DEBUTE NO ENGENHO NOVO

A festa de 15 anos da Glorinha seria, definitivamente, o acontecimento do ano.

A família inteira – e dizer “inteira” significa uma quantidade boçal de pessoas – fazia planos de roupas e gestos, criava expectativas gastronômicas e, efetivamente, não havia outro assunto entre a parentalha.

A matriarca, Dona Mathilde, já viúva, impressionava os filhos, os netos e os bisnetos com o que contava sobre o baile de debutantes da bisneta mais velha.

A festa aconteceria na casa da Noêmia, nora da Dona Mathilde, que, embora chocadíssima quando da separação do casal – Noêmia fora casada com o Chico, funcionário público em Brasília – nutria intenso carinho pela ex-nora, que morava sozinha num casarão imenso na Rua Conselheiro Jobim, no Engenho Novo.

Aliás, a família toda rendia homenagens permanentes à Noêmia. “Uma lutadora!”, “Uma batalhadora!”, “Como agüenta os trancos da vida!”, esses elogios que eu ouvia a três por quatro. Ouvia, não. Ainda ouço. Papai vira e mexe muxoxa:

– Uma guerreira, a Noêmia!

Pequena pausa.

Quando eu digo que há coisas em minha íntima biografia que podem ser fundamentais para explicar minha personalidade, digamos, turbulenta, tenho cá minhas razões. Uma criança que teve um tio chamado Beneval não pode – não pode mesmo – crescer como as outras. E já que estou falando da festa de 15 anos da Glorinha, neta da Noêmia, festa que aconteceu naquele casarão cor de rosa no Engenho Novo, preciso contar um detalhe.

Lembro-me, com nitidez, da primeira vez que fui à tal casa.

Ficava do lado esquerdo de quem entra na rua. E havia um jardim diante da casa. E nesse jardim – eis aí a razão do meu espetacular susto do qual jamais me refiz – uma estátua do Cristo Redentor de mãos dadas com a Branca de Neve e cercado pelos Sete Anões. Vamos voltar à festa.

O orçamento daquele núcleo da família – Noêmia, os dois filhos Eugênio e Luiz Carlos e a nora Sônia – vinha sendo controlado fazia dois anos com mãos de ferro visando arcar com os custos, de zona sul, da festança. Era o Eugênio, por exemplo, chegar em casa com uma garrafa de conhaque e a Noêmia esbravejava em tom de ira santa:

– Olha o desperdício! Olha a prodigalidade fora de hora! – e confiscava a garrafa para engrossar o farnel da jornada dos 15 anos da Glorinha.

E, de fato, as expectativas da família foram integralmente superadas.

No grande dia, já da esquina, via-se a casa rosa iluminadíssima, tão feérica quanto a hoje decantada árvore de Natal da Lagoa. Aquelas luzes pisca-pisca davam à mansão – sim, era uma mansão – um ar suntuoso que anunciava o que havia no interior da casa.

Sobre a gigantesca mesa retangular no centro da sala, cascatas de camarão, canapés variadíssimos, jarrões de ponche, sangria, sidra, docinhos, um bolo que nem em casamento, e que tinha até nome, anunciado pelo Eugênio, orgulhoso pai da Glorinha:

– Custou uma fortuna o “Jardins Suspensos da Babilônia”!

Um detalhe: a Glorinha era bailarina.

E por ser bailarina havia, em toda a parentada, a obsessão, a angústia, a tensão pela hora da valsa.

E havia, na estrutura física da Glorinha, a antítese da bailarina. Glorinha era altíssima – ainda é, evidentemente -, tinha pés enormes, era ligeiramente desengonçada, dizia-se, e acho que muito por conta disso havia um aguardamento solene pelo momento da valsa.

É necessário dizer que a Glorinha não era vista. Somente desceria as escadarias da casa faltando pouco para a meia-noite e justamente para dançar a valsa. E somente as mulheres da família tinham acesso ao segundo andar, onde a Glorinha era tratada a pires de leite pela mãe, a Sônia. Subiam Dona Mathilde, Tida, Carlinda, Mariazinha, Maria Vitória, Idinha, Zirota, num zigue-zague frenético. E desciam com as frases feitas. “Está um doce de côco!”, “Dizem que o vestido está um caso sério!”, “Custou dez vezes o preço do bolo!”, essas coisas.

