DE FRENTE PRO CRIME (QUE NÃO FOI CRIME)

Saí pra caminhar hoje às seis da manhã. Na esquina das ruas Lúcio de Mendonça com Moraes e Silva, por volta das seis e meia, um corpo estendido no chão. Estaquei diante do cadáver e perguntei ao primeiro que encontrei pela frente:

– Assalto? – havia um poça de sangue em volta da cabeça do pobre-diabo.

– Nada… Caiu, do nada, bateu com a cabeça no canteiro, morreu na hora… – e fez o sinal de cruz.

Mandei a caminhada e o exercício às favas, que tijucano não perde furdunço por nada, nem exéquias ao ar livre.

Um sujeito dobrou a esquina, tirou os fones dos ouvidos e cantarolou a melodia de João Bosco, a letra de Aldir Blanc:

– Tá lá o corpo estendido no chão… – e estacou, também, diante do morto.

E eu vivi, de fato, um inusitado vídeo-clip para “De frente pro crime”.

O de cujus jazia diante da portaria de um edifício cujo porteiro assumira ares de repórter. De dentro do prédio saiu uma senhorinha – uns 75 anos, fácil – trazendo numa das mãos uma garrafa térmica, copos plásticos e noutra um prato com diversas fatias quadradas de bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Saiu oferecendo:

– Gente, tá fresquinho, alguém quer?

O tal sujeito, ainda cantando:

– … baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato…

Em questão de minutos pintou um táxi. De dentro saltou uma menina, coisa de uns 25 anos, em estado de possessão. Urrava, gania, sapateava como uma espanhola enfurecida:

– Papai! Papai! – e arremessou-se sobre o corpo.

Houve um uivo coletivo de “ohs” e “ahs” naquela esquina. As palavras voavam como gaivotas de papel: coitada, coitado, tão moço, pobrezinha, que Deus o tenha, descansou… e quando a órfã ouviu o “descansou” lançou um olhar de ódio em direção à multidão em volta.

Ainda estava de joelhos, a menina, quando desceu um casal do mesmo prédio: ele trazendo duas e ela também duas cadeiras de palhinha. Ele disse, formal:

– Você não quer sentar um pouco?

A órfã, comovida, assentiu e sentou-se. A tal velhota atropelou uns membros da assistência e estendeu o prato em direção à pobrezinha:

– Cenoura com chocolate. Fresquinho. Quer um café?

A filha única – em menos de 15 minutos tínhamos a biografia do morto – aceitou.

O que eu sei lhes dizer é que, antes das sete da manhã, mais ou menos cinqüenta pessoas se aglomeravam em torno do corpo, a essa altura já cercado por nove velas acesas e coberto por um caderno do jornal – do dia – cedido por um transeunte sensibilizado com o último esgar exposto ao sol.

– … em vez de rosto, uma foto de um gol…

Um grupo cercou o corpo e deu de rezar. A filha recebeu um santo e deu de gargalhar. Pediu cachaça, foram comprar. Antes mesmo da garrafa chegar à esquina o santo cantou pra subir e a órfã deparou-se com uma moça diante de si, que se apresentou:

– Sou kardecista. Estava evangelizando o irmão das trevas que apossou-se de seu corpo.

A menina deu um coice, uns cinco ou seis trancos pro alto e a platéia aplaudiu. A velhota gritou pra varanda de seu apartamento:

– Ô, Cilene! Traz mais café que a coisa vai longe!

O boa-praça:

– Quatro horas da manhã baixou o santo na porta-bandeira…

A solidariedade fez com que chegassem os Bombeiros, uma ambulância do SAMU e uma patrulhinha. Todos alegaram a mesma coisa:

– Só transportamos feridos. Chamem o rabecão!

A menina – a órfã – continuava rodando em torno do corpo.

– Caboclo, só pode ser! – disse um negão com um bloco de jogo do bicho nas mãos.

Senti um cutucão nas costas.

– Tu não é o Edu? Do blog?

Timidamente, com a timidez agravada por conta da presença do presunto, fiz que “sim” com a cabeça. O sujeito, sem noção:

– Pô, deixa eu te dar um abraço aí… – e fui abraçado.

Subiu um evangélico numa das cadeiras da palhinha e deu de pregar. O Trilha-Sonora – apelido cunhado na hora:

– Um homem subiu na mesa do bar e fez discurso  pra vereador…

A hora passava e eu precisava partir. Me despedi como se conhecesse aquela gente há anos. Meu “tchau” gerou um uma evasão em massa. E o cara, sem perder o tempo:

– Sem pressa foi pra cada um pro seu lado pensando numa mulher ou num time…

Até.

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5 Comentários

Arquivado em confissões, gente, Rio de Janeiro

5 Respostas para “DE FRENTE PRO CRIME (QUE NÃO FOI CRIME)

  1. olney

    Puxa, Edu, a vida imita a arte? Ou é o contrário?

    ps.: vc poderia me informar como faço para adquirir o tal disco ” 50º aniversário de nascimento do ALDIR BLANC, lançado pela gravadora Alma Produções, fundada pelo letrista e amigo Marco Aurélio” ?
    Agradeço!

  2. Sergio

    Pô, Edu, não há como não ser tocado pela sua sensibilidade de ver as coisas. Com você contando qualquer história nunca é uma história qualquer. Delícia! Abraço

  3. Antonio Carlos

    Tijuca…..

  4. Cristina Floreste

    Cá estou eu … a pensar … que você está para a narrativa como a narrativa está para os fatos … kkkk. Eu admiro a narrativa de duas pessoas: a sua e a do Zé Simão, da Folha de S.Paulo!!!

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