Arquivo do mês: maio 2005

AEROPORTO INTERNACIONAL

Acabo de chegar do Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, o velho Galeão. Fui com Dani receber a Raquel, há mais de 5 anos fora do Brasil, mãe do Alfredinho, nosso afilhado número 03 (a Raquel e o Alfredo, pais do menino, nomearam a Dani como madrinha, mas não a mim como padrinho, cargo que exerço à força e não discuto sobre o assunto).

É preciso que eu lhes diga que ingressar num aeroporto, pra mim, é uma experiência semelhante ao ingresso numa câmara mortuária, experiência impossível para um vivo, mas é como sinto o troço. Embicar o carro diante da cancela do estacionamento já basta para que eu veja o funcionário que me estende o tíquete como um São Pedro na porta do céu. Dali em diante nada mais me é real.

E como estamos com viagem marcada para 16 de junho, rumo à Europa, a experiência de hoje foi sofrível, angustiante, nada motivadora. Eu tenho visões estranhíssimas, e todo mundo andando pelo aeroporto tem, eu juro que vejo, algodões nas narinas. Um cheiro de éter me inebria, embora não haja éter nos aeroportos, dizem os sãos. Motoristas de táxi, fazendo alvoroço à saída do desembarque, são coveiros nítidos.

E há uma implacável diferença que me distancia da Dani. Ela é uma excitada criança naquele ambiente. Sorri, dá pulinhos, e hoje ficou a me dizer no ouvido, “daqui a pouco somos nós, meu amor”, e eu quase-desmaiva, sendo salvo pelo bravo Comandante, também presente.

Mas vamos aos fatos. A turba de umas vinte pessoas, pai, mãe, irmã, tios, tias, amigos e amigas, esperava a Raquel com bandeirolas amarelas, flores numa cesta imensa, uma expectativa de final de Copa do Mundo. Chegamos todos às 8h30min para a espera do vôo marcado para 8h35min. E Raquel só apareceu às 10h15min. As pessoas sorriam entre si, cantavam musiquinhas compostas na hora, choravam de uma alegria inexprimível, e eu, soturno como se fosse um condenado, num canto, pensando na nossa viagem de 13h de duração daqui a pouco mais de 15 dias.

Tenham certeza de que de hoje até a data fatídica eu serei um ninguém. Um autômato. Nada me animará. Dani, coitada, tenta me sacudir dizendo, “A Guerreira vai!, a Fumaça vai!, o Fefê vai!, o Mauro vai!”, e nada converte o quadro trágico que vivo. Ainda no domingo, diante de um Mauro também excitado fazendo planos de viagem com a Dani (aliás, se viagem fosse uma quase boa seria espontânea, não requereria tantos planos, metas, discussões que se estendem por semanas inteiras etc etc etc), eu cravei-lhe os lábios nos lóbulos e disse, “Não fique feliz por mim, Mauro, depois dessa viagem tenha certeza de que você rejeitará minha companhia até mesmo para um passeio para Petrópolis”.

Aos crentes, mesmo não tendo certeza da eficácia da coisa, peço que rezem por mim. Aos sacanas, imploro que evitem piadinhas de todo gênero. Aos fóbicos como eu, a solidariedade.

Até.

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>NO CLUBE RENASCENÇA

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Sábado, 48h depois da nossa performance espetacular, Augusto e eu marcamos novo encontro no Clube Renascença, no Andaraí, dessa vez com a presença da Dani, para a roda de samba que vem sendo armada pela numerosa e talentosa família de ninguém menos que Zeca Pagodinho. E eu senti-me um paulista na área. Todos os “obas”, todos os “olás”, todos os acenos de mão, todos os abraços e todos os tapinhas nas costas eram dirigidos ao Augusto.

E o Augusto apresentou-me, naquela oportunidade, ao Zé Sérgio, figura que tem marcado presença franciscana no Conexão Irajá, batendo um bolão nos comentários.

Falei no Conexão Irajá e não é possível não tecer brevíssimo comentário sobre o Szegeri, meu implacável Otto. Contei-lhes que durante a epopéia de quinta-feira, mantendo uma tradição estranhíssima, bati o telefone umas 30 vezes pro Szegeri. E não me lembro de nenhum de nossos diálogos, se é que houve diálogos. Mas recebi doce email do Szegeri na sexta-feira do seguinte teor: “Edu, você pode me ligar sempre que quiser, mas evite interromper minhas cópulas dezenas de vezes num intervalo de poucas horas”. Morreu ali a minha sexta-feira. Apaguei o telefone do meu Otto de minha agenda e jurei nunca mais incomodá-lo.

