Arquivo do mês: abril 2011

27 DE ABRIL, O QUADRAGÉSIMO SEGUNDO

No exato instante em que este texto for publicado – zero hora do dia 27 de abril de 2011 – estarei a poucas horas de completar exatos 42 anos de vida, eis que vim ao mundo numa tarde de domingo, exatamente às 15h32min, no hospital da Ordem Terceira da Penitência, na Tijuca – onde mais? – único lugar possível para um sujeito como eu (e onde hei de morrer, que eu não sou maluco de morrer longe daqui). Estarei, como há tantos abris, logo pela manhã, passando a vida como num rolo de filme numa tentativa insana de viver de novo cada minuto desses pouco mais de 22 milhões de minutos vividos até então. Coisa pacas…

Eu, que sinto-me mais que nunca uma múmia, velho, caquético, tenho no rosto bem mais que a marca de meus 42 anos. Tenho as marcas do sofrimento que enfrenta todo aquele que está vivo, que a vida não é de brincadeira e prega cada peça que vou lhes contar… Barba branca, dores nas costas, sístoles e diástoles assustadoras, ptose num dos olhos, por aí.

E tenho como um de meus vícios (sou um homem que cultiva os próprios vícios dentro de uma estufa imaginária) fazer um balanço, ano após ano, pra ver como anda a maré.

E eu não posso reclamar, em absoluto, do que tenho hoje dentro do balaio de meus 42 anos. Tenho a meu lado, há quase 12 anos, a mulher que me ensinou a sorrir, ainda que a roda-viva da vida nos tenha lançado um tremendo desafio no colo – mas eu sou da Tijuca, pô!, e faço diariamente, assim que chego do trabalho, uma sessão de embaixadinhas, trazendo o desafio nos pés, para fazê-la sorrir diante de mim. E quando ela sorri não há sofrimento capaz de me tirar o humor. Tenho meus pais vivos, e papai e mamãe são os verdadeiros sustentáculos desse edifício que ergui com meu nome. Digo sempre, em oração silenciosa, de mim para mim, que se eu não fui (e não sou) o filho que eles esperavam ao menos honrei (e honro, diariamente) as maiores e mais graves lições que deles recebi.

Vai daí que sou – sei – um sujeito difícil. Mas muito dessa dificuldade (ou do que chamam “dificuldade”) vem da minha postura absolutamente incorruptível que não me permite transigir com o que considero meia-palavra, meia-boca, traição, mentira, sordidez, canalhice, calhordice e falta de caráter. Esta, uma das razões pelas quais angario gente à minha volta com a mesma facilidade com que angario desafetos, e um homem sem desafetos, sem inimigos, é um projeto fracassado de homem. Tenho orgulho de cada um deles, de meus amigos e de meus desafetos, que são como medalhas que trago estampadas no peito como sinal de que acerto no trilhar do caminho que desenhei pra mim.

Não tenho mais meus bisavós vivos, nem vivos estão meus avós, mas só um tolo afirmaria, com uma frieza que eu jamais conheci, que eles não estão vivos e ao meu lado. Tenho meus irmãos, e de sangue são dois. Tenho meus irmãos, e de fé são muitos – com a graça dos deuses a quem agradeço e louvo todos os dias. Tenho uma exército de moças, queridas minhas, minhas comadres, minhas afilhadas, irmãs que ganhei durante a trilha, a me embelezar o caminho. Não tenho, de fato, do quê me queixar.

Há uma – e apenas uma – queixa, apenas (antes que meus detratores empunhem as armas, foi de propósito esse repetir do “apenas”). Sinto cada vez mais distante o moleque no colo da mãe, no curso de 1969. Eu tinha, ali, os olhos cheios de uma inocência que se esvaiu com o passar dos anos. Lembro-me de que certa vez, não lembro quando, escreveu-me o bom Szegeri, um de meus orixás vivos. Tendo visto uma foto minha, escreveu-me pra dizer que havia visto, nos meus olhos, o oco onde antes havia o brilho, a dor onde antes reluzia alegria. Não estava de todo errado, meu irmão. Talvez eu sofra demais por tentar manter aceso esse brilho, por tentar suprir a ausência de um filho, por tentar dizer sim, todos os dias, quando a vida me acena com não.

Mas eu sou tijucano, pombas!, e aprendi nas ruas, no asfalto da vila na qual fui criado, a dobrar o tempo e a viver de arremessos capazes de me fazer ganhar o axé necessário pra seguir de cabeça erguida, queixo (que eu não tenho) pra frente e de braços abertos. Aos que vira-e-mexe me dizem “pare de comprar briga, Edu!”, respondo sem medo do erro que é disso, também, que me alimento. Se eu preciso de paz, faço a guerra pra que tenha melhor sabor a paz quando chegar. Se eu preciso de luz, armo o breu absoluto pra que uma nesga de claridade me sirva como guia.

É esse movimento que mantém vivo. Há 42 anos. Escolhi, por ser feliz assim, viver na encruzilhada.

