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PANDEMIA NA PANDEMIA

Vim ao balcão virtual do buteco apenas duas vezes nesse tenebroso 2020: uma para saudar Aldir Blanc – A morte e as mortes com Blanc, aqui – e outra para lhes contar do São João aqui em casa, São João na pandemia, aqui. Nada fácil, esse 2020 da Era de Átila. Disse Era de Átila e explico. Desde sua primeira aparição, eu disse de mim para mim, sem medo do erro: lá vai um vaidoso, sobretudo um vaidoso, abrindo sua caixa de conhecimento para espalhar o pânico e o terror, para ganhar notoriedade. E eu não estava errado. O sujeito, que no Twitter usa o artigo definido “o” antes do próprio nome (é ou não aguda vaidade?), já foi convidado para dar palestras no TSE, para assinar coluna em jornal, dá entrevista a torto e a direito sobre todos os assuntos, enfim, atingiu seu objetivo (eu sabia disso, quero dizer, desde o primeiro momento). E ele está de parabéns por isso. Admiro, no fundo admiro, aqueles que traçam objetivos e os alcançam, ainda que por questionáveis razões.

Vamos, pois, ao terceiro texto do ano (planejei, logo depois do Carnaval, retomar o blog, deixado de lado por inúmeros motivos que não vêm ao caso – e espero que agora eu consiga manter alguma regularidade já que eu senti falta desse movimento, o blog remonta a 2004, são mais de 16 anos, e isso não é coisa pouca). Quero lhes falar, como o título indica (oh!), sobre a pandemia em meio à pandemia.

Estou em regime de isolamento desde a segunda quinzena de março, lá se vão quase 6 meses, acompanhando a vida, o mundo, as ruas, a cidade, o desmonte da vida, do mundo, das ruas e da cidade como eu a conheci. Há muita gente morrendo, nenhuma perda foi tão dura pra mim quanto a de Aldir Blanc (meu pai, meu irmão, meu filho, meu amigo, meu confidente, meu orixá), há muitos bares morrendo, e nenhuma perda foi tão dura pra mim quanto a de Andrajópolis, o apelido que demos ao Café e Bar Almara, pé-sujo na Praça da Bandeira, nas imediações da rua do Matoso, visitado por mim e por meu fiel escudeiro, Leo Boechat, num dos episódios da série Butecos do Edu (aqui, o episódio na Praça da Bandeira).

O Brasil está derretendo diante do mundo. Há milhões de desempregados, e eu sequer vou seguir nessa toada sob pena de deprimir um cadico mais (ia fazer extensa exposição sobre a situação atual, desisti).

Quero terminar falando de outra perda incomensurável (pandemia em meio à pandemia). Não há razão que explique o quanto me bateu mal a notícia do fechamento da Bitaca da Leste, em Belo Horizonte. Quando li a notícia, no Instagram do Luiz Paulo, dono do buteco, senti – mesmo – um baque.

Lá estive em apenas duas ocasiões, ambas muito especiais. Escolhi passar meus 50 anos em Minas Gerais, aportando em Caxambu uns dias antes e chegando a BH na véspera do dia 27 de abril (fui a Caxambu exclusivamente para beber, depois de muitos anos, no Bar do Paulão, um dos melhores botequins de todo o Brasil). No dia do meu cinqüentenário, em Belo Horizonte, lancei De hoje não passa, livro que escrevi a quatro mãos com Julio Bernardo (se você ainda não o leu, compre-o aqui, no site da editora Mórula). E na noite do dia 26, véspera do lançamento do livro, foi na Bitaca da Leste que, ao lado da mulher amada e dois amigos muito queridos, atravessei a linha da meia-noite, fazendo naquela esquina o primeiro brinde da idade nova.

Meses depois, voltei a Belo Horizonte a convite do Humberto Hermeto, responsável pela capa do livro, ele que tornou-se um grande amigo depois que nos reconhecemos na Folha Seca, a livraria do meu coração e responsável por tantos encontros bacanas ao longo dos meus já mais de 51 anos vividos. Fui até BH pra filmar alguns episódios pra série Botecos do Edu e, claro, filmamos na Bitaca.

