Arquivo da tag: Tijuca

CHAMA, MANOLO! SALVE, O BAR MADRID!

Havia, na rua Almirante Gavião, a exatos 100 metros da minha casa, um bar, um portentoso bar chamado Rio-Brasília, então tocado pelo Joaquim e pela Terezinha. Ali, manhãs de domingo ensolaradas, porres homéricos, afogamento de tristezas e mágoas, celebração de encontros e de encantamentos, uma carne assada com coradas de ganhar fama em todos os cantos da cidade, uma cerveja (de milho!) gelada de dar gosto, amigos, desafetos, assentamento de respeito e palco de manhãs, tardes e noites de não-se-esquecer.

Em meados de 2008 – lá se vão sete anos – o Rio-Brasília fechou e reabriu logo depois, tocado por quem não entendia do riscado (e posteriormente trocou de mãos mais uma vez, dessa vez para mãos ainda mais inábeis).

Vivi, faço a confissão pública agora, sete anos de luto.

Desapareceram os azulejos negros e azuis (conheça-os aqui, em texto de 2006) que revestiam as paredes, desapareceram as mesas de mármore, desapareceu o piso hidráulico no qual tantas vezes pisei e pisamos todos, amigos meus.

Nunca mais aconteceram as noites mágicas que tantas vezes vivemos ali. Vejam aqui, aqui, aqui e aqui vídeos de minha gente (Fernando Szegeri, Luiz Antonio Simas) cantando com a Beth Carvalho em alta madrugada de uma terça-feira depois de uma noite de segunda absolutamente inesquecível – aqui, o relato da noite. Vejam aqui, vídeo lindo!, aula do meu irmão e meu compadre, Luiz Antonio Simas, em 20 de maio de 2007, cantando o hino da África também em alta madrugada (notem as cadeiras empilhadas no fundo), para assombro da assistência.

E nunca mais houve mágica naquele canto escondido da Tijuca porque mãos erradas assumiram a condução do negócio.

Pisei pela última vez no Rio-Brasília no dia 19 de setembro de 2008, quando ele já estava fechado – no dia da inauguração do novo bar do Joaquim e da Terezinha, na mesma calçada. Aqui, as últimas imagens do bar, neste dia em que eu e o Felipinho Cereal fomos lá chorar nossas pitangas.

Eis que a grande nova é que o Felipinho, juntamente com seu primo, o André, comprou o que sobrou do Rio-Brasília.

Sábio que eles são – filhos de espanhóis que tocaram, durante muitos anos, o legendário El Faro, em Copacabana – os dois estão tratando de fazer pequena obra no Rio-Brasília com o intuito de reabrir o bar já neste próximo sábado (leiam aqui sobre o El Faro, texto do próprio Felipinho, de setembro de 2009). Felipinho começou a trabalhar, com 13 anos, justamente no El Faro, ao lado do tio (Celestino, pai do André – leiam aqui sobre o Espanhol) e do pai, Manolo, que já foi oló.

No final do texto que indiquei acima, escreveu o Felipinho: “Fica aqui a minha saudade do bar que foi minha casa, e que plantou-me na memória incontáveis momentos bacanas.”.

Felipinho perdeu o pai garoto, aos 18 anos.

Pois vai, o pequeno grande homem, fazer renascer o velho Manolo – seu pai.

Pois vai, o pequeno grande homem, matar a saudade do bar que foi sua casa e fazer renascer os incontáveis momentos mágicos que ele tem plantados na memória.

Vai nascer o Bar Madrid.

BAR MADRID

Eu, comovido feito o diabo, estou contando as horas pra ver o bar aberto.

O Simas, um sacerdote que eu respeito demais (e que cuida de mim), já tratou de arriar um ebó pra proteger a casa. Com a presença invisível e mágica do Manolo, com a assistência certa e permanente do Espanhol (que se despencará de Jaconé pra Tijuca incontáveis vezes, posso apostar!), com a sabedoria dos dois primos, não tem como dar errado.

Ali, carta só pro carteado – não esperem carta de cerveja, essa babaquice que macula os bares da minha cidade. Ali, será servido pela primeira vez o glorioso drink DBS, a bebida oficial da família Seixas. Ali, naquele canto sagrado e profano da Tijuca, minha aldeia, mortos e vivos erguerão os copos em louvação à magia e ao encantamento que sobrevivem graças à tenacidade e à verdade que gente feito eles dois não deixam morrer.

Saravá!

