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SUICÍDIO NO BAR DO MARRECO

(texto de 04 de janeiro de 2011, é publicado apenas hoje em respeito à memória de José Roberto)

Quem me lê sabe: todos os dias, indo e vindo do trabalho, passo no bar do Marreco pra me inteirar das novidades. Buteco é um microcosmo fabuloso do mundo, hospital de almas na definição extremada de um fraterno amigo, ágora do povo mais simples, arena das tragédias humanas, confessionário pagão dos mais abjetos pecadores, onde o salaminho é a hóstia sagrada, o limão é a água-benta e a cerveja, ao lado da cachaça, cumpre o papel do vinho consagrado. É onde se reúne a multidão de fiéis, de andrajos, de solitários e de criminosos, de perversos, de santos encarnados, de gente comum – e é em busca disso tudo que subo, todos os dias, o degrau único que separa o território sagrado da calçada da Haddock Lobo.

Pois ontem, por volta das sete da noite, ancorei naquele balcão que tatuou em meu braço uma marca que não sai. E havia, ali, um único assunto boiando sobre as cabeças da assistência: o suicídio do Zé Roberto.

O Zé Roberto tinha entre 40 e 42 anos, era o que apostava o povo ali reunido. Bebia todos os dias, era um tremendo boa-praça e casado com a Maria Rita, com quem dividia um conjugado na rua Caruso, na mesmíssima esquina. Foi justo a Maria Rita que, por volta das cinco horas, no final daquela tarde, descera aos atropelos as escadas do pequeno prédio sem elevador. Avançara sobre o balcão, porto-seguro do morto de segunda a segunda, e brandia uns papéis nas mãos trêmulas, gritando palavras desconexas e não se dirigindo a ninguém especificamente:

– Quem é Leonor?! Quem é Leonor?! – gritava enquanto babava uma baba elástica e bovina, rodrigueana por óbvio, diante do olhar atônito da multidão.

Foi o Marreco – que saiu depressa de dentro do balcão – que conseguiu domar a viúva em desespero. Deu-lhe – o Jorge me contou em detalhes – um tapa no rosto e disse:

– Que Leonor, dona Maria Rita? O que aconteceu?

Sentou-se a viúva numa das banquetas de madeira – e ela estava com coriza por conta do choro convulsivo. Um qualquer ofereceu-lhe um guardanapo para assoar o nariz e ela, rispidamente, recusou, secando a coriza com a manga do casaquinho bege que vestia. Olhou em volta – tinha os olhos inchados – e não viu uma única mulher. Voltou a repetir, dessa vez mais baixo:

– Quem é Leonor?! Quem?

Seu Brasil, síndico informal da área, não perdeu a chance da piada, que soou mal:

– … e o beijo de uma mulata, chamada Leonor ou Dagmar! – cantando o samba de Bosco e Blanc.

Maria Rita foi seca:

– O Zé Roberto se matou.

Houve um burburinho impressionante, um alarido (apud Nelson Rodrigues, sempre!) de copos sobre o balcão de vidro, um temporal de “ohs” e “ahs”, e aquela chuva previsível de “como?” e “por que?”.

Ofereceram conhaque à recentíssima viúva e ela bebeu num só gole. Um ainda tentou ser mais gentil e perguntou se ela queria água com açúcar. Foi ríspida de novo:

– Mais conhaque.

E deu início ao relato:

– Cheguei do trabalho e encontrei o Zé Roberto vestido com a camisa do Corinthians deitado no chão da sala, em torno de uma poça de sangue…

– Do Corinthians?! – seu Brasil de novo, fazendo a justificável intervenção, afinal Zé Roberto era Flamengo doente.

– Do Corinthians… – os olhos pareciam vazados como os de um cego de nascença.

Prosseguiu:

– Papai era policial, eu fiquei com a arma que pertencia a ele… Nunca quis me desfazer, sabe? – fungou.

– Foi tiro? – disse o Jorge.

– No coração.

– Era mesmo um getulista! – ergueu um brinde, o seu Brasil.

A assistência passou um pito coletivo no velho. E ela continuou, sem largar o calhamaço de papel e chorando baixinho:

– Zé Roberto era brizolista, seu Brasil… Mas, enfim… Nunca brigamos… Nunca… – e caiu num choro de ópera.

Novamente dezenas de garçons espontâneos ofereceram conhaque, limão da casa, lencinho, e ela foi retomando a calma:

– Não havia razão pra ele fazer o que fez… – tornou a chorar aos soluços.

Fez-se respeitoso silêncio e ela continuou:

– Não me deu um sinal! Saiu pra trabalhar hoje, perguntei se ele queria que eu fizesse lasanha pro jantar… ele adora… adorava… – chorou mais forte de novo.

Olhava pros papéis, agora:

– Olhei nos bolsos da bermuda, olhei no bolso da camisa que ele usou pra ir trabalhar hoje, que estava sobre o sofá, nos documentos do táxi… Nada. Mas achei isso na gaveta do quarto de empregada onde ele guarda… guardava os badulaques dele…

Poucos conseguiram disfarçar o ímpeto de arrancar a carta das mãos de Maria Rita. Ela chamara a polícia antes de descer e a polícia havia acabado de chegar. Chamou o Jorge num canto e disse, baixinho:

– Jorge, tu era o melhor amigo do Zé. Quem é Leonor?

Zé a puxou pra fora do bar. Atravessou a rua e debaixo da marquise da farmácia, disse:

– Maria Rita, juro – fez o sinal com os dedos – que eu não sei quem é. O Zé andou falando de uns tempos pra cá de uma tal de Leonor, mesmo, mas dizia que não a conhecia pessoalmente, que a viu, um único dia, uma única vez, passando aqui na Haddock Lobo, vestida com a camisa do Corinthians… Não tenho como te ajudar… Por que?

