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É MELHOR SE LEVANTAR!

Eu tinha pouco mais de dois anos de idade. Carnaval de 1972. Não sou capaz de lembrar de rigorosamente nada desse período. Mas sou capaz de jurar que lembro de mamãe cantando esse samba, do Império Serrano, pra me fazer dormir (e vocês tirem suas conclusões, se é possível que eu tenha crescido um homem 100% normal tendo sido ninado com samba-de-enredo!) – eu, aqui, em Uma noite imperiana, já contei um pouco dessa história pra vocês.

Tenho, do Carnaval, incontáveis lembranças. Fantasiava-me de índio, ia aos bailes infantis, e me é também, muito viva, a lembrança dos desfiles das escolas de samba pela TV. Papai e mamãe recebiam uma penca de amigos em casa, almofadas espalhadas pelo chão, o desfile ainda era na avenida Presidente Vargas e durava uma noite inteira, até a manhã do dia seguinte, e eu me lembro – lembro, lembro! – de ouvir mamãe cantando Carmen Miranda, o enredo do Império Serrano em 1972, escola do coração de meu velho pai.

Hoje, a quatro dias do sábado de Carnaval, ápice dos ápices da grande festa, acordei com esse samba ecoando na cabeça, samba que embalou o título da escola da Serrinha naquele longínquo 1972 (eu disse longínquo e no entanto 1972 está aqui, ao alcance das minhas mãos, à vista dos meus olhos que têm embaçado à toa).

Achei, há pouco, esses três registros que se seguem, todos de 1974. Eu, meu irmão, minha avó, minha mãe, meu pai – e se eu não estiver enganado as duas últimas fotos foram feitas durante um baile infantil no America, na Tijuca. É esse mesmo moleque que irá jogar-se nos braços do Cordão da Bola Preta, na manhã do sábado de Carnaval. Noutros braços, em busca de outros traços, com mais-que-trôpegos passos a fim de atingir a redenção sacrossanta que o Carnaval, a todos os que o compreendem, reserva.

E com vocês, meus poucos mas fiéis leitores, o samba do Império Serrano de 1972.

Até.

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DO DOSADOR

* Quem me lê sabe: no dia 08 de junho deste 2011 que se aproxima do final, atendendo a um pedido que me foi feito por meu irmão e por meu pai, assisti à final da Copa do Brasil – Coritiba e Vasco – devidamente trajado com a camisa que ostenta a belíssima cruz de malta. O relato está todo aqui, na íntegra. Pequena pausa. Gosto demais do meu relato e gosto ainda mais dos comentários que lá foram deixados (36 comentários até o momento em que lhes escrevo): há desde uma declaração da Leonor Macedo (uma escritora de mão cheia) – “Odeio menos o Vasco depois desse texto. Você é constrangedoramente foda.” – a um depoimento que me comove, do professor Idelber Avelar – “É lindo, lindo, lindo, o que você fez pelo Vasco nestas finais. Sabe o que isso faz? Isso ajuda na luta contra a violência nos estádios. Humaniza as pessoas. Não há time que eu deteste mais neste planeta que o Flamengo, mas saber que uma pessoa maravilhosa como você é flamenguista nos faz, a todos, irmãos no planeta.” -. Fim da pausa, retomo o fio do raciocínio. Pois na quarta-feira, anteontem, 09 de novembro, fui novamente convocado para assistir, com as mesmas pessoas, no mesmo bar, à mesma mesa (!!!!!), a partida entre Vasco e Universitario, do Peru, pelo joga da volta das quartas-de-final da Copa Sul-Americana. Precisando ganhar e reverter a vantagem do time peruano, que ganhara, jogando em casa, na semana anterior, o Vasco teria uma tarefa árdua pela frente. E eu, na condição de amuleto, fui convocado. Atendi ao chamado. E a tarefa foi ainda mais árdua, pois a equipe peruana chegou a estar à frente, no placar (2 a 1), obrigando o Vasco a vencer por pelo menos três gols de diferença. A nota hilariante, dessa vez, ficou por conta de que eu – rubro-negro há várias encarnações – era o único (vou repetir, o único!) vestido com a camisa do Vasco – e o bar estava apinhado de vascaínos, a começar por meu irmão, pelo Mauro, pelo Milton (os mesmos três à mesa comigo). Resultado: sabe-se lá por conta de que mecanismo disparado dentro de mim, logo após o apito final passei a agredir, verbalmente (sem qualquer pudor ou polidez), os torcedores presentes no estabelecimento. Foi de cagão, covarde, medroso pra baixo. Os três – que gentilmente não me deixaram pagar a conta, como em junho – precisaram me acalmar e me lembrar que o jogo tinha acabado e meu papel estava cumprido. O único registro fotográfico da noite está aqui. E reitero: a turma da fuzarca é mesmo boa;

