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A TIJUCA E O FONDUE

Escrevi certa vez (há 10 anos, para ser mais preciso): “Não há um único casal de noivos tijucanos – há ainda noivados formalíssimos na Tijuca – que não anseie sofregamente pela panelinha de fondue, que eles chamam, na expectativa de aplacar a cafonice do desejo – e o tiro sai pela culatra – de “aparelho de fondue”.”.

Lembrei-me disso porque hoje, sexta-feira, fomos convidados – eu e a Morena – para um fondue. Preservarei, em tempos de vazamentos constantes de grampos e outros bichos, o nome do anfitrião. É, evidentemente, um tijucano. E essa relação entre o tijucano e o fondue sempre me chamou a atenção e me despertou um agudo interesse.

Basta que os termômetros rompam a marca dos 20 graus e nas ruas da Tijuca já se vê a folia: luvas, gorros, anoraques, meias grossas e felpudas, uma excitação típica das excursões de velhos e velhas a Gramado e Canela. Muda o vestuário, muda o cardápio.

Os restaurantes da região dão início aos festivais de caldos e sopas, queijos e vinhos, e, é claro, de fondues. E como não há tijucano, vivo ou morto, que não tenha em casa sua panelinha de fondue, acaba chegando o dia do inevitável convite de todos os anos.

No meu caso, é hoje.

panelinha de fondue

O anfitrião, é evidente, confirmou o evento depois de consultar o serviço de meteorologia. A previsão para a noite de hoje é de 17°C – para amanhã à noite, 15°C. Isso, pra você que me lê e não é do Rio, para um tijucano, para um zona-norte, é um evento.

Já separei as roupas que usarei hoje à noite e que ganhei da Morena em Curitiba, num final de semana em que enfrentamos menos de 3°C: uma meia de montanhista, meu único par de botas, uma blusa de tecido bem grosso e um casaco mais pesado do que eu e que compramos em Buenos Aires durante um inverno. Meu gorro, é claro, e o cachecol. E sei que com os demais convidados não será diferente: muita lã, muita pele de lontra (minha bisavó tinha uma estola lindíssima que minha mãe guarda até hoje num freezer exclusivamente usado para tal), muita expectativa pelo evento.

Para os que não têm a sorte de receber um convite desses, uma dica: no Bar da Pracinha, no Alto da Boa Vista, aqui, eles não apenas servem fondue como oferecem ponchos aos que lá chegam com sede de vinho e frio. É um espetáculo à parte.

Até.

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CHAMA, MANOLO! SALVE, O BAR MADRID!

Havia, na rua Almirante Gavião, a exatos 100 metros da minha casa, um bar, um portentoso bar chamado Rio-Brasília, então tocado pelo Joaquim e pela Terezinha. Ali, manhãs de domingo ensolaradas, porres homéricos, afogamento de tristezas e mágoas, celebração de encontros e de encantamentos, uma carne assada com coradas de ganhar fama em todos os cantos da cidade, uma cerveja (de milho!) gelada de dar gosto, amigos, desafetos, assentamento de respeito e palco de manhãs, tardes e noites de não-se-esquecer.

Em meados de 2008 – lá se vão sete anos – o Rio-Brasília fechou e reabriu logo depois, tocado por quem não entendia do riscado (e posteriormente trocou de mãos mais uma vez, dessa vez para mãos ainda mais inábeis).

Vivi, faço a confissão pública agora, sete anos de luto.

Desapareceram os azulejos negros e azuis (conheça-os aqui, em texto de 2006) que revestiam as paredes, desapareceram as mesas de mármore, desapareceu o piso hidráulico no qual tantas vezes pisei e pisamos todos, amigos meus.

Nunca mais aconteceram as noites mágicas que tantas vezes vivemos ali. Vejam aqui, aqui, aqui e aqui vídeos de minha gente (Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas) cantando com a Beth Carvalho em alta madrugada de uma terça-feira depois de uma noite de segunda absolutamente inesquecível – aqui, o relato da noite. Vejam aqui, vídeo lindo!, aula do meu irmão e meu compadre, Luiz Antonio Simas, em 20 de maio de 2007, cantando o hino da África também em alta madrugada (notem as cadeiras empilhadas no fundo), para assombro da assistência.

E nunca mais houve mágica naquele canto escondido da Tijuca porque mãos erradas assumiram a condução do negócio.

Pisei pela última vez no Rio-Brasília no dia 19 de setembro de 2008, quando ele já estava fechado – no dia da inauguração do novo bar do Joaquim e da Terezinha, na mesma calçada. Aqui, as últimas imagens do bar, neste dia em que eu e o Felipinho Cereal fomos lá chorar nossas pitangas.

Eis que a grande nova é que o Felipinho, juntamente com seu primo, o André, comprou o que sobrou do Rio-Brasília.

Sábio que eles são – filhos de espanhóis que tocaram, durante muitos anos, o legendário El Faro, em Copacabana – os dois estão tratando de fazer pequena obra no Rio-Brasília com o intuito de reabrir o bar já neste próximo sábado (leiam aqui sobre o El Faro, texto do próprio Felipinho, de setembro de 2009). Felipinho começou a trabalhar, com 13 anos, justamente no El Faro, ao lado do tio (Celestino, pai do André – leiam aqui sobre o Espanhol) e do pai, Manolo, que já foi oló.

No final do texto que indiquei acima, escreveu o Felipinho: “Fica aqui a minha saudade do bar que foi minha casa, e que plantou-me na memória incontáveis momentos bacanas.”.

