Arquivo do mês: junho 2004

>Ô, SEMANA!

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Doces figuras, decidi, depois de enviar extenso email pro Szegeri na noite de ontem contando meu sufoco de semana passada, que por sua vez me respondeu um curto e objetivo “publique!”, dividir com vocês algumas passagens verídicas, algumas trágicas, algumas cômicas, mas todas reais, não é demais repetir, que coroaram a penúltima semana desse junho brabo.

Soube da notícia do Brizola na segunda-feira passada, 21/06, porque o Szegeri me telefonou pra avisar. Mauro estava aqui em casa, no Buteco, e testemunhou o baque. Minha sogra também telefonou, Maria Paula, mamãe, papai, o telefone não parou e eu passei a não atender, telegramas chegaram, flores, e o porteiro interfonou pra saber se eu era parente do Leonel.

Mandei-o à merda e fui dormir.

A terça-feira foi péssima. Contrariando uma promessa que havia feito quando vi pela TV a quilométrica fila do velório do Ayrton Senna, plantei-me na Álvaro Chaves, em frente à entrada social do Fluminense, para despedir-me do velho caudilho.

Quase quatro horas na fila e três maços de cigarro, afinal era o último dia fumando, uma trágica coincidência da programação do remédio caríssimo que comprei para conseguir largar o desgraçado.

Voltei pra casa em frangalhos.

A quarta-feira não foi melhor que a terça. Primeiro dia longe dos bastonetes nicotinosos, obsessivamente grudado na TV acompanhando Brizola no Rio Grande do Sul, e nem o jogo do Flamengo foi capaz de me animar no final do dia, quando cheguei no Rio-Brasília pra encontrar Lelê, Fábio, Marquinho e Alê de olhos inchados.

Vitória do Flamengo, apito final e tomei o rumo de casa.

Quinta-feira? Péssima. Acompanhei o funeral em São Borja pela TV, dormi quase que o dia inteiro. Estava me sentindo levemente mal. Piorei muito quando a Dani chegou em casa com a notícia que estava indo pra SP a trabalho no dia seguinte pela manhã, às 8h, voltando apenas pro almoço no sábado.

Começou aí, queridos, o ápice da tragédia da semana.

Minha noite foi caótica. Atentem para o sonho: estou numa sala que não reconheço, sentando a uma mesa oval, e a meu lado quem? Leonel Brizola. Fala o Brizola: “Sabe, Eduardo, na verdade, francamente… (segurando os óculos por uma das hastes)… eu deixei de fumar quando sofri uma grande decepção… no dia em que perdi a legenda do PTB… E hoje, tristíssimo e decepcionado com minha morte, decidi que vou voltar a fumar!” E eu, de prima: “Que bom, Governador! Eu deixei há poucos dias, se o Sr. voltar eu lhe acompanho!” O velho Briza abre uma gavetinha à sua frente, retira dois cigarros, acende o meu, acende o seu e ficamos de papo horas sobre política. Acordo assustadíssimo.

Dani está de malas prontas. Vou levá-la. No caminho lhe conto sobre o sonho. Dani ri e diz que por causa disso é que não quero filhos. Não suportaria outra criança me roubando espaço. Diz que o sonho é previsível pra alguém como eu, que eu sou uma criança, um bebêzão, mas eu a interrompo: “Seja como for eu vou dormir na mamãe hoje. Não vou dormir sozinho. Tenho medo do Brizola aparecer pra mim e me oferecer um cigarro.” Dani ri, salta do carro, diz que é pra eu ir mesmo pra casa da mamãe, ainda mais que eu me queixara de um estado levemente febril assim que acordei. Volto pra casa e decido no caminho que vou dormir em casa mesmo.

Com todas as luzes da casa acesas. Quando chego em casa, tomo um banho, nossa prendadíssima secretária me prepara um café, me arrumo e vou pro trabalho. No meio da tarde começo a me sentir mal. A febre parece maior e minha garganta começa a doer de forma lancinante. Corro pra casa de táxi. Ponho o termômetro e o bicho marca 38 graus. Ligo pro celular da Dani, que já está em SP, e choro copiosamente me queixando das dores e da febre. Ele pede que eu vá pra casa de minha mãe. Não é possível. As dores estão por todo o corpo. Ela me dá umas dicas, me faz uns mimos, me manda beijos, tchau, e eu desligo chorando mais.

