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O MOLEQUE FUTEBOL – PARTE 2

Publiquei, anteontem, retomando a rotina de pousar os cotovelos no balcão imaginário do buteco, “O moleque futebol – parte 1”, aqui. E eis-me aqui, novamente, para a parte 2, a parte final.

Assim terminei o texto de terça-feira: “Até que veio a sexta-feira, véspera da final da Libertadores de 2019.”. É sobre o que quero lhes contar, sobre a sexta-feira e sobre o sacrossanto sábado.

Eu já havia decidido, na quinta-feira, que não trabalharia na sexta: tenso demais, noites mal dormidas, uma expectativa de 38 anos guardada no incorrigível coração rubro-negro – não iria trabalhar.

Acordei cedo, pus Leonel no carro – minha sogra a tiracolo pra qualquer emergência de ordem médica – e tomamos o rumo da Gávea. Eu queria porque queria apresentar Leonel à sede do Clube de Regatas do Flamengo.

Tinha um porquê. Para além da graça de levá-lo ao Flamengo pela primeira vez, eu queria repetir, sob outra ótica, o que vivi em 2009, na véspera do Flamengo x Grêmio que fez o Flamengo hexacampeão brasileiro, no Maracanã, quando também estive na Gávea. Aqui, trecho do texto em que relato aquele sábado:

* o sábado foi, de novo, rubro-negro do início ao fim. Fomos à Gávea pela manhã e foi bonito demais ver a sede do Flamengo abarrotada de gente de todo o Brasil (eu, Candinha, minha menina e o Henrique). Foi bonito demais ver o sorriso do moleque diante dos troféus conquistados pelo Flamengo, e eu já era, àquela altura, o menino de calças curtas e de camisa listrada de mãos dadas com meu pai. Lá encontramos com Flavinho e Betinha, e ela trazendo no colo, junto do peito, o Felipe, com apenas 28 dias de vida, de boné rubro-negro e tudo! Leo Boechat e seu primo, Jean Boechat, o mais recente cidadão tijucano (o malandro apaixonou-se, de vez, pela Tijuca!), juntaram-se a nós e fomos à crise belga na Adega do Pimenta, onde a Sra. Boechat compareceu levando a Helena, uma de minhas afilhadas. De lá, partimos para São Judas Tadeu, no Cosme Velho, onde fizemos os devidos trabalhos;” . Esse texto, na íntegra, pode ser lido aqui.

Pois bem. Em 2009, encontrei a Betinha na Gávea com Felipe, seu filhote, no colo – ele com 28 dias de vida. Em 2019, dez anos depois, também na véspera de uma decisão, eu queria estar na Gávea com meu filho no colo, e ao lado de sua madrinha – justamente a Betinha. A vida dá voltas e faz desenhos bonitos demais.

Muita emoção, na Gávea. Muita.

Fui apresentar (!) a estátua do Zico a Leonel e chorei como se fosse ele, Arthur Antunes Coimbra, em carne e osso, diante de mim. Beijei a estátua, Leonel a beijou, fizemos fotos, minha sogra fingia achar tudo normal, Leonel refastelou-se naquele espaço, passou a achar (imaginei) que o mundo é muito mais divertido em vermelho-e-preto.

Correu a sexta-feira, mal dormi e no sábado, de novo, tomei Leonel pelas mãos para levá-lo à igreja de São Judas Tadeu, o padroeiro do Mais-Querido. Eu e ele de Flamengo. No trajeto, ele na cadeirinha no banco traseiro, fui cantando o hino, gritos da torcida, namorando seus olhos pelo retrovisor, embaçando a vista, até que estacionei no pátio interno da paróquia, no Cosme Velho.

Não eram 8 da manhã ainda e a igreja parecia arquibancada do Maracanã em dia de jogo cheio: só se via camisa do Flamengo, Leonel entrou em êxtase diante da multidão vestida de rubro-negro, rezei com ele no colo, fomos à gruta, acendi vela, e não segurei a emoção quando o levei, já na saída, pra ganhar a benção do padre:

– Meu filho, que Jesus te abençoe, que Nossa Senhora Aparecida te cubra de bençãos, que São Judas Tadeu guarde teu coraçãozinho e [pondo a mão no peito do maragatinho] que você lute hoje, meu filho, pra que você se sagre campeão com o Flamengo!

