Arquivo do mês: outubro 2006

SAINDO NA FRENTE

Quero sair na frente, numa espécie de exercício rigorosamente ditado pela vaidade e pela imodéstia. Explico. Muito em breve – vocês verão – as colunas dos jornais exaltarão o lançamento daquilo que o meu irmão Szegeri chama, com muita propriedade, de vade-mecum de otário: o “Guia Rio Botequim”, edição 2006, que sairá, ainda em novembro, com o subtítulo “os melhores petiscos e comidas de bar”. Juro, de pé junto e de dedos cruzados diante dos lábios, que ainda não tive acesso ao lixo. Sobre ele sei, apenas, que foi escrito (ou planejado, ou organizado, ou sei lá o quê) por Guilherme Studart, homem exaltado por Joaquim Ferreira dos Santos, o Jota, em 29 de agosto de 2006, aqui, como o “mais rigoroso pesquisador do assunto na cidade”. Feito o breve intróito, vamos às minhas considerações ainda no escuro (eis aí, no eventual acerto dessas considerações, o êxito do exercício a que me proponho).

Preciso ser preciso, razão pela qual transcrevo a resenha do tal livro:

“Este livro é um guia da boemia carioca que apresenta as delícias da culinária popular. Além de apresentar vinte pratos e petiscos provados e comentados em edição totalmente ilustrada, mostra como degustar e onde encontrar o melhor da comida de botequim – petiscos e tira-gostos, caldos e sopas, sanduíches e pratos principais.”

Vejam se meu irmão paulista não está coberto de razão quando se refere ao troço como um livro para otários. Quem – me digam quem! – é que entende e que gosta do riscado e está a fim de aprender “como degustar” comida de buteco? Mais, mais: quem é que vai a buteco degustar alguma coisa? Quem? O que será – chega a dar agonia prever o que vem por aí – que “o mais rigoroso pesquisador do assunto na cidade” tem a ensinar ao cidadão que quer, pura e simplesmente, sentar-se à mesa de um buteco vagabundo, beber, comer e jogar conversa fora?

A carne assada com coradas do Rio-Brasília, buteco comandado com maestria pelo Joaquim e pela Teresinha, estará no tal guia? Evidentemente que não.

A dobradinha do Quitutes da Vovó, espelunca amável na Rua do Matoso estará? Também não.

O glorioso Bar do Chico, na Tijuca, estará lá? Não.

Algum petisco precioso preparado pelo Celsão, na Adega Tudo do Mar, em Marechal Hermes, vai estar? Não.

Então, meus poucos mas fiéis leitores, eu vos digo:

01) que bom que não estejam no livro os verdadeiros butecos, eis que assim ficam livres da horda de otários que sai atrás das dicas ainda mais otárias, poluindo os autênticos ambientes;

02) que bom que eu posso verificar, mais uma vez, que é um acerto cada porrada que eu dou nesses bares-mentira que, seguramente, estarão entre os escolhidos pelo “mais rigoroso pesquisador do assunto na cidade”.

E pra terminar: quem gosta de buteco – eu gosto, o Simas gosta, o Szegeri gosta, o Bruno Ribeiro gosta, o Borgonovi gosta, o Pratinha gosta, o Rodrigo Folha Seca gosta, só pra citar uns poucos – entra num buteco, bate o pé, reclama, pede uma Brahma, pede uma comida, bebe, come e conversa até esquecer da hora. Não fica de bloquinho na mão pesquisando porra nenhuma, que isso é coisa de otário. O que dá, convenhamos, cores de coerência a tudo isso.

Até.

