Arquivo da categoria: confissões

ARREMESSO AO PASSADO (03)

Em cinco dias, completo 48 anos. Em vinte e cinco dias, 17 de maio, completa 70 anos a minha mãe. E em trinta dias exatos, 22 de maio, meus pais completam 49 anos de casados (há 49 anos e trinta dias, portanto, foi tirada a foto abaixo). Da esquerda pra direita estão Milton e Mathilde, meus avós maternos, mamãe e papai no meio, Elisa e Oizer, meus avós paternos. Estão todos mortos, meus quatro avós, mas estão mais vivos que nunca, ainda mais nesses tempos que antecedem os 27 de abril de todos os anos. Meu avô Milton era católico, da Congregação Mariana. Minha avó Mathilde, espírita fanática, fã de Chico Xavier, só lia livros psicografados e Kardec era seu ídolo. Minha avó Elisa era judia mas freqüentava, escondida de meu avô, um centro espírita na Praça da Bandeira. E meu avô Oizer, também judeu, fugido de Odessa para o Brasil, foi mascate, morou na Campos da Paz, depois na Santa Alexandrina, era alucinado por telecatch, e por fim morou na Haddock Lobo – onde morreram, ele e minha avó. Sendo mais preciso, vô Oizer morreu no Hospital Evangélico, na rua Bom Pastor, e minha avó Elisa, anos depois, no Lar das Damas Israelitas, na rua Afonso Pena. Meu avô Milton morreu no Hospital Pan Americano, na rua dos Araújos, e minha avó Mathilde no Hospital da Venerável Ordem Terceira da Penitência, onde eu nasci. Todos na Tijuca. Minhas avós viveram bastante tempo depois de viúvas embora, bem me lembro, no enterro do meu avô Milton as amigas de vovó dissessem, às escâncaras:

– Coitada da Tidoca… não dura dois meses…

Viveu muitos anos.

casamento papai e mamãe

Minha avó Mathilde morreu no hospital em que nasci  – terá sido no mesmo quarto?

Morei por doze anos, com a Dani, no mesmíssimo apartamento de meus avós paternos, na Haddock Lobo – apartamento que comprei no ano passado e onde hoje mora um grande amigo meu. Dani morreu no Hospital Israelita (israelita, israelita, israelita), na rua Lúcio de Mendonça, também na Tijuca.

Ontem, por conta do feriado (sem banco), fui ao apartamento buscar o dinheiro do aluguel e tomar um café com o Felipinho, o grande amigo meu que vive lá. Meus olhos encheram d´água quando entrei no apartamento. Impossível que não fosse assim. Não apenas pela memória, cheia de boas lembranças e muitas dores, dos meus doze anos lá. Mas também, e ontem principalmente, pelas memórias de minha infância, quando íamos todos lanchar na casa de meus avós, aos domingos. Tínhamos, apenas, a preocupação de manter acesa a chama dos encontros e os olhos voltados para o que tínhamos de melhor.

Meu avô ia, nas tardes de domingo, na Padaria Estudantil, na esquina da Haddock Lobo com a Almirante Gavião, e comprava uma quantidade indizível de brioches, queijo prato, presunto, refrigerantes e sucos. Dizia, sempre:

– É a melhor padaria do mundo! – foi de quem herdei, evidentemente, o hiperbolismo afetivo que trago em mim.

Íamos todos, eu, meus irmãos, meus pais, às vezes meus tios e meu primo. Mas é curioso, no embaralhar da memória, que minhas visões daqueles lanches de domingo sejam apenas do quadro imenso que ficava numa das paredes da sala retratando um velho judeu, barba e bigodes brancos, um shofar numa das mãos; de minha avó fazendo sem parar os sanduíches e de meu avô, que só sossegava quando o último brioche era comido por um de nós:

– Não é o melhor do mundo? – perguntava pra mim.

Havia também algo que me impressionava demais naquele apartamento: um cofre cinza, enorme, no primeiro quarto à direita no corredor.

– Não há nada dentro! – dizia sempre meu pai quando me percebia atônito diante daquele segredo de aço.

Podia até não haver – eu nunca soube se foi aberto, se continha ou não continha alguma coisa.

