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ARREMESSO AO PASSADO (01)

Em nove dias, completo 48 anos. E em trinta e nove dias, 17/05, completa 70 anos a minha mãe. A cada ano que passa, mais curta a ponte que passa por sobre o rio das minhas memórias e que, como nas trombas d´água, me arremessa em direção ao passado de forma desordenada, encurtando o curso do rio, fazendo desmoronar as margens, modificando as paisagens, e lá vem mais um 27 de abril, minha 48ª volta do ponteiro. Em 69, quando nasci, uma mulher de 21 anos levou-me ao colo – e embora houvesse, ali, um laço indissolúvel, havia também uma abissal distância de quase 8.000 dias de vivência entre aquela mulher e aquela criança. Hoje, 18 de abril de 2017, pouco mais de 17.500 dias depois daquele domingo de 1969, mais de um bilhão e meio de segundos depois, insisto em lutar contra a passagem do tempo porque há, em mim, morando em mim, chorando dentro de mim, o menino que nasceu no Hospital da Venerável Ordem Terceira da Providência, de frente pro morro do Borel, na Tijuca, evidentemente, e de lá foi levado para o apartamento da rua Barão de Mesquita, quase esquina com São Francisco Xavier e do qual não guardo nenhuma memória, o que me agonia ferozmente.

rua barão de mesquita

Vira-e-mexe, vá entender, dou de caminhar até o edifício de pastilhas azuis (que, pelo aspecto, são as mesmas pastilhas desde a construção), em busca, confesso, de não-sei-o-quê. Já lhes contei, aqui, que “vivo na Tijuca, na zona norte – minha terra, minha aldeia, meu pago. Aqui nasci, na Ordem Terceira da Penitência, na rua Conde de Bonfim, bem em frente ao morro do Borel. Desceram, meus pais, a Conde de Bonfim, e minha primeira taba foi na rua Barão de Mesquita, quase na esquina da São Francisco Xavier, na lateral do tradicionalíssimo Colégio Militar (onde fui batizado depois de ter sido circuncisado por um rabino, vão tomando nota, no oitavo dia). Dali, mudamo-nos para a São Francisco Xavier, número 90, primeiro no sexto andar e depois no segundo – em frente ao Orsina da Fonseca, quase em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, às margens do rio Trapicheiro (foi quando conheci Tarcisa, a mulher de seios de mármore). Meus países eram as vilas nas quais moraram meus avós – sempre na Tijuca. Mudamo-nos, anos depois, para a Professor Gabizo, entre a Morais e Silva e a General Canabarro, a poucos metros do Maracanã.”.

Moro hoje na Martins Pena, a poucos metros da Professor Gabizo, a poucos metros da vila onde moraram meus avós, quase ao lado do prédio em que morava dona Gisélia, a quem eu chamava “vovó Gisélia”, que mantinha em seu quarto um gongá que nunca me assustou – muito pelo contrário. Vovó Gisélia trabalhava com um Preto Velho e mantinha, na cabeceira de sua cama, dezenas de imagens de seus santos, seus Pretos Velhos, suas guias, uma vela sempre acesa e, como diria Caymmi, tá tudo vivo ainda lá. Sua filha, madrinha de meu irmão caçula, minha vizinha, contou-me dia desses: tá tudo ainda lá. Moro com a Morena, que me viu nascer de novo aos 42 anos. Para ser mais preciso, moro com a Morena, que me fez nascer de novo aos 42 anos.

Ela chegou ao mundo e eu já tinha 7 anos. Ela chegou ao mundo a 1.300 quilômetros de distância de mim. Uma distância tão colossal quanto a que me separava de minha mãe em abril de 69. Ela chegou ao meu mundo já quase no final de 2011 e mudou-se de mala, cuia (com bomba e mate!) e um cachorrinho lindo no final de 2012 – quando efetivamente começamos a construir o nosso mundo. Eu dependia infinitamente mais dela do que ela de mim. Eu tinha 43 anos quando ela veio pra mais-perto.

Acho que ainda é assim: sou mais dependente.

Perdi um bocado de gente ao longo desses muitos anos. O mulherio liderado pela minha bisavó, a matriarca dos Monteiro de Barros, meus tios-avós todos, minha avó, que não conheceu a Morena mas que já me disse que a acha linda (sabida, minha avó). Jamais saberei o que terá sido de mim se não fossem tantas, as mortes. Mas há tanta vida no alarido de tantos fantasmas em mim, dentro de mim, em volta de mim, há tanta vida no caramelo dos olhos da Morena, que me arrastou pras praias mais bonitas do mundo quando fez 40 anos, há tanta vida no que está por vir por mais que doa caminhar que, franca e sinceramente, não sinto, ainda, o peso nos ombros de que tanto falam.

Tenho a disposição do moleque que fui, de calças curtas, camisas listradas e meu time de botão sempre à mão. Enfrentei muita vilania, cantei muito pra virar muito olho grande pras ondas do mar, mas quem me protege não dorme e quem dorme comigo é que é meu porto seguro, minha cidadela, minha chinoca com quem trago o melhor que um trago traz.

Até.

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PASSEIOS EM AEROPORTOS, MAIS UMA HERANÇA DE MEU PAI

Antes de começar a confissão de hoje, ligeiro arremesso em direção ao passado, quero dividir com vocês auspiciosa curiosidade: um dos textos mais lidos do Buteco do Edu é “Papai também é fóbico”, que pode ser lido aqui. E digo aupiciosa curiosidade porque tal fato, ver papai lido e relido Brasil afora (mundo afora, permitam-me a ousadia), me dá espantoso orgulho. Vou seguir em frente em busca de ser mais claro, até porque hoje quero lhes falar de aeroportos e, claro, de papai.

Desde pequeno (não saberia lhes precisar a idade) mantenho estranhíssima relação com aeroportos – e graças a meu velho pai. Explico: papai tinha uma fixação, bem me lembro. Vez por outra (também não saberia lhes precisar com que freqüência) papai armava um programa que hoje me soa tijucano da partida à chegada: íamos jantar no Galeão, no restaurante Demoseille, com nossas melhoras roupas. Recebíamos a ordem:

– Vamos jantar no Galeão!

