir era bruxo.

Letrou a morte da mãe.

Letrou a morte do pai.

Escreveu o roteiro de seu encantamento.

Despediu-se como quis e eu não pude nem fazer um último carinho naquela testa. Filho da puta!

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O MOLEQUE FUTEBOL – PARTE 2

Publiquei, anteontem, retomando a rotina de pousar os cotovelos no balcão imaginário do buteco, “O moleque futebol – parte 1”, aqui. E eis-me aqui, novamente, para a parte 2, a parte final.

Assim terminei o texto de terça-feira: “Até que veio a sexta-feira, véspera da final da Libertadores de 2019.”. É sobre o que quero lhes contar, sobre a sexta-feira e sobre o sacrossanto sábado.

Eu já havia decidido, na quinta-feira, que não trabalharia na sexta: tenso demais, noites mal dormidas, uma expectativa de 38 anos guardada no incorrigível coração rubro-negro – não iria trabalhar.

Acordei cedo, pus Leonel no carro – minha sogra a tiracolo pra qualquer emergência de ordem médica – e tomamos o rumo da Gávea. Eu queria porque queria apresentar Leonel à sede do Clube de Regatas do Flamengo.

Tinha um porquê. Para além da graça de levá-lo ao Flamengo pela primeira vez, eu queria repetir, sob outra ótica, o que vivi em 2009, na véspera do Flamengo x Grêmio que fez o Flamengo hexacampeão brasileiro, no Maracanã, quando também estive na Gávea. Aqui, trecho do texto em que relato aquele sábado:

* o sábado foi, de novo, rubro-negro do início ao fim. Fomos à Gávea pela manhã e foi bonito demais ver a sede do Flamengo abarrotada de gente de todo o Brasil (eu, Candinha, minha menina e o Henrique). Foi bonito demais ver o sorriso do moleque diante dos troféus conquistados pelo Flamengo, e eu já era, àquela altura, o menino de calças curtas e de camisa listrada de mãos dadas com meu pai. Lá encontramos com Flavinho e Betinha, e ela trazendo no colo, junto do peito, o Felipe, com apenas 28 dias de vida, de boné rubro-negro e tudo! Leo Boechat e seu primo, Jean Boechat, o mais recente cidadão tijucano (o malandro apaixonou-se, de vez, pela Tijuca!), juntaram-se a nós e fomos à crise belga na Adega do Pimenta, onde a Sra. Boechat compareceu levando a Helena, uma de minhas afilhadas. De lá, partimos para São Judas Tadeu, no Cosme Velho, onde fizemos os devidos trabalhos;” . Esse texto, na íntegra, pode ser lido aqui.

Pois bem. Em 2009, encontrei a Betinha na Gávea com Felipe, seu filhote, no colo – ele com 28 dias de vida. Em 2019, dez anos depois, também na véspera de uma decisão, eu queria estar na Gávea com meu filho no colo, e ao lado de sua madrinha – justamente a Betinha. A vida dá voltas e faz desenhos bonitos demais.

Muita emoção, na Gávea. Muita.

Fui apresentar (!) a estátua do Zico a Leonel e chorei como se fosse ele, Arthur Antunes Coimbra, em carne e osso, diante de mim. Beijei a estátua, Leonel a beijou, fizemos fotos, minha sogra fingia achar tudo normal, Leonel refastelou-se naquele espaço, passou a achar (imaginei) que o mundo é muito mais divertido em vermelho-e-preto.

Correu a sexta-feira, mal dormi e no sábado, de novo, tomei Leonel pelas mãos para levá-lo à igreja de São Judas Tadeu, o padroeiro do Mais-Querido. Eu e ele de Flamengo. No trajeto, ele na cadeirinha no banco traseiro, fui cantando o hino, gritos da torcida, namorando seus olhos pelo retrovisor, embaçando a vista, até que estacionei no pátio interno da paróquia, no Cosme Velho.

Não eram 8 da manhã ainda e a igreja parecia arquibancada do Maracanã em dia de jogo cheio: só se via camisa do Flamengo, Leonel entrou em êxtase diante da multidão vestida de rubro-negro, rezei com ele no colo, fomos à gruta, acendi vela, e não segurei a emoção quando o levei, já na saída, pra ganhar a benção do padre:

– Meu filho, que Jesus te abençoe, que Nossa Senhora Aparecida te cubra de bençãos, que São Judas Tadeu guarde teu coraçãozinho e [pondo a mão no peito do maragatinho] que você lute hoje, meu filho, pra que você se sagre campeão com o Flamengo!

Eu, com minha guia vermelha-e-preta à mostra, soluçava diante do padre para assombro do moleque, que me olhava com olhos de o-que-foi-papai?

Foi chegando a hora do jogo.

Tomei o rumo do bar.

Ancorei no balcão do Bar Madrid, a bandeira em volta do pescoço, cerveja, o maracujá da casa (o meu preferido dentre os maracujás da cidade – eu ia dizer o melhor da cidade mas cada um tem o seu melhor e eu não vou repetir a postura abjeta dos jabazeiros do Instagram).

