Arquivo do mês: setembro 2008

>AMANHÃ: RUA DO MATOSO – A SÉRIE!!!!!

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Amanhã estréia, finalmente, RUA DO MATOSO – A SÉRIE, em dez capítulos.

Enquanto isso, esquente as turbinas zona-norte lendo a primeira parte dos bastidores aqui, a segunda parte aqui, a terceira parte aqui, a quarta parte aqui e a quinta e última parte aqui.

Até amanhã!

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O STUDIUM, O PUNCTUM E O OVO COZIDO

Meu queridíssimo Bruno Ribeiro é tão exagerado e tão amigo dos amigos, que conseguiu elevar um tijucano humílimo, um fotógrafo mais-que-amador e rigorosamente despretensioso, à categoria de autor de pelo menos duas fotografias objetos de estudo. Vejam o que disse o malandro em seu BOTEQUIM DO BRUNO:

“Trata-se do balcão de uma esquina carioca. Chove canivete. E a chuva imóvel, ao fundo, parece emoldurar a cena, além de ser uma pintura. Se a chuva, originalmente, não tem esta cor alaranjada, deveria ter. À esquerda está o paulistano Fernando Szegeri; ao seu lado está o carioca Luiz Antonio Simas; e, na extrema direita, o jornalista Zé Sérgio Rocha (na segunda foto, suas mãos e o ovo). Sabemos que a máquina cristalizou um momento único, em que algo fundamental estava sendo discutido. Em verdade, cantado: o samba-enredo que Simas fez para o Salgueiro. Samba este que, se os orixás e os jurados assim quiserem, irá descer com a escola na Marquês de Sapucaí, no Carnaval do ano que vem. Eis o nosso studium.

Mas Barthes ficaria confuso, talvez, na hora de encontrar o punctum da foto. Pontos de fuga não faltam: pode ser tanto a barba amazônica do Szegeri quanto a careca do Simas. Eu diria que o grande ponto de fuga, no duro, é o ovo cozido na mão do Zé Sérgio. Em ambas as fotos. Os teóricos dirão que o Zé Sérgio, ou melhor, o ovo do Zé Sérgio, prejudica definitivamente o studium da imagem. “Se aquelas mãos, colocando uma pitada de sal naquele ovo, não aparecessem na segunda foto (ouço daqui os semiólogos dizerem), esta seria uma grande foto”. Eu digo, porém, que é justamente o ovo cozido nas mãos do Zé Sérgio Rocha que faz desta uma grande foto. O ovo dá o toque tijucano à obra-prima de Eduardo Goldenberg – é detalhe invasivo, tosco, alheio à emoção que a lente da máquina captura. O ovo acaba com qualquer tentativa de afrescalhar a análise sobre um simples bate-papo de buteco. O ovo, pois, é essencial para a compreensão não apenas da cena, mas da alma peculiar da Tijuca. Punctum, diria o Zé Sérgio, é o que se faz depois de comer o ovo…”

Leiam, na íntegra, aqui.

Até.

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>SIMAS E MUSSA ENTRE OS CINCO!!!!!

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O BUTECO, que já publicou ESSE É MEU SAMBA (aqui), AINDA O SAMBA DO SIMAS E DO MUSSA (aqui), AINDA O SAMBA DO SIMAS E DO MUSSA – II (aqui) e FESTA NA ALDEIA (aqui)- continua em festa.

O samba – de longe, o meu preferido – luta, no dia 04 de outubro, sábado que vem, ao lado de mais quatro concorrentes, pelo direito de disputar a finalíssima do dia 11.

Axé, queridos!

Até.

