Arquivo do mês: abril 2004

O ÓDIO (OU A FRUSTRAÇÃO) DE ANA CRISTINA REIS

Doces figuras, vou deixar por alguns instantes o tom pessoal da revista para, voltando aos velhos tempos, que jamais me abandonaram, sentar o cacete numa figura abjeta que trabalha como editora do jornal O Globo, e isso já é incompreensível, eis que a mesma não é jornalista e não tem nem cacoete de jornalista. Ana Cristina Reis, editora do dispensável, fútil, inútil e acéfalo caderno Ela do jornal O Globo, publicado aos sábados, assinou uma coluna no caderno do dia 17 de abril de 2004, que seria motivo o bastante para qualificá-la como uma desqualificada para a função que exerce.

O título da coluna é “ÓDIO”, sentimento que a mesma consegue, com louvor, despertar no leitor de sua absurda visão. Segue trecho abaixo, em itálico, seguindo-se meus comentários.

“O que a gente aprende na vida… Descobri recentemente que preciso liberar o ódio que existe dentro de mim. Nunca rodei a baiana com namorado, amigo, irmã, pais. Nunca vi ninguém da família gritando ou se xingando. Nunca desejei mal a um desafeto ­ desejava que fosse promovido e mudasse de seção. Por conseguinte, é claro que devo ter muito ódio em estoque. Até a semana passada, essa história de soltar os cachorros ­ e liberar aversão, repugnância e desprezo ­ era retórica, um exercício saudavelmente teórico. O máximo que despertou em mim foi dizer para o sujeito que insistia em espirrar água suja com sabão no pára-brisa do meu carro: “Poupe-me, rapaz. Mas a fachada de verniz está vindo abaixo. Está ficando difícil suportar tanta incompetência e tanta ausência. Não agüento mais ouvir falar do MST. Vi na TV uma reportagem que dizia “os trabalhadores do MST querem”, os “trabalhadores do MST exigem”. Os trabalhadores. E eu sou o quê? Desocupada? Porque já sei que sou boba ­ pago imposto, sigo a lei e não solto os cachorros em ninguém. O que me impede de invadir a piscina do prédio ao lado? Eu sou uma sem-piscina. O que me impede de subtrair aquela sandália italiana de strass, lindona, que minha amiga só usa uma vez por mês no máximo? Eu sou uma sem-sandália de strass. O que me impede de pegar caixas de vinho da loja de bebidas que tem tantas garrafas? Eu sou uma sem-vinho.”

Vejam bem. Ana Cristina Reis, que atende neste e-mail, deu o nome de “ÓDIO” à sua coluna, mas melhor caberia se fosse “ODE À FRUSTRAÇÃO”.

Há erros crassos no texto paupérrimo da moça (incrivelmente ela é uma moça, embora o discurso seja velho, rançoso, quatrocentão).

Começa quando a mesma diz que precisa liberar o ódio que existe dentro dela. Pobre coitada, não há nada, rigorosamente nada, dentro de Ana Cristina Reis. Vamos seguindo.

Percebe-se, ao longo da leitura, que Ana Cristina Reis mente. Mente quando diz que a um desafeto, desejava uma promoção e a mudança da seção no trabalho. Não é necessário usar mais de um neurônio para enxergar aí, neste ponto de seu texto tosco, a mentalidade da editora, que deve seguramente tratar seus “empregados” como escravos, afastando-os e mantendo, segundo sua visão estrábica e preconceituosa, o ambiente higienizado.

Percebe-se, ao longo da leitura, que Ana Cristina Reis é parte de uma burguesia suja, responsável pelo abismo que abre verdadeiras crateras no desigual tecido social brasileiro.

Percebe-se isso quando a asquerosa editora diz que, quando parada com seu carro no sinal é abordada por um garoto que não tem escola, que não tem emprego, que não tem acesso à nada, diz apenas “poupe-me, rapaz”, e deve dizer isso de dentro do carro, de vidros fechados, com cara de nojo e insensível aos problemas que arrastaram aquele garoto para os sinais de trânsito e não para os bancos da escola.