Sobre a bandeira, um parênteses. Tal bandeira pertencia a meu avô materno, Milton – torcedor do Flamengo, o que foi pela primeira e última vez ao Maracanã em 1950, na final contra o Uruguai. Não sei se procede ou não, mas meu avô dizia que bandeira oficial era essa, com o símbolo vermelho sobre fundo preto – ele maldizia a que trazia o CRF em branco. Em ocasiões especiais, como era o caso, eu a tiro do armário – onde fica muitíssimo bem acondicionada.

Tive mais uma síncope, como tantas ao longo da semana passada, quando chegaram ao Bar Madrid, de surpresa, Morena e Leonel – os dois de vermelho-e-preto, os dois de Flamengo e, sendo a Morena torcedora do Athlético Paranaense, isso me comoveu ainda mais.

Tinha que ser lá. Por mandinga, por tradição, por força do rito.

Terminar a noite completamente encharcado pela chuva que desabou na cidade na reta final da épica partida abraçado com a Morena – éramos a expressão do êxtase, da alegria, da mágica que foi aquele jogo – foi a coroação de um tempo que eu não vivia há pelo menos 10 anos, desde a conquista de 2009, ou sabe-se lá se não há 38 anos.

Quando eu não sonhava com a Morena.

Quando eu não sonhava com um filho.

Quando eu não era tão feliz quanto sou agora.

Até.

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O MOLEQUE FUTEBOL – PARTE 1

O último texto publicado aqui, no blog – esse troço em desuso desde que as ~redes sociais~ começaram a ocupar pra valer o tempo das pessoas – foi em junho de 2017.

Movido por sugestão contínua da Morena e da Marianna Araujo, duas das maiores entusiastas desse espaço, e empurrado pra cá pela enxurrada de emoções vividas no final de semana que passsou, volto ao balcão virtual do buteco depois de quase dois anos e meio.

Mas a ocasião de fato pede. Feito o brevíssimo intróito, vamos ao que quero lhes dizer.

Quando meu pai me levou ao Maracanã pela primeira vez, em 1969, eu era filho único, vascaíno (papai e seu pai, meu avô, vascaínos fanáticos) e não fazia idéia do que era aquele gigante de concreto em silêncio que meu pai me apresentava tão orgulhoso (a foto não me deixa mentir).

Em 1974, no Maracanã, novamente levado por meu pai, e pelas mãos de Arthur Antunes Coimbra, o Zico, virei Flamengo (contei sobre isso aqui). Eu já não era filho único e o Maracanã, pra mim, ainda era uma incógnita.

Em 1978, meu pai me leva de novo ao Maracanã – para meu primeiro jogo de futebol in loco. A meta era me fazer ver o equívoco que foi ter trocado de time em 1974. A final era Vasco e Flamengo e o empate era do Vasco. Meu irmão (vascaíno) também estava. O Deus da Raça estragou os planos do meu pai e o Flamengo tornou-se mais sólido que nunca dentro de mim. Conto sobre esse jogo aqui. A partir daquele jogo – meu primeiro, repito – o Maracanã passou a ser sagrado. E eu nunca mais o abandonei.

Um pequeno corte no tempo, um arremesso bem mais pra trás.

Cresci, molecote, ouvindo a família contar (a mulherada da família, sobretudo, as velhas, as avós, a bisavó e as tias é que contavam as histórias) que meu avô, pai de mamãe, fora à final de 1950. O segundo jogo de sua vida no Maior do Mundo. E o último. Vovô foi encontrado dois dias depois, embriagado, num botequim no Engenho Novo. Jurara nunca mais pisar no Maracanã. E nunca mais pisou. E eu nunca esqueci dele diante de mim, o Continental numa das mãos, o copo com Teacher´s na outra, me dizendo com tom grave:

– Cuidado com o Maracanã! Cuidado!

Eu quero fazer a primeira confissão: até o dia 28 de junho de 2014, eu tinha 45 anos de idade, eu temi repetir o gesto do meu avô e abandonar o Maracanã pra sempre. Na tarde/noite daquele 28 de junho, quando fui ao Maracanã com a Morena pra ver Colômbia e Uruguai pela Copa do Mundo, quando a Colômbia venceu e eliminou o Uruguai, eu chorei por ter vivido a sensação de ter vingado meu avô. E nunca mais tive medo do Maracanã. Foi um rito de passagem, uma libertação, um acerto de contas com o Tempo e com os fantasmas que povoam minha vida.

Estamos em 31 de maio de 2018. Leonel nasce perto da meia-noite – a melhor coisa que me aconteceu na vida. Filho de dois rubro-negros, a Morena é torcedora do Furacão (“a camisa rubro-negra só se veste por amor”), Leonel já chegou me fazendo cometer as loucuras e as insanidades, as belezuras e os desvairios que um filho justifica. Arriei ebó na maternidade depois de ter feito promessa pra Nossa Senhora de Nazaré no Círio de 2017 (já sabíamos que ele estava a caminho) e prometi, no lufa-lufa das primeiras horas de vida dele, que só voltaria a pisar num estádio de futebol com ele.

