Arquivo do mês: abril 2012

43

Amanhã, 27 de abril, comemoro 43 anos de vida. Será, digo sem medo do erro, meu mais emocionante dia de aniversário desde minha chegada ao mundo, na maternidade da Venerável Ordem Terceira da Penitência, em frente ao morro do Borel, na Conde de Bonfim, aorta da minha aldeia, a Tijuca – é claro. E será profundamente emocionante porque eu sempre acho, no dia 26 de abril, que o dia seguinte será meu mais emocionante aniversário. Mas será, e dessa vez não por conta, apenas, dessa infantil sensação de todos os abris, que mistura ansiedade e expectativa. Será minha primeira manhã de aniversário sem ter por perto o sorriso que me iluminou durante doze aniversários, de 2000 a 2011, e ao mesmo tempo o primeiro aniversário tendo ao lado o sorriso moreno que o minuano me trouxe, a mais aguda antítese do amargo do mate que ela me apresentou, ela que chega hoje pra tornar minha véspera mais bonita.

Será uma noite, e uma manhã, e um dia inteiro – bem sei – de saudade e de emoção, de alegria e de gratidão, de profundo agradecimento à Vida que, sim, sempre foi boa pra mim ainda que tenha me pregado tantas peças – e eu soube fazer, é como penso, de cada uma delas uma espécie de plataforma da qual saltei para voltar ao chão mais inteiro. Será, sobretudo, um tempo permeado pelo amor na mais ampla acepção da palavra. Terei, a meu lado, como em todos os 27 de abril, fantasmas vivos e mortos que chegam pra mais perto a fim de assistirem à inauguração da nova idade. Ouvirei, pela manhã, a vozearia das crianças correndo atrás de uma bola de meia numa vila premida por edifícios e levarei o mesmo susto de todos os anos quando reconhecer, entre a algazarra, minha própria voz. Sentirei, no rosto, o vento dos leques das minhas tias, e o vento que corta São Cristóvão e a Quinta da Boa Vista, palco de festas de aniversário que meus pais armavam, festas que eram minhas e de meu irmão, o do meio, que faz anos logo depois, no dia 09 de maio. Terei flores em casa, flores que eu mesmo comprei, pra dizer à mulher em flor que são de flores os caminhos que ela desenha. Diante do espelho, no começo da manhã, a barba branca e cerrada atestará o acúmulo do tempo em mim, e eu agradecerei, levando água fresca em direção ao rosto, ao Tempo que só me trouxe razões pra agradecer – agradecer, nada pedir.

Fiz as escolhas certas, tenho amigos por perto, uma porção de histórias bonitas pra contar, uma porção de dores para serem quaradas, um tanto, assim, de amores pra me sustentar, um desejo absurdo de viver mais sei-lá-quantos anos, e essa convicção, ela também quase-infantil, de que até aqui errei no que pude, de que até aqui errei no que quis, de que sou, precipuamente sou, um homem feliz.

Ser assim, pra sempre, a cada 27 de abril, é o presente que me darei amanhã pela manhã, de mãos dadas com ela, quando abrir os olhos diante de tantos olhos em volta de mim, em torno de nós – sozinhos, entretanto.

Até.

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UM DESFILE DE FANTASMAS

Ontem, 21 de abril, fez 90 anos minha tia Linda, a única irmã viva de minha avó Mathilde, que foi oló em dezembro de 2010, num domingo, dia 05, como lhes contei aqui. Lembrei-me disso (ou melhor, fui conduzido a lembrar) por conta de ter visto, postadas no Facebook, as fotografias da festa de aniversário de seus 90 anos – por uma das filhas, por uma das netas, conseqüentemente por uma tia, por uma prima. Festa para a qual, por razões absolutamente desinfluentes para o desenrolar do novelo de confissões que estou fazendo, não fui convidado. É um naco da família com o qual não tenho contato lá se vão mais de 30 anos.  Tia Linda (Carlinda Monteiro de Barros) era casada com tio Beneval, sofre de Alzheimer há alguns anos – vovó contava – e teve dois filhos: Maria Vitória e Alexandre, e com este último encontrei-me por absoluto acaso em fevereiro de 2012 no Centro, o que me causou um abrupto e violento arremesso em direção ao passado (como lhes contei aqui). E aqui, neste outro texto, vocês podem ver tia Linda ao lado de minha avó, ambas muito novas, com Maria Vitória no colo da tia Linda e mamãe no colo de vovó. E vejam vocês que as fotos que vi ontem, de tia Linda com 90 anos, mostram que a mesma é, ainda, esculpida e encarnada, minha saudosa avó.