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>UM SENHOR SÁBADO

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Quando eu começo escrevendo “UM SENHOR SÁBADO” não estou mentindo. Conforme eu previra, leiam aqui, o Rio foi mais Rio que nunca na tarde de 28 de outubro, quando Pratinha e Simas comemoraram seus aniversários cercados de amigos, e foram muitos amigos, de muita música, muita bebida e muita festa. Exatamente como ambos merecem. Eu posso dizer, sem medo do erro, que o Buteco arrastou praquela sagrada esquina da Rua do Ouvidor com a Travessa do Comércio, sem contar, evidentemente, com a minha Sorriso Maracanã, o Fefê, a Betinha e o Flavinho, o Fraga e a Renatinha, o Bruninho, a Lelê Peitos, a Manguaça e a Fernanda, a Guerreira, e o Vidal.

a mesa dos músicos

Bem diante da Livraria Folha Seca, a livraria do meu coração, comandada pelo Rodrigo e pela Dani, com o grande Bruno segurando as pontas durante a festa, Pratinha e Simas receberam, de braços e corações abertos, uma multidão de amigos que se embebedou, literalmente, de Rio de Janeiro, de samba, de choro, de cerveja e de chope. Com exceção do Simas que, tendo recebido de presente, de mim, uma garrafa de dois litros da batida de maracujá feita, na manhã do próprio sábado, pelas mãos santas da Terezinha, do Rio-Brasília, deu conta do presente inteiro ali mesmo naquelas calçadas.

Simas, eu, Rodrigo e Bruninho

Para não cometer algumas injustiças omitindo um nome ou outro, deixo de tentar o exercício de memória que me trairia. Mas foi um puta prazer encontrar por lá Zé Sergio Rocha, Alfredinho do Bip-Bip, Helion Póvoa, Moacyr Luz, Marluci, Janir, Pedrinho Amorim, Cláudio, Edmundo Souto, Cid Benjamin, Ari do Simpatia, Tomaz, Jorgito, Maria Helena (que fez as fotos), Leal, Loredano, Mussa, Felipe Barros, Guilherme Sá, Gabrielzinho, Rogério, Evelin, Candinha, Nando, Marcelo Moutinho, Mariana Blanc, Marquinhos Presidente, gente que não escondia a satisfação pelo encontro e pelo momento mágico vivido no Centro da cidade, num sábado de céu azul, gravando, definitivamente, uma belíssima página na história carioca.

Fraga e Moacyr Luz
Simas, Pratinha e Alfredinho do Bip-Bip
Pratinha, Tomaz, Simas e Nando
eu, Dani e Alfredinho do Bip-Bip
Nando, Helion Póvoa e Rodrigo
Rodrigo e eu

Como eu já disse, teve choro, teve samba, teve partido-alto (num hilariante desafio entre o Simas e o Pedrinho Amorim), e quando a noite se fez presente, partimos, num bonde mínimo, em direção ao Galeto Columbia, na minha mui amada Tijuca, onde erguemos os copos ao humor, ao Rio de Janeiro, antecipando a festa da democracia de ontem, quando a esperança deu as mãos à certeza de que o povo brasileiro soube fazer a escolha certa.

Até.

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>EDIÇÃO EXTRA DE DOMINGO

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Vocês que acompanham a trajetória do Buteco sabem que raramente, mas muito raramente, escrevo aos domingos. Acontece que estou na casa da minha mui querida Sônia, mãe dos não menos queridos Manguaço e Manguaça, já que fui convidado para um domingo especial: como voto numa escola aqui do lado, cheguei para o café da manhã, estico para o almoço e para a comemoração da vitória do Lula, que se anuncia. E cheguei com 13 rosas vermelhas e brancas, camarões cinzas, jiló e alho pro tira-gosto.

Breve pausa: amanhã lhes conto sobre a portentosa festa do Pratinha e do Simas, ontem, na Rua do Ouvidor.

Mas eu cheguei e veio a mim o Manguaço, antes mesmo do bom dia:

– Você jé leu a coluna do Jota de hoje?

Não, eu não havia lido.

Eis, meus poucos mas fiéis leitores, a barbaridade cometida pelo homúnculo. Ainda sem minha câmera digital, transcrevo a imunda nota, carregada de preconceito, mau gosto e mentira:

“VAI UM DEDINHO AÍ?

