Arquivo do mês: novembro 2019

O MOLEQUE FUTEBOL – PARTE 2

Publiquei, anteontem, retomando a rotina de pousar os cotovelos no balcão imaginário do buteco, “O moleque futebol – parte 1”, aqui. E eis-me aqui, novamente, para a parte 2, que pretendo que seja a parte final.

Assim terminei o texto de terça-feira: “Até que veio a sexta-feira, véspera da final da Libertadores de 2019.”. É sobre o que quero lhes contar, sobre a sexta-feira e sobre o sacrossanto sábado.

Eu já havia decidido, na quinta-feira, que não trabalharia na sexta: tenso demais, noites mal dormidas, uma expectativa de 38 anos guardada no incorrigível coração rubro-negro – não iria trabalhar.

Acordei cedo, pus Leonel no carro – minha sogra a tiracolo pra qualquer emergência de ordem médica – e tomamos o rumo da Gávea. Eu queria porque queria apresentar Leonel à sede do Clube de Regatas do Flamengo.

Tinha um porquê. Para além da graça de levá-lo ao Flamengo pela primeira vez, eu queria repetir, sob outra ótica, o que vivi em 2009, na véspera do Flamengo x Grêmio que fez o Flamengo hexacampeão brasileiro, no Maracanã, quando também estive na Gávea. Aqui, trecho do texto em que relato aquele sábado:

* o sábado foi, de novo, rubro-negro do início ao fim. Fomos à Gávea pela manhã e foi bonito demais ver a sede do Flamengo abarrotada de gente de todo o Brasil (eu, Candinha, minha menina e o Henrique). Foi bonito demais ver o sorriso do moleque diante dos troféus conquistados pelo Flamengo, e eu já era, àquela altura, o menino de calças curtas e de camisa listrada de mãos dadas com meu pai. Lá encontramos com Flavinho e Betinha, e ela trazendo no colo, junto do peito, o Felipe, com apenas 28 dias de vida, de boné rubro-negro e tudo! Leo Boechat e seu primo, Jean Boechat, o mais recente cidadão tijucano (o malandro apaixonou-se, de vez, pela Tijuca!), juntaram-se a nós e fomos à crise belga na Adega do Pimenta, onde a Sra. Boechat compareceu levando a Helena, uma de minhas afilhadas. De lá, partimos para São Judas Tadeu, no Cosme Velho, onde fizemos os devidos trabalhos;” . Esse texto, na íntegra, pode ser lido aqui.

Pois bem. Em 2009, encontrei a Betinha na Gávea com Felipe, seu filhote, no colo – ele com 28 dias de vida. Em 2019, dez anos depois, também na véspera de uma decisão, eu queria estar na Gávea com meu filho no colo, e ao lado de sua madrinha – justamente a Betinha. A vida dá voltas e faz desenhos bonitos demais.

Muita emoção, na Gávea. Muita.

Fui apresentar (!) a estátua do Zico a Leonel e chorei como se fosse ele, Arthur Antunes Coimbra, em carne e osso, diante de mim. Beijei a estátua, Leonel a beijou, fizemos fotos, minha sogra fingia achar tudo normal, Leonel refastelou-se naquele espaço, passou a achar (imaginei) que o mundo é muito mais divertido em vermelho-e-preto.

Correu a sexta-feira, mal dormi e no sábado, de novo, tomei Leonel pelas mãos para levá-lo à igreja de São Judas Tadeu, o padroeiro do Mais-Querido. Eu e ele de Flamengo. No trajeto, ele na cadeirinha no banco traseiro, fui cantando o hino, gritos da torcida, namorando seus olhos pelo retrovisor, embaçando a vista, até que estacionei no pátio interno da paróquia, no Cosme Velho.

Não eram 8 da manhã ainda e a igreja parecia arquibancada do Maracanã em dia de jogo cheio: só se via camisa do Flamengo, Leonel entrou em êxtase diante da multidão vestida de rubro-negro, rezei com ele no colo, fomos à gruta, acendi vela, e não segurei a emoção quando o levei, já na saída, pra ganhar a benção do padre:

– Meu filho, que Jesus te abençoe, que Nossa Senhora Aparecida te cubra de bençãos, que São Judas Tadeu guarde teu coraçãozinho e [pondo a mão no peito do maragatinho] que você lute hoje, meu filho, pra que você se sagre campeão com o Flamengo!

Eu, com minha guia vermelha-e-preta à mostra, soluçava diante do padre para assombro do moleque, que me olhava com olhos de o-que-foi-papai?

Foi chegando a hora do jogo.

