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DO DOSADOR

  • Luiz Antonio Simas, meu amigo há mais de 10 anos, meu irmão, meu compadre e o homem que cuida de mim com a competência de sacerdote mais-velho, é um tímido e um modesto, embora os movimentos em torno dele façam parecer o contrário, razão pela qual não viria (e não virá) a público dizer o que eu disse a ele, a pedidos. Aldir Blanc, um de meus orixás vivos, com quem falo com freqüência (os assuntos vão do futebol à política internacional, dos livros à música, das mulheres aos escrotos da vida pública), mandou-me e-mail e pediu que repassasse o recado ao Simas, o que fiz prontamente. Eis o e-mail do Bardo da Muda: “Viu esse? Por favor, mande um tremendo abraço pro Simas. Ninguém está escrevendo como ele. Bj, Aldir.”. Referia-se, o Aldir, ao texto Brasil, um tremendo sucesso, publicado pelo Simas no Facebook. O portentoso texto – brilhante! – pode ser lido aqui. Era o que eu queria lhes dizer;
  • Ainda sobre Luiz Antonio Simas (ele, se quiser, que confirme): há mais de 10 anos, logo que eu o conheci, ainda não éramos íntimos, eu ainda não tinha recebido a honraria de ser nomeado padrinho-de-rua do seu Benjamin, disse a ele e à minha comadre, Candida: “Luiz Antonio Simas, com as proporções e as individualidades devidas e preservadas [tenho horror dessa coisa de sucessor, substituto e outros bichos], vai ser o Suassuna do Sudeste. Vai correr Brasil, de camisolão, cantando e encantando toda a gente que com ele esbarrar.”. Quando Sérgio Cabral (o pai, por favor) apresentou Aldir Blanc e João Bosco em 1972 na série Disco de Bolso, d´O Pasquim, disse algo assim: “Quando o Brasil inteiro reconhecer a genialidade de Bosco e Blanc como a maior dupla de parceiros da música brasileira quero esse mérito, o de ter dito primeiro.”. Cito de cabeça, mas foi algo assim. Com o Simas, podem apostar, vou querer o mesmo mérito;
  • Eis que tem início, hoje, a Semana Santa. Hoje, a Missa do Lava-Pés. Amanhã, a Procissão do Senhor Morto, no Sábado de Aleluia a missa do Fogo Pascal, e no domingo de Páscoa serei um sobrevivente renascido depois da Quaresma, 40 longos dias de holocausto. Não sou católico, quem me acompanha sabe. Mas mora em mim, eternizada, as Semanas Santas da minha infância que, com a graça dos deuses, foi uma zorra na matéria: minha bisavó e minha tia Hidinha, católicas fervorosas, cumpriam a Quaresma, vestiam preto na Sexta-Feira Santa, a casa de meus avós (com quem as duas moravam) era um silêncio agudíssimo em respeito à data. Meu avô dizia-se católico, respeitava o silêncio das duas mas não me recordo dele tão envolvido com a data. Vovó, por sua vez, espírita fanática, tinha certa dó de ver a mãe e a tia ainda tão presas aos rituais da Santa Igreja Católica. Meu tio Carlos Henrique, irmão de vovó, também respeitava a liturgia da mãe e da tia mas gostava mesmo era da umbanda, vestia branco às sextas-feiras (incluindo a Sexta-Feira Santa, o que gerava leve reprimendas de minha bisavó consubstanciadas num balançar de cabeça com os olhos fechados), recebia o Caboclo Tupiara com quem eu trocava altos papos, meu pai depois deu de ser cavalo do Caboclo Tupinambá, minha avó não dispensava um passe do caboclo – qualquer um deles – com um dos livros do Kardec debaixo do braço, meu avô não dizia nada (era um calado) mas fazia o sinal de cruz sempre que passava por uma igreja. Ah, sim, a Penha, que trabalhava na casa de meus avós, tinha um cabelo que ia até a altura dos joelhos e é a primeira e mais remota lembrança de tenho de uma pentecostal fanática;
  • Isso pra não falar da banda paterna. Avós judeus. Minha avó freqüentava, escondida de meu avô, um centro espírita na Praça da Bandeira (moravam na Tijuca). O Clube Monte Sinai era quase que o playground de minha casa, o que significa dizer que a imensa maioria dos meus amigos de infância era judia, que fui a dezenas de Bar-Mitzva em praticamente todas as sinagogas da cidade (o que fez com que, até hoje, eu recite trechos da Torá num ídiche de causar inveja em israelense nativo) e sempre com aquele drama que me acompanha, de certa forma, até hoje: “Eduardo Goldenberg? Judeu, né?”. Daí eu conto toda a ladainha numa tentativa que não cessa de fazer com que eu mesmo compreenda quem sou e que fruto deu esse caldo todo, uma vez que eu me comovo feito o diabo na Semana Santa, choro às escâncaras no Círio de Nazaré, bato cabeça pra Ogum, meu pai, faço ebó quando Ifá manda, converso com minha avó à noite, rezo de mãos dadas com a Morena e vou assim, por aí, eternamente assustado e assombrado como o menino de calças curtas e camisa listrada que renega meus 48 anos de idade.
  • Até.
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O VOLUNTARISMO

Ontem eu almoçava com um queridíssimo amigo na Leiteria Mineira, uma espécie de refeitório de clínica geriátrica por conta da idade média dos freqüentadores e da ausência absoluta de sal na comida, deliciosa por sinal, e enquanto comíamos, ele foi de língua e eu de estrogonofe, conversávamos em tom de lamento sobre a mediocridade que assola o planeta de forma virulenta. Ele, que é de São Paulo e estava por aqui de passagem para arejar a cabeça – a expressão é sua – deu de se queixar do voluntarismo que grassa nas chamadas redes sociais, no Facebook precipuamente. Foi ele começar a falar pare que eu, excitadíssimo, com tudo concordasse. E ficamos, ali, divagando sobre o que temos visto, lido e ouvido, tendo sempre os voluntariosos como protagonistas.

