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O OUTONO DO TEMPO DE FERNANDO SZEGERI

Meu irmão e compadre, Luiz Antonio Simas, só pra manter a tradição, escreveu o que eu gostaria de ter escrito sobre Fernando Szegeri, também meu irmão e compadre, aqui, no comovente convite em forme de texto, Os oito baixos de Fernando Szegeri. E o fez por conta do lançamento do livro Outono do meu tempo, de autoria do homem da barba amazônica, na próxima segunda-feira, 03 de dezembro, na livraria Folha Seca, a livraria do meu coração, na rua do Ouvidor nº 37.

Corri atrás do que disse sobre o Szgeri nosso irmão em comum, o saudoso Fernando Toledo, que conosco dividia o blog – o Conexão Irajá, que pode ser lido aqui que durou até durar Fernando Toledo, de quem tenho aguda saudade e que estaria orgulhoso com a publicação do primeiro livro de seu xará.

“Szé, O Impronunciável, também conhecido pela alcunha de Zé do Guéri Guéri (apud Nei Lopes) é uma criatura capaz de chegar num botequim às oito, beber todo o estoque de tudo que não o morda antes e ainda emitir opiniões inteligentes de madrugada, a caminho da rodoviária (e olhem que esta é apenas uma das histórias que testemunhei). Sabe-se lá para que em que mundos, em que estrelas se escondem os litros consumidos. Nascido por mero acaso em São Paulo, é mais carioca que 99,999999% da população do balneário. No café da manhã, bebe três doses de pandeiro, misturadas a quatro piadas de português e arrematadas com seis comentários sobre a bunda da mulher que acabou de passar. Existência saudável, esta do Szé.”

Pois quero dar meus humílimos pitacos sobre Fernando Szegeri, sempre citado por aqui, e fazer a convocação a todos vocês que me lêem, porque o lançamento de seu livro na Folha Seca, na rua do Ouvidor, onde está plantado o axé dessa cidade que ele tanto ama, é a grande pedida da segunda-feira.

Pai dedicado de três filhos (sou padrinho de suas duas meninas…), funcionário público igualmente dedicado, cantor de mão-cheia (ouça-o aqui, cantando uma obra-prima de Aldir Blanc), pensador inquieto e arquiteto de idéias geniais – um filósofo – o Fernando é, de longe, o sujeito que mais sabe de mim – e isso, talvez, por conseqüência de observações minhas, ao longo dos anos (antes mesmo de conhecê-lo) que foram me dando a certeza de que ele era um exemplo a ser seguido (é, também, um de meus orixás vivos).

É um brasileiro máximo, e não há nada no Brasil, o mais profundo, que lhe escape.

Em maio de 2005, quando lançamos o Conexão Irajá, tasquei lá:

“Minha alma irmã, é de longe o sujeito que mais chora que já conheci. Emociona-se com a mesma intensidade com que bebe e destila genialidade. Está para mim como Otto Lara Resende para Nelson Rodrigues. Um colosso de inteligência.”

E revalido, palavra por palavra, o que disse há mais de sete anos.

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O Fernando, ao mesmo tempo que é minha alma irmã, é um mistério pra mim. E eu acho que é um mistério pra mim porque eu não consegui, até hoje, depois de quase 15 anos de intenso convívio, dimensionar sua importância, compreender sua grandeza e absorver todos os seus ensinamentos.

Em seu livro, uma coletânea de mais de 25 anos de reflexões – não é coisa pouca.

E na segunda-feira – para encerrar essa convocação – você (como eu) terá a chance de vê-lo em ação: à mesa, entre os amigos, na cidade que tanto ama (na mesmíssima proporção em que a domina), na livraria que tem a cara dessa cidade, autografando Outono de meu tempo.

E vai que você dá sorte e vê, de perto, ao vivo e a cores, esses dois monstros – Luiz Antonio Simas e Fernando Szegeri – cantando juntos? Porque onde está Fernando Szegeri, meus poucos mas fiéis leitores, há música.

Até.

