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ARREMESSO AO PASSADO (03)

Em cinco dias, completo 48 anos. Em vinte e cinco dias, 17 de maio, completa 70 anos a minha mãe. E em trinta dias exatos, 22 de maio, meus pais completam 49 anos de casados (há 49 anos e trinta dias, portanto, foi tirada a foto abaixo). Da esquerda pra direita estão Milton e Mathilde, meus avós maternos, mamãe e papai no meio, Elisa e Oizer, meus avós paternos. Estão todos mortos, meus quatro avós, mas estão mais vivos que nunca, ainda mais nesses tempos que antecedem os 27 de abril de todos os anos. Meu avô Milton era católico, da Congregação Mariana. Minha avó Mathilde, espírita fanática, fã de Chico Xavier, só lia livros psicografados e Kardec era seu ídolo. Minha avó Elisa era judia mas freqüentava, escondida de meu avô, um centro espírita na Praça da Bandeira. E meu avô Oizer, também judeu, fugido de Odessa para o Brasil, foi mascate, morou na Campos da Paz, depois na Santa Alexandrina, era alucinado por telecatch, e por fim morou na Haddock Lobo – onde morreram, ele e minha avó. Sendo mais preciso, vô Oizer morreu no Hospital Evangélico, na rua Bom Pastor, e minha avó Elisa, anos depois, no Lar das Damas Israelitas, na rua Afonso Pena. Meu avô Milton morreu no Hospital Pan Americano, na rua dos Araújos, e minha avó Mathilde no Hospital da Venerável Ordem Terceira da Penitência, onde eu nasci. Todos na Tijuca. Minhas avós viveram bastante tempo depois de viúvas embora, bem me lembro, no enterro do meu avô Milton as amigas de vovó dissessem, às escâncaras:

– Coitada da Tidoca… não dura dois meses…

Viveu muitos anos.

casamento papai e mamãe

Minha avó Mathilde morreu no hospital em que nasci  – terá sido no mesmo quarto?

Morei por doze anos, com a Dani, no mesmíssimo apartamento de meus avós paternos, na Haddock Lobo – apartamento que comprei no ano passado e onde hoje mora um grande amigo meu. Dani morreu no Hospital Israelita (israelita, israelita, israelita), na rua Lúcio de Mendonça, também na Tijuca.

Ontem, por conta do feriado (sem banco), fui ao apartamento buscar o dinheiro do aluguel e tomar um café com o Felipinho, o grande amigo meu que vive lá. Meus olhos encheram d´água quando entrei no apartamento. Impossível que não fosse assim. Não apenas pela memória, cheia de boas lembranças e muitas dores, dos meus doze anos lá. Mas também, e ontem principalmente, pelas memórias de minha infância, quando íamos todos lanchar na casa de meus avós, aos domingos. Tínhamos, apenas, a preocupação de manter acesa a chama dos encontros e os olhos voltados para o que tínhamos de melhor.

Meu avô ia, nas tardes de domingo, na Padaria Estudantil, na esquina da Haddock Lobo com a Almirante Gavião, e comprava uma quantidade indizível de brioches, queijo prato, presunto, refrigerantes e sucos. Dizia, sempre:

– É a melhor padaria do mundo! – foi de quem herdei, evidentemente, o hiperbolismo afetivo que trago em mim.

Íamos todos, eu, meus irmãos, meus pais, às vezes meus tios e meu primo. Mas é curioso, no embaralhar da memória, que minhas visões daqueles lanches de domingo sejam apenas do quadro imenso que ficava numa das paredes da sala retratando um velho judeu, barba e bigodes brancos, um shofar numa das mãos; de minha avó fazendo sem parar os sanduíches e de meu avô, que só sossegava quando o último brioche era comido por um de nós:

– Não é o melhor do mundo? – perguntava pra mim.

Havia também algo que me impressionava demais naquele apartamento: um cofre cinza, enorme, no primeiro quarto à direita no corredor.

– Não há nada dentro! – dizia sempre meu pai quando me percebia atônito diante daquele segredo de aço.

Podia até não haver – eu nunca soube se foi aberto, se continha ou não continha alguma coisa.

Sei, apenas, que o cofre hoje sou eu.

Há muito dentro de mim.

No início dessa semana sonhei com meu avô Oizer.

Dei de descrevê-lo à Morena, que não o conheceu.