Sei, apenas, que o cofre hoje sou eu.

Há muito dentro de mim.

No início dessa semana sonhei com meu avô Oizer.

Dei de descrevê-lo à Morena, que não o conheceu.

Seus olhos cor-de-mel, tão lindos quanto os olhos azuis-impressionantes de meu avô – ele que vivia na Praça Afonso Pena, onde moramos hoje, jogando carteado e falando em ídiche com seus amigos, sempre que eu passava vovô me segurava pela mão, danava de falar em ídiche, ria muito, e sempre punha algum dinheiro no bolso do meu short – se encheram d´água (como os olhos de minha mãe anteontem, como os meus ontem), perguntei o porquê:

– Foi com ele que eu sonhei.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO (02)

Em oito dias, completo 48 anos. E em trinta e oito dias, 17/05, completa 70 anos a minha mãe. O Brizola morrera há poucas semanas e eu estava, naquela noite em 2004, num samba que acontecia no Guanabara, em Botafogo, de cara pra Baía, pro Pão de Açúcar. Estava no mesmo samba meu irmão querido, Fernando Szegeri. À certa altura, o couro comendo, noite alta, chega Beth Carvalho. E quando a Beth Carvalho chegava numa roda, meus poucos mas fiéis leitores, o couro comia ainda mais forte. Quando nos vimos, durante o abraço, lamentamos o morte de nosso eterno e saudoso governador Leonel de Moura Brizola. E na primeira oportunidade que teve, entre um samba e outro, Beth deu de cantar o Hino da Independência. Chorei. Choramos todos. Chorou de esguichar, Fernando Szegeri. E eu não sei se movido por essa emoção ou se embalado por ela, fato é que o Fernando chamou-me à beira da baía e me disse, entre soluços:

– Quero que sejas o padrinho da Iara!

Eram – o quê?! – duas e meia, três da manhã, e ele bateu o telefone pra Railídia, mãe da Iara, pra comunicar o fato. Falei também com a atônita Railídia, acordada àquela hora por tão inusitado telefonema, e eu era então padrinho da sexta criança (abaixo, foto da Iara que enfeitava minha geladeira).

iara na geladeira

Cinco anos antes, 1999, Mariana Blanc deu-me a Milena de presente. Tinha eu só 30 anos de idade. Hoje, quase-morro de orgulho da médica e da mãe do Danilo, bisneto do Aldir, neto da Mariana, tataraneto do saudoso Ceceu.

Foram chegando em fila, os afilhados. Depois da Milena, o Alfredo, filho da Raquel e do Alfredo. Em 2000, em dezembro, foi a vez da Ana Clara, a única que foi batizada na igreja, e na de São Judas Tadeu, exigência minha docemente acatada por seus pais, Magali e Ricardo. Depois da Ana Clara, o Raphael, que era filho de meus vizinhos de porta. Pouco depois, a Dhaffiny, filha da Lu e do Buba. Foi quando chegou-me a Iara.

Hoje sou também padrinho da Rosa, irmã da Iara, filha da Stefânia e do Fernando. Da Helena, que o Leo Boechat, à moda Szegeri, movido pela emoção do momento, disse-me de olhos cheios d´água e de cana:

– Quero que você seja também padrinho da Helena… – que já tinha padrinho, assim como a Iara, mas e daí? Esses afetos são de multiplicar, não?

Estávamos no final de 2011, um ano duríssimo pra mim, quando Luiz Antonio Simas e sua Candinha me deram Benjamin pra ser meu afilhado. Afilhado-de-rua, emendou o pai. Contei-lhes aqui sobre o episódio, que me emocionou sobremaneira.

Veio 2012, com ele veio vindo a Morena, e sua afilhada, a Nathalia, fez autodeclaração – é minha afilhada. A décima. Mas tem a Maria Helena, hoje uma mulher, que vira-e-mexe, como recentemente, deixa escapar um dindo falando comigo.

