Arquivo do mês: outubro 2005

A ADEGA DO FEFÊ E DO ZÉ COLMÉIA

Fefê e Zé Colméia, dois dos piores anfitriões de que se tem notícia, mas dulcíssimos no trato pessoal, abriram ontem os portais da StefHouse para um churrasco. Presentes eu, Dani, Silvia, Betinha, Flavinho, Dalton, Camafeu, Vidal, Gláucia, Fumaça, Duda, Fefê, Brinco, Shasha, Zé Colméia, Vinagre, Marquinho e Manguaça. Vejam bem que a Duda estava presente, mas foi, a Duda, convidada de última hora.

Chegou à janela de sua nova casa (mudou-se para um prédio colado, parede com parede, com a StefHouse) e gritou “oi”. E recebeu de volta 34 braços e 34 mãos fazendo gestos sob gritos de “vem, vem, vem!”. E ela foi.

Mas chegou com o pai e a mãe, Rogério e Regina, que estavam fazendo pequenos reparos e algumas instalações no apartamento da filhota.

O Rogério, seu pai, é renomado sommelier, autor de vários livros sobre o assunto, organizador de cursos nos quais ministra aulas sobre a matéria e, diz a lenda, não bebe cerveja.

Quando adentrou o recinto, Rogério foi saudado com um respeitoso “oh” coletivo. E percebi, nos olhos do Fefê, o pânico instalado.

– Zé! O cara não bebe cerveja…

O Zé, fino como de costume (tenham em mente que o Zé é altíssimo e calça 50, o que dá a ele a aparência de um rude mastodonte) respondeu de voleio:

– Foda-se!

Fefê valeu-se de fundamentados argumentos para convencer o Zé de que seria de bom tom retribuir a gentileza, lembrando ao Zé a noite em que, depois de uma festa em sua casa na serra, o Rogério abriu caixas e mais caixas de raríssimo vinho do porto para eles. E os dois desceram, e eu fui atrás.

Foram à adega que mantêm em casa. O Zé mostrando uma garrafa pro Fefê disse:

– Esse aqui, Fê. Acho que ele vai gostar.

– Zé! Almadén não rola! O cara é super rigoroso!

– Foda-se, Fernando! Custou 3 reais essa garrafa, pô! Tu quer esbanjar, cara?

– Não é isso, Zé. Ele é sommelier!

– E daí, cara? Eu sou Botafogo, tu é Vasco e qual o problema?

– Vamos levar essa, então, que pelo menos tem nome estrangeiro!

– Essa foi 6 reais. Tem certeza?

– Tenho.

E subiram. Eu atrás de novo.

O Zé pro Rogério, desligando o som e pedindo silêncio:

– Rogério, é uma puta honra receber você aqui em casa. Como a gente sabe que tu não bebe cerveja queremos te oferecer esse tesouro que guardamos na nossa adega há mais ou menos uns 10 anos… – e estendeu a garrafa verde do vinho branco CountryWine em direção ao Rogério.

E parecia que o Zé estava pondo nas mãos do Rogério um vírus visível e mortal. O Rogério deu um salto pra trás. E o Zé, piscando o olho pro Fefê:

– Quê isso, Rogério!? Cerimônia não! Faço questão!

Tomou do abridor de garrafas numa das mãos – não há abridor de vinhos na casa – e empurrou a rolha pra dentro do vinho, que esfarelou-se em mil grãos.

Deu um vigoroso gole no gargalo.

– Rogério, toma aí! Dei esse primeiro gole e bebi a rolha esfarelada mesmo pra não te servir esse líquido precioso maculado por cortiça!

Estendeu ao Rogério a garrafa (o rótulo completamente desfeito pela ação do tempo) e um copo de geléia de mocotó Imbasa:

– Sirva-se! E perdoe pela taça, mas é o que temos de mais apropriado pra ocasião!

O Rogério, gentil e educado, polido e amedrontado, serviu-se e deu um golinho.

– E aí? E aí? – disse o Zé varando um tapão no ombro direito do Rogério.

O Rogério, fazendo uma careta terrível, disse:

– Legal. – estendendo o copo em seguida em direção à Regina.

– Sentiu aromas herbáceos? – perguntou o Fefê.

