Arquivo do mês: dezembro 2006

>PRESENTE DE NATAL

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Em 13 de julho eu escrevi sobre meu time de botão, o Nova Atlanta, aqui.

Quando foi 7 de novembro, escrevi outro texto sobre o tema, aqui, mostrando a vocês, inclusive, o escudo do glorioso esquadrão.

Daí que hoje é Natal. E eu fico, confesso que fico, todos os anos, e neste 2006 não foi diferente, naquela papagaiada gritando e panfletando contra os presentes, contra essa febre de ter que dar coisas, comprar coisas, ganhar coisas, essa bossa dezembrina.

Só que eu ganhei, da minha Sorriso Maracanã, hoje, o melhor e mais surpreendente presente de minha já não tão curta vida.

Uma mesa oficial de botão.

Não, não, não.

Nada disso.

Ganhei, ou melhor, ganhamos, eu e minha equipe, um estádio próprio, com o lindíssimo escudo do Nova Atlanta no grande círculo central.

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Não tive ainda, diante do susto, da surpresa, da emoção e do arremesso violento em direção ao passado (estou com 10 anos de idade neste exato instante), coragem de abrir o presentão.

E quero confessar, publicamente, que nem a Maria Helena (6 anos de idade) e nem a Ana Clara (4 anos de idade) vibraram tanto quanto eu, mesmo diante da tonelada de presentes que o Papai Noel deixou pra elas.

E com licença: Papai Noel de cu é rôla. Minha garota é que é a fodona.

Até.

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>2006

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Vou fazer um troço hoje que jamais fiz se tomarmos o Buteco como prisma dos meus gestos: vou descumprir a promessa que fiz ontem e não farei balanço algum do ano que se aproxima do fim. Mas justifico. Sentei-me aqui, diante da tela, que equipara-se à folha em branco dos escritores de outrora, e, fazendo o necessário retrocesso para ser preciso do início ao fim no cumprimento da tarefa a que me propus, ri, chorei, dei gargalhadas, chorei de novo, e já sou capaz de ouvir meu pai muxoxando diante do computador:

– Chorou? De novo? Caraca! – que meu pai não fala “caralho” jamais, é um gentleman.

Mas é que mexer com os afetos – e nada como ter uma psicóloga dormindo conosco para que a compreensão dessas coisas fique mais nítida e possamos, então, lidar bem com esse turbilhão emocional – acaba mesmo sempre dando nisso.

Daí eu resolvi, em nome da auto-preservação, já que discorrer sobre tudo, citar nomes, esmiuçar cada coisa, me faria sofrer mais do que o desejável, recomendar a leitura de onze textos, um de cada mês do ano, não contando dezembro, evidentemente.

Adianto-me, entretanto, na explicação necessária, já que sou capaz de ouvir meu pai muxoxando diante do computador:

– Sofrer? De novo? Putz! – que meu pai não fala “putaquepariu” jamais, é um lorde.

Sofrimento não é dor, necessariamente. É saudade. É banzo. É emoção diante da beleza. E é o que me engrandece, eu, discípulo confesso do Poeta.

De janeiro eu recomendo esse “DOMINGO É O DIA”, e o dedico à saudade de dois mais-que-queridos, Szegeri e Dalton.

De fevereiro eu recomendo “PAJELANÇA”, onde há um video hilariante, eu cantando um fado, no Nova Capela, ao lado da Dani, da Inês e do Mauro.

De março em recomendo “ELIS REGINA, A PIMENTINHA”, e o dedico à saudade que tenho da mais doce e terna cocker-spaniel do mundo e ao carinho, sem limites, de minha mãe.

De abril, mês sempre dificílimo pra mim, recomendo “NO TRAPICHE GAMBOA”, que é o relato da minha festa de 37 anos, e o dedico ao Rodrigo Folha Seca, que aparece numa das fotos comigo, antecipando nosso (re)conhecimento.

De maio eu recomendo “FRIO NO RIO”, e o dedico ao Fraga, puta aquisição afetiva em 2006. Saravá!

Do mês de junho eu recomendo “ACR E UM PLÁGIO”, marco na luta pessoal contra as barbaridades cometidas pelo jornal O GLOBO.

De julho eu recomendo “UMA HOMENAGEM PARA O SZEGERI” que, como não poderia deixar de ser, é dedicado ao maior ser humano que conheci em 37 anos de vida. Tenho, dele, nesse exato instante, olímpica saudade, e envio daqui, de pé, no balcão do Buteco, todo meu afeto, muito axé, pra minha irmãzinha Stê (tô chorando, pai, fudeu de novo…) e pra Iara, minha família siamesa, distante mais do que eu gostaria.

De agosto eu recomendo “FURANDO O BLOQUEIO”, onde aparece o já conhecido video no qual eu grito, ao vivo, o nome de meu saudoso e eterno Governador Leonel de Moura Brizola.

De setembro, “OS PRESENTES IRRETRIBUÍVEIS”, e o dedico à Glória, ao Delson, ao Tico, ao Capitão Leo, ao Szegeri (de novo, e sempre), ao Toledo, ao Próspero, à Cidália, e ao Bruno Ribeiro, todos citados lá. E especialmente ao homem que inspirou-me para escrevê-lo, meu querido Simas, outra puta aquisição pessoal em 2006.

De outubro, “UM SENHOR SÁBADO”, e o dedico a Tiago Prata, o Pratinha, o Prata Querubim, que eu ainda não decidi se é meu irmão mais novo ou meu filho único adotivo. E ao Moacyr Luz, de volta depois de longo e tenebroso inverno.

De novembro, recomendo “HÁ POUCO MAIS DE VINTE ANOS”, e o dedico ao Vidal, a Lenda, meu irmão mais antigo, e que me derrubou dias antes do primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo quando, com os olhos cheios d´agua, me disse:

– Edu… ´cê tá lembrando que depois de amanhã começa a Copa e que há exatos vinte anos assistimos ao primeiro jogo do Brasil juntos, na casa do Marquinho, na Grajaú?

Eis aí, meus fiéis leitores, a verdade que o Aldir já traduziu: é na saudade que tudo o que amei sobrevive.

Um puta ano novo para todos. Em especial pro meu siamês, o Fefê, com um carinho incomensurável, torcendo pra que eu não falte a ele, como jamais ele me faltou.

É o que eu desejo, de olhos marejados (não tem jeito, meu pai…), a cada um de vocês.

Até 2007.