Acendo todas as luzes da casa, tomo um banho, sento-me e ligo a TV: “Povo brasileiro, eu que venho de longe…”. É ele discursando, numa programa em sua homenagem. Troco de canal: “Lá lá lá lá lá Brizola, lá lá lá lá lá Brizola…”, outra homenagem, desligo a TV.

Termômetro, 39 graus. Ligo pra Dani chorando de novo que me pede paciência, que está chegando cedo no sábado.

Ligo pra Magali, sua irmã, médica. Digo, aos prantos, que estou com 39 graus, quase delirando, digo que estou com medo de morrer, que minha garganta está fechando e Magali me receita pequeno kit: Voltaren, Novalgina, Fonergin, Aspirina. Pede que eu tome 40 gotas de Novalgina e ligue pra dar notícias em meia-hora, quando a febre deverá baixar bem.

Meia-hora depois, termômetro: 39,5 graus. Vou morrer, tenho certeza. Calafrios, dor de cabeça, ligo pra Magali que fica muda, nitidamente assustada.

Depois de pensar um pouco me pede que tome um banho entre o morno e o frio de uns 10 minutos, me agasalhe bem e deite. Chamo a Pimenta, minha cocker-spaniel amada, e deito-me com as luzes acesas. Não dormi. Ouvia o interfone tocar, o telefone, barulho na porta, comecei a perceber que estava mal quando me flagrei cantando Boi da Cara Preta pra Pimenta. Magali ligou e disse a nova temperatura, 38,5 graus. Ela delira como se fosse final de Copa do Mundo porque a febre baixou 1 grau. Eu morrendo e minha cunhada vibrando com isso. Não me lembro a que horas dormi, mas acordei com Dani a meu lado. Sonhara novamente o mesmo sonho.

Sábado tínhamos um compromisso, eu e Dani, na casa da Magali no final do dia. Dani, precavida, eu ainda com febre, me vestiu como seu eu fosse pro Alaska jantar dentro de um iglu. Calça jeans, meias de lã e bota cano alto. Uma camisa de malha, sobre ela uma camisa manga comprida de algodão e sobre ela um colete de lã. No pescoço um cachecol de tricô colorido. Ridículo. Parecia um espantalho. E a festa não era junina.

Lá encontro o Comandante, que não esconde a surpresa com meus trajes e com meu estado. E eu tristíssimo digo a ele que pela primeira vez não beberemos juntos pois estou com febre e me sentindo mal. Ele pergunta o que estou fazendo pra febre baixar. Quando digo Novalgina, ele rola de rir escada abaixo me arrastando pela mão e pede que preparem uma caipivodka de limão no capricho pra mim. Bebo uma. Bebo duas. Bebo três. Suando feito uma capivara, sou obrigado a trocar de roupa e Comandante solicita nova tomada de temperatura à junta médica que estava na festa e que já havia, inclusive, diagnosticado amigdalite e receitado antibiótico para começo à meia-noite.

Termômetro: 36,4 graus. Comandante em direção aos médicos: “Novalgina é a puta que os pariu!”

Brindamos novamente, bebi a quarta e voltei pra casa.

Até.

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>DE VOLTA

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Doces figuras, e o BUTECO reabre depois de uma semana de ressaca. O virtual, porque o Buteco do Edu permanece fechado por razões de saúde.

Depois da semana enlutada que passou, uma amigdalite acompanhada de febres quase-aquerentadas me persegue até o momento.

Mas é preciso voltar nem que seja para anunciar que ainda nesta semana vou publicar aqui a entrevista, a primeira entrevista do BUTECO DO EDU, já que há uma série programada, com o grande jornalista e romancista, o grande boêmio e poeta, esse grande cidadão que é o FAUSTO WOLFF.

No sábado retrasado, eu, Fernando Toledo e Gustavo Dumas, dirigidos pela Betinha (ela mesmo, fãs alucinados!), batemos um belo papo com o Fausto, cercados de bolachas da Brahma, pratos de lentilha, carré, e muito bom humor, no Bar Brasil, na Lapa.

Estou transcrevendo a entrevista e em brevíssimo a publicarei.

Um detalhe: Fausto falou longamente sobre o Brizola, sem saber que estávamos há menos de 48h da partida do velho caudilho. Brizola morto, amígdalas infeccionadas e doendo pra burro, febre intermitente, Flamengo em penúltimo lugar no Brasileiro na zona de rebaixamento… ô junho desgraçado!

Até.