Seus olhos cor-de-mel, tão lindos quanto os olhos azuis-impressionantes de meu avô – ele que vivia na Praça Afonso Pena, onde moramos hoje, jogando carteado e falando em ídiche com seus amigos, sempre que eu passava vovô me segurava pela mão, danava de falar em ídiche, ria muito, e sempre punha algum dinheiro no bolso do meu short – se encheram d´água (como os olhos de minha mãe anteontem, como os meus ontem), perguntei o porquê:

– Foi com ele que eu sonhei.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO (02)

Em oito dias, completo 48 anos. E em trinta e oito dias, 17/05, completa 70 anos a minha mãe. O Brizola morrera há poucas semanas e eu estava, naquela noite em 2004, num samba que acontecia no Guanabara, em Botafogo, de cara pra Baía, pro Pão de Açúcar. Estava no mesmo samba meu irmão querido, Fernando Szegeri. À certa altura, o couro comendo, noite alta, chega Beth Carvalho. E quando a Beth Carvalho chegava numa roda, meus poucos mas fiéis leitores, o couro comia ainda mais forte. Quando nos vimos, durante o abraço, lamentamos o morte de nosso eterno e saudoso governador Leonel de Moura Brizola. E na primeira oportunidade que teve, entre um samba e outro, Beth deu de cantar o Hino da Independência. Chorei. Choramos todos. Chorou de esguichar, Fernando Szegeri. E eu não sei se movido por essa emoção ou se embalado por ela, fato é que o Fernando chamou-me à beira da baía e me disse, entre soluços:

– Quero que sejas o padrinho da Iara!

Eram – o quê?! – duas e meia, três da manhã, e ele bateu o telefone pra Railídia, mãe da Iara, pra comunicar o fato. Falei também com a atônita Railídia, acordada àquela hora por tão inusitado telefonema, e eu era então padrinho da sexta criança (abaixo, foto da Iara que enfeitava minha geladeira).

iara na geladeira

Cinco anos antes, 1999, Mariana Blanc deu-me a Milena de presente. Tinha eu só 30 anos de idade. Hoje, quase-morro de orgulho da médica e da mãe do Danilo, bisneto do Aldir, neto da Mariana, tataraneto do saudoso Ceceu.

Foram chegando em fila, os afilhados. Depois da Milena, o Alfredo, filho da Raquel e do Alfredo. Em 2000, em dezembro, foi a vez da Ana Clara, a única que foi batizada na igreja, e na de São Judas Tadeu, exigência minha docemente acatada por seus pais, Magali e Ricardo. Depois da Ana Clara, o Raphael, que era filho de meus vizinhos de porta. Pouco depois, a Dhaffiny, filha da Lu e do Buba. Foi quando chegou-me a Iara.

Hoje sou também padrinho da Rosa, irmã da Iara, filha da Stefânia e do Fernando. Da Helena, que o Leo Boechat, à moda Szegeri, movido pela emoção do momento, disse-me de olhos cheios d´água e de cana:

– Quero que você seja também padrinho da Helena… – que já tinha padrinho, assim como a Iara, mas e daí? Esses afetos são de multiplicar, não?

Estávamos no final de 2011, um ano duríssimo pra mim, quando Luiz Antonio Simas e sua Candinha me deram Benjamin pra ser meu afilhado. Afilhado-de-rua, emendou o pai. Contei-lhes aqui sobre o episódio, que me emocionou sobremaneira.

Veio 2012, com ele veio vindo a Morena, e sua afilhada, a Nathalia, fez autodeclaração – é minha afilhada. A décima. Mas tem a Maria Helena, hoje uma mulher, que vira-e-mexe, como recentemente, deixa escapar um dindo falando comigo.

São, essas crianças (que já não são mais crianças em sua maioria), fonte permanente de apaziguamento das tais tormentas que me acometem, vez por outra. Eu mesmo, que às vezes teimo com a calça curta, a camisa listrada, o time de botão sempre ao alcance da mão guardado com talco dentro de uma lata de cuecas, sou um deles. Procuro pelas minhas madrinhas e não as encontro, salvo lá atrás, cada vez mais longe. Procuro por meus primos, minhas primas, eram tantos, e pude revê-los dia desses no enterro de um dos meus tios que muito pouco eu via.

