Arquivo do mês: janeiro 2016

O SEGUNDO BARREADO DE MORRETES

Há coisa de uma semana decidimos, eu e a Morena, fazer – pela segunda vez – o Barreado de Morretes em casa. Como já lhes contara, aqui, em dezembro de 2013 fiz, pela primeira vez na vida, após intensa pesquisa, o prato típico do litoral paranaense, terra que a trouxe pra mais-perto de mim. Ainda morávamos na Haddock Lobo e, por razões de espaço, apenas quatro amigos foram convidados a testemunhar aquilo que considerei um feito: a receita ficou perfeita depois de muitas horas no fogo.

Porque o barreado é um prato que, além de dar muito trabalho, oferece uma série de riscos: são muitos os relatos dando conta de que o caldeirão, durante o cozimento, racha ou explode. A bem da verdade nunca é possível saber a quantas anda o cozimento uma vez que o caldeirão passa o tempo todo fechado e completamente vedado pela massa de farinhas e água, o que significa ainda mais adrenalina pra quem cozinha. É, portanto, pra mim – que adoro cozinhar e adoro desafios – um prato cheio.

Morando num apartamento maior e levando em conta o tanto de promessas que havíamos feito a algumas pessoas, desde 2013, fechamos uma lista de 16 nomes para o II Barreado de Morretes. Foram mais de 24h entre o preparo das carnes e a abertura do caldeirão, um dos ápices do ritual. Sim, porque o barreado é muito mais um ritual do que uma simples receita! A origem do barreado está intimamente ligada à história do Carnaval, significando, lá em seu nascedouro, a abertura do Entrudo, a festa que antecede o período momesco. O barreado, diz a lenda, é símbolo e prenúncio de fartura. De festa.

Dessa vez foram 8kg de carne, valendo portanto a média de 500g por pessoa: 2kg de patinho, e 1,5kg de bola da pá, peito, chã e acém. Muita cebola, muito alho, muito cominho e muito louro.

Todas muito limpas, sem traço qualquer de qualquer gordura, ficaram marinando por 5 horas (água, cebola, alho e louro). Depois foram postas no caldeirão forrado de bacon, em camadas intercaladas por cebola em pedaços, alho picado, louro e cominho (foto abaixo).

barreado 08 e 09 de janeiro de 2016

Às 23h o caldeirão foi pro fogo. Uma hora de fogo alto, duas horas de fogo médio e depois, sobre uma chapa de ferro em fogo baixo, foram mais 13 horas e 30 minutos de cozimento. Uma madrugada inteira acordando de meia em meia hora pra cuidar do barreado (é preciso barrear a panela diante do mínimo sinal de vazamento de água ou de vapor).

Foi, mais uma vez, emocionante retirar o lacre do entorno da tampa e perceber a casa inundada pelo impactante cheiro do barreado, ver as carnes inteiramente desfiadas, e dessa vez a casa cheia bem à moda e à risca do que nos contam os mais-velhos do litoral do Paraná.

Preparar o Barreado de Morretes, que faço segundo a receita que intuí depois de ler mais de 50 versões diferentes (e preparo aquela que é indicada como a original, sem invencões ou novidades), tornou-se pra mim um exercício de paciência e um prazer que só quem gosta de cozinhar conhece. É, de longe, a receita que mais gosto de fazer. E é também uma declaração de amor à mulher que me apresentou o litoral do Paraná, a cidade de Morretes e o barreado, e que – mais que tudo isso – reinventou a minha vida. É pra ela, sempre, que faço e que farei a receita do barreado.

No filme abaixo, registro de Fábio Seixas, o exato instante em que, às 15h30min, abri o caldeirão.

Até.

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