Arquivo do mês: fevereiro 2013

MINHA PRIMEIRA QUARESMA

Lembro-me como se fosse hoje. Ela, sem esconder a excitação com a efetiva possibilidade daquilo acontecer o quanto antes, disse-me com os olhos fixados nos meus:

– Você pre-ci-sa conhecer o Gava! – e ela disse o “precisa” assim mesmo, separando as sílabas, enfatizando a necessidade do encontro.

Estávamos no Bar da Maria, na rua Garibaldi, e eu dei corda:

– É? Por que?

Ela derramou-se em elogios e passou a desdobrar, sobre a mesa, a biografia do sujeito. Eram conterrâneos, do Paraná, e ele já estava morando há coisa de uns meses (pouco mais de ano) no Rio, “um pouco deslocado”, (acho que) ela disse. E tornou a repetir, depois de um vigoroso gole na cerveja estupidamente gelada que dividíamos:

– Você pre-ci-sa conhecer o Gava!

Fato concreto é que eu conheci o Gava.

Antes, porém, faço questão de lhes contar um detalhe fundamental.

Durante a tal conversa no Bar da Maria, ela disse-me quase aos cochichos:

– O Gava é católico.

E eu sei lá por qual razão a junção dessas duas palavras numa mesma frase – Gava / católico – causou-me uma espécie de respeito prévio, imediato, pelo sujeito. Ela foi adiante:

– Católico! No duro! E da ala avançada da Igreja…

Tornou a baixar a voz:

– Respeita a Quaresma…

Voltemos.

Conheci o Gava poucos minutos antes da saída do Bola Preta, no Carnaval de 2012. Estávamos, eu e ela, começando a viver nosso primeiro Carnaval juntos e ela achou uma boa idéia, vá entender, apresentar o namorado (eu) para o amigo (ele) na manhã do Sábado de Carnaval.

Eu estava fantasiado de Vilma Flinstones, um vestidinho com estampa de onçinha, meia arrastão, com unhas postiças pintadas com esmalte cor-de-abóbora, uma peruca imensa combinando com as unhas, óculos escuros comprados na rua da Alfândega, na véspera, e rodando uma bolsinha porque eu já saíra calibrado de casa – evidentemente.

A impressão que guardei desse primeiro encontro – eu estava impressionado desde o Bar da Maria – foi a de que ele foi, assim, 100% católico: lembro-me dos olhos compungidos de tanta piedade diante de mim (guardo ligeira impressão de ter visto ele fazendo o sinal da cruz como que a me benzer) e de nada mais, até nosso encontro seguinte (já bem depois do Carnaval).

De lá pra cá, eis a verdade: constatei que o Gava é, efetivamente, um grande praça. Almoçamos com beneditina freqüência, trocamos e-mails com alguma assiduidade, vamos lá, aos poucos, costurando uma relação como – é como penso – ela imaginou no não tão longínquo novembro de 2011. Mas a cada encontro – eis o assombroso! – eu saio repetindo, de mim para mim:

– O Gava é católico.

E logo depois eu mesmo emendo:

– Apóstólico e romano!

Pausa: o Gava anda tendo cólicas de ansiedade com a eleição papal que se aproxima. Nisso, vejam que bonitos são os caminhos da vida, ele e o Szegeri (um ex-católico fervoroso) são irmãos. Volto ao assunto.

Até que, poucos dias antes do Carnaval deste 2013, almoçávamos, eu e o Gava, no centenário Cosmopolita, na Lapa. E eu estava reclamando do meu estado físico (estou, a cada dia que passa mais, uma bóia) quando ele me interrompeu:

– Recolha-se na Quaresma.

E disse isso, meus poucos mas fiéis leitores, com uma calma, com uma tranqüilidade, que vi pombas brancas sobrevoando sua cabeça, uma espécie de São Francisco de Assis (mais bonito, que o Gava é um pão, diriam minha bisavó e minha avó) diante de um rebento perdido e transido.

E cá estou eu vivendo minha primeira Quaresma, sem pôr uma única gota de álcool na boca desde o domingo último (sei que, com isso, não estou a seguir as regras de Roma, mas meu Papa é outro). No sábado, inclusive – notem o grau de santidade do cara – estive no Desfile das Campeãs com a Morena. Quem foi conosco? Ele, o Gava.

Sambou como um curitibano. Bebeu como um cossaco. Dormiu no concreto das arquibancadas como um mendigo. E faltando pouco pro dia clarear, ergueu-se e despediu-se de nós.

Deu-me um fraterno abraço, uns tapinhas nas costas, e soprou-me no ouvido, catoliquíssimo:

– É amanhã, é amanhã! Comece amanhã! Quarenta dias não são quarenta horas. Boa Quaresma… – e sumiu em meio à multidão.