Até.

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O CONTRATO DO COMIDA DI BUTECO

Eu sou um sujeito – é um de meus jargões preferidos – preciso do início ao fim. Além disso, sou advogado. E, por vício de profissão, faço questão de provar, sempre que possível (a prova negativa, a título de ilustração, é impossível), tudo aquilo que digo. Dito isso, vamos ao que quero lhes dizer hoje.

Estávamos a poucas semanas da abertura oficial desse pernicioso festival que atende pelo nome de Comida di Buteco. Pelo twitter, eu disse uma ou outra coisa sobre o festival e o perfil do festival (@_comidadibuteco) começou a me desmentir (sempre se dirigindo a outros usuários, jamais a mim, através do perfil @butecodoedu). Foi um tal de “onde você leu tal informação?”, “não procede esta informação”, e outras evasivas do mesmo gênero. Pois bem, enquanto não consegui acesso ao contrato, ao regulamento e a seus 4 anexos, não sosseguei. Breve pausa: fico pensando no quanto é importante correr atrás de provas que dêem sustento ao que dizemos, fico pensando no modus operandide nossa imprensa meia-boca, fico feliz quando posso dizer, calcado em provas irrefutáveis, que acho isso e aquilo de determinada coisa. Voltemos.O festival, que diz por aí que prima pela simplicidade, que apenas zela pela cultura dos botequins, que preserva a cultura dos locais nos quais se realiza esse horror, obriga seus “convidados” – os bares participantes! – a um sem fim de regras que, só por serem regras, são a própria negação da cultura desse troço tão arraigado no dia-a-dia do brasileiro. Ainda mais sendo as regras que são. Vamos a elas. E prestem bastante atenção. Vocês podem clicar nas imagens para que possam ler, com mais clareza, as cláusulas do troço.

Vale dizer que o contrato aqui exposto diz respeito ao Comida di Buteco do Rio de Janeiro. Embora eu suponha que no resto do Brasil seja o mesmo contrato (são mais 14 cidades conspurcadas por eles), não me atrevo a afirmar isso.

Os bares participantes – vejam quanta formalidade! – devem entregar até 30 de novembro (ou seja, 7 meses antes) xerox da identidade e do CPF de um dos sócios, contrato social, cartão do CNPJ e alvará de funcionamento emitido pelo Poder Público. Devem, ainda, entregar devidamente assinados o contrato e seus anexos I, II, III e IV.

Devem se comprometer, ainda, a comparecer à sessão de fotos que será marcada pelos organizadores a fim de que sejam fotografados os pratos concorrentes e os sócios dos bares. Como a comissão organizadora é generosa, são oferecidas duas datas. E o que acontece se o dono do bar, por acaso, não comparece em uma das duas datas?! Ora, ela pagará a diária do fotógrafo (que deverá ser o mesmo indicado pela comissão organizadora – não há menção ao valor desta diária…) para que o mesmo se desloque até o bar para a sessão de fotos.

Dizem, os organizadores, que não serão aceitas incrições de “refeições”, apenas de petiscos.

E mais: os “caros parceiros” (sim, eles chamam os participantes sujeitos à tirania do festival de “parceiros”) são obrigados a comparecer à “reunião de abertura” e convidados para o que eles chamam de “desafio Doritos” (Doritos é um dos patrocinadores do negócio). Os participantes que fizerem “o petisco de Doritos” concorrem ao prêmio de R$ 5.000,00 “em verba para investimento no local.”.

Aí acima temos a explicação do “desafio Doritos” e do desafio Hellmann´s. Vejam que graça: “A Maionese Hellmann´s também fará uma premiação em dinheiro. Porém estarão participando os botecos que utilizarem o produto na própria receita do petisco concorrente.”. O Doritos oferecerá R$ 5.000,00. A Hellmann´s, “uma premiação em dinheiro”. De quanto? O contrato não fala.

Alguém aí sabe de algum buteco de verdade que usa Doritos ou maionese em suas receitas? Pois é. Viva a Jabalândia.

O próximo item é mais impactante, quando se trata das “obrigações de cada boteco participante”. Vamos destrinchá-las.

Chama muito minha atenção o item “a”, vejamos. Cada participante é obrigado a dizer, “de forma clara e detalhada”, suas receitas, seus ingredientes e o modo de preparar o prato. Pra que, hein?! Um dos participantes disse-me, com todas as letras, que o Comida di Buteco visa, em futuro próximo, comercializar os chamados “petiscos” concorrentes. Não tenho prova disso. Os organizadores negam. Mas pra quê – me pergunto – dar a receita detalhadamente, o passo-a-passo? E o segredo? E aquela dica, aquele fundamental passo da receita… por que querem saber, os organizadores, isso tudo? Não soa estranho a vocês?

