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COMEÇAM HOJE OS JOGOS RIO 2016

Primeiramente, FORA TEMER. Acordei, faço a confissão pública, comovido feito o diabo. Saí cedo de casa e as ruas, e o céu (azulíssimo!), atestavam que não era à toa a comoção que senti tão logo abri os olhos. Ruas cheias. Gente de todos os cantos do Brasil e do mundo zanzando pela cidade estampando na cara essa alegria tão indescritível quanto indescritível é a tal comoção que não me largou até agora, pouco mais de meio-dia. Porque se é impossível definifir o que é o carioca (por mais que, vira-e-mexe, alguém tente, sem sucesso, definir o carioca e a tal da carioquice), uma coisa é certa dizer sobre ele (sobre mim, sobre nós todos, cariocas): o carioca gosta de fazer festa e, mais do que isso, gosta de organizar festa, de ser anfitrião de festa. Estão aí o Carnaval e o Revéillon que não me deixam mentir.

Não foi diferente em 2014 durante a Copa do Mundo. Havia um exército de ignaros que repetia, como bem fazem os idiotas (que não pensam porque lhes falta o básico para tal), “não vai ter Copa”. Teve. E teve muita Copa. Organizamos o que o mundo reconhece como a Copa das Copas.

E não está sendo e não será diferente agora, a partir de hoje: os Jogos Olímpicos Rio 2016 entrarão pra História das Olimpíadas da mesma forma que a Copa do Mundo no Brasil entrou pra História das Copas do Mundo com absoluto destaque (ou não seria a Copa das Copas). Temos um golpe em curso no Brasil. Os Jogos Olímpicos são excelente oportunidade pra se gritar ao mundo que está em curso um golpe no Brasil. Mas isso não legitima a mesmíssima tribo dos ignaros que, vejam que lástima, andam gemendo por aí que estamos organizando os (pausa para uma golfada) “Jogos da Exclusão” ou, dizem os mais ignaros, as “Olimpíadas Assassinas”. São, esses, os anti-cariocas (os anti-brasileiros, eu diria).

A mim pouco importam o gigantismo dos Jogos, a organização quase marcial do Comitê Olímpico Internacional, o rigor (necessário) da segurança e outros bichos. Eu quero é saber que aqui, porque somos cariocas e porque somos brasileiros, quebraremos todos os protocolos. O prefeito da cidade (o primeiro que faz isso, dizem os arautos dos protocolos) carrega a chama olímpica, um garçom é convocado às pressas pelo COI depois de intensa e bem humoradíssima campanha espontânea para fazê-lo também carregar a tocha olímpica pelas ruas de Copacabana, alemães (eu vi, eu vi!) debruçam-se sobe o balcão do Bar do Joel pra comer cu de frango, ciceroneados por um dos seguranças da delegação dos atletas, alemão naturalizado brasileiro. Sem falar na emoção (sim, emoção, e daí?!) que foi ver minha Morena, também comovidíssima, erguendo, cheia de justificado orgulho, a tocha olímpica com a chama acesa, brilho semelhante ao (mais intenso e mais bonito) que reluzia de seus olhos naquela hora, hoje pela manhã. É isso – é essa emoção – que me interessa. E o furdunço, que começa pra valer hoje, promete e há de transformar, no dia seguinte ao encerramento dos Jogos, cada um desses ignaros em motivo de piada, como em 2014 depois da gloriosa derrota da seleção argentina diante da Alemanha.

Os do contra estão aí, firmes, para divulgar o que segundo eles não presta, o que eles dizem quase sempre seguido da frase “só no Brasil”, atestando de forma inatacável sua viralatice. Pobres-diabos, como diria Nelson Rodrigues, que previu, há décadas, a escalada dos idiotas. Eles latem, a caranava passa.

Até.

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A SEGUNDA MORTE DE JAIME GOLD

Maio de 2015. O médico Jaime Gold é assassinado, a facadas, na Lagoa Rodrigo de Freitas, e uma comoção toma conta da sociedade, notadamente daquela gente que, afortunada, mora no entorno do espelho d´água mais famoso da cidade do Rio de Janeiro. O Secretário de Segurança do Governo do Estado dá, naquela ocasião, uma das mais infelizes declarações sobre a situação e eu, humílimo do meu canto, publico aqui Jaime Gold, mais uma vítima de outras vítimas (aqui).