Até.

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FALTAM QUARENTA E OITO HORAS

Eis que estamos a menos de 48h do início do Carnaval 2013, porque o Carnaval, meus poucos mas fiéis leitores, começa somente quando rasgam os céus do velho centro do Rio os sopros dos metais – de andaime despencando, apud Aldir Blanc – do Cordão da Bola Preta anunciando que “lugar quente é na cama ou então no Bola Preta”.

Lá estarei, irreconhecível. Lá estarei, de mãos dadas com ela, perdido entre tantos turbilhões que a turba forma quando sai o cordão. Lá estarei disposto a viver o mistério da sagrada festa profana, pronto pra renascer 96 horas depois.

Lá estarei carregando o peso de meus 43 anos e minha esperança de pelo menos mais 43 à frente. Lá estarei carregando o peso de meus 42 carnavais, o cheiro forte do Rodouro que meu pai comprava clandestinamente, todas as minhas dores que serão novamente expurgadas no asfalto que me verá passar mais uma vez, todas as minhas esperanças que hão de estar renovadas na Quarta-Feira de Cinzas. Lá estarei com todos os meus amores, com todas as minhas frustrações, com toda minha saudade, com todas as minhas taras – as mais inconfessáveis -, com todas as minhas energias e com toda a minha força possível a fim de sacudir e arrebentar o cordão de isolamento que tentam, diuturnamente, nos impor.

Lá estarei ao lado dela, minha Morena, que veio pra perto de mim como num sonho de Carnaval.

Porque fantasia pouca é bobagem.

Abadá, área VIP, guarda manja-rôla, tudo isso é sacanagem.

Tenhamos todos disposição pra gritar que não queremos corda no nosso bloco, não queremos carro-chefe, não queremos ordem nem divisa.

E como Carnaval também é Mistério, forjo o Tempo e canto pra ela, Flávia, o Bola Preta do Jacob do Bandolim, letrado por um de meus orixás vivos, Aldir Blanc, hoje, 20 de janeiro de 2009. Foi pra ela que eu cantei.

Se você duvida, nego, você nem desconfia o que seja a festa que começa no sábado.

Evoé.

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RIO DE JANEIRO EM ESTADO BRUTO

O nome do sujeito é Fábio e ele é membro da Guarda Municipal da Cidade do Rio de Janeiro, instituição um tanto quanto em baixa no coração do carioca por conta de um ou outro malfeito que, diga-se, não vem ao caso.

Na quarta-feira, anteontem, uma vez mais, fui ver de perto o ensaio de rua da azul-e-branco de Vila Isabel. Entra ano, sai ano, e eu continuo me comovendo feito o diabo antes, durante e depois dos ensaios da escola – anteontem, uma vez mais, não foi diferente. É bonito pacas ver o bairro inteiro mobilizado, em festa, nas ruas, nas calçadas, nos bares, aprontando o desfile da escola. Crianças, adultos, velhos (uma senhora que desfilou anteontem, de cadeira de rodas empurrada pelo marido, mais animada que a mais animada das componentes, quase me faz ir oló), todos cantando o samba – e o samba de 2013 está belíssimo! – dão um astral ao Boulevard 28 de Setembro que é um alento pro coração.

O Boulevard 28 de Setembro, pra quem não conhece, é uma avenida enorme que corta o bairro de Vila Isabel, do Maracanã à Praça Barão de Drummond. Composta por duas pistas, ambas na mesma direção, a avenida é dividida por um largo canteiro central e uma das pistas, a da direita, é sempre totalmente ocupada pelos componentes da escola em dia de ensaio, ficando fechada para o trânsito.

Anteontem, faltando pouco pro Carnaval, a pista da esquerda também esteve parcialmente ocupada de gente, exigindo dos guardas municipais muita paciência para controlar o trânsito, estrangulado pelo povo de Noel.

Foi quando me chamou a atenção, o Fábio.

Cantando o samba do início ao fim, com um sorriso enorme no rosto escondido entre o colete e o boné, o caboclo dava conta, praticamente sozinho, do recado. Não houve um único motorista – engarrafado! – que não atendesse aos comandos do cara.

Estávamos eu e a Morena, Edu e Renata com a Lulu.

E as meninas fizeram questão de uma fotografia com essa figura que só corrobora a fama de boa-praça que o carioca (ainda) tem.

30012013 ensaio de rua da vila isabel

Faltam oito dias apenas para a abertura do Carnaval 2013, que acontece quando os metais dão a senha na avenida Rio Branco: lugar quente, meus poucos mas fiéis leitores, é na cama ou então no Bola Preta.

Está dada a largada para a contagem regressiva.

Até.

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