DECLARAÇÃO DE VOTO

Como faço há sei lá quantos anos e quantas eleições, venho ao balcão virtual do buteco a pouco menos de 72 horas das eleições de domingo, quando o Brasil vai às urnas para eleger prefeitos e vereadores, para declarar, de coração na boca e peito aberto, meu voto. Porque ir ás urnas, o que faço desde 1989 (quando dei meu primeiro voto a Leonel de Moura Brizola para Presidente da República), me comove feito o diabo. Saio de casa armado com meu título de eleitor e choro, confesso, incorrigível que sou, diante da urna (hoje eletrônica e menos comovente). Em 89, bem lembro, eu era o único (o único!) aluno da minha turma de Direito, na PUC-RJ, que votava no Brizola. Os colegas se dividiam entre Lula e Roberto Freire (que coisa, o passar do tempo…), em casa eu ouvia as maiores barbaridades – “como votar num agitador, num caudilho, num velho como Brizola?”. Hoje, ironia das ironias, vejo Brizola (já morto) sendo adulado por muitos dos que me apontavam o dedo em reprimenda naquele distante 1989, lá se vão 27 anos.

Em 1982, ainda com 13 anos de idade, assisti, estupefato, aquele homem passar por cima de tudo e de todos e vencer as eleições para o Governo do Estado. Quatro anos depois, 1986, deixamos de eleger Darcy Ribeiro como sucessor de Brizola graças a uma série de alianças que acabaram por levar Moreira Franco (e com ele deu-se a derrocada dos projetos do CIEPs) à vitória. Não votei, tinha ainda 17 anos, mas fiz campanha com o mesmo ardor com que me envolvo a cada eleição. Brizola retornaria ao Governo do Estado em 1991 (eleito em 1990, com meu voto). Feito o intróito, vamos ao que quero lhes dizer.

Estamos às vésperas das eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro e para a Câmara de Vereadores da cidade.

As candidaturas estão aí, postas, estão postas à mesa as propostas de cada candidatura (embora sejam poucas as que verdadeiramente tenham apresentado propostas ao eleitorado), temos pesquisas que apontam uma batalha voto a voto pela vaga no segundo turno contra o inconcebível Bispo Crivella e temos os programas de governo (quantos eleitores se deram ao trabalho de lê-los?) registrados no TRE. E um debate hoje à noite que promete ser um divisor de águas para o eleitor indeciso e mesmo para os que cogitam o voto útil para favorecer A ou B.

Sou, quem me lê e me acompanha sabe, um entusiasta das realizações do Governo Eduardo Paes. Não há um só eleitor esclarecido que não reconheça (ainda que não externe [mais] seu reconhecimento) os avanços maiúsculos na área da Cultura, por exemplo. Jamais a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro contemplou tantos nas mais diversas áreas da cidade, jamais fomentou-se tanto a Cultura, multifacetada, distribuindo-se, sem qualquer preconceito, verbas públicas, ou através de incentivos fiscais, para tanta gente que pode fazer, ao longo de 8 anos, seus sonhos tornarem-se realidade. É impossível não reconhecer os avanços na área da Educação (foram construídas mais de 300 escolas que se preparam para o turno único, ideal de Leonel Brizola). Avanços evidentes na mobilidade urbana (os BRTs, os VLTs, as vias expressas, os túneis que encurtaram caminhos), avanços incomensuráveis quando o assunto foi devolver a cidade aos cariocas: eu, dentro do hiperbolismo que me caracteriza, cheguei a dizer que só a derrubada da Perimetral (e os benefícios na região da Praça XV, da Praça Mauá, a criação da Orla Conde) seria capaz de elevar o nome do Eduardo Paes ao mais alto patamar dos Prefeitos do Rio de Janeiro. Derrubada que, diga-se, exigiu coragem do prefeito: um imenso percentual de cariocas era contra a derrubada do monstrengo por conta dos efeitos que a incrível obra geraria na cidade, principalmente no trânsito. Houve avanços na área da Saúde, inegáveis. Com os cofres cheios por conta dos repasses e aportes de dinheiro por parte do Governo Federal, pode-se realizar as Olimpíadas contra tudo e contra todos que, mau-humor sempre no bolso, torceram pelo fiasco dos Jogos Olímpicos. Oxigenada pelo vento que varreu mais forte a cidade depois das inúmeras obras, a cidade viveu dias de festa como talvez nem o mais otimista poderia supor.

Por tudo o que foi feito, e por acreditar na continuidade das políticas de Eduardo Paes é que meu voto vai, sem medo do erro, para aquele que, desde o primeiro minuto, foi o grande gestor das idéias do prefeito eleito e reeleito com acachapante votação. Meu voto será do Pedro Paulo, que ainda tem como vice uma mulher de fibra como Cidinha Campos.

Não foi fácil abrir o voto como abri desde que postas em campo as candidaturas. Centenas de dedos, muitos deles covardes, apontaram na minha direção. Alivia-me a consciência, entretanto, saber que nenhum desses dedos apontava erros na administração do Eduardo Paes capazes de me convencer a mudar o voto (claro que houve problemas, mas estou pra ter notícia de um único governo impecável do princípio ao fim). Os tais dedos faziam (e fazem) sempre menção a um episódio privado envolvendo o Pedro Paulo que, franca e sinceramente, dizem respeito apenas à esfera privada de sua vida e devem ser tratados pela Justiça que, diga-se, arquivou o inquérito que apurava o episódio. O que quero, e o que sempre quis diante do desafio de votar, é discutir propostas, enfrentar os programas apresentados, decidir, íntima e solitariamente, quem será o melhor para governar a cidade onde nasci, onde vivo e onde pretendo morrer.