Aliás, Ana Cristina Reis, certamente, terá sido uma odiosa combatente dos CIEP´S, o maior programa educacional já implementado no País. “Imagine”, pensava Ana Cristina Reis, “esses rapazes que deveriam estar limpando vidros de carro com água suja e sabão estudando em escolas de tempo integral, com assistência médica, odontológica e fazendo três refeições por dia!”.

Percebe-se, ao longo da leitura, que Ana Cristina Reis, é burra. Burra e frustrada.

Queixa-se de não ter piscina em casa, e é impossível não lembrar dos versos “a tua piscina está cheia de ratos”, de Cazuza.

Queixa-se de não ter uma sandália italiana de strass e de não ter vinhos, dizendo-se também uma “sem-vinho”, numa alusão novamente pobre, estúpida e repugnante aos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que são, sem dúvida, o mais importante movimento de que temos notícia no Brasil, liderado hoje por João Pedro Stedile.

Ana Cristina Reis, quando cita o MST e seus membros, fala em trabalhadores, entre aspas, expediente ordinário para dar tintas de deboche ao título.

Vamos repetir esse trecho: “Não agüento mais ouvir falar do MST. Vi na TV uma reportagem que dizia “os trabalhadores do MST querem”, os “trabalhadores do MST exigem”. Os trabalhadores. E eu sou o quê? Desocupada? Porque já sei que sou boba ­ pago imposto, sigo a lei e não solto os cachorros em ninguém.”

É preciso que alguém diga, e daqui eu digo, a essa moça, quero repetir, desqualificada para a função que exerce, o que ela quer saber quando pergunta “e eu sou o que?”.

Ana Cristina Reis, quando diz que paga os impostos e segue a lei, precisa saber que a lei a que ela se refere, é, ou deveria ser, para todos e por todos cumprida.

Ela, eu posso dizer, é uma frustrada, ou não estaria se valendo de espaço num jornal do porte de O Globo para destilar suas frustrações, suas queixas de que não tem piscina, de que não tem sandália italiana de strass e de que não tem vinho.

Quanto ao vinho, eu sei e posso afirmar que é mentira. Não sei se Ana Cristina Reis faz parte dos “Companheiros da Boa Mesa”, mas é assídua freqüentadora dos almoços mensais da confraria. É reconhecidamente citada em colunas de diversos jornais como conhecedora de vinhos, da alta gastronomia, o que, a bem da verdade, não depõe contra. O que depõe contra é a desfaçatez de Ana Cristina Reis quando diz que é uma “sem vinho”, e o que é pior, tudo isso para destilar seu ódio, daí o nome com que batizou a coluna, contra o MST.

Seria recomendável que a moça, que deve bradar aos quatro ventos que é jornalista, lesse a edição 288 da revista Carta Capital, que faz jornalismo de verdade.

Para saber que os assentamentos, arrancados à força pelos bravos lutadores do MST, têm trazido significativos ganhos sócio-econômicos que saltam a olho nu. Tomando por base 15 mil famílias assentadas entre os anos de 1985 e 1997, pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro coletaram dados sobre os impactos da reforma agrária em todo o País.

Diz a matéria, assinada por Amália Safatle e Luiz Alberto Weber, que os assentamentos elevaram o poder de compra das famílias assentadas, dinamizaram o comércio local das cidades em volta dos assentamentos, melhoraram as condições de alimentação da população assentada, reforçaram os laços familiares, aumentaram o poder de organização política dos trabalhadores, incrementaram o status social dos ex-sem-terra, diversificaram a pauta agrícola e geraram empregos. E o mais importante. Todos foram incluídos na pauta da cidadania. Um dado importantíssimo da pesquisa, e isso está lá na matéria, diz que “96% dos assentamentos pesquisados tiveram como origem movimentos de resistência ou ocupação de áreas (…), foram feitos na marra, sem esperar pela boa vontade do poder público, empunhando bandeiras do MST (…)”.

É como diz João Pedro Stedile, em entrevista à Carta Capital: “Qualquer assentamento no Brasil, seja do MST ou não, é uma escola de cidadania. lá as pessoas conquistam os direitos de cidadão. A maioria continua pobre. Mas todos se alimentam bem, todos têm trabalho, todos têm casa, mesmo que seja humilde, e todas as crianças, todas, vão à escola.”.

