9 MESES

Há quase um mês não dou as caras por aqui, no balcão virtual do Buteco, e acho que é, desde 2004, quando escrevi o primeiro texto deste blog, e já são mais de 2.000 textos de lá pra cá, o maior período de ausência minha por essas bandas. Não há, confesso, razão específica para isso: penso às vezes que é falta de assunto, penso que é porque tenho me dedicado, duas vezes por semana, diante da médica de alma, minha psicanalista, a fazer minhas confissões no divã (não deito no divã, mas é como se) – o que torna sem sentido repetir tudo por aqui -, penso que é porque tenho preferido falar de mim para mim, penso que é porque estou envolto pelo vento minuano que vem do Sul pra me acarinhar o rosto, penso que é porque tenho preferido viver intramuros as novidades que me chegam – são muitas, como se vê, as possibilidades.

Mas hoje acordei cedo e o “9” no calendário foi, de novo, implacável: foi num dia 9 que a Sorriso Maracanã foi oló.  Num 9 de julho. Há 9 meses, portanto.

Você diz “nove meses” e a associação é imediata: fertilidade, fecundação, gestação e parto. Pois eu, este que vos escreve, meus poucos mas fiéis leitores, embora tenha lhes prometido o silêncio sobre este tema em janeiro de 2012 (aqui), volto a ele apenas para lhe dizer: experimentei, desde o último mês de julho, a fertilidade, a fecundação, a gestação e o parto.

Sou, nesse 9 de abril – e em todos os abris eu sou um homem profundamente comovido por conta de meu aniversário, no dia 27 -, um homem novo e renovado sob a égide daquilo que é, queiramos ou não admitir o que pode sempre soar piegas, a força motriz do ser humano: o amor em estado bruto.

É impressionante viver depois do que eu vivi.

É impactante perceber a metamorfose da dor em saudade. É fascinante, até, essa constatação viva, nua, crua, de que fizemos a escolha certa, as escolhas certas, é emocionante sentir a lágrima que corre do olho em direção à boca, fruto salgado que brota de olhos que recuperaram o brilho justamente por conta da certeza de que fizemos as escolhas certas. Emergir, pode-se dizer. Nascer de novo, por isso a imagem do parto.

Nove meses depois, a saudade não dói mais como doíam as dores que fizeram tanto mal a ela. Nove meses depois, a saudade emociona – e não se trata de “apenas” emociona… – e é tão bonita quanto seu sorriso (que permanece, vivo, escancarado, luminoso).

Nove meses depois, tendo gestado a saudade com zelo de mãe, com cuidado de pai, re(nasce) o homem.

Ergo, daqui, de pé diante do balcão imaginário, a cuia cheia de chimarrão bem cevado em nome da saudade que me comove e que, de certa forma, me move por uma nova estrada que percorro de mãos dadas, também com a saudade que a distância dá, com a mulher que é meu pago e a quem repasso o trago do que cevei.

Até.

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14 Comentários

Arquivado em confissões

14 Respostas para “9 MESES

  1. Um brinde a você…!!!!
    Bjs.

  2. arnobiorocha

    Edu,

    Para você é o 9 que lhe pisca na mente, assim como para mim o 11. As dores, ou nossas saudades, muitas vezes são transformadas em lágrimas que nos regeneram como homens, gente e vida.

    Grande abraço,

    Arnobio

  3. Pedro Daltro

    Edu, como é bom ler isso depois de ler e reler seus textos sobre a Dani. Já até mostrei para a minha mulher, que se recusou a ler por ser muito triste (eu contei antes a história, burro eu!!). E o meu “não é triste, longe disso, é lindo” não adiantou, mas um dia ainda faço ela ler essa história linda.

    Ah, se lembra de um maluco que te cumprimentou no desfile do Quizomba esse ano?? Sou eu!!

    Abração!

  4. mirtes

    Oh, Edu! Passo por aqui todos os dias. Que bom encontrá-lo.
    “É impressionante viver depois do que vivi” é compreensível.
    Volte quanto puder.

    Um beijão, Mirtes.

  5. Rodrigo Medina

    Edu, troço bonito demais, cara! Só aprendo contigo, camará! Boa semana!!

  6. Bom retorno, Edu!

    Um forte abraço!

    Roberto Fraga Jr

  7. Eugenio Raggi

    Daqui a 3 dias, na próxima sexta, serão 4 anos sem a ‘dona da minha vida’. O tempo passa, a dor se faz nossa amiga, mas a saudade é eterna. Saravá, Edu!

  8. wedila

    Eu, que não conheço essa dor ainda, me comovo, choro e rio com você.

  9. Karla

    É muito triste saber que em pleno século XXI mulheres jovens, com tanta vida ainda pela frente, perdem diariamente a luta para essa coisa idiota chamada câncer. É difícil aceitar. Força Edu, e lembre-se de que “as pessoas não morrem, ficam encantadas”, como escreveu Guimarães Rosa. A sua Sorriso está sorrindo encantada em algum lugar, esperando seu encantamento também.

  10. Ludmila Dias

    Edu, impossível não se emocionar com cada palavra. Grande beijo…

  11. Krong

    Pois é Edu, há muito não entrava no teu blog. Em dezembro do ano passado perdi minha esposa em um acidente de carro e sei muito bem a dor que você sente. Ainda estou me recuperando, mas é sempre complicado enfrentar essa situação.

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