Quantos homens (quantos!) vieram me abordar com o mesmo argumento covarde (que passou a ser ainda mais covarde depois do arquivamento das denúncias pelo STF), quantos se arvoraram a julgar mulheres que, como eu, optaram pelo nome do Pedro Paulo, deixando de perceber, muitos deles, o quão violentos também são no dia-a-dia, física ou psicologicamente? Muitos.

Outro argumento comum: Pedro Paulo é golpista porque votou pela abertura do processo de impedimento de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Refuto tal argumento e o mesmo não abala minha convicção quanto ao voto. O processo correu todo no Senado Federal e foi no Senado Federal que o impedimento foi votado e aprovado. Não é novidade para ninguém que considerei e considero que houve um golpe – mas este se deu no âmbito do Senado Federal (e foi contrário ao impedimento, um dos mais aguerridos defensores de Dilma Rousseff, o senador Roberto Requião, do mesmo PMDB do Pedro Paulo). Acho que ele deveria ter ido a Brasília votar como votou? Não. Mas não estou, agora, escolhendo um deputado, estou elegendo um prefeito – cargos distintos com atribuições bastante distintas.

Como muito bem disse meu camarada Cláudio Renato, “prefeito serve para cuidar das escolas e postos de saúde da cidade, tapar os buracos nas ruas e praças, gerir os transportes públicos, iluminar os caminhos para inibir assaltos e ataques aos cidadãos. Prefeito nenhum vai mudar o mundo, derrubar o sistema capitalista, acabar com o racismo e outros preconceitos, promover a cura do câncer.”.

Com meus botões, sem levar adiante o debate com os fanáticos que me apontavam o dedo, pensei: foi um odioso golpe contra o Rio de Janeiro a eleição do Moreira Franco em detrimento da candidatura de Darcy Ribeiro (e que chance perdemos de tê-lo, gênio que era, à frente do Governo do Estado!), e lá estava, ao lado do Gato Angorá, o PCdoB de Jandira Feghali; o ovo da serpente do golpe nasceu nas chamadas “marchas de junho de 2013”, e lá estavam os inadmissíveis atos comandados pelos Black Blocs que, com seus métodos condenáveis e adulados à larga por Marcelo Freixo, culminaram com a morte do cinegrafista Santiago Andrade; golpe houve também em 1964 e até hoje Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro (outro candidato) festejam o trágico 31 de março de 64 como se fosse festa, homenageando figuras desprezíveis como Brilhante Ustra e outros monstros; golpe houve contra seus eleitores quando Alessandro Molon abandonou o PT para juntar-se à Rede de Marina Silva sem devolver o mandato, que não lhe pertencia. Enfim… Se seguirmos por essa linha – que não me interessa, repito – o debate não tem mais fim.

Por fim, aos que argumentam me apontando o dedo dizendo que há apenas três candidaturas de esquerda (Alessandro Molon, Jandira Feghali e Marcelo Freixo), digo: o Governo Eduardo Paes, como nenhum outro governo no Rio de Janeiro, na cidade – ressalto -, construiu mais de 300 escolas, mais de 100 Clínicas da Família, centenas de km de vias que reduziram o tempo de viagem dos menos afortunados, construiu e reconstruiu praças, olhou, como nenhum outro, para as zonas norte e oeste da cidade, e possibilitou que a Cultura chegasse (e com dinheiro!) a grotões que jamais viram um único centavo do Poder Público. Um Governo definitivamente à esquerda.

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Meu voto é de olho no presente e no futuro. E não vejo futuro melhor pra cidade que não nas mãos da gestão que Pedro Paulo há de comandar, como comandou, como Secretário de Governo de Eduardo Paes.

Por isso, no domingo, eu chego junto sem medo de errar.

Até.

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BLANC 70 ANOS

Aldir Blanc escreveu no prefácio de meu livro, publicado em 2009, pela Casa Jorge Editoral:

“É sempre difícil apresentar o livro de um amigo-irmão.

Os detratores partirão para a fácil lenga-lenga acusatória de excesso de babilaques e lantejoulas. Bom, quebrarão a cara e roerão as unhas de ódio. O presente livro, “Meu Lar é o Botequim”, de Eduardo Goldenberg, fala por si mesmo.

Taqui nesta mesma mesa o Fausto Wolff que não me deixa mentir.

Eduardo Goldenberg é carioca dos ovos, carioca da bunda, da Zona Norte, de blocos e bares, de becos e esquinas, carioca dos países baixos e mostra sua vocação pra disputar, aguerridamente, causas perdidas, sua ojeriza aos mamalufs soltos, aos garotodutos propinados, às Rosas de Maia que destroem o Rio de Janeiro, à lama que envolve as bases de sustentação política do país. No grito contra a escrotidão dos investigados e investigadores das CPIdiotas, daqueles que mantêm a velha ordem dos faraós embalsamados, Edu nasceu dissidente até de si mesmo. Não perdoa hipocrisia e atitudes politicamente corretas, estejam camufladas no futebol, no feminismo, nas estruturas neoverdes ambientoscas, na enxurrada de páginas estruturo-linguarudas de suplementos culturais que tomaram o freio das vã-guardas nos dentes podres.