– Como não conhecia? Como sabia o nome da mulher, sujeito?

– Estou te contando o que eu sei. Juro! – e repetiu o gesto plástico da jura.

Maria Rita – que além de tudo era cunhada do Jorge, casado com sua irmã mais velha – estendeu a carta:

– Achei essa carta, Jorginho… Nesse envelope, sem endereço… É pra tal da Leonor… Datada de dezembro, de dois meses atrás… Nem sobrenome tem… Não sei se quero mostrar isso pra polícia… Ficar com fama de… Não quero, Jorginho… Promete que dá cabo nisso?

Jorge, circunspecto e em tom de promessa solene:

– Prometo! – tomou a carta das mãos de Maria Rita.

Jorge deu, de certa forma, cabo da carta. Não mostrou pra ninguém no bar, inventou um troço qualquer pra assistência que acompanhava a pequena palestra sob a marquise da farmácia. Em bar é assim: a tragédia dura o tempo exato da presença dos envolvidos. Duas horas depois a polícia já tinha ido embora, o rabecão já transportara o defunto pro IML e só se falava em futebol quando eu cheguei.

Jorge me chamou num canto, contou-me o ocorrido à tarde e por fim me entregou a carta. E disse:

– Meu professor, você que é o contador das nossas histórias, vai gostar disso aqui. Depois você me conta tudo, viu?

Há coisas que não têm, mesmo, explicação. Não sei quem é a Leonor, só conhecia o Zé Roberto dos papos à toa no balcão do Marreco, e o Jorge – um sessentão que vai muito com a minha cara – teve uma grande idéia me entregando essa declaração de amor ligeiramente tosca, eis que sem endereço certo, muito bem escrita (eu tinha ligeiro preconceito com o Zé, a quem julgava um homem sem qualquer cultura) e bonita de doer. Vai que a tal da Leonor lê isso aqui?

“Leonor, Leonor, Leonor: escrevo três vezes teu nome em sinal do meu amor. Sou casado há quase quinze anos, Leonor (vou repetir demais seu nome, Leonor, é só o que tenho feito desde o dia em que eu a vi), e eu a vi há coisa de umas semanas no Rio-Brasília, o botequim do Jorge na Almirante Gavião, numa mesa grande com o que me pareceram ser seus pais, seu filho (e você é tão nova, Leonor!), seu irmão e alguns amigos, um deles conhecido meu do bar do Marreco, que fica perto da Almirante Gavião. Nunca perguntei sobre você, Leonor, acho que ele não vai muito comigo, nosso santo não cruza. Eu vou dar cabo da minha vida, Leonor, porque desde que eu a vi eu sofro, sabe, Leonor? Sofro porque eu sou taxista embora seja formado em Direito, sem nunca ter exercido a profissão por falta de determinação. Meu pai era taxista e a autonomia do carro foi tudo o que ele me deixou. Sendo taxista, e morando aqui no Rio, casado e sem filhos, bem mais velho que você, nunca vou conseguir casar-me contigo, Leonor, que é o que eu verdadeiramente queria. Você deve estar se perguntando o porquê disso, né, Leonor? Por que é que um sujeito que só a viu uma única vez na vida (e minha vida é sofrida, Leonor) tem essa determinação. Não saberia te dizer, viu, Leonor? Mas eu vou tentar. Minha mulher é dona de casa, Leonor, e não tivemos filhos. Minha mulher não me ama, eu acho, e eu acho a minha vida um tormento: é do táxi pro bar, do bar pra casa, de casa pro táxi e assim eu vou fingindo que vivo. Eu vi tanta luz nos teus olhos, Leonor, eu vi tanta vida no teu sorriso, eu vi tanta vida no sorriso de quem te cercava, Leonor, e eu não sou um sujeito capaz de me enganar, viu?, que eu vivi minhas melhores horas dos últimos anos naquele sábado em que te vi. Fiz uma coisa feia, sabe? Sentei-me na mesa mais próxima, fiquei bebendo e prestando atenção na conversa. Descobri que você mora em São Paulo, que tem um irmão, que seu filho não tem muita paciência pra ficar em bar, e descobri que você é Corinthians. Eu adoro futebol, Leonor, meu pai era Fluminense e ele me levou novinho pra ver aquele jogo da invasão corinthiana no Maracanã, em 74, eu era um menino ainda. Eu sou Flamengo mas desde aquele dia em que te vi eu decidi que vou morrer vestido de Corinthians, sabe? Eu sou devoto de São Jorge, e eu acho mesmo que o Corinthians é uma religião. Eu comprei a camisa do Corinthians e levei pra benzer na igreja de Quintino, Leonor, e pedi a São Jorge que me guardasse com ele quando eu morresse, sabe? Eu acredito que é errado a gente se matar, sabe, Leonor?, mas eu pedi a ele que me guardasse mesmo assim, e ele gosta demais de mim. São Jorge é guerreiro, é padroeiro do Corinthians e eu ouvi um dia, não lembro onde foi, que tem um lugar no céu só pra corinthiano, acho que foi numa resenha da Tupi, a rádio que eu ouço o dia inteiro no táxi. Fiz um pedido meio absurdo, Leonor, mas também é absurdo amor à primeira vista, não é o que dizem? Pedi a São Jorge que me guardasse com ele, só pra você me conhecer, daqui a muitos anos, muitos anos, Leonor, quando você estiver bem velhinha e morrer de morte natural, que eu não acho que ninguém deva se matar, acho muito feio alguém se matar, você não faria isso e eu não desejo que você morra de doença nenhuma, quero que você morra de velhice mesmo que é pra embelezar o mundo ainda por muito tempo. Quem tem a luz que você tem nos olhos nem pensa nisso, né? Daí eu acredito que eu encontre você no tal parque São Jorge que dizem haver no céu. Eu vou morrer vestido de Corinthians pra que me seja permitido estar ali, entre vocês, eu sei que vocês são uma nação, Leonor. Não quero que você se sinta minimamente culpada, Leonor, até porque essa carta nunca vai chegar às suas mãos. Mas quero que São Jorge me veja escrevendo, que minha mulher a encontre pra entender um pouco do meu gesto insano movido por amor e que meus amigos de bar me perdoem por estar vestindo a camisa do Corinthians, coisa que eles vão tomar como heresia. Heresia, Leonor, foi eu ter nascido tão depois de você e tão longe. Todo meu amor, José Roberto.”