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>MAIS SOBRE A GLOBO

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Amanhã, 22 de dezembro, sexta-feira, será o último dia de expediente aqui, nesse Buteco, no ano de 2006. E mesmo assim porque pretendo escrever o texto de despedida do ano hoje à noite, para publicá-lo amanhã, bem cedo, antes de sairmos pra praia, eu e minha Sorriso Maracanã, a mulher que me ensinou a sorrir, e que tem, a partir de amanhã, uma semana de recesso, o que me obriga, com um tremendo e inenarrável prazer, a acompanhá-la nessa farra de sete dias. O que pretendo fazer amanhã é – provando com isso que eu não tenho nenhuma (dito com intensidade szegeriana) – originalidade – um balanço do ano, um apanhado de seus doze meses, que parecem passar cada vez mais rápido, e eu estou convencido de que isso é um sintoma agudo do envelhecimento.

Mas enquanto não é chegado o momento do balanço, permito-me uma observação para, em seguida, transcrever uma nota, uma mensagem, assinada por Rodrigo Vianna, demitido pela TV GLOBO, e que diz muito sobre o que temos discutido aqui, no balcão, com uma tremenda civilidade. Tenho tido especial prazer em receber emails de jornalistas que trabalham no jornal O GLOBO, constantemente vigiado, digamos, por mim, porque isso significa que (01) estão lendo o que escrevemos aqui, lá dentro do jornal que perde qualidade a olhos vistos, que (02) há, ainda que timidamente, uma vontade de fazer do debate o meio viável para discutirmos o jornalismo (ainda que tendo o jornal O GLOBO como palco) e, principalmente, que (03) não somos tão loucos assim. Há, definitivamente, um evidente fundo de verdade em cada queixa, em cada denúncia nossa, em cada apontar de dedo indicador acusador. Agradeço aos que tiveram, e têm, freqüentemente, atenção conosco, o que não significa, em absoluto, que concordamos com relação à problemática do tema: em ordem alfabética, Cesar Tartaglia, Cora Rónai, Eduardo Fradkin e Juarez Becoza.

Dito isso, vamos em frente, com a transcrição de mais uma bombástica denúncia!

“Repórter da TV Globo denuncia parcialidade na cobertura das eleições de 2006

Rodrigo Vianna, após questionar a cobertura da emissora das eleições, foi afastado do noticiário político. Nesta terça-feira (19), foi informado de que a Globo, após 12 anos, pretendia não renovar seu contrato. Em carta enviada aos colegas, obtida pela Carta Maior, ele acusa a parcialidade da empresa.

Bia Barbosa e Gilberto Maringoni – Carta Maior

SÃO PAULO – O repórter especial da Rede Globo de Televisão em São Paulo, Rodrigo Vianna, foi informado nesta terça-feira (19) que a empresa não pretende renovar seu contrato de trabalho, que expira em 31 de janeiro próximo. Profissional experiente, Vianna trabalha na rede desde 1995 e produziu mais de duas dezenas de matérias para o Globo Repórter, além de cobrir seis processos eleitorais. Vianna também mediou debates eleitorais para a prefeitura de Belém (2004) e para o governo do Mato Grosso (2006).

Segundo colegas, Vianna já estava decidido a também não renovar seu contrato em função do que ocorreu desde o início do processo eleitoral. Ao lado de outros jornalistas da emissora, ele foi um dos que questionou a parcialidade da cobertura realizada pela Globo. Nos últimos meses, foi afastado da cobertura política e destacado para atuar nos jornais locais. Procurado pela reportagem da Carta Maior, Vianna informou que não pode se manifestar por exigências do seu contrato, ainda em vigor. O chefe de jornalismo em São Paulo, Luiz Cláudio Latgé, também foi procurado, mas não foi encontrado para comentar o assunto.

Imediatamente após a conversa com a chefia no início da tarde desta terça, Rodrigo Vianna teve seu correio eletrônico interno e seu crachá bloqueados. Antes, no entanto, conseguiu enviar aos colegas uma mensagem em que explica as razões de seu afastamento e externa sua insatisfação com a cobertura da última disputa presidencial.

“O que fizemos na véspera da eleição foi incrível”, diz ele, ao comentar o desequilíbrio da cobertura. “Ninguém na redação queria poupar os petistas (…) O que pedíamos era isonomia. Durante duas semanas, às vésperas do primeiro turno, a Globo de São Paulo designou dois repórteres para acompanhar o caso dossiê: um em São Paulo, outro em Cuiabá. Mas, nada de Piracicaba, nada de Barjas [Negri, ex-ministro da Saúde]!”

Vianna destaca ainda “aquele episódio lamentável do abaixo-assinado, depois das matérias da Carta Capital”. Segundo ele, “foi um abaixo-assinado em defesa da Globo, apresentado por chefes!”

Leia abaixo a íntegra da mensagem, obtida com exclusividade pela Carta Maior.

Lealdade
Rodrigo Vianna

Quando cheguei à TV Globo, em 1995, eu tinha mais cabelo, mais esperança, e também mais ilusões. Perdi boa parte do primeiro e das últimas. A esperança diminuiu, mas sobrevive. Esperança de fazer jornalismo que sirva pra transformar – ainda que de forma modesta e pontual. Infelizmente, está difícil continuar cumprindo esse compromisso aqui na Globo. Por isso, estou indo embora.

Quando entrei na TV Globo, os amigos, os antigos colegas de Faculdade, diziam: “você não vai agüentar nem um ano naquela TV que manipula eleições, fatos, cérebros”. Agüentei doze anos. E vou dizer: costumava contar a meus amigos que na Globo fazíamos – sim – bom jornalismo. Havia, ao menos, um esforço nessa direção.

Na última década, em debates nas universidades, ou nas mesas de bar, a cada vez que me perguntavam sobre manipulação e controle político na Globo, eu costumava dizer: “olha, isso é coisa do passado; esse tempo ficou pra trás”.

Isso não era só um discurso. Acompanhei de perto a chegada de Evandro Carlos de Andrade ao comando da TV, e a tentativa dele de profissionalizar nosso trabalho. Jornalismo comunitário, cobertura política – da qual participei de 98 a 2006. Matérias didáticas sobre o voto, sobre a democracia. Cobertura factual das eleições, debates. Pode parecer bobagem, mas tive orgulho de participar desse momento de virada no Jornalismo da Globo.

Parecia uma virada. Infelizmente, a cobertura das eleições de 2006 mostrou que eu havia me iludido. O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi ficção. Aconteceu.

Pode ser que algum chefe queira fazer abaixo-assinado para provar que não aconteceu. Mas, é ruim, hem!

Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: “o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto”.

Tudo isso aconteceu. E nem foi o pior.