São, essas crianças (que já não são mais crianças em sua maioria), fonte permanente de apaziguamento das tais tormentas que me acometem, vez por outra. Eu mesmo, que às vezes teimo com a calça curta, a camisa listrada, o time de botão sempre ao alcance da mão guardado com talco dentro de uma lata de cuecas, sou um deles. Procuro pelas minhas madrinhas e não as encontro, salvo lá atrás, cada vez mais longe. Procuro por meus primos, minhas primas, eram tantos, e pude revê-los dia desses no enterro de um dos meus tios que muito pouco eu via.

No dia desse enterro a que me refiro, eu fui um assombro de “ohs” e “ahs” a cada primo que via, a cada prima que via, a cada tio, a cada tia, todos tão velhos e de cujo convívio fui sonegado na mesma medida em que fui cúmplice e partícipe dessa sonegação, desse afastamento, desse movimento que é a antítese do que genuinamente sou. Porque somos isso mesmo, a luta permanente contra o que fizemos, contra o que fizeram conosco quando não nos era possível reagir, contra a impossibilidade dolorosa de voltar o tempo, contra a finitude, esse terror, contra as janelas abertas para o infinito diante de nós.

Minha avó e minha mãe sempre me contaram que eu, moleque, ainda tropeçando quando caminhava, tinha altas conversas com as ondas do mar. Gritava, gesticulava, fazia comícios diante do oceano. Hoje encontrei minha mãe, seus olhos marejaram à certa altura, não agi como a criança que fui diante daquela água salgada brotando de seus olhos, mais bonitos hoje do que há tempos, emoldurados agora por cabelos brancos que lembram os cabelos de minha avó e de minha bisavó.

Tive ímpetos de enxugá-los. Mas por medo de molhar os meus, fiquei quieto, com certo medo, até. Não é hora de me expôr.

E não estou sendo irônico nesse momento em que sinto o vento dos leques das velhas matriarcas da minha família farfalhando e escondendo, e deixando de esconder, e escondendo, e deixando de esconder seus rostos.

A Morena adora usar leque.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO (01)

Em nove dias, completo 48 anos. E em trinta e nove dias, 17/05, completa 70 anos a minha mãe. A cada ano que passa, mais curta a ponte que passa por sobre o rio das minhas memórias e que, como nas trombas d´água, me arremessa em direção ao passado de forma desordenada, encurtando o curso do rio, fazendo desmoronar as margens, modificando as paisagens, e lá vem mais um 27 de abril, minha 48ª volta do ponteiro. Em 69, quando nasci, uma mulher de 21 anos levou-me ao colo – e embora houvesse, ali, um laço indissolúvel, havia também uma abissal distância de quase 8.000 dias de vivência entre aquela mulher e aquela criança. Hoje, 18 de abril de 2017, pouco mais de 17.500 dias depois daquele domingo de 1969, mais de um bilhão e meio de segundos depois, insisto em lutar contra a passagem do tempo porque há, em mim, morando em mim, chorando dentro de mim, o menino que nasceu no Hospital da Venerável Ordem Terceira da Providência, de frente pro morro do Borel, na Tijuca, evidentemente, e de lá foi levado para o apartamento da rua Barão de Mesquita, quase esquina com São Francisco Xavier e do qual não guardo nenhuma memória, o que me agonia ferozmente.

rua barão de mesquita

Vira-e-mexe, vá entender, dou de caminhar até o edifício de pastilhas azuis (que, pelo aspecto, são as mesmas pastilhas desde a construção), em busca, confesso, de não-sei-o-quê. Já lhes contei, aqui, que “vivo na Tijuca, na zona norte – minha terra, minha aldeia, meu pago. Aqui nasci, na Ordem Terceira da Penitência, na rua Conde de Bonfim, bem em frente ao morro do Borel. Desceram, meus pais, a Conde de Bonfim, e minha primeira taba foi na rua Barão de Mesquita, quase na esquina da São Francisco Xavier, na lateral do tradicionalíssimo Colégio Militar (onde fui batizado depois de ter sido circuncisado por um rabino, vão tomando nota, no oitavo dia). Dali, mudamo-nos para a São Francisco Xavier, número 90, primeiro no sexto andar e depois no segundo – em frente ao Orsina da Fonseca, quase em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, às margens do rio Trapicheiro (foi quando conheci Tarcisa, a mulher de seios de mármore). Meus países eram as vilas nas quais moraram meus avós – sempre na Tijuca. Mudamo-nos, anos depois, para a Professor Gabizo, entre a Morais e Silva e a General Canabarro, a poucos metros do Maracanã.”.