* um registro: faz anos amanhã – 10 anos – o filhote da Leonor, o Lucas – a quem eu chamava enquanto convivemos, e a recíproca era verdadeira, carinhosamente (o carinho também era recíproco, ainda que tenha sido curto, o convívio) de Zé. A Leonor (escritora de mão cheia, como lhes disse acima) publicou no seu Eneaotil uma carta belíssima, comovente, pro Lucas, por ocasião dos 10 anos – que não são 10 dias, como diria minha bisavó (a carta pode, e deve, ser lida aqui). Por razões desinfluentes para a compreensão do que tenho como objetivo, não vou estar em São Paulo amanhã, não vou sequer falar com ele (protagonista de ao menos uma história contada aqui, no Buteco), e nem mesmo sei se consigo fazer chegar até ele os meus parabéns por conta de data tão bacana. O que espero é que, com sorte, um dia – ainda que demore – ele venha a ler isso, saiba que lembrei do seu décimo aniversário e que até comprei um presente bacana que não vou poder entregar no dia de amanhã. Sei, entretanto, e isso me dá certo alento, que nas vezes em que estivemos juntos – poucas, repito – fui um cara legal pra ele, a quem dediquei o melhor e o mais-que-pude. Os parabéns, é claro, vão também pra Leonor, pro Rodrigo (seu tio), pra Rose e pro Fausto (seus avós maternos). Vida que segue;

* na semana passada, no dia 05, sábado, fiz, na Mansão dos Zampronha, no Alto da Boa Vista, um pernil de porco para pouco mais de dez pessoas (as fotos do ágape podem ser vistas aqui). Eu, que tenho publicadas, no menu à direita, até o momento, dezoito receitas, recebi uma quantidade colossal de e-mails implorando a receita do pernil (enquanto eu preparava o pernil, com mais de 24h de antecedência, fui postando fotos no Twitter (aqui) e mesmo no Facebook (aqui), o que foi despertando a curiosidade da assistência). Até terça-feira, dia 15 de novembro, manter-me-ei afastado daqui. Mas prometo, ainda para a semana que vem, a receita do pernil que ficou, modéstia às favas, sensacional;

* se estivesse vivo e entre nós, faria 70 anos, amanhã, o grande e saudoso João Nogueira, que foi bambear no infinito há mais de dez anos. Dia, como tenho dito aos amigos no curso da semana, de beber na rua, nas esquinas, cantando seus sambas e celebrando a graça de viver na mesma cidade em que nasceu João Nogueira. Recomendo, vivamente, que se veja, também, esse filme (vejam,  aqui, belíssima imagens), sobre a inauguração do Clube do Samba, uma brilhante iniciativa do rubro-negro do Méier;

* e pra encerrar: estamos na reta final do mais emocionante Campeonato Brasileiro da era dos (lamentáveis) pontos corridos. Faltando cinco rodadas, Corinthians, Vasco, Fluminense, Botafogo, Flamengo, até o Figueirense (!), qualquer um tem chance de se sagrar campeão. Quero, é evidente, que o Flamengo saia com o heptacampeonato conquistado. Se isso não for possível, que o título não saia do Rio de Janeiro, onde ele está desde 2009 (com o Flamengo, e em 2010 com o Fluminense).

Até.