Até.

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CENAS TIJUCANAS

O tijucano é, por excelência, um fanático por seu pedaço de terra. Não vou aqui repetir aquele raciocínio modorrento que diz que o tijucano é o único, dentre todos os moradores de todos os bairros do Rio de Janeiro, que se denomina, se apresenta, se exalta, pelo nome do bairro. O que é fato inconteste é que o tijucano até enxerga vida além do túnel, mas uma vida que precisa ser vivida muito rapidamente e mesmo assim dentro de certas inflexíveis regras, e explico. O tijucano quer ir à praia; é evidente que ele precisa atravessar o túnel para sentar-se na areia diante do mar. Mas ele, sobretudo, só vai à praia no local onde há evidente concentração de tijucanos. E anseia, a cada mergulho, pela cervejinha no buteco ao lado de casa, depois da praia. Eu, por exemplo, a vida inteira, fui à praia em apenas dois lugares: quando eu namorava uma moça que morava na Barra, nos idos dos anos 80, ia à praia da Barra diante do “três e cem”, que é como era conhecido aquele trecho da areia em frente ao número 3.100 da avenida Sernambetiba, hoje avenida Lúcio Costa. Eu tomava o 233, ou o 234, na Tijuca, e subia o Alto da Boa Vista para encontrar exilados como eu – tijucanos, quase todos. Eu me sentia, confesso, num leprosário. As pessoas passavam – os novos-ricos da Barra, sobretudo – e nos olhavam com cara de nojo, que a Tijuca e seus moradores sempre sofreram hediondo preconceito por parte dos demais. Depois, quando passei a ir à Ipanema, fincava meus pés diante da barraca do Mineiro, o bom e doce Miguel, onde encontrava vizinhos, moradores do bairro, tijucanos – quase todos.

Tudo isso para lhes dizer que o tijucano é um radical. Essa segregação que sofremos desde o berço faz de nós uma espécie de exército da auto-salvação, como modus operandi necessário à preservação de nossa espécie. Somos radicais, e é sobre um radical – seu Brasil – que quero lhes falar hoje.

O seu Brasil, de quem já lhes falei algumas vezes, mora desde o final da década de 60 num prédio que fica na esquina da Haddock Lobo com a Caruso, que é a rua com a maior concentração por metro quadrado de construções art déco, o que nunca chamou a atenção da preconceituosa imprensa carioca. Em razão da geografia, o seu Brasil freqüenta o bar da esquina – hoje é o bar do Marreco – diariamente. E desde a década de 60. Homem de hábitos simples, grosso como poucos, não foram poucas as vezes que ouvi o seu Brasil esbravejando diante do balcão:

– Freqüento esse bar há mais de 50 anos. Nunca houve um dono tão ruim, tão estúpido, tão burro como esse Marreco! – e gritava isso com o polegar apontado em direção ao pobre-diabo.

O mais hilariante, após a agressão, sempre foi a reação dos demais cabeças-branca:

– O Brasil fala isso há mais de 50 anos, pra todos os donos dessa espelunca!

Vamos ao que quero lhes contar – envolvendo radicalismo.

Dia desses houve rodada do Brasileirão numa quarta-feira à noite. Antes de prosseguir, me permitam a construção do cenário.

O bar do Marreco tem duas televisões. Uma, grande, de 29 polegadas, que fica bem diante do balcão, no alto. Outra, pequena, de 14 polegadas, que fica nos fundos do bar, ao lado da entrada do banheiro. Sempre que há dois jogos envolvendo times cariocas, cada TV passa um jogo diferente. Já houve, ali, assembléias capazes de transformar a tribuna do Senado Federal em brincadeira de criança, sempre para decidir o método a ser empregado em dias de jogo.

– A TV maior passará o jogo do time que contar com o maior número de torcedores presentes no bar, contados 10 minutos antes da partida!

– A TV maior passará o jogo do time que melhor colocado estiver na tabela!

– A TV maior passará o jogo do time que contar com o maior número de torcedores presentes no bar, contados uma hora antes do apito inicial!

E o troço ganhava proporções de reunião do Conselho de Segurança da ONU. Nunca chegou-se à conclusão alguma, é essa a verdade. Mas é verdade, também, que é sempre o jogo do Flamengo que passa na TV maior. Ou porque é sempre a maior torcida presente, ou porque o Marreco é Flamengo, por aí.

Ocorre que, dia desses, lá estava o Brasil, diante do balcão, horas antes do jogo. Estava visivelmente de mau-humor. E deu de fazer a ameaça:

– Hoje vai passar o jogo do Vasco na TV maior e não se fala mais nisso. Eu venho nessa merda há mais de 50 anos, pô! Hoje eu não abro mão disso!

Houve vaia, apupo de auditório, o Marreco riu, o seu Brasil fechou a cara:

– Tô falando sério. Quem paga essa bosta de pacote da NET sou eu. Confessa aí, Marreco, safado! Hoje é o Vasco na TV grande!