Tudo isso deve ser insuportável para uma pessoa como Ana Cristina Reis.

Que não é pobre, está longe disso, mas quer mais. E além de querer mais, não admite a luta, fundamental para as conquistas mínimas de um cidadão, para os que nada tem.

Escola de cidadania nela.

Se ainda houver tempo.

Até.

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>PEQUENO ADENDO ÀS PEQUENAS ANOTAÇÕES DA VIAGEM

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Doces figuras: simpático email que acabo de receber da Betinha me lembra alguns momentos que ficaram de fora de meu primeiro relato araçatibiano. O topless da Dani na Praia de Araçatibinha. O que foi aquilo, leitores? Eu, acostumado àquela visão, crispei-me dentro d´água vendo o corpo que me sacia, e, juro, juro, estrelas do mar saltavam pra superfície como peixes alucinados, a mata vergava para chegar mais perto dela, as cangas na areia tremulavam como bandeiras em dia de festa no Maracanã e até Yemenjá apareceu pra dar uma espiada. E o momento em que Exu-Meliante baixou entre nós, sendo que dessa vez não fui eu o cavalo. Paro por aqui porque ensinou-me o bom Szegeri: consumado o flagrante, Exu volta pra estratosfera e o Meliante fica detido.

Até.

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>PEQUENAS ANOTAÇÕES DA VIAGEM

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Doces figuras: assim eu terminei meu texto de semana passada. Pois bem. Estamos indo amanhã pra Araçatiba, uma praia encravada na Ilha Grande. Eu, Dani, Maria Paula, Pierre, Simone, Betinha, Débora, Guerreira, Sérgio e Cícero.

Quero dividir com vocês o que sobrou em minha memória já que, mantendo uma tradição de há décadas em minhas viagens, a conta do bar superou a conta da hospedagem. Em muito. Com a desvantagem de que a conta da pousada pagarei em três vezes. A do bar, à vista.

Vamos tecer pequenos comentários sobre a viagem sob a minha ótica lançada sobre os personagens, começando por mim.

A viagem de Angra até Araçatiba foi feita num barquinho pesqueiro bastante vagabundo. A placa queimava-me a vista como neon: 20 passageiros e 1 tripulante. Entraram, de fato, 20 passageiros. Só que eu valho por dois, e o tripulante – não posso deixar de rir -, sem exagero, por 4.

Pânico instalado e eu só não morri de susto porque, mal zarpou o barco do cais, uma neblina absurda de ganja densa infestou o ambiente. Cheguei tonto à Ilha Grande.

Recebidos efusivamente pelos donos da pousada Cantinho de Ará, dona Mirthes e seu Clóvis, tratamos de alertá-los para a necessidade de reforço do estoque de bebidas. Reforço que foi atendido na risca.

Voltamos na segunda-feira pela manhã depois de esvaziar o litro de álcool Pring que vazava da janela de um dos banheiros.

Dani. A coisa-mais-linda-mais-cheia-de-graça que Araçatiba já viu, seguramente.

Ela tem uma mania quando viajamos que me enternece e me assombra. Sem tempo, devido ao trabalho, de dedicar-se, digamos, 100% às tarefas domésticas, a Sorriso-Maracanã, apelido bem-dado pelo bom Szegeri, é uma coisa de atenção e zelo. Minha mochila mais parecia meu mundo. Remédios separados por doses para os dias de viagem, cuequinhas separadas por cores que devem combinar com as bermudas e com as camisetas, saquinhos para as roupas sujas, a pia do banheiro do quarto uma verdadeira réplica de nosso banheiro de casa, e aquele amor ao deitar-se que me deixa, agora enquanto escrevo, crispado de tesura.

Maria Paula. Bem, a Maria Paula, apesar de ter pago para dormir num dos quartos, preferiu, por duas noites seguidas, dormir ao relento na companhia de um paulista de Campinas, já que ela dividia o quarto com a Guerreira, e ele com um amigo. Encantaram-se mutuamente, os dois, é o que parece. A desgraça da opção dos dois foi a escolha do local. Bem na porta do meu quarto. A diversidade dos sons que vinham de fora, nas duas noites, já que a pousada fica no meio do mato, não me permite tecer maiores comentários. Mas Maria Paula está, tudo indica, pagando paixão. Caso contrário, não teria me feito estranhíssimo pedido que ainda não sei se vou atender. Apenas para manter minha linha de conduta.

