Arquivo do mês: março 2012

AINDA OS ASSOMBROS

(pra minha mãe, Maria Goldenberg)

Em 29 de novembro de 2011 escrevi Os assombrosaqui – e lá eu disse:

“Daí dei de divagar, de digressionar, e não tenho feito outra coisa, e cada vez com mais afinco, com mais apuro. Sou, de uns tempos pra cá, funcionário dedicado e exclusivo a serviço de mim mesmo, patrão implacável a exigir do empregado empenho máximo. Quantas vezes – esse, o foco de minha divagação depois de ouvir o Tom – nos surpreendemos diante desse susto, desse assombro, desse desassossego?

Não estou nem a falar do déjà vu, também corriqueiro: falo de algo mais concreto (porque mais evidente, embora inexplicável), mais intenso, mais bruto. Algo tão intangível quanto a saudade do que não vivemos ou, o que pode ser ainda mais angustiante, a saudade do por vir, algo que Vinicius de Moraes sugeriu quando escreveu “essa mão que tateia antes de ter”.

O que fazer diante desses assombros? O que fazer e como administrar essa angústia do querer-viver o que não se justifica pelos parâmetros quase sempre mesquinhos que utilizamos para balizar o que sentimos, o que fazemos, o que produzimos? Tom Jobim, ali, parecia assombrar-se com a beleza da melodia por ele composta dias antes – daí a blague que fez.

Tudo muito confuso – reconheço. Idéias lançadas, sem ordem, sobre o criado-mudo imaginário a meu lado.

Mas que fique aqui, como registro – para que eu volte ao tema e às minha reflexões. Fiquem, por enquanto, com este assombroso registro jobiniano.”

Volto, pois, hoje, ao tema.

E quero, nesse texto de hoje que talvez seja mais um através do qual me debruço sobre o tormentoso tema, me ater especificamente sobre esse “algo mais concreto (porque mais evidente, embora inexplicável), mais intenso, mais bruto. Algo tão intangível quanto a saudade do que não vivemos ou, o que pode ser ainda mais angustiante, a saudade do por vir, algo que Vinicius de Moraes sugeriu quando escreveu “essa mão que tateia antes de ter”.

Conheci, no dia 09 de julho de 2011 – mais que conhecer, a senti, como nunca – a dor. E foi uma dor – eis-me aqui, de novo, exibindo minhas vísceras, minha alma, nesse exercício ainda incompreensível para mim mesmo – tão intensa, tão violenta, tão castradora, que num primeiro momento vivi a experiência do torpor absoluto (o que fez com que eu fosse, nas primeiras semanas depois do trauma, um arremedo de mim mesmo). Vi-me, entretanto, aos poucos, de volta à realidade que, evidentemente, não me era familiar. Fui um estranho que a tudo e a todos estranhava. Dentre tantas experiências que a dor também trouxe, a que me traz agora pra diante do monitor, justamente o mote do que quero lhes dizer hoje.

O assombro – tudo me era um assombro. Tudo passou a ser um assombro. Eu mesmo era um assombro só.

E vai que daí, na esteira desse assombro, vêm as saudades. Notem: o meu assombro era o mesmo assombro da criança, um assombro com cores de falsa novidade – porque ainda que dele (do assombro) não me lembrasse, eis que a minha memória não alcança aquele menino de tenra idade a ter medos e assombros diante de tudo e de todos, não me era de todo inédito (o assombro é sempre o mesmo). As saudades me eram novas, essas, sim.

Eu passei a ter, também, saudade de tudo o que eu tinha vivido e que eu julgava enterrado pra sempre (inclusive dentro de mim). E eu passei a ter saudade do que eu ainda viveria se me fosse possível viver. Porque a vida me pareceu inviável e a saudade me parecia perene, doída, tatuada, como se preenchendo o espaço que me fora arrancado à espera da cicatriz capaz de suprir a ausência dos membros amputados. Os membros amputados deixaram à mostra os tecidos, os músculos, os ossos, e eu fui vivendo, ou querendo viver (por necessidade) a experiência (mais uma) de uma regressão que me levasse ao nada, a antes de mim mesmo.

Refazer o caminho é tarefa dura e ao mesmo tempo regeneradora. Dura, porque ainda que o retorno seja aliviante é também uma espécie de carimbo, de atestado, de ratificação de uma nova realidade – não, você não estava sonhando. E regeneradora porque perceber-se capaz de andar sozinho, porque reconhecer noutras mãos uma segurança que se julgava perdida, porque saber-se vivo – sim, você está vivo – é redentor. Milagroso, até.