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A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – X

Não é demais repetir! A série A Tijuca em estado bruto nasceu e ganhou corpo por absoluto acaso, sem que nada, rigorosamente nada, tenha sido planejado. Eu, que sou modesto como um frade franciscano, recomendo a leitura de toda a série! Leiam aqui o primeiro da série, texto no qual conto o que vi e vivi numa pizzaria tijucana, O Forno Rio, numa noite de domingo (domingo é o dia mais tijucano da semana!); aqui o segundo, que traz o relato de um jantar no melhor restaurante de comida italiana do país, tijucano, é claro, o Fiorino; aqui o terceiro, pequena descrição do encontro de minha mãe com uma amiga de há séculos de vovó; aqui o quarto, narrativa saudosa fruto de um encontro meu com meu concunhado, no Salete, na Tijuca, evidentemente; aqui o quinto, no qual faço uma comparação entre a mãe judia e a mãe tijucana; aqui o sexto, sobre o simpaticíssimo assalto que sofreu vovó, há umas semanas; aqui o sétimo, sobre os vícios de minha avó; aqui o oitavo, sobre o jantar que ofereci à Lina, minha querida cunhada, no já citado melhor restaurante italiano do Brasil e aqui o nono, dando início aos relatos envolvendo o médico homeopata de minha família.

Hoje quero lhes contar mais sobre nosso médico homeopata, o doutor Lauro. O doutor Lauro, a quem a família inteira, vivos e mortos, atribui o milagre da cura de minha mãe – que teve tifo aos três anos de idade -, jamais admitiu amortecer, sobre seus próprios ombros, o peso que minha parentalha, na íntegra, tinha (e tem) como incontestável. Basta alguém soprar, baixinho que seja, o nome do doutor Lauro e começam os murmúrios com as mãos espalmadas para o alto – “Um santo homem!”, “Um sábio!”, “Um verdadeiro espírita!”, “Salvou a Mariazinha!”, “Trata da Maricota desde os três anos!”, essas bossas médico-patrióticas.

Curioso é que meu pai, meu amado pai, que evidentemente não conhecia mamãe quando ela teve o tifo, nutriu, ao longo da vida (ainda nutre, o doutor Lauro é que não clinica mais), desde que o conheceu e à sua história, verdadeira adoração, febril idolatria, preocupante fixação no médico homeopata de hábitos simples.

Se você, meu caro leitor, esbarrar no meu velho pai por aí (papai anda pela Tijuca diariamente), diga que lê o Buteco, abra um sorriso franco em direção a ele, pouse uma das mãos em seu ombro e pergunte:

– E o doutor Lauro, Isaac?

E você ouvirá:

– Tá fazendo uma tremenda falta…

Papai é desses homens que anda com frases prontas no bolso. Experimente:

– Issac?! E a Noêmia?

– Uma lutadora! Eu gosto da Noêmia! – e abrirá um sorrisão.

Pausa para lhes contar uma recentíssima de papai (como vocês sabem, escrevo em ritmo febril, quase-mediunicamente, então vocês têm de me perdoar, vez por outra, esses arroubos, essas idas-e-vindas, essas mudanças bruscas de assunto). Estávamos, no domingo passado, reunidos em torno desse portento que é Fernando José Szegeri, na casa de papai e mamãe, no Alto da Boa Vista. Mamãe preparou, para homenageá-lo, um cozido, a geladeira estava cheia de cerveja, de vinho verde (do branco e do tinto), o uísque jorrando das torneiras da sala, até que papai pediu silêncio com o copo estendido. Iria fazer um discurso (e esse pequeno discurso, apenas ele, justificaria estar, o texto de hoje, na série A Tijuca em estado bruto):

– Quero propor um brinde, primeiramente, à minha mulher! Um brinde a você, Dani, minha nora amada, eu amo você! Também amo você, Lina! Obrigado por tudo!

Papai tropeçava nas sílabas, uma garrafa de Red Label já tinha ido embora. Ele continuou, soluçando de leve:

– Um brinde, meus filhos… Dudu… Nando… e Szegeri, meu filho que veio de São Paulo…

O Szegeri começou a chorar. Papai prosseguiu:

– Um brinde, Cacá! Meu irmão! Meu irmão! E um brinde, por fim, a você, Verinha, minha querida… Um beijo!