O tempo foi passando, o bar foi enchendo, e deu-se o banzé. Minutos antes da partida o Marreco sintonizou a TV grande no jogo do Flamengo e pôs o jogo do Vasco pra passar na pequenina. O seu Brasil recebeu um Exu e saiu rodopiando pelo bar, cuspindo cachaça na direção da assistência. O Jair, rubro-negro, um poltrão olímpico, ainda fez o apelo:

– Marreco, troca aí. Só hoje…

Foi vaiado.

Os jogos rolando e seu Brasil fumando desbragadamente de olhos fechados, as mãos pra trás, dando consulta a quem recorria ao seu Tranca-Rua. Uma enfermeira do Salgado Filho, que sempre bate ponto no Marreco, deu a sentença:

– É seu Tranca-Rua, não tenho dúvida!

Veio o intervalo e seu Brasil, ainda incorporado, postou-se diante do balcão. Chamou o Marreco pra perto e soltou uma pesada baforada na fuça do caboclo. Bateu palma alto, as mãos em concha, aquele som seco pedindo silêncio. E mandou, na lata:

– Meu filho… Meu cavalo, o seu Brasil, nunca mais!, nunca mais!, tá ouvindo?, nunca mais põe os pés nesse terreiro! Nunca mais! – e era um grito de trovão, de dar medo.

Riscou no chão, com os pés no papel de pemba, seu ponto e gritou:

– Tá ouvindo, filho da puta?

O Marreco, branco como eu nunca vira, os olhos saltados pra fora como duas bolas de gude opacas, disse, trêmulo:

– Eu ponho o jogo do Vasco pra passar na maior, moço, no segundo tempo…

– Moço? Moço, não! Moço, não! – e deu de rir feito Exu-Caveira.

Seu Brasil, ainda no papel de cavalo, deu de rir e saiu dançando do bar, tomou a direção de casa e sumiu.

E é o seguinte, meus poucos mas fiéis leitores: isso já tem mais de dois meses. Seu Brasil passa por ali – caminho inevitável – todos os dias. Nem olha pra dentro do bar. Eu mesmo já vi o Marreco fazendo os mais patéticos apelos. Jurou comprar uma LCD gigantesca só pro velho, assinar o pacote da NET em HD, prometeu cerveja de graça durante seis meses, e nada de dobrar o bom Brasil que, é claro, cancelou o pagamento da mensalidade da NET – vivemos da vaquinha que fazemos entre os freqüentadores – e diz, pra quem quiser ouvir:

– Nunca mais ponho os pés naquele terreiro. Nunca mais!

Tijuca, meus caros, em estado bruto!

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OS BOTEQUINS CARIOCAS

Dia desses eu estava ancorado no balcão do Rebouças, tremendo pé-sujo no Jardim Botânico, com meu compadre Leo Bochat. Contou-me o Leo o que me pareceu ser uma notícia alvissareira, embora nem ele mesmo soubesse confirmar a coisa: mas parece que o Poder Público, mais precisamente a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, está para organizar uma série de debates visando preservar, de verdade (e já explico o “de verdade”), essa verdadeira instituição brasileira, carioquíssima por natureza: o botequim. Eu disse “de verdade” porque essa mesma Prefeitura, há muitos anos, lançou o hoje controverso Guia Rio Botequim, legítimo quando nasceu e deformado ao longo dos anos. Explico, mais: com o passar do tempo, patrocinadores, investidores, homens de marketing (um dos maiores males do último século), em nome da preservação do botequim, passaram a destruir, sem dó nem piedade, o legítimo pé-sujo carioca em nome da modernidade e da adequação do espaço às exigências dos consumidores (que jamais freqüentaram botequins, diga-se de passagem). Arrisco dizer que tratar o botequim como espaço de consumo é o mesmo que tratar o futebol como entretenimento. Vai daí que começaram a pipocar discursos absolutamente impensáveis para o troço: um que se dizia amante dos botequins mais vagabundos passou a se preocupar mais com o limão do mictório do que com o limão da casa; outro, que se dizia um ferrenho bebedor de Brahma, de Antarctica, passou a exigir carta de cerveja nos butecos; outro, ainda, passou a exigir treinamento para os atendentes de balcão… e a coisa foi degringolando, o tal Guia Rio Botequim passou a ser um verdadeiro “vade-mécum de otário”, como diz meu mano Fernando Szegeri, e fomos vendo desaparecer, aos poucos, inúmeros botequins que eram verdadeiros patrimônios da cidade, a segunda casa do povo mais simples, mais humilde, que tem no botequim, como afirma o brasileiro máximo, Luiz Antonio Simas, seu espaço de discussão, de vivência, de convívio, de resistência.

O que parece ter movido o Poder Público para pretender organizar as tais discussões foi justamente esse susto, que pode ter sido tarde: não há mais a Casa Brasil, na Praça São Salvador, nem a Adeguinha, que ficava ao lado, ambas engolidas pela sanha do Belmonte, a grande rede que estuprou, primeiramente, no princípio de suas atividades nocivas e assassinas, o legítimo Belmonte, na Praia do Flamengo, para ali erguer a primeira de suas lojas (sim, são lojas), hoje espalhadas pela cidade, como metástase. Não há mais um sem fim de pés-sujos na Lapa, totalmente descaracterizada por mentiras em forma de bar, igualmente como metástase.

Resiste, entretanto, um ou outro estabelecimento. Resiste o Bar Brasil, na Mem de Sá, mas até quando? Resiste o Armazém Senado, mas até quando? Resiste o Bar Rebouças, mas até quando? Parece que nasceu daí a iniciativa da Prefeitura, que buscará meios efetivos para proteger esse grande patrimônio da cidade do Rio de Janeiro. E faço breve digressão, de novo, sobre esse portento que é o pé-sujo (há tempos não falo sobre o tema).