Até.

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SARAVÁ, MULHERES MINHAS!

Amanhã, 08 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher – um dia que presta-se a homenagear as mulheres que batalharam para que o mundo fosse (e que ainda batalham para que seja) menos hostil a elas, a comemorar as grandes conquistas das mulheres no decorrer do curso da História, a marcar novas lutas, novas batalhas, um dia para sonhar novos avanços no campo político, social e econômico. Só que estamos no Brasil, meus poucos mas fiéis leitores, e eu estou no Rio de Janeiro… e as coisas por aqui têm sempre uma faceta diferente, que nos marca, que nos individualiza, que nos diferencia – razão pela qual o 08 de março acabou virando, por aqui, um dia para louvarmos as mulheres – essas grandes guerreiras, transformadoras, essa força-motriz que ao menos a mim comove de maneira brutal.

Em 03 de setembro de 2011, num rasgo, sem qualquer ligação com qualquer data específica, fiz uma homenagem a várias mulheres que me cercam, aqui (e que reitero, linha por linha). Ocorre que hoje, por conta do 08 de março (e eu, me antecipando um pouco, talvez seja mais lido do que seria se publicasse amanhã, quando antevejo um sem-fim de homenagens a elas), quero erguer, de pé, copo erguido à mão direita, um brinde às mulheres que moram em mim, sustentáculo de mim mesmo, às mulheres que cercam e que me fascinam desde a mais tenra idade.

Seria, vocês hão de convir, tarefa impossível – sou farto na matéria (em 08 de março de 2006 também tentei o exercício, vejam aqui)! Venho de uma família marcada pelo matriarcado (em maio de 2005 exibi minha santíssima trindade, eu, o bendito fruto entre as mulheres – aqui) e as mulheres, desde há muito me são mais-que-familiares.

Quero, entretanto, antes mesmo de descer a lenha na memória pra fazer minhas homenagens, erguer um brinde a uma única mulher, a uma mulher específica, uma que merece, talvez mais que todas (creio ser desinfluente dizer que falo sob minha ótica, nunca é demais explicar, há sempre um boçal pra erguer o dedo acusatório em nossa direção…): Íris Pureza Miranda, mãe da Dani, a mulher que tem nos olhos – com os quais ainda não consigo me deparar sem sentir a fisgada da saudade em forma de olhar – toda a força que um homem jamais poderá almejar ter. A Dona Sá, que é como eu a chamo (Dani a chamava de Sá), segundo o meu particular calendário (sou um homem atado a datas, a marcos etc.), viverá, amanhã, o primeiro 08 de março sem uma de suas filhas por perto – e ela merece, por isso, todas – e todas serão poucas – as homenagens do mundo. Quisera eu poder, amanhã, dar-lhe de perto um abraço, um beijo em seu rosto, para dizer a ela que foi graças a ela que eu pude conhecer, ver de perto, sentir até, a mais bonita expressão de amor nos olhos de uma mãe – e amor de mãe, meus poucos mas fiéis leitores, é amor de mãe. E eu digo a mais bonita expressão de amor porque eu vi, ali, em seus olhos pequeninos, a beleza da dor, a beleza da esperança, a beleza da fé, a beleza da resignação, e até mesmo a beleza da revolta, da angústia, que fazem dela uma mulher gigantesca, tão desproporcional à baixinha que ela é. Não bastasse ter sido a geradora da mulher que me ensinou a sorrir, a mulher que a criou, foi também minha mãe quando precisei dessa faceta, minha confessora e minha confidente. Feito o registro (e abaixo, ilustra este texto um lindíssimo momento entre mãe e filha), vamos em frente que é preciso, sempre e permanentemente, erguer o copo ao humor.

Sigo evocando as mulheres que merecem meu beijo, hoje.