– Arrã. – disse um lacônico Rogério já se despedindo de todos.

– Pô… mó grosso o cara, aê… – disse o Zé entornando pelo gargalo o resto do vinho.

Do alto do terraço eu vi quando o Rogério, coitado, vomitou do outro lado da rua. E já longe do Zé, não temendo mais as possíveis retaliações, gritou:

– Zé! Se você temperar carne assada com essa bosta a carne estraga!

Até.

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PIMENTINHA

Operou ontem, mastectomia, Elis Regina of Royal Fashion, a Pimentinha pros íntimos, nossa doce cocker spaniel, na foto com um – vejam o nome disso – colar elizabetano. Atacada por um maldito câncer nas tetas e depois de avaliada por um junta médico-veterinária composta por uns 10, 12 membros (eu e Dani decidimos contratar um veterinário pra cada teta), Pimenta chegou ontem por volta do meio-dia na clínica, na Gávea.

Vamos a um breve panorama do clima do troço.

Na semana passada, Pimenta passou por uma bateria de exames. Radiografias, exame de sangue, eletrocardiograma, e a cada passo eu também me submetia, mentalmente, aos mesmos cuidados. Confesso que os veterinários estranhavam minhas reações, mas atribui tudo a gestos meio sem sentido de um pai extremado.

Anteontem à noite, véspera da cirurgia, acordei com Dani fungando algumas vezes, em prantos, pela madrugada. Pimentinha estava raspadinha, preparada para a mastectomia. Eu, Dani e Pimenta entre nós.

Rezas coletivas, Dani pôs um terço no pescoço dela fazendo papel de coleira-santa, ficamos folheando álbuns da Pimenta, e os comentários básicos: “A primeira ninhada”, “O primeiro passeio…”, “Olha! O aniversário de 3 anos!”, e nenhum de nós dormiu mais.

Chego à clínica, como disse, ao meio-dia.

A Dani – vejam a beleza das coincidências – a recebeu. Ela mesmo a operaria, com o auxílio luxuoso da Rita e do João, o anestesista. Beijei cada um deles, paguei – para garantir um tratamento vip – o triplo do que me fora cobrado (antecipadamente) e desmaiei na recepção da clínica, tendo sido atendido por um estagiário, que me pôs no soro.

Às 14h, uma hora antes da cirurgia, voei pro Tribunal de Justiça, para uma audiência. Meu rendimento foi pífio.

A Juíza, na abertura:

“O Doutor tem alguma proposta de acordo?”

“Não. Quero ela viva de qualquer maneira!”

A Magistrada olhou atônita para minha cliente que não entendia nada.

Entra a primeira testemunha, e a Juíza, pra mim:

“O Doutor tem alguma pergunta?”

“Quantos pontos ela vai levar?”

“Como?”

“Mantenho a ração ou há uma dieta especial?”

A Juíza cancelou a audiência e, parece, oficiou a OAB acusando-me de inépcia profissional.

De táxi, vôo pra clínica.

Atropelo um doberman, um labrador e dois siameses que estavam na recepção.

Invado o centro cirúrgico.

Pimenta com soro, sedada, levando os pontos.

Os três – Dani, Rita e João – se assustam e eu desmaio diante da visão do sangue.

Sou acordado com jatos d´água no rosto e um lenço de éter no nariz.

Grito:

“Pimenta!”

E ela, ainda meio grogue, salta espetacularmente da mesa de cirurgia e vem lamber meu focinho.

A Dani injeta um agulhão no meu braço e me deixa meio sem chão. Desmaio de novo.

E só acordo com a Dani (a minha), já com a Pimenta no colo trocando meus cheques por outros com o valor tratado.

Os três veterinários, Dani, Rita e João, estão ali, diante de mim, incrédulos.

Mas daqui do Buteco, rendo homenagens e ergo copos cheios à competência dos três craques que, daqui a 30 dias, passam por tudo de novo, no sistema mamário (que nome! que nome!) do lado direito.

Até.

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VASTAS EMOÇÕES E UNS RECADOS IMPERFEITOS…

Era pra ser segredo. Mas, como dizer?, não dá mais pra ser.

Em primeiro lugar porque os mais chegadíssimos já sabem da novidade, eu não me contive.

