Arquivo do mês: outubro 2012

JORNAL NACIONAL, UM DESSERVIÇO AO BRASIL

Não assisti, em defesa de minha saúde, o Jornal Nacional da noite de ontem, apresentado por esse sujeito que envergonha a profissão do jornalista, o apresentador do telejornal da TV Globo, William Bonner (o mesmo que, noutra ocasião, numa cena patética, forçou o choro ao anunciar a morte de seu patrão, Roberto Marinho, um dos homens que mais mal fez ao Brasil). Acompanhei, entretanto, pelo twitter, a reação dos meus diante do que foi considerado uma das maiores manipulações desta TV Globo, tão afeita a este método desde que foi fundada de forma já bastante elucidada, criada para ser instrumento de dominação midiática, de alienação, de desinformação, de desserviço.

Assisti, sim, aos minutos finais (curioso diante de tantas manifestações de revolta no microblog). Supostamente noticiando o final da primeira etapa do julgamento da Ação Penal que vem sendo chamada de “julgamento do mensalão”, valeu-se a Rede Globo de música de suspense ao fundo, congelamento de imagens pré-selecionadas, transcrição de frases supostamente impactantes proferidas pelos Ministros do STF (foi curioso perceber que nenhum dos Ministros que absolveram grande parte dos réus teve sequer ao menos uma fala reproduzida!), tudo anunciado por um casal de apresentadores que forjama expressões de revolta e de indignação. Um nojo!

Não fossem transmitidos pela TV os julgamentos do STF (e eu sou rigorosamente contra a transmissão, sempre fui!) e o resultado desse julgamento a que me refiro teria sido outro. A espetacularização de uma sessão solene de julgamento por membros da mais alta Corte do Poder Judiciário é, em tudo, contrária à formalidade, serenidade e discrição que a atuação de um julgador exige.

Não é sobre o julgamento, seu resultado, suas conseqüências que quero falar. Quero falar sobre a podridão da Rede Globo, cogumelo de poder que Leonel de Moura Brizola, em 1989, durante a campanha para a Presidência da República, prometia “implodir com apenas uma canetada”. E faria isso, sem dúvida, o corajoso Brizola, o único homem temido pela Rede Globo.

Reproduzo, abaixo, na íntegra, o texto do direito de resposta (caso único na história da televisão brasileira!) que Leonel Brizola obteve após anos de intensa batalha jurídica nos tribunais, lido pela voz de Cid Moreira (o William Bonner da época). Recomendo que vocês releiam, adaptem para os dias de hoje as frases em negrito, a fim de que emerja novamente a autoridade do homem público que mais falta faz ao Brasil.

“Em cumprimento à sentença do juiz de Direito da 18ª Vara Criminal da Cidade do Rio de Janeiro, em ação de direito de resposta movida contra a TV Globo, passamos a transmitir a nota de resposta do sr. Leonel de Moura Brizola.

Todos sabem que eu, Leonel Brizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça. Aqui citam o meu nome para ser intrigado, desmerecido e achincalhado, perante o povo brasileiro. Quinta-feira, neste mesmo Jornal Nacional, a pretexto de citar editorial de ‘O Globo’, fui acusado na minha honra e, pior, apontado como alguém de mente senil. Ora, tenho 70 anos, 16 a menos que meu difamador, Roberto Marinho, que tem 86 anos. Se é esse o conceito que tem sobre os homens de cabelos brancos, que os use para si. Não reconheço à Globo autoridade em matéria de liberdade de imprensa, e basta para isso olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura de 20 anos, que dominou o nosso país.

Todos sabem que critico há muito tempo a TV Globo, seu poder imperial e suas manipulações. Mas a ira da Globo, que se manifestou na quinta-feira, não tem nenhuma relação com posições éticas ou de princípios. É apenas o temor de perder o negócio bilionário, que para ela representa a transmissão do Carnaval. Dinheiro, acima de tudo.

Em 83, quando construí a passarela, a Globo sabotou, boicotou, não quis transmitir e tentou inviabilizar de todas as formas o ponto alto do Carnaval carioca.