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FALTAM 10 DIAS PRO BOLA PRETA

De hoje, quarta-feira, 08 de fevereiro de 2012, a sábado são apenas dez dias até o ápice do Carnaval carioca, o desfile do Cordão da Bola Preta. Quem me lê sabe: trato o desfile do Bola Preta com a ansiedade de um réveillon. É, definitivamente, o ponto do alto do tríduo momesco, e eu já não consigo (como se a ansiedade não me fosse uma companhia constante) esconder, justamente, a dita cuja. Já conto as horas, já planejo a sexta-feira, já penso na garrafa de champagne que vai pro gelo pra ser aberta à meia-noite, e há, em mim – em mim, em mim, dentro de mim – todo o desenrolar de um filme com cenas dos meu melhores momentos no Bola Preta, bloco-procissão que me redime, que me imola, que me consome, que me consola, que me renova, que me transforma, que me agonia, que me transborda.

Vejam vocês, uma coisa (é que tenho, além de tudo, aguda saudade de Fernando Szegeri, na intenção de quem segue esse rabisco de hoje).

Estamos no ano de 2004.

Desfilávamos no Cordão do Bola Preta (já não me recordo se a foto é do domingo, no Cordão do Boitatá… acho que é). Eu e Szegeri encontramos, no Largo de São Francisco, com a Betinha. E o turbilhão que me invade também me confunde (acho que essa foto foi feita em 2004, repetindo uma pose de anos antes). Sei que quando Fernando Szegeri bateu os olhos na Betinha pela primeira vez (já sob a mira da pistola do Flavinho), disse:

– Minha musa… – e encheu os olhos-poço d´água.

E disse mais, meu mano:

– Edu, tire uma foto, por favor… Meu pai não vai acreditar que conheci uma moça tão bonita, mais bonita que minha pipa de sete cores que ganhei  do meu avô, quando menino.

Passaram-se os anos, veio o ano de 2006, a espera pelo Carnaval de 2007.

Enquanto eu esperava o Bola Preta, já em dezembro, Stê e Szegeri esperavam, em São Paulo, com ainda mais ansiedade, pela Rosa.

E a Rosa veio – antes do Bola Preta.

Deu-se a bulha na cabeça do meu irmão. A filhota pequena, meses de vida, não permitiria sua vinda para o Rio de Janeiro, interromperia uma tradição de mais de duas décadas, e trocamos incontáveis e-mails, ele se lamuriando de lá, eu prometendo a ele sua presença no glorioso cordão. Situação, convenhamos, non sense demais. Era mais ou menos assim:

– Ah, Edu, já me convenci. Não estarei no Bola Preta no sábado.

– Não se preocupe, querido. Você vai desfilar.

Ele, de lá, redarguia:

– Não adianta, mano… Já falei com a Stê, vou mesmo ficar por aqui.

E eu me despedia:

– Até o sábado de Carnaval.

Eis que veio a sexta-feira e eu vivi, talvez pela primeira vez, de forma bruta, a experiência da morte: dormi Eduardo Goldenberg e acordei Fernando Szegeri.

Repeti, na Cinelândia (sempre sob a mira da pistola do Flavinho), o gesto de anos antes.

Pus o chapéu de palha, olhos-poço, a camisa do Palmeiras, a barba amazônica, os óculos idênticos. Eu era, na íntegra, Fernando José Szegeri.

E deu-se o milagre do Carnaval.

Contou-me, o bom Szegeri, à noite, por telefone, que ele recebera uma ligação de um amigo seu, de São Paulo, diretamente do Cordão da Bola Preta. Disse, seu amigo, aos gritos:

– Pô, Fernando! Te vi de longe, te vi de longe! Você não está com a camisa do Palmeiras? Acabou que você veio?

Até.

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FALTAM 21 DIAS…

Faltam exatamente 21 dias. Às nove e meia da manhã do dia 18 de fevereiro estará aberto, oficial e subversivamente, o Carnaval no Rio de Janeiro. Digo subversivamente porque nasceu, o Cordão da Bola Preta, de forma absolutamente subversiva. Proibidos pelo Chefe da Polícia de então, os cordões (uma espécie de dissidência e de versão esculhambada dos blocos e das sociedades) no Carnaval de 1919, nasceu na extinta Galeria Cruzeiro, no Centro do Rio, da cabeça de um bando de malucos, o Cordão da Bola Preta, que faria seu primeiro desfile (ou seu primeiro baile, como preferem alguns) no dia 31 de dezembro de 1918. Em 2012, então, com 92 anos e alguns meses de vida, fará, o glorioso cordão, mais um desfile pelas ruas do Centro.