Vai daí que sofri, ao me deparar com a primeira foto da festa, novo e impactante arremesso em direção ao passado – mas dessa vez agravado por uma história que passo a lhes contar, acompanhem.

Vovó e tia Linda tinham outros irmãos. Vovó casou-se com meu avô Milton – tiveram mamãe. Havia uma irmã, Maria Florinda (o mesmo nome de mamãe, homenagem a ela), que morreu aos 15 anos, de tétano. Tia Linda casou-se, como já lhes disse, com tio Beneval, e tiveram Maria Vitória e Alexandre. Há, ainda, um irmão que foi adotado quando bebê, ainda vivo, Pedro Paulo – solteiro. Havia tio Hique, o Carlos Henrique, que casou-se com a primeira mulher, a quem não conheci, e que teve a Sonia e o Julio Cesar. Casou-se depois com a Francis, e nasceu a Carla. Havia o tio Silvio, que foi casado com tia Irene, tiveram a Carmen. E havia o tio Chico, Francisco Monteiro de Barros, que foi casado com a tia Noêmia, e nasceram Eugênio Augusto e Luis Carlos. Tio Chico separou-se, eu era ainda menino, e foi pra Brasília (era tudo o que eu sabia).

Vamos lá: estão vivos, de toda essa tropa, mamãe, a tia Linda, Maria Vitória, Alexandre, Pedro Paulo, Sonia, Julio Cesar, Francis, Carla, Carmen e Noêmia. Onze pessoas. Outros dez estão mortos. Não estou contando, faça-se a ressalva, os dois a quem não conheci: a primeira mulher do meu tio Hique e a segunda mulher do meu tio Chico. A Maria Florinda – tia Mariazinha – eu também não conheci, mas a mesma era, digamos, um mito familiar; não era raro ouvir falar dela, de suas histórias, tratada quase como uma santa que foi levada ainda tão moça. São onze os vivos, são dez os mortos.

Jogo duro entre vivos e mortos.

Até que o destino, danado, aumentou a vantagem a favor dos vivos. Vou lhes contar essa história.

Eu era menino, meninote ainda, quando tio Chico sumiu das festas de família. Tio Chico era, lembrem-se, casado com a tia Noêmia. E sobre a tia Noêmia, e sobre o fascínio que a tia Noêmia exerce, por exemplo, sobre meu pai, leiam isso aqui. Como eu lhes disse, eu era muito menino – um molecote. E dando por falta do tio Chico nas festas, nos almoços, por ele perguntando, ouvia das mulheres da família, farfalhando os leques abertos:

– Chico largou da Noêmia.

– Chico enrabichou-se com outra.

– Ah, o Chico! – era a bufada clássica das mais-velhas.

Sei que correram os anos e dei de ouvir – sempre fui atento, atentíssimo! – das mesmas mulheres, tias, tias-avós, primas mais velhas:

– Chico teve uma filha. Fora do casamento! – e as católicas se benziam, as espíritas citavam Kardec, as da macumba faziam o sinal da cruz.

Vão tomando nota do caldeirão onde fui cozido.

As mais maledicentes – não há reunião de família sem a exibição dos talentos do serpentário – diziam, rangendo os dentes:

– Uma bastarda!

Faço a confissão tardia (e que, anos depois, tornou ainda mais pujante minha paixão pela obra rodrigueana).

Eu tinha verdadeiro fascínio, delirava, sentia tremer a alma pequenina que habitava meu corpo quando ouvia a palavra santa: bas-tar-da.

Eu repetia, de mim para mim, molecote de calça curta, e delirava, revirava os olhos, sentia suar as mãos, acelerar o coração, vivia o prazer do proibido sem ao menos saber o sentido de tudo aquilo: bastarda, bastarda, bastarda. Eu desejava – vejam a que ponto chega a profundidade de minha confissão dominical – namorar, mais à frente, uma bastarda. No colégio, não sei precisar o ano, passei a me interessar de modo diferente pelas meninas. E sempre fazia parte de meus cortejos:

– Você é bastarda?