Também aí não tem autoridade moral para questionar-me. E mais, reagi contra a Globo em defesa do Estado do Rio de Janeiro que por duas vezes, contra a vontade da Globo, elegeu-me como seu representante maior.

E isso é que não perdoarão nunca. Até mesmo a pesquisa mostrada na quinta-feira revela como tudo na Globo é tendencioso e manipulado. Ninguém questiona o direito da Globo mostrar os problemas da cidade. Seria antes um dever para qualquer órgão de imprensa, dever que a Globo jamais cumpriu quando se encontravam no Palácio Guanabara governantes de sua predileção.

Quando ela diz que denuncia os maus administradores deveria dizer, sim, que ataca e tenta desmoralizar os homens públicos que não se vergam diante do seu poder.

Se eu tivesse as pretensões eleitoreiras, de que tentam me acusar, não estaria aqui lutando contra um gigante como a Rede Globo.

Faço-o porque não cheguei aos 70 anos de idade para ser um acomodado. Quando me insulta por nossas relações de cooperação administrativa com o Governo Federal, a Globo remorde-se de inveja e rancor e só vê nisso bajulação e servilismo. É compreensível: quem sempre viveu de concessões e favores do Poder Público não é capaz de ver nos outros senão os vícios que carrega em si mesmo.

Que o povo brasileiro faça o seu julgamento e na sua consciência lúcida e honrada separe os que são dignos e coerentes daqueles que sempre foram servis, gananciosos e interesseiros.

Assina Leonel Brizola.”

Diante da iminência de ver fracassado o plano podre, com ares de golpe, que envolveu visivelmente os jornalões, a TV Globo, o STF (é triste e revoltante ver o Ministro Joaquim Barbosa, na sessão de hoje, pedindo pressa [pressa!!!!!] a seus pares no momento dos votos visando a dosimetria das penas dos condenados, querendo atender ao roteiro estabelecido para que tudo esteja terminado antes das eleições de domingo…), restou à Rede Globo o papel podre da noite de ontem (e teremos mais hoje, teremos mais na sexta, no sábado…). Teme, indubitavelmente, perder o negócio bilionário que mantêm com o tucanato no Estado de São Paulo que se vê prestes a eleger, como Prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, do PT.

E também porque não tolera, a elite podre brasileira, a mudança efetiva – e para sempre! – que Lula e o PT trouxeram para o povo brasileiro, que há de ser lúcido e honrado, no domingo, elegendo seus representantes nas cidades em que haverá segundo turno.

Ontem, mais que nunca, gritei em pensamento: RESSUSCITA, BRIZOLA!

Se você ainda não viu o vídeo com o direito de resposta acima transcrito, assista-o aqui.

Até.

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BRASIL, JUNHO DE 2002 – SENTANDO O CACETE

Durante os anos 90/2000, mantive ao lado de Aldir Blanc, Fauto Wolff, Fernando Toledo, Mariana Blanc, Mauro Rebelo e Mello Menezes – com esporádicas contrtibuições de mais gente – a Sentando o Cacete, revista eletrônica que chegou a ter mais de 1.500 assinantes das edições que colocávamos no ar. Grande parte do material então publicado perdeu-se, só que dia desses, durante exercício arqueológico em casa, encontrei um DVD que continha muitos textos, muitos desenhos (inéditos de Mello Menezes, que ilustrava a coluna do Aldir), e pretendo, aos poucos, publicá-los aqui.

Hoje, por conta de um papo eletrônico que mantive com o Zeh Gustavo e com a Áurea Alves sobre nosso Totô – o saudoso Fernando Toledo, vítima de um estúpido acidente que o levou antes da hora – inauguro a série Sentando o Cacete. Este texto, intitulado Brasil, junho de 2002, foi publicado, claro, em junho de 2002, na edição XXI da revista.