Na reta final do primeiro turno, os “aloprados do PT” aprontaram; e aloprados na chefia do jornalismo global botaram por terra anos de esforço para construir um novo tipo de trabalho aqui.

Ao lado de um grupo de colegas, entrei na sala de nosso chefe em São Paulo, no dia 18 de setembro, para reclamar da cobertura e pedir equilíbrio nas matérias: “por que não vamos repercutir a matéria da “Istoé”, mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos? Por que não vamos a Piracicaba, contar quem é Abel Pereira?”

Por que isso, por que aquilo… Nenhuma resposta convincente. E uma cobertura desastrosa. Será que acharam que ninguém ia perceber?

Quando, no JN, chamavam Gedimar e Valdebran de “petistas” e, ao mesmo tempo, falavam de Abel Pereira como empresário ligado a um ex-ministro do “governo anterior”, acharam que ninguém ia achar estranho?

Faltando seis dias para o primeiro turno, o “petista” Humberto Costa foi indiciado pela PF. No caso dos vampiros. O fato foi parar em manchete no JN, e isso era normal. O anormal é que, no mesmo dia, esconderam o nome de Platão, ex-assessor do ministério na época de Serra/Barjas Negri. Os chefes sabiam da existência de Platão, pediram a produtores pra checar tudo sobre ele, mas preferiram não dar. Que jornalismo é esse, que poupa e defende Platão, mas detesta Freud! Deve haver uma explicação psicanalítica para jornalismo tão seletivo!

Ah, sim, Freud. Elio Gaspari chegou a pedir desculpas em nome dos jornalistas ao tal Freud Godoy. O cara pode ter muitos pecados. Mas, o que fizemos na véspera da eleição foi incrível: matéria mostrando as “suspeitas”, e apontando o dedo para a sala onde ele trabalhava, bem próximo à sala do presidente… A mensagem era clara. Mas, quando a PF concluiu que não havia nada contra ele, o principal telejornal da Globo silenciou antes da eleição.

Não vi matérias mostrando as conexões de Platão com Serra, com os tucanos.

Também não vi (antes do primeiro turno) reportagens mostrando quem era Abel Pereira, quem era Barjas Negri, e quais eram as conexões deles com PSDB. Mas vi várias matérias ressaltando os personagens petistas do escândalo. E, vejam: ninguém na Redação queria poupar os petistas (eu cobri durante meses o caso Santo André; eram matérias desfavoráveis a Lula e ao PT, nunca achei que não devêssemos fazer; seria o fim da picada…).

O que pedíamos era isonomia. Durante duas semanas, às vésperas do primeiro turno, a Globo de São Paulo designou dois repórteres para acompanhar o caso dossiê: um em São Paulo, outro em Cuiabá. Mas, nada de Piracicaba, nada de Barjas.!

Um colega nosso chegou a produzir, de forma precária, por telefone (vejam, bem, por telefone! Uma TV como a Globo fazer reportagem por telefone), reportagem com perfil do Abel. Foi editada, gerada para o Rio. Nunca foi ao ar!

Os telespectadores da Globo nunca viram Serra e os tucanos entregando ambulâncias cercados pelos deputados sanguessugas. Era o que estava na tal fita do “dossiê”. Outras TVs mostraram o vídeo, a internet mostrou. A Globo, não. Provava alguma coisa contra Serra? Não. Ele não era obrigado a saber das falcatruas de deputados do baixo clero. Mas, por que demos o gabinete de Freud pertinho de Lula, e não demos Serra com sanguessugas?

E o caso gravíssimo das perguntas para o Serra? Ouvi, de pelo menos 3 pessoas diretamente envolvidas com o SP-TV Segunda Edição, que as perguntas para o Serra, na entrevista ao vivo no jornal, às vésperas do primeiro turno, foram rigorosamente selecionadas. Aquele diretor (aquele, vocês sabem quem) teria mandado cortar todas as perguntas “desagradáveis”. A equipe do jornal ficou atônita. Entrevistas com os outros candidatos tinham sido duras, feitas com liberdade. Com o Serra, teria havido, deliberadamente, a intenção de amaciar.

E isso era um segredo de polichinelo. Muita gente ouviu essa história pelos corredores…

E as fotos da grana dos aloprados? Tínhamos que publicar? Claro. Mas, porque não demos a história completa? Os colegas que estavam na PF naquele dia (15 de setembro), tinham a gravação, mostrando as circunstâncias em que o delegado vazara as fotos. Justiça seja feita: sei que eles (repórter e produtor) queriam dar a matéria completa – as fotos, e as circunstâncias do vazamento. Podiam até proteger a fonte, mas escancarando o que são os bastidores de uma campanha no Brasil. Isso seria fazer jornalismo, expor as entranhas do poder.

Mais uma vez, fomos seletivos: as fotos mostradas com estardalhaço. A fita do delegado, essa sumiu!

Aquele diretor, aquele que controla cada palavra dos textos de política, disse que só tomou conhecimento do conteúdo da fita no dia seguinte. Quer que a gente acredite?
Por que nunca mostraram o conteúdo da fita do delegado no JN?

O JN levou um furo, foi isso?

Um colega nosso, aqui da Globo ouviu a fita e botou no site pessoal dele… Mas, a Globo não pôs no ar… O portal “G-1” botou na íntegra a fita do delegado, dias depois de a “CartaCapital” ter dado o caso. Era noticia? Para o portal das Organizações Globo, era.

Por que o JN não deu no dia 29 de setembro? Levou um furo?

Não. Furada foi a cobertura da eleição. Infelizmente.

E, pra terminar, aquele episódio lamentável do abaixo-assinado, depois das matérias da “CartaCapital”. Respeito os colegas que assinaram. Alguns assinaram por medo, outros por convicção. Mas, o fato é que foi um abaixo-assinado em defesa da Globo, apresentado por chefes!

Pensem bem. Imaginem a seguinte hipótese: a revista “Quatro Rodas” dá matéria falando mal da suspensão de um carro da Volkswagen, acusando a empresa de deliberadamente não tomar conhecimento dos problemas. Aí, como resposta, os diretores da Volks têm a brilhante idéia de pedir aos metalúrgicos pra assinar um manifesto em defesa da empresa! O que vocês acham? Os metalúrgicos mandariam a direção da fábrica catar coquinho em Berlim!