Tentamos desenhar um esquema em busca de uma explicação para tanto voluntarismo e para esse fenômeno que dá ao idiota (apud Nelson Rodrigues) a dimensão de um gênio. Lembramos do reacionário, do genial dramaturgo, que em 1968 lançou a blague que hoje se verifica a olhos vistos:

“De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos ´melhores´. Para um ´gênio´, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.”

Eis que o Facebook é, definitivamente, o caixote azul no qual sobem, alguns várias vezes ao dia, diversos idiotas testando seu poder numérico. E um idiota curte o que o outro idiota escreveu. Um terceiro idiota toma coragem, vê-se refletido na tela diante de si, e ri – “kkkkk” – expressando sua concordância num relinche cibernético.

Um quarto idiota decide “fazer um vídeo ao vivo” – ferramenta que o caixote azul oferece – e começa (notem que quase sempre começa assim): “Oi, gente, eu resolvi fazer esse vídeo…”, e dá de falar as coisas mais sem importância, mostrar sua entendiante rotina para uma platéia de idiotas, e a coisa vai tomando um vulto, uma proporção, num preocupante fenômeno que é efetivamente assustador.

Vai daí que esse coletivo de idiotas passa, então, a produzir uma massa de verdades absolutamente ridículas, pífias, que são replicadas, multiplicadas, encorajando outros idiotas pelo mundo afora e que passam, por conta dessa coragem que vão ganhando (lembrem-se, “em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão”), a patrulhar quem está quieto no seu canto.

Falamos, é claro, das mais recentes patrulhas que pululam por aí: não se pode mais falar a palavra “mulata” sem que alguém se aproxime com o insuportável ar de gênio trazendo debaixo do braço o argumento de que mulata remete à mula, que mulata é isso, que mulata é aquilo e outros bichos. Não se pode mais cantar determinadas marchinhas de carnaval sem que alguém quique diante de você apontando o dedo na sua cara: essa é machista, essa é homofóbica, essa é sexista, essa estimula a violência, essa é assim, essa é assado e outros bichos. A mais recente onda de voluntarismo chegou pra dizer quem pode e quem não pode usar turbante. Haja, haja, haja!

Está muito difícil – e vai piorar.

Volto ao tema em brevíssimo.

Até.

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BLANC 70 ANOS

Aldir Blanc escreveu no prefácio de meu livro, publicado em 2009, pela Casa Jorge Editoral:

“É sempre difícil apresentar o livro de um amigo-irmão.

Os detratores partirão para a fácil lenga-lenga acusatória de excesso de babilaques e lantejoulas. Bom, quebrarão a cara e roerão as unhas de ódio. O presente livro, “Meu Lar é o Botequim”, de Eduardo Goldenberg, fala por si mesmo.

Taqui nesta mesma mesa o Fausto Wolff que não me deixa mentir.

Eduardo Goldenberg é carioca dos ovos, carioca da bunda, da Zona Norte, de blocos e bares, de becos e esquinas, carioca dos países baixos e mostra sua vocação pra disputar, aguerridamente, causas perdidas, sua ojeriza aos mamalufs soltos, aos garotodutos propinados, às Rosas de Maia que destroem o Rio de Janeiro, à lama que envolve as bases de sustentação política do país. No grito contra a escrotidão dos investigados e investigadores das CPIdiotas, daqueles que mantêm a velha ordem dos faraós embalsamados, Edu nasceu dissidente até de si mesmo. Não perdoa hipocrisia e atitudes politicamente corretas, estejam camufladas no futebol, no feminismo, nas estruturas neoverdes ambientoscas, na enxurrada de páginas estruturo-linguarudas de suplementos culturais que tomaram o freio das vã-guardas nos dentes podres.

É triste constatar que não há espaço na imprensa escrita para as broncas de Nei Lopes, Chico Paula Freitas, Ilmar Carvalho, Eduardo Goldenberg…

Mas, felizmente, aqui está o livro, última cidadela da civilização: papo em torno do limão da casa, do caldinho de feijão, dos torresmos e moelas, das porções de queijo ou de salaminho; saudade dos amigos de outras épocas, e copo; muito suor e gelo; mulheres e, eventualmente, porrada.

Por tudo isso, com todo meu afeto, um poema pro Edu.

Pós-Intróito

Estamos passagem de aqui
onde a eternidade é aragem…
Daí, essas garrafas
no fundo das mensagens.”