Mas como ia dizendo, apresentou-me, o Augusto, o Zé Sérgio. Figuraça. Saudou-me com um “amigos de infância, amigos de infância!” que me embriagou antes do primeiro gole. Foram chegando a Guerreira, o Dedeco, a Kaká, a Fumaça e a Sumatra, sua prima. O samba comendo solto, a feijoada fumegando na extensa mesa, a cerveja vindo nevada à mesa, até que o Zé Sérgio – são 16h – me disse com a mão no ombro e a boca colada ao meu ouvido: “Estou numa alegria intensa… minha mulher conseguiu convites para um ballet hoje à noite em Niterói. Carmen. Do Bizet.”. E pôs-se a chorar que dava pena.

Vejam vocês do que é capaz uma mulher. O Zé estava iluminadíssimo naquela mesa. Bebia cachaça e cerveja, intercalando os goles, cantando os sambas, ensaiando uns passos, e a cada 5 minutos chegava a boca perto de meu ouvido e repetia “Edu… ballet… tudo o que eu queria pra hoje à noite…”. E chorava.

Quanto mais a tarde avançava, mais a ira do Zé crescia, e ele dirigia impropérios divertidíssimos… “Edu… o que eu tenho a ver com a vagabunda da Carmen? Tô muito mais pra Xerém do que pra Espanha…”, e chorava mais, guinchava mais e sua imagem era de uma melancolia com pernas, braços, olhos azuis e cabeça branca.

É preciso dizer que todos à mesa faziam sinais com os indicadores apontando para os pulsos como quem diz “olha a hora! olha a hora!”, e a Guerreira cantava e dançava “Habanera” como uma espanhola de Madrid, Augusto, com a toalha da mesa, cantava “Toreador” enquanto a Dani brincava de touro diante de um Zé em desespero.

Sete e meia da noite e os olhos do Zé eram duas postas de sangue e lágrima ao despedir-se. Saiu em passos curtos, a cabeça baixa, os braços pendendo como os de um símio, rumo à Niterói, de táxi.

Mandou-me simpático email no domingo contando detalhes da viagem: parou na Leopoldina pra comer um X-Tudo, na rodoviária pra tomar uma média de café, no pedágio pra comprar biscoitos de polvilho, e na porta do Teatro Municipal, onde traçou quatro churrasquinhos com farofa e molho à campanha.

Contou-me mais: fora expulso por seguranças do Teatro quando, ainda no primeiro ato, diante da performance da Companhia de Ballet de Niterói durante o prelúdio, gritou alucinado “dancem o miudinho, porra, o miudinho!”.

Detalhe final: o Zé cravou em minha lapela uma medalha imaginária quando disse antes de partir, “Edu, gostei de você por que você não vale rigorosamente nada.”. Nesse momento pensei em ligar pro Szegeri para lhe contar do encontro, mas diante do juramento, desisti.

Até.

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>E O AUGUSTO VEIO AO BUTECO

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E eis que o Augusto, aquele que, recentemente, foi vítima de minha olímpica e feroz amnésia (relembrem aqui), esteve ontem, quinta-feira, no Buteco do Edu, em minha casa.

Como a foto atesta, recebi o bardo com autênticos canapés do Bar Léo, tesouro que me foi apresentado pelo bom Szegeri, e algumas casco-escuro de Brahma e de Original. Dani teria de passar o dia fazendo umas traduções, e nossa idéia, minha e do Augusto, era a de passar o dia mantendo algumas tradições.

Havíamos marcado para 12h30min o início dos trabalhos. Quando Augusto bateu a campainha às 12h10min, eu pensei: “O malandro está com sede. Não vai prestar.”. E não prestou. Acompanhem.

Ficamos de papo no buteco, desfrutando da companhia da mulher que me ensinou a sorrir, até às 14h. E como eu pretendia tentar repetir a mesa do Bar do Giba, em São Paulo, quando o Szegeri convocou o Augusto e o Capitão para bebermos juntos, bati o telefone pra Betinha e Flavinho e pro Dedeco. Marcamos às 14h30min no Bar Brasil, na Lapa.

Antes, fui apresentar o Augusto pro Joaquim, dono do Rio-Brasília, buteco que fica a poucos metros de casa. Bebemos uma Brahma de pé, no balcão, Augusto pediu uma (não é um engano numérico) fatia de carne assada, despedimo-nos do bom Joaquim e rumamos pra Lapa de táxi.

Betinha, Flavinho e Dedeco já nos aguardavam no Bar Brasil. E as caldeiretas vinham à mesa em velocidade de fundista. Costeleta de porco, bolo de carne, muito papo furado, risadas à sorrelfa, e às 16h, quando as portas começaram a se fechar, partimos, sem o Dedeco, pro Bar Getúlio.