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>BRIZOLA E O SONHO IMPOSSÍVEL

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“Sonhar mais um sonho impossível…
Lutar quando é fácil ceder…
Vencer o inimigo invencível…
Negar, quando a regra é vender.
Sofrer a tortura implacável,
Romper a incabível prisão,
Voar no limite improvável,
Tocar o inacessível chão.
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo, cravar esse chão,
Não me importa saber, se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz.
E amanhã, se esse chão que eu beijei for meu leito e perdão.
Vou saber que valeu delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como for,
vai ter fim, a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor…
Brotar do impossível chão.”

E agora?

Uma silenciosa e perturbadora dor, arranha e rasga minha alma no dia de hoje e desde ontem à noite. Brizola, meu velho Leonel Brizola, adeus.

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UM FINAL DE SEMANA PRA ENTRAR PRA HISTÓRIA

Doces figuras, conforme anunciei durante toda a semana passada, fomos eu, Dani e Fefê, passar o final de semana em São Paulo, sob a custódia do bom Szegeri, meu irmão, mais-que-nunca irmão do meu irmão, e o relato que farei, de toda a viagem, será certamente amplo e longo, mas incapaz de traduzir 1% das emoções que lá vivemos.

Vamos por partes, até mesmo para que eu possa falar com detalhes sobre cada um dos bares e butecos que visitamos. Na foto, de minha autoria, essa grande figura que é o Zé Szegeri e essa mulher que me embriaga com esse sorriso-maracanã alucinante (a foto estava publicada no antigo Buteco).

QUINTA-FEIRA: eu desembarquei sozinho em Congonhas às 15h20min, temperatura na casa dos 20 graus, resgatado pelo Szegeri. Zarpamos direto pro REI DAS BATIDAS, um buteco nos arredores da USP. Lá derrubamos seis ampolas de Brahma, todas geladíssimas. Iniciando a partida magistralmente, Szegeri chamou um dos garçons e pediu pasta de gorgonzola com fatias de pão francês, que não estava no cardápio. O garçom sacou no ato que Szegeri era das antigas (a iguaria não constava do cardápio desde 1995) e nos tratou a pão-de-ló. Por volta das 18h partimos pro SEM SAÍDA, onde bebemos mais duas garrafas de Brahma e uma dose da lamentável cachaça Claudionor, apresentada a mim pelo Szegeri como um néctar, mas que me pareceu mais próxima do álcool Pring, isso porque não me recordei de marca mais ordinária. Enquanto estávamos lá, a Bia telefonou. Marcamos então, para dali a meia-hora no GENÉSIO. Bia apareceu com uma amiga, Patrícia, mas já nos encontrou em estado avançado. Derrubados pelas notícias das mortes de Rosinha de Valença e Ray Charles, fomos capazes de beber dezesseis chopes na caldeireta, comprar de um vendedor de revistas todos os exemplares que o mesmo portava, pedir autógrafo pra Alaíde Costa em nome do Isaac, seu fã número um, e rumar pra casa sabe-se lá de que jeito. No chatô da gloriosa Rua Armando Brussolo, ainda mandamos pro saco duas ampolas de Brahma e, para que todos percebam o estado em que nos encontrávamos, comemos pão com ricota temperada com ervas finas, que eu detesto, mas que estava particularmente horrível. Nesse momento cheguei a temer por um convite feito pelo Szegeri para que comparecêssemos à Parada do Orgulho Gay de São Paulo, já que com ricota ninguém pode. Às 23h30min nos dirigimos para os quartos. Com a roupa do corpo.

