Arquivo do mês: fevereiro 2015

RIO, 450 ANOS

Nasci em 1969, quando o Rio de Janeiro acabara de comemorar, há pouco mais de um mês, 404 anos de idade. Hoje, eu às vésperas de completar a 46ª volta do ponteiro, testemunharei as festas que comemorarão os 450 anos da cidade mais bonita do mundo.

O Rio de Janeiro é minha aldeia. É onde me reconheço e onde reconheço os meus. É a cidade sobre a qual aprendi a deitar o olhar do estrangeiro na intenção sôfrega de descobrir e de usufruir de tudo aquilo que o nativo, costumeiramente preguiçoso nesse lançar do olhar à volta, deixa de perceber. O Rio de Janeiro era, no princípio, a vila de casas modestas na avenida Heitor Beltrão com piso de tábua corrida e porão, engolida anos depois por um grande supermercado. O Rio de Janeiro era a Praça Afonso Pena e o Salão América, onde cortei o cabelo, pela primeira vez, em março de 1970, levado pelas mãos do meu pai. O Rio de Janeiro passou a ser outra vila, na rua São Francisco Xavier 84 – e a vila tá viva, ainda lá.  Eu morava na São Francisco Xavier 90, e foi ali que conheci os segredos da Tarcisa, a mulher de seios de mármore, quando eu ainda não sabia o que eram os tais segredos. Foi na casa de minha avó, na vila ao lado, que bati a primeira punheta da minha vida – como esquecer aquele átimo de segundo em que um choque correu a minha espinha de menino e que minha respiração ficou ofegante de um jeito diferente como nunca antes?! Eu tinha nas mãos uma edição da revista Amiga e o alvo de meus olhos atônitos era uma fotografia da estonteante Adele Fátima. O Rio de Janeiro passou a ter, àquela altura, a cor da pele da mulata das Sardinhas 88, a antítese do branco do mármore dos seios da Tarcisa. O Rio sempre foi dúbio. O Rio de Janeiro era o Maracanã, sua arquibancada de concreto (que eu vi cair num F lamengo e Botafogo), sua geral, que eu freqüentei com assiduidade, o Maracanã no qual Papai Noel chegava em dezembro, e foi num desses dias que eu, vascaíno (primeiro filho de pai vascaíno), fui carregado nos braços por ele, Arthur Antunes Coimbra, o Zico – e dali em diante eu nunca mais deixei de ser Flamengo, Flamengo até morrer eu sou. O Rio de Janeiro era a Praça Saenz Peña, um país a ser desbravado pelo moleque que já podia pegar o ônibus em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho. O Rio de Janeiro era o cinema América, o Carioca, o Comodoro, o Bruni, o Café Palheta, era o Bode Cheiroso, que eu conheci quando mal alcançava o balcão, parada obrigatória de meu pai, todos os dias a caminho do colégio. O Rio de Janeiro era a Casa da Vovó, o Porto Seguro, o Palas, o Erva Doce – onde tomei o primeiro porre da minha vida assistindo Moacyr Luz, voz e violão, na Antônio Basílio. O Rio de Janeiro era o Caras & Bocas, Haddock Lobo com rua do Bispo, onde eu era uma espécie de mascote, levado pelas mãos do professor de Química do colégio. O Rio de Janeiro era Brizola, a quem eu seguia (e perseguia) na medida das possibilidades dos meus 13 anos. O Rio de Janeiro era a Tijuca, sobretudo a Tijuca, o Rio de Janeiro era o Salgueiro, a quadra do Salgueiro, as mulatas do Salgueiro, era o Engenho Novo, onde morava minha tia Noêmia e seu jardim enfeitado por uma estátua do Cristo Redentor cercado pela Branca de Neve e os Sete Anões, palco de uma festa de quinze anos, em pleno verão, com direito a lareira acesa e música flamenca em vez de valsa. Foi no Rio de Janeiro que namorei e onde morri de amores, como convém a um tijucano de quatro costados. Vivia em Campo Grande, no Clube 34, com medo da imensa piscina redonda onde morrera um moleque sugado pelo ralo, tive medo da Mulher