Saravá, Magali, minha irmã, minha comadre, saravá, Maria Helena e Ana Clara, saravá minha sobrinhas, minhas afilhadas amadas, saravá, Sandra, Sonia, Mamaia e Rita – saravá, todas as Pureza, todas! Saravá, Thaís, saravá! Saravá, minha mãe amada, Mariazinha, olhos cheios de carinho e mãos cheias de perdão para comigo – perdoe-me, minha mãe, se precisei ir sozinho ao fundo do poço, com a certeza de que não me faltaria você, nunca. Saravá, mulheres que me antecederam, saravá, Mathilde, Hilda, Alzira, Mathilde de novo, saravá, Ana, Ethel, Anita e Elisa – salve! Saravá, essa pequena mulher que há de saber, quando chegada a hora, o quanto ela é amada: saravá, Isabel, e saravá pra sua mãe, Roberta, a quem amo profundamente, detentora de tantos segredos meus… Saravá, Milena, e esses seus cuidados, e esse seu carinho, e essa quase inversão de papel entre o padrinho e a afilhada… Saravá, pequena Helena… e que seu pai ouça meus apelos – quero vê-la! Saravá, Iara, minha sereia, dona de olhos de azeviche que me comovem. Sarava, pequena Rosa, bailarina do dindo… Saravá, Marcela – por tudo e por tanto, tanto já dito, redito, escrito e pro infinito -, saravá, Sonia, saravá, Lelê… como eu gostei de revê-la no sábado passado! Saravá, Lu Guerreira, saravá, Maria Paula, saravá Lina, e eu jamais vou cansar de dizer que aprendo muito, mesmo estando diante do silêncio dos seus olhos que falam alto. Saravá, Ju Freitas… eu nunca – nunca! – vou me esquecer das flores que você me mandou em outubro do ano passado… nunca! Saravá, Flavinha Calé, por tudo e pela mão estendida diante do meu primeiro grito – obrigado, querida. Saravá, Stefania, comadre querida, irmã que escolhi, por tanto colo, tanto cafuné, tanta compreensão, e saravá, Grazi, por tanto riso, tanta falta de juízo, tanta lindeza, linda, linda, linda pra Tijuca! Saravá – não pode faltar – Adele Fátima, saravá, Tarcisa, a mulher dos seios de mármore! Saravá, dona Gloria, tanta saudade, já, sabia?, saravá, Andréa, prova efetiva de que o tempo é só o tempo, é só o tempo, é só o tempo, a quem reencontro do mesmo jeito, ainda que de longe, mais de 20 anos depois, saravá, Candinha, que me deu de presente, na condição de afilhado-de-rua, o pequeno Benjamin… Saravá, Katita, saravá, Rosa, saravá, Bianca, criação maior da mãe-estrela. Saravá, Leinha, tão paciente, tão cuidadosa, saravá! Saravá, tantas moças, tantas mulheres tão doces, muitas a quem sequer conheço pessoalmente… saravá Carol Lobo, saravá, Janice Ascari, Inês Baptista, Telma Christiane, Renata Petta, Aninha Santos, Samia Helena, saravá, Luiza Fecarotta, saravá, Sylvia Araujo, Sylvie Boechat, saravá, Monica Araujo, gente que sabe encurtar distância valendo-se do afeto! Saravá, Renata, a comunista mais doce que eu jamais conheci – obrigado por nosso Carnaval, Rê. E saravá, Flavinha, a quem eu já disse o que eu nem mesmo sei dizer. Eu ia dizer, também, um saravá pra minha psicanalista (claro, é uma mulher). Soaria mal?

Se escapou-me algum nome – e seguramente me escapou! – perdoem esse incorrigível que vos escreve.

Até.

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OS DENTES DE MINHA AVÓ

Vejam bem uma coisa, vocês que me lêem. Vira-e-mexe eu me valho da expressão “arremesso violento em direção ao passado”. Geralmente, quase sempre – sempre, eu diria – estou me referindo à sensação absurda, quase-mágica, que experimento quando dou com uma foto minha, bebê, criança, adolescente, já – eu, às vésperas de completar 43 anos de idade, tenho cada vez mais esses arremessos. Pode lhes parecer apenas uma brincadeira para definir o que muitos de vocês chamariam de saudade ou mesmo de nostalgia. Isso seria, se fosse de fato apenas isso, extremamente reducionista. Porque o arremesso violento em direção ao passado a que me refiro, meus poucos mas fiéis leitores, é mais que isso. Infinitamente mais que isso. Mais grave que isso. Mais intenso que isso. E muito mais bonito que isso. Vou às minhas digressões em busca de ser compreendido e a fim de prosseguir nessa batalha diária, nesse lufa-lufa incessante e doído que é o exercício de exorcizar os anjos e os demônios que moram em mim.

Se eu realmente sofro esses arremessos diante de uma foto minha, antiga, de um encontro com um parente, por exemplo, como aconteceu quando encontrei-me com o Alexandre um dia desses (relembrem aqui), se esse arremesso é capaz de produzir em mim, de forma muito nítida, os cheiros que me levam aos cenários para os quais me transporto, se ouço as vozes dos fantasmas com os quais convivi, vocês façam uma idéia do que sinto ao me deparar com uma fotografia de há séculos – como a que ilustra este texto.

