Arquivo do mês: junho 2011

O TIME DO CHICO

Quem me lê sabe o quanto gosto, e o quanto o freqüento, do portentoso Bar do Chico, na esquina das ruas Afonso Pena com Pardal Mallet, comandando, é claro, pelo Chico, cearense e tremendo boa -praça sobre quem pairam as mais diversas lendas. Uma delas dá conta de que o Chico é um grosso, um mal-educado, um ríspido no trato com a clientela. Repilo com veemência. Chico é um cracaço no atendimento, a mim e aos meus que lá chegam. Outra, diz que o Chico não revela a ninguém, nem a fórceps, a receita de sua monumenal caipivodka de maracujá. Também repilo. Aprendi o passo-a-passo com o próprio cabra.

Há uma, entretanto, séria.

Ninguém, ninguém!, sabe (sabia, vocês verão) o time pelo qual torce o arretado cearense. Já vi muito pau quebrando nas mesas, nas manhãs de domingo (meu dia e horário preferidos), sobre o palpitante tema.

– O Chico é Vasco, pô! Tá na cara!

– O Chico? Rubro-negro doente. Basta ver como ele muda de humor a cada vitória do Flamengo.

– Americano com certeza absoluta.

– É tricolor desde criancinha.

– Botafoguense, dos mais fanáticos!

Instado a se manifestar, Chico assumia ares de estátua. No máximo, um sorriso de canto de boca. Jamais soltou um “a” capaz de denunciar o time do seu coração. Cheguei a consultar um especialista naquele pedaço da Tijuca, o Cesinha Tartaglia, freqüentador há muitos anos, muitos anos, mais antigo que eu. E ele foi seco:

– O time do Chico? Acho que nem o Chico sabe.

Era mesmo um mistério.

Até que deu-se o seguinte: no dia 22 de maio próximo passado, um domingo, baixei na área vestido com a camisa do Corinthians. À mesa, comigo, muitos amigos – e desde cedo. Chegamos lá por volta das dez da manhã. Aquele desfile de garrafas casco-escuro, doses industriais de caipivodka, muita carne-de-sol, muito aipim, até que mais ou menos às cinco da tarde ouço o chamado do balcão:

– Edu? Chega aqui – era o Chico.

Cheguei-me. E ele:

– Bebe um chope comigo?

– Claro.

E o Chico tirou, com a perfeição dos grandes, duas caldeiretas com espessa espuma. Ele próprio sugeriu o brinde:

– À nossa!

Repetiu a operação uma, duas, três, quatro vezes. E eu achando aquilo meio estranho, que o Chico é gentil pacas… mas não é dado a esse tipo de, digamos, cortesia. Depois do quinto chope, disse:

– Encara uma cachacinha comigo?

Eu, cabreiro, fiz que sim com a cabeça.

Ele voltou com as duas doses e virou a dele num só gole.

Marejou os olhos. Pôs a mão direita sobre o escudo da minha camisa e disse, baixinho:

– Eu sou Corinthians, porra!

E deu de cantar o hino do Timão, de beijar o escudo, e disse:

– Hoje tu não paga nada! Não paga nada! Nadica de nada! – daí já gritava como um possesso.

Voltei no dia 12 de junho, um domingo também, pouco antes de Corinthians e Fluminense (foto acima). Saquem a gargalhada do Chico, que é quase possível ouvi-la diante desse instantâneo feito pelo Tartaglia, de quem lhes falei mais acima. Disse eu, ao cabra:

– Agora só venho aqui assim, de Corinthians, pra não pagar nada!

Foi desfeito um dos maiores segredos do Bar do Chico.

Até.

15 Comentários

Arquivado em botequim, Rio de Janeiro

DE FRENTE PRO CRIME (QUE NÃO FOI CRIME)

Saí pra caminhar hoje às seis da manhã. Na esquina das ruas Lúcio de Mendonça com Moraes e Silva, por volta das seis e meia, um corpo estendido no chão. Estaquei diante do cadáver e perguntei ao primeiro que encontrei pela frente:

– Assalto? – havia um poça de sangue em volta da cabeça do pobre-diabo.

– Nada… Caiu, do nada, bateu com a cabeça no canteiro, morreu na hora… – e fez o sinal de cruz.

Mandei a caminhada e o exercício às favas, que tijucano não perde furdunço por nada, nem exéquias ao ar livre.