Sobre o Cordão da Bola Preta, nos conta Jota Efegê, em seu Figuras e coisas do Carnaval carioca:

“Nas proximidades do carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: “Vamos formar um cordão!” E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: “Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!” Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.

Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boemia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituído pelo de K. Veirinha.

À guisa de biografia

Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático Lord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvi-negro tinha sede no Largo do Machado, ganhou sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na Rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ele da Rua dos Andradas e também na do Passeio, locais onde os valorosos ‘carapicus’ estiveram instalados.

Só em 1918, depois da terrível epidemia de ‘influenza espanhola’, da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo, vendo-o em tal estado exclamou: “Puxa, você parece uma caveira”. À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: “Viva o K. Veirinha!” Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar seu verdadeiro nome com ele: “o Álvaro K. Veirinha”.

K. Veirinha enfrenta o chefe Leal

Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge, Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassobrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: “Os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei”. Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.

Longe de se amedrontar e disposto a topar uma parada com o “chefão” temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na Rua do Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918, com um “maixético e rebolativo baile” (como era de praxe qualificar as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta e sua brilhante e vitoriosa trajetória.

Tradição da Bola Preta

O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) puderam levar à frente o foliônico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na Rua 13 de Maio, no Palace Clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui.

Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até ‘as estranjas’ como fator preponderante do fascínio do nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galeão perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete”. Coisa que, inegavelmente, apesar do seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.

Saudosista, mas não muito

Afastado das homéricas “farras” dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é agora um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apensa um assistente da festa de Momo. Às vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus sócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para empolgar a moçada: “Quem não chora não mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta”.

Recorda, vendo a animação reinantes bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida, ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado da desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante), a consagração de seu apelido: K. Veirinha.”

Eu já lhes contei, incontáveis vezes, o que é representa, pra mim, a saída do Bola Preta (vejam, aqui, vídeo gravado no dia 20 de janeiro de 2009, eu, Gabriel Cavalcante no cavaquinho, Leal no tamborim e Tiago Prata no sete cordas, na Folha Seca, cantando Bola Preta, choro de Jacob do Bandolim com letra póstuma de Aldir Blanc contando toda a história do cordão, que pode ser lida – e ouvida, na voz de Aldir -, aqui). Mas esse ano, nesse ano de 2012, vai ser diferente…

Anseio, com a ansiedade de um menino, pela sexta-feira da véspera. Pela noite que será, eu sei, passada em claro. Pelas primeiras luzes do sábado, pelo primeiro gole, ainda dentro de casa, pelo trajeto até o Centro. E o Bola Preta, subvertendo de cara a lógica e o trajeto de tantos anos, não partirá da Cinelândia, mas da Candelária. Vai ser ali, diante da imponente Candelária, a concentração do Bola Preta que, a se confirmar o crescimento ano a ano que se vê nas ruas, arrastará mais de dois milhões de foliões pelo asfalto quente da Rio Branco em direção à Cinelândia, palco de tantas manifestações da força do povo do Rio de Janeiro.

Anseio pelo Sábado de Carnaval, pelo primeiro grito do Bola Preta, para dar início ao processo pagão e milagroso que a festa momesca impõe aquele que se entrega, de corpo e alma, aos ritos carnavalescos. Como disse, certa vez, o mestre Luiz Antonio Simas, “o carnaval não é uma festa dos alegres, mas sim dos tristes.”. Disse mais, o professor: “O carnaval é um período marcado pelo símbolo da máscara, onde se inaugura a idéia de esquecimento do que efetivamente somos. Desde os primórdios da festa, a função social do carnaval é promover a inversão dos valores do cotidiano. O homem veste-se de mulher, o careta toma porres homéricos e por aí vai. O carnaval é o tempo do esquecimento necessário. (…). O que está presente no carnaval é, antes de tudo, a pulsão de morte. Matamos o que somos o resto do ano, repletos de horários, compromissos, burocracias e por aí vai. O lugar dos alegres é o camarote da cervejaria, a feijoada do Amaral e outras merdas do gênero. O grande folião, tenha certeza disso, é um triste.”. Outro sujeito a quem respeito, Claudio Renato, cravou na mosca: “Carnaval é a festa dos tristes, dos refugiados, dos abandonados, dos enganados, dos humilhados, dos ultrajados, dos vencidos, dos lusitanos, dos nostálgicos, dos moribundos, dos desempregados, dos deserdados, dos órfãos. Carnaval é a festa máxima do povo brasileiro.”. E, pra encerrar as citações que dão mais peso ao que lhes escrevo, Fernando Szegeri (Divagações cinerárias, em 22 de fevereiro de 2007, aqui):

“A verdade, meus amigos, é que o folião é, acima de tudo, um altivo. Daquela altivez de que nos fala Pièrre Verger ao observar que Pai Balbino, um humilde vendedor de quiabos na feira de Água dos Meninos, portava-se com a dignidade de um rei, por ser filho de Xangô. Daquela soberba que nos percorre o corpo e a alma depois de uma noitada boa de amor, ao encontrar de manhã no elevador a vizinha carola do 1201.