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A TURMA É BOA, É MESMO DA FUZARCA

Eu sou um sujeito que, ultrapassada a linha dos 42 anos e mexido demais com os desenhos que vêm sendo feitos sobre meu tecido de vida, ando cada vez mais emocionado, despudoradamente emocionado, constrangedoramente emocionado. Ontem, quarta-feira, o Rio de Janeiro vivia um estado de tensão visível por conta dos olhares e gestos dos torcedores do Vasco da Gama, que enfrentaria, à noite, o pernóstico e pedante Coritiba na final da Copa do Brasil. Uma geração de pequenos vascaínos cansados de tanta decepção, a velha-guarda escolada no vivenciar do que parecia ser uma sina interminável de fiascos, e fui trocando, ao longo do dia, telefonemas com diversos amigos torcedores do Vasco aos quais eu prometia aguda solidariedade durante a partida.

Havia prometido, ainda, a meu pai e a meu irmão, que eu assistiria à partida vestido com a camisa do Vasco – o que por muitos, dotados de uma mesquinhez que eu não conheço, foi encarado como uma traição ou algo assim. Eu, Flamengo convertido aos 5 anos de idade (sou o primogênito de um vascaíno filho de um vascaíno), que já me declarara a meu irmão em determinada ocasião – “por você sou vascaíno” – iria, sim, vestir o manto cruzmaltino em nome deles, Isaac e Fernando, em nome de meu avô Oizer, em nome de um de meus orixás vivos, Aldir Blanc, em nome de minha comadre Mariana Blanc, em nome de minha afilhada, Milena, em nome de Pedro e Joana, netos gêmeos do bardo da Muda, em nome de meu parceiro Cesinha Tartaglia, em nome de Bruno Quintella, em nome do seu Jorge, português boa-praça do bar do Marreco, em nome de todos os vascaínos que me cercam e que têm, cada um a seu modo, lugar no meu cada vez mais combalido coração, hoje renovado de esperanças… que a vida não é de brincadeira, como aprendi com Vinícius.

Às seis da tarde marquei de beber a abrideira com meu querido Luiz Antonio Simas, alvinegro, no Bode Cheiroso, portentoso botequim tijucano na General Canabarro. E às seis chegou-se o Simas vestido como o mais autêntico português: de bermuda, camiseta, meias e chinelo. Erguemos um brinde, ali, à vitória do Vasco. A fim de dar contornos históricos à sua opção de torcer pelo Vasco o Simas deu-me uma aula sobre a escrotidão da história do Coritiba, que negando a grafia Curitiba pretendia apenas ser elite – o que me enoja. Ficamos ali bebendo, na calçada, e eu comecei – confesso – a entrar no espírito da partida.

Um bando de loucas vascaínas, comandadas pela Marta, dona do pedaço, deu de encher bolas de gás vermelhas – é a cor da cruz-de-malta – e a distribuir apitos entre os presentes. O bar, que normalmente fecha cedo, estava em noite de gala. E noite de gala pra turma da fuzarca é sinônimo de cafonice, o que me comove sobremaneira. Fiquei ali diante delas achando graça no movimento. Diante do balcão, aquela coleção de homens que não valem nada, componentes fundamentais em qualquer bar que se preze.

Vinham chegando, aos montes, os vascaínos. Ríamos muito, eu e Simas. Chinelo de dedo, bermuda verde-limão, camisa do Vasco e uma touca amarela – um deles. Meião do Vasco, sandálias Havaianas, um short cor-de-rosa e a camisa do Vasco – outro deles. Um jagunço que bebia na área veio me cumprimentar – “Boa noite, doutor delegado!” – e era meu terno e gravata me dando uma aura de autoridade. Ali só havia a ralé que me emociona, os desalmados, os desgraçados, os escriturários, tarados, loucos e sanguinários (apud Aldir Blanc) que bebiam seu tragos a fim de acalmar o coração cravado na colina.

E penduraram bandeiras, e trataram de ajeitar guirlandas horrorosas de bolas vermelhas nas paredes azuis e brancas, e chegou-se a nós o Vidal, tricolor (talvez o único que eu respeite), derrubamos mais algumas casco-escuro e era hora de ir embora.

Do outro lado da cidade, em Laranjeiras, na Praça São Salvador, me aguardava meu irmão, Fernando, e dois de seus amigos, amigos meus por tabela, Mauro e Milton – três vascaínos de escol.