Hoje, 08 de julho de 2016, um ano e dois meses depois, tomei conhecimento de um fato repugnante – ligado à morte de Jaime Gold – graças à leitura dessa matéria (aqui) do jornalista e escritor, meu camarada, botafoguense, Fernando Molica. Tomo a liberdade de transcrever trechos da referida matéria:

“Pressionado por moradores da Lagoa, Heitor Wegmann, subprefeito da Zona Sul, mandou a Comlurb, a um mês do início das Olimpíadas, retirar da grade e da mureta que ficam na altura da Curva do Calombo cartazes contra a violência que estampavam nomes de vítimas que não foram mortas no bairro.

Segundo a subprefeitura, os autores da reivindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold, morador de Ipanema que, em maio do ano passado, morreu depois de ser esfaqueado quando pedalava por aquele trecho da ciclovia.

As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidas pelos garis na noite de segunda-feira.

Feitos com cartolina preta, 71 cartazes traziam nomes de crianças vítimas de balas perdidas e de policiais mortos enquanto trabalhavam. Algumas outras placas, que também foram retiradas, estampavam estatísticas oficiais de violência.

(…)

O responsável pela ONG afirmou ainda que a instituição não abrirá mão de expor dados sobre a violência em algum ponto da cidade. “É preciso constranger o poder público”, ressaltou.

Não sei como me referir “aos autores da reinvindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold (…).”. Nem o quê dizer sobre isso: “As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidos (…)”.

Sei que, no dia em que foram retiradas as homenagens “às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade” – notem que manteve-se a homenagem ao médico Jaime Gold, os outros mortos não têm nome – o pobre Jaime Gold morreu de novo.

E a escória que reinvidicou tamanho absurdo parece não ter aprendido nada, rigorosamente nada, absolutamente nada, com a morte de seu vizinho. Vou repetir o que escrevi em maio de 2015.

“Os meninos que esfaquearam o médico não o fizeram por causa de uma simples bicicleta – façam-me o favor! Eles estavam ali, vá saber, com a arma (que mata, como matou) que usam para se defender de suas próprias rotinas e de seus destinos desgraçados e sem horizonte. Cravaram a faca no médico como se cravassem a faca numa bananeira. Como se cravassem a faca na sociedade que tudo lhes nega. Como se cravassem a faca na polícia que os aterroriza desde o dia em que nasceram. Como se cravassem a faca no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva.”

E se morreu de novo Jaime Gold, morreram também, de certo modo, os que reinvindicaram essa ignomínia atendida pelo subprefeito da zona sul, Heitor Wegmann. Ou deveriam ter morrido: de vergonha, de nojo de si mesmos, de constrangimento.

Torço, quieto, para que a reação venha à altura (ou para que o subprefeito tenha um mínimo de senso de lucidez e reveja seu gesto) e que sejam recolocados ali, diante dos olhos-cegos dos que se acham mais e melhores, cada um dos cartazes arrancados homenageando gente que também teve a vida arrancada do mesmo modo banal que matou, pela primeira vez, Jaime Gold. E que cada um desses cartazes corte, como faca, o coração sem sangue dessa gente que sequer de gente merece ser chamada.

Até.

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JAIME GOLD, MAIS UMA VÍTIMA DE OUTRAS VÍTIMAS

Ontem foi mais um dia de embrulhar o estômago de gente como eu que, apesar de hoje militar na advocacia privada, defendendo meu pão diariamente, matando um leão por dia sozinho, já atuou ou ainda atua na área dos Direitos Humanos que, vira-e-mexe, um idiota diz tratar-se de “direitos humanos para humanos direitos”, numa visão reducionista, burra, preconceituosa e desprovida de qualquer lógica.

Antes de entrar no assunto que me traz hoje de volta ao balcão do Buteco, depois de mais de um mês afastado, quero lhes contar uma história rigorosamente verdadeira e que trago à tona, depois de muitos anos, não querendo com isso fazer proselitismo, não querendo sugerir o mesmo a ninguém mas querendo apenas começar minhas digressões sobre o assassinato do médico Jaime Gold no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais da zona sul da cidade do Rio, com essa história para fazer uma melhor reflexão.

