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ARREMESSO AO PASSADO (01)

Em nove dias, completo 48 anos. E em trinta e nove dias, 17/05, completa 70 anos a minha mãe. A cada ano que passa, mais curta a ponte que passa por sobre o rio das minhas memórias e que, como nas trombas d´água, me arremessa em direção ao passado de forma desordenada, encurtando o curso do rio, fazendo desmoronar as margens, modificando as paisagens, e lá vem mais um 27 de abril, minha 48ª volta do ponteiro. Em 69, quando nasci, uma mulher de 21 anos levou-me ao colo – e embora houvesse, ali, um laço indissolúvel, havia também uma abissal distância de quase 8.000 dias de vivência entre aquela mulher e aquela criança. Hoje, 18 de abril de 2017, pouco mais de 17.500 dias depois daquele domingo de 1969, mais de um bilhão e meio de segundos depois, insisto em lutar contra a passagem do tempo porque há, em mim, morando em mim, chorando dentro de mim, o menino que nasceu no Hospital da Venerável Ordem Terceira da Providência, de frente pro morro do Borel, na Tijuca, evidentemente, e de lá foi levado para o apartamento da rua Barão de Mesquita, quase esquina com São Francisco Xavier e do qual não guardo nenhuma memória, o que me agonia ferozmente.

rua barão de mesquita

Vira-e-mexe, vá entender, dou de caminhar até o edifício de pastilhas azuis (que, pelo aspecto, são as mesmas pastilhas desde a construção), em busca, confesso, de não-sei-o-quê. Já lhes contei, aqui, que “vivo na Tijuca, na zona norte – minha terra, minha aldeia, meu pago. Aqui nasci, na Ordem Terceira da Penitência, na rua Conde de Bonfim, bem em frente ao morro do Borel. Desceram, meus pais, a Conde de Bonfim, e minha primeira taba foi na rua Barão de Mesquita, quase na esquina da São Francisco Xavier, na lateral do tradicionalíssimo Colégio Militar (onde fui batizado depois de ter sido circuncisado por um rabino, vão tomando nota, no oitavo dia). Dali, mudamo-nos para a São Francisco Xavier, número 90, primeiro no sexto andar e depois no segundo – em frente ao Orsina da Fonseca, quase em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, às margens do rio Trapicheiro (foi quando conheci Tarcisa, a mulher de seios de mármore). Meus países eram as vilas nas quais moraram meus avós – sempre na Tijuca. Mudamo-nos, anos depois, para a Professor Gabizo, entre a Morais e Silva e a General Canabarro, a poucos metros do Maracanã.”.

Moro hoje na Martins Pena, a poucos metros da Professor Gabizo, a poucos metros da vila onde moraram meus avós, quase ao lado do prédio em que morava dona Gisélia, a quem eu chamava “vovó Gisélia”, que mantinha em seu quarto um gongá que nunca me assustou – muito pelo contrário. Vovó Gisélia trabalhava com um Preto Velho e mantinha, na cabeceira de sua cama, dezenas de imagens de seus santos, seus Pretos Velhos, suas guias, uma vela sempre acesa e, como diria Caymmi, tá tudo vivo ainda lá. Sua filha, madrinha de meu irmão caçula, minha vizinha, contou-me dia desses: tá tudo ainda lá. Moro com a Morena, que me viu nascer de novo aos 42 anos. Para ser mais preciso, moro com a Morena, que me fez nascer de novo aos 42 anos.

Ela chegou ao mundo e eu já tinha 7 anos. Ela chegou ao mundo a 1.300 quilômetros de distância de mim. Uma distância tão colossal quanto a que me separava de minha mãe em abril de 69. Ela chegou ao meu mundo já quase no final de 2011 e mudou-se de mala, cuia (com bomba e mate!) e um cachorrinho lindo no final de 2012 – quando efetivamente começamos a construir o nosso mundo. Eu dependia infinitamente mais dela do que ela de mim. Eu tinha 43 anos quando ela veio pra mais-perto.

Acho que ainda é assim: sou mais dependente.

Perdi um bocado de gente ao longo desses muitos anos. O mulherio liderado pela minha bisavó, a matriarca dos Monteiro de Barros, meus tios-avós todos, minha avó, que não conheceu a Morena mas que já me disse que a acha linda (sabida, minha avó). Jamais saberei o que terá sido de mim se não fossem tantas, as mortes. Mas há tanta vida no alarido de tantos fantasmas em mim, dentro de mim, em volta de mim, há tanta vida no caramelo dos olhos da Morena, que me arrastou pras praias mais bonitas do mundo quando fez 40 anos, há tanta vida no que está por vir por mais que doa caminhar que, franca e sinceramente, não sinto, ainda, o peso nos ombros de que tanto falam.

Tenho a disposição do moleque que fui, de calças curtas, camisas listradas e meu time de botão sempre à mão. Enfrentei muita vilania, cantei muito pra virar muito olho grande pras ondas do mar, mas quem me protege não dorme e quem dorme comigo é que é meu porto seguro, minha cidadela, minha chinoca com quem trago o melhor que um trago traz.

Até.

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PASSEIOS EM AEROPORTOS, MAIS UMA HERANÇA DE MEU PAI

Antes de começar a confissão de hoje, ligeiro arremesso em direção ao passado, quero dividir com vocês auspiciosa curiosidade: um dos textos mais lidos do Buteco do Edu é “Papai também é fóbico”, que pode ser lido aqui. E digo aupiciosa curiosidade porque tal fato, ver papai lido e relido Brasil afora (mundo afora, permitam-me a ousadia), me dá espantoso orgulho. Vou seguir em frente em busca de ser mais claro, até porque hoje quero lhes falar de aeroportos e, claro, de papai.

Desde pequeno (não saberia lhes precisar a idade) mantenho estranhíssima relação com aeroportos – e graças a meu velho pai. Explico: papai tinha uma fixação, bem me lembro. Vez por outra (também não saberia lhes precisar com que freqüência) papai armava um programa que hoje me soa tijucano da partida à chegada: íamos jantar no Galeão, no restaurante Demoseille, com nossas melhoras roupas. Recebíamos a ordem:

– Vamos jantar no Galeão!

