Arquivo do mês: fevereiro 2011

COMIDA DI BUTECO 2011 VEM AÍ

Eis que estamos às vésperas do Carnaval e, mantendo uma tradição já de muitos anos, o malfadado festival Comida di Buteco começa a pôr as mangas e a maionese de fora. E quem me lê sabe o quanto eu, desde sempre, sentei a borduna na iniciativa: basta uma clicada aqui e o Google abrirá diversas possibilidades para que você, que nunca leu nada meu a respeito do troço, entenda o porquê de minha aguda implicância com o projeto (escrevi “projeto” e tive ânsia de vômito). Mas vamos em frente.

Antes de continuar a escrever, dêem uma olhada no slogan(nova pausa para nova ânsia) do festival em 2011:

Vou escrever para que o nojo emerja (leiam em voz alta e sintam a boçalidade da idéia): “Eu boteco, tu botecas, nós comida di buteco”.

Em 28 de maio de 2010 escrevi uma carta aberta dirigida aos pilotos do trator de botequins, aqui. O fiz porque – a leitura do texto deixa isso claro – uma das organizadoras do negócio, Sra. Eulália, ligou-me indignada, no dia 13 de maio de 2010, com minhas críticas (todas sempre muito bem fundamentadas, modéstia à parte), ficou de marcar uma conversa olho no olho para que ela expusesse suas razões e nada aconteceu. Ou seja, agiu como agem quase todos os que são criticados: tratam de desqualificar o crítico, as críticas. Não suportam experimentar a não-adulação.

Este ano, em 2011, vai ser mais divertido expôr para vocês o quão maléfico é o festival que se orgulha disso que segue abaixo:

“Em 2008, o concurso entrou no conceituado Guia 4 Rodas (Editora Abril) e passou a ser realizado em diversas cidades do interior de Minas Gerais e em outros estados. Neste ano também, dois novos sócios se uniram ao projeto: Ronaldo Perri e Flávia Rocha, com a missão de expandir o conceito a outras praças.”

Notem bem: o Comida di Buteco é um “conceito”, e isso já diz muito sobre o nascedouro da idéia e seus objetivos.

“Os números atuais do Comida di Buteco impressionam, o evento está presente em 11 cidades e, só em Belo Horizonte, o público participante é estimado em cerca de 800 mil pessoas por edição, com mais de 160 mil votos nos pratos participantes (Vox Populi / 2010).”

Os números do Big Brother Brasil, o maior lixo da recente história da TV brasileira, também impressionam.

“A festa “A Saideira” – que tradicionalmente marca o encerramento e a premiação do concurso – se tornou um dos eventos mais esperados da cidade e recebe mais de 26.500 botequeiros nos dias em que é realizado.”

A festa “A Saideira”, no ano passado, trouxe o Bob´s para servir os otários que conjugam o verbo proposto pelo festival em 2011.

“O Comida di Buteco se tornou também um fenômeno de comunicação. Em 2010, a mídia espontânea do projeto superou o valor de 16 milhões de reais, tendo o Comida di Buteco figurado nos principais veículos da mídia nacional e importantes publicações internacionais, como o NYTimes e La Nacion.”

Basta, não?

Afinal de contas, buteco e New York Times, buteco e La Nación, têm tudo a ver…

Seria cômico se não fosse trágico.

Volto – é claro – ao tema.

Até.

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AINDA SOBRE A DEMONSTRAÇÃO DE LENINISMO

Ontem, aqui, escrevi sobre o choque que senti, ontem mesmo, ao ouvir um jovem comunista dizer, ao telefone, para seu interlocutor (ou interlocutora, ele só dizia “cara” ao se dirigir ao pobre-diabo de outro lado da linha):

– Cara, ela ontem deu uma demonstração de leninismo impressionante!