Moro hoje na Martins Pena, a poucos metros da Professor Gabizo, a poucos metros da vila onde moraram meus avós, quase ao lado do prédio em que morava dona Gisélia, a quem eu chamava “vovó Gisélia”, que mantinha em seu quarto um gongá que nunca me assustou – muito pelo contrário. Vovó Gisélia trabalhava com um Preto Velho e mantinha, na cabeceira de sua cama, dezenas de imagens de seus santos, seus Pretos Velhos, suas guias, uma vela sempre acesa e, como diria Caymmi, tá tudo vivo ainda lá. Sua filha, madrinha de meu irmão caçula, minha vizinha, contou-me dia desses: tá tudo ainda lá. Moro com a Morena, que me viu nascer de novo aos 42 anos. Para ser mais preciso, moro com a Morena, que me fez nascer de novo aos 42 anos.

Ela chegou ao mundo e eu já tinha 7 anos. Ela chegou ao mundo a 1.300 quilômetros de distância de mim. Uma distância tão colossal quanto a que me separava de minha mãe em abril de 69. Ela chegou ao meu mundo já quase no final de 2011 e mudou-se de mala, cuia (com bomba e mate!) e um cachorrinho lindo no final de 2012 – quando efetivamente começamos a construir o nosso mundo. Eu dependia infinitamente mais dela do que ela de mim. Eu tinha 43 anos quando ela veio pra mais-perto.

Acho que ainda é assim: sou mais dependente.

Perdi um bocado de gente ao longo desses muitos anos. O mulherio liderado pela minha bisavó, a matriarca dos Monteiro de Barros, meus tios-avós todos, minha avó, que não conheceu a Morena mas que já me disse que a acha linda (sabida, minha avó). Jamais saberei o que terá sido de mim se não fossem tantas, as mortes. Mas há tanta vida no alarido de tantos fantasmas em mim, dentro de mim, em volta de mim, há tanta vida no caramelo dos olhos da Morena, que me arrastou pras praias mais bonitas do mundo quando fez 40 anos, há tanta vida no que está por vir por mais que doa caminhar que, franca e sinceramente, não sinto, ainda, o peso nos ombros de que tanto falam.

Tenho a disposição do moleque que fui, de calças curtas, camisas listradas e meu time de botão sempre à mão. Enfrentei muita vilania, cantei muito pra virar muito olho grande pras ondas do mar, mas quem me protege não dorme e quem dorme comigo é que é meu porto seguro, minha cidadela, minha chinoca com quem trago o melhor que um trago traz.

Até.

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CARTA ABERTA PRO MOLEQUE BENJAMIN

Benjamin, meu Elegbarinha, meu afilhado-de-rua, meu saci-louro, meu anjo-torto, dono das esquinas que dobro em busca das alegrias que dão graça à vida… deixe-me lhe dizer meia-dúzia de palavras nesse penúltimo dia do ano de 2014 para, através delas, falar com todo mundo que me lê, meus poucos mas fiéis leitores que desde março de 2004 – há mais de 10 anos portanto! – acompanham por aqui minhas confissões, meus desvarios, minhas dores e meus passos no decorrer dos dias…

No Natal de 2011, moleque, como contei aqui, seus pais – Candinha e Simas, irmãos a quem amo com a devoção de um fiel fanático – me deram você de presente quando me disseram que você seria meu afilhado-de-rua. No texto a que me refiro, Benjamin, escrevi que você “há de ser, como são seus pais, um brasileiro máximo. E cresceremos muito, e cresceremos juntos, e seremos, também, irmãos de fé.”.

Um pouco mais adiante, garoto, depois de um dia inteiro juntos – eu, você, seus pais e minha Morena – seu pai me disse de cotovelo ancorado num balcão:

– A Flávia é a madrinha-de-rua do Benjamin, pode dizer isso a ela!

Ela, Benjamin, que você – filho de Exu! – transformou em duas nas suas fantasias: ora é Flávia, ora é Morena, ah, as tuas sabedorias de pedra miúda.