“Buteco é templo”, é frase lapidar e conhecida, de Aldir Blanc. É o “hospital das almas”, numa apaixonada e exagerada definição de Felipe Quintans, nosso Cereal. Essa instituição, carioca por natureza, está por aí, no Brasil inteiro, como porto seguro de gente que gosta de gente – não de pose. Estive em Campinas, por exemplo, no ano passado, e Bruno Ribeiro levou-me a seu pé-sujo preferido, e ali estava o Brasil em estado bruto, e ali senti-me em casa. Em São Paulo, há uns meses, Fernando Szegeri apresentou-me o bar da dona Lola (não sei o nome do bar, nem mesmo sei se há nome para o bar, e eis aí uma das características do genuíno pé-sujo), e ali também estava o Brasil a escorrer das paredes e do imenso balcão de mármore, cada vez mais uma raridade. Aqui no Rio, no meu pedaço, na minha Tijuca, são muitos os que resistem bravamente à modernidade – mas até quando?, eu me pergunto.

Só no meu pedaço, no meu entorno, há o Matosinho, o Rex, o Almara, o Gonzaguinha, o Trás-Os-Montes, o Marreco, o Estudantil, o Rio-Brasília, o Nova America, o Columbinha, o Céu na Terra, o Pink, o Buteco do America, o Bar do Chico. Espaço de convívio de gente comum, pais-de-santo, paus-de-arara, passistas, flagelados, pingentes, balconistas – salve, Aldir Blanc!, de novo e sempre -, manicures, motoristas e trocadores de ônibus, biscateiros, apontadores do jogo do bicho, andrajos, advogados, jornalistas, gente que não quer nada além de uma cerveja gelada, um tira-gosto honesto, de um balcão pra apoiar o cotovelo pra jogar conversa fora, ver o futebol e discutir política, mulher, religião e tantas outras questões capazes de, naquele ambiente, salvar o mundo.

Torço muito pra que dê certo a iniciativa da Prefeitura – a ser verdadeira a informação que me foi passada pelo Leo Boechat. O Rio de Janeiro, penhoradamente, agradece.

Até.  

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CENAS TIJUCANAS

Corria sei lá que domingo, não lembro nem a fórceps. Sei que era dia de Flamengo – e também não consigo me lembrar do adversário… – e dia também de jogo do Vasco, o que significa dizer que o Bar do Marreco, meu camarote preferido em nove dentre dez jogos, estava fervilhando de gente. O Marreco, um desses donos de botequim que parece ter sido criado pelo ficcionista, anunciou, pouco antes do começo do Brasileirão 2011:

– Rapaziada, assinei hoje o Net Congo! – que “combo” é palavra desconhecida do caboclo.

Eu havia cumprido o ritual de todos os domingos: havia ido à feira bem cedo, ao Mundial, ao Aconchego Carioca, marquei de almoçar no Rex com Felipinho e Leo Boechat e chegamos no bar pra ver o jogo faltando – o quê?! – menos de dez minutos pro começo da partida. Vamos ao cenário.

O bar tem uma TV de 29 polegadas que fica bem diante do balcão. No fundo, uma pequena, de 21 polegadas, que passa sempre um jogo diferente. Como Flamengo é Flamengo, o jogo do mais-querido passaria na TV maior, o do Vasco na TV dos fundos. Havia umas quarenta pessoas espremidas no recinto. Hino nacional sendo cantado na TV. Eu disse ao Marreco, já debruçado no balcão:

– Marreco! Empresta uma tomada pra carregar meu celular!

Sabe-se lá se antevendo a tragédia, disse o Marreco pro Boechat:

– O cara parece que não paga a conta de luz… vem todos os dias carregar esse celular aqui… – e não me respondeu. Passou por mim como uma flecha.

Determinado a carregar o telefone, que se esvaía, debrucei-me sobre o balcão e me deparei com um comovente emaranhado de fios diante de mim. Ao mesmo tempo em que disse – “Vou carregar aqui!” – encaixei o macho da tomada do carregador na fêmea de um dos benjamins espetados na tomada da parede (eu disse “um dos benjamins” porque eram uns 3 ou 4, um encaixado no outro, verdadeira armadilha à espera da tragédia incendiária). Faltavam menos de dois minutos pro começo do jogo, os times já se encontravam posicionados, a tensão pairava sobre as cabeças da assistência. No que espetei o carregador, deu-se a explosão. Não fui arremassado pra calçada porque fui escorado pelo Boechat. Subitamente, breu absoluto no bar. Silêncio. Não se ouvia as TVs, que desligaram. Não se ouvia o ronco do motor das geladeiras. Não se ouvia um pio vindo da assistência, assombrada diante do estrondo. O Leo, com as mãos na cabeça, sussurrou no meu ouvido:

– Não fosse a sua moral aqui e você estaria sendo linchado…

De fato era essa, a cena: eu estava cravado por mais de oitenta olhos que espumavam de ódio (a primeira foto abaixo não engana, eu e minha cara de “fiz-merda”, com o carregador ainda na mão!), mas ninguém foi capaz da agressão verbal. O Marreco me olhou com olhos de piedade. O Borracha, eletricista, na segunda foto abaixo, de camisa listrada, pediu calma do alto de seus mais de dois metros e passou a dar instruções ao próprio Marreco, desolado do lado de dentro do balcão, e ao Jair (ambos na mesma segunda foto), freqüentador honorário (o Jair está com a camisa do Flamengo), que pôs a mão na massa de fios derretidos.

