Arquivo do mês: março 2004

A OPINIÃO DO FEFÊ

Doces figuras, todos vocês sabem, ou a grande maioria sabe (claro que não estou falando daqueles que estão me lendo pela primeira vez), está cansada de saber, repete em côro “eu sei, eu sei, eu sei”, que ao Fefê, meu irmão, o segundo da escala de três, eu devoto um amor que beira as raias do indescritível.

Dois anos mais novo que eu, é uma figura impagável, protagonista de lances de deixar o Roniquito parecendo uma criança de colo no Parque da Mônica. Boa-praça, dono de um papo que alimenta, coração gigantesco, sorriso de derrubar Luanas Piovanis, ele é, já disse um Isaac resignado, meu alter-ego. Meu ídolo.

Pois bem, não quero tomar-lhes o tempo derramando meus elogios, que não caberiam em toda a rede.

Fefê preferiu, em vez de escrever suas impressões sobre o texto “UMA MANIA INSUPORTÁVEL”, queixar-se comigo.

Preguiça está entre as suas qualidades, eis que não enxergo nele defeito algum.

Disse-me o bardo que meu texto é de uma estupidez bufalina. Alega que, não fossem os pedidos aos quais me refiro com fúria, e estariam fadadas ao extermínio as reuniões, os jantares, os lanches, os churrascos, as rodas de violão. Ouso, aqui, discordar dele. Não sem antes dizer algo de extrema importância que acho que o fará sorrir.

Quando a reunião, o jantar, o lanche, o churrasco ou a roda de violão é em sua casa, faço questão de levar alguma coisa. Geralmente “alguma coisa”, para desespero da Dani, que por vezes parece não compreender que esses meus pequenos gestos são a materialização de meu intenso carinho por ele, significa peças de picanha, sacos de carvão, frutas, legumes, engradados de bebida e afins. Repito: faço questão.

Até porque, sabem os que freqüentam seu endereço, aquilo não é uma casa. É um clube. Logo, Fefê não se iguala ao Marco de Oswaldo Cruz – repilo tratá-lo com intimidade – no quesito falta de educação.

Agora, direi novamente, com todas as letras, que ninguém além dele está a salvo de minha opinião, por ora reiterada. Ninguém.

O que pode haver de mais insuportável, quando numa festa, o anti-anfitrião passa dançando – por que dançam os imbecis nessa hora? – com um chapéu ridículo na mão cantando “olha o ratatá!, olha o ratatá!”?

Para os mais civilizados, explico que “ratatá” é, nada mais, nada menos, o gesto de ratear as despesas com o furdunço.

Daí serem, os incivilizados, anti-anfitriões. Há, é claro, raríssimas exceções. Às vezes, o projeto de anfitrião se propõe a divertir centenas de pessoas. Os que, nesse caso, pedem uma ajuda (o termo é patético porque a situação também o é, embora em grau menos agudo) com a bebida, com uma salada de maionese (por que quando mais de duas dezenas de pessoas se reúnem para comer sempre se recorre à indefectível salada de maionese?), não são tão Marco de Oswaldo Cruz assim.

Foi o que ocorreu com o Cristiano, meu irmão caçula que hoje trabalha, sofre e sente saudade, não sei se nessa ordem, na França.

Falo dele para absolvê-lo de seu gesto “marcônico”, afinal o cara convidou 300 pessoas pra um churrasco de despedida.

Pagando a comida daquele batalhão (que incluía carnes de todo o gênero, saladas, arroz, feijão, sobremesas e mais que tais), nada mais justo que pedisse aos convidados que levassem, cada um, 12 latinhas de Skol.

Não vou entrar no mérito da escolha da marca, mas quero contar como tratei um infeliz que lá compareceu.

Sofri reprimendas de metade dos presentes e recebi aplausos efusivos da outra metade.

O Marco de Oswaldo Cruz daquela tarde (não sei o nome da azêmola que cometeu a falta) chegou abraçado a uma caixa de Bavaria, uma cerveja que não merece ser tratada como tal.

Deu azar que eu estava ao lado de um dos tonéis de gelo. Cumprimentou meu irmão de longe e arremessou as dozes latas daquele troço na tina. Senti o cheiro do caráter do sujeito.

Fiquei ali, de prontidão, pra dar o bote que sabia próximo. O malandro-cocô deu uma voltinha pelo salão, comeu alguma coisa, e pronto: foi ao encontro da tina.