Um sujeito dobrou a esquina, tirou os fones dos ouvidos e cantarolou a melodia de João Bosco, a letra de Aldir Blanc:

– Tá lá o corpo estendido no chão… – e estacou, também, diante do morto.

E eu vivi, de fato, um inusitado vídeo-clip para “De frente pro crime”.

O de cujus jazia diante da portaria de um edifício cujo porteiro assumira ares de repórter. De dentro do prédio saiu uma senhorinha – uns 75 anos, fácil – trazendo numa das mãos uma garrafa térmica, copos plásticos e noutra um prato com diversas fatias quadradas de bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Saiu oferecendo:

– Gente, tá fresquinho, alguém quer?

O tal sujeito, ainda cantando:

– … baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato…

Em questão de minutos pintou um táxi. De dentro saltou uma menina, coisa de uns 25 anos, em estado de possessão. Urrava, gania, sapateava como uma espanhola enfurecida:

– Papai! Papai! – e arremessou-se sobre o corpo.

Houve um uivo coletivo de “ohs” e “ahs” naquela esquina. As palavras voavam como gaivotas de papel: coitada, coitado, tão moço, pobrezinha, que Deus o tenha, descansou… e quando a órfã ouviu o “descansou” lançou um olhar de ódio em direção à multidão em volta.

Ainda estava de joelhos, a menina, quando desceu um casal do mesmo prédio: ele trazendo duas e ela também duas cadeiras de palhinha. Ele disse, formal:

– Você não quer sentar um pouco?

A órfã, comovida, assentiu e sentou-se. A tal velhota atropelou uns membros da assistência e estendeu o prato em direção à pobrezinha:

– Cenoura com chocolate. Fresquinho. Quer um café?

A filha única – em menos de 15 minutos tínhamos a biografia do morto – aceitou.

O que eu sei lhes dizer é que, antes das sete da manhã, mais ou menos cinqüenta pessoas se aglomeravam em torno do corpo, a essa altura já cercado por nove velas acesas e coberto por um caderno do jornal – do dia – cedido por um transeunte sensibilizado com o último esgar exposto ao sol.

– … em vez de rosto, uma foto de um gol…

Um grupo cercou o corpo e deu de rezar. A filha recebeu um santo e deu de gargalhar. Pediu cachaça, foram comprar. Antes mesmo da garrafa chegar à esquina o santo cantou pra subir e a órfã deparou-se com uma moça diante de si, que se apresentou:

– Sou kardecista. Estava evangelizando o irmão das trevas que apossou-se de seu corpo.

A menina deu um coice, uns cinco ou seis trancos pro alto e a platéia aplaudiu. A velhota gritou pra varanda de seu apartamento:

– Ô, Cilene! Traz mais café que a coisa vai longe!

O boa-praça:

– Quatro horas da manhã baixou o santo na porta-bandeira…

A solidariedade fez com que chegassem os Bombeiros, uma ambulância do SAMU e uma patrulhinha. Todos alegaram a mesma coisa:

– Só transportamos feridos. Chamem o rabecão!

A menina – a órfã – continuava rodando em torno do corpo.

– Caboclo, só pode ser! – disse um negão com um bloco de jogo do bicho nas mãos.

Senti um cutucão nas costas.

– Tu não é o Edu? Do blog?

Timidamente, com a timidez agravada por conta da presença do presunto, fiz que “sim” com a cabeça. O sujeito, sem noção:

– Pô, deixa eu te dar um abraço aí… – e fui abraçado.

Subiu um evangélico numa das cadeiras da palhinha e deu de pregar. O Trilha-Sonora – apelido cunhado na hora:

– Um homem subiu na mesa do bar e fez discurso  pra vereador…

A hora passava e eu precisava partir. Me despedi como se conhecesse aquela gente há anos. Meu “tchau” gerou um uma evasão em massa. E o cara, sem perder o tempo:

– Sem pressa foi pra cada um pro seu lado pensando numa mulher ou num time…

Até.

5 Comentários

Arquivado em confissões, gente, Rio de Janeiro

A TURMA É BOA, É MESMO DA FUZARCA

Eu sou um sujeito que, ultrapassada a linha dos 42 anos e mexido demais com os desenhos que vêm sendo feitos sobre meu tecido de vida, ando cada vez mais emocionado, despudoradamente emocionado, constrangedoramente emocionado. Ontem, quarta-feira, o Rio de Janeiro vivia um estado de tensão visível por conta dos olhares e gestos dos torcedores do Vasco da Gama, que enfrentaria, à noite, o pernóstico e pedante Coritiba na final da Copa do Brasil. Uma geração de pequenos vascaínos cansados de tanta decepção, a velha-guarda escolada no vivenciar do que parecia ser uma sina interminável de fiascos, e fui trocando, ao longo do dia, telefonemas com diversos amigos torcedores do Vasco aos quais eu prometia aguda solidariedade durante a partida.