Pedi a opinião de meus poucos mas fiéis leitores a fim de que eu pudesse, eu que sou um beócio de antolhos nas questões vermelhas, compreender que diabos era aquilo. Fui pouquíssimo atendido, eis que apenas três leitores se dispuseram a me prestar auxílio (sou, e isso me dói, um fracasso de audiência). Mas dentre os três, e sem depreciar um deles (que apenas corroborou o comentário esclarecedor do primeiro), dois monstros por quem guardo intenso e agudo respeito: o jornalista velho-de-guerra, com passagem por todos os grandes jornais do Brasil, meu dileto amigo, José Sergio Rocha, e meu irmão de fé, historiador e brasileiro máximo, Luiz Antonio Simas (recomendo vivamente a leitura de seus comentários).

Ocorre que quero lhes contar outra coisa.

Uma comunista (e não lhe direi jamais o nome, nem à fórceps) escreveu-me ontem sobre o ocorrido – eis um fato espantoso! Dizia, ela também assombrada, que lera – confessou-se minha leitora contumaz – meu texto e que se reconhecera. Disse – e eu cheguei a me coçar enquanto lia – que foi pra ela o telefonema do jovem comunista infestado de lêndeas. E passou a me explicar – pobre coitada – o que havia sido a tal “demonstração de leninismo”. Tirem as crianças da sala antes de seguirem em frente.

Em apertada síntese para que a náusea seja pouca (tudo o que estiver entre aspas terá sido integralmente copiado de seu e-mail): disse-me a jovem, também comunista, que havia uma “manifestação” em determinada universidade. E que ela, e mais alguns “quadros da base do partido”, por absoluto acaso, estavam também na tal universidade. Segundo ela a “manifestação” não contava com mais do que 10, 15 “manifestantes”. Foi quando, então, ela e seus amigos (os tais “quadros da base do partido”), passaram a “intervir” na tal “manifestação” (e ela não me contou do que se tratava a “manifestação”).

Segue o relato: em poucos minutos, mais de 500 alunos desceram, como ratos, das escadarias da universidade (“uma coisa linda”, disse-me a utópica). Os “quadros da base do partido”, então, diante do êxito numérico da assistência, “injetaram forte teor político e orgânico à manifestação”.

Ela valeu-se da expressão “foi uma coisa linda” muitas vezes!

E eis o que eu preciso lhes dizer sobre isso…

Vejam como caminha nossa juventude vermelha! O jovem das lêndeas encantou-se com o que ele chamou de “manifestação de leninismo”. A jovem rubriplúmea, então, explicou-me (ou tentou explicar) o que havia acontecido na “universidade” – o que seria, afinal, a tal “demonstração de leninismo”.

Não entendi patavina!

O que pude concluir do que li, foi o seguinte: a ala “jovem” do PCdoB (formada, quero crer, pelos “quadros de base”) faz um tremendo sucesso entre a juventude brasileira. Afinal, convenhamos, transformar uma fila-indiana de 10, 15 pessoas, numa turba de 500, não é pra qualquer um. O que me fez lembrar do PSOL, claro, uma de minhas obsessões que trago no bolso do paletó: sexta-feira após sexta-feira estão lá, em torno do caixote de madeira que cumpre o papel de palanque no Buraco do Lume para os debates políticos do partido (eles não usam palanques e nem fazem comícios, apenas promovem debates), não mais do que 5, 10 quadros do partido.

Aulas de “demonstração de leninismo”, é disso que o PSOL precisa.

Até.

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DEMONSTRAÇÃO DE LENINISMO

Em mais de uma oportunidade vali-me, aqui, diante de vocês, da seguinte imagem (hoje serei mais detalhista): vou ao espelho, todas as manhãs, e verifico, com certa dose de autocomiseração, o quão próximo da múmia eu estou. Sim, da múmia. Sinto-me velho, caquético, cada vez mais distante da juventude com a qual esbarro nas minhas idas e vindas e cada vez mais admirado com a sapiência de Nelson Rodrigues que, sempre que indagado a respeito de um conselho para os jovens, dizia:

– Envelheçam!

Vou explicar o porquê de voltar ao tema: hoje cedo, a caminho do trabalho, sentei-me ao lado de um jovem. Não fosse a camiseta do PCdoB e eu juraria estar dividindo o banco do coletivo com um membro do PSOL. Escrevi “membro” mas queria mesmo era dizer “quadro”, o PSOL não tem filiados, não tem simpatizantes, o PSOL tem quadros. Vamos em frente, com a descrição do jovem.

