Arquivo do mês: abril 2009

A AVÓ DO FELIPINHO CEREAL

O Felipinho Cereal é desses amigos fatais, definitivos, espetaculares, quase inconcebíveis. Já queimei demais a língua em comícios públicos sobre os que me cercam (ou que me cercavam) e já me decepcionei demais com a vilania, com a falta de caráter, com as surpreendentes atitudes dos homens, capazes de me ferir de modo agudo a alma, quase sempre pega (a alma, caros leitores) de surpresa, como se fora o perplexo goleiro Rafael Asca, do Peru, depois da folha-seca do Didi, cobrando falta pelas eliminatórias da Copa de 58. Mas não temo queimá-la com o Felipinho, em absoluto. É como disse o Szegeri, hoje à noite:

– O Felipinho é o único amigo que presta que eu tenho.

A frase, baseada nas recorrentes afirmativas do jornalista José Sergio Rocha sobre seus amigos (e não vou explicar o por quê), calou-me fundo. Concordo com ela em gênero, número e grau, como diria um antigo – como o Felipinho.

Estava eu, ontem, sentado na cadeira do dentista (leia-se Marcelo Alves Vidal, outro que JAMAIS, com a ênfase szegeriana, me decepcionará), quando estrilou meu celular. Era o Felipinho:

– Vai almoçar?

– Arrã.

– Topas almoçar na casa da minha avó?

– Claro!

Deu-me o endereço, o pequeno grande homem.

Quem, dentre vocês todos, meus poucos mas fiéis leitores, tem uma avó morando na rua do Riachuelo?!

Pois depois da consulta tomei o 238 e saltei na Riachuelo, avistando, de primeira, o Felipinho diante de uma garrafa de Brahma no buteco ao lado da portaria do prédio de sua avó, dona Luiza.

Abraçamo-nos emocionados antevendo os lances comoventes que nos esperavam. E ele começou, olhos embaçados, a desfiar orgulhoso:

– Você tem de ver o cuco que minha avó tem na sala…

– E a máquina Singer do tempo do onça…

– Vovô sempre quis mudar pro Flamengo mas vovó se recusou a largar o Bairro de Fátima…

Subimos as escadas do velho edifício e seguiu-se um maremoto de delícias indizíveis.

Não me cabe, aqui, até mesmo por princípios que vigoram no BUTECO há tempos, relatar tudo o que vi e que vivi no interior daquela sala antiqüíssima, em contraste com a alma juvenil da dona Luiza.

Almoçamos uma comida que só mesmo vó sabe e pode fazer: arroz branco, feijão-manteiga com carne-seca, purê de batata, carne de panela e farofa de lingüiça.

Dona Luiza exibia, mais orgulhosa que o neto, os tesouros que guarda em casa.

Até que abriu uma gaveta e exibiu tiras intermináveis de pano verde e uma tesoura gigantesca, quase do tamanho do meu amigo.

Disse-me ela:

– Segura esse feltro, segura! Coisa boa! Coisa fina!

E prosseguiu:

– Panos que cobriam as mesas de jogo do Cassino da Urca, cortados com essa tesoura aqui…

Pra variar um bocado, bati um fio pro Szegeri. Contei-lhe sobre o troço.

Falávamos no viva-voz como já lhes contei aqui e ele:

– Será que ela me vende um pedacinho desse pano?

Dona Luiza, com uma nobreza que diz muito sobre o Felipinho, estendeu em direção ao neto um grande corte do pano verde:

– Dê pro amigo de vocês. Presente meu…

Edu Goldenberg com dona Luiza, 16 de abril de 2009

Um gesto surpreendente, de comover.

Como a folha-seca do Didi.

O que prova, meus poucos mas fiéis leitores, que nem tudo está perdido.

Até.

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>SZEGERI NO METRÔ DE SÃO PAULO

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Dia desses, no começo do mês de abril, bateu-me o telefone o homem da barba amazônica, Fernando José Szegeri – e digo seu nome todo com a certeza de que não receberei pedido algum no sentido de não mais fazê-lo, como tantos que já recebi. Fernando José Szegeri é um homem que sabe, como poucos, que nada teme, que nada deve, que nada tem a esconder.