Em segundo lugar porque está quase tudo pronto.

Em terceiro porque hoje pingaram quatro emails de leitores do Buteco me cobrando os textos!

E em quarto lugar porque eu quero mesmo dividir com vocês, poucos mais fiéis leitores, a novidade.

É verdade que na semana passada estive em Cabo Frio e depois em Búzios, razão pela qual não pude mexer no Buteco. Mas ontem (são quase quatro da madrugada!!!!!), em razão do que vou lhes contar, não deu pra escrever nada. Amanhã não dará, essa semana inteira eu acho que também não.

Estou aqui, suando diante do monitor, fazendo os últimos acertos nos textos que tenho que enviar, o quanto antes, pra editora que – tchammmmmm! – vai editar um livro meu (não conto o nome, nem da editora e nem do livro). Logo, estou envolto em mares de papéis – o monitor não basta pra dar conta de tudo -, em ondas de emails que vão e vêm, em carradas de telefonemas, por canetas marcando coisas, por lápis riscando outras, por borracha (borracha!!!!!), e por cigarros que insisitiram e sairam andando de dentro do armário em direção aos meus dedos aflitos pra me acalmar (depois eu largo de novo…).

Os recados são imperfeitos, como disse no título, porque todo o resto vai ficar mesmo como surpresa.

Os textos estão quase todos prontos.

Os textos da contracapa (não conto de quem) e de uma das orelhas (também não conto) estão prontos e entregues.

Falta o prefácio e a segunda orelha (que dependem de mim, ainda… preciso fazer chegar às mãos dos encarregados o calhamaço).

Capa, ilustrações e fotos sendo preparadas com o maior carinho do mundo (não conto nada, nem de quem, nem nada, nem me perguntem, isso é surpresa, pô!).

Mas se tudo der certo, se as coisas fluirem como vêm fluindo, ainda em 2005 – toc, toc, toc, no banquinho imaginário de madeira! – o livro estará, ó, na mão de vocês (por favor, né?). Caso não dê, no comecinho de 2006!

Torçam daí!

Até.

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A MULHER QUE ME ENSINOU A SORRIR

De hoje até domingo, 16 de outubro, o perfil da Sorriso Maracanã, da mulher que me ensinou a sorrir, vai ficar por aqui. Afinal, pô, o Buteco é meu! É que no dia 15, sábado, faz anos a mulher que me ensinou a sorrir.

E quando eu digo – e eu digo sempre – “a mulher que me ensinou a sorrir” consigo ver os balanços de cabeça e os muxoxos, “lá vem o exagerado…”. Mas não há exagero (e ninguém mais do que minha comadre querida, Mariana Blanc, pode confirmar isso).

No período em que vacas tentavam destruir meu pasto, quando eu era um machucado só causado por vilania das mais torpes, me veio a Dani.

Quando eu já não tinha mais esperança de tê-la – a queria há anos – me veio a Dani.

Quando eu já havia desistido de aprender a sorrir, me veio seu sorriso, que meu irmão Szegeri, com sabedoria, batizou de Sorriso Maracanã.

Parece que foi tudo ontem, mas lá se vão seis anos, seguramente os meus melhores anos.

Lá se vão seis anos, quando dançamos nus, na primeira noite, no calçadão de Ipanema, ao som de “Canção da Manhã Feliz” (eu sei que parece exagero de novo, mas dessa vez é o Mineiro, barraqueiro entre a Vinicius de Moraes e a Farme de Amoedo, quem pode dizer que estou sendo preciso do início ao fim).

Ergo do Buteco o copo à saúde dessa moça, que me trouxe o que há de melhor. A propósito, o breve recesso desse canto deve-se a uma viagem, curtíssima, mas que promete ser intensa, pra Cabo Frio, amanhã bem cedo. Eu e ela. Ela e eu.

Até.

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MAIS UMA MANIA INSUPORTÁVEL

Vamos abrir a semana sentando a vara. Tem troços que me tiram do sério, falando sério. Hoje vou falar de uma mania insuportável que grassa, infelizmente, por aí. O detestável hábito do “open house”. Vejam que coisa tola.