O jovem era metade cabelo. E com lêndeas que saltavam à vista de todos, como golfinhos na Baía de Guanabara de priscas eras. A camisa vermelhíssima do PCdoB, uma bermuda jeans que me pareceu rasgada de propósito e chinelos. Assim que me sentei estrilou o celular do jovem. Não era um toque qualquer, um trinado, era o Hino da Une, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. Foi efusivo, o jovem:

– Fala, companheiro!

Muitas gírias, muitas vezes mencionada a palavra “ocupação”, “atividade”, até que houve a frase que me fez quicar na poltrona do lotação:

– Cara, ela ontem deu uma demonstração de leninismo impressionante!

Levantei-me, estava próximo o ponto. E saltei do ônibus carregando nos ombros o peso da mais absoluta ignorância.

Atravessei a Nilo Peçanha e fui ao balcão do café Capital, na passagem para a Erasmo Braga. Dona Luiza serviu-me o café de todos os dias, viu-me mexendo o café num exercício de pura obsessão (não uso açúcar e nem adoçante), batendo a colherinha no pires e disse, observadora:

– Aconteceu alguma coisa, doutor?

Fiz que não com a cabeça.

Fiquei ali – o quê?! – uns 5 minutos com cara de parvo. O quê seria, meu Deus?!, uma “demonstração de leninismo”?

São 18h10min, e estou aqui fazendo este tolíssimo relato com o intuito único e talvez egoísta de buscar ajuda. O que é uma “demonstração de leninismo”?

Quem puder me dar uma pista, por favor, deixe um comentário ou me envie um e-mail.

Serei, prometo, eternamente grato.

Até.

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DEVASSANDO A VIDA DO BALOFO

Arrumei mais sarna pra me coçar. Desde hoje estou respondendo às perguntas de quem me lê através deste endereço, aqui.

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BAR DA BOA, NA LAPA, RJ

Eu nunca publiquei, aqui no blog, textos inéditos de terceiros. O espaço é meu – pombas! – e vai daí que nunca me passou pela cabeça tomar a iniciativa de fazê-lo. Ocorre que na semana passada recebi simpaticíssimo e-mail de uma de minhas poucas mas fiéis leitoras. Disse, a moça, no tal e-mail:

“Caro Edu, leio seu blog há alguns anos. Sou amiga do Vitor, o cara que trabalha na Maré – talvez você lembre – e juntos costumamos ir aos bares que você indica no blog ou mesmo repetir alguns de seus jargões. A coisa é que uma das características que mais me atrai no blog é a forma como você detona um certo tipo de gente que acha que o Astor pode ser chamado de buteco e também, claro, este tipo de estabelecimento – “belmontes” também servem. E daí que ontem tive uma experiência que me causou horror num tal de Bar da Boa – Vitor estava comigo e é personagem no meu relato. O relato segue em anexo e gostaria de, humildemente, pedir que você o lesse, com a intenção mais humilde ainda de vê-lo publicado no seu blog. Nem sei se você publica textos dos outros, mas é que eu o escrevi muito inspirada no que leio na sua página.”

Fiquei – confesso – envaidecido. E quando a Vaidade bate à minha porta eu trato de enxotá-la rapidamente. Bola baixada, reli o troço e gostei. Gostei a ponto de, então, pela primeira vez, publicar aqui um texto inédito que não me pertence.

O texto é de Marianna Araujo, jornalista baiana (de Salvador), torcedora do Botafogo e moradora do Flamengo. E durante a troca de e-mails, disse que “bebe cerveja, porque limão é pra gripe e jurubeba pra azia”.

Ei-lo aí:

TEM BATERIA NO SAMBA. QUE SAMBA?