O item “e” é Jabalândia total! Os bares participantes devem permitir a “distribuição e afixação de peças gráficas de divulgação do Comida di Buteco distribuídas e autorizadas pelo CDB e permitir ações de merchandising dos seus patrocinadores, especialmente distribuição de produtos, brindes, afixação de placas e peças gráficas, banners e/ou outros materiais de divulgação, durante toda a duração do concurso, nas dependências internas e nos arredores dos botecos, em caráter de exclusividade.”. Bacana, não?

Fico me perguntando: o que será considerado “arredores dos botecos”? A rua? O espaço público? Quem já foi a um dos bares participantes sabe: eles transformam o bar numa espécia de arraial da Jabalândia: bandeirolas de festa junina, banners imensos, cartazes, toalhas de papel padronizadas, e tome jabá, tome jabá, tome jabá!

Estão sentindo o drama? Pois ainda não viram nada.

Vejam o item “g” das obrigações… O Comida di Buteco proíbe – proíbe! – os seus “parceiros” de participarem de festivais congêneres. Proíbe! Salvo se prévia e expressamente autorizado pelos organizadores. Mas peraí… Eles não estão aí para divulgar a cultura do botequim? Não deveriam incentivar a participação em mais e mais palhaçadas da mesma natureza? Não, meus poucos mas fiéis leitores… Eles tomam conta da situação, compreendem?

E o que dizer do item “h” que obriga o participante a participar de um treinamento (isso, treinamento!) oferecido por “entidade com notório conhecimento na área de alimentos e bebidas e/ou hotelaria, em parceria com o Comida di Buteco”? O nome disso é padronização – e isso me dá um nojo absurdo! Quer dizer que o pé-sujo (e não há pé-sujo participando do circo, graças aos deuses…) deve receber treinamento de uma entidade qualquer escolhida pelo Comida di Buteco? E o respeito à cultura? É balela, balela pura!

O item “i” é outro nojo. Os bares devem permitir que “artistas plásticos realizem instalação artística no(s) banheiro(s) do boteco, a qual deverá nele(s) permanecer pelo período definido pelo CDB, não podendo o proprietário do estebelecimento se opor à montagem ou à desmontagem da referida instalação”. Vomitaram? Mas os banheiros não são também julgados?! Ocorre que os proprietários são obrigados a permitirem essa babaquice nos seus banheiros… Eu fico pensando na reação do Marreco (Bar do Marreco), do Paulo (Almara), do Chico (Bar do Chico), da Martha (Bode Cheiroso) diante dessa imposição… O mesmo item “i” deixa claro que existe, na encolha (vocês já viram isso na mídia?) um concurso em paralelo chamado “Arte no Banheiro”. Só que a arte do banheiro não é a arte do banheiro do participante, sacaram? Ela é imposta pelos organizadores…

O item “j” legaliza a presença do poder de polícia do Comida di Buteco, que poderá manter promotores e patrocinadores nas dependências dos bares participantes.

Bacana, né? Tem mais.

Os organizadores, no item “m” das obrigações impostas, obrigam os participantes a permitirem fotografia do bar, de sua fachada, do banheiro (!!!!!), dos proprietários, dos funcionários e dos clientes (!!!!!).

O item “n” prevê a desclassificação do bar cujo proprietário falte à chamada “reunião de abertura”.

O item “o” exige que pelo menos a metade dos funcionários dos bares participantes participem do treinamento a que se alude no item “h”.

O item “p” volta a obrigar o comparecimento na “reunião de fechamento de avaliação do evento”.

O item “q” – atenção!, atenção!, atenção! – diz que os organizadores poderão fazer, a seu exclusivo critério, cinco “eventos privativos ao longo do ano com cada boteco participante.”. Fica claro, ali, o que seja “evento privativo”? Não. Mas cheira mal.

E o item “r”? Tanto o Comida di Buteco quanto seus patrocinadores “poderão utilizar livre e gratuitamente a receita do tira-gosto concorrente do concurso Comida di Buteco e/ou do concurso Doritos, podendo, por exemplo, incluí-la em seus sites e/ou livro de receitas a ser eventualmente publicado”. Sacaram a pavimentação da estrada da Jabalândia? O sujeito, no ato da inscrição, é obrigado a dar o passo-a-passo de sua receita, de sua criação. Em contrapartida (sem qualquer contrapartida, afinal a utilização será livre a gratuita), o Comida di Buteco poderá publicar seu livro de receitas… O que lhes parece?

E como se não bastassem as 18 obrigações impostas aos participantes, temos ainda o capítulo que trata das proibições, das vedações. A primeira?

Os bares não podem permitir “ações de merchandising de empresas que não sejam patrocinadoras oficiais do Comida di Buteco.”. Aqui, uma rápida: desde quanto botequim, buteco, promove ação de merchandising? Em linhas gerais, sabemos que a Bohemia – péssima cerveja – patrocina o Comida di Buteco aqui no Rio. O buteco, que ao longo dos 12 meses do ano, por exemplo, recebe inventivo da Brahma, ou de outra cerveja qualquer, durante os 30 dias de duração do festival não pode exibir ostensivamente a marca de seu patrocinador, apenas do patrocinador da Jabalândia… Sacaram a crueldade? O quão pernicioso é o mecanismo dos caras? Eles fazem uma ressalva quanto a isso… Mas proibem ações extraordinárias durante o festival… Por que?! Jabá, jabá, jabá!