Simas tratou de ir pra casa e Vidal me acompanhou. Passei em casa, bebemos umas doses de Red Label – remédio fundamental em determinadas ocasiões – troquei de roupa e tomei a direção da São Salvador. Fernando tinha consigo a camisa que eu usaria a fim de que eu pudesse honrar o prometido e realizar um sonho de meu pai: ver seus dois filhos mais velhos vestidos com a camisa do seu Vasco. E assim foi.

Ainda de pé, diante de um bar lotado, vesti a camisa do Vasco.

Foi um tremendo jogo. Emocionante. Desses de causar sístoles e diástoles em pedra. Eu, na confortável posição de espectador (torcendo!, torcendo!) sem o envolvimento passional que só o torcedor nativo tem, agitei a turma da fuzarca que assistia ao jogo no pedaço. Neguinho roendo unha, fechando os olhos, chorando olhando pro chão e eu, cheio de uísque e cerveja, puxava:

– Cadê o ânimo, seus putos! Casaca! Casaca! Casaca-saca-saca!

E vinha o côro.

Disse impropérios em direção a uma loura desequilibrada que comemorou com palmas e gritos histéricos o terceiro gol do Coritiba no bar ao lado. Parti pra cima de três sujeitos que deram de ofender o Flamengo com a bola ainda rolando:

– Esqueçam o Flamengo! Eu sou Flamengo, seus filhos da puta! Concentração no jogo, porra!

E eles me olharam com olhos vazados de luz e respeito.

Chamei por meu avô Oizer quando faltavam menos de cinco minutos pro apito final e virei, num só gole, um copo americano de conhaque que pedi pra amainar o coração acelerado.

Não me deixaram sequer pagar a conta:

– Pelos serviços prestados! – disse-me o Mauro.

A turma, meus poucos mas fiéis leitores, é boa. É mesmo da fuzarca.

Parabéns, franca e sinceramente, a todos os vascaínos que me lêem.

Até.

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MINHA MÃE É UMA MULHER DE PEITO

Vocês que têm me acompanhado por aqui bem sabem que sou um homem de fazer confissões. Sabem, mais que isso, que tenho me dedicado, nos últimos dias, a fazer confissões arrancadas da gaveta da memória, fruto de intensos e violentos arremessos em direção ao passado que não me trai. Aqui e aqui, mais recentemente, tratei de um tema importante trazido à tona pelo historiador Luiz Antonio Simas em seu blog Histórias Brasileiras: a importância do uso do medo como instrumento pedagógico na formação do caráter do homem. Hoje, se vocês me permitem, vou fugir um pouco do medo mantendo-me fiel ao tema pedagogia. Antes, porém, permitam-me um não tão breve intróito.

Estava eu em casa, ontem, quando convoquei minha menina e minha sogra para o jantar. Sentei-me à mesa de pijamas (uso pijama) e deu-se em mim, antes mesmo da primeira garfada, um guincho que me lançou para 1985 (impossível esquecer o ano, estávamos a poucos dias do primeiro Rock in Rio). Morávamos na Professor Gabizo, quase esquina com a General Canabarro. E me veio à mente uma cena dessas que, contadas por alguém sem crédito, gera a reação da assistência:

– Mentira…

Disquei pra mamãe. Perguntei:

– Mamãe, posso contar no blog aquela história assim, assim, assado? – se eu lhes contar agora o que é, a graça vai embora.

Ouvi mamãe gargalhando do outro lado da linha. Ela, muito sábia, respondeu depois de uns segundos:

– Claro que pode! Rir ainda é um fantástico remédio!

Desligamos. De lá pra cá recebi telefonemas de meu pai (que não atendi de propósito imaginando o pedido de veto), e-mails, sinais de fumaça, mas acordei determinado a lhes contar sobre uma sensacional passagem envolvendo mamãe e seus métodos eficazes para educar os três filhos (sou o mais velho).