A foto é da década de 40 (portanto, de mais de 30 anos antes de eu vir ao mundo). Nela estão, na casa em que viviam meus bisavós – Mathilde e Eugênio, e ele eu sequer conheci – à esquerda minha tinha Linda, Carlinda para ser mais preciso, e à direita minha avó Mathilde, tendo minha tia Linda sua filha Maria Vitória no colo (minha madrinha, a quem não vejo há mais de 30 anos) e minha avó, mamãe – Mariazinha.

A foto me dá febre (e se vocês duvidam de mim, lamento profundamente não poder lhes mostrar o mercúrio do termômetro na casa dos 37 graus). E na busca enlouquecedora da razão da febrícula, me perco: pode ser porque minha avó me dá uma saudade tremenda, ela que foi oló em dezembro de 2010, como lhes contei aqui em 07 de dezembro de 2010. Pode ser porque não vejo minha tia Linda há mais de 30 anos, porque sei que ela está ainda viva, porque sei que sofre de Alzheimer e que por conta disso, ainda que eu supere a aridez do caminho que eventualmente me levaria até ela, ela não lembraria de mim e isso me causaria uma dor profunda. Pode ser porque não vejo minha madrinha há mais de 30 anos, e nem mesmo sei se ela ainda é minha madrinha (não, não é), mas é uma hipótese a se considerar. Pode ser causada, a febre, por conta da imagem de minha mãe ainda bebê, vestindo um vestido branco belíssimo como o que nunca vestiu a filha que eu não tive, com laço de fita nos cabelos e com uns sapatinhos que – vejam vocês como sou parte de uma família de obsessivos pela memória – mamãe guarda até hoje numa das estantes da sala de sua casa, eles que receberam um banho de cobre para que ficassem preservados para todo o sempre. Pode ser porque vejo, atrás das duas irmãs, na fotografia, meu tio Beneval e meu avô Milton – também já mortos.

Olho, olho de novo, tiro a temperatura, ouço a voz das primas que nunca mais se falaram, ouço a gargalhada de minha avó, ouço a voz da tia Linda, e antes de prosseguir quero lhes contar um troço. Vamos a uma breve pausa.

Sábado passado, como lhes contei aqui, houve a festa em comemoração à memória do Estephanio´s, na casa de meu irmão. Pois bem. Estava eu sentado à mesa, era cedo ainda, quando vejo chegando duas mulheres e três adolescentes, descendo a ladeira que liga o portão ao jardim da casa. Disse-me o Fernando, meu irmão:

– Não sei quem são. Você sabe?

Ele estava de frente. Virei-me, senti o frêmito e disse:

– Ana Paula e Carla. As crianças não sei quem são.

Vejam: Ana Paula é filha da Maria Vitória, eu também não a via há mais de 30 anos. Carla é filha de meu tio Carlos Henrique, meu tio Hique, filho de minha bisavó Mathilde, irmão de minha avó, e os adolescentes eram filhos da Ana Paula. Daí eu, que já estava em transe por conta do arremesso que a simples realização da festa causava, deixei-me levar pelo turbilhão do tal arranco. Estranhíssimo, quero lhes dizer, ouvir aquele “oi, primo”. Não era exatamente a presença delas que me tirava dali em direção a sei-lá-pra-onde. Era minha bisavó, que pairava sobre nós, sabe-se lá se satisfeita com aquele reencontro, era minha avó, também presente, era aquele cheiro insuportável de hortelã, das pastilhas de minha bisa, misturado a um cheiro de talco, que me tiravam do eixo. Ana Paula bem que tentou um diálogo, e só eu sei a força que fazia, olhando para pontos distantes dali (disso bem me lembro), para não sair dizendo as frases desconexas que me vêm à boca numa hora como aquela. Era o que eu queria, por enquanto, lhes dizer. Voltemos à fotografia.

Nada do que vislumbrei como sendo a causa do aumento abrupto da minha temperatura era, de fato, responsável pela febre. Eu tinha febre (ainda tenho, enquanto escrevo) por conta dos dentes de minha avó. Notem bem: são dentes horríveis, amarelos, enegrecidos. Vovó fumava. E eu não tenho essa imagem dos dentes de minha avó, em mim. Amarelos, em relação à minha avó, só os azulejos de seu banheiro, o mesmo que testemunhou minha descoberta do gozo com a Adele Fátima, meu primeiro contato com a quiromania (lhes contei sobre isso – inclusive sobre a cor dos azulejos  – aqui). Vovó, quando morreu, usava dentaduras (e era, confesso, uma dentadura belíssima, vovó tinha um sorriso belíssimo, vovó era doce como a mais doce das avós). E esse não conhecer seus dentes amarelos me causa arrepios absolutamente incompreensíveis.