Pierre e Simone. No caso dessa viagem, não é possível falar de um sem falar no outro, ambos hilariantes. Desbravadores, os dois, que se conheceram, vejam que começo comovente, numa expedição ao Buraco da Lacraia, na Lapa. Mal acordavam e faziam gestos incompreensíveis entre si e saíam chispando em busca de algo que não consegui identificar ou que não quero tornar público. No sábado, saímos todos num passeio de barco. Pierre, certamente para me humilhar, embarcou com uns óculos toscos, desses de natação, provocando o convite para mergulhos que não aconteceram de minha parte. Humilhante porque eu embarquei com máscara, respirador, nadadeiras, cinto de lastro e uma roupa de neoprene. Como de Araçatiba ao nosso destino bebi, acompanhado, cabeça por cabeça pela Betinha, 13 latas de cerveja, preferi um mergulho breve com bóias de náufrago e sem a roupa de mergulho.

Betinha. Bem, a Betinha cravou pelo menos uma frase histórica. Na manhã de sábado, durante o café da manhã, Guerreira dirigiu-se a ela e mandou: “Bebi demais ontem… minha cabeça rodava, rodava, custei muito a dormir…” Betinha, lata de cerveja na mão já às 9h e um pedaço de bolo com geléia na outra, mandou de letra: “Bebeu demais, não. Bebeu pouco. Se tivesse bebido mais sua cabeça nem chegaria a rodar, você chegaria desmaiada no quarto.” Filosofia etílica de primeira. Ah, e um detalhe que não poderia escapar-me. Todos os dias, pela manhã e à tarde, um besouro verde pousava, ora nos braços, ora nas pernas da Betinha. Há testemunhas, há testemunhas. Razão pela qual o inseto ganhou até nome: Szegeri.

Débora. Bem, chegou Débora à Ilha e voltou pra casa como Fumaça, apelido que há de ser eterno e explico-lhes a razão. Tocávamos violão e cantávamos todos na aprazível varanda da pousada. Quer dizer, todos não. Sérgio e Cícero não estavam conosco. O primeiro, a propósito, porque ninguém o viu durante os cinco dias de viagem. O segundo porque a TV estava desligada. Pausa para pigarros de maldade. Mas como eu ia dizendo, eu, que tinha o violão no colo, Dani, Guerreira, Betinha e Débora – ainda Débora – bebíamos e cantávamos desde os clássicos da bossa-nova até sambas-enredo históricos. Bebíamos, todos, cerveja. Com exceção da Débora que, sentada num degrau da varanda, abraçada a uma garrafa de Nêga Fulô, sorvia em goles vigorosos a branquinha. Mas bebia mesmo. A garrafa estava por dois dedos quando ela interrompe, aos gritos, uma canção. Eu estava tocando “Águas de Março”, o cigarro aceso pousado no cinzeiro, a latinha de cerveja à frente, todo mundo fazendo côro, quando vieram os urros: “Pára, pára, pára, Edu!” Débora foi cravejada de olhares críticos e mandou a pérola: “Aê… (a voz completamente pastosa)… toca mais devagar… tá saindo fumaça do seu violão” Fumaça. Eis o apelido dado na hora. E para sempre.

Sérgio. Bem, o Sérgio, como eu disse, foi-mas-não-foi. Nem dona Mirthes o via. Saía para caminhar, me contaram os urubus, antes das 6h. Voltava, sabe-se lá a que horas, porque também ninguém o via. Um mistério. Foi visto algumas vezes debruçado sobre calhamaços de papel, sem que uma palavra, monossílaba que fosse, escapasse de sua boca. Ninguém o viu partindo também. Nenhum barqueiro soube dizer nada. Dona Mirthes, fervorosa católica, jurou que Sérgio voltou caminhando sobre as águas.