Felipinho perdeu o pai garoto, aos 18 anos.

Pois vai, o pequeno grande homem, fazer renascer o velho Manolo – seu pai.

Pois vai, o pequeno grande homem, matar a saudade do bar que foi sua casa e fazer renascer os incontáveis momentos mágicos que ele tem plantados na memória.

Vai nascer o Bar Madrid.

BAR MADRID

Eu, comovido feito o diabo, estou contando as horas pra ver o bar aberto.

O Simas, um sacerdote que eu respeito demais (e que cuida de mim), já tratou de arriar um ebó pra proteger a casa. Com a presença invisível e mágica do Manolo, com a assistência certa e permanente do Espanhol (que se despencará de Jaconé pra Tijuca incontáveis vezes, posso apostar!), com a sabedoria dos dois primos, não tem como dar errado.

Ali, carta só pro carteado – não esperem carta de cerveja, essa babaquice que macula os bares da minha cidade. Ali, será servido pela primeira vez o glorioso drink DBS, a bebida oficial da família Seixas. Ali, naquele canto sagrado e profano da Tijuca, minha aldeia, mortos e vivos erguerão os copos em louvação à magia e ao encantamento que sobrevivem graças à tenacidade e à verdade que gente feito eles dois não deixam morrer.

Saravá!

Até.

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DONA OLÍVIA, GLÓRIA TIJUCANA

A vida é mesmo cheia de surpresas e, durante essa semana, uma delas caiu-me no colo e foi – confesso! – motivo de muita alegria. Vou lhes contar, é o motivo que me traz aqui ao blog pela primeira vez em 2015.

No dia 24 de janeiro, um sábado, voltando da praia (tenho chegado na praia antes das 06h da manhã), decidi subir e descer a Estrada das Canoas e o Alto da Boa Vista para testemunhar, a cada quilômetro rodado, que o Rio humilha. Meu destino? A Praça Xavier de Brito, na Tijuca, uma das mais agradáveis da cidade que completa, em 2015, 450 anos. Mais precisamente o Bar do Pavão, numa das mais aprazíveis esquinas da cidade. E sempre que vou ao Bar do Pavão toco na casa amarela onde mora a dona Olívia (foto abaixo), amiga de minha avó paterna desde que meu pai era “um molecote”, é como ela se refere ao velho Isaac.

Dona Olívia é portuguesa mas veio para o Brasil ainda pequenina. Aqui casou-se com o seu Antônio, um tremendo boa-praça, botafoguense daqueles roxos, e infelizmente vítima do Mal de Parkinson. Moram, os dois, numa simpática casa ao lado do Bar do Pavão (parede com parede), e a dona Olívia, companheira exemplar que é, dedica-se a cuidar do companheiro de uma vida inteira com denodo, fé e certa dose de sofrimento – façam uma idéia.

Sofrimento que não se sobrepõe à alegria que é a dona Olívia.

E quero lhes contar uma história, apenas uma (são muitas, mas por ora quero lhes deixar com essa), que mostra bem quem é essa portuguesa, carioca maiúscula, tijucaníssima, heroína dos nossos 450 anos!

Dona Olívia em foto

Certa feita, há muitos anos (o Bar do Pavão está ali, naquela esquina, há muitos anos, muitos!), a vizinhança (não se esqueçam nunca de que o maior problema da Tijuca, o único, eu diria, é o tijucano) deu de implicar com o Bar do Pavão por conta dos mais patéticos, quadrados, reacionários e conservadores motivos. Armou-se abaixo-assinado, até, para denunciar o Bar do Pavão aos órgãos fiscalizadores da Prefeitura do Rio. Abriu-se processo administrativo, teve visita de fiscal, aplicação de multas, sanções, o processo correu até que um dia a dona Olívia recebeu a visita de um de seus vizinhos, um general-de-pijama cheio de pompa.

– É o seguinte, dona Olívia. O processo para cassar o alvará do Pavão está correndo mas bateram o martelo lá na inspetoria. Para que nossa denúncia ganhe força definitiva e caráter implacável contra esse bar é necessário que tenhamos a sua assinatura. Parece que a legislação exige que a senhora, vizinha de parede do Pavão, concorde com nosso pleito! – e quase bateu continência.

Dona Olívia sequer respirou:

– Pois não assino. E mais, e mais! Vou autorizar o uso da calçada em frente à minha casa para mesas, cadeiras e ombrelones! Passe bem! – e bateu o portão no nariz do pernóstico vizinho.

E a dona Olívia, meus poucos mas fiéis leitores, não satisfeita com a atitude, ainda permite (até hoje, e eu sou testemunha!) que, quando cheio o bar, seus clientes usem o banheiro de sua casa – para desespero da vizinhança mesquinha.

Dona Olívia é, por isso, uma heroína, uma tijucana máxima, uma figura absolutamente imprescindível para manter viva a chama da carioquice!

E vamos à surpresa.

Recebi, dia desses, e-mail de um sujeito chamado Humberto Hermeto Pedercini Marinho. Apresentou-se assim, o Humberto: “Cara, eu sou arquiteto, mas também gosto muito de desenho, pintura. Resolvi – instigado por um amigo – investir mais na arte. A sugestão de postar um desenho por dia (vou completar uns 6 caderninhos de aquarela até o final do ano) foi dele, e estou cumprindo… O legal é que, além de divulgar meu trabalho, me ajuda a desenvolver as técnicas uma vez que sou completamente autodidata nessa área… Além disso, parece que vai formatando umas idéias na cabeça… Suas fotos e seus textos (comendo o rabo da Globo principalmente) acabam inspirando alguns desenhos. Se vc olhar esse aqui verá que tem tudo a ver com o q vc escreve. Abração e use o desenho à vontade!”.