(leiam sobre ele aqui (FERNANDO JOSÉ SZEGERI, O MITO) e aqui (A IDADE DE FERNANDO JOSÉ SZEGERI))

Comecei dizerndo que ele bateu-me o telefone mas é preciso fazer a correção em nome da precisão que me acompanha: Fernando José Szegeri bateu-me mesmo foi o rádio. Compramos, os dois, e ao mesmo tempo, visando a necessária economia depois de meses suportando contas caríssimas em razão das ligações interurbanas, daqui pra lá e de lá pra cá, aparelhos NEXTEL (eis a propaganda sem custo para a empresa). Falamos, agora, com uma freqüência ainda mais inimaginável.

Pois estava eu, umbigo encostado no balcão do AMÉRICA ESPORTIVO tomando um café preto e fumando meu primeiro cigarro do dia, quando estrilou meu rádio. Na tela, o nome indicava o chamado de meu irmão.

– Edu, Edu, Edu! – ele estava chorando.

– O que houve, mano?! – devolvi, sob o olhar atento da assistência.

– Estou no metrô, querido… E com ar-condicionado!

Não entendi a comoção do homem da barba amazônica.

– NUNCA – e ele disse esse “nunca” com a ênfase szegeriana que nele é, por óbvio, ainda mais enfática – NUNCA andei no metrô de São Paulo no ar-condicionado! É a primeira vez! Inaugurou um dia desses! – e fungava enquanto falava, para assombro da assistência, que eu, quando falo com ele, deixo o rádio no viva-voz para que toda gente absorva a sabedoria que sua fala esparge.

Não tive o que dizer.

– Estou na linha verde, na estação Vila Madalena!

Terminei o café, adentrei o SALÃO AMÉRICA, sentei-me na cadeira do seu Ernesto e tornou a tocar o rádio.

– Não vou trabalhar hoje! Não vou! Vou ficar no ar-condicionado do metropolitano!

Sei que ele foi da estação Ana Rosa à Vila Madalena. Da Vila Madalena à Alto do Ipiranga. Da Alto do Ipiranga à Vila Madalena. Da Vila Madalena à Alto do Ipiranga.

Ao longo do dia, o comício pelo rádio:

– Os vagões têm, além do ar-condicionado, diversas câmeras, portas bem mais largas, luzinhas que mostram as estações percorridas! Que luxo, Edu, que luxo!

– A temperatura oscila entre 22ºC e 24ºC. E é possível ajustá-lo até 7ºC abaixo da temperatura externa!!!!!

Fernando José Szegeri teve, naquela manhã, cinco, seis, sete anos de idade. Troço inédito, se vocês me entendem.

Até.

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MEU AVÔ OIZER E O FANTOMAS

Já lhes contei, há tempos, algo sobre meu avô Oizer (leiam aqui).

Remexendo na memória, troço inevitável às vésperas dos quarenta anos, lembro-me dele, nas manhãs de sábado na Urca, pegando cigarras entre os dedos de suas mãos enormes, fazendo as bichinhas cantarem pra encantar o neto.

Como lembro-me de sua euforia diante da TV assistindo telecatch. Não adiantava papai dizer que era tudo armação, que era tudo combinado, que era tudo uma grande baboseira. Vovô esbravejava, bufava, sofria, espumava torcendo por seus prediletos.

Hoje cedo recebi e-mail de um leitor, Luciano Lazaro, de Belo Horizonte. Dizia o seguinte:

“Prezado Eduardo: desculpe-me, não sei se você é o mesmo Eduardo Alexandre Goldenberg que li a respeito num post sobre “telecatch”. Filho do Isaac Goldenberg. Se não for, desculpe-me, mas se for, então o obituário abaixo, publicado na Folha de 06.04.2009, deverá te interessar. Grande abraço, Luciano Lazaro – Belo Horizonte – MG”

Não faço a mínima idéia de como o Luciano chegou a mim e mesmo às informações que, supos ele, me interessariam. Há algo de truncado na mensagem, a começar pela referência a mim, já que não tenho “Alexandre” no nome embora eu seja filho de Isaac Goldenberg.