Cícero. Ele, que na noite do reveillón, num transe, adotou-me como pai, viu, todos os dias, “Chocolate com Pimenta”, “Da Cor do Pecado” e “Celebridade”. Esbofeteou-se com Maria Paula quando exigiu a TV ligada para assistir Zorra Total no sábado. Não sei se é verídico, mas vale constar das anotações. Como voltou de barco pra Angra no horário do Fantástico, ficou irritadíssimo quando descobriu, já embarcado, que não havia TV a bordo.

Enfim, o final de semana prolongado foi memorável.

Houve ainda chôro convulsivo da Guerreira, que lembrando a Guerreira dos melhores dias bebeu quase que a Ilha toda, Vasco e Flamengo na TV (todos têm seu dia de Cícero numa ilha semi-deserta), muita lula recheada, quibe de peixe, e promessas de novas viagens que serão, todas, dissecadas por aqui.

Até.

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>FERIADO DE PÁSCOA

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Doces figuras: em 26 de outubro de 2003 vivi uma experiência rigorosamente inesquecível.

Quase-morri afogado. Para agradecer ao Pierre, que foi quem me salvou, literalmente, republico aqui o inteiro teor do email que enviei aos amigos como forma de agradecer o salvamento. Ei-lo:

“Doces figuras: dentre as lições de educação que recebi de Isaac & Mariazinha, das poucas que absorvi – desculpe papai, desculpe mamãe – uma delas me obriga a cultivar, sempre que necessário, a gratidão. E para mim, quase sempre é necessário que a gratidão esteja e seja permanentemente divulgada como maneira de homenagear o alvo de meus obrigados comovidos, sempre que o caso pede.

Foi assim com o Maurinho, que sob minha ótica, salvou o Fefê do sufoco na Copa da França, foi assim com a Mariana Blanc, que me manteve bem durante nebuloso período da minha vida em 1999, quando vacas tentaram, sem sucesso, destruir meu pasto, e agora é o caso de um bom sujeito, papa-goyaba, a quem devo – há testemunhas!, há testemunhas, antes que me acusem de hiperbolismo – estar escrevendo agora e não numa das capelinhas do Caju.

Ontem, domingão de sol escaldante, atendendo convite de há meses de Pierre, fomos, eu e Dani, à Niterói, praia de Itacoatiara, que com 34 anos, vergonhosamente não conhecia. Um paraíso. Tudo encaixando, Fernando Szegeri, paulista da melhor cepa, estava na terra de Araribóia, nos braços de sua amada, ambos igualmente escalados para a aventura. Buscamos o Pierre em casa às 10h. Rumamos para a praia. Muito mato, muito verde, pequeno engarrafamento incapaz de nos aborrecer diante do esplendor daquele mar encravado entre duas pedras constantes.

Fernandão chegou com a Cris, já estávamos na latinha número 5 cada um de nós (foram 35 no total, amém Mestre André, vendedor campeão que nos disponibilizou isopor, gelo, e fiado).

Mônica e Luciano, amigos do Pierre, também nos escoltavam na praia. Pierre, anfitrião de mão cheia, propôs uma pequena escalada numa das pedra, à nossa direira, para um mergulho ao mar de uma altura de uns 5 metros.

Eu e Fernando, protuberantes barrigas à frente, rimos amarelo. Luciano disse não. Mônica torceu o nariz. Dani e Cris fizeram o sinal da cruz. À insistência do Pierre, fomos.

Subimos a pedra escaldante, Pierre e Fernando gemendo com as bolhas que nasciam de seus pés. Eu, cascudo, feliz da vida, mantinha-me incólume diante da brasa sob o solado de pele.

Chegamos ao ponto.

Diante da altura assombrosa, eu e Fernando rimos, agradecemos penhoradamente, e quando iniciávamos a marcha da volta ouvimos o grito de Pierre, já no mar.

Diante de nosso patente medo, Pierre subiu de volta, um Tarzã niteroiense, e nos encorajou.

Saltou de novo. Uma horda de bárbaros batia palmas e gitava “pula, pula, pula”, imaginando o espetáculo daquelas duas orcas saltando ao mar.

Pulei eu primeiro. Fernandão em seguida. “Tá, e agora?”, perguntamos já sem fôlego. “Vamos nadando pra praia”, disse Pierre animadíssimo.