Quer bar, senhoras e senhores. Que ambiente, que comida, que cuidado com as bebidas, que esquina, e que papo, e que boa-praça é o Luiz. Não vai ter terceira vez e minha memória estará mantida por conta dessas minhas duas idas à rua Salinas, no Santa Tereza (notem como sou local, aqui no Rio falamos em Santa Tereza, em BH, não). Devo a indicação da Bitaca justamente ao Julinho (o Julio Bernardo, explico para os neófitos), responsável, aliás, pelas indicações mais certeiras que já recebi na matéria comida/bebida. Sem a afetação dos ~influencers~ e ~instagramers~ (um “m” ou dois?) que orbitam em volta da temática, o Julinho é cirúrgico.

Vai avançando, assim, o tempo na pandemia. Levando gente embora pra sempre, levando bares, enterrando histórias, soterrando memórias, empobrecendo ainda mais o mundo. Ergo, de pé diante do balcão imaginário, o copo cheio de espessa espuma em homenagem ao Luiz que, tenho certeza, não faz idéia do quanto me fez feliz nas horas que lá passei. E na seqüência, um brinde pro Paulo (dono de Andrajópolis), vítima da COVID-19 que também derrubou meu irmão e meu herói imortal, Aldir Blanc.

Só bebendo pra agüentar o tranco.

Até.

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SOBRE BH

A viagem para Belo Horizonte foi sensacional. Foi sensacional rever a Dani depois de quatro dias dormindo sozinho (ela a trabalho, em BH, desde o domingo passado), foi sensacional conhecer alguns bares da cidade e foi sensacional o périplo com o Dalton, meu irmão e cada vez mais meu irmão, sempre a pé, e às vezes tropeçando.

Vali-me de um palmtop de pobre. Um caderno, uma caderneta, 100×140, 96 páginas, uma caneta e uma câmera fotográfica. Foi do que precisei para fazer um fiel relato, transcrevendo, na íntegra, as 33 páginas preenchidas por minha letra, ora exemplar, ora quase ilegível. Gostei do método. E acho que vou repeti-lo em Portugal, para onde vou no dia 25 de maio.

Os três dias passados em BH foram transcritos hoje, e eu transcrevi os relatos dos dias 11 (primeiro dia), 12 (segundo dia) e 13 (terceiro dia) postando cada um dos textos com as datas reais, aqui, aqui e aqui.

Divirtam-se.

Até.

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BH, A SAGA – PARTE III, FINAL

BH, 13/05/06, sábado

Café da manhã com Dani no hotel às 9h. Durante o café entrei em depressão profunda, com aguda piedade de uma garçonete que veio ao salão trazendo nas mãos uma bandeja de pão-de-queijo e nos pés um sapatinho de pano furado. O furo, aquele único furo que expunha o rosa do esmalte do dedão da garçonete, foi responsável pelo meu abatimento. Chek-out às 11h. Deixamos, eu e Dalton, as malas na WiseUp e tomamos o rumo do Mercado Central de novo, parando, desta vez, no Bar Bias Fortes, na esquina da Bias Fortes com a São Paulo. Bebemos apenas uma Brahma. Meio-dia. Mais do que gelada. Congelada. Pagamos e fomos embora, R$2,40. Fomos caminhando e eu me sentia assolado pela agressão verbal do Szegeri, de ontem. Liguei para sua casa, do orelhão. Atendeu-me a doce Stê e ela me disse, grave:

– O Fê foi caminhar.

Pedi retorno. Chegamos ao Mercado Central quase às 12h30min. Compramos cachaça e fomos para o Café Palhares, a melhor descoberta da viagem, um bar que não faria feio no Rio de Janeiro e que pisa, a patadas, nos bares que o Jota gosta. Chegamos. Fui ao orelhão. Atendeu-me, de novo, a Stê. E disse-me:

– O Fê está no banho.

Um atleta, quando caminha. Um asseado, quando no banho. E não me atende. Tornei a pedir retorno. Voltei, triste, ao balcão e pedi uma dose de Verde Vale. Estamos, eu e Dalton, com sede. Temos até às 14h para beber, nosso vôo é às 16h35min e Dani está a caminho. Já estamos no décimo chope. Volto ao orelhão. Ninguém em casa. Tento o celular do Pompa. E de novo é a Stê que atende:

– O Fê está dirigindo.

Um atleta, quando caminha. Um asseado, quando no banho. Um motorista ao volante. E não me atende. Eu choro e ela me acalma:

– Vou passar pra ele.