SEXTA-FEIRA: às 9h eu já estava de pé. Encontrei o pai do Szegeri, o glorioso Zé Szegeri, na cozinha, já com seu copo de vodka com Dolly Cola à frente, cigarro aceso, rádio ligado na Jovem Pan, aquele sorriso e aquela sabedoria, nitidamente afiado e nos melhores dias. “Bom dia, Zé… não precisava o Fernando se deslocar do quarto para que eu dormisse lá…, isso é sacanagem”, disse eu para ser agradável, e ele me interrompendo: “Sacanagem eu também acho, mas o problema é dele. Se fosse o meu quarto eu não sairia”, e dito isso deu-me um abraço daqueles. Percebi que ele estava nos cascos. Mas era apenas o início. Fernando levantou-se, bebemos umas duas cervejas e Zé começou a preparar a moela para mais tarde. Saímos de casa por volta das 11h e fomos pro BAR DO CLÁUDIO, outro buteco onde o Szegeri joga em casa. Fui apresentado aos donos, pai e filho, “seu” Lourenço e o Cláudio. Têm, os dois, orgulho do bar, que fica numa agradabilíssima esquina, e que comandam com esmerado talento há quase 50 anos. Azulejos cor de rosa nas paredes, um balcão raríssimo de se ver todo em mármore, alto, vitrines de vidro, e a cerveja (foram seis) estava polar. Szegeri sugeriu que comêssemos o bolinho de carne do “seu” Lourenço. E que bolinho, que bolinho! Devastamos os quatro que vieram à mesa. Fritos, têm no interior, bem no miolo, pimentão e cebola, e comidos com pimenta são um verdadeiro tesouro. Mantendo minha tradição que começou em SP no Bar Léo (cujo canapé reproduzi no Buteco do Edu), chamamos o Cláudio à mesa para nos dar a receita. Patati, patatá, coisa e tal, decorei tudo. Na hora da despedida, Cláudio chamou o pai, que estava na cozinha, e disse a ele que éramos mais dois a sair do bar com sua receita. “Seu” Lourenço mandou aquele sorriso com legenda: “Tentem fazer, vocês jamais vão conseguir”. Eu lhe repeti a receita, ele fez um ou outro ajuste e quero dizer, que o Szegeri seja meu portador, que servirei o bolinho aqui no Buteco do Edu com o nome em homenagem a um homem que foi capaz de recusar uma fortuna oferecida por um banqueiro paulista em troca do balcão do buteco dizendo “se o senhor gostou muito, saiba que está falando com alguém que gosta bem mais que o senhor”. Em breve, portanto, ao lado do Canapé do Léo, servirei o Bolinho Lourenço. Partimos daquele grande lugar às 15h em direção ao aeroporto para resgatarmos duas das maiores paixões da minha vida: Dani e Fefê. Quarteto formado, partimos pro BAR LÉO com um objetivo definido: mostrar pros dois que o Canapé do Léo servido no Buteco do Edu é muito, mas muito superior ao “original”, caso clássico de criatura dando olé no criador. Para que você tenham uma idéia da sede de anteontem trazida na bagagem dos dois, ficamos no Bar Léo das 17h às 20h e lá bebemos cinqüenta e cinco chopes, uma dose de schnap (aguardente alemã), comemos bolinhos de carne (que não fizeram nem cócegas no bolinho do “seu” Lourenço), canapés e um sanduba apenas razoável, gerando uma conta de R$200,00. Bom começo. Fomos pra casa onde o grande Zé nos aguardava com a moela (e o décimo sexto copo de vodka, agora com caju), que cheirava desde a Marginal. Bebemos algumas garrafas acompanhando a moela magistral. Roupas trocadas e partimos pro Espaço CUCA, onde o Szegeri e a Railídia comandam uma roda de samba das 23h30min às 4h30min. O bar que abastece a rapaziada é comandado pelo Zé, que prosseguiu bebendo sua vodka ininterruptamente. Lá conhecemos Dani Boaventura, algumas de suas amigas, Fefê dormiu solenemente a partir das 2h (efeitos da despressurização do avião), e partimos às 5h, depois de pagar a despesa pro Zé com um cheque meu (detalhe que fará sentido mais à frente). Szegeri, nos homenageando, mandou sambas da Vila Isabel e do Salgueiro, e Railídia, também num lance lindíssimo, cantou “Saudades da Guanabara” para “três cariocas queridos que estão aqui”. Antes de irmos embora, Dani perguntou à Rai onde ela comprara o xale que vestia. Sem pensar, Railídia pôs o xale nos ombros da Dani, quando Szegeri mandou mais um apelido que já pegou: “Railídia, a Buba do Pará”! Sem condições de dirigir, Szegeri entregou a direção ao pai. Em casa, algumas doses de Rum cubano, uma ou outra Brahma, e às 7h estávamos todos acomodados.