De um lado, mar. Do outro, mais mar. À frente, o horizonte completando o quadro de naufrágio. Era necessário muito nado, em alto-mar, contornando a pedra monstruosa daquele ângulo, para que chegássemos à praia.

“Vamos, vamos, vamos”, urrava o Namor de Niterói. “Nada, nada, nada!”, urrava a patuléia do alto da rocha. Inês era morta. Começamos.

E, meus amigos, eis o drama. Esse que vos escreve deu vigorosas braçadas em direção ao Pierre, que comandava a estranhíssima excursão. É preciso dizer que um dos argumentos usados pelo Pierre foi o de que aquela travessia era muuuuuuito comum, o que gerou o comentário do Fernando: “Se é muito comum por que o mar não está engarrafado e apenas nós estamos aqui?”

Em menos de um minuto, já não mais conseguia superar a marola, fortíssima, e a correnteza que me empurrava em direção à pedra. Bebia muita água. Percebi, em pânico, que a horda se movimentava na pedra acompanhando nosso nado, e via braços abanando, urros de “cuidado”, “nada mais pra lá”, uns sádicos rindo, outros tanto rolando de rir apontando para mim como se eu fosse – talvez eu fosse – uma baleia encalhada perto da costa.

A vida passou-me em filme, em segundos, o Estephanio´s, minha Tomtom eu te amo, a Pimentinha, mamãe, papai, Fefê, meu deus e a feijoada dos meus 35 anos, vi o corpo de Cláudia Lessin na Avenida Niemeyer, minha Bia amada, não me falte logo agora!, porra, tô na terra de Araribóia, cadê o índio amigo de papai?, Cris, quero ir ao aeroporto dizer-lhe adeus, Comandante, cadê você?, Mariana, eu não ia te fazer um strudel de maçã?, eu quero ver Maria Rita no Canecão de novo!, Ana Clara, minha afilhada amada, Milena, querida, eu quero levá-las ao circo um dia desses, Dona Sá, tu não disse que reza pra mim todos os dias?, dia 07 eu quero ir à Marechal!, Sônia, por que eu não estou na sua casa comendo coisinhas em potinhos na cozinha?, Santa Bárbara, pára com a caceta do vento, ô Iara Mãe d´Água, cadê tu criatura?, Nazaré, eu não fui na tua procissão, mulher?, me ajuda, porra!, Dalton, eu canto o quê numa hora dessas?, e ouvia apenas a voz do Pierre… ” tô aqui, tô aqui…”, e, queridos, quando eu conseguia pôr a cabeça pra fora d´água, meus cabelos imensos cobriam meus olhos, parecia Xangô à deriva.

Olhando os babacas na pedra rindo muito, cantava pra dentro os versos do Aldir, “quem sacanear, encaro e não fujo, eu sou marujo da Praça Mauá!”… Aí vinha mais onda e nem sinal da praia, e Pierre estendendo a mão, “tô aqui, tô aqui, dá a mão, dá a mão…”. Pierre era Santa Bárbara, Iemanjá, era a sereia que me tentava me salvar – o cara é espada, amigos, tudo é uma questão de momento e desespero – e nada de praia, até que avistei a faixa de areia.

Vi nossa barraca, Estephanio´s reluzindo contra o sol, minha amada estendia os braços feliz com minha conquista nem de longe imaginando que estava sucumbindo, mas lá estava a mão do cara, “calma, descansa, respira, tô aqui, calma, tô aqui…”, e eu já havia bebido o equivalente a 20 latas de água salgada, e nada do pé tocar a areia, até que encostei no fundo.

As pernas me faltavam, não havia braços, não havia nada além de uma estúpida alegria por ter sobrevivido.

Aí pedi arrego, aceitei apoiar-me nos ombros do bom marujo, e cheguei à areia, verde como a mata que circunda a praia, azul como o biquini da Dani, vermelho com a marca da Brahma na barraca, a cabeça zunindo, tremendo, e caí na cadeira de onde só levantei quando o sol e pôs.

Obrigado, Pierre. Jamais esquecerei disso. Como jamais farei isso de novo. Beijo, Edu.”

