DIGRESSÕES, MAIS DIGRESSÕES

Não foi apenas o efusivo e lisonjeador comentário do Andreazza feito no texto de ontem, MAIS DIGRESSÕES (aqui), que me fez decidir voltar ao tema hoje (que é, a bem da verdade, o anti-tema, ou não seriam digressões). Fui também motivado por um e-mail que recebi, na tarde de ontem, enviado pelo Fernando Holanda. Disse-me ele, à certa altura: “Depois daquela homenagem no tópico DIGRESSÕES aos seus queridos entes vascaínos, chegou a hora de fazer um capítulo da sua história rubro-negra. Um texto contando a sua salvação no meio da fuzarca familiar seria interessante!”. Pois vou lhes contar exatamente isso, como se deu minha conversão pelas mãos do maior-de-todos.

Antes, porém, uma confissão: ao ler o nome Fernando Holanda pensei imediatamente no Dico (apelido do homônimo), douto economista da vetusta FGV. Peguei o Dico no colo, e essa lembrança praticamente me mumifica, velhíssimo que estou. Mas ao pousar o mouse sobre o nome do destinatário (eu uso o GMAIL, e ah…, as maravilhas da internet…) saltou na tela a foto do verdadeiro remetente do e-mail, que (para minha decepção) não foi o Dico. Ocorre que o arremesso ao passado, provocado pelo equívoco, já estava concretizado. Razão pela qual estou, nesse exato momento em que escrevo, em 1974.

Dezembro de 74, papai pede a um amigo, Péricles de Barros, então funcionário do jornal O GLOBO, promotor da festa (ele foi o autor do lamentável rame-rame “a benção, João de Deus, a benção, João de Deus, nosso povo te abraça…”) que consiga convites para que ele e mamãe me levem à chegada de Papai Noel no Maracanã (era um senhor evento!!!!!).

Péricles consegue mais. Consegue que eu seja uma das – o quê?! – 200, 300 crianças vestidas de branco recebendo o bom velhinho no gramado do maior do mundo.

Lá estou eu.

Papai por perto, mamãe nas especiais. Ela, de binóculos.

Diversas atrações antes do pouso do helicóptero no gramado.

Pausa.

Falei em Papai Noel e quero lhes contar uma coisa rapidamente.

Se eu lhes contar que tenho um amigo que está com viagem marcada para a Lapônia para um churrasco de rena vocês acreditam? Não, né?

Mas é, meus poucos mas fiéis leitores, a mais absoluta, a mais rigorosa, a mais íntegra e gelada verdade (digo “gelada” e faz coisa de 12, 13 graus na Tijuca). Dia desses, prometo, lhes conto sobre a surreal excursão. Voltemos.

Uma das tais atrações era um torneio, uma disputa de pênaltis entre os principais times do Rio. Renato e Zico pelo Flamengo, Félix e Gil pelo Fluminense, Andrada e Fidélis pelo Vasco, Wendell e Marinho pelo Botafogo e Rogério e Luizinho pelo América. A grande final foi entre Flamengo e Vasco.

Coisa de 200 mil pessoas se espremem no gigante de concreto.

Eu, pirralho, vascaíno por obra, graça e força de meu pai, vestido de tênis branco, meias brancas, short e camiseta brancas.

Estou perto da bandeira de córner.

O Flamengo ganha a disputa de pênaltis e só um nome ecoa no grito rouco da multidão enlouquecida: o de Zico.

E o que faz o Zico?

Parte para uma volta olímpica acenando para a turba.

Cata um moleque de branco com o braço direito e fica dando adeus para o povo com a mão esquerda.

Meu pai atrás dele:

– Meu filho não, porra! Devolve! Devolve! Volta aqui, filho da puta!

Mamãe passa mal de rir com os binóculos.

O garoto trota junto com o craque rubro-negro.

Passa a gritar o santo-nome de Zico.

E passa a gritá-lo para sempre.

Chega em casa e como um possesso joga no lixo a camisa cruzmaltina.

Era eu, meus poucos mas fiéis leitores, era eu.

Assim, pelas mãos d´Ele, tornei-me rubro-negro.

Aos que duvidam da história – que tem jeito de mentira, confesso – digo de pé: Fernando Szegeri e Luiz Antonio Simas, e tantos outros (citei os mais famosos aqui no pedaço…), já ouviram o sempre arrasado testemunho de meu vascainíssimo pai.