É triste constatar que não há espaço na imprensa escrita para as broncas de Nei Lopes, Chico Paula Freitas, Ilmar Carvalho, Eduardo Goldenberg…

Mas, felizmente, aqui está o livro, última cidadela da civilização: papo em torno do limão da casa, do caldinho de feijão, dos torresmos e moelas, das porções de queijo ou de salaminho; saudade dos amigos de outras épocas, e copo; muito suor e gelo; mulheres e, eventualmente, porrada.

Por tudo isso, com todo meu afeto, um poema pro Edu.

Pós-Intróito

Estamos passagem de aqui
onde a eternidade é aragem…
Daí, essas garrafas
no fundo das mensagens.”

Na véspera do 02 de setembro de 2016, dia em que o Bardo da Muda completa 70 anos, eu não seria eu se não viesse aqui, ao balcão virtual do buteco, render homenagens a ele. Mais que um amigo-irmão, Aldir, a quem conheço desde 1994 – lá se vão 22 anos! – é um dos Orixás pra quem bato cabeça. Meu confessor, meu confidente, um pouco meu pai, às vezes meu filho, o Excêntrico Sr. Normal (como bem disse Álvaro Costa e Silva, o Marechal, aqui) com quem, invariavelmente, troco telefonemas que podem durar segundos ou um par de horas, é, ainda, meu ídolo. E por isso, e por tudo isso, vê-lo fazendo 70 anos me comove feito o diabo.

A foto abaixo, de 1998, no Bar Lagoa (eu entre Aldir e Tostão), é hoje – me perdoem o lugar-comum – apenas um retrato na parede. Retrato de um tempo em que o Aldir, para sorte da cidade, ainda saía por aí, à noite, rasgando as madrugadas até que confundíssemos todos o alvorecer com o anoitecer e o anoitecer com o alvorecer na busca desesperada de reviver a juventude. Tive a sorte de, inúmeras vezes, colocar ao lado dele, dentro do mesmo barco, realidade e poesia e rir da nossa própria agonia. Bebi muito dessa fonte em busca desse segredo.

aldir, edu e tostão no bar lagoa, 1998

Ainda bem moleque, levado pelas mãos de um professor de química do colégio, conheci (de longe, prestando sempre muita atenção a tudo…) o Aldir no Caras & Bocas, na Tijuca. Eu era, ali, o fã diante do ídolo. A vida, que nos prega surpresas o tempo todo, e eu agradeço diariamente por esse prêmio, levou-me pra mais perto do Aldir. Marco Aurélio, com quem Aldir fundaria a Alma Produções (AL de Aldir e MA de Marco Aurélio) – e quanta saudade eu tenho do Marco Aurélio… – era o namorado da filha de uma vizinha de meus pais. Foi, confesso, amor à primeira vista. Ele, que era Marco Aurélio Braga Nery (e eu sou Eduardo Braga Goldenberg), só me chamava de “meu irmão Braga”. E um dia me disse com seu inseparável cigarro de cravo entre os dedos:

– Você precisa conhecer meu irmão, Aldir Blanc.

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que, pela primeira vez, fui à sua casa, seu bunker, sua cidadela, no edifício da rua Garibaldi onde morava, no primeiro andar, o Moacyr Luz. Cercado por milhares de livros, recebendo os amigos em casa quando isso ainda era rotineiro, Aldir era, ali, o gênio que eu vira, moleque ainda, no Caras & Bocas. E esse convívio, como não podia deixar de ser, rendeu-me as melhores histórias, as maiores maluquices, os maiores perrengues, as melhores festas, e, eventualmente, porrada. Tornei-me seu advogado, derrotamos na Justiça um canalha que pretendia receber indenização por conta de uma verdade dita pelo Aldir numa entrevista, e foi, lhes garanto, a mais divertida audiência que já fiz em mais de 25 anos de carreira. Dentro da sala da audiência, abraçado à indefectível bolsa marrom, nervoso, dirigiu-se à Juíza:

– Posso fumar?

E fumou.

Fui sócio de um bar, entre 2000 e 2005, numa esquina a poucos metros da casa número 257 da rua dos Artistas. Aldir batia ponto sempre que podia. Vivemos, ali, momentos memoráveis, como esse – vídeo aqui –  em que o ainda novato Moyseis Marques (hoje seu parceiro), acompanhado pelo cavaquinho do Gabriel Cavalcante, pediu pra cantar Imperial (de Aldir e Wilson das Neves) pro Aldir ouvir. Ou como esse, Aldir cantando samba-enredo do Salgueiro acompanhado pelo sete cordas do Pratinha no mesmo dia em que filmou, dentro do bar, as cenas para o filme Praça Saenz Peña, em que Aldir fazia o papel de Aldir (aqui).

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Aldir foi enredo do Segura Pra Não Cair, bloco que criamos ali mesmo, dentro do bar. E desfilou, sem corda alguma que atrapalhasse nosso carnaval.

E segue, aos 70 anos, desfilando, ainda que miudinho, mais recluso que nunca, sua genialidade, sua generosidade, sua imensa grandeza que transborda e inunda o Brasil, hoje maculado por um golpe branco que fere a democracia que tem como hino (o Hino da Anistia!) sua obra-prima, O Bêbado e a Equilibrista. Sobre a imensa obra do Aldir, já me debrucei aqui.

O que eu queria mesmo era agradecer, pública e escancaradamente, eu que estou a 3 anos de fazer Bodas de Sangue, a ele por tudo o que ele é, por tudo o que representou e representa na minha vida, por tudo o que representa, ele e sua obra, para o Brasil. Aldir é gênio da raça. O Ourives do Palavreado, como disse Dorival Caymmi. É bom de se ouvir e de se aldir, disse Chico Buarque. É um brasileiro máximo. Uma espécie em extinção. Um homem que sempre, e desde sempre, esteve do lado certo do terreno.