Falamos. E o Pompa, com aquela empáfia verbal me assegura que ontem não me agrediu. Nem a mim nem ao Dalton. Voltei ao balcão. Pedimos uma dose de Cambucana. Tudo desce redondo. Chegam Dani, Erika e Fred.

Dani comendo KAOL no balcão do Café Palhares, com a Erika, Belo Horizonte, MG

 

Dani pediu um KAOL. Não gostou. Achou que é “prato de menino”. Como eu amei, comi tudo. Dalton vai ao orelhão e de lá me chama como um náufrago. É a Rino, de novo. Empolgado, meu irmão liga pra Maria Otávia, sua irmã, a Tati, e eu falo com ela. Chegam Lelê Peitos e a Alê. Dá-se a festa.

eu, Alê, Lelê Peitos e Dani em frente ao Café Palhares, Belo Horizonte, MG

 

Erika e Fred pedem o “Hilda Furacão”. Provo um pouco. Gosto. Mas estou sem fome, já comemos sanduíche de pernil no pão-de-queijo, uma porção de lingüiça, um KAOL… Algumas cachaças, já passamos dos vinte chopes… Mas eu quero repetir: trata-se do grande destaque da viagem, o Café Palhares!

Hilda Furacão, prato concorrente do Café Palhares, Belo Horizonte, MG

 

Temos que partir. Tomamos o táxi às 14h45min. Chegamos ao aeroporto às 15h40min, nós três dormindo durante o trajeto, é longe pra burro. Fizemos o check-in. Viagem de volta excelente. Chegamos no Rio às 17h30min. Eu, com sede. Enquanto Dani e Dalton respiravam, apenas, eu bebi duas latas de cerveja esperando o Paulinho, que foi nos buscar.

vista da janela do avião

 

É tudo.

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BH, A SAGA – PARTE II

BH, 12/05/06, 6a. feira

Acordamos 7h. Café no hotel. Às 8h30min cheguei na casa da minha tia Martha onde a encontrei com tio Leo. Fomos, eu e ela, ao Mercado Central, onde rodamos por 1 hora, quando decidi que voltaria com o Dalton às 11h. Ela me deixou no hotel, acordei o Dalton e fomos a pé até a WiseUp, e de lá até o Mercado Central.

Edifício Niemeyer, Praça da Liberdade, Belo Horizonte, MG, é um exemplo da arquitetura moderna de BH. Foi projetado por Niemeyer, que representou nas curvas e sinuosidades as montanhas mineiras. O arquiteto também se vale de um artifício barroco bem declarado, o ilusionismo. O prédio, residencial, dá a impressão de ter mais de 15 andares, quando realmente possui apenas oito.

 

Paramos num buteco na Rua dos Aimorés 1912, onde bebemos duas garrafas de Original, a R$3,00 cada. Tomamos o rumo do Mercado Central às 11h45min. Paramos para tomar a primeira no Mercado no balcão do Bar do Zé Maria, exatamente em frente ao Bar Campinho, separados por um minúsculo corredor.

balcão do Bar do Zé Maria, Mercado Central, Belo Horizonte, MG

 

Pedimos uma porção de lingüiça acebolada. Pagamos. Duas cervejas e a porção a R$12,00. Saímos de lá às 13h.

eu no balcão do Bar do Zé Maria, em frente ao Bar Campinho, Mercado Central, Belo Horizonte, MG

 

CAFÉ PALHARES (quarto bar)

Chegamos às 13h20min na Rua dos Tupinambás 638, no Café Palhares. Pedimos 2 chopes. Da Antarctica.

Belo Horizonte, MG

 

– Que diferença… – lamentou o Dalton.

Ficamos de papo com o dono, Lúcio, no balcão. Em segundos o chope descia melhor. Ele participou em 2003 (ganhou como melhor atendimento), 2005 e 2006, com o prato “Hilda Furacão” (carne na cerveja com ovo de codorna e aipim em cubo com pimenta biquinho). Diante do que vimos no balcão decidimos ignorar o tal prato. Só se pedia “Rui Chapéu” ou “Boné”. Detalhe: o dono acaba de nos dar dois chaveiros de presente! “Rui Chapéu” é KAOL grande; “Boné” é o pequeno. KAOL é um PF servido na casa desde os anos 50 – a casa foi fundada em 1938 – e foi criado pelo Sr. João Ferreira, pai do Lúcio. É feito com arroz, ovo, lingüiça e deve ser precedido por uma dose de cachaça. KAOL é kachaça / arroz / ovo / linguiça.