E se eles impõem 18 obrigações aos participantes, comprometem-se a apenas 3 coisas: “dar ampla assistência aos botecos concorrentes”, “resolver, junto ao público participante, qualquer tipo de dúvida” e “divulgar ostensivamente o concurso”. Que tal? Quem ganha com isso?!

Confesso a vocês que o que se segue é abjeto demais para que eu me debruce, ao menos por ora, e minuciosamente, sobre as demais cláusulas do contrato de adesão ao festival.

Mas o que se vê – e o que se lê! – é de uma calhordice revoltante. Eles próprios, organizadores, reconhecem que “muitas vezes não se encontram amparados por legislação específica”. Reconhecem, mais, “que constituem verdadeiros direitos e segredos estratégicos para o desenvolvimento do seu negócio”

O quê mais tem a desenvolver como negócio o Comida di Buteco?

A tal venda de produtos congelados nos supermercados? – como me foi ventilado.

A publicação de um livro de receitas com sua marca?

Como uma das atividades econômicas da empresa Comida di Buteco é – 47.89-0-99 – Comércio varejista de outros produtos não especificados anteriormente – tudo me soa muito mal nesse contrato.

As disposições finais estão abaixo.

E que não me desmintam mais uma vez, os organizadores.

Ao contrário do que pensam uns e outros, não estou aqui para destruir ou impedir o êxito do festival. Eu não tenho esse poder – e ainda que o tivesse, faria apenas o que venho fazendo.

Meu papel – e o exerço por dever de consciência – é apenas o de dizer: não caiam nessa esparrela, enxerguem o lobo por trás da pele de cordeiro, não sejam partícipes de uma ação perniciosa que luta contra – e com armas muito cruéis – uma de nossas mais caras tradições.

Até.

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PAPAI TAMBÉM É FÓBICO

Ontem lhes contei aqui sobre uma das fobias de meu compadre e dileto amigo, Leonardo Boechat.

Hoje, já que o assunto – fobia – ficou me rondando durante a noite, volto ao tema. Meu pai, um homem que carrega nos bolsos uma quantidade impressionante de frases feitas, como já tantas vezes lhes contei por aqui, tem lá, também, suas reações pânicas (quem não as tem?). Hoje – sonhei com sorvete – quero lhes relatar o que se passa quando mamãe serve sorvete de sobremesa.

Vamos ao cenário. Podem estar à mesa apenas nós, os 3 filhos, as noras, papai e mamãe; pode estar também a Rainha da Prússia, num dos tantos jantares de cerimônia que mamãe promove. Pode ser uma noite de festa, dezenas de convidados espalhados pelos sofás da ampla sala, apenas a comida à mesa. O que ocorre – aguardem! – é sempre a mesmíssima coisa. A fim de simplicar o teatro (não-ficção, que fique claro), estamos apenas nós, a pequena família, à mesa. É um jantar.

Mamãe servirá o vinho e disporá os pratos no grande centro da mesa quadrada, sobre uma portentosa bandeja giratória. Brindamos, comemos, até que em dado momento eu pergunto:

– O que tem de sobremesa, mãe?

E quando ela diz “sorvete”, dá-se a bulha. Há toda uma festa de farfalhar dos guardanapos, pés que sapateiam por baixo da mesa de mármore, talheres fazendo os pratos de xilofone, uma tensão já de todos conhecida. Papai bufa sempre que mamãe anuncia, piscando para os três filhos:

– Sorvete!

Desse momento em diante – quero crer que por conta da ansiedade pela graça de sempre – todos à mesa aceleram seus movimentos. Jantar terminado, ajudamos todos a retirar os pratos, os talheres, trazemos os pratos de sobremesa, os talheres, mas justo quando a sobremesa é sorvete é papai quem sai atropelado em direção à geladeira no exato instante em que está tudo pronto para servi-la.

Ele mesmo abre o pote e começa a ladainha:

– Gente, rápido! Caso contrário, o sorvete vai virar sopa!

E aí, como somos (como todas as famílias) olimpicamente implicantes, a coisa demora. Mamãe serve-se primeiro. Papai arranca a colher de sua mão e a entrega para mim:

– Rápido, Eduardo! Vai virar sopa!

E dá-se o mesmo com cada um de nós…

De fato vai, o sorvete, derretendo. E papai derrete junto, geme, diz coisas ininiteligíveis entre dentes que rangem até que, desoladíssimo, como se fora viúva saudosa de um general de pijamas, recolhe o pote, levanta-se e toma a direção da cozinha bufando:

– Sopa! Virou sopa!

Houve, certa feita, um jantar de cerimônia. Mamãe trabalhava numa empresa de cosméticos, americana, e ocupava alto cargo. Parênteses.