Fomos recebidos pelo Baiano. Várias tulipas, músculo à Moacyr Luz, mais papo, o barco já estava adernando. Isso era visível. E previsível que nada iria nos conter.

Pequena pausa para esclarecer que uma Betinha determinada decretou, ainda no Bar Brasil, que o Augusto nada pagaria. Nada.

E deu-me aquela típica coceira de telefone. Bati o celular pro Szegeri apenas para dizer isso: “Szegeri, vou passar o telefone pro Augusto. Pergunte a ele quanto ele gastou até agora.”. Um samaritano Szegeri atendeu meu esdrúxulo pedido eis que ouvi Augusto gritando “Porra nenhuma, eles não estão me deixando pagar nada!” (e eu liguei pro Szegeri todas as vezes que as contas iam sendo fechadas nos bares, para a mesmíssima pergunta).

Conta fechada no Bar Getúlio e Augusto gritou de pé (o Augusto é enorme, seu grito fez tremerem os vidros dos janelões do Palácio do Catete): “Quero ir pro Picote! Picote!”.

Fomos. Camarões vinham à mesa escoltados por mais chope. Camarões e mais alguma coisa que a memória obnubila. E Flavinho e Betinha requereram uma esticada em sua casa, no Flamengo, ali pertinho. Fomos a pé (o trajeto seria feito em condições normais em 10 minutos; levamos quase uma hora).

O simpático casal serviu-nos de Erdinger, uma cerveja fortíssima, que era tudo o que não precisávamos. E mais cerveja. E mais cerveja. E Betinha pediu pizza, coitada, e o Augusto comeu até a embalagem de papelão elogiando o tempero diferente, peculiar, mas gostosíssimo.

Despedimo-nos dos dois. E rumamos pro Estephanio´s, onde chegamos depois de instruir, por gestos, o motorista de táxi. Mais chope. Mais chope. Cachorro, com pena, pediu um táxi, empurrou-nos para o banco de trás e saltamos diante do meu edifício, que parecia a Torre de Pisa sob minha ótica.

Dani armou uma barraca pro Augusto na sala, já que trabalhava, ainda, nas traduções. A pobrezinha precisou traduzir o que falávamos (contou-me isso hoje pela manhã) e fui pro quarto, onde desabei (desabei mas fui acordado algumas vezes pelo ronco tremendo, seguido de assovios desafinados, do Augusto).

Agora, vejam que cena, vejam que cena!

Às oito estava de pé. Fui à cozinha. E Augusto estava diante do tanque esfregando colchão, lençol, coberta, fronha.

Golfou olimpicamente, não se recordava quando.

Uma quinta-feira homérica. Fizemos bonito. Augusto partiu, rumo a Niterói, por volta das 10h, quando eu tomei o caminho da Pittbul Gym (vejam que nome bonito para uma academia).

A julgar pelos planos de hoje, eu, Dani, Guerreira e Fumaça vamos ver o Moacyr Luz e o Água de Moringa em Copacabana, suar na esteira tudo o que consumi ontem foi prudente. Amanhã, lá estarei eu de novo, ganhando massa, perdendo gordura e tentando manter a forma.

Que final!

Até.

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>A RESSACA DO BATISTA

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Bem, o Batista dormiu em minha casa, como lhes contei ontem. O que eu não sei se lhes contei ainda é que o Batista está casado. E pela segunda vez. E não temo enganar-me se lhes disser, de público, que está casado pela segunda vez apenas por enquanto, já que antevejo o terceiro casamento do Batista não muito longe. Do jeito que está sua cabeça, do jeito que está seu casamento, o bolo vai desandar.

Para ser mais honesto, o Batista não dormiu na minha casa. O Batista continuou a beber em minha companhia. Com uma diferença fundamental: para cada dose que eu servia a mim, o Batista bebia três. E ouvi, madrugada adentro, um Batista já quase-rouco lendo e relendo o bilhete de Dirce, cada hora com uma entonação. Ele foi de uma ênfase de Brizola, de uma fúria de Carlos Lacerda, de um lamento viniciano, e chorava dentro do uísque que deu-me dó.

