Arquivo do mês: novembro 2012

REFÉNS VOLUNTÁRIOS

No final dos anos 90, início dos anos 2000, mantive na grande rede uma revista eletrônica que se chamava Sentando o cacete, nome que eu e Aldir Blanc (colaborador de todas as edições!) escolhemos juntos. Tínhamos o domínio, inclusive! O time, em ordem alfabética: Aldir Blanc, Eduardo Goldenberg, Mariana Blanc, Mauro Rebelo, Mello Menezes e, esporadicamente, Fausto Wolff.

Eu tinha dado como perdidos, os textos, as ilustrações do Mello… tudo. Numa operação arqueológica, os encontrei. Passarei a dividi-los com vocês. Inauguro essa comunhão hoje, com texto do meu saudoso mano Fernando Toledo!

(texto de Fernando Toledo para o site Sentando o cacete, edição de primeiro de novembro de 2001)

Esta semana, a modelo, apresentadora de vulgaridades e campeã mundial de gravidez oportunista – a única representante de nosso País a trazer uma medalha de ouro nas últimas Olimpíadas – , Luciana Gimenez, declarou, em alto e bom tom, para um público a cada dia mais ávido de informações acerca dos quinzeminutistas de plantão: “Morro de inveja dos ossos dela”, referindo-se a sua colega no promissor ramo do Alpinismo Social Giselle (sem) Bundchen. Ao que a mídia, de imediato, como sói acontecer nestes casos, se prostrou de joelhos, avalizou, e tratou de divulgar, com todas as letras e cores, a pertinentíssima opinião, causando ondas de inveja que deixariam rubro um estudante de Osteologia ou um médico legista, no público alvo da citada declaração: o imaginário feminino de determinados segmentos de nossa sociedade.

Na frase em questão estão contidas várias informações acerca de um dos atuais mecanismos que regem a imprensa e a mídia de um modo geral: a valorização de um padrão único de beleza feminina. Ou seja: a modelo espigada, esguia ao ponto de parecer doentia, e, principalmente, a mulher que, através de uma diversidade de métodos, consegue representar, por meio de suas formas, o seu patrimônio financeiro, suprema afirmação em um mundo regido pela grana e pelo que ela pode pagar. Sim, pois o estilo de corpo de que tratamos não é o que se pode chamar de um produto da natureza, e, sim, uma espécie de escultura perpetrada ao longo de anos, com o gasto de muito, mas muito dinheiro, e muito esforço pessoal. Um ícone, enfim, às duas principais bases do sistema monetarista que nos governa, e que, em última instância, determina cada um de nossos atos. Poder exibir, de forma a causar estupefação, inveja e desejo na parcela masculina da população, o fruto desta carreira, passa a constituir o fim em si, além de ser também um meio de se aumentar o patrimônio por meio de conquistas amorosas fartamente noticiadas, e, num efeito de bola-de-neve, se esculpir mais e mais e alcançar, a cada lipoaspiração, aplicação de silicone e semelhantes, um próximo alvo mais abastado e notório. Nesse quesito, Luciana Gimenez galgou o mais alto dos degraus: traçou Mr. Roquenrol, e com ele gerou um filho. Medalha de ouríssimo para ela.

Quando essa roda-viva de valorização de uma estética imposta atinge e influencia pessoas como as citadas, ou como outras tão paparazziadas quanto, não causa espanto de espécie alguma. Ver como isto afeta uma modelo-atriz (?) como Mônica Carvalho, que declarou recentemente que tinha como sonho visitar o Egito, pois sempre adorara “essa coisa de Mitologia Grega, como Cleópatra e as pirâmides” (palavras da própria) não surpreende. O culto doentio à beleza física nessa pessoa é mais que esperado, afinal, de que outros meios ela disporia para tentar se afirmar como ser humano? Surpreende abrir o jornal e se deparar com a notícia de que uma pessoa culta e inteligente como a arquiteta e diretora de projetos especiais da Funarj, Anita Mantuano, militante do MST, morreu na manhã de sábado vítima de uma embolia pulmonar decorrente de uma operação de lipoaspiração. Surpreende constatar como a ditadura dos ossos à flor da pele influencia até mesmo aqueles que julgaríamos salvaguardados da mesma. Surpreende ver como a mídia avança com passos de gigante, nos tomando de roldão, fazendo-nos até mesmo esquecer o senso de autopreservação em função de uma aceitação estética.