“Antes de entrar no tema que justifica esse texto, adianto um dado que pode ser útil ao leitor. Lá em casa tem um ditado que é o seguinte: menino e tamanco, debaixo do banco. E eu, como boa filha de milico, respeito e muito a antigüidade. O que quero dizer é que do alto dos meus 25 anos, ainda que seja uma profunda admiradora das ampolas de cevada e dos butecos que as oferecem, me sinto pouco à vontade no papel de “entendedora” de bares ou cervejas. Claro que entre os amigos – que salvo um caso ou outro estão na mesma faixa etária – sempre dá para gastar um tempo comentando uma dada marca de cerveja ou um buteco recém conhecido. Pura bravata. Falta-me barriga e experiência para de fato dominar o assunto que tanto me interessa. Razão pela qual, por exemplo, quando estou na extensão da minha casa – bar Sinhazinha, um dos mais belos pés-sujos do Catete -, mais ouço do que falo. Imaginem vocês que Chicão, acreano e tricolor, bebe lá há pelo menos 15 anos. E o quê dizer de Ricardinho, o homem que só toma cachaça? Todos os dias, pela manhã e à noite, no mesmo lado do balcão. Pior, Rogério, que vem da Gávea diariamente há 16 anos para beber sua cerveja à noite. Este não tem CPF há pelo menos 15 anos. Eles sim entendem do ofício e têm muito a ensinar. Eu, apenas iniciada no assunto, gostaria só de apontar algumas poucas questões que me surgiram ontem, embaladas na cerveja, ao som de – perdoem o termo – Djavan.

A história começa com uma troca de e-mails no meio da tarde. Alguns companheiros de bar em torno de uma questão fundamental para a noite de quarta-feira: onde assistiremos o jogo da seleção? Papo vai, papo vem e nada certo. Estava com um amigo – Capilo, o nome do gordinho – com quem disputo uma corrida interessante: com essa quantidade de torresmo e cerveja por semana, quem de nós dois chegará aos 35? Pois bem, estava com Capilo a caminho de uma reunião na Lapa. Coincidências dessa que apenas São Baco oferece, passando pela Glória, damos de cara com os amigos com quem havíamos trocado e-mail à tarde. “Um sinal, precisamos ver o jogo juntos”. Fomos à reunião com a missão de fazê-la acontecer em 15 minutos. Eles achariam o bar. Um erro, que verão vocês, não teve reparo. Jamais poderia deixar que escolhessem. Ingênuos, se deixariam levar por promessas vãs.

Saio com Capilo da reunião e descubro que estão num tal de Bar da Boa, Lapa, esquina da Lavradio, local mais conhecido como quadrilátero do terror. Ali estão três bares da franquia Belmonte e agora, o tal Bar da Boa. Na sede que já me causava delírios naquele fim de tarde de calor, pensei rápido e conclui: não deve ser tão ruim. Vamos ao bar. E partimos, eu e Capilo, para uma quase-aventura.

A coisa começa na entrada. Chegamos e comecei a procurar os amigos. Um rapaz com pinta de segurança me chama: “senhora, pois não”? Pois não o que? Vim tomar cerveja, ué. Não é um bar? Neste momento chega a – desculpem o termo de novo – hostess, a recepcionista. “A senhora tem reserva, quer uma mesa ou tem alguém aqui esperando”? O susto de ver aquela senhorita em trajes curtos e pretos, com olhos bem pintados, às 18h no horário de verão, deixou-me sem resposta. Capilo, ainda bêbado da noite anterior, permaneceu mudo. Passados uns minutos, balbuciei: tenho amigos ali. Acho que ela não acreditou muito e ficou me seguindo dentro do bar, até que eu achasse a mesa. Passado o susto, traz a gelada e o copo que o jogo já havia começado.

Daí em diante foi só surpresa. O bar tem muito estilo. Televisões bonitas, copos personalizados, cardápio de metal que vem gelado, uns cartazes antigos da Antártica decorando, um cooler em formato de surdo, banquinhos feitos com engradados de cerveja. Tudo muito “contemporâneo”, funcional e todos esses jargões arquitetônicos. Nada contra, inclusive. Mas pera aí, me chamaram para o Fasano ou para um bar na Lapa?

