BARBEARIA SALÃO AMÉRICA

Eu hoje farei mais uma de minhas incursões pelo passado, esse alicerce fabuloso, formador do caráter de todo homem, e que engloba esse tempo incomensurável entre a primeira encarnação, entre o primeiro sopro de vida e o minuto anterior ao agora. Vou, confesso, mais longe. Vou ao dia 21 de março de 1970, um sábado. Fazia um sol tremendo na Tijuca, eu havia chegado ao mundo há menos de 10 meses – sou de 27 de abril de 1969 – e papai não dispensava, claro, o final de semana ao lado de seu primogênito. Papai e mamãe, frise-se, mas papai trabalhava na REDUC, em Duque de Caxias, e aos sábados e domingos a dedicação era integral para mim. Morávamos, evidentemente, na Tijuca – minha única geografia possível – , num edifício de pastilhas azuis na rua Barão de Mesquita, próximo à rua São Francisco Xavier. E naquele dia 21 de março de 1970 deu-se o seguinte: papai levou-me, pela primeira vez, para cortar o cabelo.

Não por outra razão a imagem dessa porta (acima) está enterrada em mim como sapo de macumba (apud Nelson Rodrigues). Mas eu, há até pouco tempo, não sabia muito bem o porquê.

Afastei-me da Tijuca durante um único período da minha vida: entre 1994 e 1999, durante o primeiro casamento, morei na Lagoa, onde eu me sentia, eis a verdade, tão confortável como um rabino dentro de Auschwitz-Birkenau. Nada ali me era familiar, e se eu conseguira até arrumar um lugar pra cortar cabelo, na Fonte da Saudade, eu continuava indo fazer a barba, aos sábados, na Praça Afonso Pena, na minha aldeia nativa.

No Salão América, quase na esquina das ruas Martins Pena com Campos Sales, bem diante da praça.

A mesma praça, diga-se em nome da precisão – essa minha companheira inseparável -, na qual estamos eu e papai na foto abaixo. Sou eu, ali, o menino sem camisa, de short quadriculado, com um sorriso que só criança é capaz de estampar no rosto, tendo as mãos cobertas pelas mãos de meu pai. Com o cabelo – notem – devidamente cortado.

Pela primeira vez.

Vai daí que é chegada a hora de lhes dizer: quem sempre faz minha barba, e desde que eu me entendo por gente (com barba, claro), é o Raul, esse caboclo boa-praça que aparece fumando na fotografia seguinte.

O Raul é tricolor fanático (um dos poucos que eu respeito, a torcida do Fluminense é composta por uma massa cheirosa que não me agrada), morador da rua do Matoso, fumante inveterado e hoje devagar com o andor quando o assunto é birita, porque ele foi um senhor bebedor ao longo da vida.

Fazer a barba, desde priscas eras, significa cumprir esse ritual: eu pago o café do Raul, antes e depois, no bar América Esportivo, ao lado do salão (hoje o nome mudou para Buteco do América). Conversamos sobre futebol, falamos da rodada e dos jogos da semana, sacaneamos o seu Ernesto, dono do salão e seu patrão há mais de 40 anos, damos boas risadas e não é raro cruzar com ele, pela manhã ou à noite, indo ou vindo do trabalho.

Vamos ao que quero lhes dizer.

Dia desses quase matei o Raul do coração (o cabra é um emotivo).

E aqui faço uma pausa pra lhes contar uma história.

Quando fiz 40 anos, em 2009, mamãe me deu de presente um prato cheio para um homem como eu, apegado ao passado e às lembranças, aos registros, aos rastros. Meu álbum de bebê.

Fui, durante as semanas seguintes, um homem rasgado pela luz das lembranças. Folheava cada página com uma atenção absurda, prestava de observar cada detalhe, cada anotação feita pelas mãos generosas e carinhosas de minha mãe, e aquele álbum, cheio de clichês como qualquer álbum de qualquer bebê, mez fez vítima de arremessos violentos e bruscos em direção ao passado.

Estaquei pra valer, entretanto, diante da página que trazia um pequeno cacho de cabelos presos por um pedaço de fita durex.

Ali, a prova irrefutável: meu primeiro corte de cabelo fora no dia 21 de março de 1970, aos dez meses, no “barbeiro”, no “Salão América”, a letra de mamãe é nítida.

Diante da mais que justificável ausência do nome do “barbeiro”, convoquei papai, dia desses, para uma cerveja no bar ao lado do salão. Lá, contei pra ele sobre o álbum, que levava comigo. Papai umedeceu os olhos – papai é duro como um soviético, emociona-se pouco – e disse:

– Foi um tricolor fanático que ficava na primeira cadeira, à direita de quem entra…

Chamei pelo Raul.

Era ele.

Até.

7 Comentários

Arquivado em confissões

7 Respostas para “BARBEARIA SALÃO AMÉRICA

  1. Grande texto, meu velho. O Raul é Tijucano histórico, organizador da banda da Afonso Pena. Esses textos com lembranças bacanas do passado são os melhores. E essa foto com o papai Issac? Histórica.

  2. Ricardo

    “onde eu me sentia, eis a verdade, tão confortável como um rabino dentro de Auschwitz-Birkenau” – ahahahaha!

  3. Valter

    Olá,
    Que texto formidável!
    Abraços,

  4. Kadu

    Sensacionalll ….
    Vou ao salão América pelo menos uma vez por mês, e é impressionante o Carinho do seu Ernesto e do Raul por vc … Do tipo que da ultima vez que estive lá, a uns 15 dias a traz, o Raul perguntou por vc e disse que não estava te encontrando nem pelo meio do caminho parado em algum botequim. Isso nunca existiria na “Auschwitz-Birkenau”.
    Abç …

  5. Pingback: HOJE É DIA DE MEU PAI | BUTECO DO EDU

  6. Pingback: APOSENTOU-SE, O BIGODE – PEQUENAS DIGRESSÕES | BUTECO DO EDU

  7. Pingback: ERNESTO E RAUL | BUTECO DO EDU

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s