Tomei o rumo do bar.

Ancorei no balcão do Bar Madrid, a bandeira em volta do pescoço, cerveja, o maracujá da casa (o meu preferido dentre os maracujás da cidade – eu ia dizer o melhor da cidade mas cada um tem o seu melhor e eu não vou repetir a postura abjeta dos jabazeiros do Instagram).

Sobre a bandeira, um parênteses. Tal bandeira pertencia a meu avô materno, Milton – torcedor do Flamengo, o que foi pela primeira e última vez ao Maracanã em 1950, na final contra o Uruguai. Não sei se procede ou não, mas meu avô dizia que bandeira oficial era essa, com o símbolo vermelho sobre fundo preto – ele maldizia a que trazia o CRF em branco. Em ocasiões especiais, como era o caso, eu a tiro do armário – onde fica muitíssimo bem acondicionada.

Tive mais uma síncope, como tantas ao longo da semana passada, quando chegaram ao Bar Madrid, de surpresa, Morena e Leonel – os dois de vermelho-e-preto, os dois de Flamengo e, sendo a Morena torcedora do Athlético Paranaense, isso me comoveu ainda mais.

Acabo de decidir que amanhã escreverei a parte 3, a parte final, sobre o jogo, sobre a assistência que comigo esteve no CTI das Almas, o buteco no qual assisti a todas as partidas decisivas da Libertadores em 2019.

Tinha que ser lá. Por mandinga, por tradição, por força do rito.

Terminar a noite completamente encharcado pela chuva que desabou na cidade na reta final da épica partida abraçado com a Morena – éramos a expressão do êxtase, da alegria, da mágica que foi aquele jogo – foi a coroação de um tempo que eu não vivia há pelo menos 10 anos, desde a conquista de 2009, ou sabe-se lá se não há 38 anos.

Quando eu não sonhava com a Morena.

Quando eu não sonhava com um filho.

Quando eu não era tão feliz quanto sou agora.

Até.

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O MOLEQUE FUTEBOL – PARTE 1

O último texto publicado aqui, no blog – esse troço em desuso desde que as ~redes sociais~ começaram a ocupar pra valer o tempo das pessoas – foi em junho de 2017.

Movido por sugestão contínua da Morena e da Marianna Araujo, duas das maiores entusiastas desse espaço, e empurrado pra cá pela enxurrada de emoções vividas no final de semana que passsou, volto ao balcão virtual do buteco depois de quase dois anos e meio.

Mas a ocasião de fato pede. Feito o brevíssimo intróito, vamos ao que quero lhes dizer.

Quando meu pai me levou ao Maracanã pela primeira vez, em 1969, eu era filho único, vascaíno (papai e seu pai, meu avô, vascaínos fanáticos) e não fazia idéia do que era aquele gigante de concreto em silêncio que meu pai me apresentava tão orgulhoso (a foto não me deixa mentir).

Em 1974, no Maracanã, novamente levado por meu pai, e pelas mãos de Arthur Antunes Coimbra, o Zico, virei Flamengo (contei sobre isso aqui). Eu já não era filho único e o Maracanã, pra mim, ainda era uma incógnita.

Em 1978, meu pai me leva de novo ao Maracanã – para meu primeiro jogo de futebol in loco. A meta era me fazer ver o equívoco que foi ter trocado de time em 1974. A final era Vasco e Flamengo e o empate era do Vasco. Meu irmão (vascaíno) também estava. O Deus da Raça estragou os planos do meu pai e o Flamengo tornou-se mais sólido que nunca dentro de mim. Conto sobre esse jogo aqui. A partir daquele jogo – meu primeiro, repito – o Maracanã passou a ser sagrado. E eu nunca mais o abandonei.

Um pequeno corte no tempo, um arremesso bem mais pra trás.

Cresci, molecote, ouvindo a família contar (a mulherada da família, sobretudo, as velhas, as avós, a bisavó e as tias é que contavam as histórias) que meu avô, pai de mamãe, fora à final de 1950. O segundo jogo de sua vida no Maior do Mundo. E o último. Vovô foi encontrado dois dias depois, embriagado, num botequim no Engenho Novo. Jurara nunca mais pisar no Maracanã. E nunca mais pisou. E eu nunca esqueci dele diante de mim, o Continental numa das mãos, o copo com Teacher´s na outra, me dizendo com tom grave:

– Cuidado com o Maracanã! Cuidado!