E nós, Exufemy, eu e a Morena, amamos você de um jeito que só com o tempo você vai entender…

Você, saci-louro, que é filho de Exu, o camarada que me sopra nos ouvidos, apesar de eu ser filho de Ogum, como seu pai. Foi Iya Sandra, hoje no Orum, quem me cantou essa pedra há pouco confirmada por seu próprio pai, que com as mãos que te protegem tirou meu odu de vida e confirmou: seu pai gosta demais de mim! Laroiê!

Pois hoje, Benjamin, te vi vestido de Vasco da Gama – uniforme que te foi dado por meu pai – e levei um susto, um arranco, um arremesso violento em direção ao passado… Isso porque em junho de 2011, seis meses antes de eu ganhar você, eu vesti a camisa do Vasco da Gama pela primeira vez, e por amor, como contei aqui. Porque meu pai, moleque, não conseguiu fazer de mim um vascaíno, como também já contei aqui, e talvez você esteja sendo a ponte capaz de reconstruir um afeto que não se concretizou quando nasci, em 69, já que tomei outro rumo (sempre preferi o vermelho e preto, o vermelho e o preto de teu pai!).

benjamin de vasco

Eu, incorrigível, há mais de 10 anos – 10 anos! -, tentando, vá lá, pavimentar de mais-afeto essas tantas pontes que vamos encontrando pelo caminho, escrevi um poema de amor pra um sujeito que hoje me renega (coisas da vida, meu nêgo…), aqui. Azar o dele, Benjamin! Há – hás de saber disso n´alguma altura – quem prefira a dor e a purgação ao gozo e ao prazer.

Ergo, daqui de casa, chorando de esguichar, um copo cheio de uísque e de gelo na tua intenção, meu menino!

E escrevo, pra que fique registrado, o que escrevi outrora pra outro destinatário: por você, Benjamin D´Angelo, por você, Exufemy, sou vascaíno!

E que em 2015, Benjamin, ano que se aproxima, possamos – eu, a Morena, o Pepperoni, o Toquinho, Candinha e Luiz Antonio Simas – brindar muitas vezes à vida e aos rodopios da vida (e aos redemoinhos da vida!) de mãos dadas e com a peneira sempre por perto!

Até.

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EU PENSEI QUE TODO MUNDO FOSSE FILHO DE PAPAI NOEL

Durante muito tempo – faço a confissão, nunca tardia – eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel. Contam as lendas de família – que é enorme!, aqui há muitas histórias da família – que eu sempre tive, entretanto, medo do Bom Velhinho. Nasci em 1969 e evidentemente não me recordo da minha primeira noite de Natal, tampouco me recordo da primeira lembrança que tenho da primeira noite de Natal que a memória algum dia guardou. Lembro-me, entretanto, de muitas noites de Natal até 1981, último Natal da minha bisavó (sobre quem escrevi aqui, em maio de 2004). Minha bisavó, jeito e porte de matriarca, mãe de seis filhos (quatro homens e duas mulheres), sempre manteve a família unida nas chamadas grandes datas: na Páscoa, no Natal, nos aniversários de cada um. O Natal (é do Natal que quero lhes falar) era para mim, sobretudo, a festa máxima que ela, minha bisavó, proporcionava à família. As noites de Natal eram passadas na casa de meus pais (primeiro na São Francisco Xavier 90 – no 6º e depois no 2º andar – e depois na Professor Gabizo). Mamãe mantinha uma tradição, bem me lembro, de montar um presépio bem simples e à meia-noite, pouco antes da ceia, a criança mais nova da casa punha o Menino Jesus na manjedoura. Mamãe rezava, fazíamos a troca de presentes, e até a fantasia manter-se viva em mim, eu ia dormir à espera do presente da manhã seguinte – o presente era, já lhes disse isso aqui, o menos importante.