Até.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em botequim, Tijuca

A FINITUDE (OU O DANILO SUMIU)

Desci à rua na manhã de domingo para ir à farmácia e para dar uma volta com o Pepperoni, meu fiel vira-latas. Na esquina oposta à farmácia, também Haddock Lobo com Caruso, o bar do Marreco que não é mais do Marreco. Através de uma operação comercial sobre a qual não me inteirei, seu Brasil – vizinho de cima – comprou a parte que era do Marreco que, por sua vez, comprou uma parte na sociedade – tomem nota do nome! – do Baby´s Moon, pé-sujo na Conde de Bonfim, quase no Largo da Segunda-Feira. São, dizem os cabeça-branca, os efeitos das UPPs na economia do bairro. Desde que nasci aqui, em 1969, nunca vi tanta obra, tanta reforma, tanto prédio subindo. Devem estar certos, os mais-velhos.

Fato é que fui ao balcão do bar do Marreco (chamarei de bar do Marreco até o fim dos meus dias) por hábito – deixei de freqüentá-lo depois da troca de peças – e o seu Brasil:

– Tá sabendo? – e esticou o pescoço em direção à porta de entrada.

Um cartaz trazia a foto do Danilo, tremendo boa-praça que trabalhava lá (aqui e aqui, falo dele).

– Desapareceu… – disse-me o seu Brasil.

– Faz quinze dias! – emendou o CDM, vizinho do Felipinho que bate ponto ali, naquele balcão, diariamente, das oito da manhã às oito da noite.

Mirei o anúncio, o apelo, o reclame colado no poste que pedia informações do paradeiro do Danilo. Tive dó do sujeito, desaparecer assim…

Voltei pra casa com a palavra finitude batendo como estaca na cabeça.

Dei a ela o remédio que eu comprara, pus água e ração pro Pepperoni, deitei-me ao lado dela na esperança de apenas descansar um pouco dos exageros do sábado e acordei, horas depois, com febre, com febre, com febre.

Além da febre, uma forte dor na região do estômago que me derrubou o domingo inteiro, que me fez ir ao médico ontem à tarde, que me fez sair do médico imediatamente em direção ao encontro de minha mãe, que me tirou do torneio de purrinha do qual participaria ontem à noite em Copacabana e que me dá, até esse momento em que lhes escrevo, um tremendo medo de morrer.

Que besteira!, dirão muitos de vocês.

Mas eu acho que foi tudo por causa da notícia do Danilo.

Pra desanuviar, a sensacional matéria que meu chapa João Tavares fez para a rádio Bradesco Esportes FM sobre o torneio de purrinha de ontem à noite no Galeto Sat´s, em Copacabana, vencido pelo Aconchego Carioca, bar que eu representaria!

Até.

Deixe um comentário

Arquivado em botequim, confissões

UM DESAGRADÁVEL

Sou, quem me lê sabe, um discreto. Sou incapaz de expôr alguém, ou mesmo alguma situação, se sei que da tal exposição advirá o ridículo, o escárnio, o descrédito. Do contrário, aí sim, sou o anti-discreto (ou era, vejamos se consigo cumprir as determinações que eu mesmo me impus): se é para o bem coletivo, se é para propagar coisas boas e outros bichos, sou mesmo capaz de construir outdoors imaginários para fazer correr mundo, seja lá o que for. Um misto de vaidade e inconsequência, mas isso deixa para lá. Quero tratar hoje de minha capacidade de ser discreto.

Desfruto do convívio com uma determinada figura – não declararei seu nome nem a fórceps – que é, quase sempre, extrema e intensamente desagradável (não, não, vou tentar ser mais claro). O sujeito a que me refiro é um doce de pessoa, de uma fidelidade semelhante a dos vira-latas com seus donos. É, entretanto, quando vê passar um rabo-de-saia, um desagradável (agora sim).

Dir-se-ia, se fosse uma moça, que sofria de furor uterino, de crises constantes de umidade, esses troços. Como é um homem, não sei – confesso – que nome dar ao fenômeno, muito embora eu ponha seu comportamento na pura e simples conta da mais absoluta falta de educação. Vamos a alguns exemplos.

Roda de cinco, seis, diante do balcão de um determinado bar. Passa, na calçada, esbaforida, uma senhora. E essa senhora, apesar de gorda, gordíssima, usa um decote avançado. Eis o cavalo:

– Peitanca, hein, madame?!

De nada adiantam os pitos coletivos. Ele gane, urra ainda mais histérico, diante da senhora que passou e fingiu não ter ouvido o que ele considera um galanteio. E insiste, mais alto:

– Delícia, esses teus mocotós suspensos, viu?

O troço é sempre nesse nível (e daí para pior).