Mergulhou a mãozinha e quando preparava-se para abrir uma Skol, crispei-lhe a mão no braço e mandei: “Não foi você que trouxe Bavaria?” – o otário não teve tempo sequer de respirar – “Ninguém aqui bebe essa merda. Se você trouxe, presumo eu que seja sua marca preferida. Toma.”

E num golpe rápido tomei-lhe a Skol da mão e lhe passei a Bavaria.

Que grosseria, Edu!, ouço daqui o côro. Tudo, doces figuras, questão de ponto de vista.

Até.

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DOIS CRACAÇOS, DISTANTES POR ENQUANTO

Doces figuras, estive em São Paulo no final de semana passada, entre 19 e 21 de março, como já lhes contei, com o exclusivo objetivo de conhecer de perto a performance do Szegeri que, jogando fora de casa, sempre bateu um bolão.

Mais à frente, dia desses, escrevo o libreto da ópera que montamos na terra da garoa. Nem Berlioz, quando compôs A Danação de Fausto, inspirada no primeiro Fausto de Goethe, com seus ensurdecedores corais de vozes masculinas durante um bacanal de bebedores na taberna de Auerbach, conseguiria imaginar que em pleno 2004 repetiríamos, com brilho infinitamente superior, seu delírio. Mas isso é papo pra outro dia.

Lá, conheci o pai de Szegeri. “Seu” Zé. Atentem para a descrição do malandro, passível de mínimos erros eis que “convivi” com o cara durante apenas 48h.

Alto, postura elegante, cabelos grisalhos permanentemente alinhados pra trás, calça social bem passada, camisa listrada de mangas curtas sempre sobre uma branca de malha, rugas de sabedoria, uma gargalhada entre o contido e o escancaro, cigarros permanentemente entre os dedos, voz rouca, sotaque pesado da paulicéia. “Seu” Zé passa praticamente todo o dia sentado na mesa da cozinha da simpática casa na Vila Romana, onde mora com o filho, fruto que atesta a qualidade da frondosa árvore. Lendo? Cozinhando? Não, doces figuras. O rádio ligado na Jovem Pan. “Seu” Zé, fumando um cigarro atrás do outro, a performance atinge quatro maços por dia, sorve, sem a pressa que não lhe incomoda mais, um litrinho de vodka por dia. Pura? Não, doces figuras. Com suco de laranja, que tem vitamina C. A garrafa da criança fica dentro do armário sob a pia. O ritual é tão bonito… A garrafa nunca fica sobre a mesa. “Seu” Zé a retira do esconderijo, enche o copo pela metade, vai à geladeira, completa o copo com suco de laranja, guarda a garrafa do suco e devolve a vodka pro armário. O dia inteiro. Aquela cozinha parece um mosteiro. O rádio naquela ladainha, notícias, resenhas esportivas, panorama policial, índices de economia, e “seu” Zé em silêncio contemplativo bebendo devagar até a noite, o filho e o sono chegarem.

No domingo, após mais de uma hora de negociações, eu e Fernando conseguimos convencer o sábio a nos acompanhar. E que performance a de “seu” Zé na rua! Caipirinhas, cervejas, muito cigarro, muitas histórias incríveis, dentre as quais destaco uma.

“Seu” Zé e amigos bebiam no centro de São Paulo desde às 18h, depois do expediente, numa sexta-feira. Foram expulsos do bar às 22h. Partiram pra outro, de onde foram enxotados meia-noite em ponto. Um dos caras pergunta:

– Ôrra, meu, e a saideira… aonde?

Cigarro tirado do canto da boca lentamente, o último gole no copo de cerveja, e “seu” Zé decreta:

– Co-pa-ca-ba-na.

Quatro e meia da manhã estavam os caras enchendo a cara à beira-mar.