O folião, na quinta, sexta-feira que precedem os dias de Carnaval, encara as pessoas na rua, no ânibus, com uma acachapante superioridade. Tem pena de seu patrão, despreza o seu senhorio. Ele sabe, no seu íntimo, que a cidade lhe pertence, que as coisas na verdade não são como parecem na maioria dos dias; que a superioridade que o capataz lhe cospe reitaradamente às faces é uma ilusão que lhe custará caro. São chegados os dias em que tudo assume a sua feição verdadeira, em que as máscaras cinzentas que foram impostas à realidade são impiedosamente arrancadas. Essa efêmera mas irrefutável prova sobre o verdadeiro estatuto das coisas lhe propicia um inexprimível sentimento duplo de superioridade: por ter consciência desta realidade e por saber-se o senhor livre e soberano de seu próprio destino.

É por isso que ao folião repugnam as insuportáveis pessoas que simplesmente ignoram o Carnaval. Não as que o odeiam. Ele compreende que para os que se arvoram em donos das coisas e dos destinos nos outros trezentos e sessenta e um dias, a visão crua da realidade absolutamente diversa lhes seja insuportável. Aos que francamente detestam o Carnaval o folião responde com um sorriso de aviso: não tentem interferir no desvelamento essencial desses dias; contenham-se nos limites da sua mentira. Mas aos que ignoram o Carnaval, que estampam em suas faces lânguidas e mortas a sua estupidez indiferente, o folião devota, muito mais que piedade, um ódio secreto, um desprezo absoluto pela incapacidade de exercerem um atributo tão fundamental e tão simples de sua humanidade.”.

É isso, meus poucos mas fiéis leitores.

Faltam 21 dias. E eu serei, nesses dias que antecedem o Sábado de Carnaval, um ansioso à espera da apoteose das apoteoses.

Até.

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SÓ NO RIO DE JANEIRO…

Há tempos que eu não citava seu nome aqui, ele que é um de meus orixás vivos, mestre e mentor, amigo de todas as horas e irmão na verdadeira e íntegra acepção da palavra: Fernando Szegeri, que nasceu – há testemunhas – já funcionário público, barbado, de óculos, e sábio, do alto da carapinha à sola das botinas imaginárias que veste todos os dias (sim, Fernando Szegeri tem a obsessão da botina).

Pois hoje, segunda-feira, senti aguda saudade pela manhã e lhe bati o telefone do balcão do bar do Marreco, durante o café preto de todos os dias.

Fernando Szegeri vem ao Rio desde tenra idade. E desde que nos conhecemos, em meados de 1999, sou eu a buscá-lo na rodoviária ou mesmo no aeroporto. E dá-se sempre a mesma cena. No que nos vemos somos dois bonecos infláveis de posto de gasolina, com os quatro braços branindo à espera do abraço que nos explicita a saudade mútua e permanente. E é sempre a mesma, sua primeira frase:

– Ah, o Rio de Janeiro… – e diz isso de olhos fechados, com lágrimas a lhe escorrer dos olhos, seguindo-se uma profunda inspiração, dessas de encher a caixa toráxica.

Ele sempre completa (a segunda frase também é sempre a mesma):

– Ah, o cheiro de mar do Rio de Janeiro…

Vai daí que eu digo sem medo do erro: não há carioca mais carioca que Fernando Szegeri. Morador de São Paulo, Fernando Szegeri é um permanente exilado, um turista triste em sua cidade natal, um pé que não cabe no próprio sapato, um desconfortado por conta de tudo.

Estar com ele no Rio significa ver, in loco, o quanto é derramada, desavergonhada e escancarada sua paixão pela cidade.