SÁBADO: sem dúvida, o grande clássico do final de semana aconteceu no sábado, se bem que no domingo o jogo foi de arrepiar como vocês verão. Acordamos todos ao meio-dia. Zé, impassível na cozinha, já estava no quinto copo de vodka, dessa vez com suco de laranja. Uma máquina, o velho Zé. Partimos todos pro PIRAJÁ, o buteco que se orgulha de ficar na “esquina carioca” de SP (todos não… o Zé ficou em casa fazendo o de sempre). Trata-se de uma solene bobagem, mas os cuidados que cercam o bar fazem dele, sem sombra de dúvida, uma boa pedida. Nas paredes, os manuscritos de “O Bêbado e a Equilibrista” e “Som de Prata”, respectivamente letras de Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, fotos de cariocas ilustres, a bandeira do Salgueiro, o cardápio do Zicartola, um Rio de Janeiro em documentos escorrendo pelo chão. Derrubamos 23 caldeiretas e não comemos nada já que passamos antes numa padaria. Partimos de lá às 17h para deixar a Dani no teatro onde assistiria a uma peça com o Sérgio Barreto, que estava em SP, e que bateu um bolão como se verá. Durante a peça, eu, Fefê e Szegeri fomos a dois butecos. No primeiro, ALMEIDA´S, comemos vaca atolada e bebemos quatro cervejas. Szegeri, tentando me desmoralizar, serviu Claudionor pro Fefê que a comparou a água-raz, para meu delírio. De lá fomos pro PORTELLA, que serve comida baiana, e onde batemos um arrumadinho com mais cerveja. Buscamos Dani e Sérgio e fomos pro AMIGO LEAL, uma dissidência, digamos assim, do Bar Léo. Ali, no AMIGO LEAL, o ápice. Sérgio Barreto, batendo, como disse, um bolão, mandou pra dentro quatro caipirinhas e duas doses de cachaça, pra delírio do Szegeri, que o achou uma grande aquisição. Dani, a mulher que me ensinou a sorrir, bebeu com elegância sem perder o prumo ou o rumo, e quem apareceu no meio da noite, convocada pelo Szegeri, foi a Dani Boaventura. Vamos a alguns lances da partida. É preciso dizer, antes, que o bar parou pra assistir nossa performance. Sabe-se lá por qual razão, o assunto descambou para o esdrúxulo do dia-a-dia. Dani Boaventura, médica, contou a seguinte pérola, em resumo: “Outro dia lá no hospital, chegou uma mulher com um rotweiller entalado dentro dela”. Indagada sobre mais detalhes, Dani prosseguiu: “É que o cão, quando cruza, tem o pênis inchado para o encaixe perfeito na cadela… hummm… nesse caso, na parceira… e… só desincha quando ele ejacula.” Fefê, numa folha-seca: “Porra, a mulher devia ser uma merda. Nem o rotweiller gozou!”. Urros e ganidos pelo bar, eu guinchando no chão. Sérgio Barreto, animado com o número, contava piadas deixando a patuléia sem ar. Veio à tona o assunto padrinhos, afilhados, esses troços. Szegeri pede a palavra: “Quero lhes dizer (olhos marejados) que o atestado maior do meu fracasso pessoal é que nunca ninguém me deu um filho para apadrinhar.”. Fefê, de letra: “Quero me comprometer… quando eu tiver um filho você será o padrinho dele!”. Os dois se abraçaram chorando enquanto o Szegeri urrava “eu sei que é mentira, mas isso foi lindo!”. Aproveitando o ensejo da data, Dani Boaventura sacou da bolsa um presente pro Szegeri. Um livro sobre o Pará, com dedicatória que li em voz alta. Num rompante inexplicável, passei o livro de mão em mão, e todos escreveram declarações de amor pungentes pro Szegeri. Sérgio, por exemplo, convidou Szegeri para conhecer a Tetê e sua comida. Fefê escreveu e assinou o que jurara minutos antes oralmente. E Dani Boaventura não compreendendo nada daquilo. Um pequeno detalhe: quem conhece o Sérgio já se familiarizou com um estranho hábito do cara, a auto-imolação. Ele, quando ri, tem a bizarra mania de espancar-se a si próprio. Empolgados e num movimento coletivo sem nenhuma explicação plausível, todos os seis componentes da mesa, para espanto visível de garçons e clientes, em diversos momentos da noite, se espancavam de maneira torpe. E deixamos o AMIGO LEAL às 23h, deixando pra trás 42 chopes, algumas caipirinhas, doses de cachaça e canapés. Em direção à pizzaria BRÁS. Lá, figuras, um equívoco. Eu e Szegeri, encrenqueiros de mão cheia, tentamos armar um pequeno levante sem-bandeira, sem êxito, já que os mais sóbrios nos convenceram de que estávamos sem nenhuma razão. Mas um lance há de ficar pra história: Dani deixou cair no chão um pedaço de pizza (maravilhosa, por sinal). Com um guardanapo a recolheu e fez uma bola uniforme com a pizza e o guardanapo de papel. Sérgio Barreto: “Cadê a pizza que estava aqui no chão?”. E a Dani: “Tá aqui, Sérgio, já peguei.”. “Deixa eu ver”, disse o Sérgio. E para espanto de todos, Sérgio comeu a primeira almôndega de pizza de que se tem notícia. Com papel. Partimos às 2h, e em casa nos abastacemos de mais Rum e Old Parr, e fomos deitar perto das 4h. É preciso dizer que Exu-Meliante baixou no Sérgio durante a noite.