Havia prometido, ainda, a meu pai e a meu irmão, que eu assistiria à partida vestido com a camisa do Vasco – o que por muitos, dotados de uma mesquinhez que eu não conheço, foi encarado como uma traição ou algo assim. Eu, Flamengo convertido aos 5 anos de idade (sou o primogênito de um vascaíno filho de um vascaíno), que já me declarara a meu irmão em determinada ocasião – “por você sou vascaíno” – iria, sim, vestir o manto cruzmaltino em nome deles, Isaac e Fernando, em nome de meu avô Oizer, em nome de um de meus orixás vivos, Aldir Blanc, em nome de minha comadre Mariana Blanc, em nome de minha afilhada, Milena, em nome de Pedro e Joana, netos gêmeos do bardo da Muda, em nome de meu parceiro Cesinha Tartaglia, em nome de Bruno Quintella, em nome do seu Jorge, português boa-praça do bar do Marreco, em nome de todos os vascaínos que me cercam e que têm, cada um a seu modo, lugar no meu cada vez mais combalido coração, hoje renovado de esperanças… que a vida não é de brincadeira, como aprendi com Vinícius.

Às seis da tarde marquei de beber a abrideira com meu querido Luiz Antonio Simas, alvinegro, no Bode Cheiroso, portentoso botequim tijucano na General Canabarro. E às seis chegou-se o Simas vestido como o mais autêntico português: de bermuda, camiseta, meias e chinelo. Erguemos um brinde, ali, à vitória do Vasco. A fim de dar contornos históricos à sua opção de torcer pelo Vasco o Simas deu-me uma aula sobre a escrotidão da história do Coritiba, que negando a grafia Curitiba pretendia apenas ser elite – o que me enoja. Ficamos ali bebendo, na calçada, e eu comecei – confesso – a entrar no espírito da partida.

Um bando de loucas vascaínas, comandadas pela Marta, dona do pedaço, deu de encher bolas de gás vermelhas – é a cor da cruz-de-malta – e a distribuir apitos entre os presentes. O bar, que normalmente fecha cedo, estava em noite de gala. E noite de gala pra turma da fuzarca é sinônimo de cafonice, o que me comove sobremaneira. Fiquei ali diante delas achando graça no movimento. Diante do balcão, aquela coleção de homens que não valem nada, componentes fundamentais em qualquer bar que se preze.

Vinham chegando, aos montes, os vascaínos. Ríamos muito, eu e Simas. Chinelo de dedo, bermuda verde-limão, camisa do Vasco e uma touca amarela – um deles. Meião do Vasco, sandálias Havaianas, um short cor-de-rosa e a camisa do Vasco – outro deles. Um jagunço que bebia na área veio me cumprimentar – “Boa noite, doutor delegado!” – e era meu terno e gravata me dando uma aura de autoridade. Ali só havia a ralé que me emociona, os desalmados, os desgraçados, os escriturários, tarados, loucos e sanguinários (apud Aldir Blanc) que bebiam seu tragos a fim de acalmar o coração cravado na colina.

E penduraram bandeiras, e trataram de ajeitar guirlandas horrorosas de bolas vermelhas nas paredes azuis e brancas, e chegou-se a nós o Vidal, tricolor (talvez o único que eu respeite), derrubamos mais algumas casco-escuro e era hora de ir embora.

Do outro lado da cidade, em Laranjeiras, na Praça São Salvador, me aguardava meu irmão, Fernando, e dois de seus amigos, amigos meus por tabela, Mauro e Milton – três vascaínos de escol.

Simas tratou de ir pra casa e Vidal me acompanhou. Passei em casa, bebemos umas doses de Red Label – remédio fundamental em determinadas ocasiões – troquei de roupa e tomei a direção da São Salvador. Fernando tinha consigo a camisa que eu usaria a fim de que eu pudesse honrar o prometido e realizar um sonho de meu pai: ver seus dois filhos mais velhos vestidos com a camisa do seu Vasco. E assim foi.