Hoje cedo, eu ainda tomava meu café preto no bar do Marreco, estrilou meu celular. Era meu dileto amigo e conselheiro, Aldir Blanc. Contei-lhe tudo, timtim por timtim. Só ouvi os guinchos e as gargalhadas do outro lado. Até que, ainda há pouco, chegou-me por e-mail um manifesto assinado pelo bardo:

“MANIFESTO que o direito do advogado, ativista político, compositor e cantor Eduardo Goldenberg escrever em seu blog sobre os seios da senhora mãe dele, minha querida amiga Mariazinha, é inalienável. Afinal, eles o amamentaram!”

Chorei, confesso, diante de tamanha manifestação de solidariedade.

Pouco depois do referido e-mail, foi Mariana Blanc, sua filha, minha querida comadre, quem escreveu em seu mural no Facebook:

“Eu não sei no Twitter, mas, nos telefonemas do meu pai durante todo o dia (sim, são sempre vários), no topo dos tópicos estão… peitos. P-E-I-T-O-S. E a culpa parece ser do Eduardo Goldenberg, como sói acontecer! Hahahahaha”

Feito o intróito, vamos ao que quero lhes contar.

Mamãe, que recentemente completou 43 anos de casada com meu pai – um homem que carrega frases feitas nos bolsos como maços de dinheiro – teve três filhos. Eu, o mais velho, nascido em 1969, Fernando, o do meio, de 1971, e Cristiano, o caçula, de 1975. Entre mim e Fernando e entre Fernando e Cristiano mamãe ainda perdeu dois bebês, dois homens, o que comprova que mamãe veio ao mundo para criar meninos. Sintam o drama da filha única da dona Mathilde. Pois bem.

Desde que me entendo por gente mamãe tem uma queixa: homens que sentam-se à mesa para as refeições sem camisa. Papai, então, sempre foi um radical. Mamãe podia receber um rajá em casa; lá estaria meu pai sem camisa e descalço expondo os pelos e os pés enormes que lhe renderam, em tenra idade, o apelido de Abominável Homem das Neves. Pois sabem como é… Três meninos que têm na figura paterna a figura do ídolo… Sentávamos todos à mesa, para as refeições, nus da cintura pra cima. Café da manhã, almoço nos finais de semana, jantares, todos sem camisa. E mamãe, com a paciência de uma espírita resignada, comendo entre muxoxos:

– Vocês sem camisa… tremenda falta de respeito…

Sobre isso, breve pausa. Mamãe sempre diz isso:

– Não admito que chamem meus filhos de mal-educados. Eles podem, isso sim, não ter absorvido a educação que dei!

Corria o mês de janeiro de 1985. Havíamos acabado de mudar para o edifício Míriam, no número 359 da Professor Gabizo, recém-construído. Fazia um calor dos diabos, verão carioca…

Estávamos na sala, eu, meus irmãos e meu pai. Mentira. Estávamos todos na varanda, era nosso primeiro apartamento com varanda, e isso era um luxo que vou lhes contar… Ouvimos o grito da cozinha:

– Meninos! Tá na mesa!

Papai disse:

– Já vou! Meninos, vão indo… vou aproveitar mais 2 minutos da fresca… – e meteu metade do corpo pra fora da varanda.

Fomos em fila indiana. Eu, na frente, estaquei diante da porta. Virei a cabeça como um boneco e penso que tinha os olhos saltados pra fora do rosto (notem que eu tinha 15 anos de idade, Fernando tinha 13 e Cristiano, 9). Gritei:

– Pai?

E ele:

– Hã!?

– Vem aqui…

Papai – um dos homens mais apaixonados que conheço – fez tremer o edifício a passos largos:

– O que houve?

Apontei pra cozinha, ainda de pé diante da porta. Papai pôs a cabeça por cima de nós, mirou em direção à mamãe e soltou:

– Prrrrrrrrrr!

Explico o “prrrrrrrrrr”.

Papai sempre nos ensinou:

– Não se fala palavrão na frente da sua mãe! Palavrão é pra falar na rua, no Maracanã, entre os amigos. Na frente da sua mãe, nunca! Entenderam!

Vai daí que, em casos extremos, o máximo que ele se permitia era um “porra”, o mais doce dos palavrões. Mas nem assim, nem sendo o mais delicado, ele se permitia um “porra”, que virava “prrrrrrrrrr”. Entenderam? Vou seguir.