DOMINGO: doces figuras, mais surpresas nos aguardavam no último dia. Às 11h estávamos de pé. Zé, na cozinha, já sorvia desde às 7h, sua vodka com uva. Decidimos que iríamos visitar a Railídia para que Fefê e Dani pudessem conhecer a Iara, filhota do Szegeri e da Rai, uma coisinha doce que atesta, de cara, a origem que tem. Dessa vez Zé foi conosco. Lá chegando, Rai, que não cabe em si de tanta doçura e generosidade, levou-nos ao fogão onde nos aguardava um panelão de frango no tucupi. Fefê decidiu mostrar um de seus talentos e preparou litros e litros de capivodka de folha de tangerina, detonando uma garrafa inteira de Smirnoff, e valendo-se da tangerineira frondosa no quintal da casa da Rai. Ela, que é conhecida como a “cachaceira da Barra Funda”, serviu-nos da Maré Alta, de Paraty. Garrafas e garrafas de Brahma foram saqueadas da geladeira. Bebemos tanto que em determinado momento eu poderia jurar que vi uma samambaia num xaxim andando pela casa. Dani, enternecendo meu coração baleado pelas 72h de maratona, brincava no sofá da sala com a doce Iara. Partimos às 13h30min para deixar Dani no aeroporto. A Sorriso-Maracanã, com carradas de razão, não iria nos acompanhar até a madrugada, quando partiríamos eu e Fefê, de ônibus. Para começar a sessão despedida, emocionante, Zé me entregou o cheque com que lhe pagara na sexta-feira a despesa da roda de samba escrito no verso: “Dani, Edu e Fefê, a presença de vocês vale muito mais do que um pedaço de papel. Amigo Zé.”. Coisa de cracaço. E Dani partiu, deixando saudades, eu sou um incorrigível, e já choramingava sua falta em meia-hora, quando tomei um esporro do Szegeri. Fomos beber (por que dizer isso de novo?) no FUAD, um buteco também de esquina, mas o frio, na casa dos 10 graus, e o vento, nos expulsaram na quarta cerveja. Fomos então pro PÉ PRA FORA. Recebidos pelo Claudão, misto de gerente e mestre-de-cerimônias, bebemos caipivodka mista, batida de côco, Fefê derrubou três doses cavalares de Macieira (uma delas de cortesia), cerveja Brahma, Bohemia preta, Bohemia de trigo, e Claudão fechou o bar uma hora e meia depois do previsto, com muita classe, presenteando a mim e ao Fefê com dois lindos copos de cerveja. Ali choramos de novo pela graça de estarmos juntos, Zé chorou (segundo Szegeri pela segunda vez na vida) de saudades, Fefê jogava feito Maradona, comemos coxinha de galinha, empada de palmito, torresmo, e fomos pra casa. Para espanto nosso, Zé prontificou-se a fazer uma dobradinha. Eu, Fefê e Szegeri bebíamos e chorávamos na sala, Rum, Old Parr, cerveja, ouvimos discos de vinil e Fefê chorou só por causa do chiado que não se ouve mais. Juramos amor eterno ao que amamos, espancamos seres imaginários que detestamos, quando fomos chamados à cozinha pelo Zé, com a comida pronta. A dobradinha estava divina, mas devido ao alto grau em que se encontrava o cozinheiro, o arroz mais se assemelhava, na aparência e na textura, a um prato de Cremogema. Partimos em direção à rodoviária. Fefê e Zé foram no trajeto trocando pequenas gentilezas impublicáveis, para delírio do Szegeri, que repetia, “eles se amaram!”. Quando chegamos no estacionamento da rodoviária, Fefê viu um Lincoln estacionado e ameaçou destruí-lo. Foi detido pelo sábio Zé, já que eu e Szegeri armávamos ajuda para o saque.

Enfim, figuras, é, seguramente, o mais longo texto do BUTECO. Mas que fique como registro de um final de semana antológico. Registro, quero repetir, incapaz de transmitir o que somente quem lá esteve sabe.

Até.

