A ESPINHA DAS NOSSAS MONTANHAS

Não há uma única vez em que eu esteja assistindo ao pôr-do-sol e que eu não me lembre dos versos de Chico Buarque:

“O poente na espinha das tuas montanhas quase arromba a retina de quem vê”.

E mais recentemente, dos versos do Chico Bosco:

“Quando escurece e desce a lava
Sobre o morro Dois Irmãos
Brilha a montanha, cravejada
De uma estranha ilusão
No Corcovado, bóia o Cristo
Levitando contra o céu
Tudo é febril
Tudo quer ser
Tudo lateja

Todas as tardes, pouco antes
De se despedir o sol
O mar acende, prateado, quase glacial
Sou atraído pelo infinito, é doce, irmão, morrer no mar
Morrer no mar
Morrer no mar
Tenho vontade de esquecer de mim
E nesse instante me apagar
No branco sal do mar”

Pois estava eu, na quinta-feira da semana passada, já me preparando – corpo e alma – para o Carnaval, desde cedo, na praia de Ipanema, gozando dessa delícia que é a gazeta num dia útil de trabalho. Mas eu mereço, era o que eu repetia, de mim para mim, a todo tempo.

E eu me preparava para viver a minha primeira experiência de inversão do Carnaval de 2012. Eu queria assistir o ocaso do sol para que eu mesmo renascesse, reverdecesse, diante da espinha das montanhas desse Rio de Janeiro que – me perdoem a falta de modéstia… – não cansa de arrombar a retina de quem o vê de mais perto.

E o pôr-do-sol na praia de Ipanema é, dia após dia, um espetáculo único, específico, como uma impressão digital feita de nuvens, de cores, de sombra e de luz, impregnado pra sempre nos olhos das privilegiadas testemunhas diante do poente.

E nessa quinta-feira, como no verso-profecia do Chico Bosco, o mar prateou – quase glacial. O céu ganhou cores inimagináveis, que se reproduziam em mim, que iam do azul-mais-claro ao azul-mais-denso. Da nuvem mais branca, mais clara, à mais dourada, à mais escura, reprodução mágica do relevo de rocha das espinhas dilatadas boiando sobre o espelho do mar.

Deu-se ali, meus poucos mas fiéis leitores, o primeiro indício de que viria o milagre provocado pelo deus maldito que pousaria nas ruas da cidade em menos de 48 horas. Quando ouvi aquela voz, bem de perto, me dizendo um “obrigada” meio sem-jeito, como se fora eu o autor daquele espetáculo de mil cores, fiz força pra não dizer um “de nada” que me daria ares de insanidade e de soberba. Quase fui traído por conta da confusão e da profusão que se repetia em mim. O sol morria, diante de nós. E só eu sabia, só eu desconfiava, que ali, naquele começo de noite, eu recomeçava a nascer – ou percebia os movimentos que prenunciavam meu renascimento.

Até.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Rio de Janeiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s