Vamos ao que quero finalmente lhes contar (por conta desse fato, recente, é que estou diante do monitor redigindo as pérolas desse sujeito).

Recebi, dia desses, um convite ligeiramente formal, para jantar na casa de uns amigos. Segundo o anfitrião, ao telefone, seríamos dez à mesa, não mais que isso. Foi quando ele fez a pergunta:

– Você não quer trazer o… ? – e quando ouvi o nome do protagonista de hoje, gelei. Disse que falaria com ele.

Falei, de fato. E ele, um faminto (é outra de suas características), topou no ato.

Na noite do jantar, passei de carro para buscá-lo. Fui, durante o trajeto, fazendo os mais paternais apelos: que se comportasse, que evitasse tecer comentários sobre os peitos, as bundas, as coxas das convidadas. Ele, honradíssimo com a lembrança de seu nome para o rega-bofe, fazia aquela patética jura com os indicadores cruzados sobre a boca. Prometia um comportamento diáfano, discrição absoluta. Até que chegamos.

Preciso fazer a confissão: durante toda a noite – durante o serviço dos tira-gostos, das bebidas – ele foi exemplar. Sabe-se lá a que custo, mas foi. Havia três mulheres entre os convidados que, não fossem meus apelos, já teriam sido alvos de seus cortejos nada ortodoxos. Até que veio o jantar. Fomos chamados à mesa. Sentamo-nos e veio à mesa o prato principal: língua. Até aí, vão tomando nota, nada demais.

Uma das moças – a mais linda, diga-se – fez boquinha de nojo e recusou:

– Não como língua…

O anfitrião, muito sem graça, pediu desculpas etc.

Ele, o desagradável, foi mais rápido que eu:

– Com licença… você como ovo?

– Ovo? Como, adoro! Por que?

Tentei fuzilá-lo com os olhos (não iria sair boa coisa…) mas ele cravava seus olhos nos olhos daquela beldade. Mastigando, ele disse:

– Engraçado… língua, que vem da boca, tu não come, tem nojo, vi tua cara de nojo. Ovo, que sai do cu, tu adora. Vai entender…

Até.

11 Comentários

Arquivado em confissões, gente

CENAS TIJUCANAS

O tijucano é, por excelência, um fanático por seu pedaço de terra. Não vou aqui repetir aquele raciocínio modorrento que diz que o tijucano é o único, dentre todos os moradores de todos os bairros do Rio de Janeiro, que se denomina, se apresenta, se exalta, pelo nome do bairro. O que é fato inconteste é que o tijucano até enxerga vida além do túnel, mas uma vida que precisa ser vivida muito rapidamente e mesmo assim dentro de certas inflexíveis regras, e explico. O tijucano quer ir à praia; é evidente que ele precisa atravessar o túnel para sentar-se na areia diante do mar. Mas ele, sobretudo, só vai à praia no local onde há evidente concentração de tijucanos. E anseia, a cada mergulho, pela cervejinha no buteco ao lado de casa, depois da praia. Eu, por exemplo, a vida inteira, fui à praia em apenas dois lugares: quando eu namorava uma moça que morava na Barra, nos idos dos anos 80, ia à praia da Barra diante do “três e cem”, que é como era conhecido aquele trecho da areia em frente ao número 3.100 da avenida Sernambetiba, hoje avenida Lúcio Costa. Eu tomava o 233, ou o 234, na Tijuca, e subia o Alto da Boa Vista para encontrar exilados como eu – tijucanos, quase todos. Eu me sentia, confesso, num leprosário. As pessoas passavam – os novos-ricos da Barra, sobretudo – e nos olhavam com cara de nojo, que a Tijuca e seus moradores sempre sofreram hediondo preconceito por parte dos demais. Depois, quando passei a ir à Ipanema, fincava meus pés diante da barraca do Mineiro, o bom e doce Miguel, onde encontrava vizinhos, moradores do bairro, tijucanos – quase todos.

Tudo isso para lhes dizer que o tijucano é um radical. Essa segregação que sofremos desde o berço faz de nós uma espécie de exército da auto-salvação, como modus operandi necessário à preservação de nossa espécie. Somos radicais, e é sobre um radical – seu Brasil – que quero lhes falar hoje.