Éramos três (acho que na verdade isso começou antes mesmo do nascimento do mais novo, em 1975) e fazíamos uma tremenda algazarra diante da notícia. Era, notem que não havia a Linha Vermelha, uma viagem. Papai subia a avenida Brasil com seu Fusca (depois com sua Brasília, depois com seu Passat…), atravessava a ponte belíssima com lampiões de luz amarelada que nos levava à Ilha do Governador e chegávamos excitadíssimos no Galeão, sempre com direito a uma passada no terraço que nos permitia ver as aeronaves decolando, aterrissando, taxiando ou mesmo paradas – era uma festa. Até que íamos para o Demoseille, do qual tenho (mais uma confissão) tristes lembranças. Na minha memória éramos quase sempre a única mesa ocupada no imenso salão. E sempre, rigorosamente sempre, enquanto bebia sua dose de uísque (não havia Lei Seca e papai bebia à larga), papai fazia a mesma cara de surpresa, tomava da caneta que carregava em sua capanga de couro, preta, escrevia algo num guardanapo de papel e o estendia ora pra mim, ora pro irmão do meio:

– Entreguem ao pianista!

Era meu pai, pedindo “Ebb tide”, e sempre “Ebb tide”, todas as vezes “Ebb tide”.

Há quem estranhe, ainda, minhas pequenas obsessões.

Mas o que eu queria lhes contar era outra coisa.

Recentemente fiz uma viagem com a Morena e fomos, evidentemente, ao aeroporto (para ir para nosso destino e para voltar, claro). Chegamos com – o quê?! – duas, duas horas e meia antes do horário do embarque. E lembrei-me, a caminho do Galeão (amo o Maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim mas o Galeão sempre será o Galeão) de um (mais um) hilariante episódio envolvendo papai.

Papai e mamãe foram a Paris, dia desses. Eu, bom filho que sou, ofereci-lhes carona para o aeroporto. Papai foi veemente:

– Não precisa, Eduardo! Já tratei um taxista! Tudo acertado, tudo nos conformes!

O vôo, marcado para às 18h.

Às 10h da manhã do dia do embarque, bom filho que sou, bati-lhes o telefone para desejar boa viagem.

Chamou, chamou, ninguém atendeu.

Disquei, então, para o celular.

Atendeu mamãe.

– Opa, minha mãe! Tudo bem?

A resposta foi seca:

– Arrã.

– Liguei pra desejar boa viagem, vocês não estão em casa?

Ainda mais seca:

– Não.

Fiz silêncio, bom filho que sou, ligeiramente constrangido com suas reações. Até que ela prosseguiu em tom irônico:

– Seu pai achou melhor chegar oito horas antes do embarque pra não haver qualquer problema. Estamos aqui no Demoseille, não sei se você lembra…

Ao fundo, “Ebb tide”.

Esse, meu pai.

Essa, minha confissão de hoje.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO (ou UMA CANÇÃO DE NINAR)

Deu-se que no domingo passado resolvemos, eu e a Morena, à noite, subir a Conde de Bonfim em direção ao Alto da Boa Vista para um daqueles tradicionalíssimos (e tijucaníssimos) lanches de domingo em família. E minha mãe, inspiradíssima, não se contentou com um simples lanche: a mesa, farta, exibia camarões, pastéis de queijo (que mamãe prefere chamar de burreca, iguaria judaica “feita por uma moça que mora na Engenheiro Adel que é uma delícia!”), saladas, pão de miga e outros bichos. Fomos recebidos por minha cunhada, que também estava lá (meu irmão, não). Aliás, diga-se, nenhum de meus dois irmãos estava lá. Éramos, portanto, cinco à mesa.

Contei-lhes isso em nome da precisão que me é companheira.

Papai foi pouco efusivo quando nos viu e tirou, do bolso imaginário do imaginário paletó, uma de suas frases preferidas (meu pai, o homem que tem pânico de servir sorvete com medo de que o sorvete vire sopa, tem uma coleção de frases feitas, entenda aqui lendo Papai também é fóbico):

– Hoje acordei tarde.

Aqui você entende porque essa frase é uma das clássicas frases de meu velho pai.

Houve um muxoxo coletivo (todos já sabem que a frase virá) do qual apenas a Morena não participou por falta de experiência. Ela perguntou, interessada:

– É? A que horas?

E ele, de pé, em posição de sentido, respondeu altíssimo:

– Tarde, hoje foi tarde… Quatro e dez da manhã!

Mas não é disso que quero lhes falar.

Estou, como lhes contei aqui, sem beber cumprindo a Quaresma.

À certa altura do lanche, mamãe perguntou:

– Edu, bebe um vinho comigo?

Fiz que não e a lembrei da proibição. Ela levantou os braços em direção ao lustre de cristal que pende sobre a mesa e que foi de minha avó paterna e disse:

– Graças a Deus!

Meu pai, que repete tudo o que mamãe diz como um xipófago do verbo, complementou:

– Graças a Deus!

Seis olhos – os meus, os da Morena e os de minha cunhada – cravaram os dois. Mamãe sacou o movimento e disse:

– Bom saber que você está conseguindo… – suspirou.

Seguiu, arranhando o prato com os dentes do garfo:

– O DNA da nossa família é perigoso…

Não me contive e explodi de rir.

Vejam vocês…

Não está no meu DNA, como sugeriu mamãe, a propensão a beber de forma industrial. Temos, é claro, como quase todas as famílias, os alcoólatras de estimação que nos redimem, inclusive, da culpa por bebermos demais.

O fato – atribuo a isso a minha relação intensa com a bebida! – é que uma de minhas canções de ninar preferida era a que vinha do som das pedras de gelo tilintando nos copos de cristal nas mãos da família inteira – inteira, sem exceção.

Papai chegava do trabalho? Mamãe servia duas generosas doses de uísque e tome de barulho de gelo no meu ouvido. Eu ia pra casa de meus avós? Vovô e vovó jogavam carteado: ele bebendo Teacher´s, seu preferido (vão tomando nota!), o indicador da mão direita fazendo girarem as pedras no interior do copo e minha avó bebendo Brahma em lata – ambos fumando desbragadamente, ele Continental e ela Hollywood. Minha bisavó nunca (eu disse nunca!) dispensou o licor de menta depois das refeições. Se havia festa, então, a carraspana era certa.

Cresci, pois, vendo, ouvindo, cheirando o álcool das inúmeras bebidas que embalavam aquela gente.

Durante esse período da Quaresma, então – quero fazer o registro -, ouço o barulhinho das pedras de gelo com intensa freqüência.

Graças a ele – ao som – eu ainda não sucumbi.

Um último registro: demonstrando intensa sensibilidade com o evidente sofrimento de um sujeito como eu, privado do prazer de beber, mamãe disse, ao nos ver diante da porta, saindo (comprovando que, aí sim!, o DNA da olímpica implicância carimba a família há sei lá quantas gerações):

– Oh, filho! Espere aí, espere aí!

– O que foi, mãe?

E ela me estende duas (eu  disse duas) garrafas de Red Label fechadas, na caixa:

– São suas. Leve.