E eu falei em dó e preciso lhes contar que dentro do motel o Batista foi um pungente e pesaroso homem. Contou-me que a entrada de Dirce no quarto, quando ele esbofeteava uma Linda que pedia mais, foi digna de filme do Tarantino. Uma patada na porta e um grito de “parem!” ouvido por todos os fregueses do Palácio do Rei fez de Dirce o centro das atenções naquele quarto (que fedia, contou-me o Batista). Ela sentou-se à beira da cama e com as mãos em seu tornozelo (Batista estava nu, de meias Lupo pretas, apenas), chorando como criança perdida na praia, disse: “Vocês dois me fizeram sofrer. Você, Linda, sua vaca (e os olhos de Dirce perfuravam as duas contas de esmeralda da irmã, mas com as mãos ainda no tornozelo de Batista), jamais teve o cuidado de ser discreta. Gritava, berrava, urrava, gemia como cadela de rua no cio a provocar os vira-latas de todo um bairro, enquanto restava a mim a masturbação doentia que quase me aleijou. Você, gostoso (e os olhinhos tomaram a direção do ventre do Batista), você suava que chegava a umedecer as paredes mofadas do meu quarto. Eu lhe ouvia a respiração ofegante, ouvia os sons dos tapas que morriam na face limpa dessa vagabunda, e chamava o cabo de minha escova de cabelos de Batista, chamava o vidro de Neutrox de Batista, mordia meus dedos, a quem eu chamava de Batista, e somente aquela noite, na garagem do seu prédio, pude perceber o quanto essa desqualificada era feliz, sem nunca ter se dado conta disso. Falava-me mal de você. Criticava seu corpo, tinha nojo de seu bafo, tinha medo, veja como ela é estúpida, Batista!, de seus ataques com essas mãos imensas (e cravou as unhas sobre a mão de Batista), confessou-me jamais ter gozado durante aqueles anos todos.”

Disse isso e abriu a bolsa de onde tirou algemas, cordas, uma toalha de rosto preta, e um Batista assustado deixou-se algemar, amarrado à cama e com a toalha enterrada na boca.

Uma Dirce inteira, “Palácio do Rei é o caralho, eu sou a rainha dessa porra”, esbofeteou a irmã, misturando suas lágrimas às lágrimas dela, ensopando o lençol bege, encardido e visivelmente mal lavado, e arrancou o vestido ordinário de Linda, e passou a mordê-la, com ódio, a amassar-lhe os seios de mármore (Linda é branca como uma nórdica), a beliscar os bicos rosados e ásperos com requinte das marmorras da ditadura, e chamava a irmã de Batista, e obrigava a irmã a chamá-la de Batista, numa satisfação que somente ela entendia, só parando quando percebeu que Linda estava vermelha, com a pele salpicada de placas que denunciavam seu inédito orgasmo, ofegante, cansada, com um sorriso típico na boca. E cuspiu-lhe nos olhos verdes ainda marejados, e quando Linda, com as costinhas da mão, limpou o escarro santo, riu lembrando de seu gesto idêntico na garagem.

E virou-se pra ele, Batista, e a essa altura eu tremia sentado na poltrona diante daquele Batista narrador, e cuspiu-lhe também na cara. E o beijou na boca, misturando língua, saliva, o algodão da toalha e sangue (Dirce sempre teve sangramentos tremendos, tipo hemoptise nas gengivas).

Pediu desculpas à irmã, que apenas disse, “claro, mana, eu te entendo… e obrigada por hoje..

Levantou-se, pôs um bilhete no bolso de sua camisa pendurada num desses cabides de laca, e disse, “Leia depois, meu amor. Vou procurá-lo dentro de uma semana, quando tudo estará mais calmo para você.”.

Tomaram banhos juntas, Linda e Dirce.

Batista, nu, de meias e amarrado, só ouvia as gargalhadas e sentia um intenso cheiro de maconha vindo do banheiro.

E bebemos até umas nove da manhã, quando meu telefone gritou.

Era a mulher de Batista.

“Sim, querida, ele está aqui. Passamos a noite jogando pôquer. Quer falar com ele?”.

Batista, abanando as mãos (é um italiano, o Batista, um italiano usando as mãos), pediu-me silêncio, disse algo que eu não compreendi e despediu-se de mim com olheiras de carcereiro. Disse apenas “vou pro inferno, Edu, ela está a me esperar e eu não consigo parar de pensar nas meninas”.

Vejam isso. “As meninas”.

Um romântico, o Batista.

Até.

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>A AVENTURA DO BATISTA

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É preciso que vocês se recordem que o Batista namorava a Linda, que morava com sua irmã, Dirce e com sua mãe Emilinha, uma viúva de hábitos conservadores que namorava o Cauby, Juiz de Direito (mais tarde, para desabamento moral da família, descobriu-se que Cauby não era sequer formado em Direito). Moravam na Tijuca. E é preciso ter em mente que graças aos bons modos de Batista, Emilinha permitia que os namorados dormissem juntos, sob seu teto, e que o quarto de Linda ficava ao lado do quarto de Dirce, que, mais nova, não tinha o privilégio de ter o namorado em sua companhia durante as noites. E que Batista e Linda arrulhavam à noite para desespero de Dirce, que valia-se das mãos, dos cabos de escova, dos vidros de Neutrox, para satisfazer seus voluptuosos desejos. Até que um dia, já lhes contei a história, muitos anos depois, Dirce, que guardava em si um ódio insano da irmã, fomentado por inveja em estado bruto, foi até o edifício onde Batista morava para engoli-lo por inteiro e arrefecer o desejo tremendo que guardara por longos e áridos anos.