Seguramente, um Natal semelhante ao de milhões de famílias – mas era o meu Natal, era a minha família. E como todas as famílias do mundo, uma família com conflitos, uma família com diferenças abissais entre seus membros, uma família que, apesar dos pesares, reunia-se na noite de 24 de dezembro, no almoço de 25 de dezembro, em torno daquela que era a mais-velha, era a mãe, era a avó, era a bisavó, sem que ninguém visse, naquela reunião, naquela festa!, qualquer sinal de hipocrisia ou fingimento. Lembro-me de minha bisavó, de sua irmã, de meus quatro avós, de meus tios, de meus primos, uma família, como disse acima, enorme… e que nunca mais reuniu-se no Natal na noite de 24 de dezembro depois de dezembro de 1982 quando, a sete dias do Natal, minha bisavó dormiu pra nunca mais acordar.

A família, enorme – repito de propósito -, partiu-se em sei lá quantos ramos: já não havia mais a âncora, já não havia mais minha bisavó. E minhas noites de Natal nunca mais tiveram a mesma graça – já não havia mais minha bisavó, a mulher-símbolo da família que me originou do lado materno. Eram, entretanto, noites de Natal. E eu as passava com minha família: meus pais, meus irmãos, meus avós (até que vovó, por último, morreu em 2010, ela também pouco antes do Natal), e se não estava com eles no dia 24, por incontáveis razões, no dia 25 lá estava eu para celebrar, ao lado deles, a data que sempre me foi tão marcante.

A foto abaixo, de 1969, tirada na Vista Chinesa poucos meses depois do meu nascimento, mostra papai de olhos em mim, mamãe de olhos em meu pai e eu, ainda filho único, dormindo o sono dos justos. De lá pra cá, 45 anos se passaram.

D (8)

A família encolheu, meus propósitos não.

E como lhes disse em 2009:

“Sem qualquer intenção de fazer proselitismo, evidentemente, desejo a vocês todos, meus poucos mas fiéis leitores, uma noite de Natal profundamente significativa. Desejo, mais, que todos se sintam dispostos, ao menos nesses dias, ao exercício de estender o olhar à sua volta. Esse olhar estendido mostrará a vocês, seguramente, alguém precisando de muito pouco para ter um dia ou uma noite melhor. Esse olhar estendido fará com que você vivencie, ainda que seja apenas com os olhos, a experiência do outro, quem sabe capaz de transformar sua própria vida. Esse olhar estendido possivelmente dará a você a dimensão exata da fraternidade, se você tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir.

Que tenham todos uma noite de paz, com a família, com os amigos, com gente querida, que haja muita saúde, que haja muita esperança, que haja sobretudo muita coragem para os enfrentamentos diários que a vida exige.

Sejam vocês cristãos ou não, creiam ou não em Deus, tenham todos um Feliz Natal. Eu, brasileiríssimo no que diz respeito à escolha da religião (é tudo na cumbuca e sou feliz desse jeito!), desejo que a noite de hoje seja tranqüila, seja simples, seja renovadora, significando verdadeira comunhão de propósitos capazes de dignificar sua vida.”

Hoje mesmo, marcando a ceia de Natal com mamãe para a noite de 19 de dezembro (viajamos, eu e a Morena, no dia 20 para só voltarmos dia 28 à noite), ela me disse antes de desligar (e algo me diz que depois de um arranco em direção ao passado):

– Que nosso Natal dure o ano inteiro!

Eu, que há muitos anos não creio mais que somos todos filhos de Papai Noel, que não tenho mais sequer essa ilusão – a de ter um Natal durando o ano inteiro -, quero apenas poder viver e conviver com gente que se satisfaça, e que não se incomode, com a harmonia, e que não veja a destruição da imagem do Bom Velhinho como objetivo de vida, lato sensu. A vida, meus poucos mas fiéis leitores, já é farta demais em desilusões.

Até.

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PASSEIOS EM AEROPORTOS, MAIS UMA HERANÇA DE MEU PAI

Antes de começar a confissão de hoje, ligeiro arremesso em direção ao passado, quero dividir com vocês auspiciosa curiosidade: um dos textos mais lidos do Buteco do Edu é “Papai também é fóbico”, que pode ser lido aqui. E digo aupiciosa curiosidade porque tal fato, ver papai lido e relido Brasil afora (mundo afora, permitam-me a ousadia), me dá espantoso orgulho. Vou seguir em frente em busca de ser mais claro, até porque hoje quero lhes falar de aeroportos e, claro, de papai.

