ENTREVISTA – MOACYR LUZ

Programa mais carioca, impossível. Encontrei com o Moacyr Luz, ontem, domingo, às 10h30min de uma manhã que ameaçava chuva, no buteco Beco do Rato, na Lapa, no finalzinho da Rua Joaquim Silva, comandado pelo Márcio, que foi um anfitrião de mão cheia. E a Romana, enquanto conversávamos, mandava da cozinha um troço atrás do outro, um mais gostoso que o outro: chouriço, farofa, torresminho frito, e deu-se, regado a uma garrafa inteira de Caribé, cachaça que o Moacyr trouxe dentro de uma enorme bolsa que ainda continha castanhas do Pará, um peixe já dessalgado, camarões secos, um bate-papo que durou duas horas e quinze minutos, integralmente reproduzido aqui. Foram chegando, ao longo do papo, a Dani, a Guerreira, o Pratinha, o Simas, gente que acabou bebendo da fonte conosco.

Foi, devo confessar, uma tarde emocionante ao extremo. Primeiro porque pude sentar-me à mesa, depois de anos de um afastamento digamos, involuntário, com o Moacyr, a quem (re)conheci no primeiro abraço. Depois porque pude filmar – e ao longo da semana divido os tesouros com vocês – o Moacyr interpretando três canções inéditas, todas incrivelmente belas, com a marca inconfundível de suas melodias, harmonias e letras. A primeira recém composta com o Sereno, letra do Moacyr, a segunda, chamada “Por Onde o Tempo Passa”, dele apenas, feita em homenagem a seu pai, que foi responsável por um choro coletivo na Rua do Ouvidor, em recente sábado iluminado, e a terceira, finalmente, chamada “Vida da Minha Vida”, também dele com o Sereno, clássico ainda sem gravação em disco, vocês vão ouvir.

Na entrevista, vocês hão de notar, emerge um homem de memória prodigiosa, apontando datas, horários, eventos impregnados em sua alma, num auto-desenho biográfico que diz muito sobre o Moacyr de hoje, 48 anos de idade, sabedor – outra coisa que é nítida ao longo da conversa – de sua responsabilidade como artista e como carioca, duas de suas facetas absolutamente indissociáveis.

Graças ao tamanho da entrevista, que ficou ainda maior que a do Aldir, o Buteco a deixará exposta durante toda a semana.

Nos próximos dias, apenas os vídeos com as emocionadas interpretações do Moacyr.

Sintam-se à vontade!

Moacyr Luz e Romana

Eduardo Goldenberg: Môa, conforme eu te falei, antes da gente começar, eu queria fazer uma história mais ou menos da tua biografia mesmo… Você nasceu…

Moacyr Luz: Nasci em Jacarepaguá, em 58, na Rua Barão. A Rua Barão é uma rua lá em Jacarepaguá – e eu agora comecei a inventar essa história pra caprichar mais no meu nascimento – que tinha, tem, uma maternidade lá muito conhecida naquela região, ali, né? E eu acho que a minha mãe teve uma gravidez muito delicada, ela levou um tombo perto de eu nascer, quando a minha avó por parte de pai morava na, acho que é na subida da Santo Amaro, ali, no morro aqui perto, né?, que é Glória, ou Santa Teresa, e a minha avó tinha umas casinhas geminadas que ela alugava, ela era portuguesa, e lá em cima, como se fosse um mirante dessas casas, olhando pras casas, ficava assim numa altura, numa escadaria, a casa da minha avó. E minha mãe caiu numa escadas dessas e ela teve um parto muito delicado… Eu digo até porque, saúde, em 58, eu nasci 5 de abril, né? Então na minha imaginação minha mãe escolheu morar na Rua Barão por conta de ter uma maternidade próxima. Com 2 anos, meu avô era dentista no Catumbi, meu avô foi cirurgião-dentista, uma parte da vida dele e metade da vida anterior ele foi músico do Corpo de Bombeiros, tocava clarinete, tocou em Banda do Corpo de Bombeiros, e quem conhece essas histórias de Banda, sabe da importância da Banda do Corpo de Bombeiros, eu tenho vários discos ainda guardados da época do meu avô tocando e gravando, gravava ao vivo, claro, tudo era gravado ao vivo! Mas eu acho que gravava ao vivo inclusive na própria quadra…

EG: … nos Batalhões…

ML: … nos Batalhões, né? Só que o músico, numa categoria militar, numa graduação militar, ele só pode chegar a um posto, sargento… E ele queria mais… Tinha ambições outras e mudou pra dentista já na metade final da carreira dele de profissional. Meu avô tinha uma clínica no Catumbi, na Rua do Chichorro, e eu fui morar ali na Rua do Chichorro, Catumbi.

EG: Com dois anos?

ML: Com 2 pra 3 anos. Engraçado como eu não lembro de absolutamente nada de Jacarepaguá… E também acho que quem lembre de alguma coisa com 2 anos só pode ser um psicopata, um anormal! Porque não é possível você lembrar de nada! Eu não lembro de nada! Nem dessas teses intelectuais de memória inconsciente, memória… Não tenho memória nenhuma disso!

EG: No Catumbi você ficou quanto tempo?

ML: No Catumbi eu fiquei… A história do Catumbi é muito bacana que tem uma coisa que leva à minha primeira visão… Eu tenho uma lembrança muito forte, presente, eu com três anos de idade, o meu avô me ensinando a escrever música, eu tenho essas partituras para provar em caso de…

EG: Contestação!

ML: Contestação ou então uma ação judicial por calúnia dessas da vida… Eu tenho lá as partituras guardadas. Então meu avô pegava minha mão e me botava pra escrever… E esse troço virou uma coisa meio prodigiosa, meio circense, de eu ter já essa habilidade pra escrever partitura… E também aprendi a escrever com três anos de idade algumas notas e desaprendi aos cinco, que eu nunca mais… As minhas músicas são todas intuitivas, né? Então meu avô era dentista, tinha lá um consultório, e na sala de espera eu ficava entretendo lá os coitados, os futuros sofredores da cadeira, desenhando notinhas musicais e lendo números de Manchete, Cruzeiro… Eu me lembro muito bem disso! Inclusive do sofá, de eu sentado ali pulando na mesa, aqueles meninos… Devia ser muito chato, querendo ser inteligente fora de hora… E me lembro do meu pai, que a gente foi morar junto lá, eu, minha mãe e meu pai… Fomos morar no Catumbi… Lembro do meu pai organizando eleição pra Jânio, pra Jânio Quadros… Todo mundo usava uma vassourinha (põe a mão no bolso)… E meu pai era um exímio desenhista. Inclusive numa fase da vida dele, meu pai morreu de… (emocionado) … eu falo isso com… Eu já falava com tristeza e hoje eu falo com tristeza mas com orgulho! O meu pai bebeu muito, morreu com 39 anos… E tinha uma época que ele não dava conta da despesa dele, entrada e saída, né? Pra pagar as despesas de bebida… (ri)… dos vários botequins que ele freqüentava… Então ele amenizava esse prejuízo desenhando ovo frito. E fazia aqueles negócios de preço, cartaz… E ele fazia umas vassourinhas, recortava, e o cara usava aquela vassourinha, tinha um troço assim que prendia no bolso, né? Então essa é uma memória que eu tenho do meu avô e tenho uma memória muito forte do meu tio – irmão da minha mãe – que já morreu com 70 anos… uma memória do meu tio nos primeiros ensaios, que eu tenha consciência, 1961, 62, numa fase efervescente do Bafo da Onça, no Catumbi. Me lembro perfeitamente disso! O bloco passava ali pela Rua do Chichorro, pela rua do cemitério, que é coladinha… Eu me lembro muito bem disso! Então o Chichorro foi um troço que me marcou no Catumbi. E engraçado como isso virou, pra mim, uma genética da cidade… Porque eu fui me encantar com a cidade, e Catumbi, pra mim, é parecido com onde estamos agora, com Lapa… É um troço vibrante a nível de cidade, né? Logo depois, não sei se a minha mãe com o negócio do meu avô, essa proximidade de sogro, de genro, meu pai… A gente voltou pra morar em Paula Matos, já agora morando com a minha avó mesmo.

EG: Você com quantos anos?

ML: Eu tinha uns 4, 5 anos… Aí agora eu começo a ratear de idade porque eu tinha uns 4 ou 5 anos… Mas me lembro que foi um negócio marcante na minha vida… Logo depois, o governo do Carlos Lacerda… O cara desapropria várias favelas… Lugares considerados perigosos… E ali foi o Morro do Esqueleto, né? Ali na zona sul, ali na Catacumba…

EG: A Praia do Pinto…

chouriço, farofa e torresmo

ML: A Praia do Pinto, não sei se a Praia do Pinto foi pra Cidade de Deus… Só sei que o Morro do Esqueleto, e ali o Paula Matos, foi tudo pra Vila Aliança e Vila Kennedy que é um sub-bairro de Bangu. E eu fui morar lá. Mas aí a vida já tomava uma outra forma… E a gente acabou se dividindo… Eu fui um pouco morar na casa do meu avô por parte de pai em Copacabana e minha mãe continuou morando na Vila Aliança. E eu fui pra Copacabana com 5 anos, comecei a minha idade escolar ali em Copacabana até 10, 11 anos de idade.

EG: Você pode dizer hoje que teu primeiro contato com música foi com teu avô?

ML: Com meu avô com certeza! Porque quando eu fui morar em Copacabana ainda havia TV Rio, no Posto 6, onde hoje é o hotel Sofitel… Na Urca tinha a TV Tupi e a TV Rio era ali. E aos domingos tinha os “Concertos para Juventude”, que é um troço que a TV Globo depois encampou mas começou ali… E eu ia sempre lá. Meu avô tinha mania de, domingo de manhã, aquela aldeia de pescadores era um rinque de patinação… Se comprava peixe ali… Não havia essa estrutura de barraquinhas como tem hoje lá, de boxes azulejados… Se comprava mesmo era ali na pedra, batia na madeira… E tem uma coisa interessante… Meu avô musical, meu avô por parte de pai, me deu essa formação musical, e meu avô e minha avó por parte de mãe – olha como é que isso é importante na vida da gente, e cada vez mais eu percebo isso! – viveram a vida inteira, e morreram, como feirantes. E tanto que eu tenho fascínio por feira… Eu acho que eu sou mais conhecido na feira do que muito feirante, porque onde eu vou eu faço amizade com feirante, já tive barraquinha de feira de uma forma diferenciada, um troço mais de brincadeira, né? A minha avó vendia galinha, galinha viva, que era uma coisa comum em feira, né? O cara chegava e dava um laço na asa da galinha, amarrava com jornal e só ficava aquela cabeça do lado de fora… Parece que ela já intuía ali que ia morrer, né?