visão do balcão do Café Palhares onde só se vê prato de KAOL

 

O bar produz, no segundo andar, diariamente, 40kg de lingüiça artesanal. Lúcio foi de uma atenção impressionante. Apresentou-nos o irmão e o sobrinho (que trabalham à tarde). Pedimos cachaça, Vale Verde e Sabucana.

dose de cachaça no balcão do Café Palhares, Belo Horizonte, MG

 

Pedimos a conta às 15h20min, R$38,00. Foram 12 chopes, 3 pingas, 1 KAOL. De longe o melhor bar até o momento. Detalhe: ligamos três vezes para o Szegeri.

painel no interior do Café Palhares, Belo Horizonte, MG

 

Saímos a pé e às 15h50min paramos no Frigorífico Uberaba, na Rua Olegário Maciel esquina com Rua dos Tupis, onde fotografei, embevecido, as carnes e as lingüiças em exposição. Dalton acabou de ligar pra Rino, sua mãe, em choque. Não sabia que estávamos juntos em BH.

balcão do Frigorífico Uberaba, Belo Horizonte, MG

 

CASA CHEIA (quinto bar)

Chegamos às 16h. Já pedimos, de cara, uma Bohemia, geladíssima (impressionante… todas as cervejas de BH, até agora, geladas, geladas, geladas, capazes de humilhar um homem que bebe). Pedimos, às 16h17min (o detalhe dos minutos cravados foi do Dalton, obsessivo como eu), uma porção de “Porconóbis de Sabugosa”, prato que concorreu em 2004 e ficou em segundo lugar, e que é costela suína, lingüiça calabresa, milho verde cozido, ora-pro-nóbis e especiarias. Pedimos a conta às 17h. Foram 3 Bohemias. Vidal ligou. Ligou pro Dalton, diga-se. Ninguém me liga. Ninguém.

letreiro do Casa Cheia, Belo Horizonte, MG

 

A conta foi 1 “Porconóbis de Sabugosa”, 1 Bohemia e duas doses de cachaça. Vamos agora pro hotel com a intenção de parar no caminho num ou noutro bar. Eu disse “Vidal ligou” mas não disse que ligamos umas 5, 6, 7 vezes pro Szegeri. Ele agrediu-me de forma olímpica. Jurei, nesse telefonema, nunca mais ligar para ele e ele deve ter rido demais, sabendo que eu mentia, de novo. Indo pro hotel, paramos na Rua Curitiba 1231. Uma Brahma.

Às 19h Dani e Erika passaram no hotel para nos pegar. Fomos direto ao Opção, casa de samba no bairro Caiçaras.

letreiro do Opção, Belo Horizonte, MG

 

Couvert a R$5,00. Cerveja Brahma a R$2,80, teto de amianto, chão de cimento batido, a uns 20min do hotel de carro. Eu, Dani, Dalton, Erika, Frederico, Augusto e Paulo. A casa fica dentro da favela do Sumaré. A Erika, praticamente a anfitriã da Dani, está preocupadíssima se está ou não nos (me) agradando. Eu devo ser muito rude. Ou muito antipático. Ou muito estranho ao primeiro contato. Ou as três coisas ao mesmo tempo. Além de ter gostado de cara do lugar, também de cara e de alma, da Erika. Por que? – isso me assola demais agora – as pessoas têm, aparentemente, medo de mim?

Erika e Dani, no Opção, Belo Horizonte, MG

 

São 21h e o bar já está lotado. O conjunto, que toca redondo, até o momento tocou Cartola, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, Almir Guineto, e eu me sinto em casa (e choro). Acabo de ser chamado ao palco para cantar. Cantei. Sem comentários. “Renascer das Cinzas”, do Martinho da Vila. Apenas a Dani bateu palmas.

eu cantando no Opção, Belo Horizonte, MG

 

Agora são 22h o seu Afonso é chamado ao palco para cantar. Vai ao palco. Tem quase 80 anos. Veste safari. Ninguém mais no mundo usa safari. Senta-se numa cadeira. E dá de cantar. E eu não paro de chorar. Comove-me isso, essa capacidade do brasileiro, na cidade, na favela, onde quer que seja, de cantar, e de fazer tanta boniteza (escrevi “boniteza” e pensei… estou bêbado). Devo estar. Só aqui dentro, a sexta cachaça, no mínimo. E Dalton me acompanhando.