Mamãe pode receber a Rainha da Prússia, rajás, ditadores, astros de Hollywood, não importa: papai estará descalço, o tempo todo descalço, exibindo os pés que lhe renderam, na infância, o apelido de Abominável Homem das Neves. Fecho e continuo.

O presidente da tal empresa e sua mulher (diretora não lembro do quê) eram os convidados, os homenageados da noite. Eram – o quê?! – 30, 40 convidados. Mamãe contratou serviçais, alugou castiçais de prata russa, louças inglesas, talheres impressionantes, contratou uma banqueteira de mão cheia, e havia faisões, cascatas de camarões (fazem um sucesso na Tijuca que eu vou lhes contar…), melões cortados imitando aves e o diabo. Para agradar o casal homenageado, mamãe mandou preparar o quê?! Sorvetes. E tinha sorvete de creme, sorvete de caqui, de tangerina, de limão, de todas as frutas tropicais (mamãe achou chique oferecer comida típica). Terminado o jantar, recolhida a louça pelos empregados, vieram à mesa, em suportes também de prata, os sorvetes. Mamãe visivelmente tensa (eu e meus irmãos acompanhávamos tudo pela fresta da porta do corredor). E quando o presidente (não lembro seu nome nem à fórceps) solicitou à mocinha de uniforme um dos sorvetes (penso que era o de caqui), papai parecia em transe do outro lado da mesa. Fazia gestos em direção à menina – que não entendia nada – e dizia, sem emitir um som, em busca da compreensão da leitura labial:

– Rá-pi-do! Vai vi-rar so-pa!

Até.

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ISSO É COMIDA DI BUTECO?

Recebi, ontem à noite, e-mail de uma de minhas poucas mas fiéis leitoras – de Belo Horizonte. Trata-se de uma moça que, à minha moda, revolta-se com a invasão de sua cidade por parte da horda de consumidores e seguidores da moda imposta pela mídia brasileira por conta do nefasto, nocivo e pernicioso festival Comida di Buteco, o festival da Jabalândia (leiam aqui).

E eu, que já havia inaugurado a série através da qual pretendo exibir as criações grotescas dos bares e botequins que se rendem às garras do festival aqui, volto à carga hoje pondo no balcão virtual o prato concorrente no festival em Belo Horizonte, nascedouro do troço, do Bar da Cida.

Eu, que não conheço o Bar da Cida e tampouco a própria Cida, falarei muito à vontade sobre o Floramar, que eles, organizadores, chamam de tira-gosto. O Floramar é, a foto é clara, uma gororoba de tremendo mau gosto que mais se assemelha a um outdoor disfarçado de tira-gosto. 

Trata-se de “carne de sereno, mandioca, cebola, alho, suco de siriguela, cogumelo fatiado, maionese, amido de milho, vinho, azeite, couve-flor, pimenta biquinho e cheiro verde”. Perderam o fôlego ou vomitaram lendo os ingredientes?

A foto – ah, a Jabalândia… – exibe a marca Hellmann´s (a maionese é uma das patrocinadoras da coisa) e a cerveja Bohemia, há muitos anos intragável.

Como os meus botequins de fé servem pratos que se resumem a uma palavra, duas no máximo (torresmo, pele, ovo colorido, carne-seca, lingüiça, por aí…), acho inacreditável a imposição do festival. Daí temos, além desse horror exposto hoje, “farofa de feijão andu com bacon puxado na manteiga de garrafa” (puxado?), “ossobuco desmanchado e carne de sol perfumados com limão siciliano em cama de angu e nacos de requeijão de raspa” (desmanchado?, perfumados?, cama?, nacos?), “lombo assado na maionese” (na maionese?), “surubim em cubos” (em cubos?) e um bolinho de carne-de-sol “finalizado com maionese” (finalizado com maionese?).

Se no Bar do Marreco, no Almara, no Bar do Chico, no Pink, no Columbinha, em qualquer outro do mesmo nível (todos portentosos butecos tijucanos), eu sonhar em pedir um desses troços no balcão, serei olhado com uma desconfiança irreversível.

Diante disso, resta-me dizer: fujam dos bares que participarão do festival, evitem esbarrar com os histéricos e com as histéricas no interior dos bares, onde eles terão chegado em vans alugadas para fazer o roteiro proposto pelos organizadores, não sejam idiotas a ponto de ficarem por aí conjugando o verbo proposto pelo festival – “Eu boteco, tu botecas, nós Comida di Buteco” -, não permitam que esse evento conspurque sua cidade e seu botequim preferido. Eu, ao menos, tenho imenso orgulho de dizer (e sou grato por isso) que os meus butecos de fé não participam dessa roleta-russa que visa, precipuamente, o lucro de quem, em pele de cordeiro, faz o papel do lobo devastador do sistema capitalista.
Até.