EG: Então a gente pode afirmar que você é um sujeito que carrega com… galhardia… as heranças que você recebeu, né? Você já falou da feira, já falou da música…

ML: É…

EG: Você tá em Copacabana…

ML: Tô em Copacabana…

EG: E aí quando é que você tem o primeiro contato com o violão, que seja vivo na tua memória.

ML: Então! Aí eu volto… O primeiro contato com o violão… eu tenho a visão dele nítida! Porque aí em 69 meu pai começa já a ficar meio doente… Já não tava dando conta do recado…

EG: E você tá com 11 anos?

ML: Eu estava morando em Copacabana com meus avós… Na véspera de começar negócio de Copa do Mundo, já tá nas eliminatórias, aquele Brasil e Paraguai, 1 a zero, gol de Pelé… recorde de público no Maracanã… Ali eu já começo a… Minha mãe me pede pra voltar a morar com ela, que ela tava sentindo falta da minha presença e meu pai também. Aí eu vou morar em Bangu. É engraçado, porque, sem nenhum preconceito, são duas formações de vida totalmente diferentes! Eu morava em Copacabana, lazer de praia, jogar bola à tarde…

EG: E Copacabana efervescente essa época…

ML: Porra, caramba! Eu ai pro Cinema Roxy como eu vou pro botequim da minha rua… O Roxy era o auge das coisas! E depois eu vou morar em Bangu… Na Vila Aliança, rua ainda de terra! E eu acompanhei da terra ao pó de pedra, né? Eu saí de lá com 15 anos de idade, saí de lá no dia 8 de abril de 1973, saí de lá e ainda era pó de pedra… Eu não vi asfalto naquela rua, não peguei…

EG: 8 de abril de 73…

ML: É… foi o dia que meu pai morreu.

EG: Você tinha acabado de fazer 15 anos…

ML: Eu fiz 15 anos no dia 5 de abril e no dia 8 de abril eu… Meu pai morreu… 3 dias depois… Eu estava na casa do meu tio Irineu, que é o cara que eu te falei do Bafo da Onça, cheguei em casa, quando entrei… E eu morava na Rua da Cozinheira… Na Vila Aliança as ruas tinham esses nomes… Rua do Mestre, Rua do Pedreiro, Rua do Ladrilheiro… E eu morava na casa 9, quando a gente saltou do ônibus, eu olhei assim na rua… E uma moça: “Olha, Moacyr! Dona Irene! Aconteceu uma tragédia…” Aí eu dei uma olhada assim, meu pai era um cara muito popular lá na Vila Aliança, porque ele era presidente de um clube de futebol, “Aliança Esportiva Lembrança do Futebol do Passado”, ALFP… Olha só, gente… Isso aqui é uma outra coisa que remete a essa genética, e essa herança viva, né? O meu pai era presidente do clube e aos domingos, tinha aquele negócio de levar o time pra viajar, passear na cidade, e quando acabava, quando voltava, tinha uma cozinheira que já fazia rabada, mocotó, cozido, angu à baiana. E ali mesmo já começava a lavar a roupa, já ficava no varal… Isso aí eu tenho… Era um clubezinho daqueles… a sede era metade tijolo, metade zinco, tinha uma mesa de carteado, empurrava aquela mesa e virava uma mesona de madeira pros jogadores comerem, né? Eu acabei até fazendo um time de garotada, de dente de leite, como chamava na época, pra viajar… Então meu pai pegava aquele ônibus e a gente viajava…

EG: Mas estávamos falando do violão…

ML: Então… Quando eu cheguei lá e vi que meu pai tava morto ali… Cheguei, olhei assim, vi a minha porta, minha rua, muito cheio de gente, que meu pai era muito conhecido… Naquele dia minha mãe já saiu de casa, a gente resolveu essa parte legal, tira o corpo, leva pro Instituto Médico-Legal… E dali eu já saí e não voltei. Fiquei 10 anos sem ir lá. Era uma casa boa, mas…

EG: Você voltou pra Copa?

ML: Eu voltei pra casa de uma tia, naquele dia, no dia 8 de abril, eu voltei pra casa de uma tia, no Méier, que era a tia que era mais próxima da minha mãe. Porque meu pai, com esse negócio de morar em Bangu, e o jeito dele meio arredio com família, a gente não tinha muito contato, assim extenso, com a família toda, aqueles almoços, aquelas coisas todas… A gente ia pouco. Porque era muito longe… E de Bangu pra Copacabana, pra Niterói, tinha que levar até farnel, pô, sei lá! Era um negócio complicado… Então naquela noite eu fui pra casa de uma tia. E no dia 9 foi o enterro do meu pai, e na terça-feira dia 10 de abril, a minha m na sabia o que fazer, ela só dizia que pra Bangu não voltava: “Pra Bangu eu não volto, pra Bangu eu não volto…”. E nisso meu avô querendo que eu voltasse de novo pra Copacabana, a minha tia de Niterói, e minha mãe não queria mais nada que não fosse nós dois numa casa… Eu larguei o colégio naquele dia, o colégio de Bangu, e.. Esperando o que é que ia acontecer da nossa vida, eu não podia escolher um colégio em Copacabana e minha resolver morar em Niterói, que eu ia faltar todos os dias, né? E nesse dia, terça-feira, dia 10 de abril, meu primo chega do colégio e ia ter aula de violão com o Carlos Delmiro, irmão do Hélio Delmiro e aí eu… A minha tia diz: “Vai lá distrair, vai com teu primo pra distrair a tua cabeça…” – eu tava muito triste, pô, dois dias do meu pai morto, 24 horas dele enterrado – e a casa do Carlinhos Delmiro, na Barão de São Borja 68, no Méier, tinha uma varandinha… Essas casas quadradas que recuam no quadrado do terreno pra fazer a varanda, mas do lado continua uma salinha… E ali o Carlinhos dava aula. Eu sentei ali, fiquei do lado de fora esperando meu primo ter aula de violão. Mas quando eu cheguei, essa coisa eu me lembrei, o Carlinhos tocava uma música do Toquinho… (cantarola “O Bem Amado”)… Toquinho e Vinícius, era da novela…

EG: … O Bem Amado…

ML: O Bem Amado! Aí eu já achei aquilo, uma sonoridade… Nisso chega o Hélio Delmiro… E olhou, com a sensibilidade de um músico, que eu tava…

EG: … atento…

ML: Não! Eu tava atento mas tava muito mal, muito deprimido… E ele: “O que é que houve?”… “Meu pai morreu, blá-blá…” Nesse dia, quando acabou, ele disse: “Você tá morando aonde?”, e eu “Tô na casa da minha tia, três ruas daqui, Rua Carijós…”… e ele “Se amanhã você não tiver ainda nada pra fazer, vem pra cá, fica sentado aqui… fica aqui…”. E na hora, rapaz, meu santo, assim como contigo, meu santo bateu e eu… caramba…, que pessoa!, tô precisando disso… Fui pra casa do meu primo de noite e peguei o violão… E olhei ali, sempre aquela coisa de ser metido a inteligente, e fui olhar… Era um negócio que chamava tablatura, sei lá como é que fala, eram os números no braço do violão, mão direita, 1, 2, 3, 4, e fui… Peguei ali… Custei a dormir… Minha mãe nervosa, na casa do meu avô, resolvendo coisas, documentos… No dia seguinte eu fui lá encontrar com o Helinho. Bom… Enfim… Nós demoramos trinta dias pra decidir em que bairro que eu ia morar. Se eu ia morar em Copacabana, se eu ia pra casa de uma tia em Niterói, ou se eu ficava no Méier, pra poder escolher em que colégio eu ia estudar, né? Então eu fiquei, contado nos dedos, trinta dias, 24 horas com o violão… Não conhecia ninguém! Tava num bairro, mesmo com 15 anos de idade, eu não conhecia ninguém! Tava noutro bairro! E meu amigo foi o Hélio.

detalhe da mesa

EG: Ele já era consagrado?

ML: O Hélio Delmiro tocava com a Elis Regina! Nesse dia eu me lembro que ele tava com uma barbona, ele tinha feito, se não me falha a memória, ele tinha vindo de um show com a Elis, com a Elizeth Cardoso… Muitas pessoas! Já era um homem conceituadíssimo! E aí tem as coisas que funcionam na vida… Nisso, todo dia, ele dizia… “Olha, se você não tiver o que fazer vem pra cá amanhã!”, “Olha, eu vou ensaiar com a Elizeth Cardoso, você quer ir lá?”… Eu falo pra você do fundo do coração… Eu sabia quem era Elizeth Cardoso porque minha avó falava pra mim que ela morava no Catumbi também, e que era vizinha de uma tia dela… Mas nada da importância da Elizeth Cardoso… Eu era garoto e o Dorival Caymmi morava dois prédios depois do meu avô… E meu avô e o Dorival Caymmi se falavam quase todos os dias na banca de jornal… Aí meu avô falava comigo… “Esse aqui é o Dorival!”… Como se fosse um vizinho, nunca me explicou… Tem muita coisa que até hoje qualquer um de nós aqui, sem filosofar, só vai ter noção do que viveu… depois. Não conseguimos ficar atentos ao que está se passando, não… A gente acaba invejando as coisas, invejando momentos passados, sem perceber que nós estamos fazendo a mesma coisa aqui… Você aqui no teu bar aqui (se dirigindo ao Márcio)… Tá renovando uma história que foi de Madame Satã, que foi de Geraldo Pereira… Os caras estão aqui só que… O mundo também o outro, né? Velocidade, tempo… Mas eu comecei a ir pra casa de Vitor Assis Brasil, direto, o Helinho tocava com o Vitor e com o Luiz Eça… Mas nesse momento eu disse pra minha mãe, alguma coisa do tipo “A minha vida é musical…”… E minha mãe percebeu isso, rapaz, percebeu… de eu continuar morando no Méier… Nós alugamos um apartamento no Méier… E ali eu comecei… Não saía da casa do Hélio! Ele ia fazer ensaio com a Elis Regina e eu ia. Isso tudo na minha cabeça… Eu comecei a fazer música, a compor… E aí eu via coisas interessantes… Eu conheci o Paulo César Pinheiro nesse período… Porque o Helinho tinha acabado de fazer um êxito nacional, considerado, até hoje, ele foi produtor do disco “Claridade”, da Clara Nunes… Foi o primeiro disco de uma cantora de samba a alcançar a marca de 500 mil cópias… E logo depois ele produz a obra-prima do João Nogueira, pra mim, que é o “Vem quem Tem”, disco do João Nogueira que ele tá com a camisa do Flamengo, o rosto assim, redondo, né? E eu conheci muito o João nessa época… Porque um esboço do Clube do Samba era, acho… na José Veríssimo… Uma das ruas ali, era… (pensando)… Carolina Santos… José Veríssimo… lá em cima, uma casa azul e branca… Tem umas fotos do João muito bacanas, ele na janela, o pessoal embaixo, o Sérgio Cabral… Eu conheci aquela casa, conheci aquele terreno, conheci o Roberto Ribeiro… Mas… presta atenção! Eu nenhum momento eu imaginei que a minha vida fosse virar o que virou… Assim… O que pôde virar… Porque eu olhava pro Roberto Ribeiro e digo aqui, sinceramente… As minhas ambições musicais eram outras… Não era ser compositor, eu queria ser um instrumentista igual ao Hélio, então eu estudava 10, 12 horas por dia… escalas… Eu virei aquele cara de colégio que leva o violão pra sala de aula e não estuda, fica lá embaixo tocando violão… Na escada de um botequim qualquer… Consegui chegar à faculdade às duras penas… Já não tava nem me importando… Então nesse momento é interessante você observar como você cria sem saber os seus grupos… Então essa coisa de tocar violão, você anda com o violão na rua, e vem um cara e te olha com o violão na rua e diz “você toca?”, engraçado… Em 1976, eu tinha 18 anos…

EG: … ainda no Méier?

