Arquivo do mês: setembro 2009

>CELEUMA NA BLOGOSFERA

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Recebi ainda há pouco, de um de meus poucos mas fiéis leitores, José Augusto Dias, uma notícia quente, quente! E eu, preciso do início ao fim, não apenas fui em busca de informações sobre a coisa (que já me fora sinalizada, ontem, por meu compadre Leo Boechat) como também a divido com vocês a partir de agora.

Vamos aos fatos.

Um blog, o RESENHA EM SEIS, dedicado a apresentar “resenhas de filmes, CDs, DVDs, livros, shows, botecos, restaurantes e programas de TV, sem enrolação e em seis linhas ou menos” (a apresentação é deles), sentou a borduna, no dia 20 de setembro de 2009, no BOTECO SÃO BENTO, quando publicou o texto BOTECO SÃO BENTO (O PIOR BAR DO SISTEMA SOLAR). Mantendo a promessa de mandar seus recados de forma curta e direta, publicaram:

“Depois da Faixa de Gaza e do Acre, este é o pior lugar do mundo para você ir com os amigos. Caro, petiscos sem graça e, principalmente, garçons ultra-power-mega chatos: você toma dois dedos do seu chopp, quente e azedo que nem xoxota nos tempos dos vikings, eles já colocam outro na mesa. E se você recusa, eles ainda ficam putos. Só tulipadas diárias no rabo para justificar tamanha simpatia no atendimento.”

Grosserias e baixíssimo nível à parte – o que, a despeito da opinião de quem não me conhece, não faz exatamente meu estilo – o recado foi dado: os caras não gostam do bar, não gostam do serviço do bar e é isso, apenas e tão somente isso, que emerge do recado.

Eu, por exemplo, faço questão de dizer, NUNCA fui (com a ênfase szegeriana) e não gosto. Para mim, basta a apresentação feita no site do próprio bar (aqui):

“Bateu a nostalgia? O Boteco São Bento resgata o clima dos bares da cidade do começo do século. A casa virou point obrigatório dos descolados na feijoada de sábado e nas tardes de domingo.”

Como eu também não suporto gente descolada, JAMAIS (com a mesmíssima ênfase) porei meus pés lá dentro. Vejam mais sobre mais uma mentira em forma de bar, aqui.

Eu digo, sem medo do erro, “mentira em forma de bar”, pois essa praga já infesta a cidade do Rio de Janeiro há muito tempo. São inúmeros os bares, e deles já cansei de falar aqui no BUTECO, que se fingem de populares na forma e que não têm, no conteúdo, sequer a sombra do verdadeiro espírito do bom e velho buteco carioca. Feito o não tão curto intróito, vamos em frente.

A FOLHA DE SÃO PAULO noticia, hoje, que os proprietários do bar (investidores como os mesmos que destroem baluartes cariocas para erguerem monumentos ao mau gosto), enviaram uma notificação extrajudicial nesta terça-feira, dia 29, por conta da tal crítica publicada no blog (vejam a notícia da FOLHA, aqui); a notícia não deixa claro se a notificação foi endereçada ao GOOGLE (que mantém o blog no ar) ou aos donos do RESENHA EM SEIS (o que é, para o fim a que se propõe o que quero lhes dizer, desinfluente). Fato é que os empresários querem a imediata retirada da crítica do ar. Fizeram, na minha humílima opinião, uma tremenda besteira. Mais que uma besteira, agiram com a mesma truculência com que agiu um de seus gerentes (vejam, no final deste texto, um vídeo bastante elucidativo no que diz respeito ao modus operandi do bar, que não me parece exatamente descolado).

Vocês podem ler, na íntegra, a notificação aqui.