Eis aí o desenho – sensacional! – que o Humberto publicou no Instagram e me enviou por e-mail, em alta resolução, para que eu possa presentear a dona Olívia (o que farei já na semana que vem).

Dona Olívia

Viva a carioquice! Viva a dona Olívia e viva o Humberto!

Até.

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ERNESTO E RAUL

Em 24de julho do ano passado eu lhes contei sobre o que senti quando soube da aposentadoria do seu Ernesto, dono do Salão América, na Praça Afonso Pena – aqui. Em 03 de junho de 2011 já havia lhes contado sobre meu arremesso em direção ao passado quando descobri, por ocasião dos meus 40 anos, que no dia 21 de março de 1970 eu cortei o cabelo pela primeira vez, com o Raul, que até hoje faz minha barba e corta meu cabelo  – aqui.

Tenho, por isso, vê-se, profundas ligações com o Salão América, com o seu Ernesto, com o Raul.

Faço, aqui, pequena pausa para breve digressão.

Chorei quando soube da aposentadoria do velho Ernesto. E chorei de susto há umas semanas, e explico.

Cheguei no Salão América e não encontrei o Raul.

No buteco da esquina, a explicação:

– Raul está doente. Em casa. Ordens médicas.

Trêmulo, bati o telefone pro Raul. E do outro lado da linha, a voz rouca talhada depois de muitos anos de muito cigarro:

– Quinze dias em casa, Edu, de molho.

Passado o susto, a frase que me comoveu:

– Mas venha aqui em casa que eu faço sua barba…

Não fui, é claro – por respeito ao descanso do bravo filho de Xangô.

Volto ao que quero lhes dizer hoje.

No dia 19 de março de 2014, quase 44 anos depois do meu primeiro corte de cabelo, pois, estava passando em frente ao Salão América, voltando dos meus (creiam) exercícios matinais, quando dei de cara com o seu Ernesto, à paisana. Era a primeira vez que eu o via desde a aposentadoria e de sua viagem de meses para Portugal. Arremessei-me em direção a ele que, sempre generoso, acolheu-me com um abraço. Gemendo, eu pedia:

– Volta, Ernesto! Volta!

E ele gargalhava (só quem já viu e ouviu seu Ernesto gargalhando saberá do que falo) fazendo que não com a cabeça. Disse que estava cansado, que as pernas não mais agüentavam o dia-a-dia de um barbeiro, até que eu, comovido feito o diabo, implorei:

– Sente-se na cadeira do Raul, então! Apare o cabelo, apare o cabelo! Quero ver os dois craques juntos! Por favor!

raul e ernesto

Ernesto, generoso, português boa-praça, sentou-se na mesma cadeira em que me sentei em 1970. Raul, em êxtase, passou a dar um trato no cabelo do ex-patrão (que lhe passou a sociedade a custo zero!!!!!) e eu ali, diante dos dois monstros, de olhos marejados, fotografando o momento histórico, sofrendo violentos e intensos arrancos em direção ao passado (cheguei  a ver meu avô Oizer jogando carteado na Afonso Pena), bebendo de leve uma cerveja do buteco ao lado pra acalmar o coração.

A Tijuca é minha aldeia e ela sempre me salvará.

Até.

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APOSENTOU-SE, O BIGODE – PEQUENAS DIGRESSÕES

Dia desses, minha Morena é testemunha, fui ao Salão América fazer a barba e saí de lá com a cara lavada de tanto que eu chorava. Explico: eu freqüento a Barbearia Salão América desde o dia 21 de março de 1970, quando eu tinha pouco mais de 10 meses de idade, (e se você duvidar de mim, basta ver as provas inequívocas aqui), portanto há mais de 43 anos, e naquela manhã, depois de ter dado por falta do seu Ernesto no comando da cadeira do fundo, perguntei por ele ao Raul, que me respondeu com a voz embargada:

– Tá em Portugal. Aposentou. Nem sei quando volta…

Essa resposta, o tom da voz do velho Raul (que foi quem cortou meu cabelo em 1970), essa permanente dificuldade para lidar com a perda, a certeza de não mais ver e ouvir a gargalhada daquele português naquele salão que faz parte dos meus cenários há mais de quatro décadas, me fez sair de lá chorando como criança de 10 meses sem colo de mãe.

Hoje soube pelo Gabriel Cavalcante, tijucano de escol, que outra grande figura do bairro, uma lenda-viva para os freqüentadores do Bode Cheiroso, glorioso botequim na rua General Canabarro, também acaba de se aposentar: o Bigode, que aparece na foto abaixo, de autoria do próprio Gabriel.

Bigode do Bode Cheiroso

Sobre o Bigode, escreveu meu irmão e meu compadre Luiz Antonio Simas:

“(…) A começar pelo Bigode, que controla o balcão feito Domingos da Guia dominava a grande área e abre cerveja atrás de cerveja como Garrincha enfileirava os marcadores. É craque.

Eu só acredito em garçons que pareçam egressos do cangaço. São cada vez mais raros diante da profusão dos garotões de aventalzinho, das moças moderninhas e dos descolados que pululam feito mato nos bares de grife. A  destreza com que Bigode abre uma ampola cu de foca – como se fizesse isso desde que o primeiro hominídeo caminhou ereto na Serra da Capivara – é a mesma com que Lampião manuseava o fuzil parabelo.”