ML: Ainda no Méier! Eu começo a conviver muito com… No meu prédio, eu morava na Constança Barbosa… Coisas importantes pra gente refletir junto, essa rapaziada que vai ler isso aí… A Constança Barbosa, e eu falei isso com o Didu Nogueira, sobrinho do João e filho da Gisa, eu morava no quinto andar, e embaixo, na rua, ensaiava o bloco “Labareda”, que era o bloco do João Nogueira… Aquilo pra mim era um negócio! O João Nogueira vira um ídolo meu, um cara que eu dizia “meu Deus, onde está o João?”… O João bebia na Silva Rabelo, uma rua que corta a Constança Barbosa, bebia num taberna que se chamava “Dom Rodrigues”, e ele tomava uma caneca de vinho e ali tinha uma rã frita… milanesa… Abre outro parênteses! Quando eu morava na Vila Aliança, o meu pai que morreu de tanto beber, uma das coisas que ele mais gostava de comer era rã! E na Vila Aliança, naquela época, meu irmão, pô… Era mais fácil tu encontrar rã do que gente! Porque era uma loucura, era rio que não acabava mais, aqueles valões, os rios que desaguavam no Guandu, todos viravam Guandu, os afluentes do Rio Guandu! Não se fala mais no Rio Guandu! Mas na minha época de infância o Rio Guandu era mais importante que o Presidente da República! Neguinho ficava, “O Rio Guandu secou!”… Três dias sem tomar banho! “O Rio Guandu vai estourar!”… Hoje não fala mais no Rio Guandu… Então rã pra mim, bicho, eu comia como se fosse “chips”, que a garotada come… Aquela batata… Não tinha mistério nenhum! Então tinha o bloco… E nesse prédio que eu morei, tinham dois gêmeos, Afonso e Valdão. Eles viraram músicos, contrabaixo e bateria. Eu tocava violão, tinha o contrabaixo e tinha a bateria… E faltava um pianista… E eu tinha encontrado um menino… Eu tinha 16 anos, ele tinha 12, 13 anos… E todo mundo dizia: “Esse cara também é um excelente músico…”… Fernando Merlino! Nós formamos um grupo chamado “Movimento Livre”. E depois entra no grupo Fernando Pereira, baixista, que tocou com Bethânia, com muita gente. O nome “Movimento Livre” ele é dado em homenagem ao grupo “Modo Livre” que acompanhava o Ivan Lins, com o Gilson Peranzzetta e outras pessoas mais.

EG: E vocês tocavam o quê?

ML: Tocávamos Ivan Lins, Gonzaguinha… Que eram os caras que faziam a cabeça da gente na Tijuca, no Méier, João Bosco e Aldir Blanc…

EG: Você freqüentava a Rua Jaceguai?

ML: Não, não tive idade pra isso! Eu comecei a achar que era gente com 18 anos… E vale também outro parênteses… Hoje o cara com 18 anos fala cinco idiomas, na minha época com 18 anos você mal sabia falar sua própria língua! Não tinha Internet, hoje todo mundo ficou inteligente de uma hora pra outra… Eu sou do tempo em que, no meu bairro, só tinha duas pessoas inteligentes… Hoje todo mundo fala sobre tudo, tem noção de tudo, tecnologia… Não havia isso, não!

EG: Bom, aí montou-se o conjunto…

ML: Só que aí, bicho, já começam as coisas a acontecer… Formamos um grupo chamado “Rompendo o Cerco”, começamos a tocar na Aliança Francesa de Copacabana, na Aliança Francesa do Méier, na Aliança Francesa da Tijuca… Aí eu já estou em 76, 77… Em 77 eu conheço o Paulo César Feital, letrista, que fez muitas músicas conhecidas, “Saigon”, por exemplo, com o Cartier, gravada pela Beth, pelo Emílio Santiago… Tinha muitas coisas dele. Eu conheci o Paulinho por causa do Méier, por causa de Helinho Delmiro… O Paulo César Pinheiro eu conheci, quando tava contando aquela história…, porque o Hélio Delmiro tinha ficado muito famoso com a história de ser produtor do João Nogueira e da Clara… e eram dois trabalhos muito importantes do Paulo César Pinheiro! O Paulinho Pinheiro assinou, parece, acho que todas as músicas, só não assina “Albatrozes”, que é do João. Eu sei tocar, a música é brilhante, eu tenho uma emoção com isso… e com produção do Helinho! Esqueci um troço fundamental!!!! Então minha mãe fica viúva em 73, eu tinha 15, e de 75 pra 76, minha mãe casa de novo. E o segundo marido dela, é um camarada que trabalhava num banco, só que trabalhava no nordeste! E aí nós compramos as passagens, e eu ia morar no nordeste com a minha mãe… Eu, minha mãe e o marido dela… meu padrasto… né? Nome complicado esse, né? Ruim de falar e ruim de ter sentimento a palavra padrasto… Engraçado… Quando faltavam três dias pra eu ir embora, numa segunda-feira, a gente viajaria na quinta-feira, o Hélio Delmiro fala comigo… Vou lá na famosa visita à tarde de todos os dias… Na varadinha da Barão de São Borja, na casa da mãe dele, e aí ele me fala… “Rapaz, você vai sair daqui, você vai acabar com a tua vida… Tua carreira musical… Tá todo mundo vindo do nordeste pra cá e você tá indo pro nordeste…”. Eu… “Mas eu não tenho como fazer…”… Nesse dia, ficamos batendo papo, ele some, vai ao telefone, e daqui a pouco: “Vamos lá em casa…”. Aí ele… “Helena…” – Helena era mulher dele na época – “Fala com ele aí…”… E ela… “Moacyr, a gente tem um quarto vazio aqui, pode ficar aqui…”. E aí eu “Tenho que falar com a minha mãe, vou viajar daqui a três dias…”. E ele “Vamos lá falar com a sua mãe…”, minha mãe já conhecia bem o Hélio… Chegamos lá em casa e ele “Dona Irene, o Moacyr precisa ficar aqui no Rio…”, “Mas como?”, “Eu falei com a minha esposa e ele pode ficar lá em casa…”. E aí minha mãe viajou, foi um sofrimento, uma ruptura forte, porque eu sou filho único, né? Era uma vida nova pra ela, acostumada comigo… E eu fui morar na casa do Hélio. Aí é que eram mesmo 24 horas de música… Gente! Olha só! O Hélio tocava quase sempre no Chico´s Bar… Era Hélio Delmiro, Luiz Alves, às vezes, no contrabaixo, Luiz Eça de piano e as “crooner”, com todo o respeito… Eram Nana Caymmi e Leny Andrade!

EG: Daí você colou no Hélio direto, né?

ML: Pô! Nesse período, eu que sou Flamengo, ia até a jogo do Fluminense com ele! Eu virei um cambono dele… Outro dia o Wagner Tiso me lembrou… Eu era garoto, magrinho, pesava 72 quilos, já era alto e eu ficava levando pra ele o violão e a guitarra… Eu levava uma coisa ou outra pra ajudar… Era o tempo da capanga, homem que era homem tinha que usar uma capanga, ficava aquela capanga presa aqui (debaixo do braço)… (ri)… Tu pegou a capanga?

EG: De couro, né? Enorme!

ML: Enorme… Então eu virei cambono do Hélio, eu andava pra lá e pra cá, ele com um violão ou uma guitarra e uma capanga e eu segurando outro violão… Olha… eu vou dizer uma coisa pra você… Eu cheguei atrasado, mas na qualidade de cambono, eu assisti o final do “Caçador de Mim”, o solo que o Hélio Delmiro faz no final…

EG: No disco do Milton…

ML: Milton Nascimento… Eu, na qualidade de amigo dele… E depois de um ano, eu morando na casa do Hélio, já me sinto capaz de ter vôos próprios e começo a tocar em pianos-bares, como tinha o Castelinho do Arpoador, essas coisas todas, acompanhando cantoras, tal… E consigo alugar um apartamento pra mim. Foi exatamente um ano contado de eu morando na casa do Hélio, eu alugo um apartamento na Pedro de Carvalho, ainda no Méier, Pedro de Carvalho 98. E eu fui morar lá, dividindo apartamento com Fernando Merlino, um grande músico. Fernando Merlino já tocou com Chico Buarque, Simone, todo mundo… É um músico exemplar. E um dia, bicho, era um domingo, o Helinho Delmiro, grande Hélio, meu mentor musical, bate lá em casa. “Moacyr, tô precisando de uma ajuda tua… Acabei de chegar de Salvador, cheguei em casa, minha mulher já não quer mais saber de mim, eu vou fazer um show no Parque da Catacumba, eu sozinho, violão solo, e a minha cabeça tá a mim…”, e eu “Bicho, dorme aqui em casa hoje, vê como é que vai ficar, e vamos lá…”. Aí nós pegamos uma roupas dele às pressas, ele tinha que tocar… Foi um show, que as pessoas que são testemunhas disso, histórico no Parque da Catacumba, ele tocou aquele violão, eu não sei como é que ele conseguiu tocar aquilo, porque ele estava com a cabeça a mil… Naquela noite o Hélio dormiu lá em casa pra passar uma semana e ficou mais dois anos! E quando a gente percebeu que ele ia ficar mesmo, (rindo) depois de dois anos, alugamos um apartamento um pouco maior… Aí já éramos eu, ele e Clóvis, um professor.