Ainda de pé, diante de um bar lotado, vesti a camisa do Vasco.

Foi um tremendo jogo. Emocionante. Desses de causar sístoles e diástoles em pedra. Eu, na confortável posição de espectador (torcendo!, torcendo!) sem o envolvimento passional que só o torcedor nativo tem, agitei a turma da fuzarca que assistia ao jogo no pedaço. Neguinho roendo unha, fechando os olhos, chorando olhando pro chão e eu, cheio de uísque e cerveja, puxava:

– Cadê o ânimo, seus putos! Casaca! Casaca! Casaca-saca-saca!

E vinha o côro.

Disse impropérios em direção a uma loura desequilibrada que comemorou com palmas e gritos histéricos o terceiro gol do Coritiba no bar ao lado. Parti pra cima de três sujeitos que deram de ofender o Flamengo com a bola ainda rolando:

– Esqueçam o Flamengo! Eu sou Flamengo, seus filhos da puta! Concentração no jogo, porra!

E eles me olharam com olhos vazados de luz e respeito.

Chamei por meu avô Oizer quando faltavam menos de cinco minutos pro apito final e virei, num só gole, um copo americano de conhaque que pedi pra amainar o coração acelerado.

Não me deixaram sequer pagar a conta:

– Pelos serviços prestados! – disse-me o Mauro.

A turma, meus poucos mas fiéis leitores, é boa. É mesmo da fuzarca.

Parabéns, franca e sinceramente, a todos os vascaínos que me lêem.

Até.

41 Comentários

Arquivado em futebol

SÓ NO RIO DE JANEIRO…

Há tempos que eu não citava seu nome aqui, ele que é um de meus orixás vivos, mestre e mentor, amigo de todas as horas e irmão na verdadeira e íntegra acepção da palavra: Fernando Szegeri, que nasceu – há testemunhas – já funcionário público, barbado, de óculos, e sábio, do alto da carapinha à sola das botinas imaginárias que veste todos os dias (sim, Fernando Szegeri tem a obsessão da botina).

Pois hoje, segunda-feira, senti aguda saudade pela manhã e lhe bati o telefone do balcão do bar do Marreco, durante o café preto de todos os dias.

Fernando Szegeri vem ao Rio desde tenra idade. E desde que nos conhecemos, em meados de 1999, sou eu a buscá-lo na rodoviária ou mesmo no aeroporto. E dá-se sempre a mesma cena. No que nos vemos somos dois bonecos infláveis de posto de gasolina, com os quatro braços branindo à espera do abraço que nos explicita a saudade mútua e permanente. E é sempre a mesma, sua primeira frase:

– Ah, o Rio de Janeiro… – e diz isso de olhos fechados, com lágrimas a lhe escorrer dos olhos, seguindo-se uma profunda inspiração, dessas de encher a caixa toráxica.

Ele sempre completa (a segunda frase também é sempre a mesma):

– Ah, o cheiro de mar do Rio de Janeiro…

Vai daí que eu digo sem medo do erro: não há carioca mais carioca que Fernando Szegeri. Morador de São Paulo, Fernando Szegeri é um permanente exilado, um turista triste em sua cidade natal, um pé que não cabe no próprio sapato, um desconfortado por conta de tudo.

Estar com ele no Rio significa ver, in loco, o quanto é derramada, desavergonhada e escancarada sua paixão pela cidade.

Com ele no Rio já vivi situações impressionantes e que geram sempre a mesma frase-padrão:

– Só no Rio de Janeiro! Só no Rio de Janeiro! Sabe quando isso seria possível em São Paulo?

Eu cumpro sempre o papel do coadjuvante e digo:

– Quando? Quando?

E ele, enchendo o peito de ar:

– Nunca! Nunca!

Eis que recentes episódios envolvendo o Bruno Ribeiro, meu mano de Campinas, me lembraram esse outdoor sonoro que o Szegeri acende com o neón das cordas vocais.

O Szegeri, quando vem ao Rio, tem apenas dois destinos como hospedaria: ou ele fica lá em casa ou ele se hospeda no Hotel Ferreira Viana, no Catete, na rua de mesmo nome. Ele tem, com o dito cujo, uma relação ancestral. E o Bruno Ribeiro – eis o porquê do gancho szegeriano – está pretendendo vir ao Rio no próximo dia 17 de junho, para ficar hospedado, justamente, no Ferreira Viana.