O Borracha fez o possível e, é fato, em menos de cinco minutos as TVs estavam funcionando – com um adendo gravíssimo, entretanto: foi preciso fazer uma gambiarra (mais uma, diga-se) que obrigou o Marreco a manter a geladeira desligada para manter ligadas as TVs. Aí sim a cuíca começou a roncar:

– Ô, Marreco! A cerveja vai ficar quente, imbecil? – são doces, os freqüentadores do Marreco.

A tarde ainda reservava surpresas. Com menos de 15 minutos de jogo, a TV menor, a que passava o jogo do Vasco, do nada, aparentemente sozinha, passou a transmitir o insuportável programa do Fausto Silva. Foi quando caiu por terra o mito do pay-per-view do Marreco. Diante do justificado protesto da torcida cruzmaltina, apontando para um fio que rasgava o teto do bar, o Marreco disse, de olhos baixos:

– Essa TV é gato puxado da casa do seu Brasil…

Foi vaiado.

Um vascaíno foi pra calçada e gritou, olhando pra cima:

– Ô, Brasil! Põe no jogo do Vasco, porra!

O bom Brasil o atendeu. Palmas nos fundos do bar.

Veio o intervalo. E um grito:

– Desliga a TV e liga a geladeira! A cerveja está esquentando!

E assim foi feito.

Jogo terminado – o Flamengo venceu, o que fez com que os contratempos fossem absolutamente relevados -, ainda desceu o seu Brasil com duas panelas gigantescas, uma com camarão frito e outra com arroz de frutos do mar.

A título de curiosidade: a tomada do microondas, a tal que eu explodi, continua lá, do mesmo jeito, à espera da próxima tragédia.

Isso é Tijuca, meus poucos mas fiéis leitores.

Tijuca em estado bruto.

Até.

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CENAS TIJUCANAS

(publicado no Jornal do Brasil em agosto de 2008)

Meu compadre Leo Boechat, pai da pequena Helena, ela que é minha mais recente paixão derramada, é testemunha auditiva (e vocês entenderão mais à frente porque não digo “testemunha ocular”) do que vou lhes dizer, sem medo do erro: na Tijuca tudo se vê, tudo se sabe, e segredo é um troço que não existe. Um dia desses, há coisa de – o quê?! – uns dois anos, o maior conhecedor de cervejas estrangeiras que conheço, resolveu fazer um bonito com a então namorada, hoje sua mulher, justamente a mãe da pequena e doce Helena. Em um sábado pela manhã, fazia um tremendo sol, tomaram o metrô em Botafogo em direção à Tijuca, de mãos dadas – ele é um romântico. Leo prometera apresentar à namorada a mais fabulosa empada de camarão da paróquia. Notem bem que reside, em seu gesto, uma profunda, comovente e destemida declaração despudorada de amor. O Leo não pode nem sentir o cheiro de camarão que inicia, de pronto, um processo gravíssimo de edema agudo de glote, desses fatais. Mas vamos em frente. Saltaram na estação Afonso Pena, reconheceram o terreno – velhos, velhas, crianças, babás, vendedores de pipoca, algodão doce, o furdunço armado – e seguiram a pé pela rua de mesmo nome, Afonso Pena, rumo ao Salete. Vai daí que eu passava de carro pela Gonçalves Crespo, uma de suas perpendiculares, quando o avistei e, ato contínuo, telefonei pro Leo.

– O que faz você na minha terra? – disse eu depois do alô de praxe.

O Leo parecia uma piorra em busca de mim (eu a tudo assistia pelo retrovisor do carro).

– Onde você está? – ele disse com voz de quem não acreditava naquilo, olhando pra cima, em volta, sem êxito em sua procura.

– Na Tijuca tudo se vê, tudo se sabe… vais aonde?

E ele, depois de cochichar um “não acredito…” – que eu consegui ouvir – disse:

– Ao Salete.

– Ótimo! Ótima pedida! Siga em frente, mais 200 metros e você chega. Nessa mesma calçada. Seja bem chegado ao bairro. Um abraço! – e desliguei.

O Leo passou semanas querendo saber como aquilo se dera (e está sabendo apenas agora, lendo isso). Teve, contou-me depois a mãe da pequena Helena, um princípio do tal edema de glote com o susto que levou, susto que ele interpretou como uma invasão de privacidade, uma violação do seu sagrado direito de ir e vir, esses troços.

Mas isso não foi nada, não foi nada. Perto do que a Tijuca pode produzir em matéria de inviolabilidade da vida alheia, foi brincadeira de criança.

Contar-lhes-ei uma bem pior (ou melhor, é uma questão de ponto de visto e de ângulo de observação), que dá sólido sustento ao que eu lhes disse sobre a inexistência de segredo ou sigilo, na Tijuca. Na Tijuca, digo sem temer o equívoco, o simples e seminal olhar que anuncia a traição é princípio e prenúncio do furacão que devassará a vida dos futuros amantes, soprado pelas bocas linguarudas que são, convenhamos, uma tradição do bairro. Vamos aos fatos.

Bebia eu, há coisa de uns meses, no Bar do Marreco, espelunca comovente na esquina de Caruso com Haddock Lobo, na fabulosa companhia de Zé Sergio, numa de suas incursões tijucanas, egresso dos cafundós de Niterói. Aliás, eu, Zé Sergio e um amigo cujo nome preservarei em razão da natureza da coisa.

Falávamos sobre futebol, mulher, política, sobre a qualidade da comida que ali é servida, depois de preparada pelas mãos mágicas da Cátia, sobre a qualidade das moças que passavam, acompanhávamos atentos a movimentação do churrasco promovido pelo seu Brasil na calçada, quando nosso amigo, antecipando a despedida, disse batendo no relógio de pulso (ele é um antigo):

– Daqui a pouco tenho de ir. Faço um ano de namoro hoje, ela ficou de passar aqui pra me pegar… – e fez carinha de preocupado.