Na véspera do 02 de setembro de 2016, dia em que o Bardo da Muda completa 70 anos, eu não seria eu se não viesse aqui, ao balcão virtual do buteco, render homenagens a ele. Mais que um amigo-irmão, Aldir, a quem conheço desde 1994 – lá se vão 22 anos! – é um dos Orixás pra quem bato cabeça. Meu confessor, meu confidente, um pouco meu pai, às vezes meu filho, o Excêntrico Sr. Normal (como bem disse Álvaro Costa e Silva, o Marechal, aqui) com quem, invariavelmente, troco telefonemas que podem durar segundos ou um par de horas, é, ainda, meu ídolo. E por isso, e por tudo isso, vê-lo fazendo 70 anos me comove feito o diabo.

A foto abaixo, de 1998, no Bar Lagoa (eu entre Aldir e Tostão), é hoje – me perdoem o lugar-comum – apenas um retrato na parede. Retrato de um tempo em que o Aldir, para sorte da cidade, ainda saía por aí, à noite, rasgando as madrugadas até que confundíssemos todos o alvorecer com o anoitecer e o anoitecer com o alvorecer na busca desesperada de reviver a juventude. Tive a sorte de, inúmeras vezes, colocar ao lado dele, dentro do mesmo barco, realidade e poesia e rir da nossa própria agonia. Bebi muito dessa fonte em busca desse segredo.

aldir, edu e tostão no bar lagoa, 1998

Ainda bem moleque, levado pelas mãos de um professor de química do colégio, conheci (de longe, prestando sempre muita atenção a tudo…) o Aldir no Caras & Bocas, na Tijuca. Eu era, ali, o fã diante do ídolo. A vida, que nos prega surpresas o tempo todo, e eu agradeço diariamente por esse prêmio, levou-me pra mais perto do Aldir. Marco Aurélio, com quem Aldir fundaria a Alma Produções (AL de Aldir e MA de Marco Aurélio) – e quanta saudade eu tenho do Marco Aurélio… – era o namorado da filha de uma vizinha de meus pais. Foi, confesso, amor à primeira vista. Ele, que era Marco Aurélio Braga Nery (e eu sou Eduardo Braga Goldenberg), só me chamava de “meu irmão Braga”. E um dia me disse com seu inseparável cigarro de cravo entre os dedos:

– Você precisa conhecer meu irmão, Aldir Blanc.

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que, pela primeira vez, fui à sua casa, seu bunker, sua cidadela, no edifício da rua Garibaldi onde morava, no primeiro andar, o Moacyr Luz. Cercado por milhares de livros, recebendo os amigos em casa quando isso ainda era rotineiro, Aldir era, ali, o gênio que eu vira, moleque ainda, no Caras & Bocas. E esse convívio, como não podia deixar de ser, rendeu-me as melhores histórias, as maiores maluquices, os maiores perrengues, as melhores festas, e, eventualmente, porrada. Tornei-me seu advogado, derrotamos na Justiça um canalha que pretendia receber indenização por conta de uma verdade dita pelo Aldir numa entrevista, e foi, lhes garanto, a mais divertida audiência que já fiz em mais de 25 anos de carreira. Dentro da sala da audiência, abraçado à indefectível bolsa marrom, nervoso, dirigiu-se à Juíza:

– Posso fumar?

E fumou.

Fui sócio de um bar, entre 2000 e 2005, numa esquina a poucos metros da casa número 257 da rua dos Artistas. Aldir batia ponto sempre que podia. Vivemos, ali, momentos memoráveis, como esse – vídeo aqui –  em que o ainda novato Moyseis Marques (hoje seu parceiro), acompanhado pelo cavaquinho do Gabriel Cavalcante, pediu pra cantar Imperial (de Aldir e Wilson das Neves) pro Aldir ouvir. Ou como esse, Aldir cantando samba-enredo do Salgueiro acompanhado pelo sete cordas do Pratinha no mesmo dia em que filmou, dentro do bar, as cenas para o filme Praça Saenz Peña, em que Aldir fazia o papel de Aldir (aqui).

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Aldir foi enredo do Segura Pra Não Cair, bloco que criamos ali mesmo, dentro do bar. E desfilou, sem corda alguma que atrapalhasse nosso carnaval.

E segue, aos 70 anos, desfilando, ainda que miudinho, mais recluso que nunca, sua genialidade, sua generosidade, sua imensa grandeza que transborda e inunda o Brasil, hoje maculado por um golpe branco que fere a democracia que tem como hino (o Hino da Anistia!) sua obra-prima, O Bêbado e a Equilibrista. Sobre a imensa obra do Aldir, já me debrucei aqui.

O que eu queria mesmo era agradecer, pública e escancaradamente, eu que estou a 3 anos de fazer Bodas de Sangue, a ele por tudo o que ele é, por tudo o que representou e representa na minha vida, por tudo o que representa, ele e sua obra, para o Brasil. Aldir é gênio da raça. O Ourives do Palavreado, como disse Dorival Caymmi. É bom de se ouvir e de se aldir, disse Chico Buarque. É um brasileiro máximo. Uma espécie em extinção. Um homem que sempre, e desde sempre, esteve do lado certo do terreno.