Estamo-nos tornando reféns, por nossa própria vontade, de critérios que talvez nem mesmo correspondam ao que realmente queremos, como homens e mulheres, em termos de atrativos físicos do sexo oposto. Caminhamos intrépidos rumo a um estado de coisificação, a ponto de permitirmos que designers nos imponham o desenho de nossos próprios corpos. Cabe indagar-nos, caso ainda nos reste algum tempo, se o preço a pagar vale nosso esquecimento de que somos humanos e, como tais, feitos, cada um, à sua própria imagem e semelhança.

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ARREMESSO VIOLENTÍSSIMO EM DIREÇÃO AO PASSADO

Deu-se o seguinte: ontem pela manhã, bem cedo, recebi um e-mail enviado por minha velha mãe. Ei-lo, na íntegra, que eu sou preciso do início ao fim e, mais do que preciso do início ao fim, colho provas com a obsessão de um promotor visando esfregá-las no focinho do primeiro que ousar duvidar do que digo, do que escrevo.

“Oi, Du: consultando o Nilo Cairo, encontrei uma receita do Dr. Lauro pra você, de 1976. Guardei para lhe dar. Me lembre quando vier por aqui. Beijossssssssssss.”

Quando li a conjunção das palavras e dos números – Nilo Cairo, Dr. Lauro, 1976 – plantou-se em mim uma febrícula e um tremor de mãos que me atestaram com certeza: lá estava eu a sofrer mais um dentre tantos os arremessos ao passado que me derrubam de vez em quando.

O Dr. Lauro, de quem tanto já lhes falei por aqui (um simples exemplo é esse texto aqui, de setembro de 2008), é, em mim, até hoje (já morreu, o bom Dr. Lauro), um santo com direito ao halo luminoso sobre a cabeça, e a quem recorro, em oração, diante do primeiro sintoma de seja-lá-o-quê-for. Aqui, texto de fevereiro de 2012, uma pequena descrição do que fomos, eu e mamãe, no enterro do bom homeopata.

O Nilo Cairo, uma espécie de Bíblia da Homeopatia, é o único livro de cabeceira de meu pai. Se vocês querem ver meu pai feliz, excitado como a criança diante do primeiro velocípede, basta fazer o seguinte: batam o telefone pra ele, ou mesmo enviem a ele um e-mail, perguntando para quê serve determinado remédio da homeopatia. O velho será um homem em estado de êxtase… Folheará o Nilo Cairo – e papai fala Nilo Cairo como quem se refere a um amigo de infância! – e lerá a indicação do remédio com a voz empostada, de pé, como se fora o Papa rezando a Missa do Galo diante do Vaticano lotado.

Em 1976, em 16 de fevereiro de 1976 (data aposta no receituário), eu tinha apenas 6 anos de idade. Em 16 de fevereiro de 1976, faltando duas semanas para o Carnaval, estaria eu já com a mesma febre que me antecede os Carnavais de hoje em dia? Ver e ler no receituário a letra mágica do médico que cuidou de mim até morrer, reconhecer na letra do velho Dr. Lauro a letra do seu filho que hoje me atende na mesma rua (mudou-se há pouco para outro consultório) e que vem a ser a rua onde fui morar assim que nasci (em texto de 2007, a foto do prédio que me viu bebê, aqui), tudo isso foi responsável pela montagem do cenário: eu, aos 43 anos, tive de novo 6 anos de idade, os mesmos sintomas que fizeram papai e mamãe marcar a consulta, a mesma ziquizira que fez com que o Dr. Lauro receitasse o que me receitou há mais de 35 anos.