Não se passaram nem cinco minutos e chegou a moça, a quem não conhecíamos. Acenou do outro lado da rua e o malandro despediu-se, de fato. A moça, é preciso dizer para que a cena ganhe curvas e cores, era dessas de parar o trânsito e fazer o guarda engolir o apito. Dezenas de olhos seguiram os passos do casal caminhando pela calçada, na contramão do fluxo, depois que ela atravessou a rua ao encontro do namorado. Caminharam coisa de cinqüenta metros e, vupt!, sumiram. Seu Brasil anunciou abanando a brasa do carvão com um leque de papel:

– Entraram no Bariloche… Rapaz de sorte!

Uma senhora que bebia conhaque de pé no balcão deu seu parecer, coçando a cabeça com um palito:

– Feio pra diabo com um mulherão desses!

Dezenas de bocas gargalharam, a noite foi caindo, começou a ser servido o churrasco, Danilo desempenhando com maestria o papel de garçom, quando Zé Sergio, sacana que só ele, mandou a frase:

– Vamos mandar entregar uma garrafa de Sidra pro casal brindar à data!

Deu-se o reboliço. Em pouco tempo, a senhora do conhaque convocava os presentes para o rateio da garrafa. Recolhia o dinheiro de um, de outro, até que disse, entregando as notas e as moedas amealhadas pro Marreco:

– Já deu, já deu!

Foi quando o Zé fez cara de triste:

– Mas como vamos saber em quê quarto o casal está?

Eu, tijucano há várias encarnações, disse:

– Na Tijuca tudo se vê, na Tijuca tudo se sabe…

Seu Brasil sorriu, confirmando com a cabeça.

Liguei pro hotel:

– Boa tarde, minha senhora. Entrou aí, agora há pouco, um casal assim, assim, assado?

Ela confirmou.

– A senhora pode me dizer em que quarto eles estão?

Ela disse. Ela disse!

Chamei o Danilo, entreguei a ele a garrafa de Cereser, seu Brasil improvisou um balde de gelo com o material da faxina do bar, dei as devidas instruções ao nosso portador, o Zé pôs uma nota de cinco reais no bolso do cearense e lá se foi o caboclo.

Ele pintou de volta na área menos de dez minutos depois.

– E aí, e aí?! – o coro em uníssono.

– Ele mesmo atendeu a porta. De toalha.

Explosão no bar.

Uma hora e quinze depois, vem o casal abraçado pela rua. Atravessam antes de chegar na esquina. Ele embarca o avião no ônibus e vem em nossa direção, já sorrindo.

– Como é que vocês descobriram o número do nosso quarto, pô!?

Foi o Zé Sergio, já devidamente calibrado, que de pé, à imagem e semelhança de Dom Pedro no Grito do Ipiranga, disse para delírio da assistência:

– Na Tijuca, malandro, tudo se vê! Na Tijuca, tudo se sabe.

Tijuca, em estado bruto!

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O TIME DO CHICO

Quem me lê sabe o quanto gosto, e o quanto o freqüento, do portentoso Bar do Chico, na esquina das ruas Afonso Pena com Pardal Mallet, comandando, é claro, pelo Chico, cearense e tremendo boa -praça sobre quem pairam as mais diversas lendas. Uma delas dá conta de que o Chico é um grosso, um mal-educado, um ríspido no trato com a clientela. Repilo com veemência. Chico é um cracaço no atendimento, a mim e aos meus que lá chegam. Outra, diz que o Chico não revela a ninguém, nem a fórceps, a receita de sua monumenal caipivodka de maracujá. Também repilo. Aprendi o passo-a-passo com o próprio cabra.

Há uma, entretanto, séria.

Ninguém, ninguém!, sabe (sabia, vocês verão) o time pelo qual torce o arretado cearense. Já vi muito pau quebrando nas mesas, nas manhãs de domingo (meu dia e horário preferidos), sobre o palpitante tema.

– O Chico é Vasco, pô! Tá na cara!

– O Chico? Rubro-negro doente. Basta ver como ele muda de humor a cada vitória do Flamengo.

– Americano com certeza absoluta.

– É tricolor desde criancinha.

– Botafoguense, dos mais fanáticos!

Instado a se manifestar, Chico assumia ares de estátua. No máximo, um sorriso de canto de boca. Jamais soltou um “a” capaz de denunciar o time do seu coração. Cheguei a consultar um especialista naquele pedaço da Tijuca, o Cesinha Tartaglia, freqüentador há muitos anos, muitos anos, mais antigo que eu. E ele foi seco:

– O time do Chico? Acho que nem o Chico sabe.

Era mesmo um mistério.

Até que deu-se o seguinte: no dia 22 de maio próximo passado, um domingo, baixei na área vestido com a camisa do Corinthians. À mesa, comigo, muitos amigos – e desde cedo. Chegamos lá por volta das dez da manhã. Aquele desfile de garrafas casco-escuro, doses industriais de caipivodka, muita carne-de-sol, muito aipim, até que mais ou menos às cinco da tarde ouço o chamado do balcão:

– Edu? Chega aqui – era o Chico.

Cheguei-me. E ele:

– Bebe um chope comigo?

– Claro.

E o Chico tirou, com a perfeição dos grandes, duas caldeiretas com espessa espuma. Ele próprio sugeriu o brinde:

– À nossa!

Repetiu a operação uma, duas, três, quatro vezes. E eu achando aquilo meio estranho, que o Chico é gentil pacas… mas não é dado a esse tipo de, digamos, cortesia. Depois do quinto chope, disse:

– Encara uma cachacinha comigo?