No dia desse enterro a que me refiro, eu fui um assombro de “ohs” e “ahs” a cada primo que via, a cada prima que via, a cada tio, a cada tia, todos tão velhos e de cujo convívio fui sonegado na mesma medida em que fui cúmplice e partícipe dessa sonegação, desse afastamento, desse movimento que é a antítese do que genuinamente sou. Porque somos isso mesmo, a luta permanente contra o que fizemos, contra o que fizeram conosco quando não nos era possível reagir, contra a impossibilidade dolorosa de voltar o tempo, contra a finitude, esse terror, contra as janelas abertas para o infinito diante de nós.

Minha avó e minha mãe sempre me contaram que eu, moleque, ainda tropeçando quando caminhava, tinha altas conversas com as ondas do mar. Gritava, gesticulava, fazia comícios diante do oceano. Hoje encontrei minha mãe, seus olhos marejaram à certa altura, não agi como a criança que fui diante daquela água salgada brotando de seus olhos, mais bonitos hoje do que há tempos, emoldurados agora por cabelos brancos que lembram os cabelos de minha avó e de minha bisavó.

Tive ímpetos de enxugá-los. Mas por medo de molhar os meus, fiquei quieto, com certo medo, até. Não é hora de me expôr.

E não estou sendo irônico nesse momento em que sinto o vento dos leques das velhas matriarcas da minha família farfalhando e escondendo, e deixando de esconder, e escondendo, e deixando de esconder seus rostos.

A Morena adora usar leque.

Até.

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DO DOSADOR

  • Luiz Antonio Simas, meu amigo há mais de 10 anos, meu irmão, meu compadre e o homem que cuida de mim com a competência de sacerdote mais-velho, é um tímido e um modesto, embora os movimentos em torno dele façam parecer o contrário, razão pela qual não viria (e não virá) a público dizer o que eu disse a ele, a pedidos. Aldir Blanc, um de meus orixás vivos, com quem falo com freqüência (os assuntos vão do futebol à política internacional, dos livros à música, das mulheres aos escrotos da vida pública), mandou-me e-mail e pediu que repassasse o recado ao Simas, o que fiz prontamente. Eis o e-mail do Bardo da Muda: “Viu esse? Por favor, mande um tremendo abraço pro Simas. Ninguém está escrevendo como ele. Bj, Aldir.”. Referia-se, o Aldir, ao texto Brasil, um tremendo sucesso, publicado pelo Simas no Facebook. O portentoso texto – brilhante! – pode ser lido aqui. Era o que eu queria lhes dizer;
  • Ainda sobre Luiz Antonio Simas (ele, se quiser, que confirme): há mais de 10 anos, logo que eu o conheci, ainda não éramos íntimos, eu ainda não tinha recebido a honraria de ser nomeado padrinho-de-rua do seu Benjamin, disse a ele e à minha comadre, Candida: “Luiz Antonio Simas, com as proporções e as individualidades devidas e preservadas [tenho horror dessa coisa de sucessor, substituto e outros bichos], vai ser o Suassuna do Sudeste. Vai correr Brasil, de camisolão, cantando e encantando toda a gente que com ele esbarrar.”. Quando Sérgio Cabral (o pai, por favor) apresentou Aldir Blanc e João Bosco em 1972 na série Disco de Bolso, d´O Pasquim, disse algo assim: “Quando o Brasil inteiro reconhecer a genialidade de Bosco e Blanc como a maior dupla de parceiros da música brasileira quero esse mérito, o de ter dito primeiro.”. Cito de cabeça, mas foi algo assim. Com o Simas, podem apostar, vou querer o mesmo mérito;
  • Eis que tem início, hoje, a Semana Santa. Hoje, a Missa do Lava-Pés. Amanhã, a Procissão do Senhor Morto, no Sábado de Aleluia a missa do Fogo Pascal, e no domingo de Páscoa serei um sobrevivente renascido depois da Quaresma, 40 longos dias de holocausto. Não sou católico, quem me acompanha sabe. Mas mora em mim, eternizada, as Semanas Santas da minha infância que, com a graça dos deuses, foi uma zorra na matéria: minha bisavó e minha tia Hidinha, católicas fervorosas, cumpriam a Quaresma, vestiam preto na Sexta-Feira Santa, a casa de meus avós (com quem as duas moravam) era um silêncio agudíssimo em respeito à data. Meu avô dizia-se católico, respeitava o silêncio das duas mas não me recordo dele tão envolvido com a data. Vovó, por sua vez, espírita fanática, tinha certa dó de ver a mãe e a tia ainda tão presas aos rituais da Santa Igreja Católica. Meu tio Carlos Henrique, irmão de vovó, também respeitava a liturgia da mãe e da tia mas gostava mesmo era da umbanda, vestia branco às sextas-feiras (incluindo a Sexta-Feira Santa, o que gerava leve reprimendas de minha bisavó consubstanciadas num balançar de cabeça com os olhos fechados), recebia o Caboclo Tupiara com quem eu trocava altos papos, meu pai depois deu de ser cavalo do Caboclo Tupinambá, minha avó não dispensava um passe do caboclo – qualquer um deles – com um dos livros do Kardec debaixo do braço, meu avô não dizia nada (era um calado) mas fazia o sinal de cruz sempre que passava por uma igreja. Ah, sim, a Penha, que trabalhava na casa de meus avós, tinha um cabelo que ia até a altura dos joelhos e é a primeira e mais remota lembrança de tenho de uma pentecostal fanática;
  • Isso pra não falar da banda paterna. Avós judeus. Minha avó freqüentava, escondida de meu avô, um centro espírita na Praça da Bandeira (moravam na Tijuca). O Clube Monte Sinai era quase que o playground de minha casa, o que significa dizer que a imensa maioria dos meus amigos de infância era judia, que fui a dezenas de Bar-Mitzva em praticamente todas as sinagogas da cidade (o que fez com que, até hoje, eu recite trechos da Torá num ídiche de causar inveja em israelense nativo) e sempre com aquele drama que me acompanha, de certa forma, até hoje: “Eduardo Goldenberg? Judeu, né?”. Daí eu conto toda a ladainha numa tentativa que não cessa de fazer com que eu mesmo compreenda quem sou e que fruto deu esse caldo todo, uma vez que eu me comovo feito o diabo na Semana Santa, choro às escâncaras no Círio de Nazaré, bato cabeça pra Ogum, meu pai, faço ebó quando Ifá manda, converso com minha avó à noite, rezo de mãos dadas com a Morena e vou assim, por aí, eternamente assustado e assombrado como o menino de calças curtas e camisa listrada que renega meus 48 anos de idade.
  • Até.