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>ATOCHA A TOCHA

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Doces figuras, “otoridades” se superam e me impedem de descansar.

É o segundo texto que mando depois de jurar solene descanso até segunda-feira. Mas não é possível calar diante de uma babaquice olímpica como essa. Percebam se eu estou muito crítico ou se é tudo muito surreal e revoltante.

Eis matéria publicada n´O GLOBO de hoje: “Diária de R$ 1.622 em hotel cinco estrelas, de frente para a Praia de Copacabana, com direito a café da manhã e uso do fitness center. Cama king size, banheira, dois aparelhos de TV 29 polegadas, canais a cabo, CD player e frigobar recheado de iguarias. Todas essas mordomias não estão sendo postas à disposição de um popstar internacional ou de um craque de futebol. A grande estrela esperada no quarto do Hotel Marriott é a tocha olímpica que, a dois meses da Cerimônia de Abertura dos Jogos de Atenas, tornou-se centro das atenções e tem sido tratada como celebridade por onde passa. As regalias começaram no último dia 25 de março, quando a chama olímpica foi acesa em Olímpia, na Grécia. O avião Zeus, responsável pelo transporte do símbolo olímpico pelo mundo, em trajeto que passará por 33 cidades de cinco continentes, também recebeu cuidados especiais. Além da pintura com o emblema dos Jogos-2004 e dos arcos coloridos, comissários de bordo foram treinados especialmente para fiscalizar a chama durante todos os vôos. Autoridades de Aviação Civil tiveram que conceder uma autorização especial garantindo que a tocha será transportada sem oferecer riscos de acidente. A tocha, que chegará ao Rio às 6h45m de domingo, para sua primeira passagem pela América do Sul, percorre 48 quilômetros por dia, em média, e ficará no hotel de domingo para segunda-feira, antes de ir para o México. O tratamento cinco estrelas não pára por aí. A Assembléia Legislativa (Alerj) aprovou mensagem da governadora isentando de ICMS quem prestará serviços na passagem da tocha, incluindo transporte, comunicação e importação.”

Eu sei que mamãe vai ficar muito triste, porque toda vez que sou um pouco menos doce recebo reprimendas por email. Mas isso não é possível. Que coisa idiota! Um quarto com diária de mais de R$1.600,00, regalias, camareiras, e uma equipe de comissários de bordo treinados (não é possível, leio, releio e continuo não acreditando) para “atender” a tocha durante o vôo de vinda para o Rio de Janeiro.

A governadora do Rio, esse ser acéfalo que é Rosângela Matheus, ou Rosinha Garotinho, ainda isenta de pagamento de impostos os pajens da menina em chamas.

E a porra da tocha vai ficar no tal hotel em Copacabana com televisão, frigobar, sauna, e ainda há uma foto no jornal, que não encontrei para publicar aqui, com a porra da tocha (não consigo chamá-la de outro nome) deitada na cama, encostadinha no travesseiro.

Eu imagino a cena.

A camareira, cadeiruda, gostosa, entra no quarto pela manhã para ver se a tocha quer que lhe seja servido o café da manhã no quarto. A tocha lá, quieta, na dela, aquela chaminha fraca, denunciando o sono ainda a lhe entorpecer.

Vira-se a camareira, abre a porta com cuidado para não acordá-la quando ouve a voz vindo da cama: “Ô gostosa… chega aqui… deixa eu me atochar aí em você…”.

E a camareira, embriagada com aquele clima no hotel, seguranças na porta, a imprensa excitadíssima esperando a tocha aparecer na varanda, políticos no foyeur aguardando a cerimônia dos cumprimentos, tira a roupa, senta na porra da tocha que, ainda acesa, causa queimaduras de terceiro grau no útero da incauta que goza olimpicamente e bate seu próprio recorde na modalidade “orgasmo pirotécnico”, alcançando o índice para as próximas olimpíadas.

É dose.

Até.