O brevíssimo convívio com “seu” Zé lembrou-me outro cara (chamá-los de coroa pode gerar uma reprimenda), craque também. O pai da Dani, Wlader, vulgo Comandante, epíteto que eu cunhei. Mineiro de São Lourenço, Comandante mora, desde a década de 50, em Volta Redonda, exatamente entre o Rio e São Paulo. “Comando” bebe industrialmente. Dizem seu amigos que ele tinha um fígado. Não há na literatura médica nada que explique a resistência hercúlea do mesmo. Outra lenda da Cidade do Aço conta que quando do último exame de urina, coisa de rotina, Comandante obedeceu as regras, jejuou por 12 horas, encheu o potinho pela manhã, primeiro jato, levou-o ao laboratório e exibe até hoje, dentro da carteira, o resultado: “Líquido inapto para o exame proposto. Urina não detectada. Alto índice de cevada, lúpulo e outros cereais não reconhecidos. Provavelmente cerveja.”.

Outra forte característica do Comandante é o poder que exerce sobre os que o cercam.

Autoridade que só os cabelos brancos dão. Um exemplo, que eu vi com meus olhos e ouvi com meus ouvidos.

Eu estava com Comandante fazendo sauna no Clube Laranjal, do qual é sócio remido número 1.

No campo, rolava uma pelada. Lance polêmico. Foi pênalti, não foi pênalti. O pau quase quebrando. Um dos jogadores propõe que uma comissão vá à sauna. E entre os rolos de fumaça que saíam do cano da sauna a vapor, perguntam:

– Wlader, foi pênalti?

E ele, nu, fazendo a barba diante do espelho:

– Foi.

Autoridade, doces figuras, é isso.

Pois bem. São dois craques, dois membros da Velha-Guarda, que até o momento não se conhecem, embora estejam intimamente ligados à minha história.

Em breve, doces figuras, muito em breve, tratarei de apresentá-los um ao outro.

E não restará pedra sobre pedra, casco sobre casco, abridores de garrafa envergarão, e os botequins mais vagabundos, aos quais não resisto, parecerão catedrais puríssimas depois da pororoca das almas vadias que os dois carregam.

Até.

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UMA MANIA ISUPORTÁVEL

Doces figuras, quero hoje falar sobre algo que muito me tem incomodado, relativo ao que chamam modos.

Como ontem à noite fiz um jantar para, juntamente com a Dani, receber Betinha, Guerreira e Maria Paula (os nomes estão em ordem alfabética para evitar crises histéricas de ciúme), lembrei-me do tema que há muito me atormenta.

Quando recebeu o convite por e-mail, uma delas perguntou-me:

– É pra levar alguma coisa?

E eu respondi de volta, numa folha-seca:

– Quando nós convidamos aqui pra casa, dos convidados só exijimos que tragam a fome.

Dirão alguns de vocês que fui grosso, cuja pecha rejeito. E explico.

Há em voga uma mania. Uma insuportável mania. O sujeito arrota pra meia-dúzia de amigos que vai oferecer um jantar. Telefona ou manda um e-mail fazendo o convite, que deixa de ser convite quando o cara-de-pau avisa que é preciso levar uma “bebidinha”, um “vinhozinho”, um “biscoitinho com pastinha”, tudo no diminutivo pra disfarçar a maiúscula falta de educação que esse convite fajuto denota.

Tudo bem que não é uma grosseria típica de um Marquinho de Oswaldo Cruz.

Mas é uma senhora grosseria.

Há, ainda, variações sobre o mesmo tema, que, ainda assim, não atingem os píncaros da incivilidade do Marcos.

Você é convidado pra jantar na casa de um amigo. Você mal acredita que nada lhe foi pedido. E após o repasto, nem bem está sendo servido o cafezinho, o anti-anfitrião anuncia em voz alta:

– Deu trinta e cinco por cabeça.

É de matar.

Até.

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DANI, MARIANA, SZEGERI

Doces figuras, hoje farei pequena homenagem a três grandes pessoas. Dani porque a mulher com quem divido a vida, coisa que ainda não havia feito até conhecê-la, Szegeri e Mariana porque queridíssimos e porque foram os primeiros a me honrar com suas impressões nesta revista que nasceu ontem.

Dani, a quem conheço desde meados dos anos 90, e desde lá a queria com todas as minhas forças mesmo respeitando os limites das situações da época (e não lhes interessa quais eram), está comigo há pouco mais de quatro anos, e dividindo teto, vida e sonhos há pouco mais de três. Ensinou-me a sorrir, já lhes disse. Foi de tal forma avalassadora sua chegada que, no dia em que nos reencontramos, na Lapa, partimos depois de uma noite torrencial para a Praia de Ipanema por volta das 5h. O sol estava nascendo e ali mesmo, no calçadão, nus, dançamos “luminosa manhã… pra que tanta luz?, dá-me um pouco de céu, mas não tanto azul…”. Precisa dizer mais? De lá pra cá, se não dançamos nus mais tantas vezes, vivemos permanentemente emoções tão fortes quanto aquela.