Aqui, na Globo, muitos preferiram assinar. Por isso, talvez, tenhamos um metalúrgico na Presidência da República, enquanto os jornalistas ficaram falando sozinhos nessa eleição…

De resto, está difícil continuar fazendo jornalismo numa emissora que obriga repórteres a chamarem negros de “pretos e pardos”. Vocês já viram isso no ar? Sinto vergonha…

A justificativa: IBGE (e, portanto, o Estado brasileiro) usa essa nomenclatura. Problema do IBGE. Eu me recuso a entrar nessa. Delegados de policia (representantes do Estado) costumavam (até bem pouco tempo) tratar companheiras (mesmo em relações estáveis) como “concubinas” ou “amásias”. Nunca usamos esses termos!

Árabes que chegaram ao Brasil no início do século passado eram chamados de “turcos” pelas autoridades (o passaporte era do Império Turco Otomano, por isso a nomenclatura). Por causa disso, jornalistas deviam chamar libaneses de turcos?

Daqui a pouco, a Globo vai pedir para que chamemos a Parada Gay de “Parada dos Pederastas”. Francamente, não tenho mais estômago.

Mas, também, o que esperar de uma Redação que é dirigida por alguém que defende a cobertura feita pela Globo na época das Diretas?

Respeito a imensa maioria dos colegas que ficam aqui. Tenho certeza que vão continuar se esforçando pra fazer bom Jornalismo. Não será fácil a tarefa de vocês.

Olhem no ar. Ouçam os comentaristas. As poucas vozes dissonantes sumiram. Franklin Martins foi afastado. Do Bom dia Brasil ao JG, temos um desfile de gente que está do mesmo lado.

Mas sabem o que me deixou preocupado mesmo? O texto do João Roberto Marinho depois das eleições.

Ele comemorou a reação (dando a entender que foi absolutamente espontânea; será que disseram isso pra ele? Será que não contaram a ele do mal-estar na Redação de São Paulo?) de jornalistas em defesa da cobertura da Globo:

“(…)diante de calúnias e infâmias, reagem, não com dúvidas ou incertezas, mas com repúdio e indignação. Chamo isso de lealdade e confiança”.

Entendi. Ele comemora que não haja dúvidas e incertezas… Faz sentido. Incerteza atrapalha fechamento de jornal. Incerteza e dúvida são palavras terríveis. Devem ser banidas. Como qualquer um que diga que há racismo – sim – no Brasil.

E vejam o vocabulário: “lealdade e confiança”. Organizações ainda hoje bem populares na Itália costumam usar esse jargão da “lealdade”.

Caro João, você talvez nem saiba direito quem eu sou.

Mas, gostaria de dizer a você que lealdade devemos ter com princípios, e com a sociedade. A Globo, infelizmente, não foi “leal” com o público. Nem com os jornalistas. Vai pagar o preço por isso. É saudável que pague. Em nome da democracia!

João, da família Marinho, disse mais no brilhante comunicado interno:

“Pude ter certeza absoluta de que os colaboradores da Rede Globo sabem que podem e devem discordar das decisões editoriais no trabalho cotidiano que levam à feitura de nossos telejornais, porque o bom jornalismo é sempre resultado de muitas cabeças pensando”.

Caro João, em que planeta você vive? Várias cabeças? Nunca, nem na ditadura (dizem-me os companheiros mais antigos) tivemos na Globo um jornalismo tão centralizado, a tal ponto que os repórteres trabalham mais como bonecos de ventríloquos, especialmente na cobertura política!

Cumpro agora um dever de lealdade: informo-lhe que, passadas as eleições, quem discordou da linha editorial da casa foi posto na “geladeira”. Foi lamentável, caro João. Você devia saber como anda o ânimo da Redação – especialmente em São Paulo.

Boa parte dos seus “colaboradores” (você, João, aprendeu direitinho o vocabulário ideológico dos consultores e tecnocratas – “colaboradores”, essa é boa… Eu não sou colaborador, coisa nenhuma! Sou jornalista!) está triste e ressabiada com o que se passou.

Mas, isso tudo tem pouca importância.

Grave mesmo é a tela da Globo – no Jornalismo, especialmente – não refletir a diversidade social e política brasileira. Nos anos 90, houve um ensaio, um movimento em direção à pluralidade. Já abortado. Será que a opção é consciente?

Isso me lembra a Igreja Católica, que sob Ratzinger preferiu expurgar o braço progressista. Fez uma opção deliberada: preferiram ficar menores, porém mais coesos ideologicamente. Foi essa a opção de Ratzinger. Será essa a opção dos Marinho?
Depois, não sabem porque os protestantes crescem…

Eu, que não sou católico nem protestante, fico apenas preocupado por ver uma concessão pública ser usada dessa maneira!

Mas, essa é também uma carta de despedida, sentimental.

Por isso, peço licença pra falar de lembranças pessoais.

Foram quase doze anos de Globo.

Quando entrei na TV, em 95, lá na antiga sede da praça Marechal, havia a Toninha – nossa mendiga de estimação, debaixo do viaduto. Os berros que ela dava em frente à entrada da TV traziam uma dimensão humana ao ambiente, lembravam-nos da fragilidade de todos nós, de como nossa razão pode ser frágil.

Havia o João Paulada – o faz-tudo da Redação.

Havia a moça do cafezinho (feito no coador, e entregue em garrafas térmicas), a tia dos doces…

Era um ambiente mais caseiro, menos pomposo. Hoje, na hora de dizer tchau, sinto saudade de tudo aquilo.

Havia bares sujos, pessoas simples circulando em volta de todos nós – nas ruas, no Metrô, na padaria.

Todos, do apresentador ao contínuo, tinham que entrar a pé na Redação.

Estacionamentos eram externos (não havia “vallet park”, nem catraca eletrônica). A caminhada pelas calçadas do centro da cidade obrigava-nos a um salutar contato com a desigualdade brasileira.

Hoje, quando olho pra nossa Redação aqui na Berrini, tenho a impressão que estou numa agência de publicidade. Ambiente asséptico, higienizado. Confortável, é verdade. Mas triste, quase desumano.

Mas, há as pessoas. Essas valem a pena.

Pra quem conseguiu chegar até o fim dessa longa carta, preciso dizer duas coisas…

1) Sinto-me aliviado por ficar longe de determinados personagens, pretensiosos e arrogantes, que exigem “lealdade”; parecem “poderosos chefões” falando com seus seguidores… Se depender de mim, como aconteceu na eleição, vão ficar falando sozinhos.

2) Mas, de meus colegas, da imensa maioria, vou sentir saudades.

Saudades das equipes na rua – UPJs que foram professores; cinegrafistas que foram companheiros; esses sim (todos) leais ao Jornalismo.

Saudades dos editores – que tiveram paciência com esse repórter aflito e procuraram ser leais às minúcias factuais.