Com ele no Rio já vivi situações impressionantes e que geram sempre a mesma frase-padrão:

– Só no Rio de Janeiro! Só no Rio de Janeiro! Sabe quando isso seria possível em São Paulo?

Eu cumpro sempre o papel do coadjuvante e digo:

– Quando? Quando?

E ele, enchendo o peito de ar:

– Nunca! Nunca!

Eis que recentes episódios envolvendo o Bruno Ribeiro, meu mano de Campinas, me lembraram esse outdoor sonoro que o Szegeri acende com o neón das cordas vocais.

O Szegeri, quando vem ao Rio, tem apenas dois destinos como hospedaria: ou ele fica lá em casa ou ele se hospeda no Hotel Ferreira Viana, no Catete, na rua de mesmo nome. Ele tem, com o dito cujo, uma relação ancestral. E o Bruno Ribeiro – eis o porquê do gancho szegeriano – está pretendendo vir ao Rio no próximo dia 17 de junho, para ficar hospedado, justamente, no Ferreira Viana.

Antes, uma pausa: o Szegeri jamais fez reserva no Ferreira Viana. Uma única vez, quando decidiu vir ao Rio de última hora, ligou para o hotel e avisou que estava vindo. A sua carreira de hóspede permitiu que um telefonema fosse o bastante para garantir o quarto. Tentando comprovar sua lisura (troço absolutamente desnecessário) sugeriu à atendente, uma senhorinha já com mais de 65 anos:

– A senhora quer que eu já deposite o valor das duas diárias? Passe-me por favor os dados bancários…

Ouviu, o bom Szegeri, um arfar de pulmões cansados pelo telefone. A pobre senhora gania entre arquejadas:

– Meu filho, nem brinca! Nem brinca! Se você depositar um real que seja vai pro beleléu minha contabilidade. Eu perco o controle! Eu perco o controle!

Nessa ocasião ele me ligou justo pra me contar a inusitada recusa da garantia exigida por 9 entre 10 hotéis. E despediu-se daquele jeito:

– Só no Rio de Janeiro! Sabe quando isso seria possível em São Paulo?

E eu, fingindo o ineditismo da pergunta:

– Não. Conta, conta!

Ele:

– Nunca! Nunca! Nunca!

Fim da pausa, sigamos.

Pois o Bruno está, desde o início de maio, ligando para o Ferreira Viana às segundas-feiras. E dá-se sempre o mesmo diálogo. O primeiro telefonema foi no dia 02 de maio:

– Ferreira Viana, bom dia.

– Bom dia, minha senhora. Aqui fala Bruno Ribeiro, de Campinas, eu gostaria de fazer uma reserva para o dia dezesete de junho.

– Pra quando?

– Dezessete de junho.

Desligaram na cara do pobre Bruno que, assoberbado, não tentou de novo.

Dia 09 de maio, novo telefonema:

– Ferreira Viana!

– Bom dia. Aqui é Bruno, de Campinas, eu gostaria de fazer uma reserv…

– Pois não. Pra quantas pessoas?

– Uma.

– Pra hoje mesmo?

– Não. Para dezessete de ju…

Desligaram de novo.

No dia 16 de maio, tornou o Bruno:

– Ferreira, bom dia!

– Olá, senhora, estou tentando fazer uma reserva desde o começo do mês para o dia 17 de junho…

Bateram novamente o telefone na cara do pobre-diabo.

No dia 23 de maio:

– Hã? – foi assim, gentil, que atenderam.

– É do Ferreira Viana?

– É.

– Então, senhora, reserva – ele tentou ser curto pra ver se dava pé.

– Hein?

– Quero fazer reserva.

– Pra quando?

– Dezessete de junho…

A velhota perdeu a paciência:

– De novo, cacete!? Tá muito cedo ainda. Tchau.

E ficou ele com o telefone na mão, sem a reserva.

No dia 30 não tentou. Pensou, de si para si:

– Vou esperar junho.

E hoje, sentindo-se genial, ligou de novo:

– Hotel Ferreira Viana, bom dia.

– Olá, senhora. É o Bruno! O Bruno! O Bruno de Campinas! – e ele estava de joelhos ao telefone, o telefone na mão esquerda, a direita espalmada em direção aos céus.

– Sei. Lembro de você. Reserva pra junho, né? Quando mesmo?

Ele fez longa pausa pensando no que dizer. Ela engrossou do outro lado:

– Pra quando, papagaio!?