A última vez em que estivemos juntos foi há pouco: eu e a Morena, chegando de Portugal, fomos levar a ele alguns livros que ele me encomendara às vésperas da viagem. Era pra ser coisa rápida – mas com a graça de todos os deuses, não foi. Passamos com ele um bom tempo, sem birita, só jogando conversa fora e ouvindo aquele homem falar – e ele quando fala, meus poucos mas fiéis leitores, há que se fazer silêncio.

Amanhã, 02 de setembro, deveria ser decretado feriado nacional. Porque quando nasceu o filho do seu Alceu e da dona Helena, e é ele mesmo que conta, soprou um vento que traduzia:

– Vai, Aldir, ser Blanc na vida.

Somos homens e mulheres de sorte. Apesar de vivermos num Brasil hoje ferido por uma corja de filhos da puta, somos um Brasil que tem entre seus filhos, e fazendo 70 anos, um homem como ele.

Saravá, Aldir. Meu amor e meu respeito, sempre.

Até.

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A 47ª VOLTA DO PONTEIRO AMANHÃ

Eu estava no domingo passado na esquina do Bar do Chico, depois de ir à feira, e à mesa comigo, o Felipinho e a Renata. Saltou de um táxi, ali mesmo na esquina, uma senhora de – o quê?! – uns 80 anos. Eu disse aos dois:

– Há quantos anos eu não vejo uma anágua!

E bastou eu dizer anágua para que eu sofresse, imediatamente, súbito e arrebatador arremeso em direção ao passado. Lembrei-me, no ato, que estava tendo início a semana do meu 47º aniversário, e me permitam um sonoro puta que pariu diante do número antes de prossseguir. Eu já sou, há muitos anos, um homem em permanente estado de arremesso ao passado, que dirá nos dias em que se aproxima o 27 de abril. Há anos que dou-me o dia de presente, não trabalho. Percorro, nesse dia, as ruas da minha infância numa tentativa, vá lá, de manter viva em mim a chama do menino que fui, sempre muito assombrado (para o bem e para o mal) com tudo o que vi, com o que vivi, com o que comi, com o que bebi, com o que ganhei e com o que perdi. Segundos após pronunciar a palavra anágua, minha tia Idinha, que usava anáguas, deu de afagar meus cabelos enquanto eu conversava com os dois, (mal) disfarçando a emoção que me tomava a alma e o coração. É bem verdade que, aos 46 – quase 47 – um comprimido de Pressat, um de Natrilix SR e uma dose diária de 2mg de Olcadil ajudam a domá-los, a alma e o coração, quase-incorrigíveis. Eu disse quase.

47 anos foram suficientes pra que um incorrigível como eu já não abra mais a boca com tanto orgulho pra dizer: incorrigível. Já não tenho mais a tia Idinha, minha bisavó eu não vejo há exatos 35 anos (e eu tenho, até hoje, uma saudade brutal da dona Mathilde…), meus avós, todos, são fantasmas que estarão comigo amanhã: Oizer, Milton, Elisa e Mathilde, eles e seus brioches de presunto e queijo dos lanches de domingo, lutas de telecatch, doses intermináveis de Teacher´s, maços de Hollywood e de Minister, muito carteado, os olhos azuis do velho Oizer transmitindo um carinho que ele jamais soube expressar, o silêncio permanente do velho Milton, a rudeza da minha vó Elisa em contraste com a doçura cheirosa de minha avó Mathilde, a quem não vejo há quase 6 anos. Irei amanhã, é certo, passar em frente à vila 84 da São Francisco Xavier pra ouvir, do portão da rua, meus próprios gritos de algazarra junto com os gritos do Ricardo, do Renato e do Aurélio, do Augusto e do Camilo, do Silvio e da Pimpa, da Martinha, pra ouvir o ronco do motor do TL, táxi do seu Mário, os esporros intermináveis da dona Dalas e do seu Pereira, e meu avô Milton ameaçando pegar o revólver pra resolver tudo com tiros pro alto. Seu Bizantino, o velho negro dono de um Corcel, há de estar por lá. Vou em busca da vila que não mais existe entre a Heitor Beltrão e a Professor Gabizo, onde moravam meus avós maternos quando nasci. Mas ai dos que duvidarem de mim: ela existe, do mesmo jeito que eu conheci, em mim, dentro de mim – e ainda que apenas para mim.

Já não tenho um de meus irmãos, já perdi três cachorros – Zica, Pimentinha e o Toquinho – mas é o Pepperoni que os receberá amanhã pela manhã, latindo pra quem souber decifrar: pobres daqueles que escolhem morrer em vida. Já perdi uma mulher a quem não vejo há quase 5 anos, mas não me vai causar estranheza se ela passar por mim, n´alguma altura do dia, pra me desejar felicidades. Quantos amigos, meu Deus, eu já enterrei. Uns porque morreram, outros tantos porque a vida se encarregou de desviá-los de mim. Sigo confiando no que cresci ouvindo dos mais velhos, das velhas da família (eram tantas!, e usavam anágua e se abanavam com leques imensos), do meu pai e da minha mãe: nasci anunciado por um caboclo que se fez visível, pela primeira vez, diante dos olhos do meu pai na madrugada de 26 para 27 de abril pra desmentir o médico que, na véspera, confirmara meu nascimento para o começo de maio. O caboclo – mais tarde se saberia, Tupinambá – fez que sim pro meu velho: eu nasceria no dia seguinte, 27 de abril. Minha mãe acordou, fez troça com o que considerou sonho ou delírio do velho, ansioso com o primeiro filho, e o mandou pro trabalho, na REDUC, em Duque de Caxias. Lá chegando o velho teve de voltar. O anúncio lhe fora dado tão logo desceu do ônibus da companhia: teu filho está pra nascer! Sigo confiando no caboclo de quem meu pai passou a ser cavalo.