O bar Escondidinho, no final da Ataulfo de Paiva, no Leblon, aproveitou o tititi em torno da petista que arrancou numa mordida um pedaço do dedo de uma tucana, no Jobi, para lançar novo prato: “dedinhos a vinagrete”, lingüicinhas finas que têm saído como pão quente.”

Notem que nojo. Garantindo o jabá citando dois bares de merda no Leblon, o Jota mente quando inverte (e eu duvido que tenha sido sem querer) agressora e vítima, a verdadeira história pode ser lida aqui. E, o que é pior, faz propaganda de uma idéia que vai na contramão do bom humor carioca. Trata-se de humor negro da pior categoria, o que dá, de certo modo, coerência a tudo: o Jota é tétrico, o bar citado é tétrico, a sacada dos donos da bosta é tétrica e tétrica é a clientela que pede “dedinhos a vinagrete”.

Dedinhos nos cus deles, ó!

Até.

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>ONDE O RIO É MAIS RIO

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Que o Rio de Janeiro é uma cidade generosa apesar de Garotinho, Rosinha, Bolsonaro, Picciani e cia., todo mundo sabe (todos sem o negrito, que não merecem). Que o Rio de Janeiro é uma cidade que sobrevive a violências como a entrega da medalha Pedro Ernesto a uma criminosa, também. Mas o Rio é mais.

O Rio, que é o Rio que é graças a cariocas de verdade, é, literalmente, uma cidade de braços abertos sobre a Guanabara, apontados para a zona norte, para a zona oeste, para a zona sul, para o subúrbio, onde, como disse o Chico Buarque, não tem brisa, não tem verde-azuis, não tem frescura nem atrevimento. O subúrbio não figura no mapa e no avesso da montanha, é labirinto, é contra-senha, é cara a tapa. Citação feita, vamos em frente.

Simas e Pratinha no Rio-Brasília, 30 de setembro de 2006

Amanhã, 28 de outubro, faz anos o Pratinha, esse gênio da raça. No dia 02 de novembro faz anos o Simas, um “legítimo finadista”, a expressão é dele. Como são membros do mesmo exército – o meu exército também -, comemorarão, amanhã mesmo, as duas datas.

E como são generosos, como a cidade, e como são grandes, como as nossas esperanças que não cessam nunca, farão uma Festa, maiúscula mesma (não se trata de erro de digitação), na mais carioca das ruas do Centro da cidade, a Rua do Ouvidor, bem em frente à mais carioca das livrarias, a livraria do meu coração, a Folha Seca, entre a Primeiro de Março e a Travessa do Comércio.

Vai ter choro, vai ter samba, vai ter cerveja, vai ter chope, e será excelente oportunidade para que vocês possam verificar, in loco, que eu sou preciso do início ao fim quando digo que o Pratinha e o Simas são dois sujeitos que dão mais graça à vida de quem os conhece.

Trata-se, portanto, de um convite aberto a todos vocês, meus poucos mas fiéis leitores.

Não me venham na segunda-feira com chorumela nhém-nhém-nhém dizendo que eu não avisei a ninguém.

Ergo, desde já, antecipadamente, um brinde a esses dois que, a despeito de conhecê-los mais a fundo há pouco tempo, já figuram na minha lista de preferidos.

Até.

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>AS VANTAGENS DOS CONFRONTOS

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Eu disse, recentemente, quando declarei, de público, de pé no banquinho imaginário do Buteco, meus votos no primeiro turno das eleições e meu voto em Lula nesse segundo turno que se aproxima, que uma das vantagens desse segundo turno é, justamente, o que emerge do confronto direto entre apenas dois candidatos. Disse eu, naquela oportunidade: “O segundo turno tem inúmeras vantagens – e mesmo tendo votado em Lula, confesso que achei ideal essa segunda etapa da eleição presidencial, que veio como a materialização de um gesto simbólico de não entregar carta branca ao atual Presidente da República – e dentre elas a que eu julgo a principal: pôr, frente a frente, como as duas únicas opções, os preferidos do eleitorado.”.

Feito esse breve intróito, vamos ao assunto que quero abordar hoje. Fica, o intróito, como digressão necessária para melhor compreensão do que penso.