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FAZ 93 ANOS, HOJE, MINHA AVÓ

Acordei, como de praxe no 07 de abril, já pensando nela. Já é o sétimo aniversário sem que eu possa tocá-la, abraçá-la, sem que eu possa sentir-lhe o cheiro da lavanda, a maciez da pele tratada ao longo de toda a vida com zelo de quem se sabia majestosa. Tratei de levantar cedo e preparar seu café, a banana fatiada com perfeição para ser comida com garfo, em fatias retiradas de dentro da casca, a ameixa, o damasco, o pão com requeijão, amêndoas, nozes, castanhas. Sentei-me numa das laterais da mesa – seu café foi posto na cabeceira -, rezei em voz alta minha saudade valendo-me da necessária e salutar força do verbo que sai da boca de um neto com saudade, seu neto mais velho, ri me lembrando de incontáveis histórias vividas com ela e deixei seu café guardado para que, no final do dia, eu comungue de sua energia – e minha avó tem me dado provas impressionantes (e que não vêm ao caso) da sua presença e de sua comunhão conosco.

Lembro-me como se fosse hoje. Vovô morreu em 2002 e havia uma espécie de aposta unânime, eu colhia as frases como se fossem cravos no hospital e depois no cemitério:

– Ah, a Tidoca não dura muito… – uma amiga de antanhos.

– Já, já, aposto, vai estar junto do Milton… – uma amiga do salão (vovó freqüentou o mesmo salão, na Tijuca, por mais de 50 anos).

– Olha lá, espia! Tristinha, coitada, não passa de dezembro… – essa eu não sabia quem era, vovô morreu em fevereiro e a pessimista foi implacável.

Mathilde Eugênia Monteiro de Barros Braga, em 25 de janeiro de 2009

Fato concreto é que deu-se o oposto. Depois de anos a fio cuidando do velho Milton, seu companheiro por mais de 50 anos (como o salão), diabético, um gênio daqueles, vovó sendo um anjo-de-guarda pra ele – mais moça, minha avó confessara o sonho de um dia tornar-se enfermeira -, dona Mathilde remoçou. Com a pensão do meu avô, que não era desprezível (e vovó, como as mulher de antigamente, não fazia idéia do quanto ganhava o marido), vovó foi só festa.