E sorri, assim, de canto-de-boca.

Até

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UM DESFILE DE FANTASMAS

Ontem, 21 de abril, fez 90 anos minha tia Linda, a única irmã viva de minha avó Mathilde, que foi oló em dezembro de 2010, num domingo, dia 05, como lhes contei aqui. Lembrei-me disso (ou melhor, fui conduzido a lembrar) por conta de ter visto, postadas no Facebook, as fotografias da festa de aniversário de seus 90 anos – por uma das filhas, por uma das netas, conseqüentemente por uma tia, por uma prima. Festa para a qual, por razões absolutamente desinfluentes para o desenrolar do novelo de confissões que estou fazendo, não fui convidado. É um naco da família com o qual não tenho contato lá se vão mais de 30 anos.  Tia Linda (Carlinda Monteiro de Barros) era casada com tio Beneval, sofre de Alzheimer há alguns anos – vovó contava – e teve dois filhos: Maria Vitória e Alexandre, e com este último encontrei-me por absoluto acaso em fevereiro de 2012 no Centro, o que me causou um abrupto e violento arremesso em direção ao passado (como lhes contei aqui). E aqui, neste outro texto, vocês podem ver tia Linda ao lado de minha avó, ambas muito novas, com Maria Vitória no colo da tia Linda e mamãe no colo de vovó. E vejam vocês que as fotos que vi ontem, de tia Linda com 90 anos, mostram que a mesma é, ainda, esculpida e encarnada, minha saudosa avó.

Vai daí que sofri, ao me deparar com a primeira foto da festa, novo e impactante arremesso em direção ao passado – mas dessa vez agravado por uma história que passo a lhes contar, acompanhem.

Vovó e tia Linda tinham outros irmãos. Vovó casou-se com meu avô Milton – tiveram mamãe. Havia uma irmã, Maria Florinda (o mesmo nome de mamãe, homenagem a ela), que morreu aos 15 anos, de tétano. Tia Linda casou-se, como já lhes disse, com tio Beneval, e tiveram Maria Vitória e Alexandre. Há, ainda, um irmão que foi adotado quando bebê, ainda vivo, Pedro Paulo – solteiro. Havia tio Hique, o Carlos Henrique, que casou-se com a primeira mulher, a quem não conheci, e que teve a Sonia e o Julio Cesar. Casou-se depois com a Francis, e nasceu a Carla. Havia o tio Silvio, que foi casado com tia Irene, tiveram a Carmen. E havia o tio Chico, Francisco Monteiro de Barros, que foi casado com a tia Noêmia, e nasceram Eugênio Augusto e Luis Carlos. Tio Chico separou-se, eu era ainda menino, e foi pra Brasília (era tudo o que eu sabia).

Vamos lá: estão vivos, de toda essa tropa, mamãe, a tia Linda, Maria Vitória, Alexandre, Pedro Paulo, Sonia, Julio Cesar, Francis, Carla, Carmen e Noêmia. Onze pessoas. Outros dez estão mortos. Não estou contando, faça-se a ressalva, os dois a quem não conheci: a primeira mulher do meu tio Hique e a segunda mulher do meu tio Chico. A Maria Florinda – tia Mariazinha – eu também não conheci, mas a mesma era, digamos, um mito familiar; não era raro ouvir falar dela, de suas histórias, tratada quase como uma santa que foi levada ainda tão moça. São onze os vivos, são dez os mortos.

Jogo duro entre vivos e mortos.

Até que o destino, danado, aumentou a vantagem a favor dos vivos. Vou lhes contar essa história.

Eu era menino, meninote ainda, quando tio Chico sumiu das festas de família. Tio Chico era, lembrem-se, casado com a tia Noêmia. E sobre a tia Noêmia, e sobre o fascínio que a tia Noêmia exerce, por exemplo, sobre meu pai, leiam isso aqui. Como eu lhes disse, eu era muito menino – um molecote. E dando por falta do tio Chico nas festas, nos almoços, por ele perguntando, ouvia das mulheres da família, farfalhando os leques abertos:

– Chico largou da Noêmia.

– Chico enrabichou-se com outra.

– Ah, o Chico! – era a bufada clássica das mais-velhas.

Sei que correram os anos e dei de ouvir – sempre fui atento, atentíssimo! – das mesmas mulheres, tias, tias-avós, primas mais velhas:

– Chico teve uma filha. Fora do casamento! – e as católicas se benziam, as espíritas citavam Kardec, as da macumba faziam o sinal da cruz.

Vão tomando nota do caldeirão onde fui cozido.

As mais maledicentes – não há reunião de família sem a exibição dos talentos do serpentário – diziam, rangendo os dentes:

– Uma bastarda!

Faço a confissão tardia (e que, anos depois, tornou ainda mais pujante minha paixão pela obra rodrigueana).

Eu tinha verdadeiro fascínio, delirava, sentia tremer a alma pequenina que habitava meu corpo quando ouvia a palavra santa: bas-tar-da.

Eu repetia, de mim para mim, molecote de calça curta, e delirava, revirava os olhos, sentia suar as mãos, acelerar o coração, vivia o prazer do proibido sem ao menos saber o sentido de tudo aquilo: bastarda, bastarda, bastarda. Eu desejava – vejam a que ponto chega a profundidade de minha confissão dominical – namorar, mais à frente, uma bastarda. No colégio, não sei precisar o ano, passei a me interessar de modo diferente pelas meninas. E sempre fazia parte de meus cortejos:

– Você é bastarda?

Vejam: não ser bastarda me causava um desinteresse imediato, era como se aquela menina subitamente se esfumasse diante de mim caso não fosse bastarda. Eu queria uma bastarda. A todo custo eu desejava tocar, beijar, cheirar, abraçar, namorar uma bastarda.

Não sei lhes dizer também quando essa obsessão pela bastarda passou. Nunca namorei uma bastarda. Mas os 9o anos da tia Linda, esse desfile de fantasmas na minha memória, trouxeram à baila a obsessão pela figura da bastarda. E a isso se soma a impressionante história que vou lhes contar agora.

Dia desses recebo um e-mail de uma mulher contando que veio parar aqui no blog por conta de uma pesquisa qualquer no Google. Dizia, no e-mail, que sua avó tinha o mesmo nome de minha bisavó – Mathilde Veloso Monteiro de Barros. E-mail pra lá. E-mail pra cá. E-mail indo. E-mail vindo. E dá-se o inusitado: Angela Paula, 35 anos, é minha tia – filha de meu tio Chico.