Em apertada síntese, às vésperas de meus 43 anos, tenho aguda saudade de minha avó e de seus dentes amarelos. Amarelo me lembra também um girassol. E girassol me remete, de imediato, não a Van Gogh, como a grande maioria de vocês deve ter imaginado. Mas ao catavento que tem dentro o que há do lado de fora do meu girassol. Sou eu, meus poucos mas fiéis leitores, com saudade de minha avó, pedindo a ela um sustenido e me deparando com esse sorriso bemol, amarelado, que me dá essa febre incompatível com o momento que vivo, de febril saudade (me basta a febre da saudade, eu não preciso que minha temperatura suba). Mas é sempre assim, quando vem chegando abril.

Sou um sujeito entorpecido por cada um dos abris que já vivi. E enquanto tomo um analgésico pra afastar de vez essa febrícula inconveniente, tomo também meu chimarrão, que tem na cuia um risco também amarelo, pensando em quem me trouxe sol (amarelo) para amainar a sombra de tantas ausências.

Até.

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ESTEPHANIO´S, A FESTA

Eis que finalmente chegou o grande dia. No último sábado, dia 03 de março, no Portão Vermelho (aqui), reuniu-se a turba que, durante muitos anos, reuniu-se dia após dia, noite após noite, no Estephanio´s Bar, na esquina da rua dos Artistas com a Ribeiro Guimarães. Aqui, em texto de janeiro de 2012, você pode ler um bocadinho sobre a história desse fenômeno que fez história naquela esquina – legendária por tudo o que aconteceu naquele pedaço da zona norte da cidade.

É na saudade – já disse o poeta – que tudo o que amamos sobrevive.

Pois bem. Deu-se que meu irmão teve a idéia de, mais de cinco anos depois do encerramento das atividades do Estephanio´s, que ficava onde hoje funciona uma filial do Bar do Adão, reunir toda aquela gente em torno de uma festa com o bar como tema. E bastou a idéia vir à tona para que muita gente passasse a ansiar, com a ansiedade de uma mãe de primeira viagem, pela chegada do grande dia. E eu queria lhes contar uma coisa, passada a festa: foi, a noite, um êxito absoluto. Falo por mim e falo pelas mais de 150 pessoas que subiram a serra de Santa Tereza: tudo correu exatamente dentro da expectativa que, sei, cada um guardava.

Foi incrível ver que aquilo que plantei, ao longo da semana passada e que soou como pilhéria pra muita gente, foi colhido nos jardins do Portão Vermelho. Eu sabia – sabia! – que a reunião de toda aquela gente produziria uma espécie de surto coletivo, de arremesso violento em direção ao passado, e eu sabia que cada um dos presentes, cada um dos privilegiados presentes, veria o tal “espírito do Estephanio´s” riscando sua pemba imaginária naquele chão. Pois teve de tudo: como nos velhos tempos, não sobrou bebida pra contar história. Bebeu-se toda a cerveja, todo o uísque, todo o vinho, toda a cachaça à venda. Estivesse cheia de vodka a piscina do Portão Vermelho e aquilo se transformaria num aquário, já alta madrugada, com gente fazendo roncar o fundo da piscina – tamanha a sede, daquela gente! Dançou-se muito, riu-se muito, emocionou-se muito, e eu vou – de novo, mais uma vez – correr o risco de cometer algumas injustiças omitindo o nome de um, de outro, mas eu quero deixar registrado aqui o meu agradecimento a cada um, as minhas parcas e confessionais impressões da noite (me perdoem se soarei modorrento).

Eu cheguei ao Portão Vermelho por volta do meio-dia para preparar o caldinho de feijão que seria servido à noite, e de cara já agradeço ao Fernando, meu irmão, à Lina, minha cunhada (a quem chamo de “nora” com alguma freqüência durante minhas sessões de psicanálise, o que diz muito sobre mim), ao Blas e a papai e mamãe que estavam também, desde cedo lá. Sem eles a festa não teria acontecido. À Jô, pela mão na cozinha. Ao Zezinho, que era garçom do Estephanio´s e que foi tratado, durante a festa, como uma entidade, uma aparição – ele que foi convocado, em caráter de urgência, para dar ainda mais coerência a tudo. Aos quatro primeiros que dividiram mesa comigo (depois não sentei-me mais!): Felipinho, Kadu, Andréia e Drica. Pequena pausa.