Moacyr Luz

EG: Também no Méier?

ML: Também no Méier. Passamos da Pedro de Carvalho 98 pra Pedro de Carvalho 127. E ali nós começamos a viver essas coisas musicais… Na qualidade de amigo dele eu assisti toda a gravação do disco da Elis Regina, “Essa Mulher”.

EG: Nesse disco tem “O Bêbado e a Equilibrista”…

ML: Tem, tem! A levada é do Hélio, pô!

EG: Tem o Guinga com o Paulinho Pinheiro… “Bolero de Satã”…

ML: Tem… eu vi o Cauby chegar estressado, o Guinga nervoso, “será que vai dar certo?”, e tinha também “As Aparências Enganam”…

EG: Do Natureza…

ML: … e a música do João… que também foi lá assistir à gravação com o Paulinho Pinheiro… o Paulinho Pinheiro ia muito lá… Que era…

EG e ML (cantando juntos): “Eu hein, Rosa…”

ML: Vi essa gravação toda… Inclusive, uma pena… Existia no estúdio, uma foto – e eu não tive nenhuma intimidade, nunca, nada… – mas uma foto com a Elis Regina assim, me fazendo um carinho… Nunca mais vi essa foto… Quando a Elis viajou pra Montreux com o Hélio Delmiro, Luizão, e gravou o “Cobra Criada”, do Paulo Emílio e do João Bosco…

EG: Disco que saiu só depois dela ter morrido…

ML: Então… Eu assisti a todos os ensaios daquilo… Bom, daí minha vida começou… Em 1979 eu gravei minha primeira música, participando de festival… Organizado pelo Maestro Gaya, “Rodada Brahma de Música Brasileira”, no Hotel Nacional… Apresentação do Chico Anysio e da Arlete Salles, arranjos do Maestro Gaya com naipes completos de violinos, violas, e ali eu gravei minha primeira música num disco com a Lana Bittencourt, eu me descubro, letra e música minha. Aí acontece um outro fenômeno… Em 81 eu gravei um CD, muito simples…

EG: Um LP, né?

ML: Um compacto! Simples, duas faixas, eu e Sérgio Cruz, meu amigo, meu parceiro…

EG: O Serjão, né?

ML: Uma coisa inocente, amadora, apesar de ter arranjos do Gilson Peranzzetta, nosso amigo… O início dos anos 80 é um período de efervescência musical independente. Eu gravo umas trinta músicas, com Agenor de Oliveira, Fabíola, Flávio Sales, Solange Kafuri, eu vou esquecer nomes… Vai ser uma pena… Mas eu gravei muita coisa, muita coisa… Até 84, quando junto com o Sérgio Souto e o Jota Maranhão, aí já tô virando Grajaú, Tijuca, já começo a mudar um pouco o eixo… Eu gravei com a Elba Ramalho, primeira cantora mais conhecida a me gravar, dita mais conhecida, uma música chamada “Lembrando de Você”. É engraçado que essa é uma música que não tocou no rádio, mas foi extraída do disco dela pra ser usada em jukebox, esses troços que têm nos bares… (cantando) “Lá quando eu ouvi o canto do albatroz / eu lá sabia o que era um albatroz / o que eu mesmo queria era lembrar você / o teu cheirinho de flor que nasce do ipê…”. Essa música foi resgatada por uma cantora que tá começando a fazer sucesso, Eliana Printe, ela gravou… Grupos de forró também já gravaram essa música…

EG: É sua com quem?

ML: Eu e Sérgio Souto. Aí eu começo a fazer muita coisa com o Sérgio Souto, ele também lançou vários discos independentes, eu tenho umas dez músicas gravadas com o Sérgio Souto. Agora eu vou aproveitar e vou contar uma história, duas histórias, uma história real, da minha amizade com o Aldir. Quer dizer, todas as histórias são reais. Eu vou contar um detalhe, que eu sempre considerei desnecessário, pra não ficar muito folclórico, muita fantasia. Esses grupos, de quando eu morava no Méier, eu, Agenor, Fernando Merlino, Sérgio Souto, essa turma formou um grupo chamado “Rompendo o Cerco”. Paulo César Feital, Cartier, e aí, bicho, eu fui na casa do Aldir… Foi quando eu conhecia a presença dele física pela primeira vez…

EG: Na Muda?

ML: Na Avenida Maracanã! Eu cheguei lá e ele tava sentado com o Paulo Emílio e eu fui lá levar um release, eu entrei na sala dele, sem atrapalhar, sem querer atrapalhar, e entreguei o release a ele. Ele era amigo de Serjão, de uma época de bairro, da Afonso Pena. Nunca mais tive com o Aldir pessoalmente. Em 83, 84, eu morando no Grajaú, conheço uma cantora chamada Cristina Santos, que é irmã da Lucélia Santos, e que também gravou músicas minhas. E a Cristina Santos falou pra mim que tinha um projeto, era um negócio gigantesco, com propaganda, mídia, show, com arranjos, dança, era um negócio gigantesco! O diretor era o Maurício Tapajós e o roteirista era Aldir Blanc. Marcamos uma reunião na VS Escala com o publicitário Lula Vieira. Lá revi o Aldir. Ele lembrou bem… E nesse dia nós fomos parar na casa dele. Mas sem parar na casa dele… Só deixamos ele na porta e seguimos. Quem mora na Tijuca sabe que aquele trecho ali, Rua Garibaldi, João Alfredo, Marechal Trompowsky, Radmaker, aquelas ruas de madrugada, é tudo igual! Prédios de quatro andares, muitas copas de árvores cobrindo as luzes, então fica uma coisa meio sombria, você não consegue enxergar nada, os prédios são da mesma cor, café com leite, bege… Quando eu saio do Grajaú, minha mãe, que tinha aquela história de ter ido pro Recife, tá voltando! E ela aluga imediatamente um apartamento, por uma coincidência absurda, na Rua Garibaldi 61, 303. E tem uma hora que a minha apertou financeiramente e eu tive que sair do Grajaú e voltei pra morar na casa da minha mãe, fiquei seis meses. Quando eu chego lá pra morar eu olhei aquela região e pensei, “pô, isso aqui parece com aquele vez que eu deixei o Aldir…”. Mas não sabia mesmo que era Rua Garibaldi, podia ser qualquer rua! Eu só lembrava daquele trecho. E fui tocar no “Erva Doce” com a Cristina Santos… E um dia foi meu show! Já cantando as primeiras músicas minhas….

EG: Na Antônio Basílio…

ML: Antônio Basílio. “Erva Doce”.

EG: Foi a primeira vez que eu te assisti!

ML: Foi ali?! Então…

EG: Uma casa branca à direita…

ML: É… E quando eu entro pra tocar quem é que tá sentado na primeira fila? Aldir Blanc!

EG: O Aldir já era um monstro pra você?

ML: Por uma coincidência absurda, naquele show eu cantava duas músicas do Aldir… “Vida Noturna” e “Transversal do Tempo”… Eu acabei de tocar, ele veio falar comigo, sentamos à mesa, lembramos daquela cena… E eu ali, tremendo, né?… Naquela época, o que eu bebo hoje de cachaça eu bebia muito mais de conhaque… Uma bebida que eu tenho hoje um verdadeiro temor… Eu tenho uma distância mesmo do conhaque… E começamos a conversar, até umas seis, sete horas da manhã… Quem conhece o Aldir sabe que ele sai pouco de casa, mas quando sai, pra voltar é uma encrenca! Quem tava sentado nessa mesa, nesse dia, era o Marco Aurélio, grande amigo dele que depois foi o idealizador da gravadora ALMA… Ninguém sabe que o nome ALMA é uma… Meu advogado aqui vai explicar como é que se chama o termo gramatical… É uma fusão de AL de Aldir e MA de Marco Aurélio!

EG: Não sei!

(risos)

Pratinha e Moacyr Luz

ML: Nessa época eu dirigia. Vale outro parênteses… Eu parei de dirigir em homenagem ao Aldir, em 90, no dia em que ele bateu com o carro… “Ih, caramba, isso é um aviso! Também vou parar!”. Mas ele disse “Você tá de carro?”, “Tô de carro, quer uma carona!?”… Eu até hoje falo pras pessoas, que não é mentira: ninguém fala que mora na Rua Garibaldi. Você vai pegar um táxi e diz “Eu moro ali depois da Rua Uruguai? Conhece a Praça dos Cavalinhos? Eu moro por ali…”… Depois é que você vai explicar… Se não o cara acha que Garibaldi é Anita Garibaldi, te leva pra Copacabana, ou então te leva pra outra Ana… Não dá certo! Quando não te leva pro Uruguai! E eu doido… “O cara tá no meu carro!!!!!”. Ele e a bolsa de curvim marrom..

(risos)

ML: Vou trazer ele aqui, Márcio! Tu vai ver a figura… Aí passou da Rua Uruguai. Eu falei “Onde é que é, Aldir?”. “Pô… tô na casa da minha mãe, na Rua Garibaldi 61… Eu não sabia… Qual o número do teu prédio?”. Quando a gente entra… o mesmo prédio! Entramos na garagem, eu fumava, nós ficamos conversando até umas nove horas da manhã… E a partir dali começou uma amizade. Dois, três dias depois, no meu carro, tinha um papel de pão o Aldir escreveu: “Se você quiser eu vou estar hoje na Rua Dezenove de Fevereiro apresentando o meu disco, álbum duplo, com o Maurício Tapajós…”. Cara, aquilo ali pra mim… Eu fiquei muito nervoso, fiz uma merda danada, porque eu fiquei nervoso, fui pro bar do “Erva Doce” – primeiro pra dizer “Rapaziada, o Aldir mora no meu prédio!” – fiquei nervoso e pensei “preciso beber um troço violento”. Aí o barman de lá falou “Olha… o ideal mesmo é caipirinha de Steinhaeger, tu toma uma dessas e fica logo pronto…”… Quem conheceu o “Erva Doce” sabe do que eu tô falando… Eram uns…

EG: Uns baldes!