Sigamos em frente. Passada uma hora, anunciaram: vai começar o samba. No Bar da Boa tem samba todo dia. Olho para o centro do bar, onde ficaria o suposto grupo de samba e vejo uma bateria e um teclado. Pensei: hoje não deve ser samba, deve ser aquele horror chamado “música ao vivo”, começa com Djavan e termina em Zeca Pagodinho. Os amigos me repreenderam: não, é samba mesmo! Tive que levantar e ir ao banheiro para não passar mal ali mesmo. Interessante foi observar que lá uma das paredes é “decorada” com instrumentos musicais. Tantã, reco-reco, cavaquinho, violão, repique, chocalho. No Bar da Boa os instrumentos do samba decoram a parede e o samba mesmo se faz com teclado. Com exceção do violão, nenhum dos instrumentos da parede estava na música que era tocada – sim, porque o pandeiro que o cara da percussão balançava, não pode ser chamado de pandeiro e nem ele de pandeirista (não me ocorre um nome melhor).

Essa é questão do Bar da Boa. A sensação que eu tive é que nada era o que parecia e havia uma confusão nos termos usados para designar tudo que ali havia. Aliás, este é um equívoco recorrente nos dias de hoje. Mas, enfim, não é minha intenção entrar numa análise na forma como o mercado se apropria da tradição e da nossa cultura para transformá-las em nada mais que mercadoria – o tantã na parede é a metáfora perfeita. E essa coisa toda me veio na cabeça quando a moça que cantava. Depois de mandar Jorge Aragão, Sombrinha e Candeia, cantou Djavan – em ritmo de samba, claro. E daí foi ladeira abaixo, Tim Maia em ritmo de samba, Roberto Carlos em ritmo de samba e qualquer-coisa em ritmo de samba. Fiquei confusa ao tentar compreender o que acontecia ali – o que eu via, ouvia e comia simplesmente não tinha identificação com o que eu conheci ao longo da vida como samba e croquete, por exemplo. Com alguns copos de cerveja as idéias clarearam e eu entendi tudo: óbvio que não poderia haver identificação. Aquilo ali não era croquete, o que se ouvia não era samba e, como não podia ser diferente, o Bar da Boa, nem com um caminhão de condescendência da minha parte, pode ser chamado de bar ou buteco.

Agora uma anedota da noite. Capilo me chama com o cardápio na mão:

– Que isso aqui no cardápio? – havia foto do tal item.

– Parece caldo de feijão. Embaixo o que diz? – respondi.

– Aqui diz: caldo de feijão acompanhado de croutons. O que é isso?

– Crouton – disse, puxando o sotaque em francês. Croutons, porra. Pão.

– Aaahh, então porque não colocam caldo de feijão com pão ou então, torradas?

Rimos e fomos ler o que mais dizia no cardápio. E era assim – espero que estejam sentados: caldinho de feijão, com croutons e gominhos de laranja. Capilo:

– Gominhos de laranja? Gominhos? Que porra é essa?

– Laranja, ora.

– Gominhos? E cadê o torresmo?

Conclusão: o pão era crouton, a laranja era gominho. Quer dizer, nem o caldo de feijão era caldo de feijão. E aquele que quiser ir a um bar no Rio de Janeiro, que passe longe do Bar da Boa.”

Até.

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HOJE É DIA DE MARIANA BLANC

Hoje é dia de Mariana Blanc, minha comadre de fato e de direito, a quem carinhosamente chamo de Greta Garbo da Tijuca – nasceu pra ser estrela e guarda mistérios insondáveis por trás dos olhos ligeiramente estrábicos que ela, sempre muito elegante, prefere dizer que são como são por conta da presbiopia. Filha mais velha de um grande amigo, um ídolo, um de meus orixás vivos, é mãe da dona dos cílios mais lindos que meus olhos com ptose (também tenho minhas manias, pô!) jamais viram. Foi a ela – “Pra Mariana” – que Aldir dedicou seu “Rua dos Artistas e Arredores”, de 1978. E a ela – “Pra Mariana, de novo” – também que dedicou “Porta de Tinturaria”, de 1981, duas obras-primas das letras cariocas – como ela, de certo modo.

Devo à Mariana, mais que a Milena, minha afilhada mais velha, o suporte de minhas noites de terror entre março e junho (algo asssim) de 1999, quando o Capela me assistia perdido em busca do norte depois de uma turbulenta separação. O que não deixa de ser irônico. Ela, furiosa que só ela, piscando aqueles olhos estrábicos (são estrábicos, pô!) e me acalmando com sua doçura indizível que poucos vêem (porque ela, sábia, pouco mostra de sua doçura).