O seu Brasil, de quem já lhes falei algumas vezes, mora desde o final da década de 60 num prédio que fica na esquina da Haddock Lobo com a Caruso, que é a rua com a maior concentração por metro quadrado de construções art déco, o que nunca chamou a atenção da preconceituosa imprensa carioca. Em razão da geografia, o seu Brasil freqüenta o bar da esquina – hoje é o bar do Marreco – diariamente. E desde a década de 60. Homem de hábitos simples, grosso como poucos, não foram poucas as vezes que ouvi o seu Brasil esbravejando diante do balcão:

– Freqüento esse bar há mais de 50 anos. Nunca houve um dono tão ruim, tão estúpido, tão burro como esse Marreco! – e gritava isso com o polegar apontado em direção ao pobre-diabo.

O mais hilariante, após a agressão, sempre foi a reação dos demais cabeças-branca:

– O Brasil fala isso há mais de 50 anos, pra todos os donos dessa espelunca!

Vamos ao que quero lhes contar – envolvendo radicalismo.

Dia desses houve rodada do Brasileirão numa quarta-feira à noite. Antes de prosseguir, me permitam a construção do cenário.

O bar do Marreco tem duas televisões. Uma, grande, de 29 polegadas, que fica bem diante do balcão, no alto. Outra, pequena, de 14 polegadas, que fica nos fundos do bar, ao lado da entrada do banheiro. Sempre que há dois jogos envolvendo times cariocas, cada TV passa um jogo diferente. Já houve, ali, assembléias capazes de transformar a tribuna do Senado Federal em brincadeira de criança, sempre para decidir o método a ser empregado em dias de jogo.

– A TV maior passará o jogo do time que contar com o maior número de torcedores presentes no bar, contados 10 minutos antes da partida!

– A TV maior passará o jogo do time que melhor colocado estiver na tabela!

– A TV maior passará o jogo do time que contar com o maior número de torcedores presentes no bar, contados uma hora antes do apito inicial!

E o troço ganhava proporções de reunião do Conselho de Segurança da ONU. Nunca chegou-se à conclusão alguma, é essa a verdade. Mas é verdade, também, que é sempre o jogo do Flamengo que passa na TV maior. Ou porque é sempre a maior torcida presente, ou porque o Marreco é Flamengo, por aí.

Ocorre que, dia desses, lá estava o Brasil, diante do balcão, horas antes do jogo. Estava visivelmente de mau-humor. E deu de fazer a ameaça:

– Hoje vai passar o jogo do Vasco na TV maior e não se fala mais nisso. Eu venho nessa merda há mais de 50 anos, pô! Hoje eu não abro mão disso!

Houve vaia, apupo de auditório, o Marreco riu, o seu Brasil fechou a cara:

– Tô falando sério. Quem paga essa bosta de pacote da NET sou eu. Confessa aí, Marreco, safado! Hoje é o Vasco na TV grande!

O tempo foi passando, o bar foi enchendo, e deu-se o banzé. Minutos antes da partida o Marreco sintonizou a TV grande no jogo do Flamengo e pôs o jogo do Vasco pra passar na pequenina. O seu Brasil recebeu um Exu e saiu rodopiando pelo bar, cuspindo cachaça na direção da assistência. O Jair, rubro-negro, um poltrão olímpico, ainda fez o apelo:

– Marreco, troca aí. Só hoje…

Foi vaiado.

Os jogos rolando e seu Brasil fumando desbragadamente de olhos fechados, as mãos pra trás, dando consulta a quem recorria ao seu Tranca-Rua. Uma enfermeira do Salgado Filho, que sempre bate ponto no Marreco, deu a sentença:

– É seu Tranca-Rua, não tenho dúvida!

Veio o intervalo e seu Brasil, ainda incorporado, postou-se diante do balcão. Chamou o Marreco pra perto e soltou uma pesada baforada na fuça do caboclo. Bateu palma alto, as mãos em concha, aquele som seco pedindo silêncio. E mandou, na lata:

– Meu filho… Meu cavalo, o seu Brasil, nunca mais!, nunca mais!, tá ouvindo?, nunca mais põe os pés nesse terreiro! Nunca mais! – e era um grito de trovão, de dar medo.

Riscou no chão, com os pés no papel de pemba, seu ponto e gritou:

– Tá ouvindo, filho da puta?

O Marreco, branco como eu nunca vira, os olhos saltados pra fora como duas bolas de gude opacas, disse, trêmulo:

– Eu ponho o jogo do Vasco pra passar na maior, moço, no segundo tempo…

– Moço? Moço, não! Moço, não! – e deu de rir feito Exu-Caveira.

Seu Brasil, ainda no papel de cavalo, deu de rir e saiu dançando do bar, tomou a direção de casa e sumiu.