Estou pensando aqui na maneira ideal de dizer o que eu quero e me vem à cabeça – vejam como ando, vejam como ando! – o Gérson, o Canhotinha de Ouro. Ele tem mania de, em suas explanações durante as partidas de futebol, referir-se aos jogadores como “figura A”, “figura B”, para que o ouvinte entenda o que ele diz. Vou me valer do mesmo método, até mesmo para não ter que escrever o nome sujo da figura tosca que é o que me move a escrever na tarde de hoje.

Mas vocês entenderão o que quero dizer. Estou confuso, estou confuso, é verdade, mas tudo ficará claro no final. Não entrarei no mérito do gesto da “figura A”. Dissertarei, isso, sim, sobre a covardia que se esconde sob o manto da imparcialidade ou mesmo sob a aparente nobreza do gesto de não tomar partido diante de um confronto. Farei nova breve digressão. Disse o Szegeri, quando escreveu o texto que figura na orelha de meu livro (comprem, comprem, comprem!), que não há nada mais gostoso (algo assim, o termo exato me foge e, creiam, não tenho meu próprio livro aqui comigo!) do que brigar por um amigo mesmo quando ele não tem razão. Isso, meus poucos mas fiéis leitores, é de uma beleza e de uma profundidade agudíssimas! Dito isso, em frente.

Um certo dia, bate à porta da “figura B” a “figura A”. A “figura A”, apresentada à “figura B” por uma terceira figura, pede, implora, roga, esmola mesmo, uma ajuda, uma mãozinha (como diriam os antigos, como eu), alegando – e eu digo isso de mãos dadas com a precisão que me acompanha como sombra inseparável – necessidade, extrema necessidade, pedindo uma oportunidade, um “help” (como diria minha Sorriso Maracanã), e a “figura B”, alma de altíssimo quilate, atende o pedido, comove-se com a cena, com a situação, estende as mãos, abraça a nefasta figura com a gratidão que nem os franciscanos têm disponível.

E um dia – mas nada disso importa, vejam bem! – a “figura A”, agindo como se tudo fosse planejado desde o princípio, agindo de forma suja, fétida, de uma forma que enoja e causa engulhos, cospe no prato que comeu (a expressão é escrita propositalmente, eis que literal até a alma) e trai – não há verbo mais bem empregado – a “figura B” de maneira torpe. Eis aí, meus caros, a Ingratidão, maiúscula, que nesse exato instante me dá ânsia de vômito, eu que aprendi com meus pais, quando ainda não sabia nem falar, que não há nada mais bonito do que o sentimento de gratidão, que eu nutro e alimento diariamente em nome do amor de meus pais, vítimas também, por tabela, dessas vilanias que infelizmente crescem, vertiginosamente, nesse mundo cada vez mais feio.

Mas se nada disso importa do que vou falar?, ouço daqui a pergunta.

Vou falar da vantagem que tem um confronto estabelecido, por exemplo, depois do gesto sujo da “figura A” contra a “figura B”.

É que fica, como no segundo turno das eleições, tudo muito nítido.

E me enojam, também, as demais figuras que eventualmente cercam “A” e “B” e que dizem, com um risinho cínico na cara, aquela frase feita que é característica dos covardes que não tomam posição diante de um conflito: “não quero me meter”.

Como – eu me pergunto – não tomar posição diante das evidências?

Como não tomar partido do que é correto, do que tem um passado limpo no que diz repeito a gestos humanitários (não estou exagerando) e não execrar, com toda a força, aquele que joga sujo, premeditado, que não merece um mísero gesto de compaixão?

De pé, diante do balcão, quero dizer a todos vocês – leitores assíduos, visitantes ocasionais, aos que me conhecem, aos que não me conhecem, aos que estão aqui pela primeira vez por um acaso qualquer – que eu, sim, sou guerreiro, disposto a lutar, sempre e até o final, pelo que é justo e pelo que me é caro, pelos meus caras, pelas minhas pessoas, pelos meus amigos. De mim – escrevam! escrevam! -, da minha boca, vocês jamais (dito com ênfase szegeriana) ouvirão esse blá-blá-blá confortável que se confunde – eis a verdade que machuca – com covardia.