Vejam: não ser bastarda me causava um desinteresse imediato, era como se aquela menina subitamente se esfumasse diante de mim caso não fosse bastarda. Eu queria uma bastarda. A todo custo eu desejava tocar, beijar, cheirar, abraçar, namorar uma bastarda.

Não sei lhes dizer também quando essa obsessão pela bastarda passou. Nunca namorei uma bastarda. Mas os 9o anos da tia Linda, esse desfile de fantasmas na minha memória, trouxeram à baila a obsessão pela figura da bastarda. E a isso se soma a impressionante história que vou lhes contar agora.

Dia desses recebo um e-mail de uma mulher contando que veio parar aqui no blog por conta de uma pesquisa qualquer no Google. Dizia, no e-mail, que sua avó tinha o mesmo nome de minha bisavó – Mathilde Veloso Monteiro de Barros. E-mail pra lá. E-mail pra cá. E-mail indo. E-mail vindo. E dá-se o inusitado: Angela Paula, 35 anos, é minha tia – filha de meu tio Chico.

Aos 43 anos, plenamente ciente do significado da palavra que tanto me fascinou quando moleque, fui tomado, naquele dia (era, já, um final de tarde), por uma profunda emoção diante desse encontro – ainda que virtual, por enquanto – com a filha (legítima, diga-se) de meu tio Chico. E quase-morri – faço nova confissão – quando ela me falou tão docemente sobre sua avó, minha amada e saudosa bisavó, de quem tem, como parca lembrança, apenas e tão-somente uma única fotografia.

Ela, ainda bebê, no colo de dona Mathilde.

Até.

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9 MESES

Há quase um mês não dou as caras por aqui, no balcão virtual do Buteco, e acho que é, desde 2004, quando escrevi o primeiro texto deste blog, e já são mais de 2.000 textos de lá pra cá, o maior período de ausência minha por essas bandas. Não há, confesso, razão específica para isso: penso às vezes que é falta de assunto, penso que é porque tenho me dedicado, duas vezes por semana, diante da médica de alma, minha psicanalista, a fazer minhas confissões no divã (não deito no divã, mas é como se) – o que torna sem sentido repetir tudo por aqui -, penso que é porque tenho preferido falar de mim para mim, penso que é porque estou envolto pelo vento minuano que vem do Sul pra me acarinhar o rosto, penso que é porque tenho preferido viver intramuros as novidades que me chegam – são muitas, como se vê, as possibilidades.

Mas hoje acordei cedo e o “9” no calendário foi, de novo, implacável: foi num dia 9 que a Sorriso Maracanã foi oló.  Num 9 de julho. Há 9 meses, portanto.

Você diz “nove meses” e a associação é imediata: fertilidade, fecundação, gestação e parto. Pois eu, este que vos escreve, meus poucos mas fiéis leitores, embora tenha lhes prometido o silêncio sobre este tema em janeiro de 2012 (aqui), volto a ele apenas para lhe dizer: experimentei, desde o último mês de julho, a fertilidade, a fecundação, a gestação e o parto.

Sou, nesse 9 de abril – e em todos os abris eu sou um homem profundamente comovido por conta de meu aniversário, no dia 27 -, um homem novo e renovado sob a égide daquilo que é, queiramos ou não admitir o que pode sempre soar piegas, a força motriz do ser humano: o amor em estado bruto.

É impressionante viver depois do que eu vivi.

É impactante perceber a metamorfose da dor em saudade. É fascinante, até, essa constatação viva, nua, crua, de que fizemos a escolha certa, as escolhas certas, é emocionante sentir a lágrima que corre do olho em direção à boca, fruto salgado que brota de olhos que recuperaram o brilho justamente por conta da certeza de que fizemos as escolhas certas. Emergir, pode-se dizer. Nascer de novo, por isso a imagem do parto.

Nove meses depois, a saudade não dói mais como doíam as dores que fizeram tanto mal a ela. Nove meses depois, a saudade emociona – e não se trata de “apenas” emociona… – e é tão bonita quanto seu sorriso (que permanece, vivo, escancarado, luminoso).

Nove meses depois, tendo gestado a saudade com zelo de mãe, com cuidado de pai, re(nasce) o homem.

Ergo, daqui, de pé diante do balcão imaginário, a cuia cheia de chimarrão bem cevado em nome da saudade que me comove e que, de certa forma, me move por uma nova estrada que percorro de mãos dadas, também com a saudade que a distância dá, com a mulher que é meu pago e a quem repasso o trago do que cevei.

Até.

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