Eu quero fazer a primeira confissão: até o dia 28 de junho de 2014, eu tinha 45 anos de idade, eu temi repetir o gesto do meu avô e abandonar o Maracanã pra sempre. Na tarde/noite daquele 28 de junho, quando fui ao Maracanã com a Morena pra ver Colômbia e Uruguai pela Copa do Mundo, quando a Colômbia venceu e eliminou o Uruguai, eu chorei por ter vivido a sensação de ter vingado meu avô. E nunca mais tive medo do Maracanã. Foi um rito de passagem, uma libertação, um acerto de contas com o Tempo e com os fantasmas que povoam minha vida.

Estamos em 31 de maio de 2018. Leonel nasce perto da meia-noite – a melhor coisa que me aconteceu na vida. Filho de dois rubro-negros, a Morena é torcedora do Furacão (“a camisa rubro-negra só se veste por amor”), Leonel já chegou me fazendo cometer as loucuras e as insanidades, as belezuras e os desvairios que um filho justifica. Arriei ebó na maternidade depois de ter feito promessa pra Nossa Senhora de Nazaré no Círio de 2017 (já sabíamos que ele estava a caminho) e prometi, no lufa-lufa das primeiras horas de vida dele, que só voltaria a pisar num estádio de futebol com ele.

Camisa do Flamengo na porta do quarto, roupinha vermelha e preta, todas aquelas mandingas e eu fui criando, ao longo do primeiro ano de vida do piá, a expectativa que, presumo, é a expectativa de todo pai, de toda mãe, que é muito envolvido, que é muito envolvida com futebol e com seu time: a de fazer a cria conhecer sua paixão e se apaixonar por ela.

A Morena foi sensata desde o início. O moleque, nascido no Rio, carioca, haveria de querer torcer pra um time do Rio, não pelo seu Atlético Paranaense (sem o agá). Afinal de contas somos todos rubro-negros e foi assim que fui apresentando o Flamengo pra Leonel desde cedo. Um copo que pisca. Um chocalho. A camisa. As cores. O hino. Gols na TV, o Campeonato Carioca de 2019, o Brasileirão 2019, a Taça Libertadores 2019. Assim mesmo, nesse ritmo.

E a vida foi ganhando outro ritmo por causa do futebol (de novo). E digo de novo porque o futebol é maior que a vida, e conseqüentemente pauta a vida de um homem, dita seu ritmo, pontua a passagem do tempo, emociona, comove, faz rir, faz chorar. O futebol ganhou outras cores depois do Leonel e nessa reta final da Libertadores.

Cena comum nas últimas semanas: eu com amigos no bar, bebendo e falando da grande final, Flamengo e River Plate, contando sobre o final do Brasileiro em 1980, as finais de 81… E invariavelmente alguém me interrompia:

– Mas Edu… ninguém aqui na mesa havia nascido em 81…

Eu era a múmia, nesses momentos. Eu era arremessado violentamente em direção ao passado. A memória me vinha viva, ardendo, eu com 11, 12 anos, 1980, 1981, conversando com gente mais velha a quem eu invejava de leve por ter visto jogar Garrincha, por ter visto jogar Pelé, por ter visto os tricampeonatos do Flamengo, Rubens, Dequinha, Pavão, e eu era ali o homem que experimentava a sensação invertida que o Tempo me proporcionava.

Leonel era o vértice.

Eu o pus pra dormir todos os dias, em 2019, conversando com ele, baixinho, sobre futebol. Sobre o Flamengo. Sobre os jogos que vi e os jogos que veríamos, eu e ele.

Não foi nada fácil atravessar essa última semana até o sábado.

Em vários momentos eu fui o menino no colo do meu pai, embasbacado e maravilhado diante do palco gigante das gigantes emoções que só o futebol proporciona. Enquanto eu era o menino no colo do meu pai eu embalava o menino que me arrebata o coração e a alma desde que nasceu, há pouco mais de um ano e cinco meses. Fui e voltei diversas vezes de 1969. Ouvi meu avô me alertando pros perigos do Maracanã e do futebol. Dei mais de uma volta olímpica no colo do Zico. Como num filme, vibrei com o mesmo Zico, pouco depois, cobrando escanteio e com o Rondinelli saltando e fazendo a bola morrer no gol do Vasco. Meu pai me arrastava pra fora do estádio, pra onde voltei e volto até hoje. Explodi nas arquibancadas em 1980 vendo o Nunes fazer ventar. Passei a noite em claro pra ver o Flamengo botando os ingleses na roda, em dezembro de 81. Chorei e não foi pouco.

Até que veio a sexta-feira, véspera da final da Libertadores de 2019.

Volto amanhã pra lhes contar como foi.

Até.

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