ML: Você lembra disso? Eram uns copos que não existiam na época, uns baldes… Só que folgado que eu sou, bicho, eu bebi quatro copos dessa caipirinha… E nada acontecia… “Pô, eu vou me encontrar com o cara daqui a pouco… eu tô muito tímido pra falar com ele…”… E o barman “Então toma uma pura, pô!”. Peguei o Steinhaeger e tomei puro. Peguei meu carro e fui pra encontrar com o Aldir. Meu irmão… quando eu tava ali no Santa Bárbara, indo pra Botafogo, meu carro rodou… Por uma sorte tinha uma menina, que virou uma grande amiga minha, que mora na Rua Uruguai, e ela percebeu… E ela pegou o carro! E me levou lá, lotado, que o Aldir é uma pessoa muito reclusa… E quando eu saí de lá, e eu não lembro nada do que eu falei com Aldir, ela me deixou em casa, e no dia seguinte eu tive a sensação de ter perdido uma amizade, no sentido profissional… Mas que nada! Ele ligou pra mim, e me convidou pra acompanhá-los no violão nos shows com o Maurício Tapajós… E nós fizemos shows na Tijuca, num teatro na Tijuca…

EG: Qual teatro?

ML: Ali na Desembargador Isidro, que era cinema, que virou teatro e virou igreja… Naquela galeria! Depois nós fizemos um show na “Estudantina”, e fizemos aqui no “Arco da Velha”, que é esse bar aqui na Lapa, na época era do Rogério, que depois se casou com a Leda Nagle. Agora eu quero falar uma coisa aqui, que é um troço delicado de falar, mas é importante: o Aldir era, já nessa época, um gênio absoluto! Consagrado… Mas quando eu o conheci, o Aldir tinha optado por ficar muito quieto… Daí vocês podem pensar “ah, foi uma maravilha, as portas já estavam abertas…”… Não! O Aldir é um cara, quem conhece ele sabe, muito avesso a usar o direito de ter o nome…

EG: Môa… Ele acabou de dar uma entrevista pra mim, e ele diz uma coisa gozadíssima… E evidentemente que se referindo ao letrista, não ao cara que precisa parecer: o compositor que não busca o anonimato…

(Moacyr ri)

EG: … é uma besta!

(Moacyr ri mais)

EG: Então isso sempre foi dele!

ML: Exato! O nosso amigo em comum, o Paulo Emílio, dizia isso: “Rapaz, como tá sendo bacana você estar fazendo música com ele, porque ele tá muito recluso…”.

EG: Você lembra qual foi a primeira que vocês fizeram?

ML: A primeira música que a gente fez eu não lembro nada! Foi “Delirius Tremens”. E eu achei…

EG: Perfeito! Auto-biográfica!

ML: … que fosse um teste que o Aldir tivesse fazendo comigo… Tinha sessenta versos! A segunda música que eu fiz com ele, foi para o musical da Cristina Santos… Um poema dele, dezessete folhas chamado “A Outra”! E eu musiquei aquilo tudo! É uma pena… Mas se a Cristina Santos não tem isso…

EG: Perdeu-se!

ML: Perdeu-se! Mas eu considero que a minha primeira música com o Aldir foi “A Tua Sombra”. Uma música que eu gravei no meu disco de estréia, de 88…

EG: Vocês compunham juntos?

ML: Só uma. “Aquário”. Que pouca gente sabe porque se chama “Aquário”… Não tem nada a ver o nome com a música… O nome original era “Ela é de Peixes e eu sou de Aquário”. Mas o nome surgiu de outra história… Nós estávamos sentados bebendo cerveja, e nessa época a cerveja da moda, o Aldir tinha algum dinheiro e eu não tinha nenhum!, era uma miniatura de Kaiser, tinha uns trevinhos de cevada rodeando a garrafa, cravejadas no vasilhame, e olhando o aquário – o Aldir tinha uma aquário na sala – “Olha lá os peixes se beijando…”. Beija um , beija outro, doidões, bebendo cerveja… E ele disse: “Ela é de Peixe, eu sou de Aquário”…

EG: A Leny Andrade gravou, né?

ML: Foi. Esse LP é gravado em 1987 e gravado em 1988. Depois a Nana Caymmi gravou. Ah, e em 1985 eu recebo um telefonema do Aldir: “Porra, a Nana Caymmi vai gravar uma música tua…”. Foi o “Retrós”. Que foi resultado da minha amizade com o Jota Maranhão…

EG: Dá uma palinha aí…

ML (cantando): “A eternidade desse amor foi me revelando / Quando a saudade e o rancor são do mesmo pano…”, ela gravou no disco “Chora Brasileira”, que é uma música da Fátima Guedes… Em 86 eu finalmente gravo minha primeira música com o Aldir, “O Mar no Maracanã”, com a Leila Pinheiro… (cantando) “Vim do botequim / Chamaram por mim…”, o disco “Olho Nu”…

EG: Uma capa branca, ela com um cabelão…

ML: Isso! Vale registrar que em 84, ainda não íntimo do Aldir, nos primeiros shows da Leila Pinheiro aqui no Rio de Janeiro, quem fazia o violão era eu…

EG: Teatro Ipanema! Eu fui!

ML: Fiz no Teatro Ipanema, fiz no Botanic…

EG: Na Pacheco Leão!

ML: Como violinista eu acompanhei pouca gente, mas foi tudo assim…

EG: Significativo!

ML: Significativo… Aí eu o Aldir começamos a fazer coisas sem parar, e acontecem coisas imprevistas… A Amelinha gravou duas músicas nossas, o Antônio Adolfo fez os arranjos…

EG: Amélia Rabelo?

ML: Não! Amelinha! Do Zé Ramalho! Aí eu comecei a conviver com a Beth Carvalho, conheci a Beth em 84, tivemos uma amizade muito estreita…

Moacyr Luz e Márcio

EG: Mas deixa eu fazer uma pergunta pra gente afunilar a conversa…

ML: Pois é…

EG: Você falou da Beth eu me lembrei de te perguntar… Você ainda não era um cara do samba, né?

ML: Essa história merece um registro. Eu não era do samba. Mas – capricha nesse “mas”…

EG: Vai em negrito!

ML: Em negrito! As minhas primeiras músicas com o Aldir eram assim… (cantando, samba) “Comprei um pacote de vela benta / Ofereci uma a Deus pra resumir / Depois despachei nas encruzilhadas / As guias de prata / Estrelas de giz / O santo era o mesmo nos dois altares / Um da igreja / O outro das águas do mar / Os dois com a força da espada e um olhar feito o meu / De quem não quer…” Não lembro mais… Nessa mesma leva a gente fez (cantando de novo) “Você bebe e joga conversa fora / Dizendo que não é feliz comigo / Pra depois sair pela porta afora / Xingando a mulher do melhor amigo”. E a gente tinha feito pro Roberto Ribeiro (cantando) “Me engana que eu gosto / Eu tô voltando / Mas pode apostar / Que você tava indo e eu já tava chegando / Me engana que eu gosto / Da canseira / Sapato apertado, sinuca de bico, pelada em ladeira”. Mas eu, rapaz, eu sentia intuitivamente, o negócio da sombra da parceria com o João Bosco, que era uma coisa fundamental, externamente pro público e internamente pra mim, pô! Eu tava fazendo música com um cara que tem uma carreira consolidada, uma parceira consolidada… Como é que eu ia chegar ali, garoto novo, bobo…

EG: E Bosco & Blanc era uma grife, né?

ML: Já que você falou isso aí, essa era uma época em que as parcerias tinham grifes… Nei Lopes & Wilson Moreira, João Bosco & Aldir Blanc, Vitor Martins & Ivan Lins… Tudo era junto… Tom & Vinicius… Grifes. E eu, muito assustado, aliado a esse silêncio todo que o Aldir optou por ter nessa parte que ele ficou afastado do João… Mas a gente fez muitas canções. Eu gravei com a Nana, com a Leny, até 1989… Quando a gente fez “Coração do Agreste”, que a Fafá de Belém gravou pra novela “Tieta”.

EG: Foi teu primeiro sucesso?

ML: Não sei se tem segundo sucesso, não…

(todo mundo ri)

EG: Que beleza, a necessária modéstia do entrevistado…

ML: Mas foi uma música que, pô, até hoje… Eu uma vez fui fazer um show, pelo Projeto Pixinguinha, em Tubarão… “Pô, como é que vai ser?”. Apelei pro “Coração do Agreste”, tinham mais de mil pessoas, em praça pública, parei de cantar, fiquei só tocando, e o povo todo cantando. Em Ribeirão Preto também. Essa música abriu uma porta pra mim, pro Aldir, pra parceira, pra sedimentar a parceria, profissionalmente, né? Tanto que logo depois eu gravei o “Mico Preto” com o Gilberto Gil, e aí começou… De novela foram quase quinze músicas! Muita coisa…

EG: Mas fala da tua história com o samba…

ML: Bom, aconteceu uma coisa importante na minha carreira. Eu sou agregador, não falo com isso com vaidade, falo naturalmente… Eu brinco, por exemplo, o Márcio não sabe o problema que ele vai arrumar se eu começar a vir pra cá todo domingo! Daqui a um mês… Cem pessoas no mínimo!

EG: Cem?

ML: Eu por exemplo sempre fui de fazer reuniões…

EG: Isso que eu ia perguntar… Lá na tua casa… Quem ia?

ML: Guinga, Fátima Guedes, Leila Pinheiro, Selma Reis, Oscar Castro Neves, Paulinho Pinheiro, Sérgio Natureza, Chico César, Lenine, Dudu Falcão… iam lá pra tocar… Só música nova. E um provocava o outro musicalmente… De tal forma que neguinho ia embora… “Ah, meu Deus… aquela música acabou comigo, semana que vem vou dar a forra, vou partir pra dentro…” Era de 15 em 15 dias…

EG: O Aldir descia?

ML: Aldir descia sempre! O primeiro que chegava lá era o Betinho. Ele era o primeiro a chegar, ele inclusive chegava uma hora antes do combinado, eu ficava conversando com ele, ajudei ele a organizar um acervo musical naquele projeto dele, no IBASE. E um dia a Beth Carvalho tava lá, muito amiga minha, ia a Leny Andrade, ia a Cláudia… A Beth era tão presente nessas reuniões lá em casa que o disco dela, pouco vendido, mas muito bonito, foi quase todo feito com as canções de lá… Um dia a Beth me chamou num canto, a reunião tinha sido numa terça-feira, pra dizer que adorava o meu samba, que já se chamava “Saudade da Guanabara”…

EG: Era seu e seu, né?

ML: Era, meu e meu. Eu cantava esse samba no bar da Ize, o “Caras & Bocas”…

EG: Então! Eu ia te perguntar isso… Era um lugar que eu ia… Em que ano era isso?