Da leitura de tudo isso, depreendo eu que, mais uma vez, a grande celeuma deve-se, mais que tudo, aos covardes que se valem do anonimato. Ao que tudo indica, membros dessa canalha covarde se valeram do manto obscuro do anonimato para, em nome do BOTECO SÃO BENTO, escrever diversos comentários no RESENHA EM SEIS, não autorizados pelos verdadeiros sócios da sociedade DINAMITE ITAIM CHOPERIA LTDA. – aliás, nome que vem bem a calhar diante da explosiva situação.

Basta que o dono (ou os donos) do RESENHA EM SEIS filtre os comentários anônimos.

Mas nada pode deles retirar o sagrado direito de emitirem sua opinião sobre o bar, sobre o chope do bar, sobre os preços do bar, sobre o atendimento do bar. Atendimento que, vejam vocês mesmos, não me parace nada cortês.

Na medida do possível, vou acompanhar o furdunço. E mantenho vocês informados.

Até.

PS1: o vídeo acima foi retirado do ar.

PS2: publicaram outro…

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>ENTREVISTA COM O HOMEM DE BEM

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Simplesmente sensacional a sacada de meu querido mano Bruno Ribeiro que, atestando (desnecessariamente, diga-se) sua qualidade maiúscula de jornalista, publica hoje entrevista com essa eminência parda que infesta o Brasil. Leiam aqui.

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CARURU, A RECEITA

Anteontem, domingo, 27 de setembro, foi dia de São Cosme e São Damião, dia das crianças, das visíveis e das invisíveis, dia dos erês, dia de festa no Brasil que ainda resiste e insiste em ser brasileiro, macumbeiro, festeiro, Brasil por inteiro e sem vergonha alguma.

Preciso lhes contar, antes de qualquer coisa, do olhar que está, ainda, dentro de mim. Distribuindo doces, ao lado de meu mano Felipe Quintans, vi um par de mãozinhas negras estendidas em direção à janela do carro e uns olhos de azeviche, bonitos de doer e brilhando, pedindo um saquinho de Cosme e Damião. Uma única mão, peluda, deu um tapa na pequenina mão da criança e o homem de terno, seu pai, com uma Bíblia debaixo do braço, disse, entre dentes e colérico, um estúpido “não, filha!” em direção a nós. Partimos deixando pra trás os olhinhos brilhantes e marejados diante da intransigência e da ignorância daquele homem, o anti-crioulo. São os pentecostais, meus poucos mas fiéis leitores, que pululam por aí esfaqueando o Brasil e suas mais caras tradições. Mas vamos ao que interessa.

Preparei ontem, com a ajuda de uma porção de amigos queridos, um caruru na Tijuca, no meio da rua, para que nosso domingo fosse perfeito (como de fato foi). E quero dividir com vocês, mantendo uma tradição do BUTECO, a receita do caruru que estava – modéstia à parte – delicioso.

Quem me lê, sabe. Cozinhar é antes de tudo, um ritual. E o ritual começou no sábado de manhã, bem cedo, quando fui, na companhia de Felipe Quintans e Luiz Antonio Simas, comprar os ingredientes na Feira de São Cristóvão. Vão tomando nota! Receita pra 30, 40 pessoas.

Compramos 5 quilos de quiabo, um vidro de 500ml de azeite de dendê, 2 gengibres graúdos, 5 pimentas dedo-de-moça (das gordas!), 2,5kg de camarão seco defumado, 1kg de camarão salgado, 5 cebolas grandes, 2 kg de amendoim com casca e 1kg de castanha de caju. À noite, em casa, já ouvindo Mariene de Castro cantar pros erês, assei os amendoins e deixei esfriar, no forno mesmo.

Domingo, cedinho, fui à feira com Diego Moreira e Luiz Antonio Simas comprar o resto dos ingredientes, fresquinhos. Na barraca do Fernando, atendido como de costume pelo Fábio, na Vicente Licínio, compramos 2 maços de cheiro verde, um de coentro, e na peixaria do Vicente, o maior peixeiro do planeta, 2 kg de camarão.

Mão na massa!