Saudades dos produtores e dos chefes de reportagem – acho que fui leal com as pautas de vocês e (bem menos) com os horários!

Saudades de cada companheiro do apoio e da técnica – sempre leais.

Saudades especialmente, das grandes matérias no Globo Repórter – com aquela equipe de mestres (no Rio e em São Paulo) que aos poucos vai se desmontando, sem lealdade nem respeito com quem fez história (mas há bravos resistentes ainda).

Bem, pelo tom um tanto ácido dessa carta pode não parecer. Mas levo muita coisa boa daqui.

Perdi cabelos e ilusões. Mas, não a esperança.

Um beijo a todos.

Rodrigo Vianna.”

Só uma coisa… Quem souber, ajude-me… Quem é o “fulano” tantas vezes citado, hein?

Até.

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>FILHOS: MELHOR NÃO TÊ-LOS

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Durante a Copa da Alemanha os meninos compravam, ávidos, pacotinhos de figurinhas para o álbum que sempre é lançado durante o maior torneio de futebol do mundo. Pouco depois da Copa do Mundo as meninas disputavam a tapa as figurinhas do álbum das Princesas, e não me perguntem o que vem a ser isso, mas todas colecionavam esse troço. Fiz essa bisonha introdução para lhes contar que eu, aos 37 anos, hoje, coleciono grávidas. Estou cercado, nesse instante, final de dezembro, por cinco, seis grávidas. Serei preciso. Seis grávidas. Não me lembro de, ao longo de minha vida já não tão curta, viver, ao mesmo tempo, em tão larga escala, a expectativa do parto alheio.

Isso me consome tempo e atenção, é evidente, que dispenso sem qualquer espécie de sacrifício. São vários telefonemas com as perguntas óbvias que constam de qualquer cartilha. E meu interlocutor é sempre o futuro pai, que eu sou tão fóbico, mas tão fóbico, que eu não consigo conversar tranqüilamente com mulher grávida pelo telefone. Antes que vocês me perguntem o por quê eu digo: não faço a mínima idéia! Eis as perguntas:

– Como é que o barrigão? (uma pergunta bem idiota, uma vez que a barriga só faz crescer)

– É pra quando? (essa é de uma estupidez cansativa, mas eu a faço)

– Ansioso?

Notem o quanto é monótono o diálogo com o pai da criança por vir.

Acontece que ontem foi um desses meus amigos que bateu o telefone pra mim.

– Edu?

– Ôpa! Diga lá!

– O barrigão tá crescendo, é pra daqui a pouco e estou ansioso pra caralho. – ele disse, cortando, de primeira, minhas três intervenções quase que diárias.

– Quê que ´cê manda?

– Rapaz… Tá foda. Ela tá cem vezes mais ansiosa que eu… Me cutucou à uma e meia da manhã, aos gritos. Disse que as contrações estavam fortíssimas. Nada… Passei duas horas controlando os movimentos e não aconteceu nada. Tudo psicológico.

– Sei… – eu disse. E disse “sei” mentindo, que eu não sei picas sobre a matéria.

Ele continuou:

– Mas não ficou nisso. Me cutucou de novo às quatro, gritando de desespero. Disse que o neném tava parado. Aí eu quase me emputeci. Parado como, porra?

– Tu gritou com ela?

– Não! Não! Fiz a linha blasè. E caí na asneira de perguntar se ela queria ir pra maternidade. Ela queria. Fomos. E fomos à toa. O médico riu. Mas bicho… Essa reta final é foda! – e riu, o meu amigo.

Notem uma coisa. Ele – esse de quem eu falo – não será pai pela primeira vez. Mas ela será mãe pela primeira vez. E dentro desse contexto, eu a compreendo e a amo com a urgência dos que compreendem e protegem. Eu disse a ele, e ele riu, uma verdade integral:

– Eu, no seu lugar, morreria.

E ele gargalhou. Não tive a pachorra de explicar nada, mas o faço agora.

Eu digo sempre com a sensação do vaticínio: quando a Sorriso Maracanã engravidar – e no dia em que me der a notícia, se esse dia chegar, que esses troços não dependem só da gente – ela será, indubitavelmente, uma viúva em gestação. Uma viúva em pleno estado interessante. Não concebo receber a notícia e dizer um “oh” que seja, um “ah” mínimo, um “hã?”. Eu cairei, súbito, fulminado, como Estácio de Sá, só que suprimindo o tempo da agonia entre a flechada e a morte. Será instantâneo.

Mas digamos que eu sobreviva, hipótese improvável. Fico me imaginando no lugar do meu amigo querido. Eu dormindo e ela me acorda aos gritos. Pausa, pausa, pausa.

Notem como eu considero tudo surreal. Se eu sobreviver à notícia terei, pela frente, nove meses sem o sono. Não cogito dormir, fechar os olhos, sonhar, ao lado da mulher gestante. O homem que dorme ao lado da gestante – o pai – é um insensível, um protótipo de canalha, e eu não exagero. Mas como estamos no terreno das suposições, eu continuo.

Eu dormindo e ela me acorda aos gritos. Não me vejo dizendo “o que foi, querida?”, “aconteceu alguma coisa?” ou mesmo um “quer ir para a maternidade?”. Eu morro, eu sei que eu morro, ao som do primeiro milésimo de segundo do grito. Como sei que é rigorosamente improvável que seja ela a me alertar para as contrações. Eu me vejo – tudo hipotético, tudo hipotético! – com uma mochila constante e permanente – eu, fantasiado de canguru – com termômetros, cronômetros, lanternas, band-aid, esparadrapo, merthiolate, gaze, a cada dez, quinze minutos, a partir da consciência da situação (“Estou grávida, meu bem!”), checando tudo: pressão, contração, consistência da barriga (?!?!?!?!?!), essas coisas.

E vou parando por aqui. Isso não está, definitivamente, me fazendo bem.

Heróis, isso sim, heróis esses meus seis chegados pais em breve.

Até.

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>O JOTA E ALGUMAS QUESTÕES SOBRE O JORNALISMO

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Vejam vocês, eu quero jurar publicamente, que nem eu agüento mais. Não agüento mais apontar o indicador em direção ao homúnculo acusando-o de ser uma espécie de vendilhão, como já tantas vezes disse. E se eu não agüento mais, faço idéia de como vocês recebem mais um texto envolvendo o Jota e sua fixação pelos lixos que destroem a cidade e nossas mais arraigadas tradições. Mas estava na edição de ontem do jornal O GLOBO:

nota publicada no Segundo Caderno de O GLOBO em 18 de dezembro de 2006

Como eu sempre digo – e provo – o Jota conseguiu emplacar, mais uma vez, o nome daquele que parece ser seu patrão – Antônio Rodrigues -, e de seu bar-de-merda preferido, o Belmonte.