Linda era baixíssima e loura, mãos e pés à forma de biscuits de porcelana, nariz mínimo, olhos verdes como esmeralda, e Dirce uma morena quase-potra. Quadris fartos, e Cauby sempre dizia ao vê-la sair do banho enrolada numa toalha, “vai dar uma boa parideira”, seios mais-que-protuberantes, bocas sempre em posição de dê-me-um-beijo, as duas não guardavam semelhança alguma, e agora, anos depois, Batista era a única coisa de comum que havia entre elas. E o jogo que Dirce impunha ao Batista deixava meu doce amigo numa sinuca de bico (outra antiqüíssima expressão).

Depois de nosso encontro no Chamego do Papai, Batista fez-me tormentosa pergunta que resolvi num estalo, e tenho que lhes confessar que o que eu pretendia, apenas, era enredo. O Batista era um folhetim e eu não pretendia deixar escapar a possibilidade de assistir aos capítulos que se desenhavam em minha mente. Batista bateu o telefone pra Dirce e recebeu instruções depois modificadas à noite, quando tornou a esperá-lo no sofazinho de couro na portaria de seu edifício. E deu-se o pânico em meu amigo.

Na véspera do aniversário de Dirce, às oito da manhã, meu telefone gritou. Era um Batista atônito na linha. E convocou-me, sem chance alguma de recusa, para um chopinho no Roquinha. O Roquinha fica próximo à Praça Saens Pena, numa esquina, serve um honesto chope e uns sanduíches cortados à francesa que são uma das obsessões gastronômicas do Batista. Quando apontei na esquina, perto das dez horas, repetiu-se a cena e o gesto do Chamego do Papai: Batista deu um salto à mesa, derrubou seu chope e gritou-me o nome como se eu não estivesse a poucos metros dele, fazendo gestos com as mãos num “venha cá, venha cá” de náufrago em mar bravio.

Contou-me tudo. Havia marcado com Linda para aquela tarde, às quatro horas, no Palácio do Rei, um motel abjeto na Rua Hadock Lobo. E Dirce chegaria às quatro e meia, quando, segundo instruções da perversa, Linda estaria sendo espancada de maneira covarde. Batista não compreendia por que obedecia cegamente as instruções de Dirce, mas estava numa excitação de pré-adolescente.

Impressionante como eu era, apenas, o macaco de auditório. Só o Batista falava. E por dentro eu aplaudia, tomava obsessivas notas de tudo, e o Batista bebia industrialmente, e os pãezinhos eram pedidos e repostos de forma velocíssima, e já passava das duas quando eu lhe pedi que parasse. Aquilo não iria dar certo. Batista estava enrolando a língua, paguei a conta – caríssima, mas eu me sentia comprando um roteiro por pouco dinheiro – e eu decidi ficar bebendo no Columbia, um bar pé-sujo bem diante do Palácio do Rei. Tomamos um táxi, saltamos diante do Columbia, despedi-me de um ansioso Batista que só atravessou a rua depois de virar, num só gole, um Fogo Paulista e de dizer-me um sem-sentido “reze por mim”.

Vi quando Linda chegou. Vi quando Dirce chegou. E preciso dizer que cometi uma inconfidência espetacular. De pé no balcão do Columbia, fui contando a um, a outro, o que se passava dentro do Palácio do Rei. Não sei se vocês compreendem como se passam as relações num buteco. Mas em coisa de meia-hora não havia outro assunto na esquina de Afonso Pena com Hadock Lobo que não aquele. Eu contava os detalhes sórdidos, a turba se dividia em pró-Linda, em pró-Dirce, e havia os fanáticos pela bravura do Batista, os que invejavam o Batista, os que pensavam num movimento insurgente a invadir o motel para acompanhar tudo de muito perto, no que fomos contidos pelo gerente do Palácio do Rei que tomava uma batida de limão no horário do lanche.

Nove da noite saem de mãos dadas, Linda e Dirce.

E nada do Batista.

Antes de entrarem no táxi, Dirce jogou-me um beijinho e os mais afoitos nem conseguiram alcançá-las. Batista apareceu mais de quarenta minutos depois.