– Dia dezessete.

Ela pediu um minuto. Ele ouviu um farfalhar de papel e o som de um lápis batucando em dentes. Ela consultava a folhinha, quando disse:

– Muito longe ainda. Liga no dia treze.

E desligou, de novo.

Fernando Szegeri, como sempre, tem razão. Enquanto em São Paulo exige-se reserva com antecedência, impressão de um voucher eletrônico, pagamento de uma taxa a título de garantia, enquanto os funcionários dos hotéis recebem treinamento visando qualidade no atendimento ao cliente, a senhorinha do Ferreira Viana maltrata, sem piedade, o pobre hóspede, ansioso pela confirmação.

Só no Rio de Janeiro.

Até.

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A CARNAVALIZAÇÃO DOS BUTIQUINS

Por conta da aproximação do festival COMIDA DI BUTECO 2010 aqui no Rio de Janeiro, que começa em duas semanas (essa mentira, esse engodo, esse arremedo de homenagem a uma de nossas mais caras tradições), reproduzo, na íntegra, texto escrito e publicado por meu irmão Fernando Szegeri, o homem da barba amazônica, em 04 de maio de 2005 – portanto há mais de 5 anos! – e assustadoramente atual, profético à época de sua publicação no saudoso CONEXÃO IRAJÁ, que mantínhamos, nós dois, na companhia do ainda mais saudoso Fernando Toledo (o texto está aqui).

“Confesso que acordei hoje não nos meus melhores dias. Ou será que há dias é que não estou nos melhores hojes? Com certeza, os dias há hojes não estão nos melhores eus.

Acordei com vontade de escrever muito, aquele velho recurso mentiroso de que alguns podemos lançar mão pra poder desfrutar a sensação fugaz de escapar da mudez impingida como pena indelével ao gênero. Com vontade de escrever sobre a descoberta súbita do papel do meu traseiro nos destinos nacionais. Sobre o homem que morreu dançando um samba do Ismael no Bar do Tião e sobre o mau humor que ando destilando nas conversas de elevador. De contar velhas histórias sobre um outdoor do Centro da Cidade com propaganda de lingerie e de dois namorados que, de repente, perceberam que o prato de sopa de ervilha que compartilhavam os desapaixonaria para sempre. De como, quanto e porque eu babo pela Mariana e de como meus conectados amigos apareceram na minha existência bem errante. Sobre todos aqueles assuntos em que somos versados nos primeiros três minutos, como dizia o bom Otto, o original.

Mas eis que o tema é o butiquim, pra variar. Então vou-me permitir sair da casuística e ir pra teoria geral. Sobre o bar da Maria já disse eu certa feita que bom ou ruim, lenda ou realidade, só não se podia negar-lhe a condição de um butiquim típico, autêntico, ou se preferirmos, devidamente carioca. E aí está o xis da “qüestã”, assim mesmo com trema e sem o “o” e com o palito de “fósfo” no canto da boca.

Porque, de uns tempos pra cá, o que era natureza acabou virando artifício. O hábito naturalíssimo de entrar no bar e tomar um cafezinho virou objeto de tese de doutorado. O tira-gosto que servia basicamente pra forrar o ninho da gelada derrubada pela goela foi alçado à condição de iguaria da gastronomia internacional, com direito a livro e, vira e mexe, matéria no jornal. Há sites especializados em botecos e até mesmo um prestigiado guia, igualzinho àquele antigo “Praias de Norte a Sul”, e o muito mais antigo “Igrejas da cidade da Bahia de São Salvador”.

Qualquer Zé Dentro d’Água salta hoje na cidade do Rio de Janeiro munido do seu guia – espécie de vade mecum dos otários – e entra no Paulistinha pedindo uma “sacanagem” apimentada. A experiência básica e essencial de butiquinar entre quitudes insalubres, bebidas duvidosas e papos ainda mais duvidosos está deixando de ser aquela arte iniciática, que se descobre aos poucos, guiada pelos mestres e aprendida pela experiência progressiva e paciente observação daquele doce e simples mistério que congrega as almas abandonadas pelos bares.