Corria o ano de 1994. Eu estava, de carro, na esquina das ruas Barão da Torre com Joana Angélica, com o vidro aberto, quando senti algo me espetar e me ferir na altura do lado esquerdo do pescoço. Um virar de olhos num átimo de segundo e vi uma menina, negra, não mais do que 12, 13 anos de idade, com um caco de vidro na mão me pedindo a carteira e o relógio. Eu, talvez premido pela recentíssima atuação na área de Direitos Humanos (eu trabalhara, durante anos, na Fundação Bento Rubião e fora ativíssimo na formulação das propostas que renderam o Estatuto da Criança e do Adolescente), movido, sabe-se lá, por uma dessas lufadas de esperança que insistem em nos fazer crer no afeto acima de tudo, disse à menina:

– Você troca meu relógio e minha carteira por uma pizza, um beijo e um abraço? – estávamos quase em frente à pizzaria Itahy.

Eu vi: a menina soltou o caco de vidro no chão e deu de chorar dizendo que sim.

Pedi a ela que me esperasse, estacionei o carro logo ali em frente na praça Nossa Senhora da Paz, fui até ela, tomei-lhe a mão mirrada entre as minhas e fomos pra pizzaria.

A menina, Rita, comeu duas pizzas inteiras. Tinha olhos de medo e de fome. Cobrou-me, depois que paguei nossa conta, o abraço e o beijo que eu prometera e que eu lhe dei tão ou mais emocionado que ela. Dei a ela meu telefone – e ela voltou a me ligar mais duas vezes, sempre pra comermos a mesma pizza na mesma Itahy – deixei-a em casa e foi meu irmão Fernando Szegeri o primeiro a saber dessa história que lhe contei aos prantos pelo telefone.

Volto ao tema.

O médico Jaime Gold foi assaltado enquanto pedalava na Lagoa e, desafortunadamente, esfaqueado e morto por dois menores de idade – é o que tem apregoado a imprensa e a polícia.

No momento em que o Brasil, por obra e graça do Congresso Nacional mais conservador desde a década de 60, discute a redução da maioridade penal – um absurdo por todas as razões – é preciso, de novo – e só quem militou ou milita na área dos Direitos Humanos sabe o quanto é penoso defender os mais básicos princípios que deveriam nortear a humanidade  – fazer emergir a discussão sobre a questão da violência urbana sem o calor que cega e mutila a razão.

Atenção para o inacreditável depoimento do Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro: “É mais do que lamentável. É inadmissível o que aconteceu ontem na Lagoa, um lugar querido por todos os cariocas. Um lugar frequentado pela população do Rio e estrangeira. Por todos os turistas que vem ao Rio. Cenas dessa natureza não podem se repetir. É um cartão-postal e não podemos assumir de maneira alguma que essas ações aconteçam, muito embora a gente entenda as dificuldades que as polícias têm de trabalhar”.”.

É preciso que alguém diga a esse sujeito, que tem lá seus méritos (afinal estamos diante de números que apontam para o menor número de homicídios no Estado do Rio de Janeiro desde 1994) que é inadmissível o que aconteceu ontem na Lagoa como é inadmissível o que acontece, dia após dia, nos morros e nas favelas cariocas (que a imprensa deu de, há anos, chamar de “comunidades” com o único intuito de embelezar o que é feio porque é degradante e indigno). José Mariano Beltrame, com essa declaração, defende mais o cartão postal do que as vidas humanas envolvidas no imbróglio: a do médico, que morreu, e a dos meninos que morrem um pouco a cada dia desde que nasceram.

É preciso que alguém diga a esse sujeito que esses meninos e meninas de rua, essas crianças e adolescentes, que receberam durante o Governo de Leonel de Moura Brizola aquilo que seguramente seria a solução – educação em tempo integral, projeto que Moreira Franco e seu Secretário de Educação, Carlos Alberto Menezes Direito, enterraram para sempre sob os aplausos da classe média e da elite carioca – recebem, desde o nascimento, facadas atrás de facadas da sociedade e dos governos.

É preciso dizer que sim, que é válido, legítimo e compreensível o choro da família que perde um pai – como Jaime Gold, por exemplo. Mas é preciso saber que para aqueles meninos as palavras “família” e “pai”, muitas vezes não significam nada. Porque eles não tiveram família, não tiveram um pai, não tiveram acesso a nada capaz de fazer deles cidadãos na mais ampla acepção da palavra.