Ele ia se sentar quando eu o interpelei:

– Pai? E a vovó?!

Vovó estava cabisbaixa, ao meu lado, e chegou a dizer baixinho:

– Deixa pra lá, Dudu, deixa pra lá…

E meu pai, espetando o copo em direção à sogra:

– Sua vó está quase todo dia aqui, pô! – e estatelou-se, às gargalhadas, no sofá.

Vamos voltar às reações de papai com relação ao doutor Lauro.

Assim que papai conheceu mamãe (leiam Papai arremessado ao passado para entenderem um bocadinho a história dos dois, aqui), num dos primeiros lanches de domingo na casa de meus avós – papai e mamãe eram vigiadíssimos! -, vovó passava manteiga num brioche para meu avô quando lembrou, num estalo:

– Ih, meu Deus do céu! Está na hora do meu remédio!

Deixou o brioche esperando, abriu a gaveta da cômoda ao lado da mesa, tirou o vidrinho de Bryonia, encestou duas bolinhas na tampa de rosca do vidro escuro e pôs as duas, num arremesso, na boca. Disse pra si mesma, fechando o vidro:

– Hora em hora, Mathilde, não esquece!

Papai, querendo puxar assunto com a futura sogra, fincando uma fatia de mortadela com o garfo:

– Homeopatia?

Vovó, com o rosto iluminado e pondo uma das mãos sobre a mão direita de minha mãe:

– Sim, meu filho. Tratamos com a homeopatia, graças ao doutor Lauro, que salvou a vida da Mariazinha quando ela tinha três anos e teve o tifo…

E contou, durante todo o lanche, a história que eu também já lhes contei aqui.

Papai, que sempre foi um emotivo contido, chorou diante do relato emocionado de minha avó. Meu avô, homem de poucas palavras, concordou durante todo o tempo, assentindo com a cabeça, dando ares de verdade incontestável a cada palavra que vovó dizia. E mamãe, por sua vez, não escondia a satisfação diante da sensibilidade do namorado. Papai quebrou o silêncio:

– Tem que tirar o chapéu pro doutor Lauro…

– Se tem! – disse vovó.

Mamãe sorriu e meu avô reclamou seu brioche.

Foi nesse dia, então, que papai ouviu, pela primeira vez, o nome do doutor Lauro.

Julho chegou e com ele papai pegou uma gripe. Foi ao lanche dominical na casa de meus avós. Vovó abriu a porta – era sempre minha avó a abrir a porta de casa para meu pai – e deu de cara com o nariz vermelho de meu pai (papai tem um senhor nariz). Foi dar os dois beijinhos no namorado da filha única e ele, gentil:

– Não, dona Mathilde! Estou com uma gripe daquelas! E uma febrícula desde cedo…

Mamãe levantou-se preocupada (ainda sofria as conseqüências do trauma do tifo). Vovó disse:

– Você está medicado, Isaac?

Ele fez que não com a cabeça enquanto assoava o nariz com seu lenço azul e branco.

Vovó em direção à mamãe:

– Mariazinha! Vá lá dentro buscar papel e caneta!

Mamãe voltou à sala e minha avó, depois de escrever no tal papelucho, estendeu-o a meu pai:

– O telefone do doutor Lauro! Marque uma consulta para amanhã, meu filho!

Papai:

– Doutor Lauro…

E olhando ternamente para mamãe:

– … o homem que salvou sua vida!

E vovó, já caminhando pelas sendas do espiritismo:

– Graças a Deus!

Ficaram os três de conversa na sala – meu avô ouvia o noticiário no rádio num canto, sem tirar os olhos do casal de pombinhos – até que minha avó, depois do quinto espirro de meu pai, disse:

– Vou ligar pra casa do doutor Lauro! Você está muito mal, meu filho!