O sujeito – geralmente é a sujeita – muda-se. Em vez de dizer “vou inaugurar minha casa”, “vou receber meus amigos pela primeira vez”, ou ainda, “vou abrir os portões” (esse é adequado para as mais frescas), não. Enchem a boca e como vaquinhas de presépio dizem com a boca geralmente mole, “oiiii, gente… vou fazer um open house lá em casa”, e aí já reside a ignorância. Onde mais seria um “open house” se não “lá em casa”? Mas vamos em frente.

Recebi na semana passada um email e não vou dizer de quem. Mas vou reproduzi-lo e tecer comentários. Vejam bem que há menção expressa ao “open house” (e percebam que trata-se de uma ex-aluna do Ogá Mitá, uma escola construtivista que combate a americanização da língua portuguesa) mas é um convite para um chá de panela.

Antes, não sou eu quem diz, vamos à definição de chá de panela que encontrei no Google:

“O Chá de Cozinha (chamado de Chá de Panela em alguns locais) é uma reunião divertida da noiva com suas amigas, que funciona como uma despedida de solteira e uma oportunidade de ser presenteada com utensílios para seu novo lar.

Tradição que nasceu nos Estados Unidos, o Chá de Cozinha foi abraçado pela cultura brasileira. Geralmente é organizado por uma amiga ou parente que oferece a casa, faz os convites, organiza a lista de presentes e as brincadeiras que acontecerão na festa.”

Agora vamos ao email, mas guardem as informações em negrito (chá de panela é a reunião da noiva com suas amigas, uma despedida de solteira, tradição nos Estados Unidos):

“Galera, para quem ainda não sabe estou me mudando, mas não vou casar, não!!!

Primeiro troço que chamou-me muito a atenção: a moça não vai casar (notem que ela diz isso, que não vai casar, valendo-se de três exclamações! Como está feliz por não casar! Levando em conta seu histórico no ramo, compreendo).

“Vou morar sozinha, no anexo, um apartamento a uma quadra da minha atual casa e a uma quadra do meu “point” preferido: o Estephanio´s ! Festeira do jeito que eu sou, não podia faltar um Chá de Panela e muitos Open Houses. Além de que, eu conto com a ajuda de vcs para montar o ap.”

Sou um boçal na língua, mas Open House não deveria ir para o plurar. Vejam que começa a brotar a cara da Tijuca na coisa… “conto com a ajuda de vocês para montar o apartamento”.

“Devo me mudar na semana que vem, mas o Chá de Panela deve ser no dia 16/10, casa da minha avó. Confirmo a data e o local pra vcs, em breve. Os Open Houses vão ser marcados aos poucos…. conforme eu for ajeitando a casa. Em anexo, está a Lista do Chá de Panela. Quem quiser participar é só escolher um item e me enviar um e.mail dizendo (no corpo do e.mail) o que escolheu, aí eu marco na lista. Quando eu mandar o e.mail confirmando a data e o local do Chá de Panela, mando tb a lista atualizada com o que cada um escolheu. Vcs vão reparar que são duas listas. A primeira com itens baratinhos que podem ser escolhidos individualmente e a segunda com itens mais caros que podem ser divididos por um grupo de pessoas. Vcs decidem!! Espero todos vcs lá!! Beijinhos”

Aqui, o auge. Tijuca em estado bruto. “Quem quiser participar é só escolher um item…” foi demais. E as duas listas? E as duas listas????? Uma com itens baratinhos (eu consigo ver a cara da moça no dia da festa se você chega com um item da primeira listinha, pensando por dentro, “pão-duro… baratinho isso…”) e a outra com itens mais caros que podem ser divididos por um grupo de pessoas. Grupo. Grupo. Meu Deus. Que mania! E o mais comovente foi o “vocês decidem” no final, como se isso não fosse óbvio. E vejam se não merece, a mocinha, a fotografia que ilustra o textinho de hoje. Óleo de peroba nela! Êta cara de pau olímpica!