seu Afonso cantando no Opção, Belo Horizonte, MG

Dalton e eu no Opção, Belo Horizonte, MG

Dalton, Dani e eu no Opção, Belo Horizonte, MG

Dalton, Erika e eu no Opção, Belo Horizonte, MG

 

Ainda fui chamado ao palco mais uma vez. Cantei, dessa vez, “O Bêbado e a Equilibrista”. E esculhambei, microfone em punho, o casal Garotinho. Aí, e só aí, fui aplaudidíssimo. Chegamos no hotel por volta da meia-noite, e eu com fome. À varanda do hotel, uma casa linda, de 1935, de uma tradicional família mineira, comi um sanduíche com batata frita e Coca-Cola Light. Demos, eu e Dani, por falta do Dalton. Sumiu sem que o víssemos. Ligamos pro 1104. Atendeu o meu irmão, já dormindo. Estávamos, os três, bem bêbados. Pro quarto, já.

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BH, A SAGA – PARTE I

BH, 11/05/06, 5a. feira

ANTONIUS (primeiro bar)

Fica na Rua Antônio de Albuquerque no. 53, Funcionários. Fui a pé, em 10min, da WiseUp. Cheguei às 16h30min e encontrei o bar fechado, mas abrindo. Fui atendido pela Silvana, gerente, que vendeu-me, mesmo com o bar ainda fechado, cerveja SKOL em lata. A R$2,10 (bebi duas). Só não participou em 2005 e venceu com “melhor comida” em 2001 (uma salada alemã, à base de maionese de batata com 2 salsichas, que é o carro chefe da casa até hoje, custando R$19,80. Esse ano o bar concorre com “Boi Enrolado” que é um bife à rolê recheado de aipo e paio ao molho madeira. Não pude provar por causa do horário. Custa R$6,80. Estava tocando João Gilberto e em fita cassete!!!!! Saí às cinco da tarde em direção a mais um. A pé.

VIA CRISTINA (segundo bar)

Cheguei 17h20min – bar fechado! – depois de subir a Rua Leopoldina, íngreme como as trilhas de Ibitipoca. Na Rua Cristina 1203 fica o bar, no bairro Santo Antônio. Tô escrevendo sentado em uma mesa do lado de fora, na calçada, e pelo público que está começando a fazer fila (parece ser o bar mais cotado para vencer esse ano) eu acho que deve ser uma enorme furada. Almofadinhas chegando em carros do ano, e me veio à cabeça que estou numa espécie de Devassa, de Informal, de Belmonte (no Rio), no Pirajá, no Jacaré, no Original (em SP). Detalhe bizarro que não me escapou tendo em vista que os pés das moças são sempre alvo dos meus olhos: as moças, novíssimas, que estão na fila – são oito – calçam a mesma sandália, e eu nunca as vi no RJ, deve ser moda regional. Enquanto escrevo – há 15 minutos – já 4 pessoas vieram me perguntar “moço, ´ocê trabalha aqui?”; um saco. Mas menos sacal do que as mais de 30 perguntas dirigidas ao pobre do porteiro, “moço, a que horas abre?”. Aliás, a que horas abrem os bares? Se todos forem assim, o que farei até às 18h levando em conta que a Dani trabalha? Detalhe: a lua está cheíssima num céu azul que começa a escurecer. Aliás, cheíssima, mas menos cheia do que meu saco; mais uma moça veio com o “moço, ´ocê trabalha aqui?”. A essa, coitada, sequer respondi. Agora são 17h45min. A fila só aumenta. E chegaram agora duas senhoras horríveis. Têm, nos pulsos, pulseiras enormes, e uma delas tem pendurados, nas orelhas, brincos cuja forma não saberia descrever mas que pesam muito, visivelmente. São, sem dúvida, os maiores lóbulos que já vi em 37 anos. São 17h50min. Abriu o bar. Subi – era eu o primeiro da fila – e escolhi uma mesa de 4 lugares – ainda vêm Dani e Dalton – junto ao braseiro e diante de uma impressionante estante com 8 prateleiras enormes com mais de 400 garrafas de cachaça.