Éramos três (acho que na verdade isso começou antes mesmo do nascimento do mais novo, em 1975) e fazíamos uma tremenda algazarra diante da notícia. Era, notem que não havia a Linha Vermelha, uma viagem. Papai subia a avenida Brasil com seu Fusca (depois com sua Brasília, depois com seu Passat…), atravessava a ponte belíssima com lampiões de luz amarelada que nos levava à Ilha do Governador e chegávamos excitadíssimos no Galeão, sempre com direito a uma passada no terraço que nos permitia ver as aeronaves decolando, aterrissando, taxiando ou mesmo paradas – era uma festa. Até que íamos para o Demoseille, do qual tenho (mais uma confissão) tristes lembranças. Na minha memória éramos quase sempre a única mesa ocupada no imenso salão. E sempre, rigorosamente sempre, enquanto bebia sua dose de uísque (não havia Lei Seca e papai bebia à larga), papai fazia a mesma cara de surpresa, tomava da caneta que carregava em sua capanga de couro, preta, escrevia algo num guardanapo de papel e o estendia ora pra mim, ora pro irmão do meio:

– Entreguem ao pianista!

Era meu pai, pedindo “Ebb tide”, e sempre “Ebb tide”, todas as vezes “Ebb tide”.

Há quem estranhe, ainda, minhas pequenas obsessões.

Mas o que eu queria lhes contar era outra coisa.

Recentemente fiz uma viagem com a Morena e fomos, evidentemente, ao aeroporto (para ir para nosso destino e para voltar, claro). Chegamos com – o quê?! – duas, duas horas e meia antes do horário do embarque. E lembrei-me, a caminho do Galeão (amo o Maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim mas o Galeão sempre será o Galeão) de um (mais um) hilariante episódio envolvendo papai.

Papai e mamãe foram a Paris, dia desses. Eu, bom filho que sou, ofereci-lhes carona para o aeroporto. Papai foi veemente:

– Não precisa, Eduardo! Já tratei um taxista! Tudo acertado, tudo nos conformes!

O vôo, marcado para às 18h.

Às 10h da manhã do dia do embarque, bom filho que sou, bati-lhes o telefone para desejar boa viagem.

Chamou, chamou, ninguém atendeu.

Disquei, então, para o celular.

Atendeu mamãe.

– Opa, minha mãe! Tudo bem?

A resposta foi seca:

– Arrã.

– Liguei pra desejar boa viagem, vocês não estão em casa?

Ainda mais seca:

– Não.

Fiz silêncio, bom filho que sou, ligeiramente constrangido com suas reações. Até que ela prosseguiu em tom irônico:

– Seu pai achou melhor chegar oito horas antes do embarque pra não haver qualquer problema. Estamos aqui no Demoseille, não sei se você lembra…

Ao fundo, “Ebb tide”.

Esse, meu pai.

Essa, minha confissão de hoje.

Até.

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ARREMESSO AO PASSADO (ou UMA CANÇÃO DE NINAR)

Deu-se que no domingo passado resolvemos, eu e a Morena, à noite, subir a Conde de Bonfim em direção ao Alto da Boa Vista para um daqueles tradicionalíssimos (e tijucaníssimos) lanches de domingo em família. E minha mãe, inspiradíssima, não se contentou com um simples lanche: a mesa, farta, exibia camarões, pastéis de queijo (que mamãe prefere chamar de burreca, iguaria judaica “feita por uma moça que mora na Engenheiro Adel que é uma delícia!”), saladas, pão de miga e outros bichos. Fomos recebidos por minha cunhada, que também estava lá (meu irmão, não). Aliás, diga-se, nenhum de meus dois irmãos estava lá. Éramos, portanto, cinco à mesa.

Contei-lhes isso em nome da precisão que me é companheira.

Papai foi pouco efusivo quando nos viu e tirou, do bolso imaginário do imaginário paletó, uma de suas frases preferidas (meu pai, o homem que tem pânico de servir sorvete com medo de que o sorvete vire sopa, tem uma coleção de frases feitas, entenda aqui lendo Papai também é fóbico):

– Hoje acordei tarde.

Aqui você entende porque essa frase é uma das clássicas frases de meu velho pai.

Houve um muxoxo coletivo (todos já sabem que a frase virá) do qual apenas a Morena não participou por falta de experiência. Ela perguntou, interessada:

– É? A que horas?

E ele, de pé, em posição de sentido, respondeu altíssimo:

– Tarde, hoje foi tarde… Quatro e dez da manhã!

Mas não é disso que quero lhes falar.

Estou, como lhes contei aqui, sem beber cumprindo a Quaresma.

À certa altura do lanche, mamãe perguntou:

– Edu, bebe um vinho comigo?

Fiz que não e a lembrei da proibição. Ela levantou os braços em direção ao lustre de cristal que pende sobre a mesa e que foi de minha avó paterna e disse:

– Graças a Deus!

Meu pai, que repete tudo o que mamãe diz como um xipófago do verbo, complementou:

– Graças a Deus!

Seis olhos – os meus, os da Morena e os de minha cunhada – cravaram os dois. Mamãe sacou o movimento e disse:

– Bom saber que você está conseguindo… – suspirou.

Seguiu, arranhando o prato com os dentes do garfo:

– O DNA da nossa família é perigoso…

Não me contive e explodi de rir.

Vejam vocês…

Não está no meu DNA, como sugeriu mamãe, a propensão a beber de forma industrial. Temos, é claro, como quase todas as famílias, os alcoólatras de estimação que nos redimem, inclusive, da culpa por bebermos demais.

O fato – atribuo a isso a minha relação intensa com a bebida! – é que uma de minhas canções de ninar preferida era a que vinha do som das pedras de gelo tilintando nos copos de cristal nas mãos da família inteira – inteira, sem exceção.

Papai chegava do trabalho? Mamãe servia duas generosas doses de uísque e tome de barulho de gelo no meu ouvido. Eu ia pra casa de meus avós? Vovô e vovó jogavam carteado: ele bebendo Teacher´s, seu preferido (vão tomando nota!), o indicador da mão direita fazendo girarem as pedras no interior do copo e minha avó bebendo Brahma em lata – ambos fumando desbragadamente, ele Continental e ela Hollywood. Minha bisavó nunca (eu disse nunca!) dispensou o licor de menta depois das refeições. Se havia festa, então, a carraspana era certa.

Cresci, pois, vendo, ouvindo, cheirando o álcool das inúmeras bebidas que embalavam aquela gente.

Durante esse período da Quaresma, então – quero fazer o registro -, ouço o barulhinho das pedras de gelo com intensa freqüência.

Graças a ele – ao som – eu ainda não sucumbi.

Um último registro: demonstrando intensa sensibilidade com o evidente sofrimento de um sujeito como eu, privado do prazer de beber, mamãe disse, ao nos ver diante da porta, saindo (comprovando que, aí sim!, o DNA da olímpica implicância carimba a família há sei lá quantas gerações):

– Oh, filho! Espere aí, espere aí!

– O que foi, mãe?

E ela me estende duas (eu  disse duas) garrafas de Red Label fechadas, na caixa:

– São suas. Leve.

E sorri, assim, de canto-de-boca.