Camisa do Flamengo na porta do quarto, roupinha vermelha e preta, todas aquelas mandingas e eu fui criando, ao longo do primeiro ano de vida do piá, a expectativa que, presumo, é a expectativa de todo pai, de toda mãe, que é muito envolvido, que é muito envolvida com futebol e com seu time: a de fazer a cria conhecer sua paixão e se apaixonar por ela.

A Morena foi sensata desde o início. O moleque, nascido no Rio, carioca, haveria de querer torcer pra um time do Rio, não pelo seu Atlético Paranaense (sem o agá). Afinal de contas somos todos rubro-negros e foi assim que fui apresentando o Flamengo pra Leonel desde cedo. Um copo que pisca. Um chocalho. A camisa. As cores. O hino. Gols na TV, o Campeonato Carioca de 2019, o Brasileirão 2019, a Taça Libertadores 2019. Assim mesmo, nesse ritmo.

E a vida foi ganhando outro ritmo por causa do futebol (de novo). E digo de novo porque o futebol é maior que a vida, e conseqüentemente pauta a vida de um homem, dita seu ritmo, pontua a passagem do tempo, emociona, comove, faz rir, faz chorar. O futebol ganhou outras cores depois do Leonel e nessa reta final da Libertadores.

Cena comum nas últimas semanas: eu com amigos no bar, bebendo e falando da grande final, Flamengo e River Plate, contando sobre o final do Brasileiro em 1980, as finais de 81… E invariavelmente alguém me interrompia:

– Mas Edu… ninguém aqui na mesa havia nascido em 81…

Eu era a múmia, nesses momentos. Eu era arremessado violentamente em direção ao passado. A memória me vinha viva, ardendo, eu com 11, 12 anos, 1980, 1981, conversando com gente mais velha a quem eu invejava de leve por ter visto jogar Garrincha, por ter visto jogar Pelé, por ter visto os tricampeonatos do Flamengo, Rubens, Dequinha, Pavão, e eu era ali o homem que experimentava a sensação invertida que o Tempo me proporcionava.

Leonel era o vértice.

Eu o pus pra dormir todos os dias, em 2019, conversando com ele, baixinho, sobre futebol. Sobre o Flamengo. Sobre os jogos que vi e os jogos que veríamos, eu e ele.

Não foi nada fácil atravessar essa última semana até o sábado.

Em vários momentos eu fui o menino no colo do meu pai, embasbacado e maravilhado diante do palco gigante das gigantes emoções que só o futebol proporciona. Enquanto eu era o menino no colo do meu pai eu embalava o menino que me arrebata o coração e a alma desde que nasceu, há pouco mais de um ano e cinco meses. Fui e voltei diversas vezes de 1969. Ouvi meu avô me alertando pros perigos do Maracanã e do futebol. Dei mais de uma volta olímpica no colo do Zico. Como num filme, vibrei com o mesmo Zico, pouco depois, cobrando escanteio e com o Rondinelli saltando e fazendo a bola morrer no gol do Vasco. Meu pai me arrastava pra fora do estádio, pra onde voltei e volto até hoje. Explodi nas arquibancadas em 1980 vendo o Nunes fazer ventar. Passei a noite em claro pra ver o Flamengo botando os ingleses na roda, em dezembro de 81. Chorei e não foi pouco.

Até que veio a sexta-feira, véspera da final da Libertadores de 2019.

Volto amanhã pra lhes contar como foi.

Até.

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A TIJUCA E O FONDUE

Escrevi certa vez (há 10 anos, para ser mais preciso): “Não há um único casal de noivos tijucanos – há ainda noivados formalíssimos na Tijuca – que não anseie sofregamente pela panelinha de fondue, que eles chamam, na expectativa de aplacar a cafonice do desejo – e o tiro sai pela culatra – de “aparelho de fondue”.”.

Lembrei-me disso porque hoje, sexta-feira, fomos convidados – eu e a Morena – para um fondue. Preservarei, em tempos de vazamentos constantes de grampos e outros bichos, o nome do anfitrião. É, evidentemente, um tijucano. E essa relação entre o tijucano e o fondue sempre me chamou a atenção e me despertou um agudo interesse.

Basta que os termômetros rompam a marca dos 20 graus e nas ruas da Tijuca já se vê a folia: luvas, gorros, anoraques, meias grossas e felpudas, uma excitação típica das excursões de velhos e velhas a Gramado e Canela. Muda o vestuário, muda o cardápio.

Os restaurantes da região dão início aos festivais de caldos e sopas, queijos e vinhos, e, é claro, de fondues. E como não há tijucano, vivo ou morto, que não tenha em casa sua panelinha de fondue, acaba chegando o dia do inevitável convite de todos os anos.

No meu caso, é hoje.

panelinha de fondue

O anfitrião, é evidente, confirmou o evento depois de consultar o serviço de meteorologia. A previsão para a noite de hoje é de 17°C – para amanhã à noite, 15°C. Isso, pra você que me lê e não é do Rio, para um tijucano, para um zona-norte, é um evento.