E é o seguinte, meus poucos mas fiéis leitores: isso já tem mais de dois meses. Seu Brasil passa por ali – caminho inevitável – todos os dias. Nem olha pra dentro do bar. Eu mesmo já vi o Marreco fazendo os mais patéticos apelos. Jurou comprar uma LCD gigantesca só pro velho, assinar o pacote da NET em HD, prometeu cerveja de graça durante seis meses, e nada de dobrar o bom Brasil que, é claro, cancelou o pagamento da mensalidade da NET – vivemos da vaquinha que fazemos entre os freqüentadores – e diz, pra quem quiser ouvir:

– Nunca mais ponho os pés naquele terreiro. Nunca mais!

Tijuca, meus caros, em estado bruto!

2 Comentários

Arquivado em botequim, confissões, gente, Rio de Janeiro

TIJUCA EM ESTADO BRUTO

(texto publicado em 12 de setembro de 2009 no Caderno Idéias do Jornal do Brasil)

Semana passada deu-se, no prédio em que moro, uma cena de antologia, e explico. Quero fazer uma pequena retificação eis que escrevo como quem respira, sem parar pra pensar muito, o que me faz, neste momento, ter de recomeçar para ser melhor compreendido. Cenas de antologia são como água da bica no edifício em que moro. Todos os dias há várias delas, e eu poderia dizer, sem medo do erro, que os jardins babilônicos do meu prédio e seus banquinhos de praça são uma fonte permanente de inspiração igualmente permanente. A paisagem, pra quem vê de longe, lembra Mont Blanc, na França. Um mar de cabeças brancas suaviza o clima na área de lazer do edifício, e dia desses (semana passada) resolvi fazer o que eu poderia chamar de teste. Sou, vinte e quatro horas por dia, um criador de situações que me ajudam a compreender com mais apuro a alma humana, esse manancial inesgotável de surpresas. Vou lhes contar tudo com a precisão que me acompanha desde o berço.

Há uma coisa na Tijuca que causa mais terror e mais frisson que – o quê?! – ameaça de bomba em prédio público: a fofoca sobre a vida dos vizinhos, a expectativa da notícia quente, a novidade em primeira mão, o furo! E eu, eis a verdade nua e crua, lancei uma espécie de bomba imaginária de efeito moral entre os velhinhos e velhinhas que povoavam a área de lazer do condomínio na manhã de quarta-feira.

Desci às seis da manhã com meu glorioso vira-lata pelo elevador de serviço. Sentados nos bancos dispostos em círculo, cenário de todas as manhãs, os velhinhos, as velhinhas, as bengalas, as cadeiras-de-roda, as tosses, os terços, os livrinhos da Bíblia, as mãos trêmulas, os chinelos de arminho, os roupões (há, em meu edifício, uma velha que faz natação num clube próximo, o Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, e que sai de casa de chinelo de arminho, roupão, touca de borracha azul e uma prancha), as redes de cabelo, os leques em profusão.

Recebi o bom dia coletivo de todos os dias, estaquei diante de todas, meu vira-lata sentou-se e eu disse, depois de pigarrear (o pigarro foi o artifício que usei para me aproximar mais da terceira idade):

– As senhoras estão sabendo?

E segui caminho.

Ouvi murmúrios, um burburinho impressionante, fingi que não ouvi os chamados e parti para o passeio. Dobrei à direita, entrei na Almirante Gavião, dei uma volta pela pracinha, segui pela contramão da Doutor Satamini, entrei à direita na rua Caruso, tomei um café servido pelo glorioso Geraldo no Bar do Marreco, comprei um maço de cigarro, recebi o efusivo bom-dia do seu Brasil, freqüentador mais que assíduo do pedaço, e tomei o rumo da volta, pela Haddock Lobo mesmo. Quando surgi diante do portão do edifício vi uma festa de mãos e dedos, leques abertos numa coreografia que denotava um certo desespero (lembrei-me das festas de abertura das Olimpíadas) e chamados que me pareceram uivos de hienas diante de uma carnificina. De sacanagem, fiz que não para o porteiro e segui em frente. Fui até o Estudantil, pedi uma água com gás, escutei as expectativas da assistência sobre o jogo daquela noite, fiz uma fezinha num caça-níquel e voltei depois de uns vinte minutos.

Quando cheguei diante do portão, dei com a mesma cena que me fez lembrar o cais do porto durante a partida de um navio de guerra. Lenços brancos acenando, leques abertos e atônitos, e eu quase tropecei quando entrei no prédio, derrapando nos globos oculares que os velhinhos e velhinhas lançavam em minha direção do fundo do jardim como se fossem as bolas de gude da minha infância. Novamente de propósito parei na cabine do porteiro. Acendi um cigarro, puxei conversa com meu xará e ele disse:

– O que aconteceu, Edu? Elas estão agitadíssimas…

– Nada, ué.