Papai:

– Mas hoje é domingo, dona Mathilde, não há urgência, amanhã eu mesm…

Vovó já estava pendurada no gancho:

– Doutor Lauro? Oh, doutor Lauro, que Deus o abençoe… Me perdoe estar ligando num domingo… – e ficou espetando o polegar em direção ao teto anunciando o êxito da ligação.

Papai espirrou.

– Oh, doutor Lauro… O senhor ouviu? É o Isaac, doutor Lauro, namoradinho da Mariazinha, sabe? Está com uma gripe daquelas!

Fez cara de suspense:

– Sei, sei, sei. Tenho sim, doutor Lauro! – fez sinal com a mão pedindo papel e lápis mais uma vez.

Papai levou o mesmo papelucho, e o lápis:

– Aconitum… sei… Bryonia e Belladona! – o polegar espetadíssimo, quase eufórica.

Pôs a mão no bocal do fone e disse:

– Mariazinha, minha filha, pegue lá, na cesta dos medicamentos! Tome! Tome! – e lhe estendeu o papelucho.

Continuou:

– Oh, doutor Lauro, muito obrigada! Que Deus abençoe o senhor! Amanhã, então, o Isaac irá vê-lo!

E sendo moderna, disse sorrindo em direção a meu pai:

– O.K., doutor Lauro? Um abraço, doutor Mauro, lembranças à família, o Milton e a Mariazinha estão mandando um abraço para o senhor!

E desligou.

Mamãe chegou de volta com os medicamentos. Vovó, zelosa, explicou a meu pai, calma e pausadamente, como ele teria de tomar os remédios. E disse, colocando-os em fila na mesinha de centro:

– Comece agora, meu filho! Comece agora!

Lancharam, papai parou de espirrar – “E ainda dizem que a homeopatia é lenta!”, disse vovó, quase-fanática -, e quando foi haver a despedida, falou, maternal:

– Leve os remédios, meu filho. Continue tomando, agora de meia em meia-hora. Amanhã, quando você sair do doutor Lauro, passe por aqui, devolve esses remédios e aproveita para nos dar notícia acerca de seu quadro!

Mamãe achava aquele cuidado da própria mãe com seu namorado, uma benção. E seus olhos deixavam isso muito claro.

Papai despediu-se com um aceno de meu avô – que nada disse -, despediu-se de mamãe (não podiam ir, sozinhos, ao portão da rua), e quando ia estender a mão em direção à vovó, ela lhe disse:

– Espia! Espera um minutinho!

Sumiu pelo corredor e voltou, ligeira:

– Meu filho, vá com Deus e que Jesus te acompanhe até em casa. E… – pigarreou – … tome. Espero que você goste. Não há pressa. Depois você devolve.

E estendeu, sorrindo, um exemplar do Livro dos Espíritos, o mesmo que ganhara, anos antes, do doutor Lauro.

Papai o pôs debaixo do braço. Vovó:

– Alguma coisa contra, meu filho?

– Muito pelo contrário, dona Mathilde, muito pelo contrário…

Tomou a direção do portão, deu o último adeus da noite, e vovó, suspirando e fechando a porta:

– Um bom rapaz, o Isaac… Graças a Deus, minha filha, graças a Deus!

Até.

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>PREÇO DE BUTECO

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A porção de salaminho que vocês vêem quase devastada na fotografia abaixo, caprichadíssima e de qualidade, custa R$ 8,00 (oito reais) na QUITANDA ABRONHENSE, cortado na hora pelo seu José.

porção de salaminho, QUITANDA ABRONHENSE, na Tijuca

No bistrô que o ex-dono do RIO-BRASÍLIA abriu na Almirante Gavião – como eu já havia lhes contado aqui e aqui – custa R$ 25,90 (vinte e cinco reais e noventa centavos).

Por essa e por outras, não ponho meus pés lá.

Até.