Foi tratado como herói de guerra pelos frequentadores. Foi um tal de um querer pagar a cerveja dele, outro oferecendo moela, e Batista apenas sorria, dava autógrafos, posava para fotografias com os mais incovenientes, quando ele pediu silêncio e começou (antes eu fui obrigado a lhe contar sobre minhas inconfidências agudas):

“Gente… broxei. E assisti as duas irmãs num amor lésbico feérico. O dantesco, Edu, o dantesco, minha gente, é que as duas se chamaram de Batista, uma a outra, o tempo inteiro. Não me foi dada a chance sequer da recuperação. Me amarraram à cama. Fui solto por uma camareira a quem comi, a contragosto. E o bilhete, Edu… o bilhete que me deixaram no bolso da camisa… vou ler, vou ler…”.

Havia um silêncio no Columbia assombroso. Fila tripla de carros na Hadock Lobo. Guardas municipais, policiais militares, a assistência estava tensa.

“Batista: durante anos amei seus gemidos e tive ódio dos gritos secos de minha irmã, mas era esse o fundo musical de meu gôzo solitário naquele quarto que cheirava a mim. Quando o engoli, recentemente, pude sentir o gosto acre da minha solidão estúpida, daquelas noites que ainda doem em mim. Hoje, vê-lo ali, inerte, diante da nossa explosão de prazer, retrocedi no tempo. E enquanto mordia minha irmã e a via gemer de dor e de prazer, pedindo mais, senti-me poderosa, inteira, dona da situação, forte e verdadeira como jamais fui. Quero lhe dizer que odeio Linda com todas as minhas forças. Mas tê-la feito minha, hoje, tê-lo feito um passivo, hoje, ah, Batista, isso foi indizível. Com carinho, Dirce.”

Não se entendia nada. Mas os aplausos foram ensurdecedores e contínuos.

Entrei num táxi com um Batista triste. Confessou-me estar amando as irmãs. Mais Dirce que Linda, disse-me ainda.

Não a julgava mais uma louca. Compreendia sua sanidade, amava aquela sanidade, queria mais.

Batista, pobre Batista.

Pediu-me guarida em minha casa. Temia ver uma das duas sentadinhas com aqueles olhos de desejo no sofá de couro do hall dos elevadores.

Até.

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>MAIS SOBRE O BATISTA

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Prosseguindo, a pedidos, a saga do Batista, quero lhes contar que quando terminou de contar sua história, uma festa de “ohs” e “ahs” tomou o balcão do Chamego de assalto. Batista fazia cruzes com os indicadores, frente e verso, dando beijinhos nos próprios dedos dizendo “juro, juro que é verdade”, para meu delírio visual atestando a implacável antigüidade do Batista, eis que ninguém mais faz juramentos valendo-se desse gesto (e se você sabe do que estou falando, você também é um antigo).
Saímos do Chamego, eu e o Batista, às nove da noite, e é preciso lhes dizer que ninguém, rigorosamente ninguém entrou no salão do restaurante.

Agora que escrevi esse ninguém, ninguém… lembrei-me de uma coisa impressionante que quero dividir com vocês. Eu era bem menino e havia um anúncio na televisão onde um senhor, com um chapéu ridículo, gritava “ninguém, ninguém, ninguém segura o Khalil” (só muito tempo depois vim a saber que ele se referia aos preços da loja Khalil M. Gebara).

Mas eu assistia ao anúncio e tinha um pânico olímpico do velho. E uma dúvida impressionante me achatava e me tomava minutos após o reclame: quem, meu Deus, quem é o Khalil? Ou o quê, o quê é Khalil? E eu tentava me tomar de coragem e dizia pra mim mesmo que um dia eu haveria de segurar o Khalil para desmentir aquele idiota. Vejam que coisa.

Mas voltando. Saímos a pé do Chamego do Papai, atravessamos a Presidente Antônio Carlos, entramos pela Erasmo Braga e o Batista parou de repente, cravou as duas mãos sobre meus ombros e me disse com olhos de medo: “Edu, você acha que eu devo propôr um menàge às duas?”.

E eu disse: “Mas é óbvio que sim, Batista, indubitavelmente!”.

E o Batista dirigiu-se a um orelhão. Pediu-me um cartão emprestado e fez um sinal com mão como quem diz, “vá, vá, afaste-se um pouco, dê-me licença…”.

Encostei num poste e fiquei obervando o Batista conversando ao telefone. Fino como o Zé Colméia, Batista coçava o saco ostensivamente enquanto falava, deixando claro o nível de excitação do papo. Contei uns bons 10 minutos. E veio o Batista com um sorriso translúcido: “A Dirce topou, a Dirce topou!, mas pediu-me que falasse eu mesmo com a Linda.”.

Contou-me mais. Dirce, como se vê uma perversa de deixar Laplanche sem explicações, pretendia ver Batista espancando sua irmã de forma virulenta. E tinha idéias assombrosas, macabras mesmo, e Batista parecia um arrependido pelo convite.

Despedimo-nos no ponto do ônibus, tomei o 239 e ele o 415.