Mamãe estava sentada à mesa com a mesa posta: salada verde com tomate, arroz, feijão, bife acebolado e batata frita. E estava nua da cintura pra cima (estávamos todos, como de costume, sem camisa). Mexendo o gelo dentro de um copo longo de Martini, disse como se nada estivesse acontecendo:

– Vai esfriar! Vocês não vêm?

Papai, coitado:

– Pixuxa, minha filha, o que houve? – ele estava de joelhos diante dela.

– Dudu, Nando, Cris, venham, meus filhos, sentem-se! – os olhos de mamãe brilhavam.

Papai virou-se e tentou interromper nossa marcha:

– Não olhem, não olhem! Sua mãe está nua! Prrrrrrrrrr!

Ela ficou de pé e foi enfática:

– Nua? Estou sem camisa, como vocês. Sentem-se! – e sentou-se de volta.

Papai, em visível estado de choque, disse em nossa direção:

– Vão vestir uma camisa, já! Prrrrrrrrrr!

Mamãe foi dura:

– Não! Hoje, não! Vai esfriar a comida. Vamos todos comer sem camisa hoje!

Foi o mais estranho jantar de meus 42 anos. Papai, assim que sentou-se, deu início ao transe. Baixou Tupinambá na cozinha mas mamãe não deu refresco:

– Ô, caboclo, dá licença. O senhor cuida do espiritual que da etiqueta e da educação dos meus filhos cuido eu. Canta pra subir! Saravá!

O caboclo cantou pra subir, de fato.

Papai cortava o bife e mastigava aos prantos. Cristiano, o mais novo, ajeitava os óculos a cada minuto. Fernando me chutava por baixo da mesa e eu, já exibindo meu talento polemista, dizia para desespero de meu velho:

– Pô, mãe, tudo em cima aí, hein!

Mamãe recolheu os pratos, serviu a sobremesa – era gelatina e eu percebi, ali, na escolha do doce, um sentido estético sensacional – e depois disse afagando as mãos de meu pai, que fungava sem pudor:

– Gostou, meu filho?

E ele:

– Da comida?

E ela, exibindo os seios:

– Não, meu filho! De sentar-se diante de mim e dos meninos assim, sem camisa! – e deu de rir, feito Exu-Caveira (apud Aldir Blanc).

Papai:

– Nunca mais, Pixuxa, nunca mais… – e assoou o nariz com o guardanapo de papel.

Ela, de pé, servindo-se de mais Martini:

– Acho que vocês entenderam, certo, meninos?

De lá pra cá – e lá se vão mais de 25 anos – nunca mais comemos nem de camiseta. Faça sol, chova, seja verão ou seja inverno, nunca mais ousamos desrespeitar esse desejo, tão simples, de mamãe.

Até.

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40 ANOS NÃO SÃO 40 DIAS

Eu sou um sujeito emocionado por natureza. Choro à toa mas esse choro que choro não é, em absoluto, desprezível ou corriqueiro por ser constante. Muito pelo contrário, é um choro capaz de me sustentar na medida em que representa uma espécie de catarse imprescindível para que eu me mantenha vivo, de pé. Dito isso, vamos ao que quero lhes contar hoje.

Fiz, em 2009, 40 anos de idade. E no tal dia, 27 de abril, senti o que chamam por aí de “peso da idade”. Sempre me senti uma múmia, é verdade. Um velho, um antigo, um ultrapassado. Mas o redondo da marca, os 40 anos (todos dizem “40 anos” com a boca cheia), foram um marco. Recebi, na ocasião, na Tijuca, minha aldeia, uma penca de amigos com quem fiz questão de comemorar a passagem dos meus 40 anos, e fui, naquele dia, a despeito do tal “peso da idade”, um homem em estado de graça.