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>CASA DE FERREIRO, ESPETO DE PAU

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Reparem no cartaz – imundo – à direita da foto (cliquem sobre a fotografia e vocês poderão vê-la em tamanho maior). ORGANIZE-SE, são as lições contidas no papel que mal se lê, de tanta sujeira. E atentem para a lição de número 5: SE SUJOU, LIMPE. E isso, meus poucos mas fiéis leitores, num dos bares mais sujos em que já pisei em quase 40 anos de vida. Ou o mais sujo, quero ser franco.

ESCONDIDINHO DA MATOSO, 27 de setembro de 2008, Felipe Quintans (o Felipinho Cereal) ao fundo

Casa de ferreiro, espeto de pau – literalmente.

Até.

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BEBENDO COM O BERINJELA

Vocês hão de se recordar… No começo de setembro esteve no Rio o meu queridíssimo Favela. Escrevi FAVELA NO RIO, DE NOVO e publiquei umas fotos do malandro (em preto e branco), bebendo com dois caboclos num final de noite no COLUMBINHA (vejam aqui).

Pois no final da noite de sábado, 27 de setembro, já madrugada de domingo, pediu-me o mano Szegeri (de passagem pelo Rio de Janeiro), depois de um dia de fortíssimas emoções (vejam aqui):

– Eu quero ir beber no Columbinha com aquele negro velho que eu conheci pelas fotos e que bebeu com o Favela, será que ele tá lá?

Saímos do BAR DO CHICO, atravessamos a Afonso Pena, bebemos uma no BAR PINK e tomamos o rumo do COLUMBINHA. E não é que estava lá o Berinjela?

Fernando Szegeri e Berinjela, COLUMBINHA, Tijuca, 28 de setembro de 2008, 0h34min
Fernando Szegeri e Berinjela, COLUMBINHA, Tijuca, 28 de setembro de 2008, 0h35min
Fernando Szegeri e Berinjela, COLUMBINHA, Tijuca, 28 de setembro de 2008, 0h35min

Até.

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MESA FORTE

Um sábado com direito a fortes emoções e fortíssima chuva adiando o fim da noite.

Marcelo Vidal, Fernando Szegeri, Isaac Goldenberg, Felipe Quintans (o Felipinho Cereal) e Luiz Antonio Simas, QUITANDA ABRONHENSE, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 15h29min
Fernando Szegeri, Fernando Goldenberg e Isaac Goldenberg, QUITANDA ABRONHENSE, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 15h43min
Fernando Szegeri e Felipe Quintans (o Felipinho Cereal), ESCONDIDINHO DA MATOSO, Tijuca, 27 de setembro de 2008, 17h03min
Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas e José Sergio Rocha, BAR DO CHICO, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 20h36min
Fernando Szegeri e Luiz Antonio Simas, BAR DO CHICO, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 20h36min

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A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – IX

A família tijucana tem, com seu médico (que é, imprescindivelmente é, o médico da família), uma relação visceral, de dependência emocional até – eu diria. A minha, é claro, tijucana que é de forma aguda, tem o seu. E tem o seu, quero lhes dizer, desde os anos 40.

Estive em seu consultório esta semana. Eu disse em seu consultório, mas fui atendido por seu filho (também já o fui por seu neto!!!!!). O doutor Lauro é, até hoje (está vivo, vivíssimo, mas não clinica mais), uma espécie de mito da família. Seu consultório, portanto, que fica – creio ser desnecessário dizer – na Tijuca, é uma espécie de Meca para a qual se voltam, meus parentes todos, a cada febrinha, a cada tosse, a cada problema qualquer de saúde. Seu filho e seu neto atendem, evidentemente, no mesmíssimo consultório, que é humilde e simples como a morada de um franciscano. Vou lhes contar a origem do mito.