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Sigo confiando, ainda que meio desconfiado – talvez a idade faça isso com a gente -, que tenho a proteção constante da caboclada. Iya Sandra, que também não está mais aqui, jogou búzios pra mim em meados de 2007 e me disse: você é filho de Ogum, meu filho, mas quem te sopra nos ouvidos o tempo inteiro é Exu. Meu irmão e meu compadre, Luiz Antonio Simas, confirmou, deu-me seu fio de presente com contas azuis, vermelhas e pretas, e que hoje tem o verde-e-amarelo de Orunmilá, que fiz por merecer. Sigo confiando que tenho a proteção constante dos Orixás, a quem devoto respeito e a quem reverencio sempre que devo fazê-lo.

E tudo o que lhes pode soar como lamento – as perdas, a saudade, o tempo que não volta – não é lamento. Até porque a vida transforma tudo conforme a determinação de quem vive. O velho Simas, quando eu andava no baixio, me ensinou, daquele jeitão dele que só quem o conhece sabe como é, a pilar o pilão devagar, com calma e sem pressa.

E foi sem pressa que cheguei – chegarei, é só amanhã e sou de supertições também – aos 47. De casa nova, ao lado da minha Morena, a única mulher possível e que chegou-se a mim da forma mais improvável do mundo – quem sou eu pra duvidar do dedo dos deuses numa hora dessas?! – no inverno de 2011, prenunciando a primavera que começaria 16 dias depois. A mulher a quem amo carregando nos ombros o peso de 47 anos e nas mãos a esperança de uma vida longa, ao lado dela, e a quem dedico meu dia de amanhã (estou escrevendo pra mim mesmo, ressalto).

Uma olhada rápida pra trás e muito a agradecer: a vida do meu irmão, que depois de um susto do tamanho do mundo, está vivíssimo. A vida da minha mãe, que depois de enfrentar a mais filha da puta das doenças está aí, cada vez mais parecida com a própria mãe, minha avó, e vivíssima. Meu velho pai, teimoso como quem a ele deu a vida, mas aí, vivíssimo. Os melhores amigos do mundo e que não preciso enumerar: cada um deles sabe de sua condição de imprescindível pra mim, eu que jamais poupei-me na hora de declarar o amor que me move. Um grande vira-latas, o Pepperoni, presente de Exu, como decretou o Simas. Um monte de afilhados e afilhadas a quem tenho faltado, bem sei, mas andei ocupado demais me rearrumando.

E de  novo, e sobretudo, por ela, Flávia, minha Morena amada, a quem dediquei, cifradamente, Desassossego, em novembro de 2011 – aqui.

Saravá.

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OS COLETIVOS

Hoje, finalmente, cumpro a palavra que empenhei ao Raphael Vidal, o Maluco Fundamental, figura imprescindível para a minha mui amada e leal Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Escrevi, em 07 de março, aqui, que não há nada mais inviável do que um coletivo. Foi publicar isso e ouvir, daqui, as gargalhadas que vieram rolando do Morro da Conceição, atravessaram a Rio Branco nos trilhos do VLT e vieram até o Castelo: era o Vidal, a confissão é dele, gargalhando às escâncaras diante da minha humílima declaração. Hoje, portanto, debruço-me o palpitante tema dos coletivos.

Os coletivos são, nada mais, nada menos, do que grupelhos dedicados a um tema de interesse comum a todos os seus membros. Explico: Aderbal e Adelaide adoram gastronomia. Gastam seus tempos pesquisando sobre ingredientes, sobre a culinária regional, receitas, essas bossas. Até que um deles – digamos que o Aderbal – diz:

– Vamos montar um coletivo?

E há, nos olhos, na boca e na expressão corporal da Adelaide, uma excitação de primeira noite.

– Vamos! – diz lânguida, a Adelaide, tendo quase um surto de umidade.

Daí Aderbal e Adelaide percebem que estão diante de uma olada e criam, assim, num só diálogo curtíssimo, um coletivo de gastronomia. Passam, dali em diante, a assumir nova postura. Encontram o Setúbal, amigo comum. Diz, o Setúbal:

– Opa! Tudo bom?

– Criamos um coletivo! – como cegos e surdos, não ouvem mais nada, não respondem nada, estão integralmente voltados para o projeto (todo coletivo é, também, um projeto).

Eis que o Setúbal saliva, não esconde a inveja e a cobiça e, ele também excitadíssimo, pergunta como fazer para fazer parte do coletivo. E esse movimento, que não cessa, faz com que em – o quê? – 10, 15 dias, esteja criado (e grande, e cheio de adeptos, seguidores e membros) o coletivo que nasceu do desejo comum de Aderbal e Adelaide.

