ARREMESSO AO PASSADO (03)

Em cinco dias, completo 48 anos. Em vinte e cinco dias, 17 de maio, completa 70 anos a minha mãe. E em trinta dias exatos, 22 de maio, meus pais completam 49 anos de casados (há 49 anos e trinta dias, portanto, foi tirada a foto abaixo). Da esquerda pra direita estão Milton e Mathilde, meus avós maternos, mamãe e papai no meio, Elisa e Oizer, meus avós paternos. Estão todos mortos, meus quatro avós, mas estão mais vivos que nunca, ainda mais nesses tempos que antecedem os 27 de abril de todos os anos. Meu avô Milton era católico, da Congregação Mariana. Minha avó Mathilde, espírita fanática, fã de Chico Xavier, só lia livros psicografados e Kardec era seu ídolo. Minha avó Elisa era judia mas freqüentava, escondida de meu avô, um centro espírita na Praça da Bandeira. E meu avô Oizer, também judeu, fugido de Odessa para o Brasil, foi mascate, morou na Campos da Paz, depois na Santa Alexandrina, era alucinado por telecatch, e por fim morou na Haddock Lobo – onde morreram, ele e minha avó. Sendo mais preciso, vô Oizer morreu no Hospital Evangélico, na rua Bom Pastor, e minha avó Elisa, anos depois, no Lar das Damas Israelitas, na rua Afonso Pena. Meu avô Milton morreu no Hospital Pan Americano, na rua dos Araújos, e minha avó Mathilde no Hospital da Venerável Ordem Terceira da Penitência, onde eu nasci. Todos na Tijuca. Minhas avós viveram bastante tempo depois de viúvas embora, bem me lembro, no enterro do meu avô Milton as amigas de vovó dissessem, às escâncaras:

– Coitada da Tidoca… não dura dois meses…

Viveu muitos anos.

casamento papai e mamãe

Minha avó Mathilde morreu no hospital em que nasci  – terá sido no mesmo quarto?

Morei por doze anos, com a Dani, no mesmíssimo apartamento de meus avós paternos, na Haddock Lobo – apartamento que comprei no ano passado e onde hoje mora um grande amigo meu. Dani morreu no Hospital Israelita (israelita, israelita, israelita), na rua Lúcio de Mendonça, também na Tijuca.

Ontem, por conta do feriado (sem banco), fui ao apartamento buscar o dinheiro do aluguel e tomar um café com o Felipinho, o grande amigo meu que vive lá. Meus olhos encheram d´água quando entrei no apartamento. Impossível que não fosse assim. Não apenas pela memória, cheia de boas lembranças e muitas dores, dos meus doze anos lá. Mas também, e ontem principalmente, pelas memórias de minha infância, quando íamos todos lanchar na casa de meus avós, aos domingos. Tínhamos, apenas, a preocupação de manter acesa a chama dos encontros e os olhos voltados para o que tínhamos de melhor.

Meu avô ia, nas tardes de domingo, na Padaria Estudantil, na esquina da Haddock Lobo com a Almirante Gavião, e comprava uma quantidade indizível de brioches, queijo prato, presunto, refrigerantes e sucos. Dizia, sempre:

– É a melhor padaria do mundo! – foi de quem herdei, evidentemente, o hiperbolismo afetivo que trago em mim.

Íamos todos, eu, meus irmãos, meus pais, às vezes meus tios e meu primo. Mas é curioso, no embaralhar da memória, que minhas visões daqueles lanches de domingo sejam apenas do quadro imenso que ficava numa das paredes da sala retratando um velho judeu, barba e bigodes brancos, um shofar numa das mãos; de minha avó fazendo sem parar os sanduíches e de meu avô, que só sossegava quando o último brioche era comido por um de nós:

– Não é o melhor do mundo? – perguntava pra mim.

Havia também algo que me impressionava demais naquele apartamento: um cofre cinza, enorme, no primeiro quarto à direita no corredor.

– Não há nada dentro! – dizia sempre meu pai quando me percebia atônito diante daquele segredo de aço.

Podia até não haver – eu nunca soube se foi aberto, se continha ou não continha alguma coisa.

Sei, apenas, que o cofre hoje sou eu.

Há muito dentro de mim.

No início dessa semana sonhei com meu avô Oizer.

Dei de descrevê-lo à Morena, que não o conheceu.

Seus olhos cor-de-mel, tão lindos quanto os olhos azuis-impressionantes de meu avô – ele que vivia na Praça Afonso Pena, onde moramos hoje, jogando carteado e falando em ídiche com seus amigos, sempre que eu passava vovô me segurava pela mão, danava de falar em ídiche, ria muito, e sempre punha algum dinheiro no bolso do meu short – se encheram d´água (como os olhos de minha mãe anteontem, como os meus ontem), perguntei o porquê:

– Foi com ele que eu sonhei.

Até.

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