consultório médico, foto de Eduardo Goldenberg

Meus irmãos, o Fefê e o Cristiano, são testemunhas oculares e auditivas do que vou dizer. A história, que passo a lhes contar, nós já ouvimos milhares de vezes. E não, meus poucos mas fiéis leitores, eu não estou exagerando, como pretendem, sempre, os que têm mania de me denegrir, fazer parecer. Vovó Mathilde e mamãe – principalmente as duas, embora papai seja um dos mais fanáticos pelo doutor Lauro – repetem sempre essa história, com os olhos espetados pra fora, com as mãos em atrito como se o suspense fosse inédito, com a respiração ofegante, com a voz alterada, com o pranto semi-pronto esperando a comoção do ouvinte.

Antes, porém, um detalhe.

Quando, durante um almoço de família qualquer, alguém, por acaso (não há acaso, na verdade, o nome dele é SEMPRE lembrado) cita seu nome, vozes em côro repetem:

– Trata da Mariazinha desde que ela tinha três anos!

Pois bem: mamãe tinha três anos e ardia em febre na casa da Gonçalves Crespo. Vovó e vovô, minha bisavó e meu bisavô, a parentalha toda (moravam todos na mesma casa!), revezava-se na novena que ardia na sala (vovó não era, ainda, a espírita convicta que é hoje), passando os terços de mão em mão, na esperança de uma solução.

Havia um desfile de automóveis na porta de casa, dos quais saltavam médicos portando maletas, estetoscópios e termômetros – doutor Oscar, doutor Borborema (cujo nome revi, anos depois, num romance do Nelson Rodrigues), doutor Benevenuto, doutor Jacinto, e muitos mais.

Os diagnósticos eram díspares, os remédios não surtiam efeito, os dias se passavam com mamãe ardendo como um círio num catedral em ruínas (apud Vinícius de Moraes), até que minha tia Linda, irmã de vovó, que – católica apostólica romana de fazer o Santo Papa parecer um ateu relapso -, em transe mediúnico (ninguém desconfiava, naquela casa, àquela época, o que fosse isso), disse:

– Chamem um homeopata!

Houve uma vaia coletiva em acintoso desrespeito com o ambiente tenso que assaltava aquele lar em aflição. Meu bisavô, que era a palavra mais ouvida naquela casa, disse:

– E por quê não?

Todos concordaram, em segundos, e foi um corre-corre em busca do nome de um homeopata.

Foi tia Linda, ainda debruçada sobre a mesa da sala, com a voz embargada, que disse para surpresa de todos:

– Chamem o doutor Lauro.

E disse o número de um telefone.

– Linda enlouqueceu! – gritou tio Hique.

– Lelé, coitada! – emendou tio Sílvio.

– Estou muito mal parado… – lamentou tio Beneval, seu marido.

E meu bisavô:

– Chamem!

A questão é a seguinte: os diagnósticos eram – como eu lhes disse – díspares. Falou-se em sarampo, em coqueluche, em rubéola, em escarlatina, até em caxumba, diagnóstico dado por um médico ligeiramente alcoolizado chamado às pressas.

Meu bisavô foi ao telefone e, cercado pelos filhos (do mais velho para o mais novo, Francisco, Sílvio, Carlinda – já refeita do transe -, Mathilde e Carlos Henrique), bateu o telefone pro tal médico.

Em nome da precisão, devo lhes dizer que não estão na lista acima a Silvinha (morta com cinco dias de vida), a Mariazinha (morta aos 15 anos, de quem mamãe herdou o nome e o pânico por festas de debutante, um dia desses lhes conto sobre isso) e o Pedrinho, que chegou depois.

Eis o que a parentalha pôde ouvir:

– Boa noite, doutor Lauro. Precisamos urgente que o senhor nos faça uma visita domiciliar! Mariazinha, minha neta, está mais pra lá do que pra cá!

Houve uma balbúrdia à qual ele pôs termo com uma pisada vigorosa nas tábuas do piso.