Leiam aqui, antes de prosseguirem… Em 18 de setembro de 2006 o Jota, a serviço de Antônio Rodrigues, anunciava o tal do Codajás, o tal restaurante (virou padaria, pelo visto) que teria pães da casa, salada no almoço e massa no jantar. Com esta nota publicada ontem, o inacreditável empregado do jornal O GLOBO (será que ele também ganha uma miséria?, e já-já vocês entenderão minha pergunta) chega ao vigésimo-oitavo atentado contra a inteligência de seus leitores, vejam no menu à direita.

Eu fiz a provocativa pergunta com relação ao salário do Jota valendo-me de uma informação tornada pública pelo jornalista Juarez Becoza, neste texto aqui. Vamos à íntegra do comentário do Juarez:

“Amigos: o jornalismo está em crise no mundo inteiro, não apenas no Globo. A pobre jornalista que vocês execram com tanta desenvoltura é apenas uma menina, que recebe um salário miserável (acreditem: miserável) para escrever oito, dez matérias por dia. Se há alguém ou algo que mereça uma meia-lua de compasso nos córneos não é ela (nem o Globo). É o modelo econômico que nos leva a essa situação. Que contribui para a falta de interesse da população por jornalismo de qualidade. Que alimenta a sede da nossa sociedade pelo supérfluo, pelo efêmero, pelo fácil e pelo rasteiro. Que incentiva a explosão dos jornais populares, e obriga os veículos tradicionais a minguarem, enxugarem custos e investimentos, e a se popularizarem também. Os jornais, amigos, vocês sabem, não educam ninguém. A sociedade é que se educa, se reeduca (e, infelizmente, às vezes, como hoje, se deseduca) através dos jornais. E nesse nosso atual inferno pós-moderno-globalizado, a pobre jornalista que vocês desejam espancar é, na verdade, uma guerreira. Uma triste guerreira. Mas, certamente, a que menos tem culpa pelo erro que justificadamente revoltou vocês. O erro merece todo o repúdio, claro, mas o errador merece, certamente, um pouco mais de tolerância. Pois o problema aqui é muito mais grave e comprometedor do que apenas um jornal em decadência. Um abraço a todos, Juarez Becoza / Coluna Pé-Sujo / Caderno Rio Show”

Vejam bem. O assunto é mais-que-polêmico e merece um espaço mais amplo que a caixa de comentários do texto. Aliás, merece um espaço bem mais amplo que o próprio Buteco, razão pela qual, tendo eu ingerência sobre esse estabelecimento, vou tacar lenha na fogueira, com o respeito que o Juarez merece, atencioso que foi defendendo seu ponto de vista.

É que discordo frontalmente dele, e quero esmiuçar minha discordância. Vamos por partes.

Não tenho e não tive, em momento algum, a pretensão de discutir o jornalismo no mundo. O Buteco tem olhos em direção ao que diz repeito ao Brasil, ao Rio de Janeiro em particular, e justo por isso eu bato tanto no Jota (que estupra a cidade quase que diariamente) e bati, com força, segurando o tacape (sou espada, porra!) levantado pelo meu mano Simas no seu “Histórias do Brasil”, na jornalista Luciana Brum.

Luciana Brum que é, nas palavras do Juarez, “uma menina que recebe um salário miserável”. Em primeiro lugar eu não concebo que ninguém faça jornalismo com a pretensão de ficar rico. Em segundo lugar eu DUVIDO (negritado, sublinhado, o escambau) que ela ganhe um salário miserável. Mas ainda que fosse assim, considero inadmissível que isso seja justificativa para cometer erros tão crassos quanto o cometido por ela na matéria sobre a peça com textos e músicas de Paulo César Pinheiro. Os revisores e os editores do tal RioShow também ganham salários miseráveis? Não têm coragem de, então, diante da cagada, mandar publicar uma errata, um pedido público de desculpas, uma simples retratação?

Discordo também, radicalmente, quando o Juarez personifica o Modelo Econômico (Bom dia, Sr. Modelo!) e o culpa pela qualidade do jornalismo, ao menos dentro de O GLOBO. Eu queria dizer publicamente ao Juarez, e por isso me valho do balcão do Buteco, que não é o modelo econômico quem “contribui para a falta de interesse da população por jornalismo de qualidade, que alimenta a sede da nossa sociedade pelo supérfluo, pelo efêmero, pelo fácil e pelo rasteiro”. Não. Ao menos não sozinho. Quem fez isso e quem ainda faz isso desde que instalou-se no Brasil graças a acordos espúrios sobre os quais melhor poderá falar o Simas, quando e se quiser, é a potência que atende pela grife GLOBO, comandada por Roberto Marinho, dono da maior fortuna pessoal no Brasil no século XX.

Uma potência que comanda canais de TV, jornais, revistas, rádios, e que mente, e que engana, e que empurra, para o povo brasileiro, lixo goela abaixo. Não vou me desviar, que fique claro. Vou falar apenas do jornal, que é o que nos importa ao menos aqui.

Quando deparei-me, no sábado, com uma coluna fétida assinada por um tal de Ximenes (recuso-me a procurar, agora, o nome do empregado do jornal que escreve no caderno editado pela Ana Cristina Reis) na qual o infeliz exalta o Trem do Samba pelo que ele tem de épico e pela diversão que é um zona-sul ir ao subúrbio comer acarajé sem ser visto pelos seus pares, tive vontade de vomitar, Juarez. Ali, ele deseduca. Não sabe, o infeliz, a origem da festa. E dá a ela um tratamento degradante. Quando a própria Ana Cristina Reis plagia, flagrantemente, uma matéria como eu provei aqui, ela deseduca (e mente). Quando o jornal noticia (sem errar, observe isso) as festas raves que se espalham como câncer pela cidade com o único intuito de drogar a juventude seca por drogas sintéticas ele deseduca e ajuda a destruir uma geração. Quando o jornal dá, através da coluna do homúnculo, destaque evidente e vergonhoso a mentiras como Belmonte, Informal e outras merdas do gênero, ele mente e ajuda a destruir uma tradição. Quando o jornal toma partido ao longo de uma eleição presidencial, como essa nossa última, e chuta para escanteio um troço chamado isenção, ele mente e ajuda a impedir o amadurecimento e o crescimento de eleitores ávidos por informação equilibrada. Quando o jornal dá voz a uma série de empregados que não sabem nada, que não conhecem nada sobre o Brasil, sobre o ser-brasileiro, sobre a cidade e sobre o ser-carioca, ele de novo deseduca e vende, sorrateiramente, nossa alma ao diabo.