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>FUXICO

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Doces figuras, de fato eu não tinha nenhuma pretensão de mandar mais nenhum texto até segunda-feira próxima, já que, como lhes contei há pouco, estou indo para São Paulo neste feriado com Dani e Fefê. Mas acabo de chegar do Estephanio´s com uma história verídica digna de nota. Fefê contou que a Brinco, a moça que ocupa o cargo disputado por 11 entre 10 mulheres, e que vende bijuterias, visitou hoje à tarde um cliente seu cujo apelido é Melissa. Não preciso dar mais detalhes. Eis o resumo do diálogo entre os dois, após a venda:

M: E aí, Brinquinho, tá namorando?
B: Tô (risos… que a Brinco ri de rigorosamente tudo)
M: Hummmmmmmm (revirando os olhinhos), me conta… quem é o bofe?
B: ´cê não conhece, o nome dele é Fernando…
M: Hummmmmmmm, nome gostooooooso… (lambendo os beiços)
B: É (risos), ele é muito gostoso também (gargalhadas)
M: Ai, mona, vocês vão passar o dia dos namorados juntos, vão? (de soslaio)
B: Infelizmente não. Ele vai pra São Paulo na sexta-feira.
M: Sozinho?
B: Não. Vai com um dos irmãos encontrar um amigo lá.
M: Huuuummmmmmmmmmm… Um amigo? (risos com as mãozinhas nas bochechas)
B: Que foi?
M: Você não vai?
B: Não, por que?
M: Não vai por que?
B: Ele me disse que é programa só pra eles, que vão beber o dia inteiro…
M: (interrompendo) Huuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmmmm!!!!!
B: Que foi, Mê? (nitidamente irritada)
M: Nada, fofa. Nada não… Eu também vou.
B: Com ele?
M: Não (risos), mas (risos), será que vou encontrá-lo lá? (risos)
B: Que que ´cê tá falando, Melissa? (sem nem esboço de sorriso)
M: Fofa, domingo acontece a oitava Parada do Orgulho Gay de Sampa, meu amor…

Melissa está internado no Souza Aguiar depois de atacada por um martelo, uma benção, uma tesoura e um aú no olho, dados pela furiosa Brinco de Ouro, do Grupo Cultural Sete Mares. Iê!

Até.

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>BREVÍSSIMO RECESSO NO BUTECO

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Doces figuras, o Buteco do Edu vai entrar em recesso, breve, mas vai.

Tanto o real quanto o virtual. Isso porque, aproximando-se o feriado de Corpus Christi, este que vos escreve irá fazer uma visita a São Paulo, mais precisamente a um dos freqüentadores assíduos do buteco (o real e o virtual), o grande Fernando Szegeri, que mantém publicação cuja visita é indispensável, a “Sodói”.

Vou na companhia da Dani e do Fefê. Zé Colméia está para acertar sua ida também, mas por enquanto nós três estamos confirmados, o que já é o bastante para uma sensível modificação no consumo de bebidas alcoólicas na paulicéia. Conseqüentemente, o Buteco do Edu ficará fechado, já que o mesmo só funciona na presença do dono e do cozinheiro, que são a mesma pessoa.

A grande novidade que marcará a reabertura do buteco é que, em brevíssimo, aos domingos, serão promovidas as domingueiras matinais.

Lelê, autora da pérola 04 do texto “PIADAS REAIS AO VIVO” (publicado em 31/05/2004 aqui mesmo), estreará o evento, que será chamado, também, de “Domingo é do Mengo”, já que pretendo abrir o estabelecimento nos domingos de jogos do mais-querido. Uma espécie de concentração. Como aos domingos, e isso tem sido uma constante quase insuportável, acordo com uma sede de anteontem, a novidade promete.

Este Buteco, então, ficará sem atualização até segunda-feira.

Deixo com vocês a letra de um partido-alto composto descompromissadamente por mim, que estou levando na bagagem para mostrar ao bom Szegeri que será o juiz capaz de dizer se a coisa presta ou não. Inclusive ele é parceiro na letra, já que o mote é de sua autoria. Eu tenho quase certeza de que o samba não presta, mas a letra me diverte. Ei-la:

O Paulinho da Viola vai ter que me perdoar:
não sou eu quem me navega, quem me navega é o bar!

É no bar aonde ancoro todo dia ao fim do dia,
é no bar que rio e choro de tristeza ou de alegria.
Se o buteco é minha igreja, o balcão é meu altar.
Não sou eu quem me navega, quem me navega é o bar!

O Paulinho da Viola (…)

Lá no bar tudo é sagrado, lá encontro a redenção
me redimo dos pecados, me embriago de ilusão.
Se o garçom é meu pastor nada me faltará!
Não sou eu quem me navega, quem me navega é o bar!

O Paulinho da Viola (…)

O Estephanio´s é a minha preferida catedral.
Bebo chope e caipirinha em quantidade industrial.
Bebo sem nenhuma pressa até o dia clarear!
Não sou eu quem me navega, quem me navega é o bar!

O Paulinho da Viola (…)

Até.

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