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

Descascamos os amendoins, já na base da Original geladíssima, diante do PETIT PAULETE, glorioso buteco na Barão de Iguatemi. Fui à cozinha, acendi o defumador pra incensar o ambiente, processei os amendoins e as castanhas de caju. Numa travessa grande, reservei a farofa que resultou do troço. Depois, processei os camarões defumados (depois de bem lavados), reservando a massa, cor de telha molhada (e cheirosíssima!). Logo depois, o mesmo processo com os camarões salgados, também bem lavados, o que gerou uma espécie de purê de consistência pastosa. Reservadíssimo.

Com o auxílio do Paulete e do Fábio, cozinheiro da casa, cortamos em rodelas os quiabos, depois de bem lavados, ligeiramente postos de molho na água fria, secos posteriormente e reservados numa panela grande. Importante deixar sete quiabos inteiros – mistérios e regras da cozinha brasileira que não ousei desrespeitar.

Ralei os gengibres, piquei as cebolas grosseiramente, o cheiro verde, o coentro e as pimentas dedo-de-moça (reservei duas, pra decorar o prato). Tudo separadinho à espera do sinal verde.

A cozinha, a essa altura, já tomada por um cheiro indizível e pela música toda ela consagrada à festa. Zeca Pagodinho, João Nogueira, Mariene de Castro, Maria Bethânia, curimba da boa, e abri o vidro de azeite de dendê.

E tome cerveja!

Dada a largada!

Numa panela bem grande, despejei quase metade do azeite de dendê, acendi o fogo médio e deitei a cebola sobre o azeite. Com uma colher de pau, fui mexendo bem devagar observando a festa de cheiros e cores, a cebola ganhando o dourado do dendê, a panela fumegando e a criançada em festa em órbitas invísiveis a olho nu.

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

Quando as cebolas já estavam bem douradas, coradas, transparentes, joguei a farofa do amendoim e da castanha de caju, ao mesmíssimo tempo. Mexi, mexi, mexi bem devagar, abaixei um bocado o fogo, fazendo com que o azeite se incorporasse, sem pressa, à farofa. Que aroma, que aroma, que aroma!

Quando anunciava secar demais, a massa, eu despejava um bocadinho mais de azeite de dendê, à moda Caymmi.

E sem pressa, sempre, à moda baiana.

Enquanto eu cozinhava, o couro comia do lado de fora. Os amigos chegando, a cerveja saltando estupidamente gelada – Brahma Extra, Heineken, Original… – e a expectativa de que a molecada chegaria junto pra nos dar o axé que buscávamos todos, ali naquele canto aprazível da Tijuca.

Eu, com meu inseparável pano de prato no ombro, suava dentro daquela cozinha que me remetia à velha São Salvador e sua culinária absolutamente fantástica!

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

O próximo passo?

Despejar na panela a farofa dos camarões defumados. Um espetáculo de cor!

O caruru vai ganhando corpo, vai ganhando cor, vai ganhando cheiro, e é imprescindível não parar de mexer, oi, que é pra não embolar!

O fogo é mantido baixo e, a cada sinal de secar, azeite de dendê na veia da panela.

A colher de pau tem de mexer fundo, no fundo, tem de cavucar os cantos da panela, tem de recolher o azeite que fica na beirada e é preciso, sempre, que se dê um gole na cerveja mantida gelada no copo. Faz parte, faz sempre parte. Eu, que cozinho frequentemente com uísque, não abri mão da cerveja, e apenas da cerveja, durante o preparo do caruru, que fiz rezando – preciso confessar.

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

Próximo passo?

Despejar todo o quiabo picado dentro da panela.

Não esquecer, não esquecer!, de deixar sete quiabos inteiros pro arremate final.

É preciso paciência nessa hora (e sempre).

Há que se mexer muito devagar, incorporando os quiabos à massa.

Os quiabos vão soltando água, aos poucos, e mexer incansavelmente é um dos segredos dessa etapa.

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

Uns minutinhos depois, com os quiabos já no clima do caruru, é hora de despejar o creme resultante do processamento dos camarões salgados.