ML: 85! Antes das reuniões…

EG: E lá iam também o Paulo Emílio, o Aldir…

ML: Paulinho da Viola chegou a ir lá, e o Aldir fazia uma roda de samba fixa lá… Com o Jayminho, com o Galotti, essa turma toda…

EG: Eu quero falar desse troço que é, me parece, fundamental na tua personalidade, que é a congregação…

ML: É…

EG: O tempo inteiro, se você pegar a tua história, desde que eu a conheço, é sempre isso, reunião de gente, de músicos…

ML: Pois é…

EG: Então, tem as reuniões na tua casa, tem o “Caras & Bocas”, tem a feira, tem o “Samba do Trabalhador”… Outro dia, deixa eu dar uma puxada de saco, eu mesmo falei com o Szegeri… Você tem o samba pro Pixinguinha, onde ele é chamado de “embaixador dessa cidade”… E hoje é você, né?

ML: Então… se for pra eu falar uma coisa carinhosa, sem ficar preocupado com vaidade, a gente consegui inventar o Bar da Dona Maria que não existia…

EG: O Aldir falou isso na entrevista! O Bar da Dona Maria não tinha nem queijo…

ML: Não tinha nada! A gente inventou o bloco “Nem Muda nem Sai de Cima”, que mudou a filosofia da Tijuca. E digo isso porque eu sou testemunha da Tijuca entregue às baratas no Carnaval… Porque tijucano vai pra Região dos Lagos!

(risos)

ML: E o tijucano que gostava de samba, de carnaval, era obrigado a migrar pra outros blocos, tipo Simpatia, Barbas, não havia a menor possibilidade de ficar… Nos primeiros anos do “Nem Muda nem Sai de Cima” ele é muito vazio de gente. Mas detonou o troço. E eu, modestamente, ao lado das outras pessoas que pensaram o bloco, criei a necessidade de o enredo falasse da Tijuca. Ou de um tijucano. Não podia ser outro enredo, né? E isso, de uma certa maneira, começou a criar um sentimento diferente no bairro. O cara começou a achar bacana falar do bairro, do Rio Maracanã, do Paulo Emílio, do Vavá…

EG: E você fez isso com a consciência de querer transformar isso tudo?

ML: Claro! Eu dizia que a gente já estava muito bem resolvido de enredos políticos, com o Clube do Samba, Bloco de Segunda, Barbas, todos só falavam de política, de sátira política…

EG: Mas eu tô falando de mais… Desde que você começou a armar as reuniões, as rodas no “Caras & Bocas”, você tinha idéia de estar fazendo história na música?

ML: Não, não…

EG: Vamos voltar pra história da Beth. Você lembra da primeira versão?

ML: Só isso… (cantando) “Eu sei / Que o silêncio da madrugada / Faz a gente chorar por nada / Faz um homem sofrer de amor / Chorei / Com saudade da Guanabara / Meia-noite era noite clara / Meio-dia era o meu cantor”…

EG: Aí a Beth chega…

ML: A Beth diz “Moacyr, esse samba é ótimo, mas a letra… eu não entendo nada!” Foi numa terça-feira, que era o dia das reuniões… “Tem tanta gente aí, o Aldir, o Paulinho…”. E eu, nessa fidelidade de grife, não aceitava fazer nada que não fosse exclusivamente com o Aldir. Mas não tive tempo de mostrar pro Aldir. Aí na sexta-feira seguinte o Paulinho foi lá em casa, meu amigo desde 1973, Paulinho Pinheiro, parceiro meu de 10, 15 músicas, e eu tinha entregue a ele, na terça-feira, durante a reunião, que era o “Sarava, Brasil”, pra Amélia Rabelo, que virou música título do CD no Japão… (imitando o Paulinho Pinheiro, voz rouca) “Aí, Moacyr, tô com a letra pra te entregar, vou passar aí”. Aí ele foi lá pra casa, na Tijuca, e a gente cantou… (cantando) “O meu coração bateu / Quando o samba gritou: Brasil! / Aqui dentro o rei sou eu…”. Aí, cerveja vai, cerveja vem, ainda a cerveja de terça-feira, liguei pro Aldir… “Tô com o Paulinho aqui embaixo… Quer descer?”, “Vou descer”… E isso não costuma acontecer! Eu teria que ter ligado pra ele antes… Aí ele desceu, ficamos conversando, durante uma hora, outras coisas… E aí eu pensei… “Caralho! A música da Beth Carvalho! Como é que vou fazer com o Paulinho aqui ouvindo?”… Aí eu contei a história. A minha amiga Beth Carvalho sabe de um detalhe dessa história que eu vou deixar em suspense… (ri) Mostrei o samba. A cerveja acabou, eu ia ligar pro Bar da Dona Maria pra pedir mais cerveja, o Aldir subiu dizendo “Não, eu tenho cerveja lá em casa…”… Ele demorou uma meia-hora a ponto de eu achar que ele tinha fugido… E ele desceu – e eu repito essa história sempre – e eu tinha uma cortina velha na janela… E ele… “Pode jogar essa cortina velha fora que a gente fez um sucesso! Aí, Paulinho, a primeira parte tá feita!”. E ele fez a primeira parte…

EG: O Paulinho fez a segunda na hora?

ML: Não, rapaz… O Aldir cantou aquilo, o Paulinho ficou atordoado… Ficou atordoado e meia-hora depois falou “vou embora… vou embora que a minha cabeça tá…”… Aí ele foi pra casa e duas horas depois ele me ligou “Olha, a minha parte tá aí”… o Aldir lá em casa ainda… Quando a gente ouviu, aí, meu irmão… Ligamos pra Beth nove horas da noite, já doidaço, “Beth, escuta a música que você reclamou…”, e a Beth escutou “vocês estão aí, eu vou pra aí agora, imediatamente!”

(Edu gargalha)

ML: Bem a cara dela, né? Aí ela chegou lá em casa dez horas da noite, ela gravou, e três dias depois o Renatinho Corrêa me ligou “vem aqui na Barra!”… E o violão da gravação é meu! E virou o nome do disco! Eu tava com aquele chapéu de Panamá, que eu usava de brincadeira em casa, tirei o chapéu pra ela e falei “obrigado, eu tiro o chapéu pra você”… E ela ficou com o chapéu e fez a foto. Da capa.

chouriço

EG: Isso é um marco pra você, então?

ML: Essa música tem um compromisso meu com a cidade em definitivo! Tanto que depois eu pego e a gente tenta fazer um outro samba, que eu adoro, mas que não aconteceu… “Centro do Coração”… De novo eu, Aldir e Ivan Martins…

EG: Que tá no “Vitória da Ilusão”, né? Foi gravado quando?

ML: 94.

EG: E lançado no Carlos Gomes…

ML: Em 95! Com quarteto de cordas, Cristina Buarque, as pastoras da Portela, menos a Surica, que tava operada…

EG: E nesse disco a Beth grava…

ML: “Vitória da Ilusão”.

EG: Esse disco é quase todo seu e dele, né?

ML: Todo! Todo! O negócio é o seguinte, cara… Eu fiz mais música com o Aldir antes de gravar… Depois que a gente começou a gravar… Eu outro dia conversei isso com o Guinga… Se eu não fizer mais música nenhuma com o Aldir… Eu tô satisfeito da vida…

EG: São quantas?

ML: Gravadas, oitenta e poucas, e mais umas trinta por aí… Que quando a gente fazia música pra novela a gente fazia muita coisa, muita coisa que não foi aproveitada… A gente tinha um projeto, uma brincadeira, brincando com outras cidades… “Paris: de Santos Dumont aos Travestis”, “Brasil e Holanda”, “Acapulco”, “Rio-Tóquio”…

EG: Era um lance da VARIG, né?

ML: É, e a gente nunca mais mexeu com isso… Aí começamos a gravar, “Mico Preto” com Gilberto Gil, “Dona Invocada” com Mestre Marçal, e depois veio Bethânia, “Medalha de São Jorge” e “Rainha Negra”, Nana Caymmi gravou “A Cereja e o Vermute”, e aí começamos a gravar basta coisa com Selma Reis, Cláudia, Fátima Guedes gravou umas seis…

EG: E quando é que você começa a parar com essa paranóia…

(Moacyr ri)

EG: … de ter só o Aldir como parceiro e fazer canções com outros parceiros? Me ajuda a falar os nomes aí…

ML: Wilson das Neves, Nei Lopes, Martinho da Vila, Luiz Carlos da Vila eu tenho umas dez…

EG: Tá compondo com o Sereno agora…

ML: Com o Sereno eu fiz quatro músicas, com o Hermínio Bello de Carvalho eu tenho onze, que é um projeto meu… Tem uma hora que você vai envelhecendo, né? E eu comecei a ver que uma amizade não era só parceria musical. Sou amigo do Aldir hoje… O meu trabalho com o Aldir tem uma importância musical, modestamente falando, na história da música brasileira, porque eu consegui, com ele, ter um som próprio…

EG: Uma identidade! Deixa eu te falar uma coisa… Entrevistando o Aldir, eu fiz uma pergunta a ele, e depois eu fiquei me sentindo uma besta… Eu falei mais ou menos isso… “Aldir, com o Guinga você tem uma faceta, um viés, o delirante, com o Moacyr tem o troço do Rio presente de forma violenta… Isso você faz propositalmente?”, e só quando ele respondeu eu percebi a burrice da pergunta… Ele disse que fala aquilo que os parceiros querem falar! Então se a tua parceria com o Aldir é um troço violentamente carioca é porque isso tá dentro de você! O Aldir, e eis aí um dos grandes talentos dele, vai e define aquilo que vai por dentro do coração do parceiro!

ML: Escuta! A gente quando fez o samba da Praça Mauá, eu tinha chegado em casa louco com aquilo lá, da Praça… E falei “Aldir, eu fiz esse samba sobre a Praça Mauá”… E ele… “Mas como é o negócio lá, que eu ainda não fui?”… E eu… “Olha, é o seguinte… Tem a Sacadura Cabral, tem a praça, tem a Prainha, tem o Morro da Conceição…” e ele fez a letra como se ele tivesse andado lá!

EG: Então… Às vezes você funciona como os olhos dele andando pela cidade…

ML: É… E a gente fez isso…

EG: E esse processo é mais ou menos assim com todos os seus parceiros?