Agoniza e estrebucha pelas esquinas fedorentas do Centro da Cidade a figura do butequeiro prático, aquele que faz do bar a sua sala de visita, copa, escritório e consultório sentimental, valendo-se do anonimato necessário e quase envergonhado que só os grandes pés-sujos propiciam. Que usa daquela agregação forçada e forçosa e da conseqüente profusão de conexões – ói nóis aí! – superficiais ali formadas como expediente pra driblar a solidão, a impessoalidade e a crueldade do mundo porta-afora. Esses são os nossos bares, com nossos bêbados chatos, os sentimentais, os filósofos, políticos. Brilhantes ou idiotas. Humanos.

Pululam, de outra parte, os butequeiros teóricos, aqueles que reconhecem na instituição butiquim um mediador social relevante para o encontro do ethos da cultura popular com as categorias abstratas imersas no inconsciente coletivo. São o correlato necessário dos sambistas de Internet. Os doutores do balcão, que batem no peito propalando sua condição de bebedores e escrevem artigos e criam teorias que engendram modelos. Dos modelos surgidos não tardaram os simulacros, pensados, planejados. Tá cheio de pseudo-buteco em que a gordura escorrida no azulejo consta do projeto arquitetônico. Daí pros marqueteiros, um pulo. O Bar da Maria é só mais uma vítima, assim como o saudoso Belmonte da Praia do Flamengo.

Igualzinho fizeram com o carnaval, o futebol etc. etc.”

Até.

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A INVASÃO PALESTRINA

Atentem para o que vou lhes dizer. Em 07 de novembro de 2008, escrevi Palmeiras: um fenômeno no Rio, leiam aqui, texto que fez (ainda faz) gigantesco sucesso gerando, até o presente momento, 56 comentários (dez vezes mais que a média de público de qualquer debate político [eles não fazem comício] promovido pelo PSOL). Tratava do fenômeno da proliferação aguda de torcedores do Palmeiras na cidade do Rio de Janeiro. Em 12 de dezembro do mesmo ano, e sobre o mesmo tema, escrevi Provas cabais, leiam aqui. Em 21 de dezembro, escrevi Provas cabais, repetindo o nome e o mote, leiam aqui. E em 08 de maio de 2009 tornei a publicar novo texto com o mesmo nome e mesmo mote, Provas cabais, leiam aqui. Pois bem. Feito o intróito, vamos aos fatos.

É sabido e consabido que em 1976 houve, aqui no Rio, a chamada invasão corinthiana. Para a disputa da semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano milhares de torcedores do Corinthians atravessaram a Dutra em centenas de ônibus fretados e tomaram o Maracanã de assalto (o que não chega a ser uma graaaaande vantagem, já que a torcida do Fluminense está para o futebol assim como o PSOL para a política: um permanente fracasso de público). Mas houve, é fato, a invasão corinthiana.

Disse isso tudo para lhes contar o seguinte.

O Buteco do Edu registrou ontem, 28 de julho de 2009, um recorde.

Breve pausa.

Escrevi 28 de julho de 2009 e lembrei-me que no sábado passado, 25 de julho, comemorou-se, pela primeira vez, aqui no município do Rio de Janeiro, por obra, graça e iniciativa de um vereador do PSOL, o Dia Municipal da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha (vejam aqui). Não me consta que o autor da importantíssima lei tenha promovido qualquer festa (o PSOL adora festa) para dar algum sentido à sua iniciativa. Se alguém souber de alguma coisa, por favor, avise-me por aqui. Volto ao tema de hoje.

A que se deveu – eis o que queria lhes contar desde o início! – o fenômeno?

A torcida do Palmeiras, a massa palestrina, literalmente invadiu o balcão virtual do Buteco e cravou o recorde absoluto de visitas num só dia (os contadores têm mecanismos fabulosos de rastreamento das visitas!). Houve muitos comentários aos textos a que me referi no primeiro parágrafo do texto de hoje e eu fiquei – confesso – feliz com o troço.

Eu, que jamais escondi de vocês a simpatia que tenho pelo Palmeiras, muito por conta do homem da barba amazônica, Fernando José Szegeri, um dos maiores palestrinos do Brasil (vejam aqui que eu me fantasiei de Fernando José Szegeri no Carnaval de 2007, com a camisa do Palmeiras, e na foto estou ao lado do palmeirense Fernando Borgonovi e do corinthiano Julio Vellozo).

A ele, Fernando José Szegeri (encho a boca para lhe dizer o nome), a Fernando Borgonovi, aos palestrinos da família Tirone, a Marcus Gramegna, ergo o copo num brinde confessando que me invade uma vontade absurda de embarcar pra São Paulo, hoje ainda, para ver Palmeiras e Fluminense ao lado deles.