E segui em frente, passos lentíssimos.

Estaquei diante daquela clínica geriátrica portátil. Uma velha asmática arfava como um fole e disse a frase que segurou durante meu passeio graças a um dique fictício que eu construí quando não lhe dei chance de redarguir na hora certa:

– Sabendo do quê?

Sentei-me na pontinha de um dos bancos.

Olhei pro chão (puro teatro).

Esfreguei os olhos com a mão direita (a esquerda segurava a coleira do meu vira-lata).

Funguei (estava com coriza, e só na Tijuca as pessoas ainda têm coriza).

A velha ao meu lado bateu com o leque fechado no meu joelho:

– Desembucha, menino! Sabendo do quê?

Olhei nos olhos de cada uma das velhinhas presentes (só havia velhinhas nesse dia, nenhum homem).

Ainda olhando para o chão, fazendo cara de terror e de choro, eu disse:

– Nenhuma das senhoras sabe? Mesmo?

Senti o ventinho provocado pelos nãos concomitantes.

– Então…

A asmática bateu no peito e disse:

– Conta logo, conta logo! – e batia o pezinho no chão, numa excitação de cinema.

Elas tinham a expectativa do assassinato na véspera, do suicídio, do adultério flagrado, da traição mais rasteira às escâncaras, e levantei-me, devagar.

– As senhoras vão saber… mas não por mim, não me sinto à vontade… É muito grave, é muito grave, e é inevitável que as senhoras saibam.

Eu tinha os olhos saltados (eu ia dizer rútilos, mas seria uma imitação grosseira demais). Segui em direção ao elevador fingindo choque.

Deixei pra trás aflição, agonia, apostas as mais estapafúrdias. Escutei, da porta do elevador:

– Será aquelazinha do sétimo andar? Não me engana, não me engana!

Outra, inconformada:

– Que diacho, esse menino! O que é que tinha que contar pela metade!

– Metade? Não contou nem um por cento! Danado!

Subi. Tomei meu banho. Deixei o interfone tocar sem atendê-lo. Pus o terno, ajeitei a gravata, tomei do lenço, pus perfume, calcei meus sapatos e desci de escadas para pegar o carro, na garagem, sem passar pelas velhotas.

Nunca vou de carro para o trabalho, foi só mais um elemento sórdido do meu teatro íntimo.

Passei a dez por hora por elas, de vidros fechados, ar-condicionado ligado, o rádio altíssimo tocando João Bosco.

Acenei.

Vi rostos desfigurados, agonia espalhada pelo jardim e pelas pedras portuguesas do chão.

Parti sem abrir o vidro, e pelo espelho retrovisor percebi a decepção das senhorinhas.

Tijuca, em estado bruto!

9 Comentários

Arquivado em confissões, gente

CENAS TIJUCANAS

(publicado no Jornal do Brasil em agosto de 2008)

Meu compadre Leo Boechat, pai da pequena Helena, ela que é minha mais recente paixão derramada, é testemunha auditiva (e vocês entenderão mais à frente porque não digo “testemunha ocular”) do que vou lhes dizer, sem medo do erro: na Tijuca tudo se vê, tudo se sabe, e segredo é um troço que não existe. Um dia desses, há coisa de – o quê?! – uns dois anos, o maior conhecedor de cervejas estrangeiras que conheço, resolveu fazer um bonito com a então namorada, hoje sua mulher, justamente a mãe da pequena e doce Helena. Em um sábado pela manhã, fazia um tremendo sol, tomaram o metrô em Botafogo em direção à Tijuca, de mãos dadas – ele é um romântico. Leo prometera apresentar à namorada a mais fabulosa empada de camarão da paróquia. Notem bem que reside, em seu gesto, uma profunda, comovente e destemida declaração despudorada de amor. O Leo não pode nem sentir o cheiro de camarão que inicia, de pronto, um processo gravíssimo de edema agudo de glote, desses fatais. Mas vamos em frente. Saltaram na estação Afonso Pena, reconheceram o terreno – velhos, velhas, crianças, babás, vendedores de pipoca, algodão doce, o furdunço armado – e seguiram a pé pela rua de mesmo nome, Afonso Pena, rumo ao Salete. Vai daí que eu passava de carro pela Gonçalves Crespo, uma de suas perpendiculares, quando o avistei e, ato contínuo, telefonei pro Leo.

– O que faz você na minha terra? – disse eu depois do alô de praxe.