Com vocês, a lucidez, o humor e a inteligência de Fernando Toledo:

“Antes de mais nada, gostaria de dizer que não vou torcer contra: apesar de todos os pesares, creio verdadeiramente que o povo brasileiro merece ter uma alegriazinha de vez em quando, e nada mais significativo nesta questão que um campeonato mundial de futebol. Afinal, cento e cacetada milhões de pessoas têm todo o direito de pelo menos se sentirem unidos periodicamente, de poderem soltar, em uníssono, o grito de “gooooool” ou, na hipótese mais enlouquecida, de “é penta!”. Nada contra, como brasileiro que também sou: com certeza vou acabar gritando junto, vibrando junto e consequentemente comemorando junto. Apesar de que, hoje pela manhã, assistindo ao jogo contra a Turquia em meu quarto – não sei se por causa do meu costumeiro sono matinal – só consegui me aborrecer com os foguetes. Mas tudo bem: se – milagrosamente – a coisa engrenar, sei que minha brasilidade atávica há de acabar se manifestando.

Paralelamente, não vou me influenciar também com a velha história da Copa ser em ano de eleições presidenciais e dos nossos espertos governantes se aproveitarem de um remotamente possível campeonato a fim de eleger seus candidatos: anos de experiência me ensinaram que a corja que mantém o Poder neste País possui métodos muito mais eficazes e sutis de conquistar a simpatia de um povo que já perdeu sua dignidade, seu senso de cidadania e, em muitos casos, a própria consciência de sua humanidade (que deveria ser intrínseca). Vide os artifícios utilizados para derrubar a esquerda em 89, esquemas que envolveram até mesmo o sequestro de Abílio Diniz por um bando de porras-loucas anacrônicos e sua libertação, transmitida com ares de espetáculo para todo o Brasil – principalmente as imagens da malta de policiais exibindo acintosamente, como se fossem troféus, camisetas do PT “encontradas” no local do cativeiro. Não, uma vitória em uma Copa do Mundo não é um mecanismo absolutamente necessário para estrategistas deste calibre. Mesmo porque uma vitória mundial não depende, exclusivamente, do desejo de uma nata de canalhas. A maioria dos países do mundo (principalmente alguns da envergadura de uma Itália ou uma França) não se dignaria a colaborar com uma jogada semelhante.

Meu grande receio é quase que da ordem do subconsciente coletivo brasileiro: Luís Felipe Scolari (meu computador quase que se recusou a exibir este nome) é o tipo de figura pública capaz de exercer uma influência muito perniciosa na cabeça do povo brasileiro: mandão, com ares de militar, detentor de um tosco e hipócrita moralismo e de uma mente tacanha. Que já declarou ser admirador de um homem (?) como Pinochet, com o qual possui (mantendo as devidas proporções) algumas semelhanças metodológicas. A vitória de uma Copa do Mundo, metáfora do pote de ouro no fim do arco-íris para o brasileiro; a glória nacional máxima; o auge da realização da coletividade e de cada brasileiro individualmente, ser conquistada por um indivíduo como o citado, traz o risco de se estender este arquétipo a qualquer solucionador de problemas nacionais. É bastante claro: se o cara conseguiu pegar uma seleção desacreditada, que vinha de uma sucessão de técnicos que, usando dos mais diversos métodos, nada conseguiram, e elevá-la a melhor seleção do mundo atual, e – não se esqueçam deste pequeno detalhe – primeira pentacampeã da História, não seria este o tipo de perfil ideal para a resolução de quaisquer problemas insolúveis? Se contrariar a vontade das massas e montar uma equipe ditatorialmente, obedecendo apenas a critérios próprios, sem dar a mínima para a opinião do restante da população, dispensando mesmo uma quase-unanimidade como Romário, se afigurar como genial? Como obtentor de resultado concreto? Ora, resultado concreto é o que todos os brasileiros esperam, hoje, de seus próximos governantes…

Meu medo não é o governo atual se aproveitar de um campeonato mundial, como já disse. Meu medo é esta vitória plantar na mente do povo brasileiro o gérmen de algo que não precisamos mais, que já experimentamos a contra-gosto uma vez (durante trinta anos!), que recentemente reapareceu na Venezuela e que, apesar de todas a minhas reservas em relação a meu candidato deste ano, Luís Inácio da Silva, não gostaria mesmo de ver repetido por aqui. Tenho medo da curta memória do brasileiro, de seu desespero, de sua necessidade de “soluções” milagrosas a prazos milagrosos, custe o que estas soluções possam custar.