    

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BOECHAT, UM FÓBICO

Eu não sei se já lhes contei isso (acho que já). Se já contei, conto de novo. Se ainda não contei, segue a nota inédita: uma das mais estranhas confissões que já recebi me foi feita por meu compadre, meu dileto amigo, Leonardo Boechat. Sei lá onde estávamos e muito menos sei qual o assunto que estava em pauta. Só sei que num determinado momento ele pôs o copo de cerveja na mesa (estávamos no Almara, fabuloso pé-sujo na Tijuca, lembrei), enxugou a testa com o antebraço e disse, soturníssimo:

– Preciso te contar uma coisa.

Quando alguém me diz “preciso te contar uma coisa” dá-se em mim um frio na barriga, desses que os atores sentem na noite da estréia. A frase, em si, é uma janela aberta para o infinito, como dizia meu mestre, Nelson Rodrigues. Pois fui, imeditamente, solidário na máscara triste e severa que meu amigo encarnava:

– Sou todo ouvidos.

Seus lábios começaram a tremer num balé muscular descompassado que foi dando contornos de dramaticidade à cena. Ele deu um gole demorado, tornou a encher o copo, pediu outra garrafa ao Paulo, pôs uma das mãos em meu ombro e disse, olhando para o chão:

– Eu nunca fui a um velório. Nunca fui a um enterro. Nem de parente! Nem de parente! – e foi quase chorando que ele gemeu a confissão.

Fiquei sem entender o porquê daquela revelação. Fui, entretanto, e mais uma vez, solidário:

– Entendo… – mas menti, faço agora a confissão.

Pois dito isso, vamos ao que quero lhes contar.

Estava eu em casa, ontem à tarde, quando bateu-me o telefone, justamente, o Leonardo Boechat. Havíamos estado juntos, pela manhã, no Bar do Chico, na Tijuca, na domingueira matinal. Disse-me ele:

– Topas ir na casa da minha mãe agorinha mesmo? Quero que você conheça meu tio Plácido.

Não podia dizer não. O Boechat tem, pelo tio Plácido, uma fascinação de fã, uma adoração, uma afeição imensa, e eu, que já conhecia incontáveis histórias envolvendo seu tio, não perderia a oportunidade (Plácido não mora no Rio):

– Topo!

Fui buscá-lo. Boechat estava numa festa de criança, na rua Alice, em Laranjeiras. Saí da Haddock Lobo, dobrei na Matoso, peguei a Barão de Itapagipe, a rua do Bispo, cruzei a Paulo de Frontin, ganhei a rua Estrela, dobrei à direita na Barão de Petrópolis, atravessei o túnel e lá estava eu na rua Alice, deslizando na descida quando avistei o bom Leo. Assim que ele sentou-se no banco do carona, disse eu:

– Estou sentindo uma coisa estranha… – e eu não mentia, por óbvio.

Percebi os olhos boechatianos voltando-se para mim. Eu prossegui:

– Estou com o braço esquerdo, na altura do ombro, formigando. Sinto como se os músculos estivessem sendo repuxados para cima. E o formigamento avança, chega nos dedos da mão…

Ele disse, com o mesmo gesto de enxugar a testa (Leo é calvíssimo):

– Você está infartando! Casa de Saúde São José, imediatamente!

Eu, que tenho pânico de médico (só vou ao meu homeopata em caso extremo de sintomas muito evidentes), disse:

– Nenhuma chance. Vamos direto pra sua mãe.

Ele ainda tentou, durante o trajeto até o Humaitá, me convencer do contrário. Em vão.

Mas eis o que ocorreu: permaneci na casa de sua mãe – que é médica, diga-se – por umas duas horas (e valeu cada minuto, o Plácido é, de fato, um grande praça, sua mãe também). E durante 120 minutos o Leo parecia o que minha avó chamava de barata-tonta.

– Como tá o braço?

– Piorando.

E ele suava, sapateava sobre os tacos da sala em sinal de nervosismo e desespero.

– Quer que eu peça pra minha mãe tirar sua pressão?

– Não vai adiantar nada.

Até que eu disse:

– Leo?

Ele atropelou o vaso de antúrios que nos separava:

– Fala! Fala!

– Já pensou?

Ele ganindo:

– O quê?! O quê?!

– Se eu morrer aqui…

Ele ajoelhou-se. Juntou as mãos em prece pagã:

– Não! Aqui não…

Continuei:

– … muito justo que a parentalha saia com nojo do cadáver… Você terá de ficar me velando, fazendo quarto, até chegar a ambulância…

Ele, dirigindo-se aos parentes na cozinha:

– Gente, o Edu tá indo, ele tem hora!

E ele foi, efetivamente, me varrendo com as duas mãos, os olhos aterrados, empurrou-me pra dentro do elevador, fez questão de apertar o botão pra que eu descesse, ficou na janela pra se certificar de que eu partira.

Vejam vocês, fiquei com dó do meu bom amigo. A simples possibilidade, ainda que remota (eu não morreria fora da Tijuca) de velar alguém, de tomar conta de um defunto por algumas horas, trucidou o final de tarde do Boechat.