Antes, uma pausa: o Szegeri jamais fez reserva no Ferreira Viana. Uma única vez, quando decidiu vir ao Rio de última hora, ligou para o hotel e avisou que estava vindo. A sua carreira de hóspede permitiu que um telefonema fosse o bastante para garantir o quarto. Tentando comprovar sua lisura (troço absolutamente desnecessário) sugeriu à atendente, uma senhorinha já com mais de 65 anos:

– A senhora quer que eu já deposite o valor das duas diárias? Passe-me por favor os dados bancários…

Ouviu, o bom Szegeri, um arfar de pulmões cansados pelo telefone. A pobre senhora gania entre arquejadas:

– Meu filho, nem brinca! Nem brinca! Se você depositar um real que seja vai pro beleléu minha contabilidade. Eu perco o controle! Eu perco o controle!

Nessa ocasião ele me ligou justo pra me contar a inusitada recusa da garantia exigida por 9 entre 10 hotéis. E despediu-se daquele jeito:

– Só no Rio de Janeiro! Sabe quando isso seria possível em São Paulo?

E eu, fingindo o ineditismo da pergunta:

– Não. Conta, conta!

Ele:

– Nunca! Nunca! Nunca!

Fim da pausa, sigamos.

Pois o Bruno está, desde o início de maio, ligando para o Ferreira Viana às segundas-feiras. E dá-se sempre o mesmo diálogo. O primeiro telefonema foi no dia 02 de maio:

– Ferreira Viana, bom dia.

– Bom dia, minha senhora. Aqui fala Bruno Ribeiro, de Campinas, eu gostaria de fazer uma reserva para o dia dezesete de junho.

– Pra quando?

– Dezessete de junho.

Desligaram na cara do pobre Bruno que, assoberbado, não tentou de novo.

Dia 09 de maio, novo telefonema:

– Ferreira Viana!

– Bom dia. Aqui é Bruno, de Campinas, eu gostaria de fazer uma reserv…

– Pois não. Pra quantas pessoas?

– Uma.

– Pra hoje mesmo?

– Não. Para dezessete de ju…

Desligaram de novo.

No dia 16 de maio, tornou o Bruno:

– Ferreira, bom dia!

– Olá, senhora, estou tentando fazer uma reserva desde o começo do mês para o dia 17 de junho…

Bateram novamente o telefone na cara do pobre-diabo.

No dia 23 de maio:

– Hã? – foi assim, gentil, que atenderam.

– É do Ferreira Viana?

– É.

– Então, senhora, reserva – ele tentou ser curto pra ver se dava pé.

– Hein?

– Quero fazer reserva.

– Pra quando?

– Dezessete de junho…

A velhota perdeu a paciência:

– De novo, cacete!? Tá muito cedo ainda. Tchau.

E ficou ele com o telefone na mão, sem a reserva.

No dia 30 não tentou. Pensou, de si para si:

– Vou esperar junho.

E hoje, sentindo-se genial, ligou de novo:

– Hotel Ferreira Viana, bom dia.

– Olá, senhora. É o Bruno! O Bruno! O Bruno de Campinas! – e ele estava de joelhos ao telefone, o telefone na mão esquerda, a direita espalmada em direção aos céus.

– Sei. Lembro de você. Reserva pra junho, né? Quando mesmo?

Ele fez longa pausa pensando no que dizer. Ela engrossou do outro lado:

– Pra quando, papagaio!?

– Dia dezessete.

Ela pediu um minuto. Ele ouviu um farfalhar de papel e o som de um lápis batucando em dentes. Ela consultava a folhinha, quando disse:

– Muito longe ainda. Liga no dia treze.

E desligou, de novo.

Fernando Szegeri, como sempre, tem razão. Enquanto em São Paulo exige-se reserva com antecedência, impressão de um voucher eletrônico, pagamento de uma taxa a título de garantia, enquanto os funcionários dos hotéis recebem treinamento visando qualidade no atendimento ao cliente, a senhorinha do Ferreira Viana maltrata, sem piedade, o pobre hóspede, ansioso pela confirmação.

Só no Rio de Janeiro.

Até.