Às segundas-feiras ia de ônibus pro Andaraí para a sessão do Centro Espírita Bezerra de Menezes. Às terças-feiras era o sagrado dia de ir ao salão da Zizi – e lá passava o dia quase que todo. Às quartas seu destino era o Méier. Na casa de minha tia Noêmia, sua cunhada – Noêmia ainda é viva e está com 100 anos -, ia jogar o carteado e se divertia sempre quando me contava que era a caçula da mesa. Às quintas-feiras vovó ia jantar comigo – eu a buscava e a levava de volta, sempre. E ela sempre chegava com um presente, isso quando não saíamos para jantar e ela fazia questão de pagar, rindo, sempre rindo, dizendo que ganhava muito bem! Sexta-feira? Teatro. Vovó era daquelas que arregimentava velhinhos e velhinhas dentro de uma van e rodava a cidade vendo shows, peças de teatro, às vezes indo até São Paulo, e sempre de van – vovó viveu 86 anos sem nunca ter pisado num avião, tamanho o pânico.

Era a festa em pessoa. Continua sendo, pelo que tenho percebido.

Como festa foi seu próprio velório, como já contei:

“E foi, meus poucos mas fiéis leitores, um velório tijucano e rodrigueano.

Logo na entrada da capelinha, uma coroa de flores gigantesca enviada por Gilberto Braga, sua irmã Rosa Maria e seu irmão Ronaldo. Vovó era amicíssima da Ieda, mãe dos três. Sua melhor amiga, contam. Os três a chamavam “tia Tida” e por ela tinham um carinho sem tamanho. Pois vamos à cena no melhor estilo Tijuca. As velhotas que se acotovelavam em volta do caixão vez por outra apontavam na direção da tal coroa de flores. Havia um alarido (apud Nelson Rodrigues) de vozes acompanhando aquele apontar de dedos. Até que deu-se a cena de cinema.

Uma das velhas tomou a direção da coroa de flores arrastando outra velhota pela mão. Estacou diante da coroa equilibrada no cavalete, pouco depois de estender uma câmera fotográfica para sua amiga. Postou-se ao lado da bóia de flores, esticou a faixa com os dizeres “saudades eternas”, apontou pro nome do autor de novelas e disse pra outra:

– Tira! Tira! Vai!

Foi então que formou-se uma pequena fila para a mesmíssima fotografia.

Mas não ficou aí, apenas, o tijucanismo do momento.

À certa altura adentra a capelinha Dayse Lúcidi, prima da vovó. A radialista e atriz, hoje fazendo o papel de uma avó e cafetina na novela das oito, causou um furor de velhas no salão. Cochichos, fotografias, explosão de flashes, autógrafos.

E lá estava vovó vivendo o drama tantas vezes retratado por Nelson Rodrigues.

“A dor tem, ao fundo, um alarido de xícaras e de pires”, disse o mestre.

Ontem, diante da ausência do bar da capela e da presença da modernidade, o alarido foi de flashes e do automático das câmeras portáteis.”

Minha saudade e meu amor eterno, minha vó. Fique com meu beijo e com o da Morena, que você acha tão bonita…

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ABRIL, UMA ALEGRIA INFERNAL

Em todos os abris dá-se o mesmo (e dá-se ainda mais forte depois de 2011 quando, no 07 de abril de cada ano dali em diante, passei a não mais ver a minha avó): tenho febres, febrículas, suadouros, tremores de mão e arremessos violentíssimos em direção ao passado. Tudo, claro, e ainda bem, de forma discreta a fim de não despertar o pânico em quem me cerca. De uns meses pra cá, e estou apenas digressionando de propósito porque se for lhes contar a verdade a fundo é bem capaz de eu perder a credibilidade que conquistei ao longo de quase 48 anos, até que tenho efetivamente estado com minha avó, que aparece na foto abaixo no canto à direita, vestidinho branco de bolinhas pretas. A foto, pelo que apurei nos arquivos que mantenho comigo, é de aproximadamente 1933 – vovó tinha entre 8 e 9 anos. Foi tirada no jardim da casa de meus bisavós, na rua Marquês de São Vicente nº 184, na Gávea – de onde, sabiamente, mudaram-se para a rua Gonçalves Crespo, na Tijuca, evidentemente.