E hora de mexer com vigor, já que o creme é pouco diante do volume da massa na panela.

Fogo baixo – não esquecer disso jamais.

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

Um bom número de minutos depois – e sua intuição deve estar aguçada nessa hora -, quando a mistura já estiver bem homogênea, é a hora de pôr o gengibre ralado.

Mexer bem, imaginando uma nega baiana que saiba mexer, que saiba mexer, que saiba mexer.

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

Um pouco depois, e já estamos quase terminando, a pimenta dedo-de-moça cortada em rodelas.

Com ela ainda na superfície, regue-a com o azeite de dendê.

Depois, mexa.

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

Hora de colocar os camarões frescos, mexer muito de leve e curtir o pegar a cor.

Pôr um bocado mais de dendê, mexer muito no fundo da panela, assentar o caruru.

Desligar o fogo, tampar a panela, pedir a proteção dos deuses, deixar descansando uns 15, 20 minutos, avisar a toda a gente que o prato está pronto, beber mais uma cerveja, retirar a tampa, colocar sobre o caruru os 7 quiabos inteiros, as 2 pimentas dedo-de-moça também inteiras e servir.

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

Sirva e aproveite.

Coma o caruru, ofereça a todo mundo, a Dois-Dois, aos erês, e tenha fé. Muita fé. Sempre.

Agradeça a graça de ser brasileiro, de ter nascido e de viver no Brasil, e coma com orgulho e com a certeza de estar dividindo o prato e a alma com gente querida, que dá ainda mais sabor e prazer à vida.

caruru, fotografia de Marcelo Vidal, 27 de setembro de 2009

Até.

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PRECONCEITO EM ESTADO BRUTO

Eu mostrei (e provei – vício saudável da profissão que exerço) há semanas e durante semanas que o preconceito mais rasteiro e odioso era o que movia (e é o que move) o movimento (a repetição é de propósito) contrário à iniciativa da Secretaria Municipal de Habitação de construir, na Conde de Bonfim, um conjunto habitacional para 400 famílias. A idéia nobilíssima foi (e ainda é) repudiada pela mais classe média da Tijuca, relembrem lendo isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui, isso aqui e isso aqui.

Li, no domingo pela manhã, o texto (mal escrito, diga-se) intitulado VIOLÊNCIA INSTAURADA publicado no blog CITY TOUR DA DESORDEM URBANA mantido pelo grupelho GRUPO GRANDE TIJUCA.

O texto é um horror e um ignóbil manifesto preconceituoso. Não darei ao grupelho o prazer da promoção de sua iniciativa, e não indicarei, aqui, o link do mesmo, assinado por Leonardo, assim mesmo, sem sobrenome. No instante em que terminei de ler, postei lá um comentário pedindo o sobrenome do autor do texto, dizendo que escreveria sobre o que lera, preferindo fazê-lo sabendo a quem me referiria.

Não apenas o comentário foi excluído do texto como o nome “Leonardo” foi suprimido do final do texto. Qualquer semelhança com covardia não é, definitivamente, coincidência. Fiquem com apenas um trecho – um dentre tantos trechos nodoados pelo preconceito mais odioso – do manifesto:

“A preocupação do governo é pintar, colocar teleférico e WIFI para as favelas, mas esquecem que se temos hoje 1.000 favelas, temos pelo menos 5 mil bandidos.”

Que tal?

Até.