Assim sendo, continuemos assistindo, sim, aos jogos, mas tendo sempre em mente que, se ganharmos este campeonato, não foi devido à truculência, ao autoritarismo, ao estilo, enfim, de Felipão e de seus ídolos. Tenhamos consciência de que, se chegarmos à final e conquistarmos o pentacampeonato, terá sido devido à sorte, à inépcia de nossos adversários, ou, simplesmente do talento individual de cada um de nossos jogadores, característica esta que torna o ser humano uma criatura realmente digna deste nome e que nem todas as mordaças do mundo conseguirão sufocar.”

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CARTA DA FILHA DE JOSÉ GENOÍNO

Por Miruna Genoino

“A coragem é o que dá sentido à liberdade”

Com essa frase, meu pai, José Genoino Neto, cearense, brasileiro, casado, pai de três filhos, avô de dois netos, explicou-me como estava se sentindo em relação à condenação que hoje, dia 9 de outubro, foi confirmada. Uma frase saída do livro que está lendo atualmente e que me levou por um caminho enorme de recordações e de perguntas que realmente não têm resposta.

Lembro-me que quando comecei a ser consciente daquilo que meus pais tinham feito e especialmente sofrido, ao enfrentar a ditadura militar, vinha-me uma pergunta à minha mente: será que se eu vivesse algo assim teria essa mesma coragem de colocar a luta política acima do conforto e do bem estar individual? Teria coragem de enfrentar dor e injustiça em nome da democracia?

Eu não tenho essa resposta, mas relembrar essas perguntas me fez pensar em muitas outras que talvez, em meio a toda essa balbúrdia, merecem ser consideradas…

Você seria perseverante o suficiente para andar todos os dias 14 km pelo sertão do Ceará para poder frequentar uma escola? Teria a coragem suficiente de escrever aos seus pais uma carta de despedida e partir para a selva amazônica buscando construir uma forma de resistência a um regime militar? Conseguiria aguentar torturas frequentes e constantes, como pau de arara, queimaduras, choques e afogamentos sem perder a cabeça e partir para a delação? Encontraria forças para presenciar sua futura companheira de vida e de amor ser torturada na sua frente? E seria perseverante o suficiente ao esperar 5 anos dentro de uma prisão até que o regime político de seu país lhe desse a liberdade?

E sigo…

Você seria corajoso o suficiente para enfrentar eleições nacionais sem nenhuma condição financeira? E não se envergonharia de sacrificar as escassas economias familiares para poder adquirir um terno e assim ser possível exercer seu mandato de deputado federal? E teria coragem de ao longo de 20 anos na câmara dos deputados defender os homossexuais, o aborto e os menos favorecidos? E quando todos estivessem desejando estar ao seu lado, e sua posição fosse de destaque, teria a decência e a honra de nunca aceitar nada que não fosse o respeito e o diálogo aberto?

Meu pai teve coragem de fazer tudo isso e muito mais. São mais de 40 anos dedicados à luta política. Nunca, jamais para benefício pessoal. Hoje e sempre, empenhado em defender aquilo que acredita e que eu ouvi de sua boca pela primeira vez aos 8 anos de idade quando reclamava de sua ausência: a única coisa que quero, Mimi, é melhorar a vida das pessoas…

Este seu desejo, que tanto me fez e me faz sentir um enorme orgulho de ser filha de quem sou, não foi o suficiente para que meu pai pudesse ter sua trajetória defendida. Não foi o suficiente para que ganhasse o respeito dos meios de comunicação de nosso Brasil, meios esses que deveriam ser olhados através de outras tantas perguntas…

Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação de informações e a especulação? Se sentiria feliz, praticamente em êxtase, em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma excelente ideia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um procedimento cardíaco? Dedicaria suas energias a colocar-se em dia de eleição a falar, com a boca colada na orelha de uma pessoa, sobre o medo a uma prisão que essa mesma pessoa já vivenciou nos piores anos do Brasil?

Pois os meios de comunicação desse nosso país sim tiveram coragem de fazer isso tudo e muito mais.

Hoje, nesse dia tão triste, pode parecer que ganharam, que seus objetivos foram alcançados. Mas ao encontrar-me com meu pai e sua disposição para lutar e se defender, vejo que apenas deram forças para que esse genuíno homem possa continuar sua história de garra, HONESTIDADE e defesa daquilo que sempre acreditou.