Vai daí que temos, hoje, coletivos de gastronomia, de artes cênicas (teatro, sobretudo), de fotografia, de cinema, de tudo. E há, em todos os coletivos, um enfado criativo que dá dó. E de mãos dadas com o enfado, uma ira incontida contra tudo o que está, digamos, estabelecido há 10, 20, 50, 100, 1.000 anos. A idéia central dos coletivos é repensar o mundo (todos os coletivos, sem exceção, repensam o mundo sem que se mova uma palha no entorno deles). E repensar o mundo para os membros de um coletivo é, obrigatoriamente, contestar tudo, de tudo discordar, vociferar contra tudo e contra todos. Eu seria capaz, sem medo do erro, de dizer que todos os coletivos juntos formariam uma espécie de país imaginário: têm, os membros de um coletivo, essa intenção (sem que ninguém tenha lhes pedido rigorosamente nada) de destruir as estruturas estabelecidas para reerguê-las sobre pilares mais sólidos (pilares mais sólidos é como pigarro para os velhos na boca desses jovens). Há, nos membros de um coletivo, uma arrogância disfarçada de candura; uma fúria disfarçada de pacifismo; lampejos de genialidade que não são nada além de nada.

Notem que os coletivos promovem debates, reuniões, ciclos, mesas, seminários, congressos, ocupações, atos, manifestos, e toda a assistência desses debates, dessas reuniões, desses ciclos, dessas mesas, desses seminários, desses congressos, dessas ocupações, desses atos e desses manifestos são eles mesmos, que se revezam, esquizofrenicamente, no papel de expositor e de público, de debatedor e de mediador, de artista e de platéia, num movimento inviável e incapaz de produzir qualquer coisa que tenha eficácia ou utilidade para além de suas fronteiras (embora sejam, os coletivos, também contra as fronteiras).

Não sei se fui exatamente claro, Raphael Vidal (é para ele e apenas para ele que estou escrevendo). Prometo voltar ao tema em brevíssimo.

Até.

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O CARNAVAL GLOBOLEZA – UM CRIME

Chega ao fim o Carnaval 2016 e (mais uma vez) a constatação é óbvia e urgente: é preciso que a LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba) – com a imposição de uma medida de força por parte do Governo do Estado e da Prefeitura da Cidade – acabe com o monopólio da Rede Globo para a transmissão dos desfiles das Escolas de Samba do Grupo Especial no Rio de Janeiro. As razões são muitas e vou tentar elencá-las para que esse meu manifesto, solitário e apenas meu, ganhe cores de coerência e, quem sabe?, vá ganhando adesões ao longo do tempo.

Antes, uma não tão breve digressão, e me valho aqui do auxílio de dois grande amigos que, cada um a seu modo, pensaram junto comigo sobre essa questão, Rodrigo Gava e Fernando Szegeri. O primeiro mandou-me extenso e-mail e o segundo, com a ênfase szegeriana de sempre, deixou seu comentário aqui mesmo.

É preciso ter em mente que essa é a lógica da Rede Globo (e de todas as demais emissoras, sem a mesma força de penetração, angariada e fomentada durante os mais de 20 anos de ditadura no Brasil): a lógica do lucro pelo lucro, tergiversando um serviço público com vista a interesses puramente mercantis. “Como esse interesse é o lucro”, diz Rodrigo Gava, a Rede Globo precisa de “audiência pra ´vender´ o seu produto.”. E sabemos todos como esse produto – o Desfile das Escolas de Samba – é vendido “por uma conivente e inoperante LIESA”. O que a massa quer, o que a audiência quer, é merda – com o perdão da palavra, usada por R. Gava em seu e-mail. Segue ele: “A audiência, a grande audiência, é a do público de shows da vida, de big brothers e de faustões.”. Essa audiência “quer essa merda toda que se faz e se mostra nos ´desfiles´. A outra grande parte é a da geração fast-food, que quer tudo picotado, tudo muito rápido, tudo muito líquido, como o filósofo Bauman tão bem cunhou.”.

Por isso mesmo essa audiência não suporta ficar 80 minutos vendo o cortejo, “repetido e manjado”, passando pela tela da TV. Há que se notar que, há muitos anos, a transmissão da própria Rede Globo era outra, de outro nível, o que demonstra claramente que a Rede Globo sabia, e ainda sabe, apenas não quer mais que seja assim, pois já não há mais espaço para isso dentro da lógica do lucro, transmitir o Carnaval. Assim, a pequena audiência que sobra, de pessoas que gostam e querem ver o Desfile das Escolas de Samba, – e não o show global – não mais importa e nem vem ao caso, como se essa grande representação da cultura brasileira pudesse não vir ao caso. Pior, continua R. Gava, “dão de ombros, apoiado nos grandes interesses em jogo, para depois ainda zombarem: quer ver desfile, vá pra Intendente Magalhães. É só mais um retrato do sequestro da cultura popular.”.