Era o que eu queria lhes contar.

Até.

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ISSO É COMIDA DI BUTECO?

Ontem iniciei mais uma cruzada contra esse engodo que atende pelo nome Comida di Buteco – leiam aqui. Pois volto à carga hoje – e será assim durante os 30 dias de duração do troço – para exibir uma ignomínia sem tamanho, exaltada, é claro, pelo Festival da Jabalândia.

Um dos participantes do circo, aqui no Rio de Janeiro (e outras 14 cidades estão sendo, ao mesmo tempo, conspurcadas pelo negócio), é o Bar 20, em Ipanema, na zona sul. No site do Comida di Buteco lê-se que o tal bar concorre com um petisco (tenho nojo desse nome) chamado “20 Salpicá”, e o nível da piada que cerca o nome da horrenda criação é um bom indicativo da qualidade de coisa (“vim te salpicar”). O que diz o site (vejam aqui) sobre o concorrente?

Que trata-se de um “salpicão de feijão com palha de carne-seca e vários ingredientes”. Que tal? A foto está abaixo. 

É justo na desonesta informação – “vários ingredientes” – que se esconde o tesouro do Reino da Jabalândia. Como a maionese Hellmann´s patrocina o evento no Rio de Janeiro (e como se sabe um bom buteco não pode dispensar a maionese nos pratos que oferece, não é mesmo?), lá está ela. Esse troço é, na verdade, um patê de feijão com maionese Hellmann´s.

O site de notícias R7 (aqui) revela o que os organizadores escondem. Lê-se lá:

“A escolha dos ingredientes foi feita pelo gastrônomo e realizador do concurso, Eduardo Maya.

– O objetivo do concurso Comida di Buteco é resgatar a culinária de raiz do Brasil. Por isso busquei em nossos ancestrais colonizadores portugueses e índios os ingredientes que hoje conhecemos bastante na composição da feijoada.”

Ora, a “culinária de raiz do Brasil” (a expressão também me causa engulhos) usa maionese e eu não sabia! “Nossos ancestrais colonizadores portugueses e índios” usavam maionese e eu não sabia!

No R7 a descrição é mais fiel e, portanto, nos dá a exata dimensão do horror que o Bar 20 oferece: “salpicão feito com feijão, milho, pimenta, cenoura, tomates secos, pimentões sortidos e maionese aromatizada com suco de laranja. É servido com palha de carne seca e torradas”.

Por isso eu repito: fujam dos bares que participarão do festival, evitem esbarrar com os histéricos e com as histéricas no interior dos bares, onde eles terão chegado em vans alugadas para fazer o roteiro proposto pelos organizadores, não sejam idiotas a ponto de ficarem por aí conjugando o verbo proposto pelo festival – “Eu boteco, tu botecas, nós Comida di Buteco” -, não permitam que esse evento conspurque sua cidade e seu botequim preferido. Eu, ao menos, tenho imenso orgulho de dizer (e sou grato por isso) que os meus butecos de fé não participam dessa roleta-russa que visa, precipuamente, o lucro de quem, em pele de cordeiro, faz o papel do lobo devastador do sistema capitalista.

Até.

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VAI COMEÇAR O FESTIVAL JABALÂNDIA

A expressão “jabalândia” foi criada por meu chapa, Julio Bernardo, que mantém um blog, bastante polêmico, sobre gastronomia – aqui. E eu a uso sempre que me refiro ao festival Comida di Buteco, para o qual enviei carta aberta em maio de 2010 (leiam aqui), jamais respondida, diga-se, muito embora uma das sócias do empreendimento, Maria Eulália Araújo, tenha me batido o telefone, no ano passado, como já lhes contei:

“Foi simpática e incisiva durante o telefonema. Disse-me, entre outras coisas, que eu havia sido injusto quando escrevi o que escrevi ontem, aqui; que eu, como jornalista (foi o que ela disse, depois corrigi o equívoco), deveria apurar tudo sobre o festival para depois escrever sobre ele; que é uma luta colocar o “festival na rua”; que as críticas que fiz, noutras oportunidades, deveriam ser relevadas, eis que as indicações dos bares participantes das últimas edições, aqui no Rio, haviam sido feitas por “especialistas no assunto”, como Guilherme Studart e Moacyr Luz (por isso lembrei-me do tal projeto, citado no início); que minha crítica à inclusão de bares com redes de franquia ou com filiais não era de todo correta, pois no ano passado apenas duas casas (Academia da Cachaça e Siri) se enquadravam nessa condição. E convidou-me para uma conversa na semana que vem; e, por fim (houve mais, mas estou aqui fazendo apertada síntese), que eu desonrava minha participação no júri do ano passado esculhambando o festival.”

Bom, vamos aos fatos e ao que quero lhes contar hoje.