13 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro

BARBEARIA SALÃO AMÉRICA

Eu hoje farei mais uma de minhas incursões pelo passado, esse alicerce fabuloso, formador do caráter de todo homem, e que engloba esse tempo incomensurável entre a primeira encarnação, entre o primeiro sopro de vida e o minuto anterior ao agora. Vou, confesso, mais longe. Vou ao dia 21 de março de 1970, um sábado. Fazia um sol tremendo na Tijuca, eu havia chegado ao mundo há menos de 10 meses – sou de 27 de abril de 1969 – e papai não dispensava, claro, o final de semana ao lado de seu primogênito. Papai e mamãe, frise-se, mas papai trabalhava na REDUC, em Duque de Caxias, e aos sábados e domingos a dedicação era integral para mim. Morávamos, evidentemente, na Tijuca – minha única geografia possível – , num edifício de pastilhas azuis na rua Barão de Mesquita, próximo à rua São Francisco Xavier. E naquele dia 21 de março de 1970 deu-se o seguinte: papai levou-me, pela primeira vez, para cortar o cabelo.

Não por outra razão a imagem dessa porta (acima) está enterrada em mim como sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues). Mas eu, há até pouco tempo, não sabia muito bem o porquê.

Afastei-me da Tijuca durante um único período da minha vida: entre 1994 e 1999, durante o primeiro casamento, morei na Lagoa, onde eu me sentia, eis a verdade, tão confortável como um rabino dentro de Auschwitz-Birkenau. Nada ali me era familiar, e se eu conseguira até arrumar um lugar pra cortar cabelo, na Fonte da Saudade, eu continuava indo fazer a barba, aos sábados, na Praça Afonso Pena, na minha aldeia nativa.

No Salão América, quase na esquina das ruas Martins Pena com Campos Sales, bem diante da praça.

A mesma praça, diga-se em nome da precisão – essa minha companheira inseparável -, na qual estamos eu e papai na foto abaixo. Sou eu, ali, o menino sem camisa, de short quadriculado, com um sorriso que só criança é capaz de estampar no rosto, tendo as mãos cobertas pelas mãos de meu pai. Com o cabelo – notem – devidamente cortado.

Pela primeira vez.

Vai daí que é chegada a hora de lhes dizer: quem sempre faz minha barba, e desde que eu me entendo por gente (com barba, claro), é o Raul, esse caboclo boa-praça que aparece fumando na fotografia seguinte.

O Raul é tricolor fanático (um dos poucos que eu respeito, a torcida do Fluminense é composta por uma massa cheirosa que não me agrada), morador da rua do Matoso, fumante inveterado e hoje devagar com o andor quando o assunto é birita, porque ele foi um senhor bebedor ao longo da vida.

Fazer a barba, desde priscas eras, significa cumprir esse ritual: eu pago o café do Raul, antes e depois, no bar América Esportivo, ao lado do salão (hoje o nome mudou para Buteco do América). Conversamos sobre futebol, falamos da rodada e dos jogos da semana, sacaneamos o seu Ernesto, dono do salão e seu patrão há mais de 40 anos, damos boas risadas e não é raro cruzar com ele, pela manhã ou à noite, indo ou vindo do trabalho.

Vamos ao que quero lhes dizer.

Dia desses quase matei o Raul do coração (o cabra é um emotivo).

E aqui faço uma pausa pra lhes contar uma história.

Quando fiz 40 anos, em 2009, mamãe me deu de presente um prato cheio para um homem como eu, apegado ao passado e às lembranças, aos registros, aos rastros. Meu álbum de bebê.

Fui, durante as semanas seguintes, um homem rasgado pela luz das lembranças. Folheava cada página com uma atenção absurda, prestava de observar cada detalhe, cada anotação feita pelas mãos generosas e carinhosas de minha mãe, e aquele álbum, cheio de clichês como qualquer álbum de qualquer bebê, mez fez vítima de arremessos violentos e bruscos em direção ao passado.

Estaquei pra valer, entretanto, diante da página que trazia um pequeno cacho de cabelos presos por um pedaço de fita durex.

Ali, a prova irrefutável: meu primeiro corte de cabelo fora no dia 21 de março de 1970, aos dez meses, no “barbeiro”, no “Salão América”, a letra de mamãe é nítida.

Diante da mais que justificável ausência do nome do “barbeiro”, convoquei papai, dia desses, para uma cerveja no bar ao lado do salão. Lá, contei pra ele sobre o álbum, que levava comigo. Papai umedeceu os olhos – papai é duro como um soviético, emociona-se pouco – e disse:

– Foi um tricolor fanático que ficava na primeira cadeira, à direita de quem entra…

Chamei pelo Raul.

Era ele.

Até.

7 Comentários

Arquivado em confissões