Vai daí que ontem me dei conta de que estava eu às vésperas dos 40 anos de dois grandes sujeitos, nascidos, ambos, é claro, no longínquo 09 de maio de 1971. E aí eu retomo o fio do primeiro parágrafo: estava eu emocionado com a perspectiva de abraçar, hoje, Fernando Goldenberg e Leonardo Boechat. Dei-me conta disso quando estávamos, justamente eu e Leo Boechat, curtindo a domingueira no quintal do Aconchego Carioca, jóia encravada entre a Praça da Bandeira e a Tijuca, ele de violão em punho, garrafas de Heineken sobre a mesa, e a companhia – que não tardou a chegar – do bardo tijucano, Felipe Quintans, nosso Felipinho Cereal.

Repito hoje, pois, a homenagem que prestei a meu irmão, o Fefê, em 2006 – leiam aqui – ele que veio ao mundo, como o Leo, num domingo que era dia das mães, como ontem foi.

Ontem, logo depois da domingueira no Aconchego, parti em direção à casa de mamãe para o tradicionalíssimo almoço que comemora a data. Lá cheguei já devidamente calibrado, muito de leve, e senti uma saudade agudíssima de minha avó, mãe de mamãe, pela primeira vez ausente do furdunço, ela que partiu pro Orum em dezembro do ano passado. Tratei de tratar da saudade à base de malte escocês e segurei-me o quanto pude – tive êxito! – para não chorar diante daquele homem que vi nascer, há 40 anos.

Não tive a mesma competência quando falei com ele hoje cedo, pelo telefone, e tratei de constranger o motorista de táxi que me levava pro trabalho de tanto que funguei (fungo intensamente quando choro) assoando o nariz no lenço que tenho sempre no bolso.

Ele, a seu modo, dá-me lições constantes que eu, incorrigível, teimo em não aprender. Mas é bonito pacas ver o desenho de sua vida, a sabedoria que ele imprime a cada gesto, a boniteza de suas posturas, e é por isso que eu encho a boca pra dizer pros outros… é meu irmão.

Leo Boechat, que chega também aos 40, tem sido, já há tempos, meu parceiro mais constante quando dou de pousar o cotovelo nos balcões dos bares da cidade. Foi num desses balcões, no Vilarino, no centro da cidade, que há coisa de uns 2 anos ele me disse, a garrafa de Jack Daniel´s já pela metade, que eu era o padrinho, ao lado do padrinho original, de sua filhota, a Helena, que completará 3 anos em dezembro.

Foi ele que, num desses sábados, ao me ver chegar com minha menina no Casual, também no Centro, depois de atravessarmos uma tremenda turbulência juntos, desatou de chorar, desavergonhadamente, fazendo com que eu, naquele instante, reconhecesse nele um dos meus.

Vai daí que temos derrubado juntos garrafas e mais garrafas diante dos balcões dos pés-sujos nos quais ancoramos e eu tenho feito dele, ainda que à sua revelia, porto-seguro para que eu siga enfrentando os revezes da vida com dignidade e ânimo constante, muito por conta das confissões que faço, transformando-o numa espécie de fiel depositário do que trago em mim. Pra quem me conhece, não é coisa pouca.

Ergo, por isso, comovidíssimo, o copo cheio de cerveja com espessa espuma na intenção desses dois grandes sujeitos, amigos meus, irmãos-de-fé, unidos pelo 09 de maio de 1971.

Era o que eu queria lhes dizer.

Até.

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UMA NOITE TIJUCANA

Perdão, minha mãe, mas preciso começar assim… Meus poucos mas fiéis leitores, vocês que me lêem sabem que desde há muito deixei de lado a faceta do Buteco que expunha, de forma aguda, minha vida pessoal e meu dia-a-dia, por incontáveis razões que não vêm ao caso. Ocorre que preciso lhes contar sobre a noite de ontem por conta não apenas da excepcionalidade do ocorrido mas também por conta da belezura que foi o desfecho da história, já quase quatro da manhã.

Tudo o que se viveu na noite de ontem ficará para sempre guardado na memória e no coração dos que estiveram em torno da mesma mesa no Bode Cheiroso, glorioso pé-sujo na rua General Canabarro, na Tijuca (é claro), desde às sete e meia da noite.

O que quero lhes contar aqui é outro troço.

O Cláudio, autor do blog Chuta que é macumba (aqui), e que é um triplo explosivo ambulante (ele é, em ordem alfabética, comunista, corinthiano e japonês), responsável direto pela realização do desejo agudo que tomou de assalto meu mano paulista, o homem da barba amazônica, veio ao Rio para ver Vasco e Corinthians.