Nossa família entra agora em um período de incertezas. Não sabemos o que virá e para que seja possível aguentar o que vem pela frente pedimos encarecidamente o seu apoio. Seja divulgando esse e/ou outros textos que existem em apoio ao meu pai, seja ajudando no cuidado a duas crianças de 4 e 5 anos que idolatram o avô e que talvez tenham que ficar sem sua presença, seja simplesmente mandando uma palavra de carinho. Nesse momento qualquer atitude, qualquer pequeno gesto nos ajuda, nos fortalece e nos alimenta para ajudar meu pai.

Ele lutará até o fim pela defesa de sua inocência. Não ficará de braços cruzados aceitando aquilo que a mídia e alguns setores da política brasileira querem que todos acreditem e, marca de sua trajetória, está muito bem e muito firme neste propósito, o de defesa de sua INOCÊNCIA e de sua HONESTIDADE. Vocês que aqui nos leem sabem de nossa vida, de nossos princípios e de nossos valores. E sabem que, agora, em um dos momentos mais difíceis de nossa vida, reconhecemos aqui humildemente a ajuda que precisamos de todos, para que possamos seguir em frente.

Com toda minha gratidão, amor e carinho,

Miruna Genoino – 09.10.2012

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UM DEDO DE PROSA SOBRE JOSÉ DIRCEU

Sou advogado, não milito com direito criminal, não conheço a fundo o processo que está sendo julgado pelo STF mas tenho alguns critérios, muito particulares e que me bastam – antes que algum paladino venha me recomendar caminhos distintos – para que eu possa fazer uma breve avaliação do vem sendo orquestrado no Brasil.

Eu costumo dizer que desde o final da década de 40, quando nasceu, José Dirceu incomoda aos poderosos que nunca mediram esforços para impedir a liberdade e a autonomia do Brasil e dos brasileiros. Em 1965, cursando Direito na PUC/SP, tornou-se líder estudantil, chegou à presidência da UNE e foi preso pela ditadura militar em 68 durante o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna, organizado clandestinamente. Foi um dos 15 presos libertados por exigência dos bravos que seqüestraram o embaixador norte-americano – e que naquele momento dobraram a linha-dura – e foi exilado (banido!) do Brasil, tendo trabalhado e estudado em Cuba e voltado ao Brasil, durante o período do exílio, clandestinamente por duas vezes. Como tantos outros violentados pelo regime militar que governou o Brasil durante mais de 25 anos, com a anistia, em 1979, voltou à legalidade. Reingressou na PUC/SP onde formou-se em Direito em 1983.

Foi peça fundamental no processo de fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, – o PT, tão odiado pelos mesmos que ainda estão aí e que são entusiastas do que chamam “revolução de 64” – , batalhou amplamente pela anistia para os processados e condenados por atuação política e participou, também, da coordenação da campanha pelas eleições diretas para presidente da República, em 1984. Segundo informações que constam do espaço que mantém ativo para discutir o Brasil, aqui, “de 1981 a 1983, foi secretário de Formação Política do PT; de 1983 a 1987, secretário-geral do Diretório Regional do PT de São Paulo; e de 1987 a 1993 foi secretário-geral do Diretório Nacional. Entre 1981 e 1986 foi assistente jurídico, auxiliar parlamentar e assessor técnico na Assembléia Legislativa de São Paulo. Em 1986 foi eleito deputado estadual em São Paulo. Em 1990 elegeu-se deputado federal e em 1994 candidatou-se ao governo de São Paulo, recebendo dois milhões de votos. Voltou a se eleger deputado federal em 1998 e 2002, quando foi o segundo mais votado do país, com 556.563 votos. Na Câmara dos Deputados, assinou, com Eduardo Suplicy, requerimento propondo a “CPI do PC” (Paulo César Farias), que levou ao impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Também participou da elaboração dos projetos de reforma do Judiciário, da Segurança Pública e do sistema político. Em 1995 assumiu a presidência do PT, sendo reeleito por três vezes. Na última, em 2001, foi escolhido diretamente pelos filiados da legenda em um processo inédito no Brasil de eleições diretas para todas direções de um partido político. Ocupou a função até 2002, quando se licenciou para participar do governo do presidente Lula. Integrante da coordenação das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República em 1989, 1994 e 1998, foi o coordenador-geral em 2002. Com a vitória de Lula, assumiu a função de coordenador político da equipe de transição. Em janeiro de 2003, José Dirceu assumiu a cadeira de deputado federal, mas logo se licenciou para assumir a função de ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, permanecendo no cargo até junho de 2005, quando retornou à Câmara dos Deputados. Seu mandato foi cassado em dezembro do mesmo ano e teve a inelegibilidade decretada por oito anos.”.