Eu, cabreiro, fiz que sim com a cabeça.

Ele voltou com as duas doses e virou a dele num só gole.

Marejou os olhos. Pôs a mão direita sobre o escudo da minha camisa e disse, baixinho:

– Eu sou Corinthians, porra!

E deu de cantar o hino do Timão, de beijar o escudo, e disse:

– Hoje tu não paga nada! Não paga nada! Nadica de nada! – daí já gritava como um possesso.

Voltei no dia 12 de junho, um domingo também, pouco antes de Corinthians e Fluminense (foto acima). Saquem a gargalhada do Chico, que é quase possível ouvi-la diante desse instantâneo feito pelo Tartaglia, de quem lhes falei mais acima. Disse eu, ao cabra:

– Agora só venho aqui assim, de Corinthians, pra não pagar nada!

Foi desfeito um dos maiores segredos do Bar do Chico.

Até.

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MAIONESE E COMIDA DI BUTECO, PARCERIA JABALÂNDIA

Acabo de receber de um amigo jornalista o seguinte release (pausa para o vômito) enviado a ele pela Imagem Corporativa, “o parceiro brasileiro da Public Relations Organization International (PROI), maior e mais tradicional rede global de agências independentes de comunicação corporativa, com atuação em 26 países das Américas, Europa e Ásia”.

Trata-se do anúncio da premiação oferecida pela maionese Hellmann´s, ingrediente que não existe em nenhum buteco que se preze, para os bares participantes do festival da Jabalândia em Campinas (entenda as regras do festival lendo isso aqui). Eis o texto do e-mail (em itálico) com meus singelos comentários.

“Os bares participantes desta edição do Comida di Buteco terão um motivo a mais para caprichar no seu petisco este ano. Hellmann’s distribuirá cerca de R$ 100 mil em prêmios para as melhores receitas preparadas com a verdadeira maionese.

“Este é o segundo ano de participação de Hellmann’s no Comida di Buteco, evento que é um sucesso e tem tudo a ver com a marca – é feito para pessoas que apreciam comida saborosa e sem complicação, como Hellmann’s”, explica a gerente de marketing da marca, Bianca Shen.”

Segundo a gerente de marketing, idônea para tratar do assunto, o festival tem tudo a ver com a marca. Em apertada síntese, nada tem a ver com botequim de verdade.

“Os prêmios serão distribuídos entre os bares das 15 cidades participantes do festival. Além da premiação oficial do Comida di Buteco, os dez bares com melhor classificação no evento, e que tiverem maionese na receita do petisco, receberão as quantias de R$ 3 mil, R$ 2 mil e R$ 1 mil – primeiro, segundo e terceiro lugares, respectivamente.

Este ano, dos 320 botecos de todas as cidade participantes, 65% terão a presença de maionese em suas receitas – um crescimento significativo em relação aos 48% do ano anterior. “As pessoas estão descobrindo o potencial gastronômico de Hellmann’s. Ao contrário do que muita gente pensa, o produto não talha nem perde o paladar e também não inibe o sabor da receita quando vai ao fogo. Pelo contrário, um toque de maionese pode dar um sabor a mais aos pratos ou petiscos mais variados”, completa Bianca.”

Chega a ser patética a dica da gerente de marketing, aventurando-se a falar sobre comida. O crescimento do número de bares que se rendem ao jabá apenas prova, de forma inequívoca, que esse festival (pernicioso, perigoso, abjeto!) é a morte da verdadeira tradição da comida de botequim! Desde quando, meus poucos mas fiéis leitores, maionese Hellmann´s tem potencional gastronômico?! Vamos em frente:

“Na cidade de Campinas, os botecos Bar do André o Rei do Mé, Bar do Carioca e Rei do Joelho são alguns do que vão oferecer petiscos com o delicioso ingrediente, em criações como carioquinha esperto, moela de macabu e lanche do rei.

Sobre o Comida di Buteco

Com a missão de resgatar e valorizar a culinária de raiz brasilieira, o concurso gastrômico Comida di Buteco – realizado desde 2000, chega em 2011 a 15 cidades do país, simultaneamente. São 329 botecos concorrendo ao prêmio de melhor boteco da cidade. Os resultados do Comida di Buteco são tão saborosos quanto os tira-gostos concorrentes. Apenas em 2010, foram vendidos 197.900 petiscos nas 11 cidades onde foi realizado. Além disso, o concurso vem contribuindo de forma relevante para a consolidação do “boteco” como um dos mais expressivos locais de prática da sociabilidade nacional e demarcando novos roteiros urbanos através da boa culinária de raiz. É um projeto que enaltece a cultura  nacional sob a rica matriz da gastronomia.”

Pesquem a mentira e a sordidez da coisa: se a missão do festival é “resgatar e valorizar a culinária de raiz brasileira” (e o termo “de raiz” me causa engulhos) por que é que a maionese Hellmann´s entra no jogo?!

“Sobre Hellmann’s

Hellmann’s oferece diversos sabores de maioneses e molhos para salada, além de ketchup e mostarda. O objetivo da marca é oferecer produtos simples e descomplicados, feitos de ingredientes naturais, agregando sabor, textura diferenciada e prazer às refeições. As maioneses e molhos para salada Hellmann’s não contêm gorduras trans, são fonte natural de gorduras boas, contêm ácidos graxos essenciais que não são produzidos naturalmente pelo organismo – ômega 3 e 6 -, além de vitaminas importantes. O portfólio de Hellmann’s também traz produtos light e com baixo teor de colesterol.”

“Agregando sabor, textura diferenciada e prazer às refeições”? Parei por hoje.

Até.

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