Até

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ARREMESSO VIOLENTÍSSIMO EM DIREÇÃO AO PASSADO

Deu-se o seguinte: ontem pela manhã, bem cedo, recebi um e-mail enviado por minha velha mãe. Ei-lo, na íntegra, que eu sou preciso do início ao fim e, mais do que preciso do início ao fim, colho provas com a obsessão de um promotor visando esfregá-las no focinho do primeiro que ousar duvidar do que digo, do que escrevo.

“Oi, Du: consultando o Nilo Cairo, encontrei uma receita do Dr. Lauro pra você, de 1976. Guardei para lhe dar. Me lembre quando vier por aqui. Beijossssssssssss.”

Quando li a conjunção das palavras e dos números – Nilo Cairo, Dr. Lauro, 1976 – plantou-se em mim uma febrícula e um tremor de mãos que me atestaram com certeza: lá estava eu a sofrer mais um dentre tantos os arremessos ao passado que me derrubam de vez em quando.

O Dr. Lauro, de quem tanto já lhes falei por aqui (um simples exemplo é esse texto aqui, de setembro de 2008), é, em mim, até hoje (já morreu, o bom Dr. Lauro), um santo com direito ao halo luminoso sobre a cabeça, e a quem recorro, em oração, diante do primeiro sintoma de seja-lá-o-quê-for. Aqui, texto de fevereiro de 2012, uma pequena descrição do que fomos, eu e mamãe, no enterro do bom homeopata.

O Nilo Cairo, uma espécie de Bíblia da Homeopatia, é o único livro de cabeceira de meu pai. Se vocês querem ver meu pai feliz, excitado como a criança diante do primeiro velocípede, basta fazer o seguinte: batam o telefone pra ele, ou mesmo enviem a ele um e-mail, perguntando para quê serve determinado remédio da homeopatia. O velho será um homem em estado de êxtase… Folheará o Nilo Cairo – e papai fala Nilo Cairo como quem se refere a um amigo de infância! – e lerá a indicação do remédio com a voz empostada, de pé, como se fora o Papa rezando a Missa do Galo diante do Vaticano lotado.

Em 1976, em 16 de fevereiro de 1976 (data aposta no receituário), eu tinha apenas 6 anos de idade. Em 16 de fevereiro de 1976, faltando duas semanas para o Carnaval, estaria eu já com a mesma febre que me antecede os Carnavais de hoje em dia? Ver e ler no receituário a letra mágica do médico que cuidou de mim até morrer, reconhecer na letra do velho Dr. Lauro a letra do seu filho que hoje me atende na mesma rua (mudou-se há pouco para outro consultório) e que vem a ser a rua onde fui morar assim que nasci (em texto de 2007, a foto do prédio que me viu bebê, aqui), tudo isso foi responsável pela montagem do cenário: eu, aos 43 anos, tive de novo 6 anos de idade, os mesmos sintomas que fizeram papai e mamãe marcar a consulta, a mesma ziquizira que fez com que o Dr. Lauro receitasse o que me receitou há mais de 35 anos.

Mamãe, que é ansiosa (o que explica muito do que há em mim), não esperou que eu fosse até sua casa para me entregar a receita, como dissera no e-mail de ontem. Hoje cedo, quando voltei da médica da alma, o porteiro me entregou um envelope e disse:

– Seu pai passou aqui e deixou isso pra você…

No envelope, a letra de mamãe: “Edu, conforme o prometido.”.

Subi pelo elevador abrindo-o com cuidado, tirando a receita dobrada, amarelada, e antes mesmo de saltar no quarto andar eu tinha febre e mãos trêmulas.

Entrei em casa, tratei de digitalizar o que recebi como tesouro a fim de preservá-lo, e corri pra cá, a fim de dividir com vocês mais esse arremesso em direção ao passado, justo no momento em que atravesso a expectativa de arremessos em direção a um futuro tão promissor, tão repleto de coisas boas por conta da chegada da mulher que o minuano me trouxe, como desenhei aqui.

Na manhã dessa feriado, nessa manhã chuvosa, agradeço à mamãe, publicamente, pelo estopim de emoções que seu presente me trouxe. E ergo o copo cheio de espessa espuma brindando à Vida, a caprichosa senhora que a todos nós conduz, pelos encontros que me proporcionou.

Até.

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OS DENTES DE MINHA AVÓ

Vejam bem uma coisa, vocês que me lêem. Vira-e-mexe eu me valho da expressão “arremesso violento em direção ao passado”. Geralmente, quase sempre – sempre, eu diria – estou me referindo à sensação absurda, quase-mágica, que experimento quando dou com uma foto minha, bebê, criança, adolescente, já – eu, às vésperas de completar 43 anos de idade, tenho cada vez mais esses arremessos. Pode lhes parecer apenas uma brincadeira para definir o que muitos de vocês chamariam de saudade ou mesmo de nostalgia. Isso seria, se fosse de fato apenas isso, extremamente reducionista. Porque o arremesso violento em direção ao passado a que me refiro, meus poucos mas fiéis leitores, é mais que isso. Infinitamente mais que isso. Mais grave que isso. Mais intenso que isso. E muito mais bonito que isso. Vou às minhas digressões em busca de ser compreendido e a fim de prosseguir nessa batalha diária, nesse lufa-lufa incessante e doído que é o exercício de exorcizar os anjos e os demônios que moram em mim.

Se eu realmente sofro esses arremessos diante de uma foto minha, antiga, de um encontro com um parente, por exemplo, como aconteceu quando encontrei-me com o Alexandre um dia desses (relembrem aqui), se esse arremesso é capaz de produzir em mim, de forma muito nítida, os cheiros que me levam aos cenários para os quais me transporto, se ouço as vozes dos fantasmas com os quais convivi, vocês façam uma idéia do que sinto ao me deparar com uma fotografia de há séculos – como a que ilustra este texto.

A foto é da década de 40 (portanto, de mais de 30 anos antes de eu vir ao mundo). Nela estão, na casa em que viviam meus bisavós – Mathilde e Eugênio, e ele eu sequer conheci – à esquerda minha tinha Linda, Carlinda para ser mais preciso, e à direita minha avó Mathilde, tendo minha tia Linda sua filha Maria Vitória no colo (minha madrinha, a quem não vejo há mais de 30 anos) e minha avó, mamãe – Mariazinha.