A última vez em que estivemos juntos foi há pouco: eu e a Morena, chegando de Portugal, fomos levar a ele alguns livros que ele me encomendara às vésperas da viagem. Era pra ser coisa rápida – mas com a graça de todos os deuses, não foi. Passamos com ele um bom tempo, sem birita, só jogando conversa fora e ouvindo aquele homem falar – e ele quando fala, meus poucos mas fiéis leitores, há que se fazer silêncio.

Amanhã, 02 de setembro, deveria ser decretado feriado nacional. Porque quando nasceu o filho do seu Alceu e da dona Helena, e é ele mesmo que conta, soprou um vento que traduzia:

– Vai, Aldir, ser Blanc na vida.

Somos homens e mulheres de sorte. Apesar de vivermos num Brasil hoje ferido por uma corja de filhos da puta, somos um Brasil que tem entre seus filhos, e fazendo 70 anos, um homem como ele.

Saravá, Aldir. Meu amor e meu respeito, sempre.

Até.

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COMEÇAM HOJE OS JOGOS RIO 2016

Primeiramente, FORA TEMER. Acordei, faço a confissão pública, comovido feito o diabo. Saí cedo de casa e as ruas, e o céu (azulíssimo!), atestavam que não era à toa a comoção que senti tão logo abri os olhos. Ruas cheias. Gente de todos os cantos do Brasil e do mundo zanzando pela cidade estampando na cara essa alegria tão indescritível quanto indescritível é a tal comoção que não me largou até agora, pouco mais de meio-dia. Porque se é impossível definifir o que é o carioca (por mais que, vira-e-mexe, alguém tente, sem sucesso, definir o carioca e a tal da carioquice), uma coisa é certa dizer sobre ele (sobre mim, sobre nós todos, cariocas): o carioca gosta de fazer festa e, mais do que isso, gosta de organizar festa, de ser anfitrião de festa. Estão aí o Carnaval e o Revéillon que não me deixam mentir.

Não foi diferente em 2014 durante a Copa do Mundo. Havia um exército de ignaros que repetia, como bem fazem os idiotas (que não pensam porque lhes falta o básico para tal), “não vai ter Copa”. Teve. E teve muita Copa. Organizamos o que o mundo reconhece como a Copa das Copas.

E não está sendo e não será diferente agora, a partir de hoje: os Jogos Olímpicos Rio 2016 entrarão pra História das Olimpíadas da mesma forma que a Copa do Mundo no Brasil entrou pra História das Copas do Mundo com absoluto destaque (ou não seria a Copa das Copas). Temos um golpe em curso no Brasil. Os Jogos Olímpicos são excelente oportunidade pra se gritar ao mundo que está em curso um golpe no Brasil. Mas isso não legitima a mesmíssima tribo dos ignaros que, vejam que lástima, andam gemendo por aí que estamos organizando os (pausa para uma golfada) “Jogos da Exclusão” ou, dizem os mais ignaros, as “Olimpíadas Assassinas”. São, esses, os anti-cariocas (os anti-brasileiros, eu diria).

A mim pouco importam o gigantismo dos Jogos, a organização quase marcial do Comitê Olímpico Internacional, o rigor (necessário) da segurança e outros bichos. Eu quero é saber que aqui, porque somos cariocas e porque somos brasileiros, quebraremos todos os protocolos. O prefeito da cidade (o primeiro que faz isso, dizem os arautos dos protocolos) carrega a chama olímpica, um garçom é convocado às pressas pelo COI depois de intensa e bem humoradíssima campanha espontânea para fazê-lo também carregar a tocha olímpica pelas ruas de Copacabana, alemães (eu vi, eu vi!) debruçam-se sobe o balcão do Bar do Joel pra comer cu de frango, ciceroneados por um dos seguranças da delegação dos atletas, alemão naturalizado brasileiro. Sem falar na emoção (sim, emoção, e daí?!) que foi ver minha Morena, também comovidíssima, erguendo, cheia de justificado orgulho, a tocha olímpica com a chama acesa, brilho semelhante ao (mais intenso e mais bonito) que reluzia de seus olhos naquela hora, hoje pela manhã. É isso – é essa emoção – que me interessa. E o furdunço, que começa pra valer hoje, promete e há de transformar, no dia seguinte ao encerramento dos Jogos, cada um desses ignaros em motivo de piada, como em 2014 depois da gloriosa derrota da seleção argentina diante da Alemanha.

Os do contra estão aí, firmes, para divulgar o que segundo eles não presta, o que eles dizem quase sempre seguido da frase “só no Brasil”, atestando de forma inatacável sua viralatice. Pobres-diabos, como diria Nelson Rodrigues, que previu, há décadas, a escalada dos idiotas. Eles latem, a caranava passa.

Até.

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A SEGUNDA MORTE DE JAIME GOLD

Maio de 2015. O médico Jaime Gold é assassinado, a facadas, na Lagoa Rodrigo de Freitas, e uma comoção toma conta da sociedade, notadamente daquela gente que, afortunada, mora no entorno do espelho d´água mais famoso da cidade do Rio de Janeiro. O Secretário de Segurança do Governo do Estado dá, naquela ocasião, uma das mais infelizes declarações sobre a situação e eu, humílimo do meu canto, publico aqui Jaime Gold, mais uma vítima de outras vítimas (aqui).