ML: Com o Martinho eu fiz “Vila Isabel”…

EG: Conta a história desse samba aí…

ML: O Martinho estava às vésperas de começar as obras da quadra da Vila, né? E o Martinho me convidou pra ir lá, ele ia fazer um show pra arrecadar fundos pra Vila, e ele fez um show todo no sentimento da Vila Isabel, de Vila Isabel… Você tava lá, Eduardo, e eu fiquei chapado ouvindo aquele troço… Com a sensação de que o público ouvia aquilo tudo com a mão no peito… E eu… “Meu Deus…”. Acabou o show e eu fui falar com o Martinho, e ele “Sabe, a gente tem que cantar músicas de Vila Isabel de qualquer maneira, porque Mangueira e Portela todo mundo tá cantando por aí!”. Fiquei com aquilo na cabeça, cheguei uma e meia da manhã em casa, com aquele som, e não conseguia dormir… Mas como eu não sei compor nada à noite, que eu acho que à noite nada presta… Aliás, à noite eu acho que tudo presta, e só de manhã que eu vejo que aquilo não era nada do que eu imaginava… Aí às seis horas da manhã eu fiz o “Vila Isabel”, esperei e liguei pro Martinho… “Mas Moacyr, eu vou pra França na quinta-feira, tô todo ocupado…” e eu “Bicho, eu preciso te mostrar isso de qualquer maneira…”. Foi isso… Foi assim… E voltando à coisa de agregar, eu acho que fui levando minha maneira de ser pra São Paulo, acho que interferi um pouco ali… E como eu sou esse camarada, o branco do samba, no sentido de que sou o branco que estudou violão, sabe? Eu comecei a fazer outro tipo de roda de samba, que não era só em periferia de São Paulo, a gente começou a fazer um samba viável pra outros lugares, Pinheiros, Belavista, Vila Madalena, até então impensáveis… Os primeiros sambas que eu fiz lá, exclusivamente samba… Em 99 a gente fez o primeiro “Esquina Carioca” que fui eu, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, João Nogueira, Luiz Carlos da Vila e Walter Alfaiate, e fica como dado histórico!, foi a última gravação real do João Nogueira… Depois fizemos o segundo “Esquina Carioca” que era eu, Guinga, Zé Renato e Jards Macalé, que é um troço que eu também pensei no sentido de agregar… Fizemos duas semanas lotadas no “Mistura Fina”, oitenta apresentações no Brasil… Fizemos lá em São Paulo, nós quatro mais Elton Medeiros, Nei Lopes – atenção! – Paulo Moura e Luiz Melodia, e agora, no ano retrasado, o terceiro “Esquina Carioca”, eu, Aldir Blanc, Surica, Monarco e Martinho da Vila.

EG: Môa…

ML: Disputei um samba-enredo na Mangueira, quase que uma esquizofrenia…

EG: Na Vila também…

ML: Disputei um samba na Vila…

EG: Você tava falando de São Paulo. Lá, eu já ouvi isso, você é tido como um grande embaixador da cidade do Rio, do samba do Rio…

ML: É… Tem isso…

EG: Eu me lembro de ter acompanhado, não vou dizer desde o início, toda a sua carreira. Altos e baixos. Alguma hora te deu a sensação de que você ia chegar aonde você chegou ou hoje? Ou, mais, te deu, diante de algumas coisas que aconteceram, a sensação de não ia acontecer nada com a tua carreira?

ML: Eduardo… vou falar uma coisa pra você… Tô diante de amigos… Eu, rapaz, não tenho noção absolutamente de nada! Eu ando às vezes na rua e uma cara vem, me cumprimenta… E eu penso… “Mas de onde esse cara me conhece? Que perda de tempo que ele tá tendo comigo…”. Eu não tenho isso… Neguinho diz “Pô, você revolucionou o negócio lá no Renascença…”…

EG: Mas é um fato, né?

ML: Mas os caras chegaram ao absurdo de… Fizeram um desenho meu, na parede, enorme!

EG: Mas é mais que justo! O que eu quero dizer é isso! Lá vem de novo a história da necessária modéstia…

detalhe do buteco Beco do Rato

ML: Não. Eu acho que se eu me ocupar de pensar nisso, eu vou deixar de trabalhar. Por exemplo… Hoje é domingo, dia 24 de setembro, eu terminei meu quarto samba com o Sereno. Fiz onze músicas com o Hermínio. Tô louco pra terminar as vinte que eu me prometi intimamente pra fazer um disco com o Hermínio. Tô no quarta com o Sereno, louco pra chegar a doze e fazer um disco! Eu preciso trabalhar, entendeu? Eu liguei aqui, quando eu cheguei, pro meu companheiro de trinta anos, que foi o primeiro cara que me pagou um dinheiro pra tocar na vida, que foi o Paulão. Eu gravei uma faixa no disco do Mário Lago, na terça-feira, saí de lá tão feliz de ver o Paulão me produzindo… Eu preciso fazer um disco em que o Paulão esteja comigo, o que me faz muito bem… Ele fez o meu disco “Sambas da Cidade”, gente… Aquele disco tem uma aula de produção! Ele conseguiu botar batucada no meu samba de uma forma…

EG: Vou fazer pra você uma pergunta que eu fiz pro Aldir, e que é uma pergunta que o Otto Lara Resende, entrevistando o Nelson Rodrigues, fez. Se você tivesse que falar um troço que pudesse te definir, a tua última frase…

ML: Olha só, Eduardo, eu vou ter que abrir outro parênteses… Eu outro dia eu tava lendo um texto que você escreveu sobre mim, e você conhece quase todas as músicas do meu projeto “A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro”…

EG: Todas! Todas! Você me deu uma fita cassete há mais de dez anos!

ML: Então pronto! Eu comecei a fazer aquelas músicas em 94 e consegui lançar o disco em 2004. Nunca desisti. Nunca quis gravar nenhuma música dessas em disco pessoal meu porque eu tinha certeza de que um dia eu ia conseguir transformar aquilo num projeto! Bom, pra fechar… Eu gosto muito do Baiano, um amigo meu, um grande frasista, e eu sei que ele vem falando essa frase por aí, mas essa frase é minha! Minha! Na lápide do Moacyr Luz vai estar lá na pedra: “Moacyr Luz: – Fiz por merecer!”

(todo mundo ri)

ML: Ele diz que é dele! Mas a frase é minha!

EG: Pra fechar de verdade… Conta pra ficar registrada a história… que você, por ser agregador, e tal, conhece uma porrada de personagens…

ML: É…

EG: Conta a história, toda, do Célio, saudoso Célio, lá do Bar da Dona Maria…

ML: Eu conhecia o Bar da Dona Maria… Um dos filhos dela, é a Adelaide. Eu conheci o primeiro marido dela, o Jader. Pra vocês terem uma noção do que é que é essa coisa de bairro, o Jader era meu fiador. Às vésperas de eu entregar o apartamento de cima, quando eu comprei o apartamento de baixo, ele morreu. Então ela casa com um sujeito, Célio, que também morreu. Mas o Célio era um cara… Eu já manjava o Célio… O “Caras & Bocas” era um bar que tinha um pé-direito muito alto, e ele queria montar um sobrado, um jirau, e ele queria colocar umas máquinas, que ele era amigo do Castor… e eu… “ih, rapaz”… Mas, enfim, ele casou com a Adelaide. E eu sempre com amigos importantes lá no Bar da Dona Maria, virou um escritório meu e do Aldir na época. Um dia eu marquei com o Paulo César Pinheiro lá no bar… E ele muito discreto lá no balcão, servindo as bebidas, eu levantei pra me despedir do Paulinho, fui até o carro ajudar a fechar a porta, aquele gesto de extrema generosidade e respeito pelo poeta… “Até logo”… Aquele adeus de sítio… Aí o Célio… (imitando) (todo mundo ri)… “Paulo César Pinheiro, né? Foi marido da Clara, né?”… E eu… “É…” E ele… “Eu fui amante da Clara!” (gargalhada geral)… Daí eu “Amante da Clara?”, e ele “É… eu e Clara morávamos na Viveiros de Castro… Eu, ela, Chico Buarque e Marieta Severo, Chico bebia muito… Ela tava começando a carreira, cantava boleros…”, e eu fazendo aquele ar de pastiche “ Ah, sim, sim…”. E ele “Eu comprei uns móveis pra ela de presente, aqueles pés de palito… sofazinho, aquele abajur que fazia um cone…” e eu “Sim, sim, Célio…”. Bom, vida que segue… Um dia eu tava encontrando com ele, o Vavá tinha ida no bar, e ele disse que lembrava do Vavá, o Vavá no Vasco… Uma quantidade absurda de histórias… Aí ele diz… “Inclusive o Zagalo era meu reserva, né? No América! O Zagalo não conseguia jogar de ponta esquerda, porque eu era o ponta esquerda, o Zagalo então deu de jogar recuado… Graças a mim ele começou a jogar daquele jeito… E o Didi?”, aí eu, já assustado, “O Didi do Botafogo?” e ele “Ensinei tudo a ele…”. E ele me contou histórias impublicáveis, e depois eu vi que era tudo verdade! Um dia eu tô conversando com o Aldir, de tarde, que meu horário de beber é de tarde, vocês vão olhar minha vida… Eu tô inventando de beber domingo aqui às dez e meia da manhã, é tudo assim… Aí eu pergunto “Aldir, tua primeira música gravada, qual é, hein?” e ele “Rapaz… foi a Clara Nunes, cantava bolero… E ela morava num quitinete, na Viveiros de Castro, inclusive me chamou a atenção os móveis, móveis palito…” e eu “Puta que pariu!”… Foi assim com todas as histórias do cara!

EG: Valeu, Moacyr! Encerremos!

ML: Não, não! Tem o “PS”!!!!!

EG: Manda ver!

ML: Meu amigo Eduardo… é que eu tô pensando no “PS”… O que vem depois da carta! A gente falou pouco do “Samba do Trabalhador”… Com o “Samba do Trabalhador” eu fiz um CD, fiz um DVD, conseguimos pensar numa segunda-feira pra uma cidade onde as notícias só falam de violência, gravei com tevês da Austrália, do Japão, da Itália, BBC de Londres, várias capas de jornal, pra provar que a cidade não é só a violência…

EG: Posso aproveitar que você tá no “PS”?