Bateu-me o telefone no dia seguinte cedíssimo.

Dirce o aguardava no mesmíssimo sofá na portaria de seu suntuoso edifício, e foi Batista, dessa vez, quem a tomou pelas mãos para levá-la até a garagem. Mas a moça cruzou os braços, encostou a boquinha em seu ouvido e disse-lhe baixinho: “Querido, tem de ser amanhã, véspera do meu aniversário. Ligue assim que chegar em casa pra vaca da minha irmã. Não diga que eu vou. Mudei de idéia. Eu apareço de surpresa no quarto do motel. Vamos combinar direitinho, você deixará a porta destrancada. Quando eu começar a ouvir os gritos de dor daquela estúpida eu entro.”.

Batista contou-me que nem dormiu. Ligou pra Linda. E amanhã lhes conto como seguiu-se o enredo.

Até.

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UM CASAMENTO MEMORÁVEL

Vamos deixar um pouco de lado as histórias do Batista – que são muitas, muitas!, vocês não fazem idéia – para que eu possa lhe contar lances de um casamento. Lances reais, realíssimos, eu estava lá e posso lhes atestar que tudo o que lhes contar é rigorosamente verdadeiro, não cabendo em mim a pecha de exagerado, usualmente merecida, mas não dessa vez. Foi na semana passada.

Cerimônia civil, apenas. No playground de um edifício grã-fino em Copacabana. Não vou lhes dizer o nome dos noivos para evitar constrangimentos. Foi numa sexta-feira. Às sete da noite. Construam, a partir daqui, o cenário.

Estão construindo? Edifício grã-fino. Copacabana. Sete da noite. Um calor senegalês.

Pois bem. Mantendo a tradição da Tijuca, chegamos eu e Dani às sete da noite em ponto. Estávamos com fome e a promessa de um bufet de primeiríssima nos fez não atrasar um mísero segundo, é sempre assim para quem é da Tijuca. Devo dizer que a Dani não é da Tijuca, mas de Volta Redonda. Ocorre que o que diferencia Volta Redonda da Tijuca é apenas o ar siderúrgico, no todo somos rigorosamente iguais.

Vamos ao cenário que encontramos. Ah, ia me esquecendo de lhes contar que a Dani é a madrinha. E fundamental esclarecer que eu não sou o padrinho. Sou apenas um fotógrafo, cargo que aceitei após um pleito do noivo formulado por email. Não, não foi por email. O noivo bateu o telefone pra mim e eu disse sim, aceito.

No playground, apenas o noivo, o DJ, os garçons e a responsável pelo bufet presentes às sete da noite. Recebeu-nos o noivo com um efusivo “eu sabia que vocês seriam os primeiros!”, atestando a força das tradições tijucanas. E fui ao banheiro. Fiz meu primeiro xixi da noite, dei descarga, pus-me diante da pia, ejetei sabão líquido nas mãos e abri a torneira. E nada de água. Senti-me o próprio Peter Sellers. Limpei o sabão com toalha de papel, mas dali em diante eu tive uma certeza bíblica: a festa seria um furdunço sem igual.

E foi. Vejamos.

Quando saí do banheiro (eu levei uns 15 minutos tentando encontrar, de quatro, o registro da água) o salão estava lotado. O noivo pra mim: “A Dra. Vitória está atrasada.”. Pronto. Não sei se vocês conhecem a Dra. Vitória. Juíza de Paz, casou o Borba Gato, celebrou o casamento de Pero Vaz de Caminha, foi madrinha de batismo do Chacrinha e é de uma antigüidade visual espantosa. E tem como característica atrasar-se ferozmente para seus compromissos. Eu previa uma tragédia alcoólica, vocês hão de entender.

Proseco e uísque brotavam das bandejas como água da fonte numa estância hidromineral. Eu, fotografando, ia devagar com o BlackLabel, e percebia as pessoas bebendo como se estivessem com uma sede de dias.

Passo pela noiva: “Edu, vá servir-se… os convidados estão meio tímidos…, me dê esse help.”. Eu preciso dizer que ainda não havia visto a mesa. Se a tivesse visto, estaria já, àquela altura, afrontado, já que perco o controle nessas ocasiões. Fui à mesa. E a cena.

Como javalis na savana, os convidados correram em fúria etíope em diração à mesa. Toda a elegância se esfumava. O relógio já marcava oito horas. E nem sinal da Dra. Vitória.

Volto à noiva, já descalça e coçando um calo nítido e resplandecente: “Meus pés estão doendo… obrigado pelo help… viu como era timidez?”.

Dani, Guerreira, Maria Paula e Giulia, já nitidamente alteradas, dançavam ciranda em torno da gangorra do playground, e minha previsão estava se realizando.

Nove horas.

