Arquivo do mês: março 2005

>LUFA-LUFA EM CAJAÍBA

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Heron, era esse o nome da entidade que assustava o povoado caiçara de Pouso da Cajaíba, com pouco mais de 200 habitantes.

Foi o que conseguimos saber após poucos minutos bebendo no Bar do Nael, diante da praia, o sol se pondo, eu, Dani, Szegeri, Stê, Capitão, Simone e Roberta, todos com copos de cerveja na mão com exceção da Roberta que não largava o pandeiro de couro. Estava anoitecendo e Nael acendia velas em todas as mesas apesar de apenas duas estarem ocupadas, a nossa e uma mais ao fundo do bar, sob a choupana, onde dois caboclos secavam um litro de marafo contando histórias de arrepiar. O que dava ao Bar um aspecto ligeiramente soturno, a igreja de há décadas com a porta semi-aberta ao lado, amendoeiras frondosas farfalhando ao vento, e suspendemos a roda de samba por decisão do Szegeri, atentíssimo à conversa dos malandros.

Fomos nos inteirando de tudo, ouvidos direcionados como sonares à mesa do fundo, e ficamos sabendo que em noite de lua cheia é que Heron faz das suas. Nos fundos do Bar, o SESC, que a ortografia de Pouso demonstrava numa placa de madeira escrita à tinta vermelha e preta ser o “Sentro Espírita da Sociedade de Cajaíba”. Comandado pelo Pai Carvalho, caboclo nascido há 93 anos em Pouso, o SESC andava meio caído, disseram os malandros durante a conversa, desde que Heron se manifestara num domingo de Páscoa, fazendo com que seu cavalo ficasse de quatro, pedisse cenouras, chocolate, esculhambasse todo o trabalho preparado para as batidas dos tambores e dissesse ser, vejam vocês, um coelho.

Daquele dia em diante, Heron fazia aparições nas noites de lua cheia – como a daquele dia – e uma especial, em grande estilo, no domingo de Páscoa. E estávamos num sábado, Sábado de Aleluia, e os caboclos que ali bebiam não escondiam o pânico que os assaltava.

Eu e Szegeri nos aproximamos da mesa e fizemos que gostaríamos de sentar. Os dois, quase que ao mesmo tempo, afastaram-se um pouco de seus bancos abrindo espaço pra nós, pediram mais dois copos ao Nael e nos serviram. Mesuras de bêbados, apertos de mãos, e se apresentaram, Clementino e Jesus, esses os nomes dos pescadores.

Estávamos os dois curiosíssimos e torpedeamos Clementino e Jesus de perguntas sobre Heron. Dani, no paliteiro, Stê no prato e faca, Capitão na cuíca, Simone no ovinho e Roberta no pandeiro faziam o samba que o Szegeri tentara impedir: “Benguelê… benguelê… benguelê ô mamãe Simba, benguelê…”.

Jesus crispou-se à mesa. Revirou os olhos, pôs as mãos pra trás, levantou-se, os olhos tomaram estranhíssimas formas orientais, e passou a gritar por cenoura, no que foi atendido prontamente pelo Nael, que a trouxe em rodelas, num prato de obrigação decorado com folhas de bananeira. Eu e Szegeri, brancos, tremendo diante do espetáculo grotesco, éramos a antítese da mesa ao lado, de onde agora vinha o som do jongo “Atraca, atraca”.

Clementino pediu silêncio à mesa e gritou por Pai Carvalho que não tardou. Nisso, Dani, Stê, Capitão e Simone voltaram a beber de costas para nós, os olhos de esguelha obervando o lufa-lufa nos fundos do bar. Roberta, pandeiro na mão, estacada com os pés enterrados na areia, não escondia o medo.

Heron (ou Jesus, como queiram), aproximou-se de Roberta, deu-lhe uns passes, e disse… “Mizifia… (ahhhh….)… minha doceira portentosa… (ahhhhhhhhhhhh…)… Heron quer chocolate, mizifia…”.

Se conheciam, os dois.

Pai Carvalho sorriu, chamou Roberta num canto, lhe ofereceu as instalações do SESC para que preparasse um brigadeiro para Heron, a essa altura já fora do corpo de Jesus, que suava estendido na areia com a respiração ofegante.

Heron voltaria, disse Pai Carvalho, no dia seguinte, Domingo de Páscoa, para saborear o docinho que seria posto na mata, em troca do quê, contou-nos também, não assustaria o povoado caiçara.

Em razão dos fatos, partimos todos no domingo pela manhã, na primeira traineira, com medo ainda, mas sem sabermos de onde, meu Deus, de onde?, Roberta conhece Heron. Tão logo eu saiba, Szegeri ficou de investigar, lhes conto.

Até.

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POUSO DA CAJAÍBA

Doces figuras, a Semana Santa foi em Pouso da Cajaíba, um paraíso a poucas horas de Paraty, de barco. A Semana era Santa, mas as companhias, todas, sem exceção, pagãs. Eu e Dani, meu irmão Szegeri e Stefânia, Léo (seu irmão, uma espécie de “dono” do pedaço, um craque) e Simone e Roberta Valente. Tentarei ser brevíssimo no relato.

As semanas que antecederam a partida foram caóticas. Diarréias, palpitações, noites em claro, pesadelos à noite quando eu dormia, estudos profundos sobre a região, milhares de emails trocados com o paciente Szegeri. Partimos, eu e Dani, às 6h de quarta-feira, de ônibus, para encontrarmos Fernando e Stê já em Paraty. De lá fomos para Paraty-Mirim onde um índio (uga) nos esperava. Fiquei cabreiríssimo já que o índio tinha celular, bebia cerveja enquanto nos esperava e falava um português perfeito, além de não entender nada quando fiz evoluções xavantes à sua frente, pedindo calma no manejo da canoa, entoando cantigas e em tupi-guarani.