ML: Lógico…

EG: Pra bater num tema que tem tudo a ver com o “Buteco do Edu”… Eu tenho batido violentamente num ponto, e eu até recentemente publiquei uma entrevista tua falando sobre os butecos com filiais… O botequim é a mais arraigada tradição do carioca…

ML: Eu preciso falar sobre isso! Porque eu li a tua matéria e eu falei “Pô… Esse Eduardo é foda, não dá pra brincar com ele”… Porque eu nunca acreditei, e continuo mantendo o que você escreveu ali, eu não acredito em filiais! Sou muito amigo do Antônio, dono do Belmonte… E o Antônio tem uma característica, no mínimo, que me aproxima mais dele, quer dizer, que faz eu sempre respeitá-lo… Ele mantém uns troços assim nos bares deles, um jiló cozido… Que é pelo menos um arremedo de botequim… Mas, por mais que eu tenha brigado pela bandeira – e foi uma coisa que eu aprendi muito com o Aldir! – a gente tem sempre que estar próximo dos amigos, que constroem alguma coisa. Eu hoje mantenho a minha frase: eu não acredito em filiais! Em São Paulo sou amigo de pessoas que têm vários bares com nomes e posturas diferentes. Nós estávamos conversando durante a entrevista, quando me ligou uma amiga de São Paulo perguntando sobre um cozido no domingo. E eu falei que infelizmente não tinha o que sugerir porque eu não freqüento restaurante domingo, eu freqüento botequim! E botequim não tem cozido! Então eu acho que a gente tem que começar a dissociar várias coisas… Botequim é isso que a gente tá vivendo aqui… A descarga não tá funcionando, o banheiro entope, o copo é americano mas tem sempre um quebradinho na ponta, o garfo é amassado, e isso eu aprendi com o Jaguar… Se você quiser ir pra um outro tipo de botequim você não quer ir pro botequim, você quer ir pra uma CTI, onde tudo é limpo, arejado, azulejo escovado, higienizado… O botequim deu uma popularizada porque mulher resolveu beber igual a homem! Eu acho maravilhoso. Mas quando mulher quer beber igual a homem isso implica numa série de critérios, de regulamentos… Homem mija no poste, a mulher não pode mijar no poste… Então teve que melhorar o banheiro, o Bracarense fez reforma, outros lugares fizeram reforma… Antigamente a mulher quando ia ao banheiro ela falava baixinho com o português, e o português apresentava uma chave onde o chaveiro era um pedaço de tronco, um cabo de vassoura pintado de prateado, pra pessoa ir pro banheiro totalmente desconcertada! Hoje mudou isso, né? Mas eu queria falar do “Samba do Trabalhador”, da feira que eu fiz na Rua Garibaldi, onde havia um encontro de pessoas através da comida, e por lá passaram Hermínio, Guinga, Macalé, meu mestre Lan, cara, uma quantidade de pessoas impressionante…

EG: Então… Me responde um troço que eu te perguntei e você não respondeu… Você quando planejou, quando planejava tudo isso, desde as reuniões na tua casa, todas essas iniciativas, não tinha a intenção efetiva de criar uma história pra cidade?

ML: Olha só… Chegou uma certa hora, e isso já no apagar das luzes… Eu tô com 48, então é muito literal isso que eu vou te dizer… Depois dos 45, na prorrogação, é que eu pensei que a cidade precisava ter esse tipo de auto-estima. E quando eu falo isso, Eduardo, é porque as minhas viagens elas são divididas… Mas na regularidade das minhas viagens, eu ia pra uma cidade longe do Rio de Janeiro e as pessoas perguntavam por Copacabana, pelo Maracanã, mas recentemente, as pessoas perguntam sobre violência, assalto… Eu acho que isso não é possível, bicho! Eu, numa cidade como o Rio de Janeiro, que tinha orgulho de chegar como carioca, eu tava virando um terrorista do meu país!

EG: Valeu, Moacyr! Agora acabamos mesmo!

Até.

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19 Comentários

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19 Respostas para “ENTREVISTA – MOACYR LUZ

  1. >Eduardo, Sensacional!!! Você conseguiu arrancar do Môa, detalhes que poucos conhecem, totalmente diferente de nossa entrevista, e mais uma vez pudemos perceber que além de talentoso, genial e super símpático, o cara é modesto, como poucos com menos sucesso e história do que ele. Acertou em cheio! Parabéns! É de arrepiar…

  2. >A melhor entrevista que já fizeram com o Moacyr. Tá tudo ali. E que dupla vocês formam! Quando eu achei que o negócio do buteco x filial ia passar batido, por culpa da beberagem, vem o desfecho perfeito do bate-papo. Nada excede ou exclui. Eis uma conversa da qual eu gostaria de ter participado. Edu, meu querido, cada vez que leio teu blog eu tenho certeza de que o Brasil tem jeito. Um putabraço, malandro!

  3. >Fala malandro!Você sempre manda essa pra mim. E eu gosto.Olha, não lí tudo não, vou voltar depois mas queria fazer um comentário.Da próxima vez que for neste bar diga ao dono que talher de plástico jamais, fala no pé do ouvido…Essa instituição carioca não merece isso! Além de ser eclogicamente incorreto.Que tal um texto sobre código de condutas para estes?ps: faz um comentário no textinho lá do meu, talvez uma adesão.abraço!

  4. >Malandro, a única coisa que me deixa puto é a urna eletrônica. Tenho saudades da velha cédula eleitoral.Escreveria meus votos no domingo, com uma retumbante bic ponta porosa: Moacyr Luz e Eduardo Goldenberg. As flechas estão sendo tiradas. Beijo

  5. >Grande Simas,Observação definitiva. Flechas tiradas, viva São Sebastião do Rio de Janeiro.Na minha opinião, o emocionante depoimento, muito mais que uma entrevista, representa a mais valorosa declaração de amor que uma dupla como Capitão-do-mato e Moacyr podem desejar ao Rio que queremos resgatar.Saravá!

  6. >Serginho Corrêa: obrigado pelo elogio, mas, se você perceber, eu pouco fiz, ou não fiz quase nada mesmo, pra arrancar detalhes do Moacyr.Brunão: você já está na categoria dos mais-que-suspeitos! Mas ficou boa mesmo, não? E sabe do que mais gostei? Do trilho biográfico do malandro que explica, muito, do que ele é hoje.Luciano: se você for ao Beco do Rato você vai perceber que o troço é tão bom, tão carioca, que o Márcio é tão boa-praça, que esse detalhe nem chega a ser percebido. Não atrapalha em rigorosamente nada!Simas: você também é tirador de flecha, mano. E sabe disso! Já eu, queria a cédula pra cravar lá o nome do Velho Caudilho!Fraga: saravá!

  7. >Clap, clap, clap. Não tire da vista a idéia da coletânea…

  8. >Afastamento involuntário?!? Depois do papelão que você fez no Festival da Globo o Moacyr não deveria nunca mais falar com você.

  9. >Capitão-do-mato,Apenas um adendo, no que toca à questão do afastamento involuntário, para rechaçar opiniões que beiram as raias da imbecilidade (ou adentram-na, talvez).Na sexta-feira que precedeu a antológica jornada da Rua do Ouvidor, passei horas conversando com o Moacyr e, como não poderia deixar de ser, seu nome foi lembrado, diga-se, com extremo carinho.Não por outro motivo, fomos brindados, dada a rara sensibilidade de vocês, com esse emocionante e emocionado depoimento.Ouvir falar de Festival da Globo e de “papelão” imediatamente nos remete ao “j” – será que o homúnculo adotou nova alcunha para frequentar o buteco?Por fim, ainda que se admitisse qualquer curto-circuito no passado, a generosidade de vocês dois tratou de pavimentar um capítulo histórico para a retirada das flechas (ave, Simas!).Saravá!

  10. >Fraga, querido: embora sua mais nova intervenção, como de costume, dê ainda mais calor ao bate-boca no balcão, troço fundamental para o bom funcionamento de um buteco, como este virtual pretende ser, não creio, mesmo, que esse sujeito, a quem não conheço, que mal se identifica, mereça nada que não o desprezo que os bons malandros dirigem aos otários que entram no ambiente, para estes últimos, hostil.Veja só você.Depois do Fausto, depois do Aldir, vem o Moacyr ao Buteco, e há – como se pode ver – esse derramamento de memórias, de histórias, esse desenho quase que autobiográfico, que, juntos, no último domingo, construímos.E daí vem um “j” – sempre eles! – destilar veneno incapaz de envenenar, uma inveja quase que infantil, uma tentativa estúpida de dirigismo emocional, batendo com o pezinho no chão e gritando se eu fosse ele, nunca mais falaria com você.Ó. Tsc. Ouviu daí?Nossa história pessoal, minha e do Moacyr, minha e sua, minha e do Simas, minha e do Szegeri, minha e do Brunão, enfim, a história desse nosso exército – histórias construídas, algumas, há mais de quinze anos, outras há coisa de quinze semanas, o que só vem provar que o tempo é o de menos – não comporta esses sentimentos pequenos, menores, podres mesmo, que fedem e que fodem – quase, somos maiores que isso – com a nossa paciência.Saravá, mano!E como diria o Simas, grande Simas: não passarão!

  11. >Edu, quem não tem caráter para assinar o próprio sob a opinião, não merece crédito.

  12. >Edu que pancadão de entrevista, cara! Apesar de enorme não está nada cansativa. Moacyr Luz deu um show de bola e você de humildade, só tocando de leve pra ele. Muito legal!

  13. >Que beleza de entrevista!!!Fui testemunha ocular dos PS’s, e depois um dos protagonistas(tocando) de videos que virão em breve…Que beleza de tarde…AbraçosTiago Prata

  14. >Posso sugerir a próxima entrevista? Paulo César Pinheiro. Dá?

  15. >MM: não acho que dei crédito ao sujeito. Mesmo. Um covarde, só isso.Roberto Romualdo: obrigado, você sempre aqui na área.Pratinha: e tu acha que eu não notei teus dois ouvidos dentro dos nossos copos de cerveja? Nem você sabia que teu pescoço esticava tanto, sabia?Brunão: deixa quieto, malandro! Deixa quieto que vem novidade por aí!

  16. >Eduardo,muito prazer.Esse teu ‘buteco’ virtual é bem apropriado pra minha boemia de ab(e)st(a)inências…embora não ‘me vista de filó e nem afrouxe o fiofó’…oportunidade de estar entre os ‘bambas’ e ‘bacanudos’ sem ter de comprometer meu ‘samadhi’…obrigado pelas necessárias entrevistas, por tua competência e esse acervo magnífico…obrigado por me fazer sentir brasileiro…mais tarde,vou ler a entrevista com o Aldir…amplexosonoros….namaste

  17. >oi, edu, nao pude deixar de comentar, que ao googlar “vidada minha vida” achei o caminho do seu blog. Estive esta semana com o Moa e ele me deu a Vida da minha vida pra cantar. Estou feliz da vida, emocionada, a música é um arraso. nao paro de ouvi-la. Apareça um dia desses num show pra ouvir essa belezura! bjs

  18. >Andréa: show? Quando? Onde? Fala que eu apareço. E seja bem chegada ao balcão!

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