Até que, súbito, surge diante da porta principal da casa um homúnculo, baixo como os anões do jardim, e dá-se o burburinho constrangedor interrompido pela Noêmia:

– Junta-te aos bons e serás um deles!

Entra o homem pequeno. E volta à carga a Noêmia com uma taça de ponche na mão:

– Gente! Gente! Esse é o Alcebíades, professor de dança da Glorinha!

Houve quase que uma vaia, mas em questão de minutos estava o Alcebíades numa intimidade familiar. A notícia correu depressa: seria o Alcebíades, e não o Eugênio, pai da Glorinha, quem dançaria com a Glorinha. As mais conservadoras começaram a lançar o veneno por trás dos leques em fúria: “Uma modernidade inaceitável!”, “Que quebra de decoro!”, “Onde é que nós vamos parar!?”.

E a angústia da espera pela valsa só fazia crescer. Indagado sobre os detalhes da apresentação, sobre a valsa escolhida, Alcebíades apenas ria um riso cínico por trás de uma taça de sangria dizendo:

– Surpresa, surpresa…

O relógio de pêndulo marcava cinco para a meia-noite.

As luzes se apagam e apenas o enorme abajur, que ficava no alpendre, na dobra da escada que levava ao segundo andar da mansão, fica aceso.

Surge a Glorinha num vestido vermelho e preto de babado, tipicamente espanhol, sapatões pretos adequados ao tema, com as castanholas nas mãos.

As mulheres em polvorosa cochichavam: “Inadmissível!”, “Que brutal!”, “Mas que maçada, meu Deus!”, e deu-se o seguinte.

Alcebíades foi buscá-la ao pé da escadaria. Diante da Glorinha o Alcebíades sumiu. Foram os dois abrindo caminho entre os convidados quando alguém que não percebi gritou levantando parte do vestido rubro-negro:

– Mengo, porra!

Tomou com as castanholas nos cornos e seguiu a cerimônia.

Na sala anexa, com a lareira acesa – fazia um calor dos diabos – a Glorinha e o Alcebíades dançaram por uns bons 20 minutos, o Alcebíades parecendo uma piorra em sua coreografia e a Glorinha sapateando com fúria sobre os parquetes do piso arrancando, logo depois de uma sapatada mais violenta, o seguinte grito de alguém que, no escuro, de novo, não identifiquei:

– Mata a barata! Mata a barata! – para delírio dos homens nitidamente alcoolizados.

Num dos cantos da sala, diante do jardim de inverno, Noêmia e Sôniachoravam copiosamente.

Foi, meus poucos mas fiéis leitores, um troço impressionante.

Lembro-me da volta, todos nós espremidos na Variant de meu pai, e minha bisavó, desoladíssima resmungando até a Tijuca:

– Debute sem valsa é uma amolação…

Até.

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10 Comentários

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10 Respostas para “DEBUTE NO ENGENHO NOVO

  1. >Grande Edu! Edu, grande crônica, cara! Grande texto. Parabéns. Está de chorar de rir.

  2. >Bela crônica Edu!! Parece que baixou Nelson Rodrigues.Manda mais!!

  3. >Olha o Beneval de volta. Será o da freira? E mais um Alcebíades (será o corno?). Onde é que já ouvi, ou será que li, esta frase: Junta-te aos bons…? Maravilha, Dr. Goldenberg!

  4. >Você cravou um clássico com esse texto!

  5. >Sempre aparece! Fernando, mermão, amanhã me conta quem é esse mala… vou no samba!

  6. >Conta mais desse Cristo Redentor de mãos dadas com a Branca de Neve…

  7. >eita!!! és tocado, rapaz… saudade com beijo.

  8. Pingback: ARREMESSO AO PASSADO NO CENTRO DO RIO | BUTECO DO EDU

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