Aos 43 anos, plenamente ciente do significado da palavra que tanto me fascinou quando moleque, fui tomado, naquele dia (era, já, um final de tarde), por uma profunda emoção diante desse encontro – ainda que virtual, por enquanto – com a filha (legítima, diga-se) de meu tio Chico. E quase-morri – faço nova confissão – quando ela me falou tão docemente sobre sua avó, minha amada e saudosa bisavó, de quem tem, como parca lembrança, apenas e tão-somente uma única fotografia.

Ela, ainda bebê, no colo de dona Mathilde.

Até.

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OS DENTES DE MINHA AVÓ

Vejam bem uma coisa, vocês que me lêem. Vira-e-mexe eu me valho da expressão “arremesso violento em direção ao passado”. Geralmente, quase sempre – sempre, eu diria – estou me referindo à sensação absurda, quase-mágica, que experimento quando dou com uma foto minha, bebê, criança, adolescente, já – eu, às vésperas de completar 43 anos de idade, tenho cada vez mais esses arremessos. Pode lhes parecer apenas uma brincadeira para definir o que muitos de vocês chamariam de saudade ou mesmo de nostalgia. Isso seria, se fosse de fato apenas isso, extremamente reducionista. Porque o arremesso violento em direção ao passado a que me refiro, meus poucos mas fiéis leitores, é mais que isso. Infinitamente mais que isso. Mais grave que isso. Mais intenso que isso. E muito mais bonito que isso. Vou às minhas digressões em busca de ser compreendido e a fim de prosseguir nessa batalha diária, nesse lufa-lufa incessante e doído que é o exercício de exorcizar os anjos e os demônios que moram em mim.

Se eu realmente sofro esses arremessos diante de uma foto minha, antiga, de um encontro com um parente, por exemplo, como aconteceu quando encontrei-me com o Alexandre um dia desses (relembrem aqui), se esse arremesso é capaz de produzir em mim, de forma muito nítida, os cheiros que me levam aos cenários para os quais me transporto, se ouço as vozes dos fantasmas com os quais convivi, vocês façam uma idéia do que sinto ao me deparar com uma fotografia de há séculos – como a que ilustra este texto.

A foto é da década de 40 (portanto, de mais de 30 anos antes de eu vir ao mundo). Nela estão, na casa em que viviam meus bisavós – Mathilde e Eugênio, e ele eu sequer conheci – à esquerda minha tinha Linda, Carlinda para ser mais preciso, e à direita minha avó Mathilde, tendo minha tia Linda sua filha Maria Vitória no colo (minha madrinha, a quem não vejo há mais de 30 anos) e minha avó, mamãe – Mariazinha.

A foto me dá febre (e se vocês duvidam de mim, lamento profundamente não poder lhes mostrar o mercúrio do termômetro na casa dos 37 graus). E na busca enlouquecedora da razão da febrícula, me perco: pode ser porque minha avó me dá uma saudade tremenda, ela que foi oló em dezembro de 2010, como lhes contei aqui em 07 de dezembro de 2010. Pode ser porque não vejo minha tia Linda há mais de 30 anos, porque sei que ela está ainda viva, porque sei que sofre de Alzheimer e que por conta disso, ainda que eu supere a aridez do caminho que eventualmente me levaria até ela, ela não lembraria de mim e isso me causaria uma dor profunda. Pode ser porque não vejo minha madrinha há mais de 30 anos, e nem mesmo sei se ela ainda é minha madrinha (não, não é), mas é uma hipótese a se considerar. Pode ser causada, a febre, por conta da imagem de minha mãe ainda bebê, vestindo um vestido branco belíssimo como o que nunca vestiu a filha que eu não tive, com laço de fita nos cabelos e com uns sapatinhos que – vejam vocês como sou parte de uma família de obsessivos pela memória – mamãe guarda até hoje numa das estantes da sala de sua casa, eles que receberam um banho de cobre para que ficassem preservados para todo o sempre. Pode ser porque vejo, atrás das duas irmãs, na fotografia, meu tio Beneval e meu avô Milton – também já mortos.

Olho, olho de novo, tiro a temperatura, ouço a voz das primas que nunca mais se falaram, ouço a gargalhada de minha avó, ouço a voz da tia Linda, e antes de prosseguir quero lhes contar um troço. Vamos a uma breve pausa.

Sábado passado, como lhes contei aqui, houve a festa em comemoração à memória do Estephanio´s, na casa de meu irmão. Pois bem. Estava eu sentado à mesa, era cedo ainda, quando vejo chegando duas mulheres e três adolescentes, descendo a ladeira que liga o portão ao jardim da casa. Disse-me o Fernando, meu irmão:

– Não sei quem são. Você sabe?

Ele estava de frente. Virei-me, senti o frêmito e disse:

– Ana Paula e Carla. As crianças não sei quem são.

Vejam: Ana Paula é filha da Maria Vitória, eu também não a via há mais de 30 anos. Carla é filha de meu tio Carlos Henrique, meu tio Hique, filho de minha bisavó Mathilde, irmão de minha avó, e os adolescentes eram filhos da Ana Paula. Daí eu, que já estava em transe por conta do arremesso que a simples realização da festa causava, deixei-me levar pelo turbilhão do tal arranco. Estranhíssimo, quero lhes dizer, ouvir aquele “oi, primo”. Não era exatamente a presença delas que me tirava dali em direção a sei-lá-pra-onde. Era minha bisavó, que pairava sobre nós, sabe-se lá se satisfeita com aquele reencontro, era minha avó, também presente, era aquele cheiro insuportável de hortelã, das pastilhas de minha bisa, misturado a um cheiro de talco, que me tiravam do eixo. Ana Paula bem que tentou um diálogo, e só eu sei a força que fazia, olhando para pontos distantes dali (disso bem me lembro), para não sair dizendo as frases desconexas que me vêm à boca numa hora como aquela. Era o que eu queria, por enquanto, lhes dizer. Voltemos à fotografia.

Nada do que vislumbrei como sendo a causa do aumento abrupto da minha temperatura era, de fato, responsável pela febre. Eu tinha febre (ainda tenho, enquanto escrevo) por conta dos dentes de minha avó. Notem bem: são dentes horríveis, amarelos, enegrecidos. Vovó fumava. E eu não tenho essa imagem dos dentes de minha avó, em mim. Amarelos, em relação à minha avó, só os azulejos de seu banheiro, o mesmo que testemunhou minha descoberta do gozo com a Adele Fátima, meu primeiro contato com a quiromania (lhes contei sobre isso – inclusive sobre a cor dos azulejos  – aqui). Vovó, quando morreu, usava dentaduras (e era, confesso, uma dentadura belíssima, vovó tinha um sorriso belíssimo, vovó era doce como a mais doce das avós). E esse não conhecer seus dentes amarelos me causa arrepios absolutamente incompreensíveis.