Jamais fugiu à luta, o Zé.

Ontem, condenado pelo STF sem qualquer prova (causou-me assombro a justificativa de cada um dos Ministros que o condenou), fez publicar uma carta aberta ao povo brasileiro, que passo a transcrever:

“No dia 12 de outubro de 1968, durante a realização do XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, fui preso, juntamente com centenas de estudantes que representavam todos os estados brasileiros naquele evento. Tomamos, naquele momento, lideranças e delegados, a decisão firme, caso a oportunidade se nos apresentasse, de não fugir.

Em 1969 fui banido do país e tive a minha nacionalidade cassada, uma ignomínia do regime de exceção que se instalara cinco anos antes.

Voltei clandestinamente ao país, enfrentando o risco de ser assassinado, para lutar pela liberdade do povo brasileiro.

Por 10 anos fui considerado, pelos que usurparam o poder legalmente constituído, um pária da sociedade, inimigo do Brasil.

Após a anistia, lutei, ao lado de tantos, pela conquista da democracia. Dediquei a minha vida ao PT e ao Brasil.

Na madrugada de 1º dezembro de 2005, a Câmara dos Deputados cassou o mandato que o povo de São Paulo generosamente me concedeu.

A partir de então, em ação orquestrada e dirigida pelos que se opõem ao PT e seu governo, fui transformado em inimigo público numero 1 e, há sete anos, me acusam diariamente pela mídia, de corrupto e chefe de quadrilha.

Fui prejulgado e linchado. Não tive, em meu benefício, a presunção de inocência.

Hoje, a Suprema Corte do meu país, sob forte pressão da imprensa, me condena como corruptor, contrário ao que dizem os autos, que clamam por justiça e registram, para sempre, a ausência de provas e a minha inocência. O Estado de Direito Democrático e os princípios constitucionais não aceitam um juízo político e de exceção.

Lutei pela democracia e fiz dela minha razão de viver. Vou acatar a decisão, mas não me calarei. Continuarei a lutar até provar minha inocência. Não abandonarei a luta. Não me deixarei abater.

Minha sede de justiça, que não se confunde com o ódio, a vingança, a covardia moral e a hipocrisia que meus inimigos lançaram contra mim nestes últimos anos, será minha razão de viver.

Vinhedo, 09 de outubro de 2012

José Dirceu”

Uma vez mais, e agora me parece que num movimento inédito que une os mesmos golpistas de sempre – as grandes cadeias de comunicação – ao Poder Judiciário e a uma parcela da sociedade que nunca teve a capacidade de perceber-se marionete na mão dessa escória, tentam calar José Dirceu.

Volto a tratar do assunto – o tempo me tem sido escasso. Mas não queria deixar passar em branco essa quarta-feira negra como a toga dos que condenaram um homem que sempre lutou a favor do Brasil, do povo brasileiro, de nossa autonomia e de nossa independência. Eu, como não domino o direito penal, como já lhes disse, uso ainda outro critério, além de minha mera observação, para saber de que lado fico. Os grandes jornais brasileiros – O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo – , as revistas mais abjetas – Veja sobretudo -, as TVs que sempre foram servis aos inimigos do povo brasileiro estão sempre contra José Dirceu?

Pois bato continência ao Comandante José Dirceu de Oliveira e Silva.

E que não se iludam os inimigos de sempre: ainda não será dessa vez que vocês calarão quem jamais se calou diante das ignomínias das quais sempre foi vítima.

Até.

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