É preciso saber – procurem conversar com um desses meninos que ficam como pedintes nos sinais da cidade – que um fechar de vidros do carro sob o manto do medo, um olhar de ódio, um olhar de repugnância, tudo isso são facadas na alma dessas crianças.

E o que temos aí, hoje, nas matérias que cobrem o episódio, são barbaridades como essa, publicadas pelo jornal O Globo, um dos mais ferrenhos jornais na defesa da redução da maioridade penal: “Como diziam os mais antigos, ele [Jaime Gold] não era deste mundo”. E querem saber por que o jornal chegou a essa conclusão? Porque Jaime Gold cumprimentava o porteiro de seu prédio e educou seus filhos mesmo depois de divorciado! Patético é pouco pra definir isso.

Os meninos que esfaquearam o médico não o fizeram por causa de uma simples bicicleta – façam-me o favor! Eles estavam ali, vá saber, com a arma (que mata, como matou) que usam para se defender de suas próprias rotinas e de seus destinos desgraçados e sem horizonte. Cravaram a faca no médico como se cravassem a faca numa bananeira. Como se cravassem a faca na sociedade que tudo lhes nega. Como se cravassem a faca na polícia que os aterroriza desde o dia em que nasceram. Como se cravassem a faca no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva.

Só a educação salva – e isso, que soa como um clichê para os que não se sensibilizam diante da desigualdade e da pobreza, é a única saída.

A única.

Até.

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RIO, 450 ANOS

Nasci em 1969, quando o Rio de Janeiro acabara de comemorar, há pouco mais de um mês, 404 anos de idade. Hoje, eu às vésperas de completar a 46ª volta do ponteiro, testemunharei as festas que comemorarão os 450 anos da cidade mais bonita do mundo.

