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ARREMESSO AO PASSADO (02)

Em oito dias, completo 48 anos. E em trinta e oito dias, 17/05, completa 70 anos a minha mãe. O Brizola morrera há poucas semanas e eu estava, naquela noite em 2004, num samba que acontecia no Guanabara, em Botafogo, de cara pra Baía, pro Pão de Açúcar. Estava no mesmo samba meu irmão querido, Fernando Szegeri. À certa altura, o couro comendo, noite alta, chega Beth Carvalho. E quando a Beth Carvalho chegava numa roda, meus poucos mas fiéis leitores, o couro comia ainda mais forte. Quando nos vimos, durante o abraço, lamentamos o morte de nosso eterno e saudoso governador Leonel de Moura Brizola. E na primeira oportunidade que teve, entre um samba e outro, Beth deu de cantar o Hino da Independência. Chorei. Choramos todos. Chorou de esguichar, Fernando Szegeri. E eu não sei se movido por essa emoção ou se embalado por ela, fato é que o Fernando chamou-me à beira da baía e me disse, entre soluços:

– Quero que sejas o padrinho da Iara!

Eram – o quê?! – duas e meia, três da manhã, e ele bateu o telefone pra Railídia, mãe da Iara, pra comunicar o fato. Falei também com a atônita Railídia, acordada àquela hora por tão inusitado telefonema, e eu era então padrinho da sexta criança (abaixo, foto da Iara que enfeitava minha geladeira).

iara na geladeira

Cinco anos antes, 1999, Mariana Blanc deu-me a Milena de presente. Tinha eu só 30 anos de idade. Hoje, quase-morro de orgulho da médica e da mãe do Danilo, bisneto do Aldir, neto da Mariana, tataraneto do saudoso Ceceu.

Foram chegando em fila, os afilhados. Depois da Milena, o Alfredo, filho da Raquel e do Alfredo. Em 2000, em dezembro, foi a vez da Ana Clara, a única que foi batizada na igreja, e na de São Judas Tadeu, exigência minha docemente acatada por seus pais, Magali e Ricardo. Depois da Ana Clara, o Raphael, que era filho de meus vizinhos de porta. Pouco depois, a Dhaffiny, filha da Lu e do Buba. Foi quando chegou-me a Iara.

Hoje sou também padrinho da Rosa, irmã da Iara, filha da Stefânia e do Fernando. Da Helena, que o Leo Boechat, à moda Szegeri, movido pela emoção do momento, disse-me de olhos cheios d´água e de cana:

– Quero que você seja também padrinho da Helena… – que já tinha padrinho, assim como a Iara, mas e daí? Esses afetos são de multiplicar, não?

Estávamos no final de 2011, um ano duríssimo pra mim, quando Luiz Antonio Simas e sua Candinha me deram Benjamin pra ser meu afilhado. Afilhado-de-rua, emendou o pai. Contei-lhes aqui sobre o episódio, que me emocionou sobremaneira.

Veio 2012, com ele veio vindo a Morena, e sua afilhada, a Nathalia, fez autodeclaração – é minha afilhada. A décima. Mas tem a Maria Helena, hoje uma mulher, que vira-e-mexe, como recentemente, deixa escapar um dindo falando comigo.

São, essas crianças (que já não são mais crianças em sua maioria), fonte permanente de apaziguamento das tais tormentas que me acometem, vez por outra. Eu mesmo, que às vezes teimo com a calça curta, a camisa listrada, o time de botão sempre ao alcance da mão guardado com talco dentro de uma lata de cuecas, sou um deles. Procuro pelas minhas madrinhas e não as encontro, salvo lá atrás, cada vez mais longe. Procuro por meus primos, minhas primas, eram tantos, e pude revê-los dia desses no enterro de um dos meus tios que muito pouco eu via.

No dia desse enterro a que me refiro, eu fui um assombro de “ohs” e “ahs” a cada primo que via, a cada prima que via, a cada tio, a cada tia, todos tão velhos e de cujo convívio fui sonegado na mesma medida em que fui cúmplice e partícipe dessa sonegação, desse afastamento, desse movimento que é a antítese do que genuinamente sou. Porque somos isso mesmo, a luta permanente contra o que fizemos, contra o que fizeram conosco quando não nos era possível reagir, contra a impossibilidade dolorosa de voltar o tempo, contra a finitude, esse terror, contra as janelas abertas para o infinito diante de nós.

Minha avó e minha mãe sempre me contaram que eu, moleque, ainda tropeçando quando caminhava, tinha altas conversas com as ondas do mar. Gritava, gesticulava, fazia comícios diante do oceano. Hoje encontrei minha mãe, seus olhos marejaram à certa altura, não agi como a criança que fui diante daquela água salgada brotando de seus olhos, mais bonitos hoje do que há tempos, emoldurados agora por cabelos brancos que lembram os cabelos de minha avó e de minha bisavó.

Tive ímpetos de enxugá-los. Mas por medo de molhar os meus, fiquei quieto, com certo medo, até. Não é hora de me expôr.

E não estou sendo irônico nesse momento em que sinto o vento dos leques das velhas matriarcas da minha família farfalhando e escondendo, e deixando de esconder, e escondendo, e deixando de esconder seus rostos.

A Morena adora usar leque.

Até.

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Arquivado em confissões, gente