Mamãe, que é ansiosa (o que explica muito do que há em mim), não esperou que eu fosse até sua casa para me entregar a receita, como dissera no e-mail de ontem. Hoje cedo, quando voltei da médica da alma, o porteiro me entregou um envelope e disse:

– Seu pai passou aqui e deixou isso pra você…

No envelope, a letra de mamãe: “Edu, conforme o prometido.”.

Subi pelo elevador abrindo-o com cuidado, tirando a receita dobrada, amarelada, e antes mesmo de saltar no quarto andar eu tinha febre e mãos trêmulas.

Entrei em casa, tratei de digitalizar o que recebi como tesouro a fim de preservá-lo, e corri pra cá, a fim de dividir com vocês mais esse arremesso em direção ao passado, justo no momento em que atravesso a expectativa de arremessos em direção a um futuro tão promissor, tão repleto de coisas boas por conta da chegada da mulher que o minuano me trouxe, como desenhei aqui.

Na manhã dessa feriado, nessa manhã chuvosa, agradeço à mamãe, publicamente, pelo estopim de emoções que seu presente me trouxe. E ergo o copo cheio de espessa espuma brindando à Vida, a caprichosa senhora que a todos nós conduz, pelos encontros que me proporcionou.

Até.

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A FINITUDE (OU O DANILO SUMIU)

Desci à rua na manhã de domingo para ir à farmácia e para dar uma volta com o Pepperoni, meu fiel vira-latas. Na esquina oposta à farmácia, também Haddock Lobo com Caruso, o bar do Marreco que não é mais do Marreco. Através de uma operação comercial sobre a qual não me inteirei, seu Brasil – vizinho de cima – comprou a parte que era do Marreco que, por sua vez, comprou uma parte na sociedade – tomem nota do nome! – do Baby´s Moon, pé-sujo na Conde de Bonfim, quase no Largo da Segunda-Feira. São, dizem os cabeça-branca, os efeitos das UPPs na economia do bairro. Desde que nasci aqui, em 1969, nunca vi tanta obra, tanta reforma, tanto prédio subindo. Devem estar certos, os mais-velhos.

Fato é que fui ao balcão do bar do Marreco (chamarei de bar do Marreco até o fim dos meus dias) por hábito – deixei de freqüentá-lo depois da troca de peças – e o seu Brasil:

– Tá sabendo? – e esticou o pescoço em direção à porta de entrada.

Um cartaz trazia a foto do Danilo, tremendo boa-praça que trabalhava lá (aqui e aqui, falo dele).

– Desapareceu… – disse-me o seu Brasil.

– Faz quinze dias! – emendou o CDM, vizinho do Felipinho que bate ponto ali, naquele balcão, diariamente, das oito da manhã às oito da noite.

Mirei o anúncio, o apelo, o reclame colado no poste que pedia informações do paradeiro do Danilo. Tive dó do sujeito, desaparecer assim…

Voltei pra casa com a palavra finitude batendo como estaca na cabeça.

Dei a ela o remédio que eu comprara, pus água e ração pro Pepperoni, deitei-me ao lado dela na esperança de apenas descansar um pouco dos exageros do sábado e acordei, horas depois, com febre, com febre, com febre.

Além da febre, uma forte dor na região do estômago que me derrubou o domingo inteiro, que me fez ir ao médico ontem à tarde, que me fez sair do médico imediatamente em direção ao encontro de minha mãe, que me tirou do torneio de purrinha do qual participaria ontem à noite em Copacabana e que me dá, até esse momento em que lhes escrevo, um tremendo medo de morrer.

Que besteira!, dirão muitos de vocês.

Mas eu acho que foi tudo por causa da notícia do Danilo.

Pra desanuviar, a sensacional matéria que meu chapa João Tavares fez para a rádio Bradesco Esportes FM sobre o torneio de purrinha de ontem à noite no Galeto Sat´s, em Copacabana, vencido pelo Aconchego Carioca, bar que eu representaria!

Até.

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