Em apertada síntese, às vésperas de meus 43 anos, tenho aguda saudade de minha avó e de seus dentes amarelos. Amarelo me lembra também um girassol. E girassol me remete, de imediato, não a Van Gogh, como a grande maioria de vocês deve ter imaginado. Mas ao catavento que tem dentro o que há do lado de fora do meu girassol. Sou eu, meus poucos mas fiéis leitores, com saudade de minha avó, pedindo a ela um sustenido e me deparando com esse sorriso bemol, amarelado, que me dá essa febre incompatível com o momento que vivo, de febril saudade (me basta a febre da saudade, eu não preciso que minha temperatura suba). Mas é sempre assim, quando vem chegando abril.

Sou um sujeito entorpecido por cada um dos abris que já vivi. E enquanto tomo um analgésico pra afastar de vez essa febrícula inconveniente, tomo também meu chimarrão, que tem na cuia um risco também amarelo, pensando em quem me trouxe sol (amarelo) para amainar a sombra de tantas ausências.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO NO CENTRO DO RIO

Eu retomo hoje – já havia retomado, é verdade, mas o coração tem razões que a própria razão desconhece, e eu me perdi, ou melhor, eu me esqueci de que precisava vir ao balcão do Buteco lhes fazer minhas ordinárias confissões – minhas atividades por aqui. Eu ia, eis a verdade, lhes contar sobre outro assunto que não o que me traz agora para diante do monitor. Acompanhem meu raciocínio.

Escrevi aqui que “uma criança que teve um tio chamado Beneval não pode – não pode mesmo – crescer como as outras.” (leiam aqui dois textos sobre o tio Beneval para pescarem o espírito da coisa).

Meu tio Beneval, casado com minha tia Linda, irmã de minha avó Mathilde, morreu há muitos anos (eu ainda usava calças curtas quando ele foi oló). Tio Beneval e tia Linda tiveram dois filhos, Maria Vitória e Alexandre. Ela, minha madrinha a quem não vejo há mais de – o quê?! – 30 anos (um pouco mais, um pouco menos do que isso). Ele, idem.

É sobre o Alexandre que quero lhes falar.

A imagem que tenho dele – ou que tinha, vocês já vão entender – é a de um homem novo, barbado e cabeludo (cabelos compridos, fartos).

Pois bem. Caminhava eu, há pouco, voltando do prédio do Ministério Público em direção ao escritório, quando na esquina da rua da Quitanda com a São José (dei uma passada numa lanchonete para comprar um suco) ouvi:

– Edu! Edu!

Estaquei e olhei à minha volta. Vi um homem vindo em minha direção. Apressando o passo, se aproximando, disse:

– Eduardo Goldenberg?

– Eu.

– Sabe quem eu sou?

O “sabe quem eu sou?” foi a senha para o início da viagem, do abrupto arremesso em direção ao passado. O homem diante de mim não era um homem novo, não era barbado, não era cabeludo, não tinha cabelos compridos, fartos, sequer tinha cabelos, aquele homem. Eu estava diante de meu tio Beneval, cuspido e escarrado (troço impressionante, faço questão de lhes dizer). Alto, magro, rosto comprido, careca, era meu tio Beneval redivivo. Fui preciso do início ao fim na resposta:

– Acho que sei quem você é. Tio Beneval!

Riu, o Alexandre, a quem eu jamais reconheceria não fosse a semelhança aguda, agudíssima, com seu pai. Estendeu-me a mão, trocamos duas dúzias de palavras incapazes de unir o tempo e ele não desconfia o que vivi naqueles dez minutos. À minha volta (e eu era pequeníssimo, estava de calças curtas e camisa listrada), minha bisavó, minha avó Mathilde, tia Linda, minha madrinha, mamãe e papai, Fernando ainda bebê, eu ouvindo o som da roda do meu Velotrol riscando o chão de cimento da vila, sentindo o cheiro do bolo que saía quente do forno da cozinha da casa da tia Linda, meus primos Max e Ana Paula (Adriana ainda não havia nascido), e eu disse um sem-fim de frases desconexas. Por razões absolutamente incompreensíveis eu contei sobre a Dani (e ele já sabia, ele me lê, vejam vocês!), contei que ainda corto o cabelo no Salão América, a poucos metros do prédio onde moravam tia Linda e tio Beneval, seus pais, contei orgulhoso que o Fefê está na Petrobras, que o Cristiano trabalha na Vale, não disse coisa com coisa, falei mal do Deivid e do gol mais perdido da história dos campeonatos cariocas, perguntei pela tia Noêmia, senti minha avó fazendo festinha no meu rosto, contei que meu Carnaval havia sido fabuloso, que eu saí de Vilma Flinstones no Bola Preta, e quando nos despedimos ainda fiquei alguns minutos parado na esquina, como uma piorra, esperando que todos os fantasmas retomassem seu curso, seu rumo, até que eu mesmo me refizesse do tranco que é um inesperado arremesso desses, em direção ao passado.

Até.

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HOJE É DIA DE MEU PAI

Eis que faz anos, hoje, meu velho pai. Na foto que ilustra o texto de hoje, que vai em sua intenção, é claro, estamos eu eu ele, em 21 de março de 1970, mais precisamente no dia em que cortei, pela primeira vez, o meu cabelo (leiam aqui para saber como descobri o dia exato desta foto). Estamos na praça Afonso Pena, na Tijuca evidentemente, e vou lhes contar a razão pela qual esta foto me é especialmente cara e porque ela causa, em mim, um daqueles arremessos em direção ao passado de forma intensa e abrupta.

Estamos em março de 1970, há aproximadamente 42 anos.

Ali, os mesmos bancos verdes até hoje.

Ali, ainda o Salão América – onde cortei o cabelo pela primeira vez e onde faço, até hoje, a barba. Cortei o cabelo com o Raul, ele também ainda lá, e faço a barba com o seu Ernesto, ele também testemunha de meu primeiro corte.

Ali, ainda na esquina da Martins Pena com Campos Sales, o Bar América.

Ali, naquela praça, ainda meu avô Oizer e seus amigos judeus, falando em ídiche quando eu passava indo ou vindo da escola, e perto dali, na rua Afonso Pena, o asilo no qual morreu minha avó Elisa dentro de um quarto cheirando a laranja-lima.

Ali, a poucos metros dali, a sede do America, onde tantas vezes fui, moleque, pra piscina ou pra assistir partidas de autobol, sempre com meu velho pai e com meu irmão mais velho (mais novo que eu), o Fefê – com direito a lanchar na Geneal, na Barão de Itapagipe.