A foto me dá febre (e se vocês duvidam de mim, lamento profundamente não poder lhes mostrar o mercúrio do termômetro na casa dos 37 graus). E na busca enlouquecedora da razão da febrícula, me perco: pode ser porque minha avó me dá uma saudade tremenda, ela que foi oló em dezembro de 2010, como lhes contei aqui em 07 de dezembro de 2010. Pode ser porque não vejo minha tia Linda há mais de 30 anos, porque sei que ela está ainda viva, porque sei que sofre de Alzheimer e que por conta disso, ainda que eu supere a aridez do caminho que eventualmente me levaria até ela, ela não lembraria de mim e isso me causaria uma dor profunda. Pode ser porque não vejo minha madrinha há mais de 30 anos, e nem mesmo sei se ela ainda é minha madrinha (não, não é), mas é uma hipótese a se considerar. Pode ser causada, a febre, por conta da imagem de minha mãe ainda bebê, vestindo um vestido branco belíssimo como o que nunca vestiu a filha que eu não tive, com laço de fita nos cabelos e com uns sapatinhos que – vejam vocês como sou parte de uma família de obsessivos pela memória – mamãe guarda até hoje numa das estantes da sala de sua casa, eles que receberam um banho de cobre para que ficassem preservados para todo o sempre. Pode ser porque vejo, atrás das duas irmãs, na fotografia, meu tio Beneval e meu avô Milton – também já mortos.

Olho, olho de novo, tiro a temperatura, ouço a voz das primas que nunca mais se falaram, ouço a gargalhada de minha avó, ouço a voz da tia Linda, e antes de prosseguir quero lhes contar um troço. Vamos a uma breve pausa.

Sábado passado, como lhes contei aqui, houve a festa em comemoração à memória do Estephanio´s, na casa de meu irmão. Pois bem. Estava eu sentado à mesa, era cedo ainda, quando vejo chegando duas mulheres e três adolescentes, descendo a ladeira que liga o portão ao jardim da casa. Disse-me o Fernando, meu irmão:

– Não sei quem são. Você sabe?

Ele estava de frente. Virei-me, senti o frêmito e disse:

– Ana Paula e Carla. As crianças não sei quem são.

Vejam: Ana Paula é filha da Maria Vitória, eu também não a via há mais de 30 anos. Carla é filha de meu tio Carlos Henrique, meu tio Hique, filho de minha bisavó Mathilde, irmão de minha avó, e os adolescentes eram filhos da Ana Paula. Daí eu, que já estava em transe por conta do arremesso que a simples realização da festa causava, deixei-me levar pelo turbilhão do tal arranco. Estranhíssimo, quero lhes dizer, ouvir aquele “oi, primo”. Não era exatamente a presença delas que me tirava dali em direção a sei-lá-pra-onde. Era minha bisavó, que pairava sobre nós, sabe-se lá se satisfeita com aquele reencontro, era minha avó, também presente, era aquele cheiro insuportável de hortelã, das pastilhas de minha bisa, misturado a um cheiro de talco, que me tiravam do eixo. Ana Paula bem que tentou um diálogo, e só eu sei a força que fazia, olhando para pontos distantes dali (disso bem me lembro), para não sair dizendo as frases desconexas que me vêm à boca numa hora como aquela. Era o que eu queria, por enquanto, lhes dizer. Voltemos à fotografia.

Nada do que vislumbrei como sendo a causa do aumento abrupto da minha temperatura era, de fato, responsável pela febre. Eu tinha febre (ainda tenho, enquanto escrevo) por conta dos dentes de minha avó. Notem bem: são dentes horríveis, amarelos, enegrecidos. Vovó fumava. E eu não tenho essa imagem dos dentes de minha avó, em mim. Amarelos, em relação à minha avó, só os azulejos de seu banheiro, o mesmo que testemunhou minha descoberta do gozo com a Adele Fátima, meu primeiro contato com a quiromania (lhes contei sobre isso – inclusive sobre a cor dos azulejos  – aqui). Vovó, quando morreu, usava dentaduras (e era, confesso, uma dentadura belíssima, vovó tinha um sorriso belíssimo, vovó era doce como a mais doce das avós). E esse não conhecer seus dentes amarelos me causa arrepios absolutamente incompreensíveis.

Em apertada síntese, às vésperas de meus 43 anos, tenho aguda saudade de minha avó e de seus dentes amarelos. Amarelo me lembra também um girassol. E girassol me remete, de imediato, não a Van Gogh, como a grande maioria de vocês deve ter imaginado. Mas ao catavento que tem dentro o que há do lado de fora do meu girassol. Sou eu, meus poucos mas fiéis leitores, com saudade de minha avó, pedindo a ela um sustenido e me deparando com esse sorriso bemol, amarelado, que me dá essa febre incompatível com o momento que vivo, de febril saudade (me basta a febre da saudade, eu não preciso que minha temperatura suba). Mas é sempre assim, quando vem chegando abril.

Sou um sujeito entorpecido por cada um dos abris que já vivi. E enquanto tomo um analgésico pra afastar de vez essa febrícula inconveniente, tomo também meu chimarrão, que tem na cuia um risco também amarelo, pensando em quem me trouxe sol (amarelo) para amainar a sombra de tantas ausências.

Até.

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É MELHOR SE LEVANTAR!

Eu tinha pouco mais de dois anos de idade. Carnaval de 1972. Não sou capaz de lembrar de rigorosamente nada desse período. Mas sou capaz de jurar que lembro de mamãe cantando esse samba, do Império Serrano, pra me fazer dormir (e vocês tirem suas conclusões, se é possível que eu tenha crescido um homem 100% normal tendo sido ninado com samba-de-enredo!) – eu, aqui, em Uma noite imperiana, já contei um pouco dessa história pra vocês.

Tenho, do Carnaval, incontáveis lembranças. Fantasiava-me de índio, ia aos bailes infantis, e me é também, muito viva, a lembrança dos desfiles das escolas de samba pela TV. Papai e mamãe recebiam uma penca de amigos em casa, almofadas espalhadas pelo chão, o desfile ainda era na avenida Presidente Vargas e durava uma noite inteira, até a manhã do dia seguinte, e eu me lembro – lembro, lembro! – de ouvir mamãe cantando Carmen Miranda, o enredo do Império Serrano em 1972, escola do coração de meu velho pai.

Hoje, a quatro dias do sábado de Carnaval, ápice dos ápices da grande festa, acordei com esse samba ecoando na cabeça, samba que embalou o título da escola da Serrinha naquele longínquo 1972 (eu disse longínquo e no entanto 1972 está aqui, ao alcance das minhas mãos, à vista dos meus olhos que têm embaçado à toa).

Achei, há pouco, esses três registros que se seguem, todos de 1974. Eu, meu irmão, minha avó, minha mãe, meu pai – e se eu não estiver enganado as duas últimas fotos foram feitas durante um baile infantil no America, na Tijuca. É esse mesmo moleque que irá jogar-se nos braços do Cordão da Bola Preta, na manhã do sábado de Carnaval. Noutros braços, em busca de outros traços, com mais-que-trôpegos passos a fim de atingir a redenção sacrossanta que o Carnaval, a todos os que o compreendem, reserva.