Desde pequeno (não saberia lhes precisar a idade) mantenho estranhíssima relação com aeroportos – e graças a meu velho pai. Explico: papai tinha uma fixação, bem me lembro. Vez por outra (também não saberia lhes precisar com que freqüência) papai armava um programa que hoje me soa tijucano da partida à chegada: íamos jantar no Galeão, no restaurante Demoseille, com nossas melhoras roupas. Recebíamos a ordem:

– Vamos jantar no Galeão!

Éramos três (acho que na verdade isso começou antes mesmo do nascimento do mais novo, em 1975) e fazíamos uma tremenda algazarra diante da notícia. Era, notem que não havia a Linha Vermelha, uma viagem. Papai subia a avenida Brasil com seu Fusca (depois com sua Brasília, depois com seu Passat…), atravessava a ponte belíssima com lampiões de luz amarelada que nos levava à Ilha do Governador e chegávamos excitadíssimos no Galeão, sempre com direito a uma passada no terraço que nos permitia ver as aeronaves decolando, aterrissando, taxiando ou mesmo paradas – era uma festa. Até que íamos para o Demoseille, do qual tenho (mais uma confissão) tristes lembranças. Na minha memória éramos quase sempre a única mesa ocupada no imenso salão. E sempre, rigorosamente sempre, enquanto bebia sua dose de uísque (não havia Lei Seca e papai bebia à larga), papai fazia a mesma cara de surpresa, tomava da caneta que carregava em sua capanga de couro, preta, escrevia algo num guardanapo de papel e o estendia ora pra mim, ora pro irmão do meio:

– Entreguem ao pianista!

Era meu pai, pedindo “Ebb tide”, e sempre “Ebb tide”, todas as vezes “Ebb tide”.

Há quem estranhe, ainda, minhas pequenas obsessões.

Mas o que eu queria lhes contar era outra coisa.

Recentemente fiz uma viagem com a Morena e fomos, evidentemente, ao aeroporto (para ir para nosso destino e para voltar, claro). Chegamos com – o quê?! – duas, duas horas e meia antes do horário do embarque. E lembrei-me, a caminho do Galeão (amo o Maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim mas o Galeão sempre será o Galeão) de um (mais um) hilariante episódio envolvendo papai.

Papai e mamãe foram a Paris, dia desses. Eu, bom filho que sou, ofereci-lhes carona para o aeroporto. Papai foi veemente:

– Não precisa, Eduardo! Já tratei um taxista! Tudo acertado, tudo nos conformes!

O vôo, marcado para às 18h.

Às 10h da manhã do dia do embarque, bom filho que sou, bati-lhes o telefone para desejar boa viagem.

Chamou, chamou, ninguém atendeu.

Disquei, então, para o celular.

Atendeu mamãe.

– Opa, minha mãe! Tudo bem?

A resposta foi seca:

– Arrã.

– Liguei pra desejar boa viagem, vocês não estão em casa?

Ainda mais seca:

– Não.

Fiz silêncio, bom filho que sou, ligeiramente constrangido com suas reações. Até que ela prosseguiu em tom irônico:

– Seu pai achou melhor chegar oito horas antes do embarque pra não haver qualquer problema. Estamos aqui no Demoseille, não sei se você lembra…

Ao fundo, “Ebb tide”.

Esse, meu pai.

Essa, minha confissão de hoje.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO EM DOSES HOMEOPÁTICAS – II

Ontem eu comecei a lhes contar sobre minha última consulta com meu médico homeopata (aqui) mas estendi-me demais e acabei por não chegar à consulta propriamente dita (que acabou não acontecendo, diga-se). Eu estava, então, na recepção do humilde consultório (que me faz lembrar uma pequena manjedoura) cercado de fantasmas (ou de espíritos, como preferiria meu médico, kardecista de quatro costados), quando me chamou, o bom Luiz.

O Luiz, sucessor do doutor Lauro na tarefa de cuidar da saúde dos Goldenberg, abriu-me efusivo os braços e disse-me, antes mesmo de eu me sentar:

– Sabe quem esteve aqui na semana passada?