Minha bisavó, Mathilde Veloso, a mais impressionante mulher que conheci, matriarca na exata e pesada acepção da palavra, está ao centro, de preto, pés elegantemente cruzados, e meu bisavô, Eugênio Augusto, no alto e no centro, bem na direção de minha bisavó, o cabelo levemente desgrenhado (em aguda oposição à rigidez do penteado de minha bisavó). Reconheço, ainda – com os olhos embaçados, porque eles estão quase sempre assim nos abris – minha tia Linda (à esquerda, de vestido branco, sorrindo, as mãos postas), meu tio Procter (ou seria Proter?) (no alto, à esquerda, com duas crianças no colo, ele (inglês) que foi casado com minha tia Alzira, minha tia Zirota, que não reconheço na fotografia – se é que nela está), mas são as figuras de minha bisavó (Mathilde) e de minha avó (Mathilde) as que mais me chamam a atenção.

A pouco mais de 20 dias de mais um aniversário, rumo à quadragésima oitava volta do ponteiro, dá-me especial prazer esse exercício arqueológico em busca de registros dos meu antepassados. Há quem prefira desfazer-se desses registros físicos (um crime, um estelionato afetivo), não eu.

Meu bisavô, Eugênio Augusto Monteiro de Barros, nasceu a 22 de novembro de 1893. Exerceu durante muitos anos o cargo de contador da Companhia de Navegação Costeira, foi presidente da União dos Empregados no Comércio do Rio de Janeiro, deputado federal classista (assinou a Constituição de 1934) e casou-se a 17 de maio de 1913 com Mathilde Veloso, que passou a assinar Mathilde Veloso Monteiro de Barros, minha bisavó!, ela filha de Francisco Veloso, português, e de Julia Pinheiro Veloso, de família de São João da Barra.

Tiveram muitos filhos: Maria Florinda, que morreu de tétano aos 15 anos (um dia lhes conto sobre meu pânico, na infância, de morrer de tétano aos 15 anos, como ela); Francisco de Paula Monteiro de Barros, meu tio Chico; Sílvio Augusto Monteiro de Barros; Mathilde Eugênia Monteiro de Barros; Carlos Henrique Monteiro de Barros e Pedro Paulo Monteiro de Barros. À exceção do Pedro Paulo, meu tio Pedrinho – cujo paradeiro há pouco descobri -, estão todos mortos. Mas não estão.

Fará anos depois de amanhã, 07 de abril, 93 anos mais precisamente, minha avó Mathilde, herdeira do matriarcado exercido durante 89 anos por sua mãe, minha bisavó. Lá em casa, como desde 2011, o café-da-manhã será preparado para ela, à sua moda, com torrada, manteiga, geléia, café com leite, bolo, castanhas, damasco, nozes, a ela será oferecido e dele me servirei no final do dia, quando chegar do trabalho. Estarão todos eles, os meus fantasmas, conosco, em homenagem a ela, uma mulher que foi desaparecer, aos 86 anos, credora do afeto e do carinho de todos os que com ela conviveram. Incapaz de um gesto capaz (é de propósito) de romper laços, laços, laços, laços, que sem eles, os laços, não somos nada.

Vovó, que acha a Morena lindíssima (embora não a tenha conhecido em vida), há de estar, de novo, junto de nós, comungando conosco, mais de perto, dos nossos sonhos mais especiais nesse 2017.

Falo mais sobre os meus fantasmas, tão queridos, amanhã.

Até.

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A SEGUNDA MORTE DE JAIME GOLD

Maio de 2015. O médico Jaime Gold é assassinado, a facadas, na Lagoa Rodrigo de Freitas, e uma comoção toma conta da sociedade, notadamente daquela gente que, afortunada, mora no entorno do espelho d´água mais famoso da cidade do Rio de Janeiro. O Secretário de Segurança do Governo do Estado dá, naquela ocasião, uma das mais infelizes declarações sobre a situação e eu, humílimo do meu canto, publico aqui Jaime Gold, mais uma vítima de outras vítimas (aqui).

Hoje, 08 de julho de 2016, um ano e dois meses depois, tomei conhecimento de um fato repugnante – ligado à morte de Jaime Gold – graças à leitura dessa matéria (aqui) do jornalista e escritor, meu camarada, botafoguense, Fernando Molica. Tomo a liberdade de transcrever trechos da referida matéria:

“Pressionado por moradores da Lagoa, Heitor Wegmann, subprefeito da Zona Sul, mandou a Comlurb, a um mês do início das Olimpíadas, retirar da grade e da mureta que ficam na altura da Curva do Calombo cartazes contra a violência que estampavam nomes de vítimas que não foram mortas no bairro.