PS: a notícia me chega de Campinas, enviada por esse grande brasileiro que é o Bruno Ribeiro, e a notícia me chega dando conta de um grande gesto que parte justamente da família de Ana Cristina Garrido, feita refém, na semana passada, por Sérgio Ferreira Pinto, um rapaz que acabou sendo morto pela polícia depois de uma bem sucedida ação que terminou por salvaguardar a vida da vítima do assaltante. O professor José Garrido, marido de Ana, em entrevista ao jornal EXTRAlink da matéria aqui – deu uma declaração que, seguramente, envergonhará o grupelho a que me refiro acima. Vamos a ela:

– A minha esposa foi vítima, dentro da nossa concepção. Mas aquele rapaz também foi vítima, ele foi levado à deliquência por conta do nosso modelo de sociedade. Acho que este rapaz é o resultado do desamor, de uma sociedade deturpada, equivocada, com políticos corruptos. O sustentáculo daquele garoto era a avó. Depois da morte dela a família se rompeu – disse ele, agradecendo o fato da mulher ainda estar viva.

Daqui, do balcão virtual do BUTECO, minha mais comovida homenagem a ele.

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EGO DO BUTECO

O site EGO, excrescência cibernética hospedada nos domínios da GLOBO.COM (onde mais?) publicou ontem uma notícia (notícia?) envolvendo o cantor (cantor?) Felipe Dylon. O burlesco site conta que “Felipe Dylon radicalizou na mudança de visual”. Provocando intenso interesse – é uma tremenda notícia! – diz ainda que “o cantor deixou de lado os cabelos curtos e lisos e adotou trancinhas rastafáris” (vejam aqui – e vale mesmo a pena ver, já que a adoção de trancinhas rastafáris por parte do rapaz foi (é) responsável por um impacto visual poucas vezes visto, incluindo o carnaval de rua!!!!!).

O EGO DO BUTECO, permanentemente interessado em gente infinitamente mais interessante que a gente exibida pelo tal site, também radicaliza expondo, hoje, uma celebridade que, tal e qual Dylon, radicalizou na mudança de visual.

Se “Dylon contou ao EGO que a mudança não é só no visual, mas também no estilo de vida” e disse ainda à reportagem do jocoso site a incrível, impactante e inesquecível frase “eu gosto do estilo de vida rasta e há muito tempo queria fazer isso. Eles não bebem álcool, por exemplo, e isso é legal. É um pacote, não dá para mudar só por fora”, nosso famoso de hoje não fica atrás!

19/09/09 – 11h21min

Flagrado flanando pelo centro da cidade do Rio de Janeiro na manhã de sábado, Felipe Quintans posou para o EGO DO BUTECO mostrando que radicalizou na mudança de visual.

Felipe Quintans, 19 de setembro de 2009, na livraria Folha Seca, foto de paparazzo contratado

“Eu gosto do estilo de vida antigo e há muito tempo queria fazer isso, usar esse chapéu e a calça bem acima do umbigo, e isso é só o começo. Os antigos sempre beberam muito álcool, por exemplo, e isso é legal. É um pacote, não dá para mudar só por fora”, disse Felipe à nossa reportagem. “O Felipinho vem sempre aqui aos sábados para beber sua cerveja. O problema é que, além de pedir Babylonia, tenta sempre pagar a conta com pesadas patacas que retira do bolso das calças!”, brinca Rodrigo Ferrari, dono da livraria na qual flagramos Felipe Quintans.

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>HIPOCRISIA

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Nem precisa muito para chegarmos à triste conclusão de que a hipocrisia, a mais sólida e explícita hipocrisia, as manifestações abjetas de beatice por parte de verdadeiras bestas que desonram a condição livre do homem, estão tomando conta do mundo, corroendo o mundo, derretendo o mundo, fundindo o mundo. Lendo, por exemplo, mais um magnífico texto de autoria de Luiz Antonio Simas, aqui – ele dá aulas de História como quem respira! -, verificamos que essa onda do politicamente correto, propulsionada por essa escumalha que bate no peito pra gritar “somos cidadãos de bem”, “somos pagadores de impostos” e outros bichos, há de matar – e talvez mais brevemente do que desejamos todos – o homem. O homem sem humor (que é sempre a primeira vítima da postura supostamente elevada dessa gente) é o anti-homem. O homem sem humor é a máquina a seguir regras, regras de postura, regras de condura, e quando olharmos seremos todos iguais, desgraçadamente iguais numa noite sem lua e sem graça.