O Rio de Janeiro é minha aldeia. É onde me reconheço e onde reconheço os meus. É a cidade sobre a qual aprendi a deitar o olhar do estrangeiro na intenção sôfrega de descobrir e de usufruir de tudo aquilo que o nativo, costumeiramente preguiçoso nesse lançar do olhar à volta, deixa de perceber. O Rio de Janeiro era, no princípio, a vila de casas modestas na avenida Heitor Beltrão com piso de tábua corrida e porão, engolida anos depois por um grande supermercado. O Rio de Janeiro era a Praça Afonso Pena e o Salão América, onde cortei o cabelo, pela primeira vez, em março de 1970, levado pelas mãos do meu pai. O Rio de Janeiro passou a ser outra vila, na rua São Francisco Xavier 84 – e a vila tá viva, ainda lá.  Eu morava na São Francisco Xavier 90, e foi ali que conheci os segredos da Tarcisa, a mulher de seios de mármore, quando eu ainda não sabia o que eram os tais segredos. Foi na casa de minha avó, na vila ao lado, que bati a primeira punheta da minha vida – como esquecer aquele átimo de segundo em que um choque correu a minha espinha de menino e que minha respiração ficou ofegante de um jeito diferente como nunca antes?! Eu tinha nas mãos uma edição da revista Amiga e o alvo de meus olhos atônitos era uma fotografia da estonteante Adele Fátima. O Rio de Janeiro passou a ter, àquela altura, a cor da pele da mulata das Sardinhas 88, a antítese do branco do mármore dos seios da Tarcisa. O Rio sempre foi dúbio. O Rio de Janeiro era o Maracanã, sua arquibancada de concreto (que eu vi cair num F lamengo e Botafogo), sua geral, que eu freqüentei com assiduidade, o Maracanã no qual Papai Noel chegava em dezembro, e foi num desses dias que eu, vascaíno (primeiro filho de pai vascaíno), fui carregado nos braços por ele, Arthur Antunes Coimbra, o Zico – e dali em diante eu nunca mais deixei de ser Flamengo, Flamengo até morrer eu sou. O Rio de Janeiro era a Praça Saenz Peña, um país a ser desbravado pelo moleque que já podia pegar o ônibus em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho. O Rio de Janeiro era o cinema América, o Carioca, o Comodoro, o Bruni, o Café Palheta, era o Bode Cheiroso, que eu conheci quando mal alcançava o balcão, parada obrigatória de meu pai, todos os dias a caminho do colégio. O Rio de Janeiro era a Casa da Vovó, o Porto Seguro, o Palas, o Erva Doce – onde tomei o primeiro porre da minha vida assistindo Moacyr Luz, voz e violão, na Antônio Basílio. O Rio de Janeiro era o Caras & Bocas, Haddock Lobo com rua do Bispo, onde eu era uma espécie de mascote, levado pelas mãos do professor de Química do colégio. O Rio de Janeiro era Brizola, a quem eu seguia (e perseguia) na medida das possibilidades dos meus 13 anos. O Rio de Janeiro era a Tijuca, sobretudo a Tijuca, o Rio de Janeiro era o Salgueiro, a quadra do Salgueiro, as mulatas do Salgueiro, era o Engenho Novo, onde morava minha tia Noêmia e seu jardim enfeitado por uma estátua do Cristo Redentor cercado pela Branca de Neve e os Sete Anões, palco de uma festa de quinze anos, em pleno verão, com direito a lareira acesa e música flamenca em vez de valsa. Foi no Rio de Janeiro que namorei e onde morri de amores, como convém a um tijucano de quatro costados. Vivia em Campo Grande, no Clube 34, com medo da imensa piscina redonda onde morrera um moleque sugado pelo ralo, tive medo da Mulher Loura, freqüentei o Tivoli Park, era doido pela carne do Rincão Gaúcho e pelo show do Carequinha, namorei no Monte Sinai, nadei, lutei jiu-jitsu, tive aula de violão com Almir Chediak, freqüentei muita sinagoga em troca de uns trocados que os velhos judeus me davam pra fazer número na reza do shabat, namorei na Barra da Tijuca quando a Barra da Tijuca era só areia e matagal e alcançada depois de atravessar o Alto da Boa Vista a bordo do 233 ou do 234. Freqüentei a Praia do Pepino quando ainda não havia a Lagoa-Barra. Vi nascer a roda de samba no Lapases, na Lapa, comandada pelo Monarco, na Casa da Mãe Joana, casei – com pompa e circunstância, no Mosteiro de São Bento – e me separei, vi e vivi o auge do Bar da Dona Maria, conheci de perto muitos de meus ídolos, fiquei amigo de muitos deles, morro de saudade dos que já morreram, aprendi os segredos da feijoada no Cafofo da Surica, em Oswaldo Cruz, fui parar no Pagode da Tia Doca, depois de me perder pelo caminho e de pedir indicação a um paulista!, lancei um livro em 2005, criei um bloco de Carnaval, criei laços fortíssimos com a Unidos de Vila Isabel, com a rapaziada do Morro dos Macacos e do Pau da Bandeira, ganhei uma afilhada lá, amealhei muitos afilhados até aqui – são mais de dez! -, casei-me pela segunda vez, vivi 12 anos com ela, fiquei viúvo, quis morrer mas desisti, cruzei meses depois disso com um par de olhos que eu sabia – eu sabia! – que seriam meus, e é ao lado deles, sob a mira deles e olhando pra dentro deles que chego ao Primeiro de Março de 2015. Eu ainda era moleque quando apresentei o velho Centro do Rio à minha mãe, quando o velho Centro do Rio estava decadente, mas foi ali, no velho Centro, na Praça Tiradentes, que vi a centésima apresentação do João Bosco no Seis e Meia do João Caetano. Varei várias madrugadas no Nova Capela quando a Lapa era um deserto de Arcos e travestis. Vi o amanhecer diversas vezes saindo do Lamas. Fumei meu primeiro cigarro nas escadas de pedra do Palas na Conde de Bonfim. Matei muita aula pra ir ver o Flamengo no Carioca dos áureos tempos, a bordo do Horácio, o Passat do Nilsinho, fui a diversos shows no Teatro Ipanema, no Chico´s Bar, tinha mesa e cadeira cativa no Mistura Fina da Lagoa, desfilei na Marquês de Sapucaí pelo Salgueiro, pela Vila Isabel, pela Lins Imperial, pelo Império Serrano, pela Estácio de Sá, morro ano-após-ano no Sábado de Carnaval quando sai o Cordão da Bola Preta, cansei de beber na 28 de Setembro na esperança de encontrar o Noel Rosa, de quem morro de saudade. Faltam 15 minutos pra meia-noite, tenho uma espécie de febre de amor e de saudade. Sinto o cheiro de Paquetá, do talco que minha bisavó usava, o mau-cheiro do rio Maracanã, da Baía de Guanabara, o perfume da bosta dos cavalos da Xavier de Brito, sinto nos pés a lama da feira de São Cristóvão quando do lado de fora do Pavilhão, o bafo quente do vento de Marechal Hermes, o frisson do nascer do sol visto do Arpoador, a emoção do pôr-do-sol do Posto Nove, o barulho ensurdecedor da magnética torcida rubro-negra, ouço o canto sacrossanto das rezadeiras que puxam o côro no Círio de Nazaré na Tijuca, sinto o cheiro forte das folhas de arruda e de eucalipto que o caboclo Tupinambá, tendo meu pai como cavalo, farfalhava pela sala de todos os apartamentos nos quais morei, o gosto do jiló da Jane, da dobradinha da Tetê, do angu do Gomes, do mate Leão, do cuscus do Sadam, do chope do Adonis, da sardinha da Adega Tudo do Mar, da cerveja do Amendoeira, do quintal do Aconchego, do sangue, do suor e das lágrimas de cada um que vive aqui, que passa por aqui, que se reconhece, como eu, aqui.