E com vocês, meus poucos mas fiéis leitores, o samba do Império Serrano de 1972.

Até.

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DIANTE DO INTRANSPONÍVEL

Ao longo de pouco mais de 42 anos de vida aprendi, é evidente, algumas lições. Somos, cada um de nós, produto de cada um dos segundos vividos desde o nascimento, e é desinfluente dizer que ainda acredito no amealhar de cada um dos segundos vividos nas vidas pretéritas – não vem ao caso, não faz diferença para o que quero lhes dizer e isso aqui não é, definitivamente, palanque para pregações de qualquer natureza. Vou me ater, pois, ao mais simples.

Eu sou produto direto do meio em que vivi, e quantas vezes debrucei-me neste balcão virtual para lhes fazer minhas confissões (e, creiam, as faço precipuamente para mim mesmo, num exercício doloroso e prazeroso de arejar a alma, de exorcizar meus fantasmas, de compreender meus medos e de buscar ser e estar melhor)…

Nasci em 69 num hospital que fica de frente pro morro do Borel – e isso já diz, a mim, muita coisa. Primeiro filho de pais absolutamente fabulosos (meus amigos, os que me têm por perto, não me deixam mentir), nasci e cresci na Tijuca, forjado no asfalto das ruas, debaixo da saia de uma penca de mulheres, no concreto dos estádios de futebol, nas rodas de samba, nos balcões dos bares, nos centros espíritas que freqüentei, vendo papai receber caboclo dentro de casa, indo a terreiros de umbanda e candomblé quando me dava na telha. Fui criando minha particular visão de mundo, conheci a morte de perto quando vi minha bisavó desaparecer em 1982, morei durante um tempo na Lagoa, quando fui um exilado absoluto, mudei-me de volta pra Tijuca em 1999 e na Tijuca estou até hoje, torcendo pra que tenhamos um cemitério por aqui, como disse Luiz Antonio Simas em brilhante arrazoado (aqui), a fim de que eu não saia daqui nem mesmo depois de morto, quando a morte decidir vir me buscar.

Feito o não tão curto intróito, vamos em frente.

Diante do intransponível – seja ele uma dor lancinante, o fim de um namoro, a primeira derrota no jogo de botão, a morte de alguém muito amado, o fracasso do time em uma final de campeonato… – só há duas possibilidades, e não me venham com tratados a fim de derrubar minha certeza: ou encara-se o inevitável, o instransponível, de cabeça erguida, com bom-humor, ânimo e coragem, ou curva-se diante dele, cabisbaixo, com sinais de depressão, desânimo e medo. Qualquer coisa diferente disso é papo pra boi dormir.

E por que lhes digo isso, além da evidência de que falo de mim para mim a fim de me manter bem? Porque ontem estive com o Neco, um amigo querido, que me convidou para um almoço que acabou se estendendo até o final da tarde. Vimo-nos, na esquina da rua do Mercado com a rua do Rosário, e fomos imediatamente dois bonecos infláveis de posto de gasolina, brandindo os braços diante da alegria daquele encontro. Disse-me o Neco, sorrisão estampado no rosto?

– Como você tá, velhão?

Fui um derramado – troço, confesso, corriqueiro.

Saí dissertando justamente sobre isso, sobre a necessidade, imperiosa e urgente, do ânimo absoluto diante do intransponível. Repeti, de certa forma, o que venho dizendo aos meus, aos mais-de-perto, aos que constituem a muralha que protege minha cidadela. Aos que não terão, jamais, dedos apontados em minha direção, aos que jamais proferirão, diante de mim, sentenças prontas e fabricadas por sistemas que nunca me disseram nada ao coração – sistemas que dão valor ao que conheço apenas como palavra e letra fria: arrependimento, culpa, remorso.

Essa tática simples – e ao mesmo tempo difícil pacas de aplicar! – de manter-me pronto diante do intransponível rendeu-me, até hoje, mais de 42 anos depois de ter vindo ao mundo diante do morro do Borel, um bocado de histórias bonitas pra contar. Sempre preferi o riso à lágrima (embora eu chore cada vez mais, puramente de emoção diante da beleza das coisas, das saudades que guardo), o bom-humor à carranca, o braço aberto à sisudez, a leveza à dor, por aí.

Sempre fui bom nisso. De certa forma sempre preguei ou executei atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida, sempre fui revolucionário. De certa forma sempre expressei minhas idéias, pensamentos e opiniões opostos ou profundamente diferentes dos da maioria que, por isso mesmo, freqüentemente se sentiu ameaçada. De certa forma sempre agi de maneira a perturbar, tumultuar as instituições, sempre fui contra a ordem, desejei o caos, fui perturbador e agitador. Subversivo, além de polemista e dissidente de mim mesmo.

Mamãe conta – é uma de suas histórias preferidas, dessas que todas as famílias têm – que quando fui a meu primeiro jogo no Maracanã sozinho, completamente sozinho, sem meu pai, ela ficou me esperando chegar na varanda do apartamento. O jogo começara às nove, pouco depois das onze dobrei a esquina. Mamãe conta (lembro-me muito vagamente disso) que eu percebi que ela estava à minha espera, e ela apagou as luzes e foi pro quarto, fingir que estava dormindo. Conta, mais, que eu entrei, bati em seu quarto e a convoquei pra uma conversa na sala. Em resumo, eu disse a ela que eu nunca mais sairia sozinho se isso significasse preocupação pra ela. E que eu achava uma tremenda sacanagem ela acabar com minha alegria, deixando-me também preocupado com sua preocupação, algo assim. Pois quando mamãe termina de contar isso, ela diz (mamãe é muito pouco parcial…):

– Que lição! Que lição! Que lição que o Edu me deu!

Fato é que, dia desses, convoquei mamãe pra uma conversa de novo. Deitei-me em seu colo, chorei pra burro, falei de mim. Que lição! Que lição! Que lição que mamãe me deu! Subvertendo o tempo, fui ali, já velho, a criança indefesa, de calças curtas e camisa listrada, no colo quente da melhor mãe do mundo: pedindo conselho, pedindo perdão, pedindo sua benção.

Que nunca – eis o que eu queria lhes dizer -, mesmo diante do que parece intransponível, me faltou.

Até.