E era assim mesmo.

O Bigode, assim como o seu Ernesto, habita o meu imaginário (e 0 meu dia-a-dia!) desde há muito.

Eu era um moleque e a rotina das manhãs era a mesma: papai ia nos deixar muito cedo no colégio, a caminho do trabalho. Parava todo santo dia, de 2ª a 6ª, no número 218 da General Canabarro, Bar Macaense pra turista, Bode Cheiroso pros íntimos. E todos os dias pedia seus 4 maços de Shelton Light e sua garrafa de água com gás, Caxambu, quando as garrafas d´água eram de vidro.

E lá estava ele, todos os dias – o Bigode.

Mudamo-nos dali, a rotina matinal deixou de ser cumprida mas eu jamais deixei de ir ao Bode Cheiroso.

Aqui, em março de 2007, o relato de um dia que terminou na calçada em frente ao bar. Aqui, em maio de 2009, um encontro antes e depois de um jogo no Maracanã. Aqui, em texto do mesmo 2009, uma das clássicas fotografias, de minha autoria, tirada no Bode Cheiroso, de Luiz Antonio Simas. Aqui, em junho de 2011, na concentração para a final da Copa do Brasil, Coritiba e Vasco.

Não são muitos os registros – escritos ou fotográficos – que tenho do bar e do Bigode.

Mas são incontáveis as referências dentro de mim.

Com o seu Ernesto e com o Bigode aposentados – merecido descanso depois de anos de bons serviços prestados – a Tijuca fica um pouco mais sem graça.

Até.

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AINDA O RIO DE JANEIRO

Escrevi ontem uma humílima homenagem aos 447 anos da minha mui amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, aqui. Alguns comentários me deixaram profundamente emocionado – todos deixando muito explícita a paixão que desperta, naquele que aqui vive ou que aqui chega, a cidade-mulher. E quero, hoje, nesta sexta-feira que se anuncia esplendorosa – há, no céu, como diria Luiz Carlos da Vila, um azul do próprio céu se admirar – debruçar-me um pouco mais nos encantos do Rio de Janeiro.

Eu costumo dizer, com alguma freqüência, que o sujeito que não nutre desmedido amor pela terra em que vive, pela terra em que nasceu, é um sujeito no mínimo estranho. Ocorre que esse amor é atávico – eu diria obrigatório, prova de caráter e de gratidão. Há, de fato, lugares tão inóspitos, tão hostis, tão anti-lugares, que exigir do residente ou do domiciliado esse sentimento representaria crueldade elevada à categoria de tortura.

Já o Rio de Janeiro, meus poucos mas fiéis leitores…, o Rio de Janeiro é um caso à parte. O Rio de Janeiro é – como dizer? – a pátria-mãe (escrevi mãe e lembrei-me das minhas sessões de psicanálise). Na mais ampla acepção da palavra: o Rio acolhe, recolhe, o Rio adota, o Rio encanta, o Rio dá de mamar, o Rio nina, faz dormir, o Rio é. Isso. O Rio é e isso basta. Vamos a algumas digressões (e me perdoem, desde já, os clichês inevitáveis).

Quantas vezes já se falou sobre o arroubo que causa chegar de avião nessa terra? Muitas. E serão sempre poucas. Quem pode cansar de avistar, de cima e de longe, o Corcovado de braços abertos sobre a Guanabara? As praias, o verde, a zona norte, o Maracanã, o Pão de Açúcar, o Cara de Cão, os Dois Irmãos? Desde o alto, como se descêssemos dos braços estendidos do pai em direção ao colo da mãe, a cidade nos promete um aconchego que só conhece quem passa por aqui. E é preciso, para que tenha ares de absoluta autenticidade – de precisão do início ao fim – o que estou a lhes dizer, que eu fale de mim – e assim você que me lê poderá dimensionar o amor e a paixão que me unem, de forma fusionada, à cidade do Rio de Janeiro.

Breve pausa, antes.

Escreveu, a Olga, nos comentários deixados ontem:

“Eu tenho tanto orgulho dela, Edu, que, quando fora do Rio, encho a boca pra dizer que sou carioca. Um orgulho besta mesmo, quase infantil. Sabe aquela historinha de “eu tento ser humilde, mas a cidade não deixa” …”

Rigorosa verdade (e acho graça dela ter se valido da expressão “quase infantil”, que me remete de primeira à mãe, que comparei à cidade). Não há carioca, vivo ou morto, que não tenha, nos bolsos, permanentemente, esse orgulho besta e essa sensação de que é impossível ser humilde diante da condição que temos todos os que vivemos aqui. Há, em todo carioca, vivo ou morto, esse sentimento agudo do pertencimento – e que se confunde a ponto de inebriar o carioca. Somos felizes porque vivemos aqui, porque nos sentimos donos de uma gleba no litoral, porque temos a impressão de que ajudamos a moldar nosso relevo, a erguer nossas montanhas, porque as ruas são nossas, as praças são nossas, as calçadas são nossas, e essa confusão de sentimentos entra em ebulição e o que evapora (que é o que respiramos, aspiramos) é justamente esse orgulho. Voltemos.