Eu, com minha guia vermelha-e-preta à mostra, soluçava diante do padre para assombro do moleque, que me olhava com olhos de o-que-foi-papai?

Foi chegando a hora do jogo.

Tomei o rumo do bar.

Ancorei no balcão do Bar Madrid, a bandeira em volta do pescoço, cerveja, o maracujá da casa (o meu preferido dentre os maracujás da cidade – eu ia dizer o melhor da cidade mas cada um tem o seu melhor e eu não vou repetir a postura abjeta dos jabazeiros do Instagram).

Sobre a bandeira, um parênteses. Tal bandeira pertencia a meu avô materno, Milton – torcedor do Flamengo, o que foi pela primeira e última vez ao Maracanã em 1950, na final contra o Uruguai. Não sei se procede ou não, mas meu avô dizia que bandeira oficial era essa, com o símbolo vermelho sobre fundo preto – ele maldizia a que trazia o CRF em branco. Em ocasiões especiais, como era o caso, eu a tiro do armário – onde fica muitíssimo bem acondicionada.

Tive mais uma síncope, como tantas ao longo da semana passada, quando chegaram ao Bar Madrid, de surpresa, Morena e Leonel – os dois de vermelho-e-preto, os dois de Flamengo e, sendo a Morena torcedora do Athlético Paranaense, isso me comoveu ainda mais.

Tinha que ser lá. Por mandinga, por tradição, por força do rito.

Terminar a noite completamente encharcado pela chuva que desabou na cidade na reta final da épica partida abraçado com a Morena – éramos a expressão do êxtase, da alegria, da mágica que foi aquele jogo – foi a coroação de um tempo que eu não vivia há pelo menos 10 anos, desde a conquista de 2009, ou sabe-se lá se não há 38 anos.

Quando eu não sonhava com a Morena.

Quando eu não sonhava com um filho.

Quando eu não era tão feliz quanto sou agora.

Até.

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O MOLEQUE FUTEBOL – PARTE 1

O último texto publicado aqui, no blog – esse troço em desuso desde que as ~redes sociais~ começaram a ocupar pra valer o tempo das pessoas – foi em junho de 2017.

Movido por sugestão contínua da Morena e da Marianna Araujo, duas das maiores entusiastas desse espaço, e empurrado pra cá pela enxurrada de emoções vividas no final de semana que passsou, volto ao balcão virtual do buteco depois de quase dois anos e meio.

Mas a ocasião de fato pede. Feito o brevíssimo intróito, vamos ao que quero lhes dizer.

Quando meu pai me levou ao Maracanã pela primeira vez, em 1969, eu era filho único, vascaíno (papai e seu pai, meu avô, vascaínos fanáticos) e não fazia idéia do que era aquele gigante de concreto em silêncio que meu pai me apresentava tão orgulhoso (a foto não me deixa mentir).

Em 1974, no Maracanã, novamente levado por meu pai, e pelas mãos de Arthur Antunes Coimbra, o Zico, virei Flamengo (contei sobre isso aqui). Eu já não era filho único e o Maracanã, pra mim, ainda era uma incógnita.

Em 1978, meu pai me leva de novo ao Maracanã – para meu primeiro jogo de futebol in loco. A meta era me fazer ver o equívoco que foi ter trocado de time em 1974. A final era Vasco e Flamengo e o empate era do Vasco. Meu irmão (vascaíno) também estava. O Deus da Raça estragou os planos do meu pai e o Flamengo tornou-se mais sólido que nunca dentro de mim. Conto sobre esse jogo aqui. A partir daquele jogo – meu primeiro, repito – o Maracanã passou a ser sagrado. E eu nunca mais o abandonei.

Um pequeno corte no tempo, um arremesso bem mais pra trás.