Fefê deu de apresentar assim, a Drica:

– Oi, essa é a Drica, ex-mulher do Dedeco.

Fez isso – o quê?! – duas, três vezes, até que foi advertido pela mulher:

– Fernando, não é melhor dizer Drica, apenas?! Por que esse ex-mulher do Dedeco, o tempo todo?

Era – foi ao que eu atribuí – já conseqüência do arremesso em direção ao passado que a todos conduziu pra trás.

Obrigado a Lelê Peitos (e velho-me do apelido consagrado no bar), ela que compareceu depois que convoquei uma tropa de choque para retirá-la de casa, já que a Lelê anda caseira demais. E obrigado também ao Zé, seu marido, paciente me vendo chorar diante da mulher, fazendo a ela pequenas e comovidas declarações de amor e gratidão. Obrigado Betinha e Flavinho (sempre, sempre, sempre presentes!), Vidal e Denise (Vidal fez fotografias, tocou guitarra, tocou gaita e ainda cantou, craque), Felipão e Regina (de volta, de volta!), Dalton e Alessandra, André e Marcelo, Mauro e Vanja (e obrigado pela garrafa de medovača, queridos!, recebida e imediatamente dividida com muita gente que, como eu, ficou alucinada com a bebida sérvia), Ruivinha e Itamar, Cacau e Ângela (salve, a Tijuca!), Zé Colméia e Bianca, Guerreira e Mauro, Duda e Ricardo, Rafa e Tito, Carmen e Isabel, Cacá e Vera, Deyse, Manguaça, Maria Paula, Rob, Juju Vovó, Marcy, Dedeco, Márcio Branco, Rogerinho, Índio, Wagner, gente que, a despeito dos rumos que a vida seguiu, não perdeu a capacidade de buscar a tal emoção que a saudade provoca naqueles que sabem que é nela que – é inevitável voltar ao poeta – tudo o que amamos sobrevive.

Até.

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AINDA O RIO DE JANEIRO

Escrevi ontem uma humílima homenagem aos 447 anos da minha mui amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, aqui. Alguns comentários me deixaram profundamente emocionado – todos deixando muito explícita a paixão que desperta, naquele que aqui vive ou que aqui chega, a cidade-mulher. E quero, hoje, nesta sexta-feira que se anuncia esplendorosa – há, no céu, como diria Luiz Carlos da Vila, um azul do próprio céu se admirar – debruçar-me um pouco mais nos encantos do Rio de Janeiro.

Eu costumo dizer, com alguma freqüência, que o sujeito que não nutre desmedido amor pela terra em que vive, pela terra em que nasceu, é um sujeito no mínimo estranho. Ocorre que esse amor é atávico – eu diria obrigatório, prova de caráter e de gratidão. Há, de fato, lugares tão inóspitos, tão hostis, tão anti-lugares, que exigir do residente ou do domiciliado esse sentimento representaria crueldade elevada à categoria de tortura.

Já o Rio de Janeiro, meus poucos mas fiéis leitores…, o Rio de Janeiro é um caso à parte. O Rio de Janeiro é – como dizer? – a pátria-mãe (escrevi mãe e lembrei-me das minhas sessões de psicanálise). Na mais ampla acepção da palavra: o Rio acolhe, recolhe, o Rio adota, o Rio encanta, o Rio dá de mamar, o Rio nina, faz dormir, o Rio é. Isso. O Rio é e isso basta. Vamos a algumas digressões (e me perdoem, desde já, os clichês inevitáveis).

Quantas vezes já se falou sobre o arroubo que causa chegar de avião nessa terra? Muitas. E serão sempre poucas. Quem pode cansar de avistar, de cima e de longe, o Corcovado de braços abertos sobre a Guanabara? As praias, o verde, a zona norte, o Maracanã, o Pão de Açúcar, o Cara de Cão, os Dois Irmãos? Desde o alto, como se descêssemos dos braços estendidos do pai em direção ao colo da mãe, a cidade nos promete um aconchego que só conhece quem passa por aqui. E é preciso, para que tenha ares de absoluta autenticidade – de precisão do início ao fim – o que estou a lhes dizer, que eu fale de mim – e assim você que me lê poderá dimensionar o amor e a paixão que me unem, de forma fusionada, à cidade do Rio de Janeiro.