Vivo na Tijuca, na zona norte – minha terra, minha aldeia, meu pago. Aqui nasci, na Ordem Terceira da Penitência, na rua Conde de Bonfim, bem em frente ao morro do Borel. Desceram, meus pais, a Conde de Bonfim, e minha primeira taba foi na rua Barão de Mesquita, quase na esquina da São Francisco Xavier, na lateral do tradicionalíssimo Colégio Militar (onde fui batizado depois de ter sido circuncisado por um rabino, vão tomando nota, no oitavo dia). Dali, mudamo-nos para a São Francisco Xavier, número 90, primeiro no sexto andar e depois no segundo – em frente ao Orsina da Fonseca, quase em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, às margens do rio Trapicheiro (foi quando conheci Tarcisa, a mulher de seios de mármore). Meus países eram as vilas nas quais moraram meus avós – sempre na Tijuca. Mudamo-nos, anos depois, para a Professor Gabizo, entre a Morais e Silva e a General Canabarro, a poucos metros do Maracanã. Foi quando casei-me pela primeira vez e – horror dos horrores! – exilei-me na Lagoa. Dirão vocês:

– Mas na Lagoa?! A Lagoa é linda!

É. De fato é. Mas eu me senti, durante quase cinco anos, como um desterrado, um apátrida, um triste longe da pátria-mãe.

Mudei-me de novo – e de vez! – para a Tijuca. E vivo, na Tijuca, o Rio de Janeiro em estado bruto (vou lhes contar).

Estou cercado de botequins. Vou a pé ao Maracanã. Muitos de meus amigos são meus vizinhos, todos muito por perto. Faço a feira dos domingos também a pé. Estou, tanto de metrô quanto de ônibus, a pouco mais de 20 minutos da praia de Ipanema, da Barraca do Mineiro, entre a Farme de Amoedo e a Vinícius de Moraes. Estou a menos de 15 minutos do Centro da cidade, da livraria do meu coração, do meu escritório, estou a 45 minutos, uma hora no máximo!, da agradável região serrana (Petrópolis, Teresópolis, Itaipava, Pedro do Rio…), chegar na Estação das Barcas é um pulo, Niterói e Paquetá ficam logo ali. Em 20 minutos estou na Floresta da Tijuca, em Santa Tereza, em pouco mais de meia-hora chego no subúrbio, e ainda dou-me ao luxo de poder dizer que estou quase na esquina da Haddock Lobo com a Matoso, onde toda a confusão começou, como cantou Tim Maia – aqui.

Definitivamente, eu vivo no melhor lugar do mundo.

Até.

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O BÊBADO E A EQUILIBRISTA

Quando eu escrevi Uma noite na Tijuca, aqui, contando sobre a inacreditável tarde, a inacreditável noite que viveu-se, no dia 10 de setembro de 2007, no Estephanio´s Bar, durante as filmagens do filme Praça Saens Peña, de Vinícius Reis, exibi, também, um vídeo gravado naquela tarde, no qual o artista plástico Mello Menezes, acompanhado pelo violão certeiro de Tiago Prata (chamado de neto, naquela noite, por Aldir Blanc, está no texto!), interpreta de forma lancinante a belíssima Valsa do Maracanã, de Paulo Emílio e Aldir Blanc (é igualmente lancinante a interpretação do Prata, um craque).

Quero lhes contar, rapidamente, sobre a relação entre o Estephanio´s Bar e o Aldir.

O Estephanio´s, já lhes contei, ficava na esquina das ruas Ribeiro Guimarães e Artistas. O Aldir, que escreveu, inclusive, o belíssimo livro Vila Isabel – Inventário da Infância, passou grande parte de sua infância a poucos metros dali, na rua dos Artistas número 257, onde moravam seus avós Aguiar e Noêmia. Aquele bar era, portanto, de certa forma emblemático pra ele. E uma curiosidade: bares têm, quase todos, imagens de santos em seus balcões, em suas paredes, em seus altares pagãos. Lá, no Estephanio´s, tínhamos uma imagem gigantesca do Aldir Blanc, pairando sobre as cabeças dos freqüentadores. Talvez por isso o diretor do filme, Vinícius Reis, tenha escolhido o Estephanio´s para a gravação das imagens de cenas do filme que juntavam o ator Chico Diaz contracenando com o Aldir, no papel dele mesmo.

E o Aldir, se não era exatamente uma figura fácil entre os freqüentadores, até que foi muitas vezes – muitas! – ao Estephanio´s – tanto no antigo, na rua Visconde de Itamarati, como no da rua dos Artistas. Foi, cantou, tocou, varou noite, protagonizou muitas das mais bacanas noites naquele bar que, como lhes disse aqui, fez história na Tijuca. Foi até enredo do bloco do pedaço, o Segura pra não cair, cujas fotos disponibilizei aqui, e escreveu aquela que é a mais bela página da história do bloco: quando o enredo, no ano seguinte, em 2005, foi o João Bosco, Aldir desfilou e, à certa altura fez sinal e pediu silêncio à bateria. Chamou o violão do bloco, disse algo em seu ouvido, fez o mesmo com o João e os dois, para delírio absoluto dos milhares de presentes, cantaram juntos O Mestre-Sala dos Mares. Vamos voltar à noite do dia 10 de setembro de 2007.

Uma vez desmontado o set de filmagens, ficamos todos para a noite que se anunciava inesquecível.

O que quero lhes dizer, hoje, e lhe mostrar, é um tesouro. Ontem à noitinha a Gisela Camara, assistente do Vinícius Reis, avisou-me que tinha descoberto um vídeo muito especial, encontrado por acaso enquanto remexia em suas coisas, seus registros, seus materiais. E era, de fato, um tesouro.