E viva o Rio de Janeiro!

Viva a carioquice!

E me perdoem o derramar meio atrapalhado dessas emoções que me dão um nó na garganta a poucos minutos desse réveillon afetivo pra todos nós, cariocas.

Até.

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DONA OLÍVIA, GLÓRIA TIJUCANA

A vida é mesmo cheia de surpresas e, durante essa semana, uma delas caiu-me no colo e foi – confesso! – motivo de muita alegria. Vou lhes contar, é o motivo que me traz aqui ao blog pela primeira vez em 2015.

No dia 24 de janeiro, um sábado, voltando da praia (tenho chegado na praia antes das 06h da manhã), decidi subir e descer a Estrada das Canoas e o Alto da Boa Vista para testemunhar, a cada quilômetro rodado, que o Rio humilha. Meu destino? A Praça Xavier de Brito, na Tijuca, uma das mais agradáveis da cidade que completa, em 2015, 450 anos. Mais precisamente o Bar do Pavão, numa das mais aprazíveis esquinas da cidade. E sempre que vou ao Bar do Pavão toco na casa amarela onde mora a dona Olívia (foto abaixo), amiga de minha avó paterna desde que meu pai era “um molecote”, é como ela se refere ao velho Isaac.

Dona Olívia é portuguesa mas veio para o Brasil ainda pequenina. Aqui casou-se com o seu Antônio, um tremendo boa-praça, botafoguense daqueles roxos, e infelizmente vítima do Mal de Parkinson. Moram, os dois, numa simpática casa ao lado do Bar do Pavão (parede com parede), e a dona Olívia, companheira exemplar que é, dedica-se a cuidar do companheiro de uma vida inteira com denodo, fé e certa dose de sofrimento – façam uma idéia.

Sofrimento que não se sobrepõe à alegria que é a dona Olívia.

E quero lhes contar uma história, apenas uma (são muitas, mas por ora quero lhes deixar com essa), que mostra bem quem é essa portuguesa, carioca maiúscula, tijucaníssima, heroína dos nossos 450 anos!

Dona Olívia em foto

Certa feita, há muitos anos (o Bar do Pavão está ali, naquela esquina, há muitos anos, muitos!), a vizinhança (não se esqueçam nunca de que o maior problema da Tijuca, o único, eu diria, é o tijucano) deu de implicar com o Bar do Pavão por conta dos mais patéticos, quadrados, reacionários e conservadores motivos. Armou-se abaixo-assinado, até, para denunciar o Bar do Pavão aos órgãos fiscalizadores da Prefeitura do Rio. Abriu-se processo administrativo, teve visita de fiscal, aplicação de multas, sanções, o processo correu até que um dia a dona Olívia recebeu a visita de um de seus vizinhos, um general-de-pijama cheio de pompa.

– É o seguinte, dona Olívia. O processo para cassar o alvará do Pavão está correndo mas bateram o martelo lá na inspetoria. Para que nossa denúncia ganhe força definitiva e caráter implacável contra esse bar é necessário que tenhamos a sua assinatura. Parece que a legislação exige que a senhora, vizinha de parede do Pavão, concorde com nosso pleito! – e quase bateu continência.

Dona Olívia sequer respirou:

– Pois não assino. E mais, e mais! Vou autorizar o uso da calçada em frente à minha casa para mesas, cadeiras e ombrelones! Passe bem! – e bateu o portão no nariz do pernóstico vizinho.

