Arquivo do mês: fevereiro 2017

POLVO À VINAGRETE, A RECEITA

Estive na Bahia, mais precisamente na ilha de Boipeba, no final de janeiro, na intenção (muitíssimo bem sucedida) de comemorar a chegada dos 4.0 da Morena. Dentre tantos inesquecíveis momentos que vivemos lá ao menos um vou dividir, de certo modo, com vocês, meus poucos mas fiéis leitores. Na praia de Moreré, seguramente a mais linda que já vi na vida, almoçamos no restaurante Paraíso, onde comemos, de entrada, um polvo à vinagrete que, à moda da praia, foi o melhor polvo que já experimentei. Foi impossível não pedir a receita que, há umas semanas, experimentamos em casa. E garanto a vocês: ficou exatamente igual, fabuloso polvo à vinagrete.

Acordei cedo no domingo e fui à feira da Vicente Licínio, Peixaria do Vicente, com quem já havia encomendado a criança. Voltei pra casa com 1,7kg de polvo limpinho. Também na feira comprei (tudo fresco) hortelã, manjericão e orégano. Em casa já tínhamos vinagre, azeite, sal, pimenta do reino preta, limão, tomate, pimentão verde e cebola. E uísque, claro, que cozinhar sem uísque no balcão está fora de cogitação.

Numa panela pesada, de fundo grosso (nada de panela de pressão!), você põe o polvo inteiro e duas cebolas cortadas em quatro – só! Liga o fogo alto e, ao sinal do chiado, abaixa o fogo para médio. O polvo estará pronto quando os oito nacos da cebola estiverem desmanchados. Desliga o fogo, despreze a água que terá se formado, as cebolas desmanchadas e trate de pôr o polvo numa tábua para o início do preparo do vinagrete.

Corte o polvo em pedaços médios (há quem prefira cortá-lo menor, o que não é o meu caso) e coloque-os todos numa tigela funda. Regue o polvo com o suco de dois limões. A essa altura você já terá preparado os tomates, os pimentões e as cebolas durante o cozimento do polvo. Os tomates, sem as sementes – e com uma dica: corte o tomate em quatro, retire as sementes, ponha sal na parte de dentro (por favor!) e deixe-os desidratar um pouco sobre papel-toalha a fim de que fiquem firmes no vinagrete. Depois de uns 15/20min desidratando,  pique-os em cubos bem pequenos. No mesmo tamanho dos pimentões (dois) e das cebolas (três). Ponha tudo dentro da tigela. Moa a pimenta do reino na hora sobre o polvo. Sal a gosto. Vinagre e azeite, também a gosto. É hora de, usando uma tesoura, colocar pra dentro hortelã, manjericão e orégano.

Mexa sem grossura com uma colher de pau fazendo com que tudo se misture, cuidando pra não amassar os tomates. Cubra a tigela com plástico-filme e coloque na geladeira. O ideal, mesmo, é que fique 24h marinando, descansando, mexendo duas ou três vezes durante esse intervalo. Depois é se fartar.

Fica assim, desse jeito.

polvo-a-vinagrete

É – ponham fé – absolutamente fora-de-série.

Até.

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O VOLUNTARISMO

Ontem eu almoçava com um queridíssimo amigo na Leiteria Mineira, uma espécie de refeitório de clínica geriátrica por conta da idade média dos freqüentadores e da ausência absoluta de sal na comida, deliciosa por sinal, e enquanto comíamos, ele foi de língua e eu de estrogonofe, conversávamos em tom de lamento sobre a mediocridade que assola o planeta de forma virulenta. Ele, que é de São Paulo e estava por aqui de passagem para arejar a cabeça – a expressão é sua – deu de se queixar do voluntarismo que grassa nas chamadas redes sociais, no Facebook precipuamente. Foi ele começar a falar pare que eu, excitadíssimo, com tudo concordasse. E ficamos, ali, divagando sobre o que temos visto, lido e ouvido, tendo sempre os voluntariosos como protagonistas.

Tentamos desenhar um esquema em busca de uma explicação para tanto voluntarismo e para esse fenômeno que dá ao idiota (apud Nelson Rodrigues) a dimensão de um gênio. Lembramos do reacionário, do genial dramaturgo, que em 1968 lançou a blague que hoje se verifica a olhos vistos:

“De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos ´melhores´. Para um ´gênio´, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.”

Eis que o Facebook é, definitivamente, o caixote azul no qual sobem, alguns várias vezes ao dia, diversos idiotas testando seu poder numérico. E um idiota curte o que o outro idiota escreveu. Um terceiro idiota toma coragem, vê-se refletido na tela diante de si, e ri – “kkkkk” – expressando sua concordância num relinche cibernético.

Um quarto idiota decide “fazer um vídeo ao vivo” – ferramenta que o caixote azul oferece – e começa (notem que quase sempre começa assim): “Oi, gente, eu resolvi fazer esse vídeo…”, e dá de falar as coisas mais sem importância, mostrar sua entendiante rotina para uma platéia de idiotas, e a coisa vai tomando um vulto, uma proporção, num preocupante fenômeno que é efetivamente assustador.

Vai daí que esse coletivo de idiotas passa, então, a produzir uma massa de verdades absolutamente ridículas, pífias, que são replicadas, multiplicadas, encorajando outros idiotas pelo mundo afora e que passam, por conta dessa coragem que vão ganhando (lembrem-se, “em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão”), a patrulhar quem está quieto no seu canto.

Falamos, é claro, das mais recentes patrulhas que pululam por aí: não se pode mais falar a palavra “mulata” sem que alguém se aproxime com o insuportável ar de gênio trazendo debaixo do braço o argumento de que mulata remete à mula, que mulata é isso, que mulata é aquilo e outros bichos. Não se pode mais cantar determinadas marchinhas de carnaval sem que alguém quique diante de você apontando o dedo na sua cara: essa é machista, essa é homofóbica, essa é sexista, essa estimula a violência, essa é assim, essa é assado e outros bichos. A mais recente onda de voluntarismo chegou pra dizer quem pode e quem não pode usar turbante. Haja, haja, haja!

Está muito difícil – e vai piorar.

Volto ao tema em brevíssimo.

Até.

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