O vídeo mostra Aldir Blanc cantando um de seus clássicos, O Bêbado e a Equilibrista, acompanhado, mais uma vez, pelo genial Tiago Prata, à direita do bardo tijucano, de vermelho. À direita do Prata, eu. À minha frente, à esquerda do Aldir, Mary Blanc, que dá uma força ao Aldir, travado pela emoção à certa altura da letra (notem que a voz falha quando canta-se o “irmão do Henfil”…). Vê-se Rodrigo Ferrari, já quase no final do filme, no canto à direita da tela. E a voz que emenda com o tema de Chaplin, terminada a música, é do grande Mello Menezes.

Meus agradecimentos públicos à Gisela e a Tainá, que fez o registro. Um momento, sem sombra de dúvida, pra sempre na minha melhor memória, e que agora divido com vocês, meus poucos mas fiéis leitores.

Até.

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AINDA SOBRE O PAULO, O MAGNÍFICO DO RIO-BRASÍLIA

Conforme lhes contei aqui e aqui, o Rio-Brasília tem, em seu magnífico staff, um único garçom, o Paulo. Paulo para uns, Paulinho para outros, Chico Xavier – ou simplesmente “médium” – para os mais gozadores, o sujeito é um Nunes, o ex-camisa 9 da Gávea: absolutamente desastrado no trato com a bola mas capaz de fazer um caminhão de gols para delírio da assistência. O que quer dizer que cada ida ao fabuloso bar da Almirante Gavião (não confundir jamais com a lanchonete da mesma calçada) significa testemunhar atuações de antologia. Como a de ontem.

Ontem eu tive a honra e o prazer de conhecer pessoalmente Idelber Avelar. Depois de ler, no twitter, que o professor tinha vontade de vir ao Rio de Janeiro para conhecer outro mestre, Luiz Antonio Simas (o Idelber vive nos Estados Unidos), meti o bedelho e costurei, humildemente, o encontro. Na Tijuca, evidentemente. Eis que então às 16h ancorei no balcão do buteco ao lado de meu compadre Leo Boechat. Estávamos a caminho do bar quando estrilou meu celular. Era Álvaro Costa e Silva, o Marechal, que seguramente soubera do encontro pelo próprio twitter. Tentou disfarçar:
– Ô, meu Edu! Tudo bem? Estou querendo muito beber uma boa batida de gengibre, podes me dar uma dica?
Fui direto:
– Rio-Brasília, imediatamente.
Minutos depois, chega o Marechal (e comprovando minha desconfiança, o bom e velho lobo da imprensa não bebeu uma gota sequer de batidade de gengibre… o caboclo queria mesmo era estar entre nós). Um pouco mais e chega o Idelber, gentilíssimo, trazendo uma mala de presentes para mim e para o Simas, que chegou em seguida. Estrilou de novo meu celular: era Diego Moreira, convocado no ato. Com sua chegada formou-se a mesa de seis.
E lá estava, é evidente, o Paulo – o único garçom da casa. E o bom Paulo deu, de novo, um show (fico feliz com a presença dos demais à mesa que poderão servir como testemunhas do que vou contar).
Bebíamos, industrialmente, Antarctica. A certa altura o Idelber manifesta o desejo de uma cachaça. Eu convoco o Paulo à mesa:
– Velho, quais as cachaças que você tem aí?
Ele sorri.
Os doze olhos à mesa percorrem os rostos da assistência. Clima tenso, com exceção do Diego que não consegue manter a linha diante do garçom – o sujeito explode de rir ao primeiro sinal da presença do Paulo. Eu insisto:
– Quais, Paulo?
Ele pensa um pouco e diz:
– Não sei.
Sou paciente:
– Tem Seleta?
Ele sorri e responde dando pulinhos:
– Genebra? Tem!
– Não, Paulo! Seleta! Se-le-ta! – já gritando.
– Tem, tem, tem!
– Duas doses, por favor! – o Marechal queria também.
Vimos o Paulo tomar a direção do bar. Como um luminoso de neon, a garrafa de Seleta se destacava na prateleira. E vimos o magnífico (que é como papai se refere a qualquer garçom) completamente perdido diante da coleção de garrafas, e nesse momento já éramos seis guinchando de rir à mesa. Luiz Antonio Simas, sóbrio, ainda disse:
– Ele incorporou o personagem. Só pode ser de sacanagem!
Paulo foi à cozinha e chamou a preta. Foi ela que apontou a garrafa. E veio à mesa uma dose.
– São duas, Paulo! – disse o Marechal.
Rindo, como quem dá uma boa notícia, ele respondeu:
– Só tem essa.
Passado mais um tempo Idelber e Marechal manifestaram vontade de outra cachaça.
– Paulo, e aí? Quais cachaças ainda têm?
Ele sorriu de novo:
– Seleta! – e disse isso com ar de gênio.
– Tu não disse que tinha acabado?
– Disse.
– E então?
Ele sorriu.
Fui ao balcão. Voltei.
– Traga duas doses de Boazinha, por favor.
E vieram à mesa dois copos americanos até a boca de cachaça, doses inéditas.
– Mas que doses são essas, Paulo?! Enlouqueceu?! – eu disse.
E ele, novamente com ares de um gênio que tem sacadas incríveis ao longo do dia, disse piscando o olho:
– É uma boa dose. Dose boa. Dose de Boazinha! – e riu de si mesmo como um louco.
Por conta de compromissos, precisei partir às 19h.
Tão logo eu saiba mais sobre a atuação do Paulo até a saída dos cinco, lhes conto tudo por aqui.
Até.