Mas há mais! Há mais! Dois dias depois desse email, chega outro:

“Pessoal, segue a lista do Chá de Panela atualizada, em anexo. Está confirmada a data, dia 16/10, domingo, 16h (segue o endereço) Levar umas cervejinhas!!! Espero vcs lá!! Beijinhos”

E volta a Tijuca atropelando a gente: levar umas cervejinhas… (isso se lá você não for obrigado a ratear as comprinhas da festa…)

Bem, terminados meus comentários, quero dizer que outra moça, também não lhe direi o nome, infectada pela mania, depois de um ano e meio morando na Tijuca em apartamento novo, resolveu fazer, na semana passada, um “open house”. Um ano e meio depois.

Tsc.

Tá feia a coisa.

Mas eu gosto, assim mesmo, tanto da Duda quanto da Brinco.

Até.

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O SZEGERI E MEUS EXAMES

É preciso, antes de mais nada, pedir perdão por ontem, quando o Buteco não abriu. E não abriu porque passei grande parte da minha manhã na Barra da Tijuca, estranhíssimo bairro que evito como o Drácula evita uma cabeça de alho, em um consultório médico. E quando digo consultório médico tenho que lhes dizer quem é o médico: meu dileto amigo Vinícius.

Queixando-me de dores olímpicas, bati o telefone pro Vinícius na segunda-feira passada em busca do nome de um médico de sua confiança, que atendesse meu plano de saúde, para que eu pudesse marcar consulta. Fino – por isso também gosto dele, o Vinícius, que não atende o meu plano de saúde, disse “Vá se fuder, Edu!”, e marcou um horário pra mim no dia de ontem.

E lá cheguei na hora marcada.

Antes disso, pequena pausa. Durante a semana, bati o telefone pro Szegeri e contei-lhe tudo. E é preciso uma pequena confissão. O Szegeri, que sempre porta-se dessa forma, quando tem um amigo assim, digamos, adoentado, ou com alguma espécie de dor, e com médico marcado, não consegue disfarçar nem minimamente: fica entre a angústia e o pesar e a excitação e a euforia. Vejam isso.

– Szegeri, querido, estou com umas dores assim, assim, assado, e na quinta-feira tenho médico… – e sou cortado com fúria por um Szegeri varado de felicidade, “Quando mesmo? Quando mesmo?”, como quem pretende dizer que gostaria muitíssimo de estar comigo, ao meu lado, dentro do consultório (quando ele disse “quando mesmo” pude ouvir a baba a lhe escorrer pelo queixo barbado). Estar comigo mas não para me fazer companhia, e sim para acompanhar tudo de perto com a pretensão das velhas fofoqueiras das portarias dos edifícios da Tijuca.

Pois bem. Cheguei na hora e fui atendido. O Vinícius, um craque (foi minha primeira consulta com o bardo), pesou-me, mediu altura, tirou pressão, auscultou-me em vários locais do corpo (eu, o bobo, pensava que só no coração), apalpou daqui, apalpou dali, prendi a respiração, respirei fundo, e ele meteu lanternas nos meus olhos, na garganta, mexeu, remexeu, e disse ao final, cansadíssimo, “Edu… aparentemente – eu disse aparentemente… – você não tem nada. Fígado no tamanho normal, vesícula idem… sem dor…”, e eu ali, aliviadíssimo, pensando na frustração do meu irmão paulista.

Mas – todo médico investiga – o Vinícius pediu-me um exame de sangue completíssimo. Uma espécie de check-up do que me vai pelas veias. Despedimo-nos, agradeci do fundo da alma seu carinho, e da garagem mesmo do edifício onde fica o consultório, bati o fone pro Szegeri:

– Oi, oi, oi, e aí? – era ele excitadíssimo me atendendo (antes mesmo de ligar verifiquei que seis recados dele me aguardavam na secretária eletrônica).

– Tudo bem, os exames não deram nada a princípio, o Viní…

– Como nada? – vejam vocês a que ponto chega o meu bom Szegeri.

Eu nada disse, mantive-me calado.

E ele:

– Quer dizer… e a dor, porra?

– Ainda aqui, devagarinho… mas está… terei de fazer um check-up sangüíneo…

– Quando? Quando? Quando? – eu podia ver o sorriso em seu rosto.

– Provavelmente amanhã cedo…

– E o resultado? Quando? Quando? Quando?

– Sei lá, Szegeri! Porra! Vou saber amanhã…

– Jura que me liga assim que souber os resultados?

Eu mudo, desliguei, fingindo que caíra a ligação.