O Leo parecia uma piorra em busca de mim (eu a tudo assistia pelo retrovisor do carro).

– Onde você está? – ele disse com voz de quem não acreditava naquilo, olhando pra cima, em volta, sem êxito em sua procura.

– Na Tijuca tudo se vê, tudo se sabe… vais aonde?

E ele, depois de cochichar um “não acredito…” – que eu consegui ouvir – disse:

– Ao Salete.

– Ótimo! Ótima pedida! Siga em frente, mais 200 metros e você chega. Nessa mesma calçada. Seja bem chegado ao bairro. Um abraço! – e desliguei.

O Leo passou semanas querendo saber como aquilo se dera (e está sabendo apenas agora, lendo isso). Teve, contou-me depois a mãe da pequena Helena, um princípio do tal edema de glote com o susto que levou, susto que ele interpretou como uma invasão de privacidade, uma violação do seu sagrado direito de ir e vir, esses troços.

Mas isso não foi nada, não foi nada. Perto do que a Tijuca pode produzir em matéria de inviolabilidade da vida alheia, foi brincadeira de criança.

Contar-lhes-ei uma bem pior (ou melhor, é uma questão de ponto de visto e de ângulo de observação), que dá sólido sustento ao que eu lhes disse sobre a inexistência de segredo ou sigilo, na Tijuca. Na Tijuca, digo sem temer o equívoco, o simples e seminal olhar que anuncia a traição é princípio e prenúncio do furacão que devassará a vida dos futuros amantes, soprado pelas bocas linguarudas que são, convenhamos, uma tradição do bairro. Vamos aos fatos.

Bebia eu, há coisa de uns meses, no Bar do Marreco, espelunca comovente na esquina de Caruso com Haddock Lobo, na fabulosa companhia de Zé Sergio, numa de suas incursões tijucanas, egresso dos cafundós de Niterói. Aliás, eu, Zé Sergio e um amigo cujo nome preservarei em razão da natureza da coisa.

Falávamos sobre futebol, mulher, política, sobre a qualidade da comida que ali é servida, depois de preparada pelas mãos mágicas da Cátia, sobre a qualidade das moças que passavam, acompanhávamos atentos a movimentação do churrasco promovido pelo seu Brasil na calçada, quando nosso amigo, antecipando a despedida, disse batendo no relógio de pulso (ele é um antigo):

– Daqui a pouco tenho de ir. Faço um ano de namoro hoje, ela ficou de passar aqui pra me pegar… – e fez carinha de preocupado.

Não se passaram nem cinco minutos e chegou a moça, a quem não conhecíamos. Acenou do outro lado da rua e o malandro despediu-se, de fato. A moça, é preciso dizer para que a cena ganhe curvas e cores, era dessas de parar o trânsito e fazer o guarda engolir o apito. Dezenas de olhos seguiram os passos do casal caminhando pela calçada, na contramão do fluxo, depois que ela atravessou a rua ao encontro do namorado. Caminharam coisa de cinqüenta metros e, vupt!, sumiram. Seu Brasil anunciou abanando a brasa do carvão com um leque de papel:

– Entraram no Bariloche… Rapaz de sorte!

Uma senhora que bebia conhaque de pé no balcão deu seu parecer, coçando a cabeça com um palito:

– Feio pra diabo com um mulherão desses!

Dezenas de bocas gargalharam, a noite foi caindo, começou a ser servido o churrasco, Danilo desempenhando com maestria o papel de garçom, quando Zé Sergio, sacana que só ele, mandou a frase:

– Vamos mandar entregar uma garrafa de Sidra pro casal brindar à data!

Deu-se o reboliço. Em pouco tempo, a senhora do conhaque convocava os presentes para o rateio da garrafa. Recolhia o dinheiro de um, de outro, até que disse, entregando as notas e as moedas amealhadas pro Marreco:

– Já deu, já deu!

Foi quando o Zé fez cara de triste:

– Mas como vamos saber em quê quarto o casal está?

Eu, tijucano há várias encarnações, disse:

– Na Tijuca tudo se vê, na Tijuca tudo se sabe…

Seu Brasil sorriu, confirmando com a cabeça.

Liguei pro hotel:

– Boa tarde, minha senhora. Entrou aí, agora há pouco, um casal assim, assim, assado?

Ela confirmou.

– A senhora pode me dizer em que quarto eles estão?

Ela disse. Ela disse!

Chamei o Danilo, entreguei a ele a garrafa de Cereser, seu Brasil improvisou um balde de gelo com o material da faxina do bar, dei as devidas instruções ao nosso portador, o Zé pôs uma nota de cinco reais no bolso do cearense e lá se foi o caboclo.