prateleira de cachaças do Via Cristina, Belo Horizonte, MG

Temo pela minha saúde. O Dalton não é exatamente uma boa companhia além de ser 7 anos mais novo que eu, espero que me entendam. Conheci os donos, Isabela e Miguel. Há 4 anos tem o bar, que antes era restaurante de comida a quilo. Ele próprio, Miguel, é o criador de todos os pratos da casa e contou-me (estou bem de cálculos!) que são 410 as cachaças à venda. Está participando desde 2004 do festival, e esse ano concorre com o “CPF do Miguel”, que é coxa desossada com panqueca de salada e fritas estrela (que eu chamo de batata xadrez).

CPF do Miguel, prato concorrente do Via Cristina, Belo Horizonte, MG

Pedi agora, 18h, a primeira garrafa, Brahma Extra, geladíssima, saborosíssima, perfeita. Já desfiz a má impressão que a fila me causou. Estou gostando. Preços excelentes. A caipirinha custa R$4,00. A dose de RedLabel, R$7,00. João está me atendendo, e bem. Acabo de pedir o couvert, a R$8,00, honestíssimo! Salada de batata com 12 minilingüiças de pernil, daquelas artesanais. Monumental. E pedi – são 18h25min – a carta de cachaças… 410 numeradas, as doses entre R$2,50 e R$30,00. A Anísio Santiago (Havana) custa R$24,00. A de R$30,00 é a Germana 10 Anos. Vou esperar o Dalton para me aventurar. Detalhe: como é bom ter sal no saleiro, pimenta no vidro caseiro, palito no paliteiro e azeite Gallo no na garrafa, e não nos sachês nojentos que o Cesar Maia inventou! Já são 18h40min, chegaram a Dani e a Erika, e às 19h eu pedi a primeira cachaça, “Serra da Boa Esperança”, de Boa Esperança, MG.

Dani e eu no via Cristina, Belo Horizonte, MG

Pedimos a conta às 20h. R$50,00. Detalhe: fuma-se desbragadamente em todo o bar. Que beleza! Não há Cesar Maia em MG! Foram 4 cervejas, 1 cachaça, 1 CPF do Miguel, i couvert e 1 suco (da Erika). Dalton ligou. Acaba de chegar.

BAR DO PRIMO (terceiro bar)

Às 20h45min chegamos no Bar do Primo, na Rua Santa Catarina no. 656, esquina com Rua dos Aimorés, que participa do festival desde 2000, e esse ano disputa com o prato “Língua em Flor”. Dalton está vindo para cá. A Erika nos deixou mas não quis ficar; trabalha cedo amanhã, como a Dani, mas a saudade que ela tem de mim, recíproca, a impede de ir dormir. O bar fica numa esquina e me lembrou um bar em SP onde o Szegeri me levou, e onde comemos testículos. Lembrei-me disso por que mal sentei-me no cenário e ouvi a voz do Pompa:

– Meia galo, meia boi.

Às 20h55min pedimos jiló.

porção de jiló do Bar do Primo, Belo Horizonte, MG

A Brahma está geladíssima! Dalton chegou às 20h30min. Chegou 10min antes a porção de jiló, maravilhosa. Cozido, servido com cebola e cheiro verde. Pedimos também a língua. Há, no bar, uma senhora que aparenta ter 200 anos e que fica cabalando os votos dos clientes. Aliás, desonesta. Disse-me:

– Mesmo que o Sr. não coma ou não goste, dê um dez pra nós!

Até mesmo em concursos como esse há essa nojeira que é a desonestidade. Deu-me, a tal senhora, uma cédula e eu mesmo a pus num canto da mesa, desprezando-a completamente. Ficou triste, a Borba Gato de saias. Mas mais não disse. Chegou a língua. Muito fraca.

Língua em Flor, do Bar do Primo, Belo Horizonte, MG

A couve-flor gordurosa demais, o pão dormido (quase insone, e há dois dias) e a língua com um molho madeira compensada, não de lei. Na cédula, dei nota 1. Dalton, o Zé Pelintra, pediu cachaça. Áurea Custódia, eis o nome da cachaça. Já são 23h. Pedimos a conta, R$58,00, e um táxi para chegar às 23h40min.

Dani no Bar do Primo, Belo Horizonte, MG

Direto pro hotel.

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