Ali, naquela praça, muitas das minhas lembranças da infância, o prédio da minha tia Linda e do tio Beneval ainda de pé, na rua Afonso Pena, e Vitória, a madrinha que nunca mais vi, e Mauro, o padrinho que nunca mais vi, o prédio onde moravam Nélson e Rose, Letícia e Miguel, na rua Martins Pena, apartamento de sala muito ampla com tábua corrida (e o Dodge Dart amarelo…), ali, naquela praça, a poucos metros de onde nasceu mamãe, na casa amarela ainda de pé, rua Gonçalves Crespo, também a poucos metros da vila onde viveram meus avós e minha bisavó, e minha tia Idinha, na rua Professor Gabizo, na Heitor Beltrão e na São Francisco Xavier, o prédio ainda de pé onde moravam Darcy e Vera com a vovó Gisélia, também na Martins Pena, o Salete na rua com o mesmo nome da praça, e que freqüento desde menino pelas mãos de meu pai, e são tantos os fantasmas, vivos e mortos, que rondam minh´alma quando passo pela praça que eu sou capaz de dizer, sem vergonha de imitar o pernambucano mais carioca da paróquia, que a Afonso Pena está enterrada em mim como um sapo de macumba.

Enterrada em mim como um sapo de macumba e eu sinto os cheiros dos apartamentos, o cheiro de mofo dos apartamentos, e o perfume das pessoas, e ouço as vozes das pessoas, e ouço o som do pneu do meu Velotrol rasgando no chão da praça, meu avô falando numa língua estranha, meu pai me levando pra cortar cabelo pela primeira vez, e é assim, tonto, bêbado de saudade de um tempo que não volta, que eu vou, todas as quintas-feiras, sentar-me na Ferrante do seu Ernesto pra, diante do espelho, me (re)conhecer.

Parabéns, meu pai. Saúde! Saravá! Santè!

Encerro exibindo um vídeo no qual aparecemos, eu e papai, já bem mais recente (04 de setembro de 2009), em pequena entrevista para matéria do Globo Esporte sobre autobol. Notem que meu pai diz, à certa altura, que nos levou “duas ou três vezes” para ver a farra. Minha memória o desmente – e parafraseando, de novo, o grande Nelson Rodrigues, se os fatos contrariam minha memória e minhas histórias, pior pros fatos.

Até.

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MEU PAI FAZ ANOS AMANHÃ

Faz anos, amanhã, meu velho pai. E uma boa maneira de (começar a) conhecer meu velho pai é lendo Papai também é fóbico, que escrevi aqui, em 19 de abril de 2011. No texto, conto sobre uma das facetas do meu pai, um homem multifacetado – como quase todos nós.

Escolhi para ilustrar o texto de hoje, que vai como homenagem ao aniversariante de amanhã, uma foto que virou, entre os familiares, uma espécie de patuá – e explico.

Tal foto foi tirada na Bahia, durante uma viagem que fizeram, ele e minha mãe, de férias. E meu velho pai tem, na mão esquerda, um galho, um graveto (sei lá que diabo!), usado para escrever nas areias da Bahia o apelido de minha mãe: Pixuxa. E faço, desde já, a ressalva: somente meu pai, mais ninguém, chama mamãe de Pixuxa, assim como ela, e somente ela, chama papai de Meudi. (lê-se Mêudi, não Meudí, e vão tomando nota do nível de precisão de meu relato). Pois esta foto teve, para a família, o impacto que teve a declaração de James Stewart para Katharine Hepburn, em Núpcias de Escândalo, em 1940, a declaração de Dalila a Sansão, a declaração do príncipe para Rapunzel.

Tal foto – diga-se – foi digitalizada a partir de um slide. E sessões de slide, lá em casa, sempre foram impactantes. Vou lhes contar com eram as tais sessões.

Papai montava o projetor (que sempre – eu disse sempre! – enguiçava no meio, requerendo uns tapas dados por meu pai) e chamava-se toda a família. Mamãe montava uma tela na parede e começava a sessão (sempre as mesmas caixas de slide, sempre os mesmos comentários!). Era aparecer essa foto e começava:

– Oh, Mariazinha, que lindo… – e vovó enxugava uma lágrima furtiva que subitamente lhe saltava dos olhos.

– Esse é o Isaac escrevendo Pixuxa numa praia em Salvador… – dizia mamãe, orgulhosa, o que todos já sabíamos.

Meu avô, meio avesso a demonstrações de afeto, tossia e dizia:

– Bacana.

Tia Idinha, irmã de minha bisavó, gemia entre os dentes:

– Benza, Deus!

Enfim, a foto era um ícone.

E por falar em ícone, deu-me vontade de lhes contar sobre um dos ícones de meu pai: a tia Noêmia (acabo de lembrar que, para conhecer melhor meu pai, é imprescindível ler isso aqui).

Tia Noêmia, casada com meu tio Chico, era nora de minha bisavó Mathilde, cunhada de minha avó Mathilde, chamada de tia por minha mãe, por nós – eu e meus irmãos – e também por meu pai. E o meu pai sempre teve verdadeira adoração, idolatria, quase um fanatismo cego pela biografia da tia Noêmia. E a tia Noêmia passou a ser, mesmo para quem não a conhecia (tia Noêmia ainda está vivíssima!), uma figura – por conta das reações do meu pai. E notem a que ponto a coisa chega.

Lembro-me de um dia, durante um churrasco de aniversário de um amigo (meus pais presentes), ter apresentado papai a uma amiga. Eu disse o óbvio:

– Esse é meu pai. Pai, essa é a Noêmia.

E bastava eu dizer o nome – Noêmia – para começar uma espécie de transe. Papai eriçou os pelos, pôs ereta a espinha, respirou fundo e saiu dizendo:

– Eu gosto da Noêmia. Gosto, gosto. Gosto da tia Noêmia!

Minha amiga se assustou (faço a confissão tardia).

Tia Noêmia, que hoje mora no Méier, morava numa casa no Engenho Novo. E muitas vezes mamãe dizia, aos sábados:

– Meninos! Aprontem-se. Vamos pra casa da tia Noêmia.

E meu pai guinchava na sala, uivava como um lobo faminto diante da presa, dava de repetir:

– Uma lutadora! Uma batalhadora, a tia Noêmia! Eu gosto da tia Noêmia!

Encarava um de nós e dizia, olhos nos olhos:

– Você entende? Eu gosto. Gosto. Gosto da tia Noêmia!