E me permitam: Obina, Obina, Obina! Assim mesmo, três vezes.

Até.

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QUANDO CHOVE EM SÃO PAULO, O SZEGERI QUER NESCAU

Ontem fez, em São Paulo, um mau tempo de quinto ato de Rigoletto, de Giuseppe Verdi (não me venha besta alguma dizer que não há quinto ato em Rigoletto, façam-me o favor). Ontem foi quinta-feira, o que significa dizer que hoje é sexta-feira (esta frase, genial, é digna de uma mesa da FLIP). E às sextas-feiras, vocês sabem, o PSOL promove debates políticos no Buraco do Lume (o PSOL é moderníssimo, o PSOL não faz comícios). Estou, como se pode perceber, grávido de parênteses (outra frase que faria a assistência relinchar em Paraty).

Farei uma breve digressão antes de ir ao tema de hoje.

Ontem fui visitar meu dileto amigo Luiz Carlos Fraga em seu portentoso escritório, na rua Rodrigo Silva (escrevi Rodrigo e, sabe-se lá por quê, um frio de horror percorreu minha espinha). Estava lá eu conversando com ele (que almoçava um guisadinho de legumes) quando surgiu, depois de três batidinhas militares na porta, André Perecmanis (dei de dar nome, de novo, a meus personagens), meu advogado criminalista (gênio!, gênio!!, gênio!!!, vejam aqui). Eram – o quê?! – duas, duas e meia. E o André, qual um mendigo de afeto, implorou:

– Almoça comigo?

Disse, com a mão, que não.

Ele insisitiu. E eu fiz a pergunta canalha:

– Pagas?

E ele, sorrindo luminosamente e brandindo o talão de cheques, gritou:

– Pago tudo! Pago!

Estávamos sem tempo, pelo que optamos pelo Café Gaúcho, na esquina da mesmíssima Rodrigo Silva com São José – ocasião na qual lembrei-me desse partido político que, como um descolado flipense, adora uma festa (li, nos jornais de ontem, que o PSOL vai fazer performances pela cidade mostrando a cidade de Sarneylândia, e eu me pergunto se pode haver palhaçada maior). O André provocou:

– Amanhã tem PSOL, não tem?

– Tem.

Dissemos coisas impublicáveis sobre o partido mais histérico da paróquia, estávamos já comendo nossos sanduíches e meu celular estrilou. Era uma mensagem dele, Fernando. E quando digo Fernando referindo-me a ele eu completo sem tomar fôlego Fernando José Szegeri (um dos únicos aqui citados que nunca me censurou quanto a isso, ao contrário; ele sempre pede que lhe dê o nome todo, o da frente, o do meio e o de trás).

A mensagem era breve e dava notícia da chuva torrencial que se abatia sobre a cidade de São Paulo. Fui um triste dali em diante. Alegrei-me, apenas, quando o André, expansivo, gritou pro Bira:

– A conta, a conta! Manda a conta que hoje eu pago tudo!

E fui um triste pois fiquei sabendo que fazia um dia de chuva insuportável em São Paulo. Lembrei-me, tristíssimo (fui piorando minha tristeza a cada minuto), que o humor de meu irmão siamês (que jamais renegará tal condição) é suscetível demais às variações meteorológicas. Lembrei-me da obrigatoriedade que há, em terras paulistanas, de se fazer as coisas todas e ir a vários lugares, troço que transforma um dia chuvoso num verdadeiro exercício de penitência quaresmal. Penitenciei-me por jamais ter encontrado, e comprado, galochas para meu irmão.

Lembrei-me dele criança, já barbado e já funcionário público, morando numa casa de bairro onde ele tinha um quintal à sua disposição, fazendo engenharias com as almofadas da sala, o que deixava dona Cecília maluca.

E lembrei-me dele, já pai das três crianças por-vir, vendo, na TV, o programa da Xênia, apresentado pela própria, e lembrei-me dele hoje, na repartição, melancólico por conta de sua infância recheada de ontens.

Pedi ao Bira – e o André se assustou – Nescau batido no leite.

Bebi, como se cumprindo um ebó emocional, num só gole, em homenagem a ele.

Tudo confirmado pelo próprio, há mais de três anos – é o tempo e suas dobras -, aqui.

Até.

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