Entra um sujeito mais suado que o Idi Amim Dadá num verão de Uganda.

O noivo: “Chegou o secretário da Dra. Vitória. Ela vai se atrasar um pouco.”.

A rodinha de ciranda agora acontecia em volta dos balanços, e num dos balanços, a noiva, descalça e com as solas dos pés negras como a pele do secretário da Juíza. Disse-me a noiva: “Edu, dá um help aqui pra mim e empurra o balanço?”.

Voltei os olhos para a mesa do bufet. Eu só via garfos, facas, mãos, braços e cotovelos num movimento frenético, como se escavassem a mesa (os canapés estavam sendo repostos mas nada dava conta da fome coletiva). A responsável pelo bufet suava como égua na reta final atropelando a barbada.

O noivo: “Edu, dez horas.”. Disse isso e riu. Riu por que estava bêbado de forma olímpica. Aproxima-se o secretário da Dra. Vitória: “Senhor, com licença… neste estado a Juíza não lhe casará…”. O noivo virou o proseco num só gole, arrotou e disse apenas “Foda-se”.

Dez e meia. E eis que surge a Dra. Vitória. Um convidado, com os botões da camisa abertos e a gravata enlaçada na testa, gritou: “Porra, a Hebe foi convidada?”. Houve um guincho coletivo, madrinhas e padrinhos esgarçavam a pele de tanto rir, a noiva calçou-se, o noivo cambaleante tomou-lhe pelas mãos e a cerimônia vai começar.

Um silêncio de São João Batista no dois de novembro pesou no recinto.

A Juíza, já com a toga azul-turquesa: “Por favor, senhores, vamos pôr os copos e as taças sobre a mesa… estamos iniciando um ato jurídico perfeito.”.

O sujeito com a camisa aberta e a gravata na cabeça, de voleio: “Ato jurídico perfeito é a puta que te pariu… perfeito seria se fosse às oito horas.”.

A Juíza pigarreou, assistiu atônita uma série de tim-tins pela felicidade do noivos – os garçons prosseguiam servindo bebida aos convidados -, fez que não ouviu o gracejo e começou: “Hoje estamos assistindo a uma união…”.

O mesmo cara: “Cala a boca, vaca! Eles já moram juntos há muito tempo…”.

Mais guinchos. A mãe do noivo e o pai da noiva choravam abraçados (eu acho que de desespero).

Maria Paula e Dani, madrinhas, lado a lado, jogavam cama-de-gato com uma fita de presente e os respectivos padrinhos, purrinha. A Juíza: “… estamos assistindo a uma união entre dois seres humanos que…”.

O malandro: “Puta merda, meritríssima… é óóóóóóóbvio que são seres humanos, animal!!!!! Onde é que tu se formou?”.

A Guerreira galopava em volta da mesinha que fazia o papel de altar gritando “burra, tãtãtã, burra, tãtãtã, burra…” com uma taça de proseco em cada mão…

A Juíza fechou a cara. Seu secretário tomou a pastinha de veludo vinho sobre a mesa com a certidão e ameaçaram sair. Um outro padrinho, cujo sugestivo apelido é AR-15, dando uma de Flavinho, sacou de uma pistola e forçou Dra. Vitória a celebrar o casamento, o que ela fez em segundos, tomando a assinatura dos noivos e dos padrinhos (eu li, eu li! uma assinatura onde se via Pato Donald escrito). Antes de partir pela porta dos fundos, a Juíza foi atacada pelo pai da noiva, num pescoção, que pedia, sem êxito, para que ela celebrasse o casamento de seu filho com uma das madrinhas, “uma morena de encher os olhos”, como repetiu-me durante toda a noite.

Um detalhe: os amigos do noivo, por engano, pintaram, penduram latas, puseram barbantes coloridos, espuma de barbear e purpurina no carro.

Da Juíza, não do noivo.

A essa altura da festa, os condôminos, incitados pela síndica, vaiavam a festa das janelas, numa delícia sonora impressionante.

Guerreira, louquinha por doces, comeu por engano os bonequinhos de massa comestível que enfeitavam o bolo, e vomitou, pouco depois, sobre a mesa de som do DJ que, revoltado, sentou o pau no funk o resto da noite. Guerreira aprontou outra: um dos convidados usava um colar ortopédico. Pensando tratar-se de um enfeite, Guerreira atracou-se com o sujeito em determinada altura e tentou, e o pior que com êxito, arrancar o aparelho do pescoço do coitado. E galopou em fúria eqüina com aquilo pendurado em seu pescoço gritando, “Gente, olhem minhas rédeas, olhem minhas rédeas!”.

A festa foi até às sete da manhã, quando noivo e noiva partiram para excitante lua-de-mel no Caribe.

Até.

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