A travessia, de pouco mais de 40 minutos, foi, segundo os ocupantes da canoa, calmíssima, embora eu orasse para o Pierre em busca de proteção. As malas chegaram encharcadas em Pouso da Cajaíba, um paraíso com pouco mais de 300 habitantes, sem luz elétrica, muito verde, prometendo um feriado porreta, como de fato foi.

Encerro por aqui, não sem antes dizer que, mantendo a tradição que nos une, a mim e ao Szegeri, choramos a rodo quando uma moreninha linda, 5 anos de idade, que recebera de mim um elogio ao seu sorriso e um barquinho de madeira como presente, Ana Cláudia, entregou-me uma concha dizendo-me ao pé do ouvido, pra você não esquecer de mim.

Ainda nessa semana conto detalhes dos cinco dias no Pouso, como dizem os caiçaras.

Até.

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>HOJE É DIA DE SÔNIA

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Doces figuras, hoje, domingo, 20 de março, é aniversário da Sônia, a doce “Manguasônia”, doçura em forma de gente, amiga em forma de mãe, carinho em forma de avó, que tem permanentemente os braços abertos sobre a floresta da Tijuca, e estou sempre morrendo de saudades dela.

Sônia, que também é Maria e é Clarice, que já chorou muito pela Pátria Mãe Gentil, que assistiu o companheiro partir num rabo de foguete, gerou Manguaça e gerou André, provando que sabe tudo, inclusive fazer gente.

Abri o Buteco hoje cedo, já fui ao mercado, comprei-lhe coisinhas a fim de lhe preparar conservas de berinjela, mais que aprovadas por ela, Nossa Senhora Absoluta das Cozinhas, já bebi uma abrideira, e anseio pelo instante do encontro, já que Sônia hoje oferecerá um de seus almoços indizíveis, e chegarei bem cedo, a fim de ver os potinhos com temperos que cobrem a bancada de sua pia, as colheres de pau nas panelas imensas sobre o fogão, aquela sala imensa, coberta de plantas, cheia da luz que invade as janelas na Conde de Bonfim, com móveis de Minas, com cachaças dos quatro cantos do País, e seu sorriso de sabedoria, de plenitude, e seu abraço mais-que-doce, aconchegante, uma franqueza que nos é cada vez mais rara.

Pequeno detalhe: a luz que invade as janelas, e há muitas janelas, e há de fato muita luz, não faz frente à luz que brota dos olhos que escondem uma tristeza de quem carrega o conhecimento da Vida nos ombros e do sorriso escancarado, a gargalhada descompromissada, um amor imenso, que não cabe ali.

Um beijo, Sônia querida, um brinde, e o meu amor.

Edu

Até.

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>A FESTA DOS NOSSOS AFILHADOS

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Doces figuras, no dia 26 de fevereiro de 2005, eu e Dani, na esteira da comemoração do primeiro aniversário da Dhaffiny, filha do Buba e da Lu, nossa afilhada de número 05, oferecemos uma festa de proporções gigantescas para todos os afilhados. Fizeram forfait, infelizmente, e muita falta, a Milena, filha da Mariana Blanc, afilhada número 01, e a Iara, filha do meu irmão Szegeri e da Railídia, nossa afilhada número 06. Marcaram presença a Ana Clara (afilhada número 02), o Alfredinho (diretamente dos EUA, afilhado número 03), Rafa (afilhado número 04), e, obviamente, a aniversariante, Dhaffiny, isso sem falar na quantidade olímpica de crianças agregadas, com direito, inclusive, a batismo na hora, já que Maria Helena, irmã da Ana Clara, inconformada por não ter a mim e a Dani como padrinhos, fez beicinho, chorou, pediu, e foi “adotada”. É nossa afilhada número 07.

Como bem disse a Lelê Peitos, presente ao furdunço, foi mesmo a emoção que não me permitiu falar antes sobre a festa.

Festa que, inclusive, mereceu críticas dos xiitas fanáticos por festas de criança, nas semanas que a antecederam, por não ter bola de gás, não ter palhacinho, não ter animadores e recreadores, não ter mágico, e por ter uma roda de samba programada.

E foi tudo isso o que mais foi elogiado.

Iniciada às 14h, a festa contou com churrasco sob o comando de Fefê e Isaac, cinco quilos de lentilha carneada, cachorro-quente da Lu, brigadeiros da Raquel Guerreira que os mandou pela Guerreira Filha, bolo levado pelo Miguel (com litros de refrigerante), mais de 400 cervejas (entre garrafas e latas), uma roda de samba da pesada comandada pelo Repique de Ouro da Vila Isabel, o Luiz Paulo, e arrastou-se gloriosamente até 2h da madrugada, quando eu e Dani nos recolhemos levando a Dhaffiny pelos braços, sequetrada dos braços da mãe à força.

Muitos os presentes, e seria impossível listá-los aqui, mas estão todos nas mais de 200 fotos que o evento rendeu.

Eu embriaguei-me, mais de alegria do que de birita, de forma torpe. Ver aquela molecada ali, se divertindo à vera, sem nenhuma papagaiada clássica e esperada numa festa de criança, foi extremamente gratificante.

E mais gratificante ainda acordar no domingo, às 13h, e dar de cara com o sorriso deslumbrante da Dhaffiny, no meio de nós, como que agradecendo a festança da véspera.

Até.

Posted by Hello

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