Fernando Szegeri vai ainda mais fundo. Reproduzo seu comentário, que passa a fazer parte deste texto-manifesto:

“Há mais, meu querido irmão. A Rede Globo porta-se como senhora do Brasil. Na verdade, a Globo – que sempre foi corrupta, chapa branca e autoritária, mas ao menos primava por alguma qualidade na produção televisiva – especializou-se de anos para cá em construir um autêntico SIMULACRO DO BRASIL e enfiá-lo goela abaixo da nação. Com esse simulacro caricato, turvo, inverossímil, banal, pobre, destituído de qualquer valor cultural ou estético, a Globo traveste absolutamente tudo o que toca. Assim, o que é vendido para os olhos do pobre telespectador brasileiro não é o nosso futebol, nem o nosso carnaval, nem o nosso samba, nem os nossos butiquins: são sempre meros espantalhos travestidos. Assim também é, como não poderia deixar de ser, com a cobertura jornalística de qualquer coisa, do esporte à política, do cotidiano às artes. NADA, ABSOLUTAMENTE NADA é como aparece pela lente deformante das câmeras globais; como é narrado pelos seus textos grotescos. Quem já pisou alguma vez num butiquim e vê um butiquim retratado numa novela, por exemplo, sabe exatamente do que estou falando. Assim é com todo o mais. Longe, é claro, de se constituir na origem profunda de nossas mazelas, a Globo, no entanto, com a superdifusão de seu simulacro pan-travestidor, é hoje o fator determinante do contumaz e progressivo alheamento da população brasileira de seus reais problemas, de sua real imagem, da compreensão mínima de seus dilemas e, consequentemente, das rédeas de seus destinos.

Voltando ao Carnaval, não são só as escolas de samba padecem de sua ingerência. O Carnaval de rua pelo Brasil afora é reiteradamente estuprado, retalhado, empobrecido, estigmatizado e descaracterizado pela ´cobertura´ petulante, invasiva e desrespeitosa da emissora. Nos meus vagares intermináveis pelas ruas, presenciei nos lugares mais improváveis intervenções dos repórteres e câmeras globais violando os mais sagrados e fundamentais princípios do Carnaval, quais sejam a espontaneidade, o descompromisso, a horizontalidade, a picardia, a sutileza, a singularidade, o saudável anonimato das multidões. Estão sempre à procura de quem se disponha a uma ´performance´ caricata para o consumo imbecilizado em escala planetária. Eu mesmo, participando de espetáculo promovido e contratado pela Prefeitura de São Paulo, recebi ´ordem´ – para qual evidentemente não demos a mínima – de uma fedelha mal saída dos cueiros para que cantasse mais duas músicas, porque ela ia ´entrar ao vivo´. Aí os ´foliões´ criados e embalados nessa cantilena já há umas três gerações, embarcam na onda e acham que aparecer na telinha é o clímax do Carnaval, a chance de ouro de um brasileiro ´comum´ alcançar a suprema glória, fechando-se, destarte, cá como alhures, o ciclo maldito da imbecilização geral da República.”.

Vamos à análise mais pontual do problema, agravadíssimo no Carnaval de 2016.

globeleza lixo

De cara, dois absurdos inomináveis: por questões de conveniência (a TV preferiu exibir Big Brother Brasil no domingo e na segunda-feira) a Rede Globo deixou de transmitir o desfile de duas escolas gigantes, a Estácio de Sá no domingo e a Unidos de Vila Isabel na segunda-feira. Se a LIESA, os governos e a própria TV vendem o peixe dos desfiles como “o maior espetáculo da Terra”, como é possível simplesmente não transmitir o desfile de duas agremiações que têm torcedores (praticamente todo o bairro do Estácio e o de Vila Isabel) e admiradores em todo o Brasil?

O que leva alguém a vender a exclusividade (eis um dos crimes que a LIESA comete) da transmissão de um evento do porte dos desfiles das Escolas de Samba para uma emissora que, a seu livre alvedrio, decide não transmitir duas das doze agremiações? Mas isso não é tudo.

Durante a transmissão das demais dez Escolas de Samba, o modus operandi da Rede Globo foi o mesmo: os desfiles começavam a ser transmitidos quando as escolas já estavam na avenida há 10, 15, 20 minutos! Dos telespectadores foi sonegado, de todas as Escolas de Samba, um dos momentos mais esperados, o do esquenta, a entrada na avenida, os gritos de guerra. Durante esse tempo, os repórteres escalados pela emissora dos Marinho, todos eles estranhos à matéria (a exceção foi o Milton Cunha, coitado, cercado de beócios por todos os lados), mostravam o sanduíche de mortadela que a dona Iaiá levou pra arquibancada, entrevistavam membros do elenco da Rede Globo, faziam perguntas as mais estúpidas aos componentes famosos deixando de lado a alma das Escolas de Samba, os fundadores, os baluartes, passistas, com seus repórteres invadindo a pista para visivelmente atrapalhar a evolução do espetáculo.

Eu, que tive a sorte de estar na avenida para os desfiles de segunda-feira, só não sofri mais em casa porque assisti ao desfile pela TV (justamente por conta da exclusividade) ouvindo a excelente Rádio Arquibancada (aqui) com narração de Anderson Baltar e comentários de Luiz Antonio Simas e de outras feras no assunto. Mas era doído: enquanto eu ouvia os sambas na íntegra, com som ao vivo direto da avenida entremeado por poucos mas certeiros comentários, geralmente a TV exibia imagens absolutamente desconexas, num estupro do espetáculo, um desrespeito com os amantes dos desfiles (são muitos, são milhões!).