Loura, freqüentei o Tivoli Park, era doido pela carne do Rincão Gaúcho e pelo show do Carequinha, namorei no Monte Sinai, nadei, lutei jiu-jitsu, tive aula de violão com Almir Chediak, freqüentei muita sinagoga em troca de uns trocados que os velhos judeus me davam pra fazer número na reza do shabat, namorei na Barra da Tijuca quando a Barra da Tijuca era só areia e matagal e alcançada depois de atravessar o Alto da Boa Vista a bordo do 233 ou do 234. Freqüentei a Praia do Pepino quando ainda não havia a Lagoa-Barra. Vi nascer a roda de samba no Lapases, na Lapa, comandada pelo Monarco, na Casa da Mãe Joana, casei – com pompa e circunstância, no Mosteiro de São Bento – e me separei, vi e vivi o auge do Bar da Dona Maria, conheci de perto muitos de meus ídolos, fiquei amigo de muitos deles, morro de saudade dos que já morreram, aprendi os segredos da feijoada no Cafofo da Surica, em Oswaldo Cruz, fui parar no Pagode da Tia Doca, depois de me perder pelo caminho e de pedir indicação a um paulista!, lancei um livro em 2005, criei um bloco de Carnaval, criei laços fortíssimos com a Unidos de Vila Isabel, com a rapaziada do Morro dos Macacos e do Pau da Bandeira, ganhei uma afilhada lá, amealhei muitos afilhados até aqui – são mais de dez! -, casei-me pela segunda vez, vivi 12 anos com ela, fiquei viúvo, quis morrer mas desisti, cruzei meses depois disso com um par de olhos que eu sabia – eu sabia! – que seriam meus, e é ao lado deles, sob a mira deles e olhando pra dentro deles que chego ao Primeiro de Março de 2015. Eu ainda era moleque quando apresentei o velho Centro do Rio à minha mãe, quando o velho Centro do Rio estava decadente, mas foi ali, no velho Centro, na Praça Tiradentes, que vi a centésima apresentação do João Bosco no Seis e Meia do João Caetano. Varei várias madrugadas no Nova Capela quando a Lapa era um deserto de Arcos e travestis. Vi o amanhecer diversas vezes saindo do Lamas. Fumei meu primeiro cigarro nas escadas de pedra do Palas na Conde de Bonfim. Matei muita aula pra ir ver o Flamengo no Carioca dos áureos tempos, a bordo do Horácio, o Passat do Nilsinho, fui a diversos shows no Teatro Ipanema, no Chico´s Bar, tinha mesa e cadeira cativa no Mistura Fina da Lagoa, desfilei na Marquês de Sapucaí pelo Salgueiro, pela Vila Isabel, pela Lins Imperial, pelo Império Serrano, pela Estácio de Sá, morro ano-após-ano no Sábado de Carnaval quando sai o Cordão da Bola Preta, cansei de beber na 28 de Setembro na esperança de encontrar o Noel Rosa, de quem morro de saudade. Faltam 15 minutos pra meia-noite, tenho uma espécie de febre de amor e de saudade. Sinto o cheiro de Paquetá, do talco que minha bisavó usava, o mau-cheiro do rio Maracanã, da Baía de Guanabara, o perfume da bosta dos cavalos da Xavier de Brito, sinto nos pés a lama da feira de São Cristóvão quando do lado de fora do Pavilhão, o bafo quente do vento de Marechal Hermes, o frisson do nascer do sol visto do Arpoador, a emoção do pôr-do-sol do Posto Nove, o barulho ensurdecedor da magnética torcida rubro-negra, ouço o canto sacrossanto das rezadeiras que puxam o côro no Círio de Nazaré na Tijuca, sinto o cheiro forte das folhas de arruda e de eucalipto que o caboclo Tupinambá, tendo meu pai como cavalo, farfalhava pela sala de todos os apartamentos nos quais morei, o gosto do jiló da Jane, da dobradinha da Tetê, do angu do Gomes, do mate Leão, do cuscus do Sadam, do chope do Adonis, da sardinha da Adega Tudo do Mar, da cerveja do Amendoeira, do quintal do Aconchego, do sangue, do suor e das lágrimas de cada um que vive aqui, que passa por aqui, que se reconhece, como eu, aqui.