E a dona Olívia, meus poucos mas fiéis leitores, não satisfeita com a atitude, ainda permite (até hoje, e eu sou testemunha!) que, quando cheio o bar, seus clientes usem o banheiro de sua casa – para desespero da vizinhança mesquinha.

Dona Olívia é, por isso, uma heroína, uma tijucana máxima, uma figura absolutamente imprescindível para manter viva a chama da carioquice!

E vamos à surpresa.

Recebi, dia desses, e-mail de um sujeito chamado Humberto Hermeto Pedercini Marinho. Apresentou-se assim, o Humberto: “Cara, eu sou arquiteto, mas também gosto muito de desenho, pintura. Resolvi – instigado por um amigo – investir mais na arte. A sugestão de postar um desenho por dia (vou completar uns 6 caderninhos de aquarela até o final do ano) foi dele, e estou cumprindo… O legal é que, além de divulgar meu trabalho, me ajuda a desenvolver as técnicas uma vez que sou completamente autodidata nessa área… Além disso, parece que vai formatando umas idéias na cabeça… Suas fotos e seus textos (comendo o rabo da Globo principalmente) acabam inspirando alguns desenhos. Se vc olhar esse aqui verá que tem tudo a ver com o q vc escreve. Abração e use o desenho à vontade!”.

Eis aí o desenho – sensacional! – que o Humberto publicou no Instagram e me enviou por e-mail, em alta resolução, para que eu possa presentear a dona Olívia (o que farei já na semana que vem).

Dona Olívia

Viva a carioquice! Viva a dona Olívia e viva o Humberto!

Até.

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UM PEDAÇO DO CÉU EM MARECHAL

Eu não saberia dizer, com precisão, quando foi a última vez em que estive lá.

Sei que voltei, na sexta-feira passada, depois da genial idéia e sugestão de meu mano Fernando Szegeri, que passou o feriado de Corpus Christi no Rio de Janeiro. Seguimos eu, a Morena, Szegeri, Ana e Felipinho em direção à Marechal Hermes – e como está bonito, o glorioso bairro de Marechal! – e lá aportamos por volta das sete e meia da noite…

Fui ao balcão, abracei longamente o Celsão, dono do pedaço, cambaleei, tonto, arremessado ao passado de mãos dadas no presente com ela, a quem apresentei, orgulhoso, ao Comandante-em-Chefe da Adega Tudo do Mar, e fomos pra calçada beber uma cerveja e tomar uma fresca (e fazia um frio polar!!!!!).

Quase-morri, confesso, quando a garçonete veio à mesa e me estendeu uma folha de papel (foto abaixo) contendo um texto meu de novembro de 2001 intitulado, como este, Um pedaço do céu em Marechal. Estendi, com as mãos trêmulas, o papelucho já meio amarelado, em direção ao Szegeri que passou a lê-lo em voz alta.

SOC 112001

O que eu quero lhes, meus poucos mas fiéis leitores, é que o Szegeri foi lendo, foi lendo, sua voz falhava de vez em quando, e eu fui tendo frêmitos na alma, arremessos violentíssimos em direção ao começo do século, e olhava à volta, e via tudo ali, ainda presente, ainda constante, e pedimos sardinha (perfeitas!!!!!), e pedimos ova (que ovas, que ovas!), e fomos derrubando garrafas e mais garrafas de cerveja, e demos de ouvir histórias dos freqüentadores (volto ao tema), e bebi da bagaceira portuguesa que o generoso Celsão me ofereceu, e voltamos de lá, já na madrugada do sábado, com uma certeza aterrada: é no subúrbio, é na zona norte, que vive e resiste a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Com vocês, o texto de 2001, logo abaixo da próxima fotografia – feita pela Morena – que me flagrou de olhos marejados, copinho de bagaceira na mão, ao lado desse imprescindível sujeito que é o Celsão.

Edu e Celsão

“Conheci um bar que não existe. Um bar que fica numa rua triste, no subúrbio, onde há casas simples com cadeiras na calçada, e na fachada, escrito em cima que é um bar.

Há, neste bar que não existe, pelas inúmeras prateleiras, potes de vidro com cobras lindíssimas preservadas, um aquário, um carcará numa gaiola e um louro livre recebendo a freguesia, imagens de santos em madeira, escudos do Fluminense, galhos de arruda e um cágado sempre próximo aos banheiros, garrafas de todas as cores, e eu juro que ainda sóbrio vi a garrafa azul, a falante, do Visconde de Sabugosa, guardando a melhor aguardente do bar oferecida a uns poucos homens de sorte – além de mesas toscas, luz pouco forte, figas, fotografias.