Falei “vascainíssimo” e lembrei-me de meu irmão do meio vomitando palavrões em direção a uma mísera sombra na quarta-feira passada no Maracanã (leiam aqui). Senti-me bem, ainda que com a eliminação do Vasco, ainda há pouco.

Até.

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17 Comentários

Arquivado em confissões, futebol

17 Respostas para “DIGRESSÕES, MAIS DIGRESSÕES

  1. Edu, como foi bobo o velho Isaac (e como estou com saudade dele. Marquemos uma cerveja!) Se ele queria que o filho não fosse Flamengo, era só te levar num jogo do rubro-negro com o América.Beijo.

  2. Esta é uma história maravilhosa e só confirma que as pessoas nascem para torcer para um determinado time. Este era o seu destino e ninguém poderia evitar. PS: Favela diz que o meu destino era ter sido corintiano, por nascer no meio da invasão; mas meu pai, flamenguista, se incumbiu de subverter o troço ao entrar na torcida errada, no Brinco de Ouro da Princesa, e me jogar nos braços da torcida verde mais bonita do Brasil – que na época podia delirar com aquela espetacular linha de frente formada por Evair, Boiadeiro e João Paulo. Mas a sua história, querido, é a que melhor comprova a minha tese. Se houver outra vida – e eu sei que, para você, haverá – seguirás sendo Flamengo.

  3. Edu, obra de ficção alguma conceberia uma volta olímpica – Maracanã lotado – ao lado do Galo; e que grande momento, daqueles que definem, para o bem, um caráter!

  4. Felipinho: escreva você mesmo para o papai. Meus últimos 10 convites foram rejeitados com a mesma fúria do pai atônito no gramado do Maracanã em 74. Bruno, meu velho: eis a sensação que tenho. Zico, médium sensível, foi cavalo de alguma entidade que me pôs, à força, no caminho certo. Para desespero, repito, do velho Isaac. Andreazza: não foi ao lado, malandro, não foi ao lado. O craque de Quintino pegou esse balofo no colo (macérrimo à época) para a magnânima volta olímpica!

  5. Caramba, Edu. O Galinho é covardia. Até o eurico (em minúsculo, óbvio) iria ceder…E eu estou aqui lamentando que a final dessa Copa do Brasil não é contra o rubro-negro. Abraço!

  6. Edu, caramba. Me lembrei da única vez que fui ao Maior do Mundo para assistir a chegada do Papai Noel. Não sei o que é pior, entrar no trem sendo chicoteado ou entrar no Maracanã para assistir Papai Noel? Quase fui pisoteado nesse dia. No ano seguinte, fiz questão de mandar uma carta para o Papai Noel pedindo desculpas, pois não iria ao Maracanã nem a cacete. Abraços,

  7. Edu, craque de Quintino uma ova! Craque da Matoso!

  8. Japonês: boa sorte na final! Casé: isso foi em 1974, e numa tremenda mordomia… Abraço. Olga: é verdade, é verdade! Foi, digamos, um tropeço. Beijo.

  9. Edu,que barato! Você no colo do maior ídolo da nossa infância e juventude. Que inveja! Não consigo imaginar sonho maior do meu tempo de moleque, apenas, talvez igual: dar uma volta no carro do Speed Racer; ou namorar uma tal Silvia Bandeira que me fazia companhia numa capa da Playboy. Abraços

  10. Confirmo a hitória. O grande Isaac já me descreveu essa sua volta olímpica no colo do bom jogador flamenguista.

  11. Nelson: Silvia Bandeira? Acho que o Felipinho vai delirar com seu comentário. Abraço. Bom jogador, Luiz Antonio? Você é um piadista. Beijo.

  12. Eu sabia que depois de tanta homenagem para os vices da Colina, tinha algo especial para a Nação Rubro Negra! Parabéns pela história, Edu! Fantástica! SRN, Fernando Holanda http://www.magiarubronegra.com.br

  13. Ótima história, Edu! Das melhores que explicam o porquê da escolha de um time. Vou ver se me inspiro pra escrever sobre o mesmo assunto no meu blog. Bj.

  14. Edu, olha só… É para ser um elogio… Pensei que você fosse vascaíno. Vejo em você autenticidade e a falta de prepotência dignas de um vascaíno. Digamos que tenha sido um acidente de percurso. Então, fico a visitar seu blog pelo seu pai. Um autêntico vascaíno.

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