MEMORABILIA DO MARACANÃ – PARTE I

Inauguro hoje uma pequena série de textos que pretende construir uma espécie de memorabilia particular envolvendo minhas reminiscências do Maracanã, o gigante de concreto, o Mário Filho, gigante erguido para a Copa do Mundo de 1950, quando a Copa do Mundo não era o templo dos ladravazes que, 60 anos depois, depõem contra – valendo-me da imagem que meu mano Bruno Ribeiro cravou dia desses – esse sagrado assentamento às margens do rio que lhe deu o nome, contruído por mais de 10.000 operários desconhecidos, a quem rendo minhas homenagens. A Copa do Mundo não era o templo dos ladravazes e nem o mundo era essa imitação burlesca da vida que oprime o homem. O que essa escumalha pretende fazer com o Maracanã é, no mínimo, crime de lesa-pátria. Dirão os idiotas da objetividade de sempre – e penso aqui com os meus botões cada vez mais estufados o que diria Nelson Rodrigues diante dessa ignomínia – que o estádio irá apenas se adaptar às imposições da modernidade, troço inevitável. E eu, múmia do alto dos meus quarenta e um anos de idade, direi “cáspite” no focinho de cada um. Falei em Nelson e o paralelo me parece óbvio: se o Fla x Flu começou quarenta minutos antes do nada, o aquecimento dos bravos tricolores e rubro-negros esclados para o jogo seminal deu-se no gramado telúrico do Maior do Mundo, monstro azul e branco que antecede o nada.
imagem do Maracanã em obras
Inauguro a série falando de um Flamengo e Vasco. Tinha eu 9 anos de idade e fiz, ali, naquele 03 de dezembro de 1978, minha estréia em jogos decisivos. Antes, porém, um breve intróito. Tinha – confesso – certo medo do Maracanã. Enquanto meu avô materno era vivo, uma história era recorrente. Dizia ele, sempre com olhos distantes e marejados que eu só enxergo agora:

– Nunca mais piso no Maracanã… Depois daquele Brasil e Uruguai, de 50, nunca mais…

A história era confirmada e ganhava contornos de tragédia com a ciciante ladainha das tias, de minha avó e minha bisavó: meu avô Milton foi literalmente carregado pra casa no final da noite daquele 16 de julho por um de meus tios-avós, seu cunhado, largado e perdido às margens do rio Maracanã, impactado pelo gol que ainda hoje machuca a alma brasileira. E vovô dizia – façam uma idéia do efeito da frase para uma criança – sempre:

– Cuidado com o Maracanã, meu filho…

Pois fui ao jogo levado pelas mãos de meu pai e na companhia de meu irmão do meio. Eu, rubro-negro. Os dois, vascaínos. Seria a disputa do segundo turno do campeonato carioca de 78, o primeiro vencido pelo Flamengo. Um simples empate daria ao Vasco o direito de disputar o título do estadual contra o Flamengo.

Mais de 120.000 pessoas sem NENHUM conforto (com a ênfase szegeriana) aguardavam o apito inicial – o árbitro era o meia-boca José Roberto Wright. Participaram da batalha, pelo Flamengo, Cantarelli, Toninho, Manguito, Rondinelli e Júnior; Caperggiani, Adílio e Zico; Marcinho, Cléber, depois Eli Carlos, e Tita, depois Alberto, os comandados do técnico Cláudio Coutinho. Pelo Vasco da Gama, Leão, Orlando, Abel, Gaúcho e Marco Antônio; Helinho, Guina e Paulo Roberto; Wilsinho, depois Paulo César, Roberto e Ramon, depois Paulinho, comandados pelo legendário treinador Orlando Fantoni.

Guardo – e como lhes provarei que de fato guardo? – as sensações daquele dia em mim. O tumulto pra entrar no estádio, como romanos no Coliseu em dia de combate, os cântigos de guerra sacralizados por palavrões entoados em homilia coletiva, a disputa selvagem pelo melhor lugar ao sol, os milhares de rádios de pilha ligados na voz inconfundível de Valdir Amaral (foi quem narrou o gol), a energia contagiante dos geraldinos, os bares abarrotados de torcedores em busca de cerveja, vendedores de mate em galão, cachorro-quente, filas intermináveis nos banheiros fétidos – quem quer higiene em banheiro de estádio, porra?! -, ambulantes vendendo faixas de campeão para os dois times, e eu – eis a mais aguda confissão que faço – com medo de repetir ali, guardadas as proporções, o drama de meu avô:

– Se o Flamengo perder eu nunca mais venho ao estádio. – e eu imagino o dilema no coração de meu velho pai experimentando uma angústia de filho que eu não vou conhecer.

Pois foi ali, meus poucos mas fiéis leitores, no Maracanã, que vi Antonio José Rondinelli Tobias, o Deus da Raça, saltar como um bólido em direção à bola alçada na área pelo Zico, improvável cobrador daquele escanteio a poucos minutos do final do jogo, pra fazer morrer nas redes minha mais romântica e atrevida jura de torcedor.

gol de Rondinelli, Flamengo x Vasco, 1978

O que se segue, é hilário. Meu pai – puto dentro das calças – tomou a direção da saída me arrastando com indisfraçável ódio, não de mim, é claro. Eu gemia:

– Deixa eu ver, deixa eu ver!

E eu nunca – nunca! – vou me esquecer dos gritos de “é, campeão!” que eu não pude acompanhar de perto. Papai, que levava numa das mãos meu irmão do meio e na outra a mim, não me deixou ver a entrega da taça, das faixas, a volta olímpica. Se naquele momento investi-me de raiva contra o velho hoje compreendo que a força-motriz de seu gesto intempestivo é a que move o torcedor que vai à campo pra ver seu time jogar.

ingresso do jogo final, imagem retirada do site www.flamengo.com.br

Fecho, hoje, esse primeiro texto da série, com uma homenagem a todos os corinthianos que me lêem, na pessoa de Claudio Yida Jr., Julio Vellozo, Leonor Macedo e Stefania Gola, pelo centenário do Corinthians. Falei da lenda que cercava meu avô e preciso lhes contar outra.

Papai, quando eu era criança, sempre com os olhos esbugalhados, dizia com relação à famosa invasão corinthiana de 1976, no Maracanã, contra o Fluminense:

– Você não faz idéia do que fizeram os corinthianos no Rio de Janeiro em 1976…

E danava de contar sobre a festa preto-e-branca que se abateu por aqui.

Até.

6 Comentários

Arquivado em confissões, futebol

6 Respostas para “MEMORABILIA DO MARACANÃ – PARTE I

  1. >Que bacana ver esse ingresso antigo. Tenho alguns do meu Flu, mas da década de 80…

  2. >Golaço!! E obrigado à homenagem ao Centenário. Leio tudo isso com os olhos cheio de lágrimas. Muito de emoção, mas também com um pouco de tristeza por ver que isso tudo vai acabar.Abraço!!!

  3. >Muito bom, Edu.Todo carioca que se preze tem que ter uma história de Maracanã pra contar.Quase mudando de assunto, estava eu ainda agora dando uma olhada no twitter do Eduardo Paes e me deparei com o seguinte: "A cerveja deveria voltar a ser vendida nos estádios brasileiros. 5:34 PM Jul 11th via web"Note a data, dia da final da Copa. O Paes tava lá, provavelmente tendo contato com gente da Fifa.Que mudança de postura, não?Será que o fato da próxima Copa ser sediada aqui e um dos patrocinadores oficiais da Fifa ser uma cervejaria tem alguma coisa a ver com isso?Bom, de uma maneira ou de outra, que volte a cerveja!Abraços!

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