Cresci, molecote, ouvindo a família contar (a mulherada da família, sobretudo, as velhas, as avós, a bisavó e as tias é que contavam as histórias) que meu avô, pai de mamãe, fora à final de 1950. O segundo jogo de sua vida no Maior do Mundo. E o último. Vovô foi encontrado dois dias depois, embriagado, num botequim no Engenho Novo. Jurara nunca mais pisar no Maracanã. E nunca mais pisou. E eu nunca esqueci dele diante de mim, o Continental numa das mãos, o copo com Teacher´s na outra, me dizendo com tom grave:

– Cuidado com o Maracanã! Cuidado!

Eu quero fazer a primeira confissão: até o dia 28 de junho de 2014, eu tinha 45 anos de idade, eu temi repetir o gesto do meu avô e abandonar o Maracanã pra sempre. Na tarde/noite daquele 28 de junho, quando fui ao Maracanã com a Morena pra ver Colômbia e Uruguai pela Copa do Mundo, quando a Colômbia venceu e eliminou o Uruguai, eu chorei por ter vivido a sensação de ter vingado meu avô. E nunca mais tive medo do Maracanã. Foi um rito de passagem, uma libertação, um acerto de contas com o Tempo e com os fantasmas que povoam minha vida.

Estamos em 31 de maio de 2018. Leonel nasce perto da meia-noite – a melhor coisa que me aconteceu na vida. Filho de dois rubro-negros, a Morena é torcedora do Furacão (“a camisa rubro-negra só se veste por amor”), Leonel já chegou me fazendo cometer as loucuras e as insanidades, as belezuras e os desvairios que um filho justifica. Arriei ebó na maternidade depois de ter feito promessa pra Nossa Senhora de Nazaré no Círio de 2017 (já sabíamos que ele estava a caminho) e prometi, no lufa-lufa das primeiras horas de vida dele, que só voltaria a pisar num estádio de futebol com ele.

Camisa do Flamengo na porta do quarto, roupinha vermelha e preta, todas aquelas mandingas e eu fui criando, ao longo do primeiro ano de vida do piá, a expectativa que, presumo, é a expectativa de todo pai, de toda mãe, que é muito envolvido, que é muito envolvida com futebol e com seu time: a de fazer a cria conhecer sua paixão e se apaixonar por ela.

A Morena foi sensata desde o início. O moleque, nascido no Rio, carioca, haveria de querer torcer pra um time do Rio, não pelo seu Atlético Paranaense (sem o agá). Afinal de contas somos todos rubro-negros e foi assim que fui apresentando o Flamengo pra Leonel desde cedo. Um copo que pisca. Um chocalho. A camisa. As cores. O hino. Gols na TV, o Campeonato Carioca de 2019, o Brasileirão 2019, a Taça Libertadores 2019. Assim mesmo, nesse ritmo.

E a vida foi ganhando outro ritmo por causa do futebol (de novo). E digo de novo porque o futebol é maior que a vida, e conseqüentemente pauta a vida de um homem, dita seu ritmo, pontua a passagem do tempo, emociona, comove, faz rir, faz chorar. O futebol ganhou outras cores depois do Leonel e nessa reta final da Libertadores.

Cena comum nas últimas semanas: eu com amigos no bar, bebendo e falando da grande final, Flamengo e River Plate, contando sobre o final do Brasileiro em 1980, as finais de 81… E invariavelmente alguém me interrompia:

– Mas Edu… ninguém aqui na mesa havia nascido em 81…

Eu era a múmia, nesses momentos. Eu era arremessado violentamente em direção ao passado. A memória me vinha viva, ardendo, eu com 11, 12 anos, 1980, 1981, conversando com gente mais velha a quem eu invejava de leve por ter visto jogar Garrincha, por ter visto jogar Pelé, por ter visto os tricampeonatos do Flamengo, Rubens, Dequinha, Pavão, e eu era ali o homem que experimentava a sensação invertida que o Tempo me proporcionava.

Leonel era o vértice.

Eu o pus pra dormir todos os dias, em 2019, conversando com ele, baixinho, sobre futebol. Sobre o Flamengo. Sobre os jogos que vi e os jogos que veríamos, eu e ele.