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BARBEARIA SALÃO AMÉRICA

Eu hoje farei mais uma de minhas incursões pelo passado, esse alicerce fabuloso, formador do caráter de todo homem, e que engloba esse tempo incomensurável entre a primeira encarnação, entre o primeiro sopro de vida e o minuto anterior ao agora. Vou, confesso, mais longe. Vou ao dia 21 de março de 1970, um sábado. Fazia um sol tremendo na Tijuca, eu havia chegado ao mundo há menos de 10 meses – sou de 27 de abril de 1969 – e papai não dispensava, claro, o final de semana ao lado de seu primogênito. Papai e mamãe, frise-se, mas papai trabalhava na REDUC, em Duque de Caxias, e aos sábados e domingos a dedicação era integral para mim. Morávamos, evidentemente, na Tijuca – minha única geografia possível – , num edifício de pastilhas azuis na rua Barão de Mesquita, próximo à rua São Francisco Xavier. E naquele dia 21 de março de 1970 deu-se o seguinte: papai levou-me, pela primeira vez, para cortar o cabelo.

Não por outra razão a imagem dessa porta (acima) está enterrada em mim como sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues). Mas eu, há até pouco tempo, não sabia muito bem o porquê.

Afastei-me da Tijuca durante um único período da minha vida: entre 1994 e 1999, durante o primeiro casamento, morei na Lagoa, onde eu me sentia, eis a verdade, tão confortável como um rabino dentro de Auschwitz-Birkenau. Nada ali me era familiar, e se eu conseguira até arrumar um lugar pra cortar cabelo, na Fonte da Saudade, eu continuava indo fazer a barba, aos sábados, na Praça Afonso Pena, na minha aldeia nativa.

No Salão América, quase na esquina das ruas Martins Pena com Campos Sales, bem diante da praça.

A mesma praça, diga-se em nome da precisão – essa minha companheira inseparável -, na qual estamos eu e papai na foto abaixo. Sou eu, ali, o menino sem camisa, de short quadriculado, com um sorriso que só criança é capaz de estampar no rosto, tendo as mãos cobertas pelas mãos de meu pai. Com o cabelo – notem – devidamente cortado.

Pela primeira vez.

Vai daí que é chegada a hora de lhes dizer: quem sempre faz minha barba, e desde que eu me entendo por gente (com barba, claro), é o Raul, esse caboclo boa-praça que aparece fumando na fotografia seguinte.

O Raul é tricolor fanático (um dos poucos que eu respeito, a torcida do Fluminense é composta por uma massa cheirosa que não me agrada), morador da rua do Matoso, fumante inveterado e hoje devagar com o andor quando o assunto é birita, porque ele foi um senhor bebedor ao longo da vida.

Fazer a barba, desde priscas eras, significa cumprir esse ritual: eu pago o café do Raul, antes e depois, no bar América Esportivo, ao lado do salão (hoje o nome mudou para Buteco do América). Conversamos sobre futebol, falamos da rodada e dos jogos da semana, sacaneamos o seu Ernesto, dono do salão e seu patrão há mais de 40 anos, damos boas risadas e não é raro cruzar com ele, pela manhã ou à noite, indo ou vindo do trabalho.

Vamos ao que quero lhes dizer.

Dia desses quase matei o Raul do coração (o cabra é um emotivo).

E aqui faço uma pausa pra lhes contar uma história.

Quando fiz 40 anos, em 2009, mamãe me deu de presente um prato cheio para um homem como eu, apegado ao passado e às lembranças, aos registros, aos rastros. Meu álbum de bebê.

Fui, durante as semanas seguintes, um homem rasgado pela luz das lembranças. Folheava cada página com uma atenção absurda, prestava de observar cada detalhe, cada anotação feita pelas mãos generosas e carinhosas de minha mãe, e aquele álbum, cheio de clichês como qualquer álbum de qualquer bebê, mez fez vítima de arremessos violentos e bruscos em direção ao passado.

Estaquei pra valer, entretanto, diante da página que trazia um pequeno cacho de cabelos presos por um pedaço de fita durex.

Ali, a prova irrefutável: meu primeiro corte de cabelo fora no dia 21 de março de 1970, aos dez meses, no “barbeiro”, no “Salão América”, a letra de mamãe é nítida.

Diante da mais que justificável ausência do nome do “barbeiro”, convoquei papai, dia desses, para uma cerveja no bar ao lado do salão. Lá, contei pra ele sobre o álbum, que levava comigo. Papai umedeceu os olhos – papai é duro como um soviético, emociona-se pouco – e disse:

– Foi um tricolor fanático que ficava na primeira cadeira, à direita de quem entra…

Chamei pelo Raul.

Era ele.

Até.

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MINHA MÃE É UMA MULHER DE PEITO

Vocês que têm me acompanhado por aqui bem sabem que sou um homem de fazer confissões. Sabem, mais que isso, que tenho me dedicado, nos últimos dias, a fazer confissões arrancadas da gaveta da memória, fruto de intensos e violentos arremessos em direção ao passado que não me trai. Aqui e aqui, mais recentemente, tratei de um tema importante trazido à tona pelo historiador Luiz Antonio Simas em seu blog Histórias Brasileiras: a importância do uso do medo como instrumento pedagógico na formação do caráter do homem. Hoje, se vocês me permitem, vou fugir um pouco do medo mantendo-me fiel ao tema pedagogia. Antes, porém, permitam-me um não tão breve intróito.

Estava eu em casa, ontem, quando convoquei minha menina e minha sogra para o jantar. Sentei-me à mesa de pijamas (uso pijama) e deu-se em mim, antes mesmo da primeira garfada, um guincho que me lançou para 1985 (impossível esquecer o ano, estávamos a poucos dias do primeiro Rock in Rio). Morávamos na Professor Gabizo, quase esquina com a General Canabarro. E me veio à mente uma cena dessas que, contadas por alguém sem crédito, gera a reação da assistência:

– Mentira…

Disquei pra mamãe. Perguntei:

– Mamãe, posso contar no blog aquela história assim, assim, assado? – se eu lhes contar agora o que é, a graça vai embora.

Ouvi mamãe gargalhando do outro lado da linha. Ela, muito sábia, respondeu depois de uns segundos:

– Claro que pode! Rir ainda é um fantástico remédio!

Desligamos. De lá pra cá recebi telefonemas de meu pai (que não atendi de propósito imaginando o pedido de veto), e-mails, sinais de fumaça, mas acordei determinado a lhes contar sobre uma sensacional passagem envolvendo mamãe e seus métodos eficazes para educar os três filhos (sou o mais velho).

Hoje cedo, eu ainda tomava meu café preto no bar do Marreco, estrilou meu celular. Era meu dileto amigo e conselheiro, Aldir Blanc. Contei-lhe tudo, timtim por timtim. Só ouvi os guinchos e as gargalhadas do outro lado. Até que, ainda há pouco, chegou-me por e-mail um manifesto assinado pelo bardo:

“MANIFESTO que o direito do advogado, ativista político, compositor e cantor Eduardo Goldenberg escrever em seu blog sobre os seios da senhora mãe dele, minha querida amiga Mariazinha, é inalienável. Afinal, eles o amamentaram!”