Segundo a subprefeitura, os autores da reivindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold, morador de Ipanema que, em maio do ano passado, morreu depois de ser esfaqueado quando pedalava por aquele trecho da ciclovia.

As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidas pelos garis na noite de segunda-feira.

Feitos com cartolina preta, 71 cartazes traziam nomes de crianças vítimas de balas perdidas e de policiais mortos enquanto trabalhavam. Algumas outras placas, que também foram retiradas, estampavam estatísticas oficiais de violência.

(…)

O responsável pela ONG afirmou ainda que a instituição não abrirá mão de expor dados sobre a violência em algum ponto da cidade. “É preciso constranger o poder público”, ressaltou.

Não sei como me referir “aos autores da reinvindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold (…).”. Nem o quê dizer sobre isso: “As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidos (…)”.

Sei que, no dia em que foram retiradas as homenagens “às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade” – notem que manteve-se a homenagem ao médico Jaime Gold, os outros mortos não têm nome – o pobre Jaime Gold morreu de novo.

E a escória que reinvidicou tamanho absurdo parece não ter aprendido nada, rigorosamente nada, absolutamente nada, com a morte de seu vizinho. Vou repetir o que escrevi em maio de 2015.

“Os meninos que esfaquearam o médico não o fizeram por causa de uma simples bicicleta – façam-me o favor! Eles estavam ali, vá saber, com a arma (que mata, como matou) que usam para se defender de suas próprias rotinas e de seus destinos desgraçados e sem horizonte. Cravaram a faca no médico como se cravassem a faca numa bananeira. Como se cravassem a faca na sociedade que tudo lhes nega. Como se cravassem a faca na polícia que os aterroriza desde o dia em que nasceram. Como se cravassem a faca no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva.”

E se morreu de novo Jaime Gold, morreram também, de certo modo, os que reinvindicaram essa ignomínia atendida pelo subprefeito da zona sul, Heitor Wegmann. Ou deveriam ter morrido: de vergonha, de nojo de si mesmos, de constrangimento.

Torço, quieto, para que a reação venha à altura (ou para que o subprefeito tenha um mínimo de senso de lucidez e reveja seu gesto) e que sejam recolocados ali, diante dos olhos-cegos dos que se acham mais e melhores, cada um dos cartazes arrancados homenageando gente que também teve a vida arrancada do mesmo modo banal que matou, pela primeira vez, Jaime Gold. E que cada um desses cartazes corte, como faca, o coração sem sangue dessa gente que sequer de gente merece ser chamada.

Até.

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UMA SAUDADE E UMA ESPERANÇA

Eu não achei, franca e sinceramente, que fosse viver o que vivo hoje, o que vivemos hoje no Brasil. Desde meninote, à minha moda, interessei-me por política. Em 1982, com apenas 12, 13 anos de idade, fascinei-me, na exata acepção que a palavra fascínio tem pra um menino, com a figura de Leonel de Moura Brizola. Dentro de casa, entre os leques das mais-velhas, maços de Hollywood da minha avó e de Minister do meu avô, tios e tias que hoje são só saudade, eu já era olhado com certa dó: “Brizola é o demônio, meu filho!”“Um agitador!”, era sempre por aí o que eu ouvia daqueles lacerdistas, admiradores da Sandra Cavalcante. Mas eu brilhava os olhos quando via e ouvia o Brizola falar. Escapava pra Cinelândia, escondido, pra juntar-me aos que me diziam mais à alma quando o assunto era política: velhos e velhas de lenço vermelho no pescoço, a Juventude do PDT à qual não me filiei por medo, sim, por medo, e eu voltava pra casa sempre ainda mais admirado com aquele homem que começou a campanha com 1% e a venceu contra tudo e contra todos, inclusive o golpe da Proconsult que Moreira Franco (esse mesmo que hoje agita o golpe) e Roberto Marinho tentaram implementar para tirar a vitória colossal de Brizola (entenda aqui o que fizeram com Brizola em 1982).

Engajei-me a fundo na campanha para a eleição de Darcy Ribeiro, que Brizola tentou fazer sucessor. Fomos derrotados.