Não foi nada fácil atravessar essa última semana até o sábado.

Em vários momentos eu fui o menino no colo do meu pai, embasbacado e maravilhado diante do palco gigante das gigantes emoções que só o futebol proporciona. Enquanto eu era o menino no colo do meu pai eu embalava o menino que me arrebata o coração e a alma desde que nasceu, há pouco mais de um ano e cinco meses. Fui e voltei diversas vezes de 1969. Ouvi meu avô me alertando pros perigos do Maracanã e do futebol. Dei mais de uma volta olímpica no colo do Zico. Como num filme, vibrei com o mesmo Zico, pouco depois, cobrando escanteio e com o Rondinelli saltando e fazendo a bola morrer no gol do Vasco. Meu pai me arrastava pra fora do estádio, pra onde voltei e volto até hoje. Explodi nas arquibancadas em 1980 vendo o Nunes fazer ventar. Passei a noite em claro pra ver o Flamengo botando os ingleses na roda, em dezembro de 81. Chorei e não foi pouco.

Até que veio a sexta-feira, véspera da final da Libertadores de 2019.

Volto amanhã pra lhes contar como foi.

Até.

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03 DE MARÇO, NATAL RUBRO-NEGRO

O futebol é maior que a vida. É paixão e, como toda paixão, inexplicável. Hoje, 03 de março, os torcedores do Flamengo rendem homenagens a Arthur Antunes Coimbra, o Deus-Menino, o Galinho de Quintino, o maior ídolo da História do clube, data de seu nascimento e, justo por isso, assemelhada ao Natal.

Eu, que aos cinco anos de idade, em 1974, fui convertido justo pelas mãos do Zico, um menino ainda no início da carreira (como lhes contei aqui), me emociono a cada 03 de março o que, dirão os racionais, é uma insanidade.

Não é.

Quem viu o Zico jogar – eu vi, eu vi! -, quem viu o Zico deixar o Flamengo rumo à Itália, quem chorou cantando com Moraes Moreira, quem acompanhou seu retorno ao Brasil, quem freqüentou as velhas e surradas arquibancadas de concreto do Maracanã, sabe que é Natal.

Eu não me canso de dizer: viverei sabe-se lá mais quantos anos e não conseguirei, nunca, expressar com a precisão que me é companheira – ninguém mais preciso, do início ao fim, do que eu – a gratidão que tenho por seu José e dona Matilde, que trouxeram à vida o Galinho de Quintino. A gratidão que tenho pela própria Vida e seus enredos, que me fizeram estar no gramado do maior do mundo naquele primeiro de dezembro de 1974 (foto abaixo, a cabeçorra maior, à esquerda, é minha!). A gratidão que tenho pelo próprio Zico que, sem saber, evidentemente, converteu aquele menino, filho e neto de vascaínos.

chegada-de-papai-noel-dezembro-de-1974

O dia de hoje, pois, é um dia que me comove feito o diabo. Um dia em que choro à toa quando revolvo as lembranças que insistem em viver dentro de mim. Choro, ainda em 2017, porque (como lhes contei aqui), “os meninos não têm um único jogador brasileiro, jogando no Brasil, capaz de despertar tamanha paixão. Choro porque (… ) o dinheiro fala mais alto que tudo, e os meninos não querem mais o futebol de bola-de-meia, a bolinha de gude, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas o tênis mais caro, o jogo eletrônico mais moderno e votar no BigBrotherBrasil. Choro porque eu sou arremessado ao passado, abruptamente, e soluço de mãos dadas com o Alexandre, e minhas mãos tremem junto com as mãos dele, e eu enxugo minhas lágrimas com os dois braços, junto com ele.”.

Até.

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64 ANOS DE ESPERA

Acabo de receber a camisa – verdadeiro tesouro! – da Seleção Brasileira de 1950, fruto da união de dois malucos fundamentais: Rodrigo Ferrari e Cássio Loredano. Com insana obsessão os caras pesquisaram o tecido, a textura, o escudo, as cores e eis que chegaram à perfeição: tenho em mãos a camisa que o Zizinho usou na final de 50.