Teve Milena cedo, ainda moça, e a Milena é o retrato e o atestado da grandeza de minha comadre. Minha menina não se cansa de dizer – ontem mesmo disse! – o quanto é impressionante a doçura da moça dos cílios mais lindos – e é assim porque foi gerada, criada, mimada, educada e protegida pela minha comadre.

A Mariana é branca e samba feito preta. Mora na Tijuca e é uma vizinha de subúrbio. Adora, por diletantismo, uma grossa pancadaria – puro teatro. Prefere dizer que bebe “breja” – cerveja todo mundo bebe. Manda “bicos” em vez de “beijos” – comum demais. Emite sinais, permanentes, de seus dotes, de seus motes, e o que já apanhou da vida – como apanhamos todos nós – não é brinquedo. Escreve que é uma beleza – seu blog, aqui – e ler o que minha comadre escreve é como ler a bula do que lhe vai na alma.

Nesses mais de 20 anos de convívio já perdemos amigos a quem considerávamos irmãos. Dividimos as dores – Marco Aurélio e Fernando Toledo ainda doem – mas fomos sempre capazes de, seguindo a lição de seu pai, erguer nosso copo ao humor. Cantamos juntos, formamos uma dupla fadada ao fracasso, mas somos um sucesso nas mesas de botequim que, vez por outra, dividimos por aí.

Pois na manhã desse 08 de fevereiro, diante da xícara de café preto (como a alma de minha comadre, preta como a mais preta baiana do nosso Salgueiro), ergo bem alto o copo imaginário da “breja” mais gelada em sua homenagem. Mirando os olhos da menina nos ombros do pai, crava-se em mim uma certeza: são, até hoje, os mesmos olhos. Os mesmos olhos que, sombreados na fotografia, escondem o estrabismo (é estrabismo, pô!). Só não escondem – muito pelo contrário – a gaiatice da mulher que faz anos hoje. São os mesmos olhos. E o mesmo sorriso, diga-se.

Beijo, minha comadre. Amo você.

Até.

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O EDSON – CONFISSÕES

Esse exercício que faço constantemente aqui no blog, de voltar ao passado pelas espirais da memória, me é duríssimo – e explico. Em primeiro lugar porque ele me joga na cara o peso de meus 41, quase 42 anos: é cada vez mais doído voltar à infância, cada vez mais emocionante reviver os cenários e os personagens que compõem minhas histórias. Em segundo lugar porque os efeitos colaterais do arremesso ao passado são muitos e difíceis de administrar: dá-me como se fora uma epidemia, e eu começo a acreditar (eis um prato cheio para um psicanalista) de verdade que estão todos vivos, que ainda uso calças curtas, camisa de listras e mais um sem fim de pequenos problemas. Vamos em frente.

Eu não sei se vocês repararam, mas quando escrevi o texto do dia 02 de fevereiro – aqui – citei, de passagem, o nome de uma das professoras de mamãe. Pois seu nome ficou ecoando em torno de mim e eis que saltou, num átimo, também diante de mim, o Edson. Eu acabo de escrever “Edson” e já começo a rir. O Edson, que foi padrinho de casamento de meus pais – meu Deus, o Edson ainda está vivo? Não sei. – foi protagonista, ao longo da vida, das mais inacreditáveis histórias que eu jamais ouvi. Era sempre assim: papai chegava do trabalho. Mamãe, ainda da cozinha:

– Meudi, sabe a última do Edson? – Meudi é como mamãe chama o papai.

E ele, excitado, largando a pasta sobre a mesa:

– Conta, conta, conta!

Não quero mais lhes contar do Edson. Vou lhes contar sobre meu pai – ele é um personagem e tanto. O Edson fica para outra altura.

Vocês todos que me lêem sabem que vovó, mãe de mamãe, morreu em dezembro – lhes contei aqui. O que quero lhes contar aconteceu durante o período em que vovó ficou hospitalizada. Vamos porém, antes, a alguns detalhes.

