ARREMESSO AO PASSADO NO CENTRO DO RIO

Eu retomo hoje – já havia retomado, é verdade, mas o coração tem razões que a própria razão desconhece, e eu me perdi, ou melhor, eu me esqueci de que precisava vir ao balcão do Buteco lhes fazer minhas ordinárias confissões – minhas atividades por aqui. Eu ia, eis a verdade, lhes contar sobre outro assunto que não o que me traz agora para diante do monitor. Acompanhem meu raciocínio.

Escrevi aqui que “uma criança que teve um tio chamado Beneval não pode – não pode mesmo – crescer como as outras.” (leiam aqui dois textos sobre o tio Beneval para pescarem o espírito da coisa).

Meu tio Beneval, casado com minha tia Linda, irmã de minha avó Mathilde, morreu há muitos anos (eu ainda usava calças curtas quando ele foi oló). Tio Beneval e tia Linda tiveram dois filhos, Maria Vitória e Alexandre. Ela, minha madrinha a quem não vejo há mais de – o quê?! – 30 anos (um pouco mais, um pouco menos do que isso). Ele, idem.

É sobre o Alexandre que quero lhes falar.

A imagem que tenho dele – ou que tinha, vocês já vão entender – é a de um homem novo, barbado e cabeludo (cabelos compridos, fartos).

Pois bem. Caminhava eu, há pouco, voltando do prédio do Ministério Público em direção ao escritório, quando na esquina da rua da Quitanda com a São José (dei uma passada numa lanchonete para comprar um suco) ouvi:

– Edu! Edu!

Estaquei e olhei à minha volta. Vi um homem vindo em minha direção. Apressando o passo, se aproximando, disse:

– Eduardo Goldenberg?

– Eu.

– Sabe quem eu sou?

O “sabe quem eu sou?” foi a senha para o início da viagem, do abrupto arremesso em direção ao passado. O homem diante de mim não era um homem novo, não era barbado, não era cabeludo, não tinha cabelos compridos, fartos, sequer tinha cabelos, aquele homem. Eu estava diante de meu tio Beneval, cuspido e escarrado (troço impressionante, faço questão de lhes dizer). Alto, magro, rosto comprido, careca, era meu tio Beneval redivivo. Fui preciso do início ao fim na resposta:

– Acho que sei quem você é. Tio Beneval!

Riu, o Alexandre, a quem eu jamais reconheceria não fosse a semelhança aguda, agudíssima, com seu pai. Estendeu-me a mão, trocamos duas dúzias de palavras incapazes de unir o tempo e ele não desconfia o que vivi naqueles dez minutos. À minha volta (e eu era pequeníssimo, estava de calças curtas e camisa listrada), minha bisavó, minha avó Mathilde, tia Linda, minha madrinha, mamãe e papai, Fernando ainda bebê, eu ouvindo o som da roda do meu Velotrol riscando o chão de cimento da vila, sentindo o cheiro do bolo que saía quente do forno da cozinha da casa da tia Linda, meus primos Max e Ana Paula (Adriana ainda não havia nascido), e eu disse um sem-fim de frases desconexas. Por razões absolutamente incompreensíveis eu contei sobre a Dani (e ele já sabia, ele me lê, vejam vocês!), contei que ainda corto o cabelo no Salão América, a poucos metros do prédio onde moravam tia Linda e tio Beneval, seus pais, contei orgulhoso que o Fefê está na Petrobras, que o Cristiano trabalha na Vale, não disse coisa com coisa, falei mal do Deivid e do gol mais perdido da história dos campeonatos cariocas, perguntei pela tia Noêmia, senti minha avó fazendo festinha no meu rosto, contei que meu Carnaval havia sido fabuloso, que eu saí de Vilma Flinstones no Bola Preta, e quando nos despedimos ainda fiquei alguns minutos parado na esquina, como uma piorra, esperando que todos os fantasmas retomassem seu curso, seu rumo, até que eu mesmo me refizesse do tranco que é um inesperado arremesso desses, em direção ao passado.

Até.

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9 Comentários

Arquivado em confissões

9 Respostas para “ARREMESSO AO PASSADO NO CENTRO DO RIO

  1. Radical Livre

    Não, não. VELOTROL

  2. Ary Gurgel

    Caro Edu,
    Parabéns. Poucas vezes li descrição tão próxima da realidade do encontro com o passado. Pior, com o passado não vivido. Cada fio de cabelo desertor do Alexandre representando um dia desses trinta anos de tantas vidas inescrutáveis para você. Aconteceu comigo uma vez no Largo da Carioca e senti a solidão de um Robinson Crusoé sem radinho de pilha. E sem iphone – não foi à toa que tu citaste o Deivid, campeão do isolamento. Quando dei por mim estava em meio aos ensaios do Tá na Rua do Amir Haddad. Desde então quando ouço meu nome pelos logradouros, ignoro solenemente e sigo em direção ao desfecho inevitável.

    • Engano seu, Ary. Não vivi, ali, o “passado não vivido”. Conheci – e bem! – cada um dos fantasmas que me cercavam durante o rápido papo com o Alexandre. Os 30 anos de hiato não existiram no universo que nos une – eu como sobrinho, ele como tio, filho de uma das irmãs de minha avó (ocorre-me agora que tia Linda é – é viva! – minha tia-avó e que seu filho, Alexandre, é meu tio… meu tio… meu tio o quê?!). Logo, esse passado não me pertence. Ouso no escorrer dessas confissões porque sei – ou acho que sei – que você, um de meus poucos mas fiéis leitores, é também médico de almas. Um abraço, obrigado pelo imerecido elogio.

  3. ANA PAULA CAMPOS

    Dudu: me esbaldei de rir com seu relato. Beijos mil.

  4. Pingback: TIJUCA, MEU PAGO E MEUS DELÍRIOS | BUTECO DO EDU

  5. Sonia Monteiro de Barros

    Como sempre, um delicioso texto. Um passeio nas memórias. Suas e todos que conhecem os personagens. Lembro bem do tio Beneval, da tia Linda e, claro, do Alexandre com quem brinquei muito quando era criança. bjs Edu.

  6. Pingback: OS DENTES DE MINHA AVÓ | BUTECO DO EDU

  7. Pingback: UM DESFILE DE FANTASMAS | BUTECO DO EDU

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