Arquivo do mês: agosto 2014

MEU PAI

A foto que ilustra o texto – “Meu pai” – é significativa: à esquerda, de verde, Marcelo Vidal – meu irmão. A seu lado, de branco, Fernando Szegeri, outro irmão meu, pai de duas de minhas afilhadas, Iara e Rosa. De preto, óculos pendurados no pescoço, o velho Isaac, meu pai. A seu lado, Felipinho, que chama meu pai de pai. E de costas, uma de minhas referências, outro irmão que a vida me deu, meu compadre, meu sacerdote, pai de meu afilhado-de-rua – o moleque Benjamin, elezinho filho de Exu -, filho de um filho de Ogum como eu, nosso pai: Luiz Antônio Simas.

mesa forte na quitanda abronhense

E eu digo que a foto é significativa porque estão ali, à mesa, quatro homens que têm, cada um deles, fundamental participação na minha formação, na minha construção, na minha manutenção, na minha forma maior de emoção como homem. Todos em torno daquele que, em 1969, recebeu o aviso de que eu nasceria no vigésimo-sétimo dia de abril daquele ano – contrariando previsões médicas, as estatísticas das mulheres da família, as contas da tabelinha de minha mãe. Ele, meu pai.

Ele, meu pai, que agora aos 70 anos tem apenas 25 anos a menos do que eu. Isso, em 1969, esses mesmos 25 anos, era um oceano, um abismo, um tempo inatingível, um hiato que fazia de mim o dependente diante do único ídolo – o filho e o pai. O primogênito e o pai. O filho único e o pai. Os anos passaram – e passaram tanto… – e eu deixei de ser o filho único, e eu deixei de ser dependente, e ele deixou de ser meu único ídolo na medida em que fui colecionando ídolos conforme os anos se passavam.

Hoje, do alto dos meus 45 anos, sou cada vez mais um homem assombrado pelos arrancos e arremessos em direção ao passado. E sinto falta das conversas que nunca tivemos (e que nunca teremos, ora bolas!), sinto falta dos gols que nunca comemoramos (ele Vasco e eu Flamengo), sinto falta das confissões que nunca fiz, sinto falta de uma porrada de coisas que não são nada, rigorosamente nada, absolutamente nada diante das certezas que tenho de que sou, hoje e ainda hoje (e para sempre), fruto do sujeito alto, magro, de pernas finas, meio desajeitado, que em 1969, com menos de um ano de casado, recebeu o anúncio de que eu estava pra chegar.

Eu cheguei.

E nunca vou-me embora.

Nem ele.

Porque os nossos liames são frutos de mistérios jamais desvendados e que serão, sempre, celebrados como celebrados foram na tarde que passamos sentados à mesma mesa na Quitanda Abronhense: em silêncio quebrado apenas pelo espocar dos copos americanos, cheios de cerveja, que se batem para dar forma e vida ao que nunca soubemos dizer um pro outro. Nem com os olhos – porque os meus eu fechei, desde o primeiro dia, diante do sopro de seu assovio, na direção dos meus olhos, para que eu dormisse o mais rápido possível.

Feliz dia dos pais, meu pai.

Até.

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ERNESTO E RAUL

Em 24de julho do ano passado eu lhes contei sobre o que senti quando soube da aposentadoria do seu Ernesto, dono do Salão América, na Praça Afonso Pena – aqui. Em 03 de junho de 2011 já havia lhes contado sobre meu arremesso em direção ao passado quando descobri, por ocasião dos meus 40 anos, que no dia 21 de março de 1970 eu cortei o cabelo pela primeira vez, com o Raul, que até hoje faz minha barba e corta meu cabelo  – aqui.

Tenho, por isso, vê-se, profundas ligações com o Salão América, com o seu Ernesto, com o Raul.

Faço, aqui, pequena pausa para breve digressão.

Chorei quando soube da aposentadoria do velho Ernesto. E chorei de susto há umas semanas, e explico.

Cheguei no Salão América e não encontrei o Raul.

No buteco da esquina, a explicação:

– Raul está doente. Em casa. Ordens médicas.

Trêmulo, bati o telefone pro Raul. E do outro lado da linha, a voz rouca talhada depois de muitos anos de muito cigarro:

– Quinze dias em casa, Edu, de molho.

Passado o susto, a frase que me comoveu:

– Mas venha aqui em casa que eu faço sua barba…

Não fui, é claro – por respeito ao descanso do bravo filho de Xangô.

Volto ao que quero lhes dizer hoje.

No dia 19 de março de 2014, quase 44 anos depois do meu primeiro corte de cabelo, pois, estava passando em frente ao Salão América, voltando dos meus (creiam) exercícios matinais, quando dei de cara com o seu Ernesto, à paisana. Era a primeira vez que eu o via desde a aposentadoria e de sua viagem de meses para Portugal. Arremessei-me em direção a ele que, sempre generoso, acolheu-me com um abraço. Gemendo, eu pedia:

– Volta, Ernesto! Volta!

E ele gargalhava (só quem já viu e ouviu seu Ernesto gargalhando saberá do que falo) fazendo que não com a cabeça. Disse que estava cansado, que as pernas não mais agüentavam o dia-a-dia de um barbeiro, até que eu, comovido feito o diabo, implorei:

– Sente-se na cadeira do Raul, então! Apare o cabelo, apare o cabelo! Quero ver os dois craques juntos! Por favor!

raul e ernesto

Ernesto, generoso, português boa-praça, sentou-se na mesma cadeira em que me sentei em 1970. Raul, em êxtase, passou a dar um trato no cabelo do ex-patrão (que lhe passou a sociedade a custo zero!!!!!) e eu ali, diante dos dois monstros, de olhos marejados, fotografando o momento histórico, sofrendo violentos e intensos arrancos em direção ao passado (cheguei  a ver meu avô Oizer jogando carteado na Afonso Pena), bebendo de leve uma cerveja do buteco ao lado pra acalmar o coração.

A Tijuca é minha aldeia e ela sempre me salvará.

Até.

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