Noel Rosa faria 96 anos há uns dias, Juarez. Nenhuma menção à passagem da data. E daí a gente lê uma matéria escrita por uma menina que ganha um salário miserável, e que confia no que diz um release (foi a versão que um colega seu me contou, por email privado) sem se dar ao trabalho da pesquisa, desnecessária neste específico caso, penso eu. Aliás, Juarez, me diga lá…

Algum repóter, algum jornalista, hoje em dia, aí no seu jornal, levanta o rabo da cadeira e vai atrás da notícia? Do fato? Das fontes? Ou eles ficam mandando emails em busca de ter o que escrever? Emails, torpedos, telefonemas… hein?

Faz uma coisa, Juarez. Faz uma coisa que eu acabei de ter uma idéia.

Convence algum editor daí. Eu topo escrever uma coluna por semana, de graça, por seis meses que seja, no Segundo Caderno. De graça, Juarez. Menos do que o salário miserável da menina-jornalista. Veja se algum empregado vai tirar férias, algo do gênero. Eu trabalho de graça por seis meses.

Ofereça meu email para contato.

Palavra de honra que eu cumpro o que prometo.

Até.

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>UM SENHOR SÁBADO

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Ir a um ensaio da Acadêmicos do Salgueiro nunca é, como estou cansado de dizer, um simples programa. É, como diria o Paulo César Pinheiro (vilipendiado pelo jornal O GLOBO, leiam aqui), feito uma reza, um ritual. Mas quando decidimos, eu e a minha Sorriso Maracanã, ir à quadra no sábado passado, não imaginávamos que fôssemos viver as emoções violentas que vivemos. Vou contar tudo, evidentemente. Com a precisão costumeira.

Passamos o dia inteiro na praia. Céu sem nuvens, caipirinhas preparadas pelo Mário (dia desses lhes conto sobre essa figura fundamental nas areias), e propus à certa altura irmos à quadra da vermelho e branco. Dani topou no ato – pra nascer alguém que me faça as vontades de maneira tão constante – e o Pratinha, também conosco, mandou seu tradicional “oba!”.

Às dez da noite chegava aqui em casa o menino, Prata Querubim, com o Dorival (leiam aqui para conhecê-lo). Partimos de táxi, saltamos na esquina da Barão de Mesquita com a Silva Teles, e fomos caminhando ali, por aquela rua, que tanto me comove com suas casinhas que se transformam em biroscas, tendinhas, bebemos uma meia dúzia de cervejas e entramos. Dizer isso que vou dizer, agora, depois de tudo o que vivemos, soará como oportunismo, mas o Salgueiro estava em dia de graça. Os puxadores, acompanhados pela Furiosa, a pujante bateria comandada pelo Mestre Marcão, desfiavam os mais significativos sambas de sua história, e eu já estava quase em transe cantando “venham ter felicidade salgueirando a humanidade”, “Ifá mandou Exu, o mensageiro, abrir caminhos pelo mundo inteiro”, “Salgueiro, vermelho, balança o coração da gente”, “salgueirar vem de criança, o centenário não se apagará”, e eu antevia – eis aí o que soará como oportunismo – uma noite de surpresas.

Breve pausa para lhes contar um troço hilariante. Enquanto eu Dani nos esbaldávamos, o Prata, estático, me fez um sinal com o indicador:

– Edu, vamos embora. morrendo de frio.

No Salgueiro, única quadra com ar-condicionado – e fortíssimo – nunca faz frio, respondi ao menino, ignorando seu apelo. Vamos seguir.

À certa altura, Bira do R anuncia ao microfone:

– E vamos anunciar a presença da madrinha do samba na quadra do Salgueiro… Beth Carvalho!!!!!

Nesse instante – eu notei – o Prata começou a suar, e intensamente. Ligado à Beth Carvalho por sentimentos intensos e confusos, o menino olhava fixamente para o camarote, gotas de suor brotavam de sua testa, quando eu disse:

– Quer subir?

Ele não me respondeu, mas abriu um sorriso franco e excitado.

Fomos pra mais perto e acenei pra Beth que, como sempre, dulcíssima, nos convidou para subir. O Prata, meus fiéis leitores, estava mais salgueirense que nunca… Dono de pele alvíssima, tinha a face vermelha, as orelhas em fogo, os olhos vidrados.

Subimos. E lá ficamos até às quatro da manhã quando me cutucou a Beth:

– Vamos à Mangueira?

Fomos.

E meninos, eu vi.

Eu vi, e é justo o que eu quero lhes contar desde o início. Eu jamais havia visto, tão de perto, uma manifestação coletiva de carinho tão intensa como a que vi quando chegamos à verde-e-rosa.

Foi a Beth embicar o carro na Visconde de Niterói, lotada, para que eu me sentisse um hebreu atravessando o mar. Homens, mulheres, velhos e moços, olhos em festa pra dentro do carro, centenas de mãos indicando vagas que não existiam, flashes de câmeras digitais e de celulares explodindo em direção a ela, um troço que não dava pistas exatas do que ainda assistiríamos dentro da quadra.

Estacionamos bem diante do Palácio do Samba e nos aguardava – aguardava a ela, é óbvio! – Percival Pires, o Presidente da Estação Primeira. Ele mesmo nos levou ao camarote. E eis então, no exato instante em que a Beth chega ao camarote e saúda a multidão – e estou falando de algo entre 4 e 5 mil pessoas – o que se deu.

Alguém anuncia sua presença na quadra e a multidão irrompe em aplausos ensurdecedores. A bateria silencia. E um puxador começa:

“Chora
Não vou ligar! Não vou ligar!
Chegou a hora!
Vais me pagar!
Pode chorar! Pode chorar!”

E eu chorei. Eu chorei porque a multidão cantava à capela, sem instrumento algum, sem sequer a bateria, só no ritmo das palmas. Eu chorei porque via mãos em sua direção, olhos de êxtase, gente mostrando a camisa do Botafogo, a camisa da Mangueira, mandando beijo, mandando beijo, mandando mais beijo, e ela, de novo generosa como sempre foi comigo – foi, por exemplo, quem me apresentou ao Brizola, leiam isso aqui – me chamou pra perto dela.

Não quis ir, ou não pude. Um pouco mais atrás, no canto do camarote, bebericando minha cerveja, eu chorava diante da energia que vinha daquele povo.