Justiça seja feita (sou, além de preciso do início ao fim, justíssimo): os organizadores do festival (que tem entre seus patrocininadores a maionese Hellmann´s, a Nestlé e o biscoito Doritos que, como se sabe, são ingredientes fundamentais a qualquer comida de botequim…, além das cervejas Bohemia, Itaipava e Kaiser, a TV Globo e a Band, O Boticário e a cachaça Ypióca) não inscreveram nenhum bar com filial (uma crítica minha ferrenha, desde a primeira edição), ao menos no Rio de Janeiro. Não sei quanto às outras cidades (são 15 cidades participando do troço) – se você que me lê puder me ajudar quanto a isso, agradeço.

O festival começa hoje, 15 de abril, e vai até o dia 15 de maio, o que significa dizer que no dia de meu aniversário, 27 de abril, como se já não bastasse dividir a data com o inacreditável Dia Municipal do Teatro de Bonecos, iniciativa do vereador Eliomar Coelho (como lhes contei aqui), a cidade estará, ainda, conspurcada por esse pernicioso festival.

Se você me considera um radical, um incapaz de tecer qualquer crítica sem o coração à frente, leia – recomendo com entusiasmo! – o que escreveu, sobre o Comida di Buteco, Luiz Antonio Simas, Historiador maiúsculo, professor as 24h do dia, um de meus mestres, aqui. Fala, Simas:

“O que esse Comida di Buteco propõe, infelizmente, se inscreve numa inversão perigosa: é um exemplo bem acabado – e assustadoramente corriqueiro – de submissão da cultura à economia. Explico.

A ideia do festival me parece ser a de transformar o que seria cultura de botequim em um bom negócio para todos. Tento acreditar, sinceramente, nas boas intenções do babado e é possível que os envolvidos no evento achem de fato que estão valorizando o boteco. Sinto dizer que não estão.

O problema é que ao invés de entender a economia como parte constitutiva da cultura – esse poderoso campo que engloba nossos atos e nos define como homens humanos – essa perspectiva inverte tudo e transforma a cultura em parte constitutiva da economia – esse campo que, quando determinante, nos define como meros consumidores, desumanizados por conseguinte.

Insisto: a economia é que deveria ser encarada como um dos aspectos da cultura. O festival transforma a cultura em um mero elemento submetido aos ditames do mercado. Quando isso acontece, o que era cultura perde toda a carga de representações de modos de viver dos homens e se transforma, esvaziada de sua dimensão vital, em simples evento ou entretenimento, como queiram.

O Comida di Buteco é isso: um evento, desprovido de qualquer outro valor que não seja o de movimentar a economia da cidade, divulgar os patrocinadores, difundir a imagem dos participantes e aumentar o faturamento dos restaurantes envolvidos – objetivos legítimos, diga-se de passagem, ainda que não me comovam e que eu lhes faça sérias restrições.

O problema – gravíssimo! – é que a cultura, quando transformada e empobrecida em mero evento, morre. O festival, sob o pretexto de valorizar o botequim, joga contra exatamente o que diz querer valorizar.

Quando digo que a cidade tem alma, uso evidentemente uma metáfora para demonstrar que a cidade tem cultura. O botequim é, pois, um dos elementos constitutivos da cultura carioca. Certa feita escrevi o seguinte sobre o tema:

O buteco é a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens comuns…

É o nosso jeito, a nossa maneira, de recriar o mundo, inventar a vida, beber o passado, digerir o presente e projetar futuros. Nos definimos, dessa forma, como membros do nosso grupo e criadores de cultura – humanizados, portanto.

O Comida di Buteco cumpre muito bem o objetivo de agitar a cidade, movimentar a economia, colocar as pessoas na rua e o escambau. Não consigo, porém, deixar de ouvir uma voz, vinda sabem os deuses de onde [será o rugir do rótulo da maionese patrocinadora da coisa ?] , que parece inverter as lições do velho vagabundo:

– Não sois homens! Consumidores é que sois!

Tolo é quem pensa que o homem é desprovido da humanidade que lhe define quando morre. Mesmo morto, defuntinho da silva, o homem segue vivo na memória da sua gente, como dinamizador, pela lembrança, da tradição.

O homem só é desprovido de sua radical humanidade – morto, sem vitalidade -quando deixa de criar cultura e vira um reles espectador de uma vida que já não lhe é mais pertencimento.”

Diante disso, resta-me dizer: fujam dos bares que participarão do festival, evitem esbarrar com os histéricos e com as histéricas no interior dos bares, onde eles terão chegado em vans alugadas para fazer o roteiro proposto pelos organizadores, não sejam idiotas a ponto de ficarem por aí conjugando o verbo proposto pelo festival – “Eu boteco, tu botecas, nós Comida di Buteco” -, não permitam que esse evento conspurque sua cidade e seu botequim preferido. Eu, ao menos, tenho imenso orgulho de dizer (e sou grato por isso) que os meus butecos de fé não participam dessa roleta-russa que visa, precipuamente, o lucro de quem, em pele de cordeiro, faz o papel do lobo devastador do sistema capitalista.

Até.

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