É preciso – penso isso com mais certeza a cada dia que passa -, sim, sempre, tomar partidos e marcar posições, nem que seja, apenas, para que tenhamos, depois, quando formos apenas saudade, uma biografia mais bonita.

Até.

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AS HISTÓRIAS DO BRASIL CONTADAS PELO SIMAS

O Simas, uma das grandes aquisições do ano de 2006, quiçá de toda a minha existência, e que chegou-me através do Buteco – o que justifica sua existência e minha persistência diária, aqui, diante do monitor -, é, digo isso sem medo do erro, um homem feliz. E digo que é um homem feliz não apenas por causa de sua notória, evidente e visível felicidade ao lado da Candinha, sua mulher. O Simas é um homem apaixonado pelo que faz. É um homem apaixonado pelo trabalho. O que o deixa muito à frente da imensa maioria das pessoas que trabalha enfadada, desanimada, conformada e sem paixão. Vejam se não é.

Simas, em 23 de setembro de 2006

Luiz Antonio Simas é Professor de História, maiúsculo. Na foto, como se vê, ele dá aula, em pleno sábado, para uma platéia atenta, durante um churrasco na casa do Fefê e da Brinco. Quero ser mais preciso. Não dava aula no estrito sentido da palavra, mas discursava, com uma veemência capaz de fazer saltarem as veias do pescoço e de avermelhar, à exaustão, a orelha direita, apaixonadamente, contando histórias envolvendo o General Eurico Gaspar Dutra. Um fenômeno. Tive, naquele exato instante, e digo isso em nome da precisão que me é peculiar, aguda inveja de seus alunos.

E eis que o Simas decidiu, na semana passada – ainda bem! – passar a escrever num blog. E como escreve, o danado! O blog, Histórias do Brasil, é, segundo definição do próprio, “um espaço para falar das histórias do Brasil e dos brasileiros, com heróis, canalhas, vendilhões, mártires, santos, generais, guerrilheiros, malandros, prostitutas, foliões, sambistas, macumbeiros, beatas, imperadores, presidentes, assassinos, suicidas, santos e proxenetas, com muita parcialidade e alguns desaforos”. Já está mais-que-indicado por mim, no espaço à direita do menu.

Lendo o Simas, vocês que ainda não têm a sorte de conhecê-lo pessoalmente, hão de entender a razão pela qual apaixonei-me de cara pelo malandro.

Ergo, daqui, de pé, diante do balcão imaginário, um brinde à iniciativa do Simas, que dá vida inteligente à grande rede no Brasil, tomada por muito lixo. Mas é como diz, sempre, esse meu novo irmão: não passarão!

Axé.

Ôpa! Perdão!

Eu quis dizer “até”.

É que ando lendo demais o “Histórias do Brasil”.

Até.

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DUAS NOTAS TRISTES

Como já lhes disse, deixei de assinar O GLOBO. Mas o Jota não deixou de faturar mais um bocado com a nota que publica, hoje, em sua coluneta. Como estou sem câmera fotográfica (acionando a Canon judicialmente), fico devendo a fotografia da prova do crime. Mas eis a íntegra da mesma:

“On te rocks

Dono de seis botecos Belmonte, Antônio Rodrigues abrirá novo bar em janeiro, agora de padrão sofisticado, em Ipanema. Nada de chope. Será especializado em uísque e destilados. Chamar-se-á, numa referência à catedral da boemia Zona Sul nos anos 60 e 70, Antonio´s.”