Hoje, 08 de julho de 2016, um ano e dois meses depois, tomei conhecimento de um fato repugnante – ligado à morte de Jaime Gold – graças à leitura dessa matéria (aqui) do jornalista e escritor, meu camarada, botafoguense, Fernando Molica. Tomo a liberdade de transcrever trechos da referida matéria:

“Pressionado por moradores da Lagoa, Heitor Wegmann, subprefeito da Zona Sul, mandou a Comlurb, a um mês do início das Olimpíadas, retirar da grade e da mureta que ficam na altura da Curva do Calombo cartazes contra a violência que estampavam nomes de vítimas que não foram mortas no bairro.

Segundo a subprefeitura, os autores da reivindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold, morador de Ipanema que, em maio do ano passado, morreu depois de ser esfaqueado quando pedalava por aquele trecho da ciclovia.

As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidas pelos garis na noite de segunda-feira.

Feitos com cartolina preta, 71 cartazes traziam nomes de crianças vítimas de balas perdidas e de policiais mortos enquanto trabalhavam. Algumas outras placas, que também foram retiradas, estampavam estatísticas oficiais de violência.

(…)

O responsável pela ONG afirmou ainda que a instituição não abrirá mão de expor dados sobre a violência em algum ponto da cidade. “É preciso constranger o poder público”, ressaltou.

Não sei como me referir “aos autores da reinvindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold (…).”. Nem o quê dizer sobre isso: “As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidos (…)”.

Sei que, no dia em que foram retiradas as homenagens “às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade” – notem que manteve-se a homenagem ao médico Jaime Gold, os outros mortos não têm nome – o pobre Jaime Gold morreu de novo.

E a escória que reinvidicou tamanho absurdo parece não ter aprendido nada, rigorosamente nada, absolutamente nada, com a morte de seu vizinho. Vou repetir o que escrevi em maio de 2015.

“Os meninos que esfaquearam o médico não o fizeram por causa de uma simples bicicleta – façam-me o favor! Eles estavam ali, vá saber, com a arma (que mata, como matou) que usam para se defender de suas próprias rotinas e de seus destinos desgraçados e sem horizonte. Cravaram a faca no médico como se cravassem a faca numa bananeira. Como se cravassem a faca na sociedade que tudo lhes nega. Como se cravassem a faca na polícia que os aterroriza desde o dia em que nasceram. Como se cravassem a faca no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva.”

E se morreu de novo Jaime Gold, morreram também, de certo modo, os que reinvindicaram essa ignomínia atendida pelo subprefeito da zona sul, Heitor Wegmann. Ou deveriam ter morrido: de vergonha, de nojo de si mesmos, de constrangimento.

Torço, quieto, para que a reação venha à altura (ou para que o subprefeito tenha um mínimo de senso de lucidez e reveja seu gesto) e que sejam recolocados ali, diante dos olhos-cegos dos que se acham mais e melhores, cada um dos cartazes arrancados homenageando gente que também teve a vida arrancada do mesmo modo banal que matou, pela primeira vez, Jaime Gold. E que cada um desses cartazes corte, como faca, o coração sem sangue dessa gente que sequer de gente merece ser chamada.

Até.

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A 47ª VOLTA DO PONTEIRO AMANHÃ

Eu estava no domingo passado na esquina do Bar do Chico, depois de ir à feira, e à mesa comigo, o Felipinho e a Renata. Saltou de um táxi, ali mesmo na esquina, uma senhora de – o quê?! – uns 80 anos. Eu disse aos dois:

– Há quantos anos eu não vejo uma anágua!

E bastou eu dizer anágua para que eu sofresse, imediatamente, súbito e arrebatador arremeso em direção ao passado. Lembrei-me, no ato, que estava tendo início a semana do meu 47º aniversário, e me permitam um sonoro puta que pariu diante do número antes de prossseguir. Eu já sou, há muitos anos, um homem em permanente estado de arremesso ao passado, que dirá nos dias em que se aproxima o 27 de abril. Há anos que dou-me o dia de presente, não trabalho. Percorro, nesse dia, as ruas da minha infância numa tentativa, vá lá, de manter viva em mim a chama do menino que fui, sempre muito assombrado (para o bem e para o mal) com tudo o que vi, com o que vivi, com o que comi, com o que bebi, com o que ganhei e com o que perdi. Segundos após pronunciar a palavra anágua, minha tia Idinha, que usava anáguas, deu de afagar meus cabelos enquanto eu conversava com os dois, (mal) disfarçando a emoção que me tomava a alma e o coração. É bem verdade que, aos 46 – quase 47 – um comprimido de Pressat, um de Natrilix SR e uma dose diária de 2mg de Olcadil ajudam a domá-los, a alma e o coração, quase-incorrigíveis. Eu disse quase.