Chorei, confesso, diante de tamanha manifestação de solidariedade.

Pouco depois do referido e-mail, foi Mariana Blanc, sua filha, minha querida comadre, quem escreveu em seu mural no Facebook:

“Eu não sei no Twitter, mas, nos telefonemas do meu pai durante todo o dia (sim, são sempre vários), no topo dos tópicos estão… peitos. P-E-I-T-O-S. E a culpa parece ser do Eduardo Goldenberg, como sói acontecer! Hahahahaha”

Feito o intróito, vamos ao que quero lhes contar.

Mamãe, que recentemente completou 43 anos de casada com meu pai – um homem que carrega frases feitas nos bolsos como maços de dinheiro – teve três filhos. Eu, o mais velho, nascido em 1969, Fernando, o do meio, de 1971, e Cristiano, o caçula, de 1975. Entre mim e Fernando e entre Fernando e Cristiano mamãe ainda perdeu dois bebês, dois homens, o que comprova que mamãe veio ao mundo para criar meninos. Sintam o drama da filha única da dona Mathilde. Pois bem.

Desde que me entendo por gente mamãe tem uma queixa: homens que sentam-se à mesa para as refeições sem camisa. Papai, então, sempre foi um radical. Mamãe podia receber um rajá em casa; lá estaria meu pai sem camisa e descalço expondo os pelos e os pés enormes que lhe renderam, em tenra idade, o apelido de Abominável Homem das Neves. Pois sabem como é… Três meninos que têm na figura paterna a figura do ídolo… Sentávamos todos à mesa, para as refeições, nus da cintura pra cima. Café da manhã, almoço nos finais de semana, jantares, todos sem camisa. E mamãe, com a paciência de uma espírita resignada, comendo entre muxoxos:

– Vocês sem camisa… tremenda falta de respeito…

Sobre isso, breve pausa. Mamãe sempre diz isso:

– Não admito que chamem meus filhos de mal-educados. Eles podem, isso sim, não ter absorvido a educação que dei!

Corria o mês de janeiro de 1985. Havíamos acabado de mudar para o edifício Míriam, no número 359 da Professor Gabizo, recém-construído. Fazia um calor dos diabos, verão carioca…

Estávamos na sala, eu, meus irmãos e meu pai. Mentira. Estávamos todos na varanda, era nosso primeiro apartamento com varanda, e isso era um luxo que vou lhes contar… Ouvimos o grito da cozinha:

– Meninos! Tá na mesa!

Papai disse:

– Já vou! Meninos, vão indo… vou aproveitar mais 2 minutos da fresca… – e meteu metade do corpo pra fora da varanda.

Fomos em fila indiana. Eu, na frente, estaquei diante da porta. Virei a cabeça como um boneco e penso que tinha os olhos saltados pra fora do rosto (notem que eu tinha 15 anos de idade, Fernando tinha 13 e Cristiano, 9). Gritei:

– Pai?

E ele:

– Hã!?

– Vem aqui…

Papai – um dos homens mais apaixonados que conheço – fez tremer o edifício a passos largos:

– O que houve?

Apontei pra cozinha, ainda de pé diante da porta. Papai pôs a cabeça por cima de nós, mirou em direção à mamãe e soltou:

– Prrrrrrrrrr!

Explico o “prrrrrrrrrr”.

Papai sempre nos ensinou:

– Não se fala palavrão na frente da sua mãe! Palavrão é pra falar na rua, no Maracanã, entre os amigos. Na frente da sua mãe, nunca! Entenderam!

Vai daí que, em casos extremos, o máximo que ele se permitia era um “porra”, o mais doce dos palavrões. Mas nem assim, nem sendo o mais delicado, ele se permitia um “porra”, que virava “prrrrrrrrrr”. Entenderam? Vou seguir.

Mamãe estava sentada à mesa com a mesa posta: salada verde com tomate, arroz, feijão, bife acebolado e batata frita. E estava nua da cintura pra cima (estávamos todos, como de costume, sem camisa). Mexendo o gelo dentro de um copo longo de Martini, disse como se nada estivesse acontecendo:

– Vai esfriar! Vocês não vêm?

Papai, coitado:

– Pixuxa, minha filha, o que houve? – ele estava de joelhos diante dela.

– Dudu, Nando, Cris, venham, meus filhos, sentem-se! – os olhos de mamãe brilhavam.

Papai virou-se e tentou interromper nossa marcha:

– Não olhem, não olhem! Sua mãe está nua! Prrrrrrrrrr!

Ela ficou de pé e foi enfática:

– Nua? Estou sem camisa, como vocês. Sentem-se! – e sentou-se de volta.

Papai, em visível estado de choque, disse em nossa direção:

– Vão vestir uma camisa, já! Prrrrrrrrrr!

Mamãe foi dura:

– Não! Hoje, não! Vai esfriar a comida. Vamos todos comer sem camisa hoje!

Foi o mais estranho jantar de meus 42 anos. Papai, assim que sentou-se, deu início ao transe. Baixou Tupinambá na cozinha mas mamãe não deu refresco:

– Ô, caboclo, dá licença. O senhor cuida do espiritual que da etiqueta e da educação dos meus filhos cuido eu. Canta pra subir! Saravá!

O caboclo cantou pra subir, de fato.

Papai cortava o bife e mastigava aos prantos. Cristiano, o mais novo, ajeitava os óculos a cada minuto. Fernando me chutava por baixo da mesa e eu, já exibindo meu talento polemista, dizia para desespero de meu velho:

– Pô, mãe, tudo em cima aí, hein!

Mamãe recolheu os pratos, serviu a sobremesa – era gelatina e eu percebi, ali, na escolha do doce, um sentido estético sensacional – e depois disse afagando as mãos de meu pai, que fungava sem pudor:

– Gostou, meu filho?

E ele:

– Da comida?

E ela, exibindo os seios:

– Não, meu filho! De sentar-se diante de mim e dos meninos assim, sem camisa! – e deu de rir, feito Exu-Caveira (apud Aldir Blanc).

Papai:

– Nunca mais, Pixuxa, nunca mais… – e assoou o nariz com o guardanapo de papel.

Ela, de pé, servindo-se de mais Martini:

– Acho que vocês entenderam, certo, meninos?

De lá pra cá – e lá se vão mais de 25 anos – nunca mais comemos nem de camiseta. Faça sol, chova, seja verão ou seja inverno, nunca mais ousamos desrespeitar esse desejo, tão simples, de mamãe.

Até.