Percebam essa verdade inatacável que machuca um irmão seu: o Szegeri, hipocondríaco olímpico que é, acompanha um check-up de um amigo, acompanha um simples exame de um amigo, acompanha uma ida ao oculista (antiqüíssimo isso, hoje vai-se apenas ao oftalmo, assim mesmo, abreviado, que é mais chique) como quem acompanha uma final de Copa do Mundo.

Até.

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>A TIJUCA EM ESTADO BRUTO

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Cheguei há pouco do Mundial (o menor preço total). Promovendo uma queima de preços em razão de seu aniversário, o Mundial estava assim, l-o-t-a-d-o. Preciso dizer que falo do Mundial da Rua do Matoso, onde a Tijuca é mais Tijuca.

Um tijucano, como eu, de raiz, dos pés à cabeça, quando vai ao supermercado tem diante de si – se tiver essa capacidade, e eu tenho!, eu tenho! – um espetáculo vivo, tijucano, genuíno, que chega a ser comovente.

Vou contar a vocês algumas cenas:

cena 01) estou no corredor dos cereais. O locutor – há um locutor com a voz idêntica à voz do Sílvio Santos no Mundial, percorrendo os corredores com um microfone sem-fio anunciando promoções-relâmpago – vem em minha direção, estaca diante do meu carrinho (eu estava comprando Corn Flakes) – e diz em alto volume, “Oi, bom dia você, bom dia dona de casa, bom dia vovô, bom dia vovó… olha só quem está aqui… oi… dona Carlinda… bom dia!, mas oi… você… eu quero anunciar para os próximos cinco minutos o Corn Flakes por apenas um real, um real apenas… aqui na minha mão, quando eu vou pôr a etiqueta da promoç…” – e foi atropelado pela clientela. Tungaram o meu pacote de Corn Flakes e eu nada pude fazer. O que é importante ter em mente é que quando eu falo em clientela eu falo quase que da assistência de uma clínica geriátrica. Mas ali, naquele instante, diante da promoção, os velhos reumáticos e as velhinhas de cabelo azul eram lobos com fome na floresta.

cena 02) já avancei um bocado. Estou diante da gôndola dos pães de forma. Diante de mim, uma mocinha simpática surge com um bandejão, pendurado no pescoço, onde se vê um pratinho de pão de forma e outro tipo bisnaguinha, e um potinho de requeijão. Diz a menina, “Servido, senhor? Gostaria de provar nossos pães e nosso requeijão de soja?”, e eu digo, sorrindo (o que é raríssimo), “Não, obrigado…”. Mas a alcatéia não tarda. Só ouço o arrastar de sandálias, chinelinhos, tamanquinhos, e o falatório. “É de soja, filha?”, diz uma velhota já tascando duas bisnaguinhas e mordendo a primeira a seco. “Posso experimentar, querida?”, diz outra e a menina, “Mas de novo, senhora?”, e a indignada, “Petulante! Eu tô com fome!”, e a clientela concorda, “É muito petulante!”, “Abusada!”, “Vê se pode!”, “Ai esses jovens de hoje em dia…”, e em questão de segundos a menina é abandonada, cercada por migalhas e farelos, a bandeja árida, sem os pães, sem os pratinhos, sem o pote do requeijão.

cena 03) estou chegando ao caixa. Começo a pôr minhas compras na esteira. Um cutucão. Eu olho e é a velha faminta que agrediu a mocinha dos pães de soja. Ela, “Filho, posso usar seu carrinho ou você vai usar?”, e eu sem olhá-la diretamente (um perigo em supermercado), “Pode, senhora…”, e ela com a mão geladíssima e cheia de gordura (deve ter comido outro troço durante seu passeio pelo supermercado) no meu braço, “Ah, que bom, meu filho, é que eu tenho artrose, e pra ir lá fora pegar um carrinho…”, eu nem digo nada mas a velha que está pagando me pede licença e tasca também a mão no meu braço pondo a mão por cima da mão da primeira velha e diz, “Eu também. Um horror. Vamos juntas ali na Vita? Os remédios estão em promoção!!!!!”, e as duas saíram de mãos dadas, a outra esqueceu-se inclusive do carrinho. Era só mesmo pra encher o saco.

Até.

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