MEU PAI FAZ ANOS AMANHÃ

Faz anos, amanhã, meu velho pai. E uma boa maneira de (começar a) conhecer meu velho pai é lendo Papai também é fóbico, que escrevi aqui, em 19 de abril de 2011. No texto, conto sobre uma das facetas do meu pai, um homem multifacetado – como quase todos nós.

Escolhi para ilustrar o texto de hoje, que vai como homenagem ao aniversariante de amanhã, uma foto que virou, entre os familiares, uma espécie de patuá – e explico.

Tal foto foi tirada na Bahia, durante uma viagem que fizeram, ele e minha mãe, de férias. E meu velho pai tem, na mão esquerda, um galho, um graveto (sei lá que diabo!), usado para escrever nas areias da Bahia o apelido de minha mãe: Pixuxa. E faço, desde já, a ressalva: somente meu pai, mais ninguém, chama mamãe de Pixuxa, assim como ela, e somente ela, chama papai de Meudi. (lê-se Mêudi, não Meudí, e vão tomando nota do nível de precisão de meu relato). Pois esta foto teve, para a família, o impacto que teve a declaração de James Stewart para Katharine Hepburn, em Núpcias de Escândalo, em 1940, a declaração de Dalila a Sansão, a declaração do príncipe para Rapunzel.

Tal foto – diga-se – foi digitalizada a partir de um slide. E sessões de slide, lá em casa, sempre foram impactantes. Vou lhes contar com eram as tais sessões.

Papai montava o projetor (que sempre – eu disse sempre! – enguiçava no meio, requerendo uns tapas dados por meu pai) e chamava-se toda a família. Mamãe montava uma tela na parede e começava a sessão (sempre as mesmas caixas de slide, sempre os mesmos comentários!). Era aparecer essa foto e começava:

– Oh, Mariazinha, que lindo… – e vovó enxugava uma lágrima furtiva que subitamente lhe saltava dos olhos.

– Esse é o Isaac escrevendo Pixuxa numa praia em Salvador… – dizia mamãe, orgulhosa, o que todos já sabíamos.

Meu avô, meio avesso a demonstrações de afeto, tossia e dizia:

– Bacana.

Tia Idinha, irmã de minha bisavó, gemia entre os dentes:

– Benza, Deus!

Enfim, a foto era um ícone.

E por falar em ícone, deu-me vontade de lhes contar sobre um dos ícones de meu pai: a tia Noêmia (acabo de lembrar que, para conhecer melhor meu pai, é imprescindível ler isso aqui).

Tia Noêmia, casada com meu tio Chico, era nora de minha bisavó Mathilde, cunhada de minha avó Mathilde, chamada de tia por minha mãe, por nós – eu e meus irmãos – e também por meu pai. E o meu pai sempre teve verdadeira adoração, idolatria, quase um fanatismo cego pela biografia da tia Noêmia. E a tia Noêmia passou a ser, mesmo para quem não a conhecia (tia Noêmia ainda está vivíssima!), uma figura – por conta das reações do meu pai. E notem a que ponto a coisa chega.

Lembro-me de um dia, durante um churrasco de aniversário de um amigo (meus pais presentes), ter apresentado papai a uma amiga. Eu disse o óbvio:

– Esse é meu pai. Pai, essa é a Noêmia.

E bastava eu dizer o nome – Noêmia – para começar uma espécie de transe. Papai eriçou os pelos, pôs ereta a espinha, respirou fundo e saiu dizendo:

– Eu gosto da Noêmia. Gosto, gosto. Gosto da tia Noêmia!

Minha amiga se assustou (faço a confissão tardia).

Tia Noêmia, que hoje mora no Méier, morava numa casa no Engenho Novo. E muitas vezes mamãe dizia, aos sábados:

– Meninos! Aprontem-se. Vamos pra casa da tia Noêmia.

E meu pai guinchava na sala, uivava como um lobo faminto diante da presa, dava de repetir:

– Uma lutadora! Uma batalhadora, a tia Noêmia! Eu gosto da tia Noêmia!

Encarava um de nós e dizia, olhos nos olhos:

– Você entende? Eu gosto. Gosto. Gosto da tia Noêmia!

Lembro-me de que no jardim da tal casa do Engenho Novo havia uma das coisas mais feias e impactantes que eu jamais vi noutro lugar: havia uma réplica da estátua do Cristo Redentor, em gesso, sobre a grama, e em volta do Cristo, de mãos dadas, bonecos dos Sete Anões e da Branca de Neve (creiam que isso, essa visão, para uma criança, tem conseqüências gravíssimas que ainda não descobri).

Um dia eu disse, chegando lá:

– Que coisa estranha esse Cristo com esses anões…

Fefê, meu irmão mais velho (mais novo que eu, entendam), emendou:

– Bizarro.

Pois meu pai nos catou pelas mãos e foi categórico:

– Cristo, anões, Branca de Neve… é tudo da tia Noêmia, entenderam? E eu gosto da tia Noêmia. Não gosto?

Com medo, assentimos.

– Pois é lindo!

E ele deu-se por satisfeito.

E vejam – é como vou encerrar a crônica de hoje – a que ponto chega a idolatria de meu pai (antes, leiam aqui sobre o velório de minha avó Mathilde).

Vovó jazia, tadinha, no caixão de madeira. Mamãe, sua filha única, ao lado da mãe. Eu, Fernando, Cristiano, seus netos, também. E foi, como lhes conto no texto indicado, “um velório tijucano e rodrigueano”. Um detalhe, entretanto, escapou-me do tal relato. Vamos a ele.

A certo momento chegou, para a capelinha, a tia Noêmia. Meu pai, que não é muito chegado à visão de qualquer defunto, estava sentado num banquinho próximo ao caixão. Ao dar com tia Noêmia chegando, a cena.

Atirou-se, trôpego, ofegante, afoito, aflito e arquejante nos braços da tia Noêmia. E, novamente como um lobo, deu de uivar:

– A dona Mathilde sabia, tia Noêmia, o quanto eu gosto da senhora! Eu gosto! Gosto, gosto, gosto, tia Noêmia!

E não largou, meu pai, das mãos da tia Noêmia.

Cristiano, o mais novo, em dado momento incomodou-se:

– Pai! Fica com a minha mãe!

Eu, caminhando um pouco mais à frente pelas aléias do São Francisco Xavier, ouvi meu pai dizer:

– Cristiano, você e seus irmãos estão com a sua mãe! Vou ficar com a tia Noêmia, coitada, que está sozinha.

E repetiu, de si para si, até a última pá de cal:

– Eu gosto da tia Noêmia. Gosto!

Até.

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6 Comentários

Arquivado em confissões, gente

6 Respostas para “MEU PAI FAZ ANOS AMANHÃ

  1. Johnson

    Parabéns pro seu pai… abraço.

  2. ANA PAULA CAMPOS

    Dudu: me acabei de gargalhar imaginando esses diálogos!!! Eu também gosto da tia Noêmia… quanto tempo não a vejo! Você tem notícias da Glorinha? Seus textos são simplesmente fantásticos! Mil beijos.

  3. ANA PAULA CAMPOS

    Mande beijos para tio Isaac e diga que desejo que tia Noêmia seja a primeira a felicitá-lo!

  4. Pingback: UM DESFILE DE FANTASMAS | BUTECO DO EDU

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