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BODAS DE ESTANHO

As histórias envolvendo meu pai têm feito tanto sucesso, mas tanto sucesso (rendem parcos comentários, mas uma quantidade impressionante de e-mails de leitores encantados com essa ímpar figura que é meu velho), que decidi prosseguir nas sendas das memórias de Isaac Goldenberg, que aparece, na fotografia abaixo, ao lado de mamãe, dias antes de meu nascimento, diante da casa de minha bisavó, numa vila na Rua Professor Gabizo, e peço a vocês especial atenção às chinelinhas de mamãe e à frasqueira em sua mão direita, símbolo máximo da maternidade na década de 60 nas bandas da Tijuca, sem falar na calça pescando-siri de papai e na ponta do maço de cigarros que aparece no bolso esquerdo de sua camisa.

Mariazinha Goldenberg (mamãe) e Isaac Goldenberg (papai), abril de 1969

Quero lhes contar, hoje, sobre a comemoração dos dez anos de casamento de meus pais, em 22 de maio de 1978.

Minha bisavó materna, Mathilde, e minha avó, Mathilde também (façam uma idéia do poder de persuasão das duas juntas), desde as comemorações natalinas de 1976, passaram a instigar papai:

– Já tem planos para as Bodas de Estanho, Isaac? – perguntava, com ares de aristocrata, minha bisavó.

Vovó emendava:

– Vê lá, hein, Isaac! Mariazinha é nossa única filha… não é, Milton?! – e alisava as mãos de meu avô, que, alisando o copo cheio de Teacher´s, concordava com a cabeça.

E minha bisavó, enlaçando de vez meu velho, fechava sempre essa rede de comentários, com a mesmíssima frase, em tom grave:

– Dez anos não são dez dias, meu filho… – e batia, de leve, com o leque fechado no ombro de meu pai, para fechar seu discurso perguntando – Compreende?

Papai dizia que sim, sem saída.

O fato é que papai não resistiu às investidas, e acabou certo de que a primeira década de união merecia uma comemoração à altura. Desde maio de 1977, um ano antes, portanto, que um belo percentual de seu salário da Petrobras (primeiro e único emprego de meu velho) era depositado numa caderneta de poupança visando o grande dia.

Quanto mais se aproximava a data, mais as velhas se tornavam inconvenientes:

– Isaac, e aí, meu filho? O que teremos no 22 de maio?

Papai, puto com o verbo na primeira pessoal do plural, respondia seco:

– Surpresa, dona Mathilde, surpresa…

A mais velha, inquieta:

– Mas haverá festa? Haverá?

– Surpresa, dona Mathilde, surpresa…

Quando passou o carnaval de 1978, papai tomou um ônibus para o Leblon (antes precisou tomar coragem) e fez uma reserva para o dia 22 de maio, uma segunda-feira, para duas pessoas, no Antiquarius, um sonho de consumo de mamãe, que até então conhecera, no ápice da escada gastronômica do casal, o La Mole e o Rincão Gaúcho.

Papai fez a reserva e, na saída, espiando o cardápio afixado na porta de entrada, fez as contas aproximadas do custo da noite. Deu um tapa na própria testa e não conseguiu evitar:

– Puta que pariu!!

Um dos manobristas:

– O que houve, senhor?

Papai, ainda atordoado:

– Nada, não…

E tomou o rumo de casa.

Tomou o rumo de casa, as semanas passaram, e papai só foi contar à mamãe o destino na noite do dia 22 de maio quando acordaram, na manhã daquela segunda-feira, com a campainha de casa estrilando. Eram minha vó e minha bisavó, com flores nas mãos e perguntas disparadas como tiros:

– E aí?! O que farão hoje?!

– Isaac, não vá decepcionar a Mariazinha!

Papai, semi-nu, no corredor que dava acesso à porta da entrada social do apartamento, num gesto truculento que hoje me orgulha, empurrou as duas pro corredor do sexto andar e gritou, acompanhando os passos da sogra e de sua mãe, pelo olho mágico:

– Tudo tem um limite, Mathildes! Porra!

De volta ao quarto, contou à mamãe o que fariam à noite, e mamãe foi singela:

– Meudi… Não tenho roupa, querido… Oh, o Leblon… Meudi, Meudi… – e ficou repetindo o apelido enquanto se penteava diante do espelho, treinando caras e bocas para o jantar zona-sul.

Eis que chega a noite.

Papai estaciona sua Variant diante do Antiquarius, entrega a chave ao manobrista e entra triunfante no salão com mamãe, ela deslumbradíssima, num vestido que pegou emprestado com a Dalila Geraldo, amiga de vovó, que tinha um guarda-roupa de primeira.

Sentam-se e vem à mesa o maître.

Papai, sem nem olhar o cardápio:

– Uma garrafa de Sidra e dois copos, magnífico.

Eis o detalhe inescapável. Papai sempre chamou os garçons desse jeito:

– Magnífico! Por favor…

O maître:

– Só temos champagne, senhor…

Papai bufou e disse:

– Pode ser.

O maître, sem afastar-se da mesa, estalou os dedos para um cumim, fez o pedido e serviu papai e mamãe em seguida.

Fizeram o brinde e papai sacou um cigarro do bolso. Foi quando o maître, ainda ali, estendeu o isqueiro dizendo, educamente:

– Senhor…

Papai olhou pro cara, deu nova bufada, mamãe perguntou:

– O que aconteceu, Meudi?

– Nada, nada…

Quando ia dizer alguma coisa à mamãe, o maître:

– Aceitam uma entrada, senhor?

Papai já perdendo a paciência:

– Ô, caralho…! Traz! Traz!

Novo estalar de dedos do maître para o cumim, mamãe pedindo calma à papai.

A idéia do meu velho era uma esticada num motel na avenida Niemeyer, mais uma surpresa que faria à mamãe. Tentava dizer isso a ela mas o maître não arredava o pé da mesa.

Mamãe ainda bebericava a primeira taça do champagne quando o papai mandava a terceira pra dentro. Não agüentou, deu um soco na mesa e perguntou:

– Porra, magnífico! Será que dá pra deixar eu conversar com a minha mulher, porra?!

O cara se desculpava, cheio de salamaleques, e meu pai não agüentou. Perguntou, já de pé, quanto devia pela bebida e pela entrada, o pobre do maître disse que não deviam nada, desculpou-se mais uma vez com o velho Isaac que, a essa altura, já estava entrando na Variant com mamãe, ligeiramente assustada:

– Vamos comer uma coisinha no motel mesmo, Pixuxa! Eu já tô que não me agüento mesmo – alisou os joelhos de minha mãe – e, convenhamos, eu não nasci pra essas coisas chiques demais, não, pô! Me perdoa, tá?

Mamãe, apaixonadíssima e com os olhos dando voltinhas, disse que sim.

Até.

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