Breve pausa, antes.

Escreveu, a Olga, nos comentários deixados ontem:

“Eu tenho tanto orgulho dela, Edu, que, quando fora do Rio, encho a boca pra dizer que sou carioca. Um orgulho besta mesmo, quase infantil. Sabe aquela historinha de “eu tento ser humilde, mas a cidade não deixa” …”

Rigorosa verdade (e acho graça dela ter se valido da expressão “quase infantil”, que me remete de primeira à mãe, que comparei à cidade). Não há carioca, vivo ou morto, que não tenha, nos bolsos, permanentemente, esse orgulho besta e essa sensação de que é impossível ser humilde diante da condição que temos todos os que vivemos aqui. Há, em todo carioca, vivo ou morto, esse sentimento agudo do pertencimento – e que se confunde a ponto de inebriar o carioca. Somos felizes porque vivemos aqui, porque nos sentimos donos de uma gleba no litoral, porque temos a impressão de que ajudamos a moldar nosso relevo, a erguer nossas montanhas, porque as ruas são nossas, as praças são nossas, as calçadas são nossas, e essa confusão de sentimentos entra em ebulição e o que evapora (que é o que respiramos, aspiramos) é justamente esse orgulho. Voltemos.

Vivo na Tijuca, na zona norte – minha terra, minha aldeia, meu pago. Aqui nasci, na Ordem Terceira da Penitência, na rua Conde de Bonfim, bem em frente ao morro do Borel. Desceram, meus pais, a Conde de Bonfim, e minha primeira taba foi na rua Barão de Mesquita, quase na esquina da São Francisco Xavier, na lateral do tradicionalíssimo Colégio Militar (onde fui batizado depois de ter sido circuncisado por um rabino, vão tomando nota, no oitavo dia). Dali, mudamo-nos para a São Francisco Xavier, número 90, primeiro no sexto andar e depois no segundo – em frente ao Orsina da Fonseca, quase em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, às margens do rio Trapicheiro (foi quando conheci Tarcisa, a mulher de seios de mármore). Meus países eram as vilas nas quais moraram meus avós – sempre na Tijuca. Mudamo-nos, anos depois, para a Professor Gabizo, entre a Morais e Silva e a General Canabarro, a poucos metros do Maracanã. Foi quando casei-me pela primeira vez e – horror dos horrores! – exilei-me na Lagoa. Dirão vocês:

– Mas na Lagoa?! A Lagoa é linda!

É. De fato é. Mas eu me senti, durante quase cinco anos, como um desterrado, um apátrida, um triste longe da pátria-mãe.

Mudei-me de novo – e de vez! – para a Tijuca. E vivo, na Tijuca, o Rio de Janeiro em estado bruto (vou lhes contar).

Estou cercado de botequins. Vou a pé ao Maracanã. Muitos de meus amigos são meus vizinhos, todos muito por perto. Faço a feira dos domingos também a pé. Estou, tanto de metrô quanto de ônibus, a pouco mais de 20 minutos da praia de Ipanema, da Barraca do Mineiro, entre a Farme de Amoedo e a Vinícius de Moraes. Estou a menos de 15 minutos do Centro da cidade, da livraria do meu coração, do meu escritório, estou a 45 minutos, uma hora no máximo!, da agradável região serrana (Petrópolis, Teresópolis, Itaipava, Pedro do Rio…), chegar na Estação das Barcas é um pulo, Niterói e Paquetá ficam logo ali. Em 20 minutos estou na Floresta da Tijuca, em Santa Tereza, em pouco mais de meia-hora chego no subúrbio, e ainda dou-me ao luxo de poder dizer que estou quase na esquina da Haddock Lobo com a Matoso, onde toda a confusão começou, como cantou Tim Maia – aqui.

Definitivamente, eu vivo no melhor lugar do mundo.

Até.

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RIO DE JANEIRO, 447 ANOS

Uma das primeiras coisas que fiz hoje cedo ao acordar foi ler o sempre imprescindível Histórias Brasileiras, desse brasileiro máximo, meu mano Luiz Antonio Simas. E com o texto Os mais velhos do Rio nosso ilustre professor – o Simas dá aulas impressionantes até quando dá um simples bom-dia – relembra o pega pra capar que foi a conquista das terras da Guanabara e a conseqüente fundação da cidade, que deu-se quando os portugueses, através de Mem de Sá (cuja ossada fica guardada na rua onde moro, na Igreja dos Capuchinhos), mandaram criar um arraial no sopé do Pão de Açúcar, em primeiro de março de 1565 (leiam aqui).