Vamos ao que tenho a lhes dizer hoje.

As sandálias havaianas (já falei sobre elas, aqui), que há tempos deixou de ser marca de pobre (lendo o texto acima você entenderá, minimamente, o que quero dizer com isso), lançou, dia desses, um comercial para a TV. Assista-o (o filme está imediatamente depois desse parágrafo) e continuamos a conversa.

Um comercial – convenhamos – bem humoradíssimo. Um comercial que mostra uma avó chocando a neta (que deixa de ficar chocada em questão de segundos!) por conta de um simples comentário feito depois de um rápido diálogo que começa quando o ator Cauã Reymond, no papel dele mesmo, entra no restaurante em que avó e neta almoçavam.

Tudo em ordem.

Comercial curtíssimo, texto bem humorado (não é demais repetir) – a avó que se mostra incomodada com o fato da neta ir ao restaurante de chinelos é a mesma que dá um susto na neta, segundos depois, com uma tirada hilariante -, uma atriz com cara de vovó no papel da avó, uma atriz lindíssima (com pés igualmente lindos) no papel na neta, e um ator que também abusa do direito de ser bonito no papel de alvo da conversa entre as duas. Algo de errado?

É evidente que não.

Errada, lamentável, reprovável e abjeta foi (e é) a postura da canalha que brande por aí a bandeira da moral e dos bons costumes. Vejam, agora, o filme abaixo. Continuo em seguida.

O que dizer diante disso? Não lhes parece sintomática a ameaça final “em minha casa todos são clientes, não compramos este produto em sexshop”????? Não lhes soa familiar e próxima da frase chavão “nós, cidadãos de bem que pagamos impostos…”?????

E o que dizer da desonesta, burra e rasa associação que tenta fazer, o autor do filme, ao sexo fora do casamento com a pedofilia?!

A empresa, que visa o lucro acima de tudo (e não vai, aqui, qualquer espécie de reprovação a isso, afinal é uma empresa capitalista), optou por uma inteligente, elegante e mais uma vez bem humorada saída.

Está no ar o filme abaixo. Com a mesma avó, ainda mais moderna – agora indicando, com um laptop no colo, o site da empresa que ainda mantém no ar o filme que só é polêmico na cabeça doente dos “cidadãos de bem”.

Até.

PS: pelo que pude apurar, o movimento para retirar o comercial do ar começou – ou foi fomentado – aqui.

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>DECISÃO JUDICIAL – A CLAVA FORTE DA JUSTIÇA

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Exemplar o acórdão da Décima Quinta Câmara Cível, Apelação Cível n° 2009.001.37947, tendo sido Relator o Exmo. Sr. Desembargador Sergio Lucio de Oliveira e Cruz, cujo trecho destaco:

“Curioso é que a pudica apelante, que se sentiu extremamente ofendida com a reportagem publicada pela apelada, nenhuma ação propôs contra o real causador do dano, seu ex-namorado, bastando, para isso constatar-se, consultar a Intranet deste Tribunal, onde se vê que a única ação por ela ajuizada em sua vida foi exatamente esta.

É óbvio, pois é quem tem dinheiro para pagar indenização.

Curioso, também, que essas ações sempre chegam ao Judiciário sob o pálio da gratuidade.

O que houve foi, portanto, mera narrativa jornalística, poder-dever da imprensa, constitucionalmente assegurado, em nenhum momento cometendo a apelada qualquer agravo moral à apelante.

Ainda que assim não fosse, não se poderia falar em ofensa moral à apelante, pois ela mesma vem divulgando os fatos, abrindo mão de sua privacidade, ao veicular um blog na Internet, onde fornece informações acerca deles, inclusive identificando-se e tornando pública a situação das fotos postas na rede.

Por tais razões, nega-se provimento ao recurso.”

A decisão pode ser lida, na íntegra, aqui.

Até.

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