– Quem?

– Seu pai! – e deu de gargalhar.

Explico a gargalhada: meu pai sofre de uma espécie de gripe crônica que de gripe não tem nada (é o que desconfio). Meu pai tem é saudade do doutor Lauro e uma vontade súbita, que se repete a cada 10, 15 dias, de ir até o Andaraí para uma consulta de rotina com o doutor Luiz, aplacando, assim, dessa forma, a saudade do santo homem que deixou saudade. Prosseguiu o Luiz:

– De novo com uma gripezinha! – riu ainda mais.

Eu, indisposto, esperando o momento de dar início ao relato de meus sintomas.

Ele parou de rir, concentrou-se, postou as duas mãos sobre a mesa (num gestual idêntico ao do pai) e disse:

– E na semana retrasada? Sabe quem consultou-se comigo?

– Meu pai de novo?!

– Não. Seu irmão! – e explodiu numa gargalhada acompanhada por socos de leve no tampo da mesa.

Eu, indisposto, seguia agônico aguardando o momento de começar minha palestra.

Ele tornou a se aprumar e perguntou, sério:

– Quantos anos, Eduardo?

Quando eu disse quarenta e cinco ele deu um salto:

– Já?! Então quando fui a sua casa pela primeira vez, você tinha dias de nascido, fui com papai para lhe fazer uma visita, eu ainda estava estudando! E ainda estava solteiro! – e deu de rir.

Quando ensaiei engatar na consulta, nova interrupção. Luiz aproximou seu rosto do meu, dobrou o corpo sobre a mesa, pôs sua mão direita sobre minha mão esquerda e disse com os olhos saltados para fora da órbita do globo:

– E sabe do que eu não me esqueço?

Tive medo e não disse nada.

– Da sua cerimônia de circuncisão. Lembro-me até hoje, Eduardo, do rabino arrancando seu prepúcio com a unha… – fechou os olhos, fez expressão de dor.

Pela – o quê?! – centésima vez eu ouvia esse abominável relato.

Ele prosseguiu:

– Lembro-me de tudo. Na primeira parte da cerimônia, feita no seu oitavo dia de vida, como manda a Torah, o riturch, você foi colocado numa almofada que estava sob o colo do seu pai. O rabino removeu sua roupinha, parece que dada de presente pela sua avó Elisa, e pediu que seu pai segurasse suas pernas. Então, Eduardo, ele segurou seu prepúcio entre o indicador e o polegar, lembro-me como se fosse hoje!, fiquei impressionadíssimo!, e com uma faca o arrancou! Depois começou a periá, a segunda parte da cerimônia. O rabino manteve a unha ali, na glande, sabe?

Eu já estava quase desmaiando, ele nunca fora tão detalhista. Seguiu:

– Com a unha, terminou de arrancá-lo. E finalmente começou a última parte da festa, a metzitzá, ou seja, a cicatrização feita com vinho sagrado para os judeus. Depois ele mesmo fez o curativo, pôs gaze, vestiu sua fralda e você ficou assim, como manda a tradição, por mais três dias. Nunca me esqueci disso. Nunca!

E riu de perder o fôlego.

Seguiu:

– Antes de falarmos sobre você… e a dona Mathilde, hein?! Que saudade…

Falava de minha avó, mãe de mamãe, que foi oló em dezembro de 2010 e que eu encontrara, minutos antes, na recepção.

– Pois é… saudade dela… – e ele me interrompeu.

– Uma grande mulher, a sua avó! Mãe dedicada, esposa e companheira, uma avó amorosa, uma amiga de todas as horas…

Comecei a chorar e não sentia mais nenhum mal-estar.

– Papai gostava muito de sua avó…

Manteve os olhos distantes, tornou a se aprumar e disse:

– E então? O que há contigo?

Continuei chorando. Estendi a mão a ele, tomei a direção da recepção, paguei a consulta, ganhei a rua, passei pela farmácia homeopática secular ao lado do consultório (todos os meus fantasmas estavam ali, debruçados sobre os pesados balcões de madeira) e fui a pé pra casa, onde cheguei completamente bom.

Cheio de uma saudade que não passa.

Até.

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