Ele pintou de volta na área menos de dez minutos depois.

– E aí, e aí?! – o coro em uníssono.

– Ele mesmo atendeu a porta. De toalha.

Explosão no bar.

Uma hora e quinze depois, vem o casal abraçado pela rua. Atravessam antes de chegar na esquina. Ele embarca o avião no ônibus e vem em nossa direção, já sorrindo.

– Como é que vocês descobriram o número do nosso quarto, pô!?

Foi o Zé Sergio, já devidamente calibrado, que de pé, à imagem e semelhança de Dom Pedro no Grito do Ipiranga, disse para delírio da assistência:

– Na Tijuca, malandro, tudo se vê! Na Tijuca, tudo se sabe.

Tijuca, em estado bruto!

8 Comentários

Arquivado em botequim, gente, Rio de Janeiro

O TIME DO CHICO

Quem me lê sabe o quanto gosto, e o quanto o freqüento, do portentoso Bar do Chico, na esquina das ruas Afonso Pena com Pardal Mallet, comandando, é claro, pelo Chico, cearense e tremendo boa -praça sobre quem pairam as mais diversas lendas. Uma delas dá conta de que o Chico é um grosso, um mal-educado, um ríspido no trato com a clientela. Repilo com veemência. Chico é um cracaço no atendimento, a mim e aos meus que lá chegam. Outra, diz que o Chico não revela a ninguém, nem a fórceps, a receita de sua monumenal caipivodka de maracujá. Também repilo. Aprendi o passo-a-passo com o próprio cabra.

Há uma, entretanto, séria.

Ninguém, ninguém!, sabe (sabia, vocês verão) o time pelo qual torce o arretado cearense. Já vi muito pau quebrando nas mesas, nas manhãs de domingo (meu dia e horário preferidos), sobre o palpitante tema.

– O Chico é Vasco, pô! Tá na cara!

– O Chico? Rubro-negro doente. Basta ver como ele muda de humor a cada vitória do Flamengo.

– Americano com certeza absoluta.

– É tricolor desde criancinha.

– Botafoguense, dos mais fanáticos!

Instado a se manifestar, Chico assumia ares de estátua. No máximo, um sorriso de canto de boca. Jamais soltou um “a” capaz de denunciar o time do seu coração. Cheguei a consultar um especialista naquele pedaço da Tijuca, o Cesinha Tartaglia, freqüentador há muitos anos, muitos anos, mais antigo que eu. E ele foi seco:

– O time do Chico? Acho que nem o Chico sabe.

Era mesmo um mistério.

Até que deu-se o seguinte: no dia 22 de maio próximo passado, um domingo, baixei na área vestido com a camisa do Corinthians. À mesa, comigo, muitos amigos – e desde cedo. Chegamos lá por volta das dez da manhã. Aquele desfile de garrafas casco-escuro, doses industriais de caipivodka, muita carne-de-sol, muito aipim, até que mais ou menos às cinco da tarde ouço o chamado do balcão:

– Edu? Chega aqui – era o Chico.

Cheguei-me. E ele:

– Bebe um chope comigo?

– Claro.

E o Chico tirou, com a perfeição dos grandes, duas caldeiretas com espessa espuma. Ele próprio sugeriu o brinde:

– À nossa!

Repetiu a operação uma, duas, três, quatro vezes. E eu achando aquilo meio estranho, que o Chico é gentil pacas… mas não é dado a esse tipo de, digamos, cortesia. Depois do quinto chope, disse:

– Encara uma cachacinha comigo?

Eu, cabreiro, fiz que sim com a cabeça.

Ele voltou com as duas doses e virou a dele num só gole.

Marejou os olhos. Pôs a mão direita sobre o escudo da minha camisa e disse, baixinho:

– Eu sou Corinthians, porra!

E deu de cantar o hino do Timão, de beijar o escudo, e disse:

– Hoje tu não paga nada! Não paga nada! Nadica de nada! – daí já gritava como um possesso.

Voltei no dia 12 de junho, um domingo também, pouco antes de Corinthians e Fluminense (foto acima). Saquem a gargalhada do Chico, que é quase possível ouvi-la diante desse instantâneo feito pelo Tartaglia, de quem lhes falei mais acima. Disse eu, ao cabra:

– Agora só venho aqui assim, de Corinthians, pra não pagar nada!

Foi desfeito um dos maiores segredos do Bar do Chico.

Até.

15 Comentários

Arquivado em botequim, Rio de Janeiro