Há, por trás do balcão do bar que não existe, um homem de sorriso largo e abraço farto recebendo quem chega, comandando o incessante vai-e-vém das garçonetes que dão perfeita conta do bando de loucos que chegam ao bar que não existe.

Há, no bar que não existe, a cerveja mais gelada que jamais bebi, a melhor casquinha de siri que jamais comi e pimentas, do reino, de cheiro, vários molhos, caldos, croquetes, caldeiradas.

E há, mais um dos trunfos do lugar, nas noites de sexta-feira, Waldecir regendo, Bolão no pandeiro e tantã, Nelson no violão, Jorge no cavaco, João no tamborim, seu Augusto e dona Deny cantando; ele, sambas e ela, serestas. Uma espécie de Buena Vista Marechal Club. Eles, que são velhos malandros maneiros e que provavelmente têm São Jorge Guerreiro como fiel protetor, tocam e cantam, das oito a meia-noite, rasgando suas próprias almas e enchendo o bar de uma única e encantadora alma que só existe no subúrbio de gente humilde, que vontade de chorar. Sem vaidade, senhores de seu tempo e de seu talento, arrumam os instrumentos e saem de fininho prometendo timidamente a quem pergunta, voltar na semana seguinte.

Rua General Savaget 67, Adega Tudo do Mar, em Marechal Hermes, fone 24504411. Não está nos guias de bares da cidade e não está nas páginas das revistas. Vá conferir, pergunte pelo Celsão, e me diga depois se aquilo existe.”

Endosso, de novo, palavra por palavra.

Até.

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RIO DE JANEIRO EM ESTADO BRUTO

O nome do sujeito é Fábio e ele é membro da Guarda Municipal da Cidade do Rio de Janeiro, instituição um tanto quanto em baixa no coração do carioca por conta de um ou outro malfeito que, diga-se, não vem ao caso.

Na quarta-feira, anteontem, uma vez mais, fui ver de perto o ensaio de rua da azul-e-branco de Vila Isabel. Entra ano, sai ano, e eu continuo me comovendo feito o diabo antes, durante e depois dos ensaios da escola – anteontem, uma vez mais, não foi diferente. É bonito pacas ver o bairro inteiro mobilizado, em festa, nas ruas, nas calçadas, nos bares, aprontando o desfile da escola. Crianças, adultos, velhos (uma senhora que desfilou anteontem, de cadeira de rodas empurrada pelo marido, mais animada que a mais animada das componentes, quase me faz ir oló), todos cantando o samba – e o samba de 2013 está belíssimo! – dão um astral ao Boulevard 28 de Setembro que é um alento pro coração.

O Boulevard 28 de Setembro, pra quem não conhece, é uma avenida enorme que corta o bairro de Vila Isabel, do Maracanã à Praça Barão de Drummond. Composta por duas pistas, ambas na mesma direção, a avenida é dividida por um largo canteiro central e uma das pistas, a da direita, é sempre totalmente ocupada pelos componentes da escola em dia de ensaio, ficando fechada para o trânsito.

Anteontem, faltando pouco pro Carnaval, a pista da esquerda também esteve parcialmente ocupada de gente, exigindo dos guardas municipais muita paciência para controlar o trânsito, estrangulado pelo povo de Noel.

Foi quando me chamou a atenção, o Fábio.

Cantando o samba do início ao fim, com um sorriso enorme no rosto escondido entre o colete e o boné, o caboclo dava conta, praticamente sozinho, do recado. Não houve um único motorista – engarrafado! – que não atendesse aos comandos do cara.

Estávamos eu e a Morena, Edu e Renata com a Lulu.

E as meninas fizeram questão de uma fotografia com essa figura que só corrobora a fama de boa-praça que o carioca (ainda) tem.

30012013 ensaio de rua da vila isabel

Faltam oito dias apenas para a abertura do Carnaval 2013, que acontece quando os metais dão a senha na avenida Rio Branco: lugar quente, meus poucos mas fiéis leitores, é na cama ou então no Bola Preta.

Está dada a largada para a contagem regressiva.

Até.

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