Mariana é queridíssima. Filha de um irmão, Aldir Blanc, já segurou minhas barras de forma tão comovente, que costumo dizer que lhe sou eternamente grato e permanente devedor. Logo após um período de chuvas e trovoadas, quando vacas enlouquecidas tentaram destruir meu pasto, encontrei na Mari, como carinhosamente a chamo, uma amiga que, vejam vocês, terminou por me dar um presente pra coroar sua atuação durante os pouquíssimos meses de duração da pequena tragédia. Deu-me sua filha, Milena, dona dos cílios mais lindos do planeta, como afilhada. E, craque que ela é, deu-me a notícia, coroando sua atuação com esse golaço aos 45 minutos do segundo tempo, dentro da quadra do Salgueiro, minha paixão, minha raiz, academia do samba que, ultimamente, não tem me feito tão feliz. Para que tudo ganhe coerência, quase desmaiei quando recebi a notícia e corri pra quem? Pro colo da Dani, na Lapa, onde sabia que a encontraria.

Szegeri… o que dizer de Szegeri? Devo começar confessando que o Szegeri está para mim como Otto Lara Rezende estava para Nélson Rodrigues. Um gênio. Autor de frases geniais, tiradas de raro talento e apurado faro, Szegeri é daqueles que transforma as horas, quando estamos a seu lado, em anos de sabedoria. Sensível, emotivo, um sujeito que manda ver quando escreve, manda ver quando canta e manda ver quando bebe. E como bebe, doces figuras, como bebe. Dia desses farei pequeno relato sobre minha recente viagem à São Paulo que teve como único propósito beber e jogar conversa fora com o malandro. Malandro que, aliás, além de ser meu irmão, um desses presentes que a vida, inesperadamente, nos dá, em breve, espero, será também meu Confrade, ombro a ombro comigo lutando pela S.E.M.P.R.E. (Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos), da qual faço parte.

Um beijo pros três.

Até.

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SZEGERI NA ÁREA, JÁ?

Doces figuras, vejam que surpresa…

Não há nem 20 minutos que, como dizer?, joguei a revista no ar, e Szegeri, o paulista mais carioca de que se tem notícia, já faz seu primeiro comentário.

Depois de lançar inúmeros adjetivos que ele atribui à minha pena, sugere que eu quebre tudo.

Comecei, devo lhes confessar, muito bem.

Se já havia em mim um impulso quase irracional de quebrar tudo antes desse construtivo e comovente apelo do Szegeri, sei não.

Até.

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SEJAM TODOS BEM CHEGADOS

Doces figuras, sejam todos bem chegados.

Confesso a vocês que a motivação principal desta revista – rejeito o termo blógue com todas as minhas forças – não é apenas uma.

Um pouco por causa da saudade que me dá o Sentando o Cacete, revista virtual onde eu, Aldir Blanc, Fernando Toledo, Mariana Blanc e Mauro Rebelo despejávamos semanalmente nossos textos. Foi ficando cada vez mais difícil gerir o Sentando e ele sucumbiu.

Um pouco por inveja, confesso tê-la, de meu irmão, Fernando Szegeri, que criou a sua revista.

Um pouco atendendo a pedidos de alguns poucos que, dizem, têm saudade do que chamam de meus “murros por escrito”.

E muito porque, de fato, sinto falta de escrever para que toda a gente leia.

Como a internet veio, também, para transformar todos em jornalistas empregados de si mesmo, eis-me aqui.

Até.

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NOVO ENDEREÇO, VIDA NOVA

Depois de incontáveis decepções com o antigo endereço do Buteco do Edu, que nem butecodoedu era, era opiniaodoedu, vá entender, administrado pelo provedor Terra, que se é competente como provedor é um lixo como mantenedor de blogs, inauguramos hoje o novo buteco, com nova cara.

Todos os arquivos antigos do velho buteco serão publicados aqui, um por um, com a indicação da data para referência.

E o contador foi iniciado com 7.245 visitas, marca de visitantes do velho bar.

Sejam bem chegados.

Até.

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