Já separei as roupas que usarei hoje à noite e que ganhei da Morena em Curitiba, num final de semana em que enfrentamos menos de 3°C: uma meia de montanhista, meu único par de botas, uma blusa de tecido bem grosso e um casaco mais pesado do que eu e que compramos em Buenos Aires durante um inverno. Meu gorro, é claro, e o cachecol. E sei que com os demais convidados não será diferente: muita lã, muita pele de lontra (minha bisavó tinha uma estola lindíssima que minha mãe guarda até hoje num freezer exclusivamente usado para tal), muita expectativa pelo evento.

Para os que não têm a sorte de receber um convite desses, uma dica: no Bar da Pracinha, no Alto da Boa Vista, aqui, eles não apenas servem fondue como oferecem ponchos aos que lá chegam com sede de vinho e frio. É um espetáculo à parte.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO E AO FUTURO

Fiz publicar, na semana passada, três textos falando dos irremediáveis arremessos em direção ao passado que ora sofro espontaneamente, ora provoco, como quem prepara a própria cama. Um aqui, outro aqui, o terceiro aqui. Cansa, meus pouco mas fiéis leitores. Cansa e desgasta. Até febrícula eu tive, achei que fosse morrer (sou um trágico), e só as mãos da Morena nas minhas, com aquele sorriso deixa-de-ser-bobo e um antitérmico, fizeram a febre baixar.

Vai daí que, a três dias do 27 de abril, quando completo 48 anos de idade, quando estarei a dois anos de poder cantar “eu vim aqui prestar contas de poucos acertos, de erros sem fim…”, o hino informal dos 50 anos composto por um de meus orixás vivos, o Bardo da Muda, meu mais-querido Aldir Blanc, a quem vi cantar a obra-prima num Canecão lotado em 1996 (tinha eu 27 anos de idade…), resolvi interromper os arrancos violentíssimos em direção a um passado mais remoto e escrever, como se falasse em voz alta, de mim para mim, pela primeira e última vez nesta semana, que é sempre uma semana turbulenta. Dirão alguns que é o tal inferno astral. Não sabem de nada. São apenas os arremessos, os arrancos, a saudade, sangue, suor, mortes, lágrimas e gargalhadas diante das mais bonitas lembranças que ficaram pelo caminho (e eu vou sempre poder voltar para catá-las, uma a uma, sempre que eu quiser).

Ilustra o texto (imagem abaixo), um dos mais bonitos e significativos presentes que já ganhei. Na foto, tendo ao fundo um defumador que acendi naquela tarde de 26 de abril de 2009, um domingo (o mesmo dia da semana em que nasci), a imagem de São Jorge, a imagem de Ogum que guardava o gongá do terreiro de xambá da avó de meu compadre Luiz Antonio Simas que me deu justamente a imagem de presente no dia em que comemorei meus 40 anos, e de véspera (sou um fóbico, nem sei como fui capaz de fazer isso). A cena foi hilária e comovente, e é expressão máxima da verdade: Simas chegou trazendo nas mãos um embrulho feito de jornal, aos prantos, e foi aos prantos que ele me entregou o objeto, por tudo sagrado e significativo demais pra ele. Explicou o que era, de onde vinha, e ali, não tenho dúvida, estreitou-se ainda mais o laço que nos une.

Imagem 037

Minha avó Mathilde estava lá. Dani estava lá. As duas não estão mais aqui. O Benjamin ainda não existia, hoje ele é meu afilhado-de-rua, homenagem maior que um homem pode receber dos amigos – estreitou-se mais o laço. A Helena já existia, era um pinguinho de gente, e estava lá. Hoje é minha afilhada, honra que me foi dada por seu pai, Leo Boechat, que hoje está mais longe, em Curitiba, mas justo por isso, vá entender, tão por perto. A Morena não estava lá. Não sabíamos sequer da existência um do outro. Hoje ela está, e não concebo viver sem tê-la por perto, ao meu lado, aqueles olhos cor de mel que me nocautearam em setembro de 2011, quando eu não tinha certeza se sobreviveria aos revezes que aquele ano me reservou. Meus dois irmãos estavam lá. Fosse hoje, apenas um estaria. A vilania associada à amargura mata, embora mate de satisfação quem vive sob a égide da amargura, morrendo em vida. Dois irmãos vieram de São Paulo, Bruno Ribeiro e Favela. Favela está vindo ao Rio em maio para nos visitar e para comer o Barreado de Morretes. Meu irmão e duas vezes meu compadre, Fernando Szegeri, não estava lá. Iya Sandra, que não estava lá e também não está mais aqui, o aconselhou a não vir. Eu ainda não conheço seu quarto filho, hei de reparar tal falha o quanto antes. Felipinho deu-me de presente um toca-discos e levou um autêntico fogão-jacaré pra esquentar a feijoada que preparei. O Bar do Chico esteve à frente da churrasqueira, fartamo-nos de churrasco de carne-de-sol. Mas não fazia sol, naquele 2009. Aquela comemoração de 40 anos, eis que é preciso, sempre, festejar a graça de estarmos vivos, foi mais uma tentativa de drible no curso de um jogo duríssimo que eu antevia pela frente.