Papai é um homenzarrão, altíssimo, forte, e ainda assim é um poltrão olímpico. Não pode ver sangue, que desmaia. Não agüenta visitar ninguém no hospital – e a palavra “hospital” já lhe dá náuseas. Não suporta – por fobia – os trancos mais violentos, digamos assim. Mamãe, por quem papai é completamente apaixonado, vive cercada de cuidados por parte do velho, e sabendo disso vamos em frente.

É evidente que papai não foi, dia nenhum, visitar vovó. Ia, diga-se, até o corredor do quarto fazendo companhia para mamãe. Mas não entrava. Vovó, uma mulher iluminadíssima e compreensível, disse, dia após dia (foram poucos, graças aos deuses), a mamãe:

– Tadinho do Isaac, eu sei que ele não suporta hospital.

Quando eu entrava, mudava pouco:

– Tadinho do seu pai, eu sei que ele não suporta hospital.

Pois bem. Vovó não estava bem, tínhamos pouco tempo para a visita, e decidimos sair para almoçar no primeiro dia em que as notícias não foram muito boas – eu, papai e mamãe.

À mesa, já mais relaxados, papai disse:

– Minha filha… – o “minha filha” era a certeza de que vinha emoção pelo caminho.

Alisando as mãos de mamãe, olhos ligeiramente marejados, ele soltou o petardo:

– … você não se preocupe, viu? No dia em que sua mãe… é… no dia em que sua mãe… hum… Minha filha, no dia em que sua mãe bater as botas, eu cuido de tu…

Quando ele pronunciou “bater as botas” eu e mamãe explodimos numa gargalhada que o deixou constrangido. Éramos nós, mãe e filho, diante daquele gigante tentando fazer poesia. Mudamos o rumo da prosa e deu-se o mesmo roteiro no dia seguinte.

Ele pediu sua dose de Red Label, pigarreou, piscou os olhos numa velocidade absurda – outro sinal de que lá vinha emoção – e disse, com as mãos de mamãe entre as suas:

– Minha filha, eu já te disse… Quando sua mãe… é… Bem… Quando sua mãe… Minha filha, quando sua mãe descansar em definitivo…

Outra explosão. O mesmo constrangimento. Mudamos o rumo da prosa e deu-se tudo como dantes no dia do terceiro almoço. Papai, escolado pelas falas dos dias anteriores, inspirou muito fundo, pôs as mãos nas orelhas da mamãe, diante dele, e disse, de sopetão (ali eu tive a certeza de que ele ensaiara a nova performance):

– Minha filha, quando sua mãe atravessar para o outro lado…

Não conseguiu, pela terceira vez, completar a frase. Nesse dia ele reagiu. Explodiu:

– Vocês querem que eu fale o quê?! Quando ela morrer?!

Eu e mamãe rolando no chão do restaurante.

Passaram-se mais uns dias e eis que vovó foi oló.

Coisa de umas semanas depois fomos todos jantar na casa de meus pais – eu e meus irmãos.

E durante o jantar, o momento solene depois de um pigarro circunspecto de meu pai:

– Gente… Tenho uma coisa pra contar pra vocês…

Houve um burburinho de risos contidos. Minutos antes, abrindo os trabalhos à mesa, mamãe havia proposto um brinde à memória de vovó, estávamos todos emocionados. E meu pai, sério:

– Prrrrr…

Pequena pausa. “Prrrrr” é o som que ele emite quando quer dizer “porra”. Mas como papai não fala palavrão na frente de mamãe, sai “prrrrr” mesmo.

Voltando.

Ele disse:

– Prrrrr… Como se não bastasse a morte da dona Mathilde…

Houve um entrelaçar alucinante de olhos. O que vem por aí?, era a pergunta em neon na testa de cada um à mesa.

– Eu perdi a eleição ontem. Não fui reeleito síndico… – disse, sorumbático.

Deu-se uma explosão de risos, soquinhos sobre a mesa, uivos de tanto que se ria, e papai ali, tadinho, achando que ninguém compartilhava sua decepção com a derrota da véspera.

Até.

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