47 anos foram suficientes pra que um incorrigível como eu já não abra mais a boca com tanto orgulho pra dizer: incorrigível. Já não tenho mais a tia Idinha, minha bisavó eu não vejo há exatos 35 anos (e eu tenho, até hoje, uma saudade brutal da dona Mathilde…), meus avós, todos, são fantasmas que estarão comigo amanhã: Oizer, Milton, Elisa e Mathilde, eles e seus brioches de presunto e queijo dos lanches de domingo, lutas de telecatch, doses intermináveis de Teacher´s, maços de Hollywood e de Minister, muito carteado, os olhos azuis do velho Oizer transmitindo um carinho que ele jamais soube expressar, o silêncio permanente do velho Milton, a rudeza da minha vó Elisa em contraste com a doçura cheirosa de minha avó Mathilde, a quem não vejo há quase 6 anos. Irei amanhã, é certo, passar em frente à vila 84 da São Francisco Xavier pra ouvir, do portão da rua, meus próprios gritos de algazarra junto com os gritos do Ricardo, do Renato e do Aurélio, do Augusto e do Camilo, do Silvio e da Pimpa, da Martinha, pra ouvir o ronco do motor do TL, táxi do seu Mário, os esporros intermináveis da dona Dalas e do seu Pereira, e meu avô Milton ameaçando pegar o revólver pra resolver tudo com tiros pro alto. Seu Bizantino, o velho negro dono de um Corcel, há de estar por lá. Vou em busca da vila que não mais existe entre a Heitor Beltrão e a Professor Gabizo, onde moravam meus avós maternos quando nasci. Mas ai dos que duvidarem de mim: ela existe, do mesmo jeito que eu conheci, em mim, dentro de mim – e ainda que apenas para mim.

Já não tenho um de meus irmãos, já perdi três cachorros – Zica, Pimentinha e o Toquinho – mas é o Pepperoni que os receberá amanhã pela manhã, latindo pra quem souber decifrar: pobres daqueles que escolhem morrer em vida. Já perdi uma mulher a quem não vejo há quase 5 anos, mas não me vai causar estranheza se ela passar por mim, n´alguma altura do dia, pra me desejar felicidades. Quantos amigos, meu Deus, eu já enterrei. Uns porque morreram, outros tantos porque a vida se encarregou de desviá-los de mim. Sigo confiando no que cresci ouvindo dos mais velhos, das velhas da família (eram tantas!, e usavam anágua e se abanavam com leques imensos), do meu pai e da minha mãe: nasci anunciado por um caboclo que se fez visível, pela primeira vez, diante dos olhos do meu pai na madrugada de 26 para 27 de abril pra desmentir o médico que, na véspera, confirmara meu nascimento para o começo de maio. O caboclo – mais tarde se saberia, Tupinambá – fez que sim pro meu velho: eu nasceria no dia seguinte, 27 de abril. Minha mãe acordou, fez troça com o que considerou sonho ou delírio do velho, ansioso com o primeiro filho, e o mandou pro trabalho, na REDUC, em Duque de Caxias. Lá chegando o velho teve de voltar. O anúncio lhe fora dado tão logo desceu do ônibus da companhia: teu filho está pra nascer! Sigo confiando no caboclo de quem meu pai passou a ser cavalo.

deitado

Sigo confiando, ainda que meio desconfiado – talvez a idade faça isso com a gente -, que tenho a proteção constante da caboclada. Iya Sandra, que também não está mais aqui, jogou búzios pra mim em meados de 2007 e me disse: você é filho de Ogum, meu filho, mas quem te sopra nos ouvidos o tempo inteiro é Exu. Meu irmão e meu compadre, Luiz Antonio Simas, confirmou, deu-me seu fio de presente com contas azuis, vermelhas e pretas, e que hoje tem o verde-e-amarelo de Orunmilá, que fiz por merecer. Sigo confiando que tenho a proteção constante dos Orixás, a quem devoto respeito e a quem reverencio sempre que devo fazê-lo.

E tudo o que lhes pode soar como lamento – as perdas, a saudade, o tempo que não volta – não é lamento. Até porque a vida transforma tudo conforme a determinação de quem vive. O velho Simas, quando eu andava no baixio, me ensinou, daquele jeitão dele que só quem o conhece sabe como é, a pilar o pilão devagar, com calma e sem pressa.

E foi sem pressa que cheguei – chegarei, é só amanhã e sou de supertições também – aos 47. De casa nova, ao lado da minha Morena, a única mulher possível e que chegou-se a mim da forma mais improvável do mundo – quem sou eu pra duvidar do dedo dos deuses numa hora dessas?! – no inverno de 2011, prenunciando a primavera que começaria 16 dias depois. A mulher a quem amo carregando nos ombros o peso de 47 anos e nas mãos a esperança de uma vida longa, ao lado dela, e a quem dedico meu dia de amanhã (estou escrevendo pra mim mesmo, ressalto).

Uma olhada rápida pra trás e muito a agradecer: a vida do meu irmão, que depois de um susto do tamanho do mundo, está vivíssimo. A vida da minha mãe, que depois de enfrentar a mais filha da puta das doenças está aí, cada vez mais parecida com a própria mãe, minha avó, e vivíssima. Meu velho pai, teimoso como quem a ele deu a vida, mas aí, vivíssimo. Os melhores amigos do mundo e que não preciso enumerar: cada um deles sabe de sua condição de imprescindível pra mim, eu que jamais poupei-me na hora de declarar o amor que me move. Um grande vira-latas, o Pepperoni, presente de Exu, como decretou o Simas. Um monte de afilhados e afilhadas a quem tenho faltado, bem sei, mas andei ocupado demais me rearrumando.

E de  novo, e sobretudo, por ela, Flávia, minha Morena amada, a quem dediquei, cifradamente, Desassossego, em novembro de 2011 – aqui.

Saravá.