Experimentei uma alegria de criança quando pus as mãos no tesouro, ainda há pouco. Fui arremessado ao passado e vi meu avô subindo as rampas do Maracanã naquela tarde de julho, como lhes contei aqui, em A taça do mundo é nossa.

CBD 1950

Foram 64 anos de espera.

Na quinta-feira pela manhã, a poucas horas da estréia do Brasil na Copa do Mundo, sei que acordarei tomado por uma emoção de mais de seis décadas. Vou chamar Barbosa, Castilho, Augusto, Nilton Santos, Juvenal e Nena. Chamarei por Bauer, Eli, Danilo, Rui, Bigode e Noronha; por Friaça, Alfredo, Zizinho, Maneca, Baltazar, Adãozinho, Jair da Rosa Pinto, Ademir de Menezes, Chico, Rodrigues e também por Flávio Costa. O Brasil há de chamar por seus heróis, todos já mortos e que hão de descer à Terra na manhã de 12 de junho a fim de participarem, invisíveis e vivísiveis aos que têm olhos de ver, da nossa batalha rumo ao hexacampeonato.

Recomendo aos que me lêem a leitura de dois blogs durante a Copa do Mundo: A Copa que vivi, de Bruno Ribeiro, aqui, e Dibrinho, de Fernando Szegeri, aqui, dois blogs criados somente para tratar do assunto que moverá o mundo até 13 de julho de 2014, quando o Maracanã, 64 anos depois, será palco de sua segunda final de Copa do Mundo. 

Até.

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A TAÇA DO MUNDO É NOSSA

(pra Flavia)

Eis que estamos a pouco mais de uma semana do início da Copa do Mundo de 2014.

Desde pequeno, e até meu avô Milton morrer em 2002, eu ouvia – e sempre assombradíssimo – a mesma história quando o assunto futebol vinha à baila (quase sempre, pois): vovô me contava que estava no Maracanã na fatídica tarde de 16 de julho de 1950. Contava, mais, que aquele fora o último jogo de futebol a que assistira. Ele contava essa história em tom soturno, os demais presentes sempre confirmavam com olhos de espanto, e sua última frase era sempre a mesma:

– Cuidado, meu filho, cuidado com o Maracanã.

E geralmente emendava, com os olhos embaçados e a voz embargada:

– Nunca mais pisei no Maracanã! Nunca mais!

Eu nunca disse ao meu avô que foi ele que me deu, pela primeira vez, a exata noção do que é o futebol e a certeza, cravada em mim, de que o futebol e a vida se confundem.

O primeiro jogo de que tenho lembrança é de dezembro de 1978 – eu tinha 9 anos de idade e já tinha medo do Maracanã, incutido pelo meu avô, que fora encontrado desolado, embriagado pela derrota, muitas horas depois do jogo de julho de 1950.

A verdade inapelável é que eu, desde 1978, vou ao Maracanã com o medo num dos bolsos. Vou ao Maracanã na angustiante expectativa de que seja, aquele, o último jogo da minha vida. Vou ao Maracanã com muito medo de repetir a história de meu avô.

Quase 40 anos de arquibancada e é evidente que já vi de tudo: vitórias épicas, derrotas acachapantes, campeonatos inesquecíveis e pesadelos em incontáveis finais – e nada foi capaz de me fazer querer repetir a saga de meu avô. Confesso, hoje, que em alguns desses jogos desci as rampas monumentais do Maracanã perguntando, de mim para mim, se eu voltaria.

E eu sempre disse que sim.

E eu sempre disse que sim porque minha opção sempre foi pela vida, mesmo quando diante da morte.

Acho que meu avô, em 50, deixou-se abater de tal forma, e passou a exibir seu luto como bandeira fúnebre desfraldada com tanto orgulho – afinal de contas, ele dizia, era preciso ser muito firme para manter a palavra e nunca mais voltar ao estádio – que ele teria mesmo era vergonha de ceder aos meus apelos (foram muitos) para me acompanhar num jogo do Flamengo (vovô era rubro-negro, como eu).

O fato é que se aproxima a Copa do Mundo de 2014.