A festa foi no terreno dos fundos do prédio da Haddock Lobo onde moraram meus avós paternos, Oizer e Elisa. Eu já morava lá. Hoje não moro mais, comprei o apartamento e quem lá vive é o mesmo sujeito que me deu de presente um toca-discos e que me emprestou o fogão-jacaré (a querosene, diga-se). Meus avós paternos, e o avô materno, não estavam lá. Não estava lá também minha avó Branca, que tomei emprestada da Morena.

Eu ainda não conhecia a cidade de Curitiba. Eu ainda não conhecia o Fábio Seixas, eu não conhecia o Trajano, eu não conhecia o Guga, eu não conhecia o Gus, não conhecia a Kelly, não conhecia o Felipe, a Vânia, os Iurk, a Marília, não conhecia Rodrigo Gava, um de meus líderes espirituais, Ana Maria e seus dois piás, não conhecia a Desi, o João e a pequena Ana Clara, não conhecia a Priscila e o Alexandre, suas meninas, uma gente que faz de Curitiba também a minha aldeia, eu não conhecia o Bar do Tito que minha Morena, demonstrando uma capacidade impressionante de saber o que me vai na alma, fez questão de me apresentar no instante seguinte em que pusemos os pés em Ponta Grossa pela primeira vez juntos – que bar, que balcão, que chope. Eu preciso levá-la a Caxambu pra conhecer o Bar do Paulão que o Leo Boechat já conhece – por indicação minha. Eu ainda não conhecia o Julinho, ainda não existia o Sabiá, um de meus bares preferidos em São Paulo, eu ainda não conhecia tanta gente, tanta coisa, tudo isso em oito anos – uma vida, não? Eu ainda não conhecia o Toquinho, o Toquinho veio pro Rio com a Morena no final de 2012, o Toquinho também não está mais aqui mas hoje temos a Frida, que faz companhia ao Pepperoni que deu tanta vida ao Toquinho quando ele chegou já bem velhinho. E quem me deu tanta vida quando vida me faltava, também quando veio de vez o Toquinho, foi ela, a Morena. Eu não conhecia Paris. Fomos eu e Morena pela primeira vez juntos à Paris. E pela segunda vez, também juntos. Voltei à Portugal, apresentei minha família portuguesa à Morena, meus queridos de Setúbal, em Portugal ainda conheci a Tainá (do Paraná, como a Morena), o Orlando e o pequenino Simão.

Fomos à Fátima, em Portugal. Chorei em cada igreja a que fomos. Eu choro no dia do Círio de Nazaré. Eu chamo Nazaré de Nazinha. Eu sou devoto de São Judas Tadeu. Eu tenho ele ao lado da Nazinha na cozinha de casa. São Sebastião também guarda nossa casa. E Orunmilá. E Exu. E Tupinambá, com quem não falo há um bom tempo.

Nós queremos muito um filho. Eu tenho pra mais de dez afilhados. Eu quero ter um filho. Haveremos de chamá-lo Leonel, se for menino. Eu deixei de fumar, larguei os dois remédios pra pressão alta que eu tomava todos os dias, eu amo tomar mate com a Morena nos dias mais frios, eu morro de saudade dos meus fantasmas, eu morro de medo de morrer mas eu não tenho medo dos mortos. Vidal é, acho – será? – o meu amigo mais antigo, a Roberta é minha amiga mais amada, como se fosse também a mais antiga. Tenho visto pouco meu pai. Morro de saudade do Fausto Wolff e dos nossos porres no Bar Brasil ou no Lucas, em Copacabana, do Marco Aurélio, do Fernando Toledo, vejo menos o Toledo do que eu gostaria, vejo menos a Gloria do que eu gostaria, tenho um compromisso agendado para quando fizer 18 anos a filha da Roberta, lembro com nitidez impressionante do gol anulado feito pelo Zico na Copa de 78, lembro com nitidez impressionante do gol do Rondinelli no final de 78, quando meu pai me levou pra ver uma final no Maracanã pela primeira vez, morro de saudade do Maracanã, morro de saudade da Rosa, que sei que morre de saudade de mim. A Morena levou, certa vez, o irmão da Rosa pra entrar no gramado de mãos dadas com o time do Flamengo. Quero repetir o número com um filho nosso (acho que nesse dia eu quase-morro). Tenho saudade do Brizola. Tenho saudade da dona Zezé. Tenho medo de médico, já tive mais. Tenho amor ao Rio de Janeiro, à Tijuca, e vão se passar 500 anos, e eu nunca vou me esquecer do dia em que encostei-me com a Morena, trêmulo por dentro, no balcão do Bar da Dona Maria, que não existe mais.

Quando eu morrer – e que demore pra esse dia chegar! – quero ouvir De que callada manera no velório. Se eu morrer antes, Leo Boechat não estará no meu velório. A Morena sabe que é o que eu quero que toque. A Morena sabe. A Morena.