Vejam que lixo, acompanhem comigo. O Jota deu seu jeito de meter, de novo, o nome Belmonte no jornal, e isso para anunciar um outro bar que inaugurará apenas em janeiro. Deu seu jeito de citar o testa-de-ferro dos espanhóis, o Antônio Rodrigues, e de dizer que já são seis as mentiras espalhadas pela cidade sob a grife Belmonte. Mas há mais! Há mais! Não diz, o homúnculo, que da mesma forma que o Belmonte não é o verdadeiro Belmonte, glorioso pé-sujo na Praia do Flamengo que foi comprado, reformado, conspurcado e destruído pelo investidor, o Antonio´s a ser inaugurado em Ipanema não será, jamais, o Antonio´s original. Mas não será esse o peixe a ser vendido mais à frente. Vocês vão ver.

Mas agora, mudando de pato a ganso, ou de pato à vaca – termo mais apropriado para o tema, como vocês verão – quero lhes contar sobre um troço que me deixou envergonhadíssimo, revoltado, indignado, puto da vida. Breve pigarro, um tapa no cigarro no fundo do cinzeiro, e vamos em frente.

Na manhã de ontem, segunda-feira, foi homenageada na Câmara de Vereadores da Cidade do Rio de Janeiro uma mulher de nome Maria Dora dos Santos Arbex (sem o negrito, que ela não merece). Recebeu a outrora valorosa medalha Pedro Ernesto. Vamos fazer breve histórico dessa barbaridade para que vocês possam acompanhar a palhaçada sem precedentes. Maria Dora, recentemente, reagindo a um assalto que sofrera no Flamengo, e portando ilegalmente uma arma de fogo, atirou no homem que tentara assaltá-la e, errando o alvo, acertou sua mão.

Valendo-se de uma absurda regra do Regimento Interno da Câmara dos Vereadores, apenas dois – eu disse dois! – vereadores (um do PFL e outro do PSDB) votaram e aprovaram o requerimento apresentado à Mesa Diretora da Câmara pelo vereador Carlos Bolsonaro, filho do deputado federal Jair Bolsonaro e irmão do deputado estadual Flávio Bolsonaro, todos três presentes à absurda solenidade, e toda a canalha sem o negrito também. Atentem, por exemplo, para o discurso do fascista vereador:

“Estamos congratulando uma pessoa que cansou de esperar o governo do estado para defendê-la. A medalha não é por ela ter atirado em alguém, mas pelo simbolismo do ato, que externa o sentimento de um povo cansado de tanta violência, sem que os órgãos responsáveis tomem qualquer atitude. É uma pena que o tiro tenha pegado na mão e não no coração, pois seria um vagabundo a menos.

O grifo é meu, evidentemente. Como é meu o adendo: o vereador é apenas mais um que envergonha o cidadão do Rio de Janeiro, mais um Bolsonaro preconceituoso, de extrema radical direita, fascista, e que deveria – se tivéssemos alguém corajoso à frente das instituições públicas – ter, apenas por essa sua fala, cassado seu mandato.

Empolgada com a homenagem, e cercada de fascistas como ela – vocês sabem que esses caras crescem quando juntos – disse o seguinte, Maria Dora:

“Se não tem albergue ou não quer ficar no albergue, então fica no meio do mar. Bota num navio e descarrega longe. Na minha calçada, na minha rua, é que não vai ficar.”

Propondo um método utilizado no Brasil durante a ditadura militar, e em outros países da América do Sul, a homenageada não teve um único vereador, uma única vereadora, com coragem suficiente para, de dedo em riste, lhe dizer que as calçadas, as ruas, são do povo, e não sua propriedade, arrogância bastante comum em gente dessa estirpe.

Mas que fazer?, me pergunto.

Até João Ubaldo Ribeiro, que só escreve bosta aos domingos, não por acaso no jornal O GLOBO, veio a público defender essa fascista, que deve responder pelo crime que cometeu.

Como também deve responder pelo crime que cometeu o sujeito que tentou assaltá-la, devo dizer antes que uma canadense qualquer venha bradar contra mim.

Por fim, mesmo sabendo que eu jamais serei indicado para receber a medalha Pedro Ernesto – que não tem nenhum valor já há bastante tempo – quero dizer que, se isso vier a acontecer um dia, eu rejeitarei, com toda a veemência possível, a honraria que foi entregue a essa psicopata.

Até.

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