Pois bem. Estamos indo amanhã pra Araçatiba, uma praia encravada na Ilha Grande. Eu, Dani, Maria Paula, Pierre, Simone, Betinha, Débora, Guerreira, Sérgio e Cícero.

Ontem à noite encontrei-me com Pierre que, sádico, sorriu, estendeu a mão que me salvou e disse, “pronto pra nadar, Edu?”.

Eu vou.

Até.

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OBSERVAÇÕES À LOMBROSO

Doces figuras, na quarta-feira, dia 31 de março, reuni-me com meus Confrades, da S.E.M.P.R.E. (Sociedade Edificante Multicultural dos Prazeres e Rituais Etílicos), num buteco na Rua Almirante João Cândido Brasil, antigamente chamada de Rua Alegre, onde morou o Anjo Pornográfico, Nelson Rodrigues.

À mesa, os seis Confrades que hoje compõem a Confraria, eu, Fefê, Vidal, Zé Colméia, Malavota e Dalton. A ordem, como se vê, não é alfabética. Pra bom entendedor, meia palavra, bosta.

Antes de entrar no tema que pretendo lançar à mesa, preciso lhes dizer que um Encontro da Confraria equivale a uma usina hidrelétrica como a de Itaipu em matéria de idéias, que jorram aos borbotões, e que crescem à medida que a bebida vai sendo sorvida.

Ao final do Encontro, ou melhor, no dia seguinte, é comum fazermos um exercício joio/trigo daquilo que sobra na memória. E para que todos tenham uma idéia do que seja “a bebida que vai sendo sorvida”, devo dizer que nesse específico Encontro derrubamos perto de quarenta garrafas de Original, uma garrafa inteira da cachaça Rochinha envelhecida 5 anos, algumas doses de Campari para brindarmos à memória de Elis Regina, a homenageada da noite (foi a bebida que assistiu Elis morrer), doses de Domeq e outras doses de uma cachaça que nos foi oferecida pelo atônito e eufórico dono do estabelecimento. Lancei, em determinado momento da noite, duas teorias discutíveis, mas que, sendo minhas, são definitivas.

A primeira: todo elemento que carrega seu celular penduradinho na cintura, sendo agravante se o aparelho vai guardado dentro de uma bolsinha ridícula de couro ou de plástico, é mau caráter.

A balbúrdia instalou-se na taberna. Um dos Confrades, cujo nome omitirei por enquanto, um autêntico coscorão, levantou a blusa de malha que vestia, apontou pro celular na cintura, dentro de uma bolsinha plástica, e disse:

– E agora?

O silêncio. E eu, de volta:

– Mantenho o que disse.

Tal teoria veio à tona porque um sujeito, numa mesa ao nosso lado, sozinho, de bermuda, camiseta sem mangas, um cordãozinho vulgar pendurado pra fora e chinelos Rider, telefonava aos berros pra alguns amigos, chamando-os para o tal buteco, sem êxito. E onde guardava seu celular depois? Na cintura, na indefectível cintura dentro de uma tosca bolsinha idêntica a de nosso Confrade. Um chato, o pobre-coitado. Nenhum amigo apareceu. Bebeu duas garrafas sozinho e partiu, triste como um paquiderme.

A segunda: não há nada mais odioso, repulsivo e irritante, do que ouvir um sujeito referir-se à mulher como “esposa”. O próprio nome “esposa” já é nojento por si só. O som do “pô”, no meio do trissílabo desgraçado, torna o nome ainda mais horroroso. É claro que isso vale para quem tem, digamos, menos de 40 anos. Os mais velhos, esses sim, ainda que pronunciando o abjeto vocábulo, têm perdão. Muitos se referem assim às suas mulheres… “minha esposa”, “minha senhora”… Mas eles têm, repito, meu perdão.

Assim, se aqueles que usam o celular na cintura não têm caráter, os que chamam suas mulheres de “esposa” são verdadeiras bestas, prontas para receber a coroa de galhos faustos que não tardará.

É, dirão vocês, filosofia barata de botequim. E é mesmo.

Eu, pelo menos, aprendi muito mais dentro dos butecos do que nos bancos da faculdade.

Até.

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