– Não, doutor Lauro. Não sabemos. Há vários diagnósticos. Mas a menina não melhora. E a febre está na casa dos quarenta e um graus!

Novo princípio de tumulto e um grito ao telefone:

– Como graças a Deus, doutor Lauro?!

Vovó teve um princípio de desmaio, meu avô anunciou que mataria o tal médico à bala, e meu bisavô continuou:

– Tome nota! Tome nota!

E passou o endereço ao doutor Lauro.

– O quê te pareceu, Eugênio? – minha bisavó com o terço nas mãos.

– Diga, papai! Passou-lhe confiança?

Ele deu de ombros e sentou-se – todos se sentaram – à espera do doutor Lauro.

Uma hora depois, soa a campainha.

Meu bisavô faz um sinal e anuncia que vai sozinho ao portão. Dá de cara com um rapaz novo, bonito, até – vovó sempre elogia a beleza plástica daquele médico em sua primeira aparição – , formalmente vestido, uma pequena maleta numa das mãos e um sorriso sacrossanto no rosto plácido. Cumprimentaram-se e doutor Lauro foi levado à sala:

– Doutor Lauro? Esta é minha filha, Mathilde, e esse é meu genro, Milton, os pais da Mariazinha. Eles irão acompanhá-lo à câmara mortu…

Minha bisavó soltou um “oh” agudíssimo e meu bisavô, depois de um poderoso pigarro, consertou-se:

– … ao quarto, doutor Lauro. Boa sorte.

A família sempre usa essa imagem: nem na Copa de 50, depois do fiasco da Seleção Brasileira diante do Uruguai, viu-se tamanho silêncio, tamanha depressão, tamanha ansiedade pelo que viria. Os minutos se passavam e apenas a tosse de minha mãe interrompia o silêncio.

Uma hora depois saem do quarto meus avós e o doutor Lauro.

– E aí, doutor?! – um sôfrego Eugênio, de pé, perguntou – Como está minha neta?

– Graças a Deus está bem, senhor Eugênio. O que a Mariazinha tem é tifo.

Foi um deus-nos-acuda.

Médicos experientes haviam passado por ali, catedráticos, donos de laboratório, e ninguém dissera a palavra “tifo”.

– Tifo? – o côro de vozes.

– Ela vai ficar boa, senhor Eugênio!

– Já estou com os nomes dos remédios, papai! – disse vovó, esperançosa.

– Vamos? – disse meu avô.

Doutor Lauro se comprometera a ir até a casa do farmacêutico e de lá até à farmácia (tudo na Tijuca!!!!!) para o preparo dos medicamentos. Passava das dez da noite.

À meia-noite em ponto entra em casa meu avô trazendo os remédios homeopáticos, doutor Lauro a seu lado, e ele explica, com tranqüilidade comovente, à toda a família, o modus operandi do tratamento homeopático.

Vovó o acompanha até o portão:

– E quanto lhe devemos, doutor Lauro? Oh, estou tão grata…

– Nada, dona Mathilde. Fiquem com Deus… – e estendeu para minha avó, tirando-o da pasta, um exemplar do Livro dos Espíritos.

A família passou a noite se revezando na administração das duas bolinhas, alternadas, de quinze em quinze minutos, e já pela manhã minha mãe, suando em bicas, não tem mais febre.

Em questão de dias, depois de desenganada, mamãe estava boa, sarada, serelepíssima.

E vovó, para sempre, fanática pela devoção, pela dedicação, pela competência e pela grandeza do doutor Lauro.

Começou assim, meus poucos mas fiéis leitores, a história que une minha família a esse grande médico (fiz brevíssima e discretíssima menção a ele, aqui).

Há mais, muito mais para lhes contar sobre o assunto. Aguardem.

Até.

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>27 DE SETEMBRO

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Hoje, 27 de setembro, quero relembrar o dia 09 de dezembro de 2006.

Salve a criançada!

Leiam aqui.

Até.

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