Por tudo, é por ela e pra ela que, na minha fantasia, farei 48 anos depois de amanhã. Por ela e pra ela olho pra frente sem perder de vista suas mãos, seus olhos cor-de-mel, sem deixar de ouvir a sua voz firme e a sua doçura que conheci por conta da mesma tenacidade e do mesmo afeto, do mesmo carinho que ela teve para descobrir em mim a vida quando eu achei que ela não mais existia. Se isso não for amor, cheguei até aqui e não aprendi nada.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO (03)

Em cinco dias, completo 48 anos. Em vinte e cinco dias, 17 de maio, completa 70 anos a minha mãe. E em trinta dias exatos, 22 de maio, meus pais completam 49 anos de casados (há 49 anos e trinta dias, portanto, foi tirada a foto abaixo). Da esquerda pra direita estão Milton e Mathilde, meus avós maternos, mamãe e papai no meio, Elisa e Oizer, meus avós paternos. Estão todos mortos, meus quatro avós, mas estão mais vivos que nunca, ainda mais nesses tempos que antecedem os 27 de abril de todos os anos. Meu avô Milton era católico, da Congregação Mariana. Minha avó Mathilde, espírita fanática, fã de Chico Xavier, só lia livros psicografados e Kardec era seu ídolo. Minha avó Elisa era judia mas freqüentava, escondida de meu avô, um centro espírita na Praça da Bandeira. E meu avô Oizer, também judeu, fugido de Odessa para o Brasil, foi mascate, morou na Campos da Paz, depois na Santa Alexandrina, era alucinado por telecatch, e por fim morou na Haddock Lobo – onde morreram, ele e minha avó. Sendo mais preciso, vô Oizer morreu no Hospital Evangélico, na rua Bom Pastor, e minha avó Elisa, anos depois, no Lar das Damas Israelitas, na rua Afonso Pena. Meu avô Milton morreu no Hospital Pan Americano, na rua dos Araújos, e minha avó Mathilde no Hospital da Venerável Ordem Terceira da Penitência, onde eu nasci. Todos na Tijuca. Minhas avós viveram bastante tempo depois de viúvas embora, bem me lembro, no enterro do meu avô Milton as amigas de vovó dissessem, às escâncaras:

– Coitada da Tidoca… não dura dois meses…

Viveu muitos anos.

casamento papai e mamãe

Minha avó Mathilde morreu no hospital em que nasci  – terá sido no mesmo quarto?

Morei por doze anos, com a Dani, no mesmíssimo apartamento de meus avós paternos, na Haddock Lobo – apartamento que comprei no ano passado e onde hoje mora um grande amigo meu. Dani morreu no Hospital Israelita (israelita, israelita, israelita), na rua Lúcio de Mendonça, também na Tijuca.

Ontem, por conta do feriado (sem banco), fui ao apartamento buscar o dinheiro do aluguel e tomar um café com o Felipinho, o grande amigo meu que vive lá. Meus olhos encheram d´água quando entrei no apartamento. Impossível que não fosse assim. Não apenas pela memória, cheia de boas lembranças e muitas dores, dos meus doze anos lá. Mas também, e ontem principalmente, pelas memórias de minha infância, quando íamos todos lanchar na casa de meus avós, aos domingos. Tínhamos, apenas, a preocupação de manter acesa a chama dos encontros e os olhos voltados para o que tínhamos de melhor.

Meu avô ia, nas tardes de domingo, na Padaria Estudantil, na esquina da Haddock Lobo com a Almirante Gavião, e comprava uma quantidade indizível de brioches, queijo prato, presunto, refrigerantes e sucos. Dizia, sempre:

– É a melhor padaria do mundo! – foi de quem herdei, evidentemente, o hiperbolismo afetivo que trago em mim.

Íamos todos, eu, meus irmãos, meus pais, às vezes meus tios e meu primo. Mas é curioso, no embaralhar da memória, que minhas visões daqueles lanches de domingo sejam apenas do quadro imenso que ficava numa das paredes da sala retratando um velho judeu, barba e bigodes brancos, um shofar numa das mãos; de minha avó fazendo sem parar os sanduíches e de meu avô, que só sossegava quando o último brioche era comido por um de nós:

– Não é o melhor do mundo? – perguntava pra mim.

Havia também algo que me impressionava demais naquele apartamento: um cofre cinza, enorme, no primeiro quarto à direita no corredor.

– Não há nada dentro! – dizia sempre meu pai quando me percebia atônito diante daquele segredo de aço.

Podia até não haver – eu nunca soube se foi aberto, se continha ou não continha alguma coisa.

Sei, apenas, que o cofre hoje sou eu.

Há muito dentro de mim.

No início dessa semana sonhei com meu avô Oizer.

Dei de descrevê-lo à Morena, que não o conheceu.