Ingressei na Faculdade de Direito em 1987 e vivi, na PUC-RJ, período riquíssimo: a Constituição Federal estava sendo gestada, meus professores eram todos de esquerda, e vivi, no ambiente universitário, a primeira eleição direta para Presidente do Brasil desde a ditadura, que iniciou-se em 1964. Eu era, meus poucos mais fiéis leitores, o único eleitor do Brizola da turma, que se dividia entre Lula e (pasmem) Roberto Freire – havia, claro, eleitores de direita mas que eram minoria. E apenas um de meus professores, o hoje Juiz Federal Firly Nascimento (e então Defensor Público), também era eleitor do velho Brizola.

Em 1989 dei meu primeiro voto pra valer nele, Leonel de moura Brizola. Perdemos por pouco.

E a tristeza também durou pouco: elegi Brizola Governador do Rio de Janeiro em 1990, Estado que o elegeu, consagradamente, duas vezes!

Em 92, durante o processo de impeachment de Fernando Collor, não juntei-me aos cara-pintadas: ouvi a voz do mais sábio que alertava: “A nossa posição… quando eu digo minha, eu digo nossa, porque nós elaboramos uma posição partidária. Até aqui, cada um de nós emite as suas opiniões, somos um partido democrático; eu, como mais velho, emito as minhas, mas elaboramos a nossa posição. Nós tratamos de condenar certas atitudes, certos procedimentos, porque entendemos que um clima de histeria é inconveniente para as próprias investigações, para se fazer justiça. Nós já vimos episódios semelhantes, nunca deram bons resultados. Condenamos esses excessos, às vezes a falta de isenção e principalmente os que procuravam colocar a carreta diante dos bois, [aqueles que] antes de investigar, antes de conhecer exaustivamente os fatos, recomendavam logo o impeachment, inclusive fazendo vistas grossas para as outras áreas de corrupção gravíssimas que existem no país e que no fundo estão disputando a sua continuidade no poder ou a sua ida para o poder.”

Em 1994, fiz campanha ainda mais apaixonado: o vice de Brizola era Darcy Ribeiro, e até hoje me emociono só de pensar na possibilidade que deixamos de viver, tendo Brizola como Presidente e Darcy como vice.

Em 1998 também votei em Brizola, mas como vice de Lula – embora pensasse, na época, que deveria ser o contrário. Mas foi só mais um gesto de grandeza desse que foi o maior homem público que o Brasil conheceu.

Em 16 de setembro de 2000 fiz um troço que me fez aproximar-me verdadeiramente do saudoso Brizola. Na cara da Rede Globo, na tela da Rede Globo, durante campanha para a Prefeitura do Rio de Janeiro gritei seu nome, ao vivo, para desespero do Roberto Talma, que dirigia o programa (aqui conto tudo).

Se não posso dizer que desfrutamos de intenso convívio ou mesmo de amizade, encho o peito de orgulho porque estivemos juntos muitas vezes (sempre a convite dele) e em todas as vezes – todas! – em algum momento ele me chamava à uma roda de amigos e correligionários. E dizia:

– Eduardo! Conte aquele teu episódio colossal na Rede Globo!

A foto abaixo foi tirada na casa do Martinho da Vila, nosso último encontro. Éramos poucos: eu, minha mulher à época, Martinho da Vila e Cléo, Martnália e Analimar, Paulinho da Aba, Beth Carvalho, Lupi, Brizola e seus dois netos, Leonel Brizola e Brizola Neto, o Carlito. Martinho e Cléo ofereceram um jantar ao Brizola porque o sonho da Cléo, gaúcha como ele, era não apenas conhecer Brizola, mas vê-lo assinar a Carta Testamento de Getúlio Vargas que ela pretendia emoldurar e pôr na parede. Foi uma noite de nunca mais esquecer.

Made with Repix (http://repix.it)

Brizola estava à vontade. Comeu (serviu-se picanha), bebeu vinho, cantou quando formou-se a roda de samba (a memória me trai e não me recordo dos demais músicos, além do Paulinho da Aba), contou histórias impressionantes, falou do suicídio de Getúlio Vargas, sobre a Cadeia da Legalidade, de suas campanhas, de sua infância, marejou os olhos quando falou dos CIEPs… e pediu pra cantar quando estava indo embora, alta madrugada:

“Felicidade, vou me embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora onde sei que a falsidade não vigora…”

Não houve quem não chorasse.

Como choro agora – faço a confissão.

Sinto muita saudade do meu eterno e saudoso Governador Leonel de Moura Brizola nesse momento sombrio que atravessamos.

E muita esperança.

De mãos dadas com a mulher com quem divido mais que a vida – sonhos, projetos, um futuro – espero o domingo com esse travo no peito.

Até.

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