Dizia o obituário que veio anexado ao e-mail:

“GUERINO CICON (1933-2009)

Por trás da máscara de Fantomas

ESTÊVÃO BERTONI

DA REPORTAGEM LOCAL (FSP 06/04/2009)

Não era nada mole liquidar Fantomas, um homem de pedra nos ringues, já alertava o locutor.

Herói do telecatch-espetáculo de luta livre popularizado pela TV entre os anos 60 e 80 no país, o mascarado justiceiro escondia sob a fantasia preta com detalhes brancos a identidade de Guerino Cicon, um marceneiro de Piracicaba (SP) de quase dois metros e mais de 100 kg.

E não adiantava recorrer a táticas torpes, como “chutar violentamente a região baixa” de Fantomas. Moicano e Cantinflas já tentaram isso numa luta e nada conseguiram.

De uma família de italianos, mudou-se para SP nos anos 60. Praticava natação e halterofilia, o que o ajudou a entrar no mundo das lutas, área em que foi muito feliz, diz a filha Idely, com a voz embargada.

Ela lembra que os shows costumavam fechar o Pacaembu, de tão cheio. Seu pai conheceu o país em turnês.

Nos combates, Guerino fingia ter uma das pernas endurecidas. Era uma tática. E ele já se machucou de verdade? A princípio, a filha diz que não. Depois lembra que o pai já quebrou o dente, a clavícula, um dedo, entre outros.

Depois que as lutas acabaram, trabalhou como segurança, até se aposentar. Há cerca de um ano, vivendo na Cohab, passou a sofrer com problemas circulatórios e de diabetes. Estava internado há cinco meses e teve um dedo, e depois a perna, amputados.

“Quero colocar uma faixa em frente ao hospital Tatuapé para agradecer ao tratamento que tivemos”, diz a filha.

Guerino morreu sábado, 28, aos 75 anos. Deixa duas filhas, quatro netos e três bisnetos. A missa de sétimo dia foi ontem, em São Paulo.”

Foi meu avô Oizer, tenho certeza, quem soprou a dica pro Luciano.

Certeza absoluta.

Até.

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>PEQUENAS DELÍCIAS EM EXTINÇÃO

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Ontem vivi mais uma das (como diz meu irmão, Szegeri, com pungente saudade disso) “manhãs de domingo na Tijuca”.

Sentei-me com bons amigos, que me têm sido vitais, pouco antes das 11h, na gloriosa esquina de Afonso Pena com Pardal Mallet, no BAR DO CHICO, que tem se mostrado, a cada final de semana, um portento.

Brahma mofada, como anuncia a cada pedido o grande Antônio, caipivodka de kiwi e de maracaujá, carne de sol à moda de Cesar Tartaglia, e um almoço dos inesquecíveis no cinquentenário SALETE.

O papo fluia como as águas do rio Maracanã, meu rio, até que ela disse, com os olhos brilhando e emoldurados por uma espécie de orgulho que compreenderíamos mais à frente:

– Sabe que dia desses fui almoçar novamente no Vilarino…

Musa é musa, e fez-se silêncio à mesa.

– Assim que eu me sentei veio à mesa um dos garçons da casa, que não é o que me atende, sabe?

Ela segurava uma garrafinha d´água graças à abstinência quaresmeira.

– Enquanto meu garçom de fé servia-me a taça de vinho de sempre e confirmava meu pedido, o mesmíssimo de costume também, o senhor me disse com os olhos visivelmente marejados: “Senhorita… não se fazem mais clientes clássicos como a senhorita!”…

Ela continuou:

– E ele ficou ali, a meu lado, emocionado, dizendo que reparava, a cada visita minha, que meu pedido era o mesmo, que minha taça de vinho era a mesma, e que isso quase que não existe mais…

Até.

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>JOSÉ SERGIO ROCHA NO PDT

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É com orgulho que vejo meu querido José Sergio Rocha estampado nas páginas do (é verdade…) outrora aguerrido PDT.

Agora cedo, visitando a página do partido criado por Leonel Brizola, vejo que o excelente texto escrito pelo bardo de Piratininga, em Niterói, egresso do Piauí, jornalista maiúsculo, está publicado em sua primeira página.

Vejam e leiam aqui.

Até.

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