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AS ATUAÇÕES DO PAULO

Ontem lhes contei, aqui, sobre os personagens que compõem a assistência do Rio-Brasília, esse portento tijucano de escol. Fiz brevíssima apresentação do Paulo, o único garçom da casa, uma espécie de Nunes, o ex-camisa 9 da Gávea: atua de forma destrambelhada mas salva o sujeito sempre que a coisa aperta. Sobre o Paulo, também manifestou-se o bravo Álvaro Costa e Silva, nosso bom Marechal, aqui. E é sobre ele que quero lhes contar hoje. Sobre suas atuações, pra ser mais preciso.

E para que vocês que me lêem possam construir seus cenários particulares exibo, abaixo, uma foto do Paulo ao lado de Breno Boechat, no dia em que este último fez sua última incursão ao bar antes de sua viagem para o Canadá, onde fica até meados do primeiro semestre de 2011.

Notem bem: nesse dia, 27 de novembro de 2010, o Paulo usava uma boina de feltro cinza. Foi colocá-la sobre a cabeça e um gozador do pedaço bradou:

– Ô, Chico Xavier, materializa um maracujá aqui na minha mesa.

Deu-se a explosão de gargalhadas, quando o Breno me pediu:

– Tira uma foto minha com o médium!

Pois bem, feita a apresentação plástica e visual da figura, vamos ao que quero lhes contar.

Antes, porém, uma informação: o bom e doce Professor Diego Moreira, um dos expoentes do bairro, é testemunha de meu carinho no trato com o Paulo. Confesso que não tenho nenhuma paciência com o modus operandi do operário do buteco. Como lhes disse ontem, é completamente surdo, trabalha à base de doses indecentes de cachaça, treme as mãos agudamente, derruba tudo o que encontra pela frente mas é aquele negócio… quando chega perto trazendo o pedido é aquela figura digna de piedade e idolatria. Vou mesmo lhe contar sobre suas atuações, e começo com uma digna de registro.

Na sexta-feira passada fui com minha menina assistir ao show do João Bosco. Já quase em casa, na volta, ela disse para minha satisfação:

– Vamos beber um maracujá no Rio-Brasília?

Fomos.

E quando lá chegamos, lá estava o bom Paulo. Poucas vezes vi um magnífico (é como papai chama os graçons) fazer tanto salamaleque. Ele parecia, juro, um mestre-sala diante da cabine dos jurados. Estendeu-me a mão, beijou a mão da moça que me ensinou a sorrir, rodopiou, disse frases que eu não entendi, até que sentamos. E atenção, paulistas, para o que eu vou dizer: assim que risquei o Zippo e acendi meu cigarro, Paulo gingou em direção ao balcão e me estendeu um cinzeiro (e ele nunca havia feito isso, era mesmo para impressioná-la). Trouxe (e também pela primeira vez), guardanapos, palitos, azeite, sal, pimenta do reino, sendo que não pedimos rigorosamente nada pra comer.

– Dois maracujás, por favor!

Novos jogos de corpo, rapapés teatrais, uma afetação indescritível. Ela disse, depois do primeiro gole:

– É sempre assim?

– Não. Nunca.

E eis a frase que só mesmo uma mulher:

– Ah, que fofo.

Os marmanjos que me lêem e que já conhecem a peça devem estar guinchando de rir, mas vamos em frente.

Dia desses eu estava com o Felipinho Cereal no Bar do Marreco, que fica a exatos 220m a pé do Rio-Brasília (como seu preciso do início ao fim, eis o mapa aqui). Bebíamos de pé no balcão quando adentrou o recinto justamente o Paulo. Estava disposto a comprar cigarros para um freguês do Rio-Brasília. Cumprimentou-nos e disse ao Danilo, o barman que trabalha pro Marreco:

– Me vê um crshjwjkhsmill. – inaudível.

O Danilo, que já não é muito bom na comunicação, disse:

– Hã?

– Um maço de crshjwjkhsmill. – inaudível de novo.

Eu e o Felipinho já rolávamos, como bolas de gude, pelo chão. Fui voluntário:

– O que você quer, Paulo?

Ele riu, já manjando o clima.

– Um maço de cigarro… o nome parece com camelo, sei lá…

O Felipinho, sem fôlego, em meio à explosão ruidosa e prolongada do riso, disse:

– Camel, Danilo! Camel!

– Não tem isso não.

Seu Brasil, síndico do pedaço, estendeu o indicador em direção ao box de cigarros e disse:

– E que porra é aquele ali, ô imbecil!

– Ah! Ninguém compra essa porra!

Resolvemos o problema do Paulo.

Pra terminar: também na semana passada sentei-me no Rio-Brasília com o Vidal, a Lenda, e com Lúcio Lemos, bissexto na área, mais assíduo no circuito Botafogo, onde trabalha. Papo vai, maracujá vem, papo vem, maracujá de novo, o Lúcio sinaliza em direção ao Paulo. É um carinhoso, o Lúcio:

– Ô, Paulinho, quebra uma pra mim? Compra um Carlton ali no Estudantil pra mim?

Eu senti quando o caboclo tremeu na base. O olhar de esguelha em minha direção foi indisfarçável. Lúcio estendeu a nota de cinco reais e vimos partir o Paulo para sua marcha de não mais que 30m, trajeto ida e volta em menos de cinco minutos.

Quarenta minutos depois chega o Paulo. Imediatamente ele põe sobre a mesa um maço de Lucky Strike. O Lúcio:

– Não tinha Carlton?

O Paulo:

– Não sei.

O Lúcio:

– Por que você trouxe Lucky Strike?

O Paulo:

– Não sei.