Lembro-me de que no jardim da tal casa do Engenho Novo havia uma das coisas mais feias e impactantes que eu jamais vi noutro lugar: havia uma réplica da estátua do Cristo Redentor, em gesso, sobre a grama, e em volta do Cristo, de mãos dadas, bonecos dos Sete Anões e da Branca de Neve (creiam que isso, essa visão, para uma criança, tem conseqüências gravíssimas que ainda não descobri).

Um dia eu disse, chegando lá:

– Que coisa estranha esse Cristo com esses anões…

Fefê, meu irmão mais velho (mais novo que eu, entendam), emendou:

– Bizarro.

Pois meu pai nos catou pelas mãos e foi categórico:

– Cristo, anões, Branca de Neve… é tudo da tia Noêmia, entenderam? E eu gosto da tia Noêmia. Não gosto?

Com medo, assentimos.

– Pois é lindo!

E ele deu-se por satisfeito.

E vejam – é como vou encerrar a crônica de hoje – a que ponto chega a idolatria de meu pai (antes, leiam aqui sobre o velório de minha avó Mathilde).

Vovó jazia, tadinha, no caixão de madeira. Mamãe, sua filha única, ao lado da mãe. Eu, Fernando, Cristiano, seus netos, também. E foi, como lhes conto no texto indicado, “um velório tijucano e rodrigueano”. Um detalhe, entretanto, escapou-me do tal relato. Vamos a ele.

A certo momento chegou, para a capelinha, a tia Noêmia. Meu pai, que não é muito chegado à visão de qualquer defunto, estava sentado num banquinho próximo ao caixão. Ao dar com tia Noêmia chegando, a cena.

Atirou-se, trôpego, ofegante, afoito, aflito e arquejante nos braços da tia Noêmia. E, novamente como um lobo, deu de uivar:

– A dona Mathilde sabia, tia Noêmia, o quanto eu gosto da senhora! Eu gosto! Gosto, gosto, gosto, tia Noêmia!

E não largou, meu pai, das mãos da tia Noêmia.

Cristiano, o mais novo, em dado momento incomodou-se:

– Pai! Fica com a minha mãe!

Eu, caminhando um pouco mais à frente pelas aléias do São Francisco Xavier, ouvi meu pai dizer:

– Cristiano, você e seus irmãos estão com a sua mãe! Vou ficar com a tia Noêmia, coitada, que está sozinha.

E repetiu, de si para si, até a última pá de cal:

– Eu gosto da tia Noêmia. Gosto!

Até.

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DIANTE DO INTRANSPONÍVEL

Ao longo de pouco mais de 42 anos de vida aprendi, é evidente, algumas lições. Somos, cada um de nós, produto de cada um dos segundos vividos desde o nascimento, e é desinfluente dizer que ainda acredito no amealhar de cada um dos segundos vividos nas vidas pretéritas – não vem ao caso, não faz diferença para o que quero lhes dizer e isso aqui não é, definitivamente, palanque para pregações de qualquer natureza. Vou me ater, pois, ao mais simples.

Eu sou produto direto do meio em que vivi, e quantas vezes debrucei-me neste balcão virtual para lhes fazer minhas confissões (e, creiam, as faço precipuamente para mim mesmo, num exercício doloroso e prazeroso de arejar a alma, de exorcizar meus fantasmas, de compreender meus medos e de buscar ser e estar melhor)…

Nasci em 69 num hospital que fica de frente pro morro do Borel – e isso já diz, a mim, muita coisa. Primeiro filho de pais absolutamente fabulosos (meus amigos, os que me têm por perto, não me deixam mentir), nasci e cresci na Tijuca, forjado no asfalto das ruas, debaixo da saia de uma penca de mulheres, no concreto dos estádios de futebol, nas rodas de samba, nos balcões dos bares, nos centros espíritas que freqüentei, vendo papai receber caboclo dentro de casa, indo a terreiros de umbanda e candomblé quando me dava na telha. Fui criando minha particular visão de mundo, conheci a morte de perto quando vi minha bisavó desaparecer em 1982, morei durante um tempo na Lagoa, quando fui um exilado absoluto, mudei-me de volta pra Tijuca em 1999 e na Tijuca estou até hoje, torcendo pra que tenhamos um cemitério por aqui, como disse Luiz Antonio Simas em brilhante arrazoado (aqui), a fim de que eu não saia daqui nem mesmo depois de morto, quando a morte decidir vir me buscar.

Feito o não tão curto intróito, vamos em frente.

Diante do intransponível – seja ele uma dor lancinante, o fim de um namoro, a primeira derrota no jogo de botão, a morte de alguém muito amado, o fracasso do time em uma final de campeonato… – só há duas possibilidades, e não me venham com tratados a fim de derrubar minha certeza: ou encara-se o inevitável, o instransponível, de cabeça erguida, com bom-humor, ânimo e coragem, ou curva-se diante dele, cabisbaixo, com sinais de depressão, desânimo e medo. Qualquer coisa diferente disso é papo pra boi dormir.

E por que lhes digo isso, além da evidência de que falo de mim para mim a fim de me manter bem? Porque ontem estive com o Neco, um amigo querido, que me convidou para um almoço que acabou se estendendo até o final da tarde. Vimo-nos, na esquina da rua do Mercado com a rua do Rosário, e fomos imediatamente dois bonecos infláveis de posto de gasolina, brandindo os braços diante da alegria daquele encontro. Disse-me o Neco, sorrisão estampado no rosto?

– Como você tá, velhão?

Fui um derramado – troço, confesso, corriqueiro.

Saí dissertando justamente sobre isso, sobre a necessidade, imperiosa e urgente, do ânimo absoluto diante do intransponível. Repeti, de certa forma, o que venho dizendo aos meus, aos mais-de-perto, aos que constituem a muralha que protege minha cidadela. Aos que não terão, jamais, dedos apontados em minha direção, aos que jamais proferirão, diante de mim, sentenças prontas e fabricadas por sistemas que nunca me disseram nada ao coração – sistemas que dão valor ao que conheço apenas como palavra e letra fria: arrependimento, culpa, remorso.

Essa tática simples – e ao mesmo tempo difícil pacas de aplicar! – de manter-me pronto diante do intransponível rendeu-me, até hoje, mais de 42 anos depois de ter vindo ao mundo diante do morro do Borel, um bocado de histórias bonitas pra contar. Sempre preferi o riso à lágrima (embora eu chore cada vez mais, puramente de emoção diante da beleza das coisas, das saudades que guardo), o bom-humor à carranca, o braço aberto à sisudez, a leveza à dor, por aí.