Na bagagem, despachada noutro vôo, em carne e osso, isso mesmo, Fernando Szegeri, que veio – tomem nota – apenas para beber comigo (eu ia escrever conosco, mas eu sou assim).

Após o jogo, conforme o combinado, reencontramo-nos todos no Bode Cheiroso, já que além do Cláudio, também fui ao jogo, com o Fefê, meu irmão do meio. No buteco ficaram (em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades) Felipinho Cereal, Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas e Marcelo Vidal.

Pois o Cláudio, quando descia a rampa das arquibancadas, disse a seus amigos corinthianos:

– Vamos comigo beber com uns amigos num buteco aqui perto?

Os civilizados membros da Gaviões da Fiel, homens mansos e desacostumados com as quebradas, fizeram “ohs” e “ahs”.

– Aqui perto?! Na Tijuca?!

– Na Tijuca.

– ´cê tá doido, meu! A Tijuca é foda. A Tijuca é violenta. A Tijuca é perigosa.

E ficaram nessa lenga-lenga nojenta que macula o bairro onde nasci, onde cresci e fui criado.

O Cláudio, que apesar dos olhos puxados enxerga longe, e que de otário não tem nada, foi ter conosco em torno da mesa.

E faço a ele o pedido público para que comente, ele mesmo, sobre o que foi o passeio que fizemos a pé (acompanhem o traçado em vermelho no mapa abaixo), da General Canabarro, de onde partimos quase às duas da manhã, em direção ao Estudantil, na Haddock Lobo. Saímos da General Canabarro, entramos na Oto de Alencar, descemos a Lúcio de Mendonça (onde mora o Simas), dobramos à esquerda na Mariz e Barros, à direita na Professor Gabizo, atravessamos a Heitor Beltrão, pegamos a Martins Pena, a Afonso Pena à direita, atravessamos a Doutor Satamini e entramos à esquerda na Haddock Lobo.

caminhada da rua General Canabarro até a rua Haddock Lobo, Tijuca, Rio de Janeiro

Pegamos o Estudantil fechado (perto das três da manhã!), mas vazava luz pela fresta da porta de ferro.

O Felipinho bateu:

– Quem é?

– Felipinho, amigo do Edu…

Abriu-se a porta.

– Pô, por que tu não disse logo que era você?! O que vocês querem?

– Três cervejas e quatro copos americanos… toma aqui o dinheiro…

Éramos, àquela altura, eu, Cláudio, Felipinho Cereal e Fernando Szegeri.

– Paga depois… paga depois…

Nos entregaram as três cervejas geladíssimas já abertas, os quatro copos, e o caboclo disse, já indo embora:

– Depois deixa no canteiro ali, ó, os cascos e os copos. Falou?

E disse o homem da barba amazônica, de olhos marejados, uma de suas frases clássicas:

– Sabe quando isso aconteceria em São Paulo?! NUNCA! – e fez-se o eco na deserta Haddock Lobo.

Generosas doses de Old Parr fecharam a noite, quando me despedi do malandro às cinco e meia da manhã.

Salve a Tijuca e – o Cláudio vai lhes contar… – suas ruas!

Até.

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MESA FORTE

Um sábado com direito a fortes emoções e fortíssima chuva adiando o fim da noite.

Marcelo Vidal, Fernando Szegeri, Isaac Goldenberg, Felipe Quintans (o Felipinho Cereal) e Luiz Antonio Simas, QUITANDA ABRONHENSE, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 15h29min
Fernando Szegeri, Fernando Goldenberg e Isaac Goldenberg, QUITANDA ABRONHENSE, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 15h43min
Fernando Szegeri e Felipe Quintans (o Felipinho Cereal), ESCONDIDINHO DA MATOSO, Tijuca, 27 de setembro de 2008, 17h03min
Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas e José Sergio Rocha, BAR DO CHICO, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 20h36min
Fernando Szegeri e Luiz Antonio Simas, BAR DO CHICO, na Tijuca, 27 de setembro de 2008, 20h36min

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