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RESSACA CÍVICA – E UM BEIJO PRO JEAN WYLLYS

Acordei hoje com um travo na garganta, um desmedido aperto no coração, uma tristeza sem tamanho por conta do triste espetáculo protagonizado ontem em Brasília e televisionado para todo o Brasil. Triste espetáculo, diga-se, mais do que previsível. Graças a acordos que envolvem nem sei quem (agências americanas com interesse nas riquezas brasileiras, políticos inescrupulosos, banqueiros e industriais brasileiros, elementos do Poder Judiciário e do Ministério Público, vá saber…), assistimos, ao longo de muitos meses, mais precisamente desde a reeleição da Presidenta Dilma Rousseff, um sem fim de operações muito bem estruturadas – coisa de gênios do marketing, reconheço – com o único fim de enfiar na cabeça do povo (desinformado, despolitizado, facilmente manipulado) que o PT é o partido mais corrupto da História do Brasil. Vem, é verdade, de mais longe a tal operação: começou com o chamado “mensalão” e uma perseguição insana a políticos filiados ao Partido dos Trabalhadores. Foram sendo minadas, uma a uma, as lideranças que embasavam a política dos Governos Lula: José Dirceu, Luiz Gushiken, José Genoíno entre outros. Como se não bastasse veio o “petrolão” e o massacre (midiático, inclusive) não cessou. Lula se reelegeu. E elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff, a primeira mulher Presidenta da República do Brasil – uma mulher íntegra contra a qual jamais pesou qualquer malfeito. Uma mulher, diga-se, que quando nomeou Graça Foster para presidir a Petrobras deu a ela uma função principal: acabar com a rataria na estatal.

E a guerra insana seguiu seu curso (ou seu roteiro, como penso). Um Juiz Federal da cidade de Curitiba, no Paraná, deu de dar início ao espetáculo da “lavajato”. A impressionante simetria entre as ações do Juiz, da Polícia Federal, dos meios de comunicação (capitaneados, como sempre, pela Rede Globo), funcionando como numa engrenagem perfeita, os rios de dinheiro que foram sendo injetados pela FIESP e outros bichos em movimentos apartidários que surgiram do nada (filhotes dos tais movimentos de junho de 2013, que culminaram na eleição do Congresso Nacional mais conservador de todos os tempos), tudo isso foi minando, de maneira absolutamente maquiavélica, o segundo mandato de Dilma Rousseff. Vazamentos ilegais de trechos de delações premiadas (jornalistas em quem confio me garantem que havia fila de jornalistas no gabinete de determinado Ministro do STF em busca desses vazamentos), grampos ilegais (incluindo o telefone da Presidência da República) que a Rede Globo transmitia sem qualquer pudor, a abertura do processo de impeachment tocado por um corrupto como Eduardo Cunha e chegamos ao dia de ontem.

O que se viu ontem, em Brasília, foi um retrato do Brasil de hoje. Os 513 Deputados Federais que compõem, repito, a mais conservadora e reacionária Câmara dos Deputados, exibiram ao Brasil e ao mundo a baixeza, a pequenez, a desfaçatez e a sordidez que saiu das urnas, em 2014, fruto – repito – dos inconseqüentes protestos pelo Brasil afora tocados por gente sem qualquer liderança partidária “contra tudo isso que está aí”.

mulher chorando

A imagem dessa mulher de vermelho, chorando após a vitória de Eduardo Cunha e de Michel Temer, o mais podre vice-presidente que o mundo já viu (desconheço outro que, investido do cargo, tenta atentado tanto contra qualquer Presidente da República, conspirando à luz do dia de forma tão abjeta) é a imagem do que eu tinha na alma quando acordei, ainda enojado e acometido de uma ressaca cívica que, se me entristece demais no dia de hoje, não será capaz de me fazer desistir da luta em prol do que acredito. Salvou-me, na manhã de hoje, a minha Morena. O olhar que trocamos e as mãos dadas em silêncio foram e são o meu conforto, o meu esteio, a minha cidadela.

Vou me poupar – e a vocês, que me lêem – de tecer qualquer comentário sobre “a” ou “b”, uma vez que foram muitos os Deputados Federais que me enojaram ontem com suas posturas, com seus discursos, com suas bravatas.

Quero lhes dizer apenas uma coisa: diante do que fez o cada vez mais inconcebível Jair Bolsonaro, que ao proferir seu voto rendeu homenagens ao homem que torturou Dilma Rousseff e outros tantos nos anos de chumbo no Brasil, ao homem que morreu carregando nas costas entre 60 e 80 assassinatos nos porões da ditadura, quem me representou naquela Sessão foi o Deputado Federal Jean Wyllys que escarrou, sem dó nem piedade, na cara de um sujeito que, se fôssemos mais sérios e contássemos com um Ministério Público e uma Justiça mais eficazes, sairia preso da Câmara dos Deputados.

“Não vai ter golpe e vai ter luta”, cantou o Brasil inteiro nas últimas semanas. Espero que a luta não tenha sido apenas verso pra tornar mais bonito o canto. Há de haver luta. É preciso que haja luta. E é imperioso que ela comece já.

Até.

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UMA SAUDADE E UMA ESPERANÇA

Eu não achei, franca e sinceramente, que fosse viver o que vivo hoje, o que vivemos hoje no Brasil. Desde meninote, à minha moda, interessei-me por política. Em 1982, com apenas 12, 13 anos de idade, fascinei-me, na exata acepção que a palavra fascínio tem pra um menino, com a figura de Leonel de Moura Brizola. Dentro de casa, entre os leques das mais-velhas, maços de Hollywood da minha avó e de Minister do meu avô, tios e tias que hoje são só saudade, eu já era olhado com certa dó: “Brizola é o demônio, meu filho!”“Um agitador!”, era sempre por aí o que eu ouvia daqueles lacerdistas, admiradores da Sandra Cavalcante. Mas eu brilhava os olhos quando via e ouvia o Brizola falar. Escapava pra Cinelândia, escondido, pra juntar-me aos que me diziam mais à alma quando o assunto era política: velhos e velhas de lenço vermelho no pescoço, a Juventude do PDT à qual não me filiei por medo, sim, por medo, e eu voltava pra casa sempre ainda mais admirado com aquele homem que começou a campanha com 1% e a venceu contra tudo e contra todos, inclusive o golpe da Proconsult que Moreira Franco (esse mesmo que hoje agita o golpe) e Roberto Marinho tentaram implementar para tirar a vitória colossal de Brizola (entenda aqui o que fizeram com Brizola em 1982).