Sempre fui bom nisso. De certa forma sempre preguei ou executei atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida, sempre fui revolucionário. De certa forma sempre expressei minhas idéias, pensamentos e opiniões opostos ou profundamente diferentes dos da maioria que, por isso mesmo, freqüentemente se sentiu ameaçada. De certa forma sempre agi de maneira a perturbar, tumultuar as instituições, sempre fui contra a ordem, desejei o caos, fui perturbador e agitador. Subversivo, além de polemista e dissidente de mim mesmo.

Mamãe conta – é uma de suas histórias preferidas, dessas que todas as famílias têm – que quando fui a meu primeiro jogo no Maracanã sozinho, completamente sozinho, sem meu pai, ela ficou me esperando chegar na varanda do apartamento. O jogo começara às nove, pouco depois das onze dobrei a esquina. Mamãe conta (lembro-me muito vagamente disso) que eu percebi que ela estava à minha espera, e ela apagou as luzes e foi pro quarto, fingir que estava dormindo. Conta, mais, que eu entrei, bati em seu quarto e a convoquei pra uma conversa na sala. Em resumo, eu disse a ela que eu nunca mais sairia sozinho se isso significasse preocupação pra ela. E que eu achava uma tremenda sacanagem ela acabar com minha alegria, deixando-me também preocupado com sua preocupação, algo assim. Pois quando mamãe termina de contar isso, ela diz (mamãe é muito pouco parcial…):

– Que lição! Que lição! Que lição que o Edu me deu!

Fato é que, dia desses, convoquei mamãe pra uma conversa de novo. Deitei-me em seu colo, chorei pra burro, falei de mim. Que lição! Que lição! Que lição que mamãe me deu! Subvertendo o tempo, fui ali, já velho, a criança indefesa, de calças curtas e camisa listrada, no colo quente da melhor mãe do mundo: pedindo conselho, pedindo perdão, pedindo sua benção.

Que nunca – eis o que eu queria lhes dizer -, mesmo diante do que parece intransponível, me faltou.

Até.

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BARBEARIA SALÃO AMÉRICA

Eu hoje farei mais uma de minhas incursões pelo passado, esse alicerce fabuloso, formador do caráter de todo homem, e que engloba esse tempo incomensurável entre a primeira encarnação, entre o primeiro sopro de vida e o minuto anterior ao agora. Vou, confesso, mais longe. Vou ao dia 21 de março de 1970, um sábado. Fazia um sol tremendo na Tijuca, eu havia chegado ao mundo há menos de 10 meses – sou de 27 de abril de 1969 – e papai não dispensava, claro, o final de semana ao lado de seu primogênito. Papai e mamãe, frise-se, mas papai trabalhava na REDUC, em Duque de Caxias, e aos sábados e domingos a dedicação era integral para mim. Morávamos, evidentemente, na Tijuca – minha única geografia possível – , num edifício de pastilhas azuis na rua Barão de Mesquita, próximo à rua São Francisco Xavier. E naquele dia 21 de março de 1970 deu-se o seguinte: papai levou-me, pela primeira vez, para cortar o cabelo.

Não por outra razão a imagem dessa porta (acima) está enterrada em mim como sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues). Mas eu, há até pouco tempo, não sabia muito bem o porquê.

Afastei-me da Tijuca durante um único período da minha vida: entre 1994 e 1999, durante o primeiro casamento, morei na Lagoa, onde eu me sentia, eis a verdade, tão confortável como um rabino dentro de Auschwitz-Birkenau. Nada ali me era familiar, e se eu conseguira até arrumar um lugar pra cortar cabelo, na Fonte da Saudade, eu continuava indo fazer a barba, aos sábados, na Praça Afonso Pena, na minha aldeia nativa.

No Salão América, quase na esquina das ruas Martins Pena com Campos Sales, bem diante da praça.

A mesma praça, diga-se em nome da precisão – essa minha companheira inseparável -, na qual estamos eu e papai na foto abaixo. Sou eu, ali, o menino sem camisa, de short quadriculado, com um sorriso que só criança é capaz de estampar no rosto, tendo as mãos cobertas pelas mãos de meu pai. Com o cabelo – notem – devidamente cortado.

Pela primeira vez.

Vai daí que é chegada a hora de lhes dizer: quem sempre faz minha barba, e desde que eu me entendo por gente (com barba, claro), é o Raul, esse caboclo boa-praça que aparece fumando na fotografia seguinte.

O Raul é tricolor fanático (um dos poucos que eu respeito, a torcida do Fluminense é composta por uma massa cheirosa que não me agrada), morador da rua do Matoso, fumante inveterado e hoje devagar com o andor quando o assunto é birita, porque ele foi um senhor bebedor ao longo da vida.

Fazer a barba, desde priscas eras, significa cumprir esse ritual: eu pago o café do Raul, antes e depois, no bar América Esportivo, ao lado do salão (hoje o nome mudou para Buteco do América). Conversamos sobre futebol, falamos da rodada e dos jogos da semana, sacaneamos o seu Ernesto, dono do salão e seu patrão há mais de 40 anos, damos boas risadas e não é raro cruzar com ele, pela manhã ou à noite, indo ou vindo do trabalho.

Vamos ao que quero lhes dizer.

Dia desses quase matei o Raul do coração (o cabra é um emotivo).

E aqui faço uma pausa pra lhes contar uma história.

Quando fiz 40 anos, em 2009, mamãe me deu de presente um prato cheio para um homem como eu, apegado ao passado e às lembranças, aos registros, aos rastros. Meu álbum de bebê.

Fui, durante as semanas seguintes, um homem rasgado pela luz das lembranças. Folheava cada página com uma atenção absurda, prestava de observar cada detalhe, cada anotação feita pelas mãos generosas e carinhosas de minha mãe, e aquele álbum, cheio de clichês como qualquer álbum de qualquer bebê, mez fez vítima de arremessos violentos e bruscos em direção ao passado.

Estaquei pra valer, entretanto, diante da página que trazia um pequeno cacho de cabelos presos por um pedaço de fita durex.

Ali, a prova irrefutável: meu primeiro corte de cabelo fora no dia 21 de março de 1970, aos dez meses, no “barbeiro”, no “Salão América”, a letra de mamãe é nítida.

Diante da mais que justificável ausência do nome do “barbeiro”, convoquei papai, dia desses, para uma cerveja no bar ao lado do salão. Lá, contei pra ele sobre o álbum, que levava comigo. Papai umedeceu os olhos – papai é duro como um soviético, emociona-se pouco – e disse:

– Foi um tricolor fanático que ficava na primeira cadeira, à direita de quem entra…

Chamei pelo Raul.

Era ele.

Até.

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