Seus olhos cor-de-mel, tão lindos quanto os olhos azuis-impressionantes de meu avô – ele que vivia na Praça Afonso Pena, onde moramos hoje, jogando carteado e falando em ídiche com seus amigos, sempre que eu passava vovô me segurava pela mão, danava de falar em ídiche, ria muito, e sempre punha algum dinheiro no bolso do meu short – se encheram d´água (como os olhos de minha mãe anteontem, como os meus ontem), perguntei o porquê:

– Foi com ele que eu sonhei.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO (02)

Em oito dias, completo 48 anos. E em trinta e oito dias, 17/05, completa 70 anos a minha mãe. O Brizola morrera há poucas semanas e eu estava, naquela noite em 2004, num samba que acontecia no Guanabara, em Botafogo, de cara pra Baía, pro Pão de Açúcar. Estava no mesmo samba meu irmão querido, Fernando Szegeri. À certa altura, o couro comendo, noite alta, chega Beth Carvalho. E quando a Beth Carvalho chegava numa roda, meus poucos mas fiéis leitores, o couro comia ainda mais forte. Quando nos vimos, durante o abraço, lamentamos o morte de nosso eterno e saudoso governador Leonel de Moura Brizola. E na primeira oportunidade que teve, entre um samba e outro, Beth deu de cantar o Hino da Independência. Chorei. Choramos todos. Chorou de esguichar, Fernando Szegeri. E eu não sei se movido por essa emoção ou se embalado por ela, fato é que o Fernando chamou-me à beira da baía e me disse, entre soluços:

– Quero que sejas o padrinho da Iara!

Eram – o quê?! – duas e meia, três da manhã, e ele bateu o telefone pra Railídia, mãe da Iara, pra comunicar o fato. Falei também com a atônita Railídia, acordada àquela hora por tão inusitado telefonema, e eu era então padrinho da sexta criança (abaixo, foto da Iara que enfeitava minha geladeira).

iara na geladeira

Cinco anos antes, 1999, Mariana Blanc deu-me a Milena de presente. Tinha eu só 30 anos de idade. Hoje, quase-morro de orgulho da médica e da mãe do Danilo, bisneto do Aldir, neto da Mariana, tataraneto do saudoso Ceceu.

Foram chegando em fila, os afilhados. Depois da Milena, o Alfredo, filho da Raquel e do Alfredo. Em 2000, em dezembro, foi a vez da Ana Clara, a única que foi batizada na igreja, e na de São Judas Tadeu, exigência minha docemente acatada por seus pais, Magali e Ricardo. Depois da Ana Clara, o Raphael, que era filho de meus vizinhos de porta. Pouco depois, a Dhaffiny, filha da Lu e do Buba. Foi quando chegou-me a Iara.

Hoje sou também padrinho da Rosa, irmã da Iara, filha da Stefânia e do Fernando. Da Helena, que o Leo Boechat, à moda Szegeri, movido pela emoção do momento, disse-me de olhos cheios d´água e de cana:

– Quero que você seja também padrinho da Helena… – que já tinha padrinho, assim como a Iara, mas e daí? Esses afetos são de multiplicar, não?

Estávamos no final de 2011, um ano duríssimo pra mim, quando Luiz Antonio Simas e sua Candinha me deram Benjamin pra ser meu afilhado. Afilhado-de-rua, emendou o pai. Contei-lhes aqui sobre o episódio, que me emocionou sobremaneira.

Veio 2012, com ele veio vindo a Morena, e sua afilhada, a Nathalia, fez autodeclaração – é minha afilhada. A décima. Mas tem a Maria Helena, hoje uma mulher, que vira-e-mexe, como recentemente, deixa escapar um dindo falando comigo.

São, essas crianças (que já não são mais crianças em sua maioria), fonte permanente de apaziguamento das tais tormentas que me acometem, vez por outra. Eu mesmo, que às vezes teimo com a calça curta, a camisa listrada, o time de botão sempre ao alcance da mão guardado com talco dentro de uma lata de cuecas, sou um deles. Procuro pelas minhas madrinhas e não as encontro, salvo lá atrás, cada vez mais longe. Procuro por meus primos, minhas primas, eram tantos, e pude revê-los dia desses no enterro de um dos meus tios que muito pouco eu via.

No dia desse enterro a que me refiro, eu fui um assombro de “ohs” e “ahs” a cada primo que via, a cada prima que via, a cada tio, a cada tia, todos tão velhos e de cujo convívio fui sonegado na mesma medida em que fui cúmplice e partícipe dessa sonegação, desse afastamento, desse movimento que é a antítese do que genuinamente sou. Porque somos isso mesmo, a luta permanente contra o que fizemos, contra o que fizeram conosco quando não nos era possível reagir, contra a impossibilidade dolorosa de voltar o tempo, contra a finitude, esse terror, contra as janelas abertas para o infinito diante de nós.

Minha avó e minha mãe sempre me contaram que eu, moleque, ainda tropeçando quando caminhava, tinha altas conversas com as ondas do mar. Gritava, gesticulava, fazia comícios diante do oceano. Hoje encontrei minha mãe, seus olhos marejaram à certa altura, não agi como a criança que fui diante daquela água salgada brotando de seus olhos, mais bonitos hoje do que há tempos, emoldurados agora por cabelos brancos que lembram os cabelos de minha avó e de minha bisavó.

Tive ímpetos de enxugá-los. Mas por medo de molhar os meus, fiquei quieto, com certo medo, até. Não é hora de me expôr.

E não estou sendo irônico nesse momento em que sinto o vento dos leques das velhas matriarcas da minha família farfalhando e escondendo, e deixando de esconder, e escondendo, e deixando de esconder seus rostos.