E viva o Rio de Janeiro!

Viva a carioquice!

E me perdoem o derramar meio atrapalhado dessas emoções que me dão um nó na garganta a poucos minutos desse réveillon afetivo pra todos nós, cariocas.

Até.

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RAPHAEL VIDAL, UM MALUCO FUNDAMENTAL

Por conta da proximidade do lançamento do livro de Fábio Fabato e Luiz Antônio Simas neste sábado (cito os autores em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades), 07 de fevereiro, no Largo de São Francisco da Prainha, uma iniciativa do Raphael Vidal e da Editora Mórula, resolvi publicar no blog o texto (editado, revisto e aumentado) que publiquei no Facebook por ocasião do aniversário do Vidal, comemorado – leiam! – de forma inusitada em setembro do ano passado.

Convidando para o lançamento do livro, escreveu o Raphael Vidal, no Facebook:

“O Luiz Antonio Simas e o Eduardo Goldenberg me chamam de maluco fundamental para o Rio de Janeiro. Mas eu gosto de me apresentar como bagunceiro. E é isso que farei no lançamento do “Pra tudo começar na quinta-feira” (de Simas e Fabato): bagunça. Vamos pra rua, ocupar o Largo da Prainha, com baião-de-dois da Luziete (os 100 primeiros que comprarem o livro vão ganhar a iguaria), roda de samba com uma turma boa, entre eles Natan Nascimento e Fernando Infernando, e no final, o bloco Tamborim Sensação!

Não me venham com debate e mediação: vai ter é bate-papo com muita cerveja, Alberto Mussa, Marcelo Moutinho e os autores.

O furdunço começa às 14h!

A editora Mórula vai ficar conhecida como a que fez o lançamento de livro mais bagunçado da história do Rio de Janeiro.

E essa é a maior homenagem que podemos fazer ao carnaval e à nossa cidade.

Saravá!”

É ou não é um maluco fundamental, o Vidal?

Escrevi o tal texto que me referi em 20 de setembro de 2014, quando o Raphael Vidal fez história e fez mágica – e eu explico, não sem antes uma pequena digressão sobre o bardo do Morro da Conceição.

O Vidal é – e eu já disse isso a ele algumas vezes – como também é o Carlos Meijueiro (que já ouviu de mim a mesma coisa…), uma espécie de maluco fundamental para que o Rio de Janeiro siga sendo firmemente o Rio de Janeiro. Mais que um maluco fundamental, é um desvairado imprescindível! O Vidal é, e eu não tenho a menor dúvida disso, um sujeito de quem muito se ouvirá falar daqui a 100, 150, 200 anos. Porque o Vidal tem (e temos, portanto, muita sorte de sermos seus contemporâneos) o dom de transformar seus sonhos em realidade e, ainda mais bonito do que isso, a capacidade de sonhar, de realizar, de dar forma e de efetivar como ação aquilo que, para muitos, fica apenas na intenção e no pensamento. E seus sonhos – eis aí uma das grandes qualidades do caboclo – são sempre coletivos e plurais, nunca individuais ou egoístas.

Pois o maluco do Vidal resolveu, no anos passado, comemorar seu aniversário de uma forma absolutamente insana e, muito também por isso, genial. Criou o que ele chamou de “percurso sentimental pelos bairros onde morei”.

Alugou um ônibus (um lotação!), encheu o ônibus de amigos de infância e de amigos forjados durante o percurso (um talento incrível que ele tem é o de fazer amigos de infância antes do fim do primeiro gole depois do primeiro brinde no primeiro encontro), e deu de percorrer a cidade parando nos botequins mais vagabundos aos quais eu não resisto, apud Aldir Blanc.

Tive a honra de dividir com ele, e com a assistência do coletivo, algumas horas no balcão do Twistinho, glória tijucana na rua Uruguai. Vidal contou, à moda dos melhores contadores de história, juntando gente à sua volta, uma dentre tantas as histórias que permeiam sua vida. E emocionou um bocado de gente, que foi às lágrimas – meninos, eu vi!

Lá pintaram também o Simas com o Benjamin (com uma peneira pra caçar saci), Felipinho Cereal, o Leo Boechat, o Bruno Hoffman, os Filhos de Gandhi (sim, os Filhos de Gandhi!), e teve caça ao saci, teve jam session, teve samba, teve choro, teve afoxé, teve marafo, teve cerveja, e ele continuou sendo genial quando, no dia seguinte, deu de narrar, lá no Facebook, numa série que pode ser chamada de “contando ninguém acredita”, como foi a maluquice (mais uma) que ele protagonizou.

Eu vi, meninos, eu vi, o Vidal, coração do tamanho do Morro da Conceição, assentado nas pedras da zona portuária, ganhar de presente uma caixa de charutos cubanos, abri-la e distribuir os puros aos amigos na calçada. Eu vi o Vidal chorando, grato, emocionado, ciente (não tenho dúvida!) de que estava, ali, ajudando a arrancar as flechas do peito do meu padroeiro, porque São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar.

raphael vidal

Obrigado, Vidal. Eu queria mesmo era te agradecer de novo! – por tudo isso, pelo privilégio que foi ter sido convocado pra erguer um brinde na tua intenção naquele setembro passado.

Um beijo, mano velho. E saravá!

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