Este, meus poucos mas fiéis leitores, é o Paulo.

Quando voltei lá, no dia seguinte, disse-me o pobre-coitado:

– De hoje em diante só saio pra comprar cigarro levando a embalagem pra comprar igual…

Até.

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O BOM E VELHO RIO-BRASÍLIA

O Rio-Brasília, já lhes disse isso diversas vezes, é meu buteco de estimação. Além de ficar a exatos 120 metros de minha casa, é perfeito no que diz respeito à estrutura (azulejos antigos, balcão farto, bebida gelada etc) e ao atendimento. O Paulo, o único garçom da casa, é o pior garçom do Brasil (quiçá do mundo) mas é um excelente garçom. É surdo, bebe mais que toda a clientela, treme horrores, quebra diversos copos e garrafas por dia, derrama metade do maracujá no trajeto entre o balcão e a mesa mas é de uma gentileza comovente. Estive lá anteontem, uma vez mais, na companhia de Felipinho Cereal, Luiz Antonio Simas (acompanhado de sua senhora) e Vidal, a Lenda. Minha menina deu-me o visto para descer com uma condição:

– Já não bastam as 14 horas na rua ontem?! Vê lá, hein?! Vá rápido e traga o Vidal pra beber um uisquinho com você aqui…

Uma doçura que me emociona. A frase “traga o Vidal pra beber” deveu-se a uma de minhas frases clássicas que uso em caso de extrema necessidade:

– Eu preciso ir, sabe? O Vidal não tá nada bem… – dita com uma expressão gravíssima, uma máscara de corredor de UTI.

Ela sabe que é mentira em 90% dos casos mas funciona sempre.

Ao chegar no bar – eis o que eu queria lhes contar – a mesma assistência.

Taí uma das características marcantes de qualquer bom e clássico botequim. A assistência. Vejam vocês que os bares incensados pela imprensa têm sempre um público de museu, e explico: são pessoas estranhas ao ambiente e que chegam em levas intermináveis, ora de van (há quem organize expedições aos bares em vans), ora guiados pelo GPS do automóvel.

Já os tradicionais, não.

Não têm público de museu. Têm, mais que freqüentadores, figurantes fixos. Aqueles que, quando não aparecem no pedaço, merecem a frase:

– Fulano faltou hoje.

Pois o Rio-Brasília é assim. E lembrei-me de lhes contar isso por conta da atuação do Vidal na noite de domingo. Muito provavelmente para ver aflorar minha veia crítica deu de perguntar:

– Quem é esse, Edu? E aquele? E aquele outro? – por aí.

Felipinho Cereal me ajudou nas respostas. Lembrei-me de um detalhe: em um desses botequins clássicos – como o descrito aqui por meu irmão, Fernando Szegeri – poucas vezes se sabe o nome dos figurantes. O que vale é mesmo o apelido.

Lá estava no domingo o Benito di Paula Preto – “com a mesma camisa há três dias”, apontou o Cereal. O sujeito é os cornos do cantor friburguense, aquele cabelão, aquela barbicha. Antes de prosseguir quero lhes contar um troço.

Papai é um homem que anda com uma carteira imaginária de frases prontas no bolso. E sempre – eu disse sempre! – que papai passa em frente a um botequim e vê, lá, sentado numa das mesas ou mesmo de pé no balcão, uma pobre alma solitária bebendo sua cerveja, ele solta em tom de lamento:

– Coitado… Todos os dias esse homem está aí. Não tem família! Não tem família!

Pois estava no Rio-Brasília, também, a Sem Família. Trata-se de uma mulher na casa de seus 45 anos e freqüentadora diária. Parece um daqueles vendedores de bilhete de loteria dos botequins: passa a noite indo de mesa em mesa, filando um cigarro aqui, um gole de cerveja ali, até que é resgatada, todas as noites, pelo filho. Há, é preciso dizer, outras duas com o mesmo comportamento: são a Sem Família I e a Sem Família II. Há também a Cássia Eller da Tijuca, moradora do prédio em cima do bar. Pelo que conta Felipinho Cereal, um observador nato, mora com outra mulher e as duas adotaram uma criança que – vejam vocês! – também tem apelido: Chicão, por conta do nome do filhote da roqueira falecida. Outra figura clássica: o Bigodinho, vizinho do Cereal. Também o Taxista, que todos os dias – todos! – comparece com a mulher e o casal de filhos. Outro que estava lá diariamente – mas sumiu – é o Pica-Pau. Depois que se envolveu num imbróglio que beirou as vias de fato com o Felipinho Cereal e o Espanhol, seu tio, sumiu para sempre. O Felipinho, inclusive, já é chamado pela assistência de Exterminador de Aves, por conta disso. Pois ficamos ali legendando os personagens para delírio do Vidal. Pagamos a conta – e uma vez mais coube a cada um menos de dez reais – e fomos pra casa, eu e meu dentista.

O Vidal, à certa altura, já na terceira dose de uísque – foi-se embora minha garrafa de Blue Label – contou pra minha menina minha atuação quanto à apresentação dos figurantes. E ela, de voleio:

– E tu acha que falam o quê do Edu? Ele também está lá todos os dias, todos os dias!

De olhos baixos – aqueles olhos-faróis, verdíssimos, perdição de suas pacientes – ele disse:

– É… pouco antes do Edu chegar a Cássia Eller da Tijuca comentou sobre a ausência da Baleia de Gravata. Foi quando o Benito di Paula Preto perguntou a ela se a referência era ao Maracujá-Kojak.

Até.

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