64 anos depois, novamente realizada aqui no Brasil, e com a final marcada para o mesmíssimo Estádio do Maracanã.

Sim, o mesmíssimo Maracanã. Mais moderno, adaptado às exigências da organização da Copa do Mundo, mas no mesmo lugar em que meu avô, em 1950, testemunhou uma tragédia que lhe marcou pelo resto da vida, por longos 52 anos, até sua morte.

Vou realizar – mais uma confissão – um sonho de infância (e quero estar de calças curtas, camisas listradas, sandália nos pés, de novo com poucos anos de idade pra vivenciar o mesmo assombro de menino): serei anfitrião de milhões de torcedores, de apaixonados, de loucos que correm o mundo para ver o futebol.

Invejei os argentinos em 78, os espanhóis em 82, os mexicanos em 86, os italianos em 90, os americanos em 94, os franceses em 98, japoneses e coreanos em 2002, os alemães em 2006 e os sul-africanos em 2010, todos eles privilegiados anfitriões de cada uma dessas nove Copas do Mundo que testemunhei.

Agora, em 2014, somos nós, os donos da festa. Sou eu, que não sou o mesmo, também dono da festa.

Vai ser minha primeira Copa do Mundo ao lado dela, da minha Morena, que representou minha opção pela vida quando eu quase caminhei pelo caminho do meu avô.

E eu vou estar vestido com a camisa da Seleção Brasileira de 1950.

E eu vou, ah, as pretensões de um menino, de mãos dadas com ela, vingar o meu avô.

Pra frente, Brasil!

Salve, a Seleção.

Até.

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BOTAFOGO

(para Alfredo Barroso da Costa Lima Jr.)

A primeira imagem que me vem à cabeça quando penso no Botafogo, a mais ancestral das imagens, é a de um escudo que havia na cozinha de azulejos azuis e brancos até a metade da parede da casa de meus avós, na casa 4 da vila da rua São Francisco Xavier 84. Não era um escudo qualquer. Era um escudo todo ele feito de palitos de fósforo, a estrela solitária reluzindo na parede ao lado da porta que interligava a cozinha à sala e à escada, de mármore, já que a casa ficava no segundo andar.

Ah, essa casa de ancestrais memórias, de ancestrais lembranças – dentre elas, esse escudo do Botafogo que me impressionava demais por conta das centenas de palitos de fósforo que desenhavam o símbolo do time de minha bisavó, que morava com meus avós.

Vovó dizia que não tinha time. Meu avô, que esteve no Maracanã na final de 1950 e nunca mais voltou a um estádio de futebol por força do trauma, era Flamengo. Minha bisavó, Mathilde, que lá morava com a irmã, minha tia Idinha, é que era Botafogo (as duas, aliás).

E minha bisavó, uma notável contadora de histórias, me repetia, como em ladainha, sempre que estávamos na cozinha e eu apontava para o tal escudo:

– A maior goleada da história do futebol foi do Botafogo! 24 a zero! 24 a zero!

Sua irmã, a tia Idinha, gemia ao seu lado:

– Vinte e quatro! Vinte e quatro!

Eram Botafogo, também, seus filhos – meus tios: tio Carlos Henrique, tio Chico e tio Sílvio.

Guardo deles, no que diz respeito ao futebol, uma particular lembrança: os três reunidos (paparicavam, de forma olímpica, minha bisavó) se lamuriando, em coro, contra o jejum de títulos do Botafogo (que duraria, ai deles se soubessem, 21 longos anos).

No último sábado, à noite, depois da surpreendente derrota do Botafogo para o Bahia, o relógio marcava 23h20min quando estrilou meu celular. De Manaus, o Alfredo – um dos presentes que a grande rede me deu. Alvinegro de quatro costados, chorava como criança quando eu atendi. E gania, do outro lado da linha, a mais de 4.000 quilômetros de distância:

– Por que o Botafogo faz isso comigo?

Lembrei-me, vá entender, quando desligamos, de meus tios, de minha bisavó, de minha tia Idinha, todos mortos.