Engajei-me a fundo na campanha para a eleição de Darcy Ribeiro, que Brizola tentou fazer sucessor. Fomos derrotados.

Ingressei na Faculdade de Direito em 1987 e vivi, na PUC-RJ, período riquíssimo: a Constituição Federal estava sendo gestada, meus professores eram todos de esquerda, e vivi, no ambiente universitário, a primeira eleição direta para Presidente do Brasil desde a ditadura, que iniciou-se em 1964. Eu era, meus poucos mais fiéis leitores, o único eleitor do Brizola da turma, que se dividia entre Lula e (pasmem) Roberto Freire – havia, claro, eleitores de direita mas que eram minoria. E apenas um de meus professores, o hoje Juiz Federal Firly Nascimento (e então Defensor Público), também era eleitor do velho Brizola.

Em 1989 dei meu primeiro voto pra valer nele, Leonel de moura Brizola. Perdemos por pouco.

E a tristeza também durou pouco: elegi Brizola Governador do Rio de Janeiro em 1990, Estado que o elegeu, consagradamente, duas vezes!

Em 92, durante o processo de impeachment de Fernando Collor, não juntei-me aos cara-pintadas: ouvi a voz do mais sábio que alertava: “A nossa posição… quando eu digo minha, eu digo nossa, porque nós elaboramos uma posição partidária. Até aqui, cada um de nós emite as suas opiniões, somos um partido democrático; eu, como mais velho, emito as minhas, mas elaboramos a nossa posição. Nós tratamos de condenar certas atitudes, certos procedimentos, porque entendemos que um clima de histeria é inconveniente para as próprias investigações, para se fazer justiça. Nós já vimos episódios semelhantes, nunca deram bons resultados. Condenamos esses excessos, às vezes a falta de isenção e principalmente os que procuravam colocar a carreta diante dos bois, [aqueles que] antes de investigar, antes de conhecer exaustivamente os fatos, recomendavam logo o impeachment, inclusive fazendo vistas grossas para as outras áreas de corrupção gravíssimas que existem no país e que no fundo estão disputando a sua continuidade no poder ou a sua ida para o poder.”

Em 1994, fiz campanha ainda mais apaixonado: o vice de Brizola era Darcy Ribeiro, e até hoje me emociono só de pensar na possibilidade que deixamos de viver, tendo Brizola como Presidente e Darcy como vice.

Em 1998 também votei em Brizola, mas como vice de Lula – embora pensasse, na época, que deveria ser o contrário. Mas foi só mais um gesto de grandeza desse que foi o maior homem público que o Brasil conheceu.

Em 16 de setembro de 2000 fiz um troço que me fez aproximar-me verdadeiramente do saudoso Brizola. Na cara da Rede Globo, na tela da Rede Globo, durante campanha para a Prefeitura do Rio de Janeiro gritei seu nome, ao vivo, para desespero do Roberto Talma, que dirigia o programa (aqui conto tudo).

Se não posso dizer que desfrutamos de intenso convívio ou mesmo de amizade, encho o peito de orgulho porque estivemos juntos muitas vezes (sempre a convite dele) e em todas as vezes – todas! – em algum momento ele me chamava à uma roda de amigos e correligionários. E dizia:

– Eduardo! Conte aquele teu episódio colossal na Rede Globo!

A foto abaixo foi tirada na casa do Martinho da Vila, nosso último encontro. Éramos poucos: eu, minha mulher à época, Martinho da Vila e Cléo, Martnália e Analimar, Paulinho da Aba, Beth Carvalho, Lupi, Brizola e seus dois netos, Leonel Brizola e Brizola Neto, o Carlito. Martinho e Cléo ofereceram um jantar ao Brizola porque o sonho da Cléo, gaúcha como ele, era não apenas conhecer Brizola, mas vê-lo assinar a Carta Testamento de Getúlio Vargas que ela pretendia emoldurar e pôr na parede. Foi uma noite de nunca mais esquecer.

Made with Repix (http://repix.it)

Brizola estava à vontade. Comeu (serviu-se picanha), bebeu vinho, cantou quando formou-se a roda de samba (a memória me trai e não me recordo dos demais músicos, além do Paulinho da Aba), contou histórias impressionantes, falou do suicídio de Getúlio Vargas, sobre a Cadeia da Legalidade, de suas campanhas, de sua infância, marejou os olhos quando falou dos CIEPs… e pediu pra cantar quando estava indo embora, alta madrugada:

“Felicidade, vou me embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora onde sei que a falsidade não vigora…”

Não houve quem não chorasse.

Como choro agora – faço a confissão.

Sinto muita saudade do meu eterno e saudoso Governador Leonel de Moura Brizola nesse momento sombrio que atravessamos.

E muita esperança.

De mãos dadas com a mulher com quem divido mais que a vida – sonhos, projetos, um futuro – espero o domingo com esse travo no peito.

Até.

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