De lá ainda partimos para comer o meu podrão preferido, na Praça Saens Peña, onde – vão tomando nota da proporção que as coisas tomam – a Socorro não nos deixou pagar um centavo – “Imagina, gente, vocês trouxeram a Beth aqui…” – a Beth ainda deu uma dúzia de autógrafos, posou pra diversas fotografias e, hilariante momento, foi convidada para passar o reveillón na casa de um sujeito que se aproximou, entregou a ela um cartão e disse, “Pô, madrinha, se a senhora quiser me dar a honra de pintar lá em casa no dia 31…”.

Fomos deixados de volta, eu, Dani e Prata Querubim (que sem condições de locomoção dormiu aqui em casa), às seis da manhã, sol já mandando ver.

Fecho o texto com uma fotografia feita pelo celular do menino que, extasiado e enrolando a língua, me pediu:

– Edu… Tira uma foto minha com a Beth e com o Cartola?

Saquem a expressão do garoto, com a latinha na mão…

Beth Carvalho e Pratinha na quadra da Mangueira em 16 de dezembro de 2006

Até.

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>O GLOBO E UM CRIME DE LESA-PÁTRIA

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Eu escreveria um texto sobre o crime de lesa-pátria cometido pelo jornal O GLOBO, ontem, mas prefiro transcrever, na íntegra, o que escreveu meu mano Simas, no imprescindível “Histórias do Brasil”. Mas não sem antes dizer que é triste verificar a vertiginosa queda de qualidade do jornal que é um dos – eis a funesta piada – principais jornais brasileiros. É inadmissível, como vocês verão, uma de suas empregadas escrever o que escreveu. Como é inadmissível que os editores não tenham impedido a publicação do texto mal escrito, burro, deseducador. Com vocês, o texto “O SAMBA DA JORNALISTA DOIDA”:

“Senhoras e senhores, escrevo hoje em missão cívica, com a alma exacerbada dos maiores clamores patrióticos. Sinto-me, em essência, um André Vidal de Negreiros combatendo em defesa da terra nas gestas de Guararapes. Um fato gravíssimo, de dimensões maiores do que supomos inicialmente, aconteceu. Explico, ainda trêmulo de indignação.

O metrô do Rio entrou em pane essa manhã. Fiquei mais de uma hora parado na estação Afonso Pena aguardando a normalização do tráfego. Para matar o tempo, comprei um exemplar de O GLOBO, jornal que parei de assinar recentemente. Ao passar os olhos pelo caderno RioShow, deparei-me com uma reportagem sobre a estréia do musical “Besouro Cordão-de-Ouro”, com texto e músicas do grande Paulo César Pinheiro. Como fã dos dois, Paulinho e Besouro Mangangá, comecei a ler a reportagem com a curiosidade de um cristão que lê um relato sobre o Santo Sepulcro.

Eis que, em certo trecho, para minha completa estupefação, ponho os olhos no seguinte:

´Amado não escreveu, mas o capoeirista logo voltou à vida do músico por meio dos versos “Quando eu morrer / Não quero choro nem vela / Quero uma fita amarela / Gravada com o nome dela”, escritos por Besouro e usados por Pinheiro e Baden Powell no sucesso Lapinha.´

Leitores, eu senti um frio no estômago só comparável ao que sentia quando andava no Bicho da Seda – no saudoso parquinho da Quinta da Boa Vista – e ficava tudo escuro.

Li, reli, tornei a ler e, só então, dei-me conta do inapelável – era isso mesmo que estava lá, nas páginas do jornal de maior circulação da cidade. O nome da herege é Luciana Brum.

Como é que uma empregada de um jornal que se pretende sério, atribui a Besouro Mangangá a autoria de ´Fita Amarela´? Isso é Noel Rosa, criatura. Será que a moça não sabe que os versos atribuídos ao capoeirista são ´Quando eu morrer me enterrem na Lapinha / calça culote, paletó almofadinha´, brilhantemente citados no clássico do Paulo César Pinheiro e do Baden?

Como é que um jornal publica um negócio desses? E um jornal carioca, cacete. Para piorar, tal barbaridade foi escrita na semana em que Noel Rosa completaria 96 anos, fato, aliás, ignorado pelo O GLOBO.

Aposto um time de botões de galalite como essa Luciana Brum resolveu pesquisar no Google as referências sobre a música. Mesma opinião tem o Edu Goldenberg, para quem liguei assim que li o arrazoado bestial. Dez por um como ela colocou o ´quando eu morrer´ para guiar a pesquisa, veio a letra de ´Fita Amarela´ e a ex-jornalista tascou na matéria, com o mesmo rigor com que eu ponho polvilho antisséptico Granado em assadura na bunda e Leite de Rosas no suvaco.

Dona Luciana e O GLOBO deveriam ser processados por quatro tentativas de assassinato, os de Besouro, Baden, Paulinho e Noel. Escrever uma monstruosidade dessas é comparável, em Portugal , a atribuir a Bocage o verso ´as armas e os barões assinalados´. Dá cadeia e tudo.

Se perguntarem pra esses arremedos de jornalistas que inundam a redação de O GLOBO sobre a arte contemporânea pop, a festa High Noon de Santa Teresa, o Rio E-Music Festival , o DJ Mike Relm, a cozinha contemporânea do Manekineko Diferente, o Rio Garden Festival e a reforma de R$500 mil da boate Baronneti – tá tudo isso noticiado na edição de hoje de O GLOBO – os caras vão falar tudo certinho. Botou a cultura brasileira na história, deu merda.

É, meus amigos, o negócio é fortalecer cada vez mais nossas trincheiras, que os bárbaros estão tomando tudo. Roubam nossa língua, nossos butecos, nossos batuques, nossos mitos, nossos heróis… Tá feia a coisa. São os mudernos, queridos, os mudernos…

Eu sugiro, por fim, que a cidadã que escreveu isso seja condenada a varrer a redação por uma semana. A editora do caderno deve ser sumariamente obrigada a comparecer ao bairro de Vila Isabel durante um mês, todos os dias, para respirar o ar que Noel Rosa respirou e parar de compactuar com maluquices. O GLOBO é caso perdido, a redação é um valhacouto de bestas quadradas. Eles que se danem.

Eu, daqui, às margens do rio Maracanã, abro a primeira gelada do dia em homenagem a Besouro, Baden, Paulinho e Noel, cantando, como se canta o Hino Nacional em final de Copa do Mundo, ´Fita Amarela´ e ´Lapinha´.

Não passarão!”

Até.

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