Faz hoje, portanto, 447 anos, a minha cidade.

Não tenho sequer uma mísera partícula do conhecimento que tem, da visão histórica da fundação e do desenvolvimento da cidade, o bravo tupinambá de olhos claros que é Luiz Antonio Simas, bugre indomado, hoje mais manso por conta do nascimento de meu afilhado-de-rua, o pequeno tupinambá Benjamin, que chegou ao mundo e a estas terras de São Sebastião do Rio de Janeiro 446 anos e 20 dias depois do marco de fundação de nossa aldeia. Mas quero lhes falar de meus encantos, de olhos cheios d´água, por essa cidade-mulher que me encanta e me assombra desde que nasci, 403 anos e 361 dias depois do marco de fundação da mesma aldeia que acolheu, anos depois, o menino Benjamin.

Sou – quem me lê sabe – um apaixonado pelo lugar em que vivo. Pela cidade de amor e ternura que tem mais doçura que uma ilusão, mais bela que o sorriso, maior que o paraíso, maior que a tentação, cidade notável, inimitável, maior e mais bela que outra qualquer, cidade sensível, irresistível, cidade do amor, cidade-mulher, e salve Noel Rosa e Vadico, autores dessa maravilha que ilustra este texto!

Cidade que apalpo e farejo, desde menino, com a sede e com a curiosidade do menino que pela primeira vez ancora no corpo da mulher amada. Cidade que faz da permanente subversão um modo de vida. Cidade das camisas abertas, peito ao vento, dos pés descalços, da Praça XV e das pedras pisadas do cais, do Maracanã (derrubem o Maracanã, remodelem o Maracanã quinhentas vezes e o Espírito do Maracanã permanecerá ali, enterrado como sapo de macumba – salve, Nelson Rodrigues!), do Clube Pau-Ferro e dos sambas do Irajá, de Madureira, do Mercadão, da Portela e do Império Serrano, de Oswaldo Cruz, do Cafofo da Surica, da ilha de Paquetá, do morro do Salgueiro, regado a cada chuva pra dar alento à zona norte, do bairro de Vila Isabel, do boulevard 28 de Setembro, da fábrica de tecidos, de suas feiras, seus mercados a céu aberto, da zona portuária, da Gamboa, da Praça Onze, dos morros que nos cercam, das muretas da Urca, do Dois Irmãos e do pôr-do-sol mais bonito do planeta, do velho Centro do Rio, da rua do Carmo, Uruguaiana, Ouvidor, pontes de safena pra tamanho amor, salve Aldir Blanc! Da Tijuca, minha aldeia, da floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, das calçadas cheias de gente, de muitas esquinas, muitos bares, muitas mesas nas ruas, da rua Bariri, de Olaria, do velho estádio de arquibancadas inimagináveis, geometricamente improvável, de Bangu, de Ramos, do Catumbi, do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça, de São Cristóvão, da Quinta da Boa Vista, do glorioso Figueira de Melo, do bairro do Lins, onde viveram, durante uns anos, meus avós, suas vilas, suas casas, seus terreiros de macumba, do Grajaú, da Grajaú-Jacarepaguá, da Mesa do Imperador, da Vista Chinesa, de São Conrado, da Estrada Velha, do Alto da Boa Vista, da Barra da Tijuca (que vista de cima é belíssima, a antítese de seu chão anti-carioca), de seus paralelepípedos, do Morro da Conceição, da Pedra do Sal, da pedra do Arpoador, do costão do Leme, das praias do posto 1 ao Pontal, da Baía de Guanabara, e são tantos, meus poucos mas fiéis leitores, são tantos pontos de luz, são tantos encantos, tantos… que eu teria de passar sei lá eu quanto anos aqui, diante do monitor, lhes contando sobre os encantos dessa cidade-mulher que, à moda de uma mulher, tem segredos inescrutáveis.

Por isso, e por tudo, salve o poeta Paulo Emílio da Costa Leite que, quando compôs Lápis de Cor, fechou o samba com este verso: “Amor, eu queria te dar a Tijuca e o Rio de Janeiro”. Desejar o Rio de Janeiro pra alguém, eis aí a maior declaração de amor que pode haver.

Salve, São Sebastião do Rio de Janeiro. Salve!

Até.

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