Ao final de cada desfile, dentro de um estúdio montado na Marquês de Sapucaí (o que já é também absurdo), a Rede Globo, então, era mais Rede Globo que nunca: constrangendo componentes das escolas que eram levados à força pra frente das câmeras, entrevistas inúteis, comentários descabidos, um processo de idiotização do telespectador semelhante ao processo que mata, aos poucos, o futebol brasileiro.

É urgente rever essa política. É preciso acabar com o monopólio da Rede Globo e deixar a livre concorrência transmitir os desfiles da Marquês de Sapucaí com suas equipes (que serão seguramente mais competentes que os idiotas da Vênus Platinada), deixando o telespectador fazer sua livre escolha. A LIESA, não muito acostumada ao diálogo, bunker com quem pouca gente tem coragem de mexer sob pena de isso-deixa-para-lá, precisa ao menos sentir a pressão do Poder Público em prol do bem do telespectador, do cidadão, do destinatário final das concessões públicas de rádio e televisão. Há que se acabar com a farra da Rede Globo. Há que se criar uma alternativa para que uma rede de TV possa transmitir o Carnaval para quem ama o Carnaval – com imagens do desfile na íntegra, com comentários (que serão sempre poucos mas pontuais) pertinentes feito por quem entende (e como há gente que manja do assunto por aí…, os já citados Anderson Baltar, Luiz Antonio Simas, Maria Augusta, Fábio Fabato, Alberto Mussa, Aydano Motta, tantos outros), sem firula, sem babaquice, sem idiotices que pretendem fazer do telespectador, perdão pela redundância, um idiota.

O melhor espetáculo da Terra merece. E os aficcionados também.

Até.

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O SEGUNDO BARREADO DE MORRETES

Há coisa de uma semana decidimos, eu e a Morena, fazer – pela segunda vez – o Barreado de Morretes em casa. Como já lhes contara, aqui, em dezembro de 2013 fiz, pela primeira vez na vida, após intensa pesquisa, o prato típico do litoral paranaense, terra que a trouxe pra mais-perto de mim. Ainda morávamos na Haddock Lobo e, por razões de espaço, apenas quatro amigos foram convidados a testemunhar aquilo que considerei um feito: a receita ficou perfeita depois de muitas horas no fogo.

Porque o barreado é um prato que, além de dar muito trabalho, oferece uma série de riscos: são muitos os relatos dando conta de que o caldeirão, durante o cozimento, racha ou explode. A bem da verdade nunca é possível saber a quantas anda o cozimento uma vez que o caldeirão passa o tempo todo fechado e completamente vedado pela massa de farinhas e água, o que significa ainda mais adrenalina pra quem cozinha. É, portanto, pra mim – que adoro cozinhar e adoro desafios – um prato cheio.

Morando num apartamento maior e levando em conta o tanto de promessas que havíamos feito a algumas pessoas, desde 2013, fechamos uma lista de 16 nomes para o II Barreado de Morretes. Foram mais de 24h entre o preparo das carnes e a abertura do caldeirão, um dos ápices do ritual. Sim, porque o barreado é muito mais um ritual do que uma simples receita! A origem do barreado está intimamente ligada à história do Carnaval, significando, lá em seu nascedouro, a abertura do Entrudo, a festa que antecede o período momesco. O barreado, diz a lenda, é símbolo e prenúncio de fartura. De festa.

Dessa vez foram 8kg de carne, valendo portanto a média de 500g por pessoa: 2kg de patinho, e 1,5kg de bola da pá, peito, chã e acém. Muita cebola, muito alho, muito cominho e muito louro.

Todas muito limpas, sem traço qualquer de qualquer gordura, ficaram marinando por 5 horas (água, cebola, alho e louro). Depois foram postas no caldeirão forrado de bacon, em camadas intercaladas por cebola em pedaços, alho picado, louro e cominho (foto abaixo).

barreado 08 e 09 de janeiro de 2016

Às 23h o caldeirão foi pro fogo. Uma hora de fogo alto, duas horas de fogo médio e depois, sobre uma chapa de ferro em fogo baixo, foram mais 13 horas e 30 minutos de cozimento. Uma madrugada inteira acordando de meia em meia hora pra cuidar do barreado (é preciso barrear a panela diante do mínimo sinal de vazamento de água ou de vapor).

Foi, mais uma vez, emocionante retirar o lacre do entorno da tampa e perceber a casa inundada pelo impactante cheiro do barreado, ver as carnes inteiramente desfiadas, e dessa vez a casa cheia bem à moda e à risca do que nos contam os mais-velhos do litoral do Paraná.

Preparar o Barreado de Morretes, que faço segundo a receita que intuí depois de ler mais de 50 versões diferentes (e preparo aquela que é indicada como a original, sem invencões ou novidades), tornou-se pra mim um exercício de paciência e um prazer que só quem gosta de cozinhar conhece. É, de longe, a receita que mais gosto de fazer. E é também uma declaração de amor à mulher que me apresentou o litoral do Paraná, a cidade de Morretes e o barreado, e que – mais que tudo isso – reinventou a minha vida. É pra ela, sempre, que faço e que farei a receita do barreado.

No filme abaixo, registro de Fábio Seixas, o exato instante em que, às 15h30min, abri o caldeirão.

Até.

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