Fui dormir sob o impacto daqueles soluços violentos e sonoros do Alfredo. Sob o signo da saudade de todos os meus mortos, daquela vila, daquele tempo, daquele escudo.

Saudade sobretudo daquele escudo de fósforos que formavam a estrela solitária do Botafogo.

Lembrei-me do verso de Aldir Blanc  – “estrela é só um incêndio na solidão” -, liguei o “incêndio” do samba aos fósforos do escudo e fui dormir assim, com uma nostalgia paquidérmica, dessas que – tenho certeza e certa inveja… – somente um botafoguense sabe curtir.  

Até.

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VAMOS INDO? UM TRAUMA…

Estive no Maracanã com a Morena para ver Flamengo e Cruzeiro pela Copa do Brasil, quando o Flamengo venceu com um gol no finalzinho da partida. A Morena já havia estado no Maracanã comigo para a Copa das Confederações, Itália e México, mas fez sua estréia no estádio em um jogo do Flamengo com uma vitória de virada em cima do Fluminense, e a caráter, o que rendeu a ela, imediatamente, o caráter de talismã, jogo a jogo. Assisti à partida com o inseparável radinho de pilha, sob a viga 43 do maior do mundo, e deu-se o seguinte (é o que quero lhes contar hoje).

Final de jogo, o Maracanã em festa, e a Morena, dulcíssima (e cansada):

– Vamos?

Fui atirado, por uma catapulta imaginária, e arremessado em direção ao passado.

Desde 1978 até meados dos anos 80 (quando comecei a ir aos estádios com amigos mais velhos e sem meu vascaíno pai) eu vivi um drama. Meu pai, um sujeito mais metódico que o mais metódico dos homens, aos 39 minutos do segundo tempo virava-se para mim (e para meu irmão do meio) e dizia:

– Vamos!

Uma breve pausa: a única exceção foi em 1978 (como lhes contei aqui), quando papai quis ficar até o fim apenas para que eu visse o Vasco campeão diante do Flamengo. Rondinelli estragou seus planos, sedimentou minha paixão mas dali em diante nunca mais assisti, com ele, um jogo até o final.

A desculpa era sempre a mesma: evitar tumulto (um dos grandes atrativos do futebol).

Nova pausa: suas regras, seus métodos, valiam também para necessidades fisiológicas. A regra era dita sempre na subida da rampa:

– Vocês podem mijar agora e no intervalo apenas. Durante o jogo, nunca!

Voltemos.

Desenvolvi, então, ao longo dos anos, essa angústia, esse trauma, esse horror. Cansei de, descendo a rampa, ouvir pelo rádio um gol milagroso, salvador, um gol que decretava uma vitória suada, ou um empate, ou mesmo uma derrota acachapante. Nas primeiras vezes ainda gemia um “tá vendo?” sempre incapaz de sensibilizar o velho, arraigado a seus métodos com a tenacidade de um militar. E fui colecionando dores (um gol depois dos 40 sempre me doeu feito o diabo), frustrações, uma sensação de impotência que fez de mim, até hoje, um homem que só sai do estádio ao apagar das luzes.

A Morena disse “vamos?” e eu comecei a chorar (quase).

Contei a ela, rapidamente, sobre isso tudo.

Acho, sinceramente, que no fundo do fundo do fundo de mim eu desconto, após o apito final, todos aqueles minutos que perdi ao longo de tantos anos.

Fico ali, saboreando a imagem do gramado, das redes, das bandeiras, dos jogadores a caminho do túnel, ouço o começo da resenha pelo rádio, ouço de novo a narração dos gols, me vingo dos minutos de bola rolando que perdi.

Sou, a cada apito final, e até descer a rampa, e até ganhar as ruas, o menino de calças curtas que finalmente assistiu ao jogo todo, até o último minuto de acréscimo.

Ah, sim.

A coisa tem contornos tão fortes que, uma vez a cada jogo, pelo menos, sou arremessado por mim mesmo, e por meus fantasmas, em direção ao banheiro para mijar com a bola rolando, radinho de pilha equilibrado entre o ombro e o ouvido, livre das amarras daqueles tempos inflexivelmente delimitados.

Até.

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