A Morena adora usar leque.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO (01)

Em nove dias, completo 48 anos. E em trinta e nove dias, 17/05, completa 70 anos a minha mãe. A cada ano que passa, mais curta a ponte que passa por sobre o rio das minhas memórias e que, como nas trombas d´água, me arremessa em direção ao passado de forma desordenada, encurtando o curso do rio, fazendo desmoronar as margens, modificando as paisagens, e lá vem mais um 27 de abril, minha 48ª volta do ponteiro. Em 69, quando nasci, uma mulher de 21 anos levou-me ao colo – e embora houvesse, ali, um laço indissolúvel, havia também uma abissal distância de quase 8.000 dias de vivência entre aquela mulher e aquela criança. Hoje, 18 de abril de 2017, pouco mais de 17.500 dias depois daquele domingo de 1969, mais de um bilhão e meio de segundos depois, insisto em lutar contra a passagem do tempo porque há, em mim, morando em mim, chorando dentro de mim, o menino que nasceu no Hospital da Venerável Ordem Terceira da Providência, de frente pro morro do Borel, na Tijuca, evidentemente, e de lá foi levado para o apartamento da rua Barão de Mesquita, quase esquina com São Francisco Xavier e do qual não guardo nenhuma memória, o que me agonia ferozmente.

rua barão de mesquita

Vira-e-mexe, vá entender, dou de caminhar até o edifício de pastilhas azuis (que, pelo aspecto, são as mesmas pastilhas desde a construção), em busca, confesso, de não-sei-o-quê. Já lhes contei, aqui, que “vivo na Tijuca, na zona norte – minha terra, minha aldeia, meu pago. Aqui nasci, na Ordem Terceira da Penitência, na rua Conde de Bonfim, bem em frente ao morro do Borel. Desceram, meus pais, a Conde de Bonfim, e minha primeira taba foi na rua Barão de Mesquita, quase na esquina da São Francisco Xavier, na lateral do tradicionalíssimo Colégio Militar (onde fui batizado depois de ter sido circuncisado por um rabino, vão tomando nota, no oitavo dia). Dali, mudamo-nos para a São Francisco Xavier, número 90, primeiro no sexto andar e depois no segundo – em frente ao Orsina da Fonseca, quase em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, às margens do rio Trapicheiro (foi quando conheci Tarcisa, a mulher de seios de mármore). Meus países eram as vilas nas quais moraram meus avós – sempre na Tijuca. Mudamo-nos, anos depois, para a Professor Gabizo, entre a Morais e Silva e a General Canabarro, a poucos metros do Maracanã.”.

Moro hoje na Martins Pena, a poucos metros da Professor Gabizo, a poucos metros da vila onde moraram meus avós, quase ao lado do prédio em que morava dona Gisélia, a quem eu chamava “vovó Gisélia”, que mantinha em seu quarto um gongá que nunca me assustou – muito pelo contrário. Vovó Gisélia trabalhava com um Preto Velho e mantinha, na cabeceira de sua cama, dezenas de imagens de seus santos, seus Pretos Velhos, suas guias, uma vela sempre acesa e, como diria Caymmi, tá tudo vivo ainda lá. Sua filha, madrinha de meu irmão caçula, minha vizinha, contou-me dia desses: tá tudo ainda lá. Moro com a Morena, que me viu nascer de novo aos 42 anos. Para ser mais preciso, moro com a Morena, que me fez nascer de novo aos 42 anos.

Ela chegou ao mundo e eu já tinha 7 anos. Ela chegou ao mundo a 1.300 quilômetros de distância de mim. Uma distância tão colossal quanto a que me separava de minha mãe em abril de 69. Ela chegou ao meu mundo já quase no final de 2011 e mudou-se de mala, cuia (com bomba e mate!) e um cachorrinho lindo no final de 2012 – quando efetivamente começamos a construir o nosso mundo. Eu dependia infinitamente mais dela do que ela de mim. Eu tinha 43 anos quando ela veio pra mais-perto.

Acho que ainda é assim: sou mais dependente.

Perdi um bocado de gente ao longo desses muitos anos. O mulherio liderado pela minha bisavó, a matriarca dos Monteiro de Barros, meus tios-avós todos, minha avó, que não conheceu a Morena mas que já me disse que a acha linda (sabida, minha avó). Jamais saberei o que terá sido de mim se não fossem tantas, as mortes. Mas há tanta vida no alarido de tantos fantasmas em mim, dentro de mim, em volta de mim, há tanta vida no caramelo dos olhos da Morena, que me arrastou pras praias mais bonitas do mundo quando fez 40 anos, há tanta vida no que está por vir por mais que doa caminhar que, franca e sinceramente, não sinto, ainda, o peso nos ombros de que tanto falam.

Tenho a disposição do moleque que fui, de calças curtas, camisas listradas e meu time de botão sempre à mão. Enfrentei muita vilania, cantei muito pra virar muito olho grande pras ondas do mar, mas quem me protege não dorme e quem dorme comigo é